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terça-feira, 29 de março de 2016

Fernando Pessoa. Poeta da Hora Absurda. Mário Sacramento. «… que teria sucedido a Antero se, cativo dum pendor literário sem dúvida aberrante, tivesse permitido que se sentassem à mesa redonda da sua intimidade todas as tendências espirituais de que os Sonetos dão fé…»

jdact e wikipedia

«(…) Consciência de tudo isso, persistência através de tudo isso e a seu despeito, eis o caminho, está claro. Mas há mais, um mais ainda e sempre: a obra que não desperte no crítico, enquanto ainda não crítico, aquele tumulto intimo que pode exigir um daqui a dias para se volver em juízo, tem muito poucas probabilidades de se prestar a uma critica de nível, pois tudo indica haver aí um inadequamento da obra ao critico ou do crítico à obra, é o mesmo.

Genialidade absurda
Na introdução que antepôs às Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes Rodrigues. Joel Serrão escreveu as seguintes palavras que. se bem que o coloquem no polo oposto do que visamos, têm contudo o mérito de chamarem a questão ao terreno que reputamos o mais próprio: afigura-se-me que o problema dos heterónimos de Pessoa tem a mesma explicação que a dualidade irredutível de Antero: a complexidade da alma humana, acentuada nos temperamentos poéticos geniais, complexidade que não invalida a unidade psíquica das irredutibilidades expressas esteticamente... Se Antero tivesse atribuído ao poeta nocturno e ao àpolíneo, que ele foi, nomes diferentes, com uma genealogia, profissão, características somáticas, como Pessoa fez aos seus heterónimos, aí teríamos um complexo problema, de raiz semelhante ao que agora nos preocupa...
Há com efeito em Antero o quer que seja (que não importa agora investigar, mas que distinguimos da tal dualidade, tão convencional em sua abstracta sistematização) que não só confere uma certa legitimidade à hipótese de Serrão, como ainda, num sentido muito mais geral (de que, para nós, tal hipótese não passaria dum aspecto particular) justificou que Pessoa visse nele um precursor da modernidade. Seria fácil, aliás, estabelecer um nexo entre o poeta da razão-em-crise, que ele foi, e os do irracional que se lhe seguiram, reservando a Pessoa, entre uns e outros, a posição intermédia de jongleur dos fragmentos) do racional. Do ponto que agora nos importa convém acentuar, contudo, que o que tornou Antero um caso ainda à parte não foi senão a circunstância exacta de ter lutado, em vão embora, contra a corrupção dos tempos, e ter assumido uma posição que em última instância o levaria a acompanhar o seu navio no naufrágio. Assim. longe de nos quadrar que Antero justifique Pessoa, preferimos que no-lo ajude a compreender à contra-luz. Para o que nos limitaremos a perguntar: que teria sucedido a Antero se, cativo dum pendor literário sem dúvida aberrante, tivesse permitido que se sentassem à mesa redonda da sua intimidade todas as tendências espirituais de que os Sonetos dão fé, acarinhando-as, impulsionando-as, glosando-as em obras de acomodada e parcimoniosa heteronímia divergente? Formulada a pergunta como foi, torna-se ocioso responder, pois todos reconhecemos que só o fundo de verdade em que a problemática de Antero visou, sem qualquer dúvida, uma resolução pôde conferir à sua obra aquela humanidade sem a qual ela não seria. Levado entre combates sempre renovados [a] disputar dia a dia à mão dos Fados / Uma parcela do saber augusto (Espectros), ele mesmo referiu ter essa preocupação influído os poemas de mais aparente evasão, como se depreende do seguinte passo duma carta particular: esse estado de espírito [o carácter desolado de certos poemas], no meio da sua violência, representa um contínuo impulso para a verdade e para o bem, e isso deve ser levado em conta ao poeta. É o que resume, hiperbolizando embora, este outro passo da sua correspondência: eu ainda não desisti de abrir, ainda que seja roendo com os dentes e a boca em sangue, o muro de bronze do destino.
Quer dizer: ninguém afinal melhor do que Antero permite aperceber o que há de implícito no conceito de personalidade como teor de vida, convergência de tendências, estruturação ideológica, fidelidade a um móbil, e o que por aí mesmo tem sempre de implicar-se numa candidatura ao génio (por isso. aliás, frustrada em Antero) como realização superiormente ímpar de tais condições. Tal como em todos os grandes artistas, a arte de Antero corresponde directamente à problemática do homem servindo-a, só não tendo Antero chegado à fase a que chegam os maiores de por seu turno a servir em virtude de, impossibilitado de atingir a visão unívoca que perseguia, lhe estar vedado esse grau de identidade da arte com a vida». In Mário Sacramento, Fernando Pessoa. Poeta da Hora Absurda, Contraponto [de Luís Pacheco], 1ª edição de 1959, Universidade de Toronto, 3-1761-01460047-2.

Cortesia de UToronto/JDACT

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Abóboras no Telhado. Polémica e Crítica. Aquilino Ribeiro. «Também me minguava a pachorra. A pachorra e o tempo. O ‘rat de bibliotèque’ é um bicho especial que tem por si a eternidade e uma sorte de pulmões de pescador de pérolas. ‘Podia, não podia?’ Não sei. Naturalmente, estava fora da esfera a natureza do seu artesanato»

jdact

Uma aventura Literária
«(…) Missanga, é possível. A obra, uma vez realizada, parece fácil. Não é tão fácil como isso. A figura do Cavaleiro estava, de facto dentro dos seus livros, como os Lusíadas estão dentro do dicionário de Morais. Tudo vai em acertar o mosaico, em que cooperam engenho, inteligência e saber. A figura do Cavaleiro, social, vivedoira, com os seus cinco sentidos, aquela sua agilidade de pintalegrete, estava de pé e, embora com as suas sombras esfumadas, era palpite meu que não era nenhum manequim convencional, nenhuma personagem do Museu Grévin siderada aos olhos do espectador. Entretanto Jordão Freitas, um operoso garimpeiro de tombos, começou a publicar, ipsis verbis, no jornal a Época, documentos exumados dos arquivos, concernentes ao Cavaleiro. Eram todos de essência oficial e reportavam-se à sua actividade em tanto que empregado de secretaria, na embaixada de Viana, ao serviço do conde de Tarouca. Além destes, transcritos na sua secura tabelionar, poucos mais, e todos procedentes dos cartórios e arquivos públicos como fica dito, publicou Jordão Freitas. Aconteceu porém que veio a lume nos jornais diários o programa cultural da Biblioteca. Como nesse programe se anunciasse o meu trabalho sobre o Cavaleiro de Oliveira, Jordão Freitas, a fugir à contingência de ser ultrapassado na publicação dos documentos, deu-se a publicá-los à lufa-lufa, ou pelo menos mais aceleradamente do que até ali. Tal conjuntura vinha favorecer os meus desígnios.
Nunca eu pensara em disputar-lhe a -glória de pioneiro. A velha papelada, com suas surpresas esplêndidas embalsamadas em bolor e miasmas, nunca me seduziu. Também me minguava a pachorra. A pachorra e o tempo. O rat de bibliotèque é um bicho especial que tem por si a eternidade e uma sorte de pulmões de pescador de pérolas. Respira na poeira dum sótão como o mergulhador no fundo do mar. Para e1e, a suprema volúpia é furar através de papéis arrumados desde o princípio dos princípios, por mão em fantasmas. Um múnus assim tem o seu quê dos limpa pára-raios. Há uma data a rectificar: … pois, senhores, não foi em 6 de Fevereiro de 1164 que se deu a batalha dos Chifres Esmurrados; foi em 7 de Janeiro. A prova é que..., o marechal do Chuço em Riste tivera na véspera um desaguisado sério..., etc., etc. Há que chumaçar a vida dum grande macabeu, dum apóstolo dos negrinhos da Guiné, dum navegador antártico?... Desmonta os maços pulverulentos dos armários, percorre os cartários das sacristias, folheia quantos armoriais os velhos fidalgos, desde Atanagildo, mandaram lavrar por seus capelães. E acaba por encontrar o pábulo precioso. Não raciocina como a gente de cuidados raciocina. Tem outra tábua de valores mentais.
João Freitas era destes. A sua biografia do marquês de Pombal não começa assim : … duas datas importantes há a considerar na vida deste estadista: a do seu nascimento e a da sua morte. O movimento de sofreguidão era mais que razoável. Observar-se-á: … Jaime Cortesão podia ter confiado a Jordão Freitas o encargo de fazer o referido trabalho... Podia, não podia? Não sei. Naturalmente estava fora da esfera de Jordão Freitas, dado que não superasse a natureza do seu artesanato. Este era particularmente um sacerdote de Hermes Trimegista, um verificador de mausoléus. E o que interessava no Cavaleiro não era o autor das Cartas nem do Amusement, livros de terceira ordem, plagiados noventa por cento, e, quanto a espírito, como muitos outros que vieram a lume nesse espiritual e sacripanta século XVIII». In Aquilino Ribeiro, Abóboras no Telhado, Polémica e Crítica, Livraria Bertrand, Lisboa, 1955.

Cortesia da LBertrand/JDACT

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Cavaleiro de Oliveira. Aventureiro do Século XVIII. Artur Portela. «A estratégia de Pombal é um iluminismo de Estado, aristocrático. O seu conflito com alguns sectores da aristocracia e a sua afirmação de que o comércio era uma profissão nobre concilia-os…»

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De Voltaire a Pombal
«(…) Já, a Restauração abrira a Portugal as portas da Europa. Di-lo José Sebastião Dias: Uma das consequências da restauração nacional de 1640 foi o reatamento das nossas relações culturais com o mundo exterior à Península. Os portugueses tiveram então uma bela oportunidade para descobrirem o novo pensamento universal, quer viajando por terras estranhas, quer ouvindo na pequena casa lusitana os peregrinos de outra origem. E isto não apenas porque nos libertámos do abraço sufocante, e aprisionante da Espanha, mas porque, politicamente, estrrategicamente, precisávamos de outros apoios, e a França, a França ambiciosamente europeia, continental e rayonnante de Richelieu, foi um deles, e esse apoio trazia uma aproximação cultural. Que será também ,oficial, pelo menos ate à Guerra da Sucessão. Portugal tinha sido, culturalmente, sob a ocupação espanhola, o inquisitorialismo, a escolástica, o insularismo. É contra a sobrevivência deste carácter, a sua transposição subtil para o Portugal restaurado, que se ergue o padre António Vieira. Ao qual se sucedem homens como os Ericeiras, com o seu cenáculo afrancesado do palácio da Anunciada, dos fins do século XVII e princípios do século XVIII, animado por Serrão Pimentel, Manuel Azevedo Fortes e, sobretudo, o padre Rafael Bluteau, crítico da escolástica, simultaneamente cartesiano e experimentalista, apologista dos modernos. Entram em Portugal homens como os padres João Baptista Carbone e Domingos Carpasso, o naturalista suíço Merveilleux, o inglês Luís Baden, que vem ministrar o seu curso de filosofia experimental, o anatomista Santucci, que, no entanto, será proibido de fazer dissecações em cadáveres humanos. Porque, se o século XVII português se acelerava, e se europeizava, e avistava já o século XVIII, o passado tinha o seu lastro, a sua força e os seus aliados.
É o combate entre os jesuítas e os oratorianos que, no seu centro de ensino do Convento das Necessidades, assumem Newton e Locke, combate que tem por pano de fundo outro combate maior, aquele que se trava entre o grupo conservador e o grupo cosmopolita. O médico judeu Jacob Castro Sarmento, que vivia em Londres, começa a traduzir, a, pedido de Lisboa, o Novum Organom, de Bacon. Surge, por ordem expressa do monarca João V, o grande monumento empirista, anti-inatista, anti-escolástico anti-feudal, de Verney, que defende a liberdade e igualdade originárias de todos os homens e aponta para a origem contratualista do poder político. Silva Dias afirma: A polémica do Verdadeiro Método é o colofon cultural do Barroco no nosso país, do mesmo modo que o duelo Pombal-jesuítas é o seu epílogo na ordem política. A expulsão dos filhos de Santo Inácio encerrou definitivamente o período doutrinário iniciado com a sua introdução no Colégio das Artes. Na verdade, o iluminismo não está à espera de Pombal para travar o seu combate contra o barroco e para se ir instalando. O ouro, o rendimento do tabaco, do açúcar, do pau-brasil, do comércio de escravos africanos, se não são investidos na criação de meios de produção, de um aparelho económico que nos permita resistir à dependência (apesar da criação de unidades fabris de papel, de vidro, da fundição de Santa Clara e Lisboa, da fábrica das sedas, etc….), pagam o fausto que a inteligência e a criatividade, em larga medida importadas, vão arquitectar, esculpir, pintar e musicar: será o aparato de Mafra, o estilo dito João V, as companhias de ópera italianas. O rei está já apoiado por estrangeirados: Bartolomeu Gusmão, Alexandre Gusmão, Luíz Cunha, o engenheiro Azevedo Fortes. Mas cuidado porque iluminismo, sim, ma non troppo. Tem o seu significado preciso o facto de o iluminismo ter sido, neste país, consideravelmente transportado, e proposto, por sectores da Igreja. E, sobretudo, ter sido assumido, instrumentalmente, operacionalmente, pelo poder político.
A estratégia de Pombal é um iluminismo de Estado, aristocrático. O seu conflito com alguns sectores da aristocracia e a sua afirmação de que o comércio era uma profissão nobre concilia-os ele com um ensino cuidadosamente ministrado segundo a função social de cada um e com o robustecimento da preparação da aristocracia ao serviço do aparelho de Estado. O facto de Pombal ter como aliados os homens do comércio colonial e os tabaqueiros e o facto de Pombal ter como adversários os Távoras e o Aveiro não significam nem uma opção nem o confronto entre o Estado e a aristocracia. O Estado pombalino é simultaneamente absolutista e aristocrático». In Artur Portela, Cavaleiro de Oliveira, Aventureiro do Século XVIII, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Temas Portugueses, Lisboa, 1982.

Cortesia da INCM/JDACT

sábado, 27 de setembro de 2014

Cavaleiro de Oliveira. Aventureiro do Século XVIII. Artur Portela. «O ‘cliché’ era que o século XVIII português foi o marquês de Pombal que o inaugurou, por decreto, e brutalmente. Portugal estava fechado a ‘sete chaves’. A primeira, a Inquisição (maldita); a segunda, a Companhia de Jesus; a terceira, a Universidade; a quarta, o teocentrismo; a quinta, a Escolástica…»

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De Voltaire a Pombal
«(…) É, desde logo, o Século das Luzes. Luzes claras, princípios nítidos, princípios universais: princípio da identidade, da não contradição, da causalidade, da legalidade. Século da Razão toda poderosa. Século da passagem da teologia da História à filosofia da História. Século do Optimismo. Século do Progresso. Século da consagração do direito à propriedade individual e do direito, digamos mesmo do dever, de a acrescentar. O Progresso não é uma intenção perdida no futuro. É uma prática e é um quotidiano. Um utilitarismo, um newtonianismo moral. O senso comum. Está à mão de semear. E de embolsar. A felicidade era ali, e então. Século eminentemente burguês, este. E, no entanto, é no século XVII que estão as grandes fontes: Galileu, Newton e Locke. O poeta inglês Pope escreve: A natureza e as suas leis estavam escondidas na treva; faça-se Newton, disse Deus, e tudo então brilhou. Herdeiro do século libertador que foi o XVII, o século XVIII é um século de divulgação, de propagação de enciclopédias, de dicionários, o de Voltaire, portátil, das gazetas, dos cafés, dos salões, das sociedades secretas, da franco-maçonaria, do combate polémico, da instrumentalização habilmente burguesa.
É isso, o século XVIII tem, não propriamente um protagonista, mas um homem-tipo. Na sua qualidade, no seu limite, na sua superficialidade: Voltaire. É o filósofo de combate, engagé, europeu, universal, enciclopédico, versátil, dramaturgo, historiador, romancista, dicionarista, jornalista, polemista, folhetinista, epistológrafo. Século do despotismo esclarecido; que os filósofos, um pouco ingenuamente, supuseram ensinar aos déspotas, mas que os déspotas, habilmente, pragmaticamente, beberam nos filósofos. Os déspotas iluminados acotovelam-se na Europa: são Frederico II, na Prússia, Catarina II, na Rússia, José II, na Áustria, Gustavo III, na Suécia, Estanislau Augusto, na Polónia. É a contradança, o minuete de que fala Paul Hazard, esse jogo de mesuras, entre déspotas e filósofos: Voltaire vai a Berlim, Diderot, a Sampetersburgo. E D’Alembert diz esta coisa enorme a Frederico II: Os filósofos e os homens de letras de todas as nações encaram-vos há muito, majestade, como o seu chefe e o seu modelo. Século, também, da contra-revolução aristocrática. Vã, aliás. Porque seria o século da revolução burguesa e da político-institucionalização da nova ordem social.
Século da laicização da inteligência, da mundanização da cultura, do regalismo, do antipapismo, do brado voltairiano Écrasez l’infâme!, já do ateísmo e do materialismo. Da inteligência feita tudo: filosofia, negócio, jogo, galantaria, amor, liberdade e libertinagem. Século da cultura francesa: da língua, do estilo, das réplicas europeias de Versalhes: Hampton Court, Coblença, Potsdam, Wurtzburg, Mannheim, Schönbrunn, Colorno, Caserta, Estocolmo, Peterhof, La Granja, Queluz. Século dinâmico, transformador e em transformação, móvel, viageiro, curioso, cosmopolita, cheio de cidades-palcos, de cidades-sóis, de cidades-luzeiros, à altura das esperanças e das ambições e das rivalidades dos reis-Estados, ele é o século da mobilidade social, da correspondência entre os reis e os filósofos, entre os príncipes e os charlatães, do teatro mundano, da aparência, das fortunas rápidas, das bancarrotas monumentais, à Law. Século, finalmente, das inquietações, das emoções, dos sentimentos, da subjectividade, do pré-romantismo, de Rousseau, do nacional-romantismo de Goethe, do que é, e mais será, o Sturm und Drang.
O cliché era que o século XVIII português foi o marquês de Pombal que o inaugurou, por decreto, e brutalmente. Portugal estava, dizia-se, fechado a sete chaves. A primeira, a Inquisição (maldita); a segunda, a Companhia de Jesus; a terceira, a Universidade; a quarta, o teocentrismo; a quinta, a Escolástica. E por aí adiante. Até que, por indicação testamentária de Luiz da Cunha a Lisboa, o rei José I nomeou Sebastião José Carvalho e fez-se, em Portugal, Europa. É um cliché. Está ve1ho. E está errado. Nem a mudança que Pombal exprime começa sob José I, nem sequer será Pombal a inaugurar, destacado, sob José I, a mudança levada por diante nesse reinado. Ela inicia-se ainda no período joanino. E Pombal começa por ser apenas um dos homens do grupo chamado ao poder. Mais. Esta mudança, definida por Jorge Borges Macedo como apontada ao reforço do Estado como entidade exclusiva, não só no domínio político e administrativo como cultural e até religioso, entronca, no plano cultural, num movimento mais amplo. Como o século XIX começou no seio do XVIII, também o nosso século XVIII começou no seio do XVII. As dinâmicas sociais, económicas e culturais não contam até cem para virar as grandes esquinas da História». In Artur Portela, Cavaleiro de Oliveira, Aventureiro do Século XVIII, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Temas Portugueses, Lisboa, 1982.

Cortesia da INCM/JDACT

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Abóboras no Telhado. Polémica e Crítica. Aquilino Ribeiro. «Como lutar contra tal potestade? O pobre pagão não vê caminho mais simples, mais barato e mais expedito nas suas pendências com tal entidade do que submeter-se e deixar-se espoliar»

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Uma aventura Lliterária
«(…) E mais por lhes ser agradável, do que pelos atractivos que encontrava em missão tão espinhosa, resignei-me a aceitar. Seria, bem entendido, um trabalho à margem dos meus deveres profissionais, regulado portanto pela carta estabelecida de direitos entre publicista e editor. Seja dito de passagem que nunca fui pago integralmente. A certa altura  interpôs-se a contabilidade do Ministério da Instrução na pessoa dum tal Codina, com as suas tricas protocolares, as suas verbas pré-orçamentadas, e não obstante a declaração de dívida, ratificada pelo inspector das Bibliotecas e Arquivos, Júlio Dantas, nunca houve meio de cobrar o que me pertencia. Certos funcionários do Estado julgam esta entidade um círculo restrito de interesses que é preciso defender à maneira cartaginesa. As revindicações de quem está de fora passam a plano secundário. A Fazenda Nacional beneficia de um respeito sagrado, noli me tangere. O contribuinte é apenas pagão. Se recalcitra e apela para os tribunais, o seu opositor tem por si todos os privilégios a começar pela comandita tácita que há de funcionários para funcionários e a recrescer com a razão supina de que não paga emolumentos de nenhuma ordem, tanto papel selado, como selos, como o mais processual lhe sendo gratuito.
Como lutar contra tal potestade? O pobre pagão não vê caminho mais simples, mais barato e mais expedito nas suas pendências com tal entidade do que submeter-se e deixar-se espoliar. Chama-se a essa sua atitude, comparável à da vítima sob o revólver do maítre chanteur, pagar e não bufar. É manifesto que o prepotente acaba por concitar de parte do contribuinte a mais revulsiva antipatia. Defraudá-lo torna-se represália tão legítima como ludibriá-lo. Mas como? Para quem apelar da cominação dos Codinas, arvorados em argos do patrão olímpico, mais fero, mais absoluto, mais invulnerável neste sobado ocidental do que em nenhuma parte do globo? Aceite a empreitada; pus mãos à obra. Como atrás se diz, não havia nada quanto às inquirições do Cavaleiro. Voltei a concentrar-me sobre as Cartas e Amusement com redobrado obséquio. Era como surpreender na areia movediça pisadas problemáticas; respigar no estratificado do solo esquírolas anatómicas dum bicho ante-diluviano e fazer a sua reconstituição. Não desdenhei de um elemento. Fui detective, romancista, fariscador de diamantes, e fiz todos os esforços para ser psicólogo. Aproximei factos de factos: verifiquei datas; ajustei referências a referências; pesei o concreto na balança de ourives; eliminei o inseguro; fiz um esbatido de gestos e feições; numa palavra, ressalvadas as distâncias, procedi para com o Cavaleiro como Cuvier para certos indivíduos da fauna extinta. O sábio com dois ou três fragmentos ósseos, umas vertebras, um ilíaco, reconstituía um esqueleto e daí um tipo. O Cavaleiro, mais certo, menos certo, mas com uma fisionomia determinada, emergia da noite que desceu sobre ele com o tempo, os nevoeiros de Londres, o silêncio expresso, graças à minha paciência chinesa e atenção precavidosa». In Aquilino Ribeiro, Abóboras no Telhado, Polémica e Crítica, Livraria Bertrand, Lisboa, 1955.

Cortesia da LBertrand/JDACT

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Cavaleiro de Oliveira. Aventureiro do Século XVIII. Artur Portela. «… o protestantismo deste homem é dado por Gonçalves Rodrigues ou como oportunista ou/e como superficial. (…) É, não o mistério da carta roubada, que isso só será no século seguinte, mas o mistério dos documentos sonegados»

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As questões
«O Cavaleiro de Oliveira é dado como escritor estrangeirado que começa libertino e acaba protestante. Mas, por um lado, é dado como estrangeirado menor: não é, de todo, nem um Verney, nem um Alexandre de Gusmão, nem um Luiz da Cunha. Por outro lado, os estrangeirados são, a, convite recente de Jorge Borges Macedo, um conceito a rever, e, de alguma forma, a despromover. Por outro lado, a libertinagem do Cavaleiro parece ser insistentemente contestada pelos seus protestos casamenteiros, moralizadores e machistas. Por outro lado, e ainda, o protestantismo deste homem é dado por Gonçalves Rodrigues ou como oportunista ou/e como superficial. Mais: abatem-se sobre este homem suspeitas graves. É, não o mistério da carta roubada, que isso só será no século seguinte, mas o mistério dos documentos sonegados. E desesperadamente negociados. Não tem sorte, o Cavaleiro de Oliveira. Nem escritor nem estrangeirado, nem libertino nem protestante.
E, no entanto, o Cavaleiro de Oliveira seria, não fundamentalmente o escritor, não essencialmente o candidato a estrangeirado, não predominantemente o libertino, não basicamente o campeão do protestantismo português, mas sobretudo o aventureiro do século XVIII. O que possa ser isso, de aventureiro, e de aventureiro do século XVIII, o significado que isso possa ter, social, cultural, historicamente, tentaremos vê-lo adiante. Para já, fiquemos pela distinção, referida ao Cavaleiro de Oliveira. É que escritores, estrangeirados ou não, tivemo-los mais sistemáticos. Libertinos, decerto os tivemos mais coerentes. Protestantes, decerto os tivemos mais consistentes. Aventureiros galantes, talvez não tenhamos tido, no século XVIII, outro tão rico, tão móvel, tão cambiante, tão travestido, tão capaz de ser lisboeta em Lisboa, vienense em Viena, holandês na, Holanda, protestante na Inglaterra, e tão capaz de dar a cada cidade vários nomes de mulher, de amar muitas e de casar com algumas, tão amputado do meio português, tão cosmopolita, tão lançado à descoberta da Europa, tão portuguesmente achador, embora em terra firme, tão portuguesmente achador, embora de cidades, tão ainda aristocrático e tão já afeito ao exercício do livre-exame, e de tudo isso ir deixando memória, viva, álacre, combativa, como Francisco Xavier Oliveira, o Cavaleiro de Oliveira. Seria aí, nessa complexidade dinâmica, nessa contradição em movimento, nesse jogo, nessa, aventura, que estaria o homem, socialmente, culturalmente. Especificamente». In Artur Portela, Cavaleiro de Oliveira, Aventureiro do Século XVIII, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Temas Portugueses, Lisboa, 1982.

Cortesia da INCM/JDACT

Abóboras no Telhado. Polémica e Crítica. Aquilino Ribeiro. «Em verdade, foi a partir dessa data que o livro passou a ter uma tal ou qual notoriedade e com o livro o autor debaixo da designação de ‘Cavalheiro de Oliveira’. “Mas que ideia, cavalheiro!”»

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Uma aventura Lliterária
«No casarão de S. Francisco havia um exemplar, considerado único, do Amusement Périodique, par le Chevalier d’Oliveyra, Londres MDCCLI. Tudo leva a crer que Oliveira Martins o tivesse compulsado, colhendo, o seu tanto de arrepêlo, um ou outro dado pejorativo com que, ao compor a História de Portugal, pretendeu formular a tese da irremissível decadência do povo português. Mais tarde, no leilão da livraria Fernandes Tomás, foram postos em hasta dois tomos da obra, quando consta de três, adjudicados por seis libras a Camilo Castelo Branco. Seis libras ao tempo eram uma mancheia de dinheiro, provando o empenho que o romancista tinha em adquirir o livro, e a sua raridade. Aproveitou-se dele, salvo pequenas achegas perdidas por cem mil páginas, na composição do Judeu. Em verdade, foi a partir dessa data que o livro passou a ter uma tal ou qual notoriedade e com o livro o autor debaixo da designação de Cavalheiro de Oliveira. Mas que ideia, cavalheiro! Termo híbrido, de importação espanhola, mais de uso nas alfurjas do Ferregial, entre as horizontais e seus clientes, do que no cursivo da língua, dir-se-ia que por acinte ou em vista ao entono da personagem, como alcunha, lho aplicou o mestre. Se por um lado o termo indica o homem bem educado, ou a sua chalaça, por outro, regendo a palavra indústria, define o meliante de alto bordo. O que não significa é o que Oliveira era de facto: titular do primeiro grau da Ordem de Cristo e que ele, à falta de brasões, adoptou nas embófias de megalómano sob a forma exclusiva de nome próprio, 'quando se usava e usa apenas como apanágio de distinção ou se faz alarde de honrarias. O conde de Tarouca referia-se-lhe com desdenhoso sobrecenho: Oliveira, que ridiculamente se denomina de Cavaleiro de Oliveira... Todavia, se em Portugal cavaleiro de Cristo era apenas uma mercê, em Viena de Áustria, espada no talim, farda, bigodes calamistrados, pernas arqueadas sobre o jarrete, era como um margrave este jovem senhor do Ocidente.
Pela aragem se tira a carruagem. Em afidalgamento tão anómalo se cifra a índole deste homem, bicho raro, aventureiro que tomou a vereda escandalosa e iconoclasta em face da inquebrantável ortodoxia nacional, sujeito de singularidades, graças ao quê, mais do que pelas letras, se evidenciou e se tornou motivo de reparo e especulação. Foi cedendo a este móbil que em 1921-22, o director da Biblioteca Nacional, Jaime Cortesão, me propôs fazer o estudo e versão de textos seleccionados do Amusement e um ensaio biográfico do autor. Eu tinha da matéria escassa notícia, como aliás toda a gente; Barbosa, que manteve relações epistolares com o Cavaleiro, além de sucinto, cinge-se à sua vida literária. Mediante as referências pessoais, sempre à flor da pena dum egoísta como ele era, conheciam-se-lhe as efemérides de maior relevo, os pegões da ponte. Mas o molecular, que na história dos indivíduos é o que mais interessa, ignorava-se absolutamente. Quem era? Qual o seu estofo de cidadão? Qual o segredo e dinâmica de avatares que o conduziram dum meio crasso de beatério, bentinhos e procissões, até o recinto luterano, onde se ergue a conclamar contra o credo católico que bebera de leite? Como descobrir na noite envolvente o fantasma desvanecido do incréu?
Reservei a minha resposta e fui ler o Amusement, as Cartas, as Mémoires, do Cavaleiro; mergulhei em todas as possíveis fontes; procedi a uma minuciosa e paciente rebusca de informes, e disse a Jaime Cortesão que, muito obrigado, mas renunciava ao encargo. Raul Proença, director dos Serviços Técnicos da B. N., o homem construtivo que até certo ponto chefiava o movimento de renovação político-filosófico que, partindo daquela casa, se estava a operar no seio da República, idosa apenas de uma década de anos, combateu por todos os modos a minha desistência. Era pertinaz a sua dialéctica e obsessivamente tão cheia de aliciações como de recursos suasórios. Travou-se ali a batalha de Jacob com o anjo. Claro, Jacob era eu». In Aquilino Ribeiro, Abóboras no Telhado, Polémica e Crítica, Livraria Bertrand, Lisboa, 1955.

Cortesia da LBertrand/JDACT

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Fernando Pessoa. Poeta da Hora Absurda. Mário Sacramento. «O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas… Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso… E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso… Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte…»

Cortesia de wikipedia

Encomendação do autor aos seus Numes tutelares
«Quando acabei de ler, Goethe dirigiu-se de novo a mim: — Bem! Disse ele, mostrei-lhe uma coisa boa! Daqui a uns dias há-de dizer-me a sua opinião a respeito dele». In Conversações de Goethe com Eckermann

aqui a uns dias, - porquê? Decerto por Goethe saber que Eckermann, tão devotado à sua obra e ao seu génio, só então recuperaria a plenitude da sua inteligência crítica: só uma vez esvaído o fragor da emoção-imediata a obra poderia assumir os contornos da emoção-inteligível, e só então valeria a pena conversar sobre ela. No plano estético, vale apenas a obra que sobreviva a uma experiência dessas, concluiremos. Tal qual o amor que resiste ao apartamento, tenderão alguns a confundir. E é o que mais importa aperceber: se a distância e o tempo podem de per si desvanecer ou acrescer o amor, o que distingue, pelo exemplo dado, a emoção estética no próprio terreno da vida afectiva é a circunstância de, forma complexa que é da emotividade superior, implicar por ai a anuência da razão, e só se tornar como tal inconfundível a partir do momento em que atinge um limbo de inteligibilidade. Que para isso tenham por vezes a ausência e o tempo de concertar-se, é apenas um aspecto já implícito na noção de que o disfrute artístico exige uma iniciação. Prepararmo-nos culturalmente para a apreensão duma certa modalidade de arte não é de facto senão familiarizarmo-nos com os caminhos que levam à plenitude dessa integração.
E compreende-se assim, sem contradição, que se, por hipótese, aquele episódio das relações de Eckermann com Goethe se referisse, não à leitura de uma obra do próprio Goethe, mas, por exemplo, à de uma poesia inédita de Shakespeare, pudesse Goethe pronunciar-se imediatamente sobre ela, pois atingira, nesse domínio, a maturidade em que a emoção logo se libra. Assim, longe de admitirmos que tal circunstância possa redundar em desfavor da emoção-estética como tal, insistiremos em que só desse modo ela vibra afinal em plenitude. Se não, recorde-se como, no regresso dum espectáculo artístico, é quase sempre um índice da qualidade que assumiu a maior ou menor reserva que opomos à comunicação das nossas impressões. É no isolamento dessa espontânea reserva ou, se impossível, num remedeio de alheamento que se processa uma das mais importantes fases daquela operação íntima. Num tal sentido, pode dizer se que o melhor dum autêntico espectáculo artístico começa muitas vezes, quando já terminou.
Não faltará, contudo, quem pretenda que isso só sucede quando o espectador é um crítico. Ora o que distingue objectivamente o crítico do comum dos mortais é apenas a capacidade de se expressar como tal. Com efeito, o dom do espírito crítico tanto distingue entre si os indivíduos incluídos num comum-de-mortais como os compreendidos num comum-de-críticos. E tem-se assim de pressupor que em todo o mortal haja a inibição dum crítico, e ainda (como neste) a dum artista. De outro modo, como teriam a arte uma crítica e a arte e a crítica um público? Logo, a objecção tornou qualificativa uma distinção por ora quantitativa apenas. Fazendo-o, apontou porém à realidade, pois só na medida em que o crítico se apercebe do que o separa gradativamente dos demais se consciencializa como tal e devem crítico. Assim chegamos a reconhecer perante a arte a existência dum plano de apercepção que tem, sem dúvida, características próprias mas que resultaram pelo mero incremento das mais comuns. Quais serão elas?
Criticar é, fundamentalmente, escolher e ordenar. É objectivar, portanto, e, como tal, descrever. Seja o exemplo clássico da descrição de paisagem: cumpre ao seu autor organizar um juízo, através do exame do objecto em causa, pelo qual o integre na escala de valores dum consenso que, tendo já definido a paisagem como idílica, agreste, soturna, grandiosa, quer que lho confirmem no porquê. A dependência subjectiva de tais qualificativos encontra assim na existência desse consenso um limitador, face à contradição que seria a sua incondicional entrega ao puro arbítrio dessa subjectividade.
Ora a arte é um produto do homem em sociedade. E em sociedade, tal como a conhecemos, a primeira coisa que sucede a um ser humano é tomar partido. Logo, a objectividade do critico é sempre função da posição social por ele assumida, podendo estar, assim, ou não, de acordo com a orientação efectiva do momento histórico em que surge, que o mesmo é dizer: ter ou não viabilidade, ou ainda: ser ou não ser objectividade de facto. Daqui resulta o carácter ensaístico da crítica, agravado, por demais, com o que o gosto, a cultura e a experiência do crítico fazem intervir como pessoalismo estreme numa actividade que visa a superação disso tudo. Assim, se o crítico se deixa enlear pelos filtros da emoção imediata, cai num impressionismo nebluloso; se toma partido contra a senda aberta ao criticismo do seu tempo, esgota-se no jogo estéril de provar que há razões contra a razão; mas cumpra-se ele o mais satisfatoriamente em relação a tudo isso, e não poderá assim mesmo esquecer-se que não há gosto, não há cultura, não há experiência que não evoluam, quer dizer, que não há objectividade que se não tolde, nem descontentamento crítico que se não avinagre em auto censura e se não esfume em decepção». In Mário Sacramento, Fernando Pessoa. Poeta da Hora Absurda, Contraponto [de Luís Pacheco], 1ª edição de 1959, Universidade de Toronto, 3-1761-01460047-2.

Cortesia de UToronto/JDACT

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O parecer de Mártens Ferrão. Crítica. Jornal do Comércio. 17 de Agosto de 1871. «Atingidos pela proibição, os setentistas censurados, nomeadamente Eça de Queirós, discutiram e analisaram o parecer de Mártens Ferrão. Mostramos que o Socialismo não é uma agitação superficial e subversiva, mas uma natural evolução histórica, fatal e justa»

Cortesia de wikipedia

A crítica dos setentistas ao parecer de Mártens Ferrão
O parecer de Mártens Ferrão foi criticado, v. g., pelo Jornal do Comércio, de 17 de Agosto de 1871.
  • Pasmámos do que lemos; jamais pensáramos que um funcionário, filho desta época, ousasse aceitar princípios que conduzem fatalmente à supressão da liberdade de manifestação do pensamento. In Jornal do Comércio, de 17 de Agosto de 1871, pg. 1;
  • Transcrevendo uma parte do parecer, a propósito das lutas gloriosas do catolicismocontra o islamismo, o jornal dizia que se sentia na obrigação de combater doutrinas tão erróneas e tão opostas ao espírito democrático.
Atingidos pela proibição, os setentistas censurados (nomeadamente Eça de Queirós) discutiram e analisaram o parecer de Mártens Ferrão. Antero de Quental refere, numa carta a Teófilo Braga:
  • temos feito uma análise ao parecer do Procurador da Corôa a respeito das Conferências, que tencionamos publicar colectivamente e assinada por todos. O escrito é grande e levaria muito tempo a tirar cópia.
Em detrimento dos aspectos jurídicos, era privilegiada a dimensão política do documento, que era significativo pelo que indica das tendências retrógradas dos nossos homens de Estado, e pela ignorância das verdadeiras questões modernas que acusa da parte deles. Contudo, este folheto nunca foi publicado. Encontra-se mencionado, sob a designação Análise do parecer do procurador geral da coroa, acerca da proibição das Conferências democráticas, (In memoriam de Antero de Quental, na secção dos Manuscritos destruídos).

NOTA: Mostramos que o Socialismo não é uma agitação superficial e subversiva, mas uma natural evolução histórica, fatal e justa, como a missão do Estado é não contrariar estas tendências espontâneas de uma sociedade que se renova; como os governos, que assim não obram, são incapazes e indignos de ser governo; como os homens de Estado e conselheiros da corôa, que votam pela perseguição, não só mostram essa incapacidade e ignorância flagrantes, como são verdadeiramente réus públicos por que provocam à luta de classes e à guerra civil. Terminamos declarando que não nos merecem consideração de espécie alguma os nossos grandes homens oficiais. In Carta de Antero de Quental a Teófilo Braga, s.d., 1871.

A influência de Mártens Ferrão em Eça de Queiroz
Para além das inimizades referidas que o parecer suscitou, em geral, nos setentistas, Mártens Ferrão veio a ter uma importante e quase ignorada intervenção indirecta na obra de Eça de Queiroz, em especial. Este conhecia anteriormente Ferrão.
Então com 21 anos, sendo certo que, durante toda a vida, ficou marcado pelo que Eça observou em Portugal durante os terríveis anos de 1867-1868, esteve em Évora entre fins de 1866 e Julho de 1867, altura em que Ferrão era Ministro do Governo da Fusão, circunstância de particular relevo, conforme se verá de uma caricatura de Eça, a respeito de um livro do Conselheiro Acácio. Eça referiu-se a Ferrão, em artigo publicado no Distrito de Évora: (...) muita teoria que em ciências sociais e de administração possui o sr. Mártens Ferrão, n.º 16, de 3 de Março de 1867. Que diferença de tempos e que marcha para o mal, para a pobreza, para a decadência, este país tem feito, desde Vasco da Gama e Manuel I até ao sr. Fontes e Ferrão e outros de aquilatada consideração, gente, na opinião do discreto redactor da Revolução, muito superior a Moisés e a Colombo, porque têm maiorias legais, coisa que aqueles desgraçados não alcançaram, um no Sinai e o outro no grande Oceano! Distrito de Évora, n.º 40, 26 de Maio de 1867,
Outra importante via de conhecimento foi a prestação de provas para cônsul. A instrução de Eça no concurso consular efectuou-se em 18 de Setembro de 1870, sendo admitido em 24 desse mês e prestado provas, juntamente com Jaime Batalha Reis, para cônsul de 1.ª classe, alguns dias depois, às dez horas da manhã, na sala do Corpo Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, instalado então no Terreiro do Paço, paredes meias com a Alfândega.
Em 1 de Outubro, reuniu-se o júri, presidido pelo ministro interino dos Negócios Estrangeiros, Carlos Bento da Silva, que substituía interinamente o titular da pasta, marquês de Ávila e Bolama, e composto pelo procurador da Coroa, Mártens Ferrão, pelo juiz da Relação, Ferreira Novais, pelo director-geral das Contribuições, Gonçalves de Freitas, e pelo director-geral dos Consulados, Nogueira Soares.

NOTA: Fiz este estimável concurso, e parece que o grosso caderno de papel oficial que escrevi não julgado inteiramente inepto. Na verdade, Eça foi classificado em primeiro lugar, com um Muito bom. Apesar de Eça ter ficado em primeiro lugar, foi Saldanha da Gama quem foi ocupar o lugar aberto pelo concurso. Eça declarou-se vítima de perseguição política. Expressou o queixume numa farpa, devido às Conferências do Casino. Era bastante sintomático que um tal queixume público tivesse sido feito logo após a queda do governo do marquês de Ávila, e quando Andrade Corvo, um homem culto, ocupava a pasta dos Negócios Estrangeiros. O queixume público não se referia apenas à preterição que sofreu no preenchimento da vaga consular da Baía, mas também, e sobretudo, ao facto de, decorrido um ano sobre a sua aprovação no concurso consular, classificado em primeiro lugar, não ter sido colocado em qualquer outro.
No entanto, não fui despachado, o que achei justo e galante. Justo porque o cavalheiro escolhido, que tinha uma classificação quase igual à minha, ainda que inferior, tinha longos serviços no ultramar, estabelecimentos na Baía, etc., estava em condições preferíveis e inatacáveis. Galante, porque segundo me foi revelado eu não fora despachado porque se quisera fazer a vontade a uma dama ilustre, despachando o meu companheiro. Como compreendem, fiquei contente, como na efusão de uma vitória! ergui a minha alma o escarlate pavilhão da alegria. Alguém me disse por essa ocasião com ar misterioso: a sua conferência!... Mas eu não acreditava. Porque, enfim, eu na minha conferência condenara a arte pela arte, o romantismo pelo romantismo, a arte sensual e idealista, e apresentara a ideia de uma restauração literária, pela arte moral, pelo realismo, pela arte experimental e racional. O quê! pensava eu, será por isto que os Srs. ministros me julgam um inimigo da ordem? Jocosamente acrescentava: Porque enfim se eu não posso ser cônsul por ter feito uma conferência se essa conferência foi a condenação do romantismo, segue-se que eu não posso ser cônsul por ter condenado o romantismo!! Ora realmente, eu não sabia que para ser cônsul era necessário ser romântico! Eu não vira entre as habilitações que o programa requeria esta: Certidão do regedor de que o concorrente recita todas as noites, ao luar, o Noivado do Sepulcro, do chorado Soares de Passos. Eu não sabia disto! Porque então também declaro à Secretaria dos Estrangeiros: perdeu os dois cônsules que melhor lhe podiam convir: Antony e Werther. Ah! agora vejo, infeliz realismo, que me obstruis uma carreira! Ai! para ser cônsul para Pernambuco, quem tivera o coração de Romeu! A farpa produziu efeito; passados apenas quatro meses sobre a sua publicação, em 16 de Março de 1872, Eça de Queiroz foi nomeado cônsul em Havana, nas Antilhas espanholas.

Eça viria a ser alvo de uma discriminação negativa no âmbito deste concurso, após as prelecções casinenses. O nome do Procurador da Coroa ficou esquecido no processo cultural das Conferências, e apagado depois. Contudo, não o ficou na lembrança de Eça. Tal como os demais setentistas, além de ter guardado na lembrança, o escritor terá recolhido, em cópia, o documento de Mártens Ferrão, e o discurso pronunciado em 5 de Setembro de 1871, impresso nas páginas do Diário do Governo e do Diario da Camara dos Senhores Deputados, ou mesmo no folheto em que o procurador geral da Coroa, em defesa das suas ideias. “O conjunto apetecível das ideias estava diante de Eça. Mais tarde, Eça serviu-se desses textos, em várias ocasiões.
Algumas outras passagens de discursos de Deputados, mas, sobretudo, em particular, algumas asserções do Procurador Geral, definidas no Parecer e, sobretudo, na longa intervenção, em estilo de lição, que proferiu na Câmara dos Deputados, em 5 de Setembro de 1871, foram reinterpretadas, reinventadas, glosadas, inseridas, velada e depuradamente, a breve trecho em várias personagens de Eça, nas cenas dos seus romances. Com efeito, as considerações ideológicas do texto de Mártens Ferrão, altamente significativas do pensamento oficial e conservador, puderam ser recuperadas e utilizadas com fins críticos, para além da discussão legal dos seus fundamentos, em termos de retrato social, por vias de ficção, por Eça.
A influência, patenteada em vários pontos de intersecção, transparece em várias personagens das suas obras, sobretudo no tipo social dos políticos, que encarnam as páginas do parecer de Mártens Ferrão em figuras caricaturais». In Ivo Miguel Barroso, As Conferências do Casino e o poder político. Anatomia do discurso proibitivo, Excerto do Relatório de Mestrado, FDUL, Wikipedia, 2003/2004.

Cortesia de FDUL/JDACT

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

De Tempos a Tempos. Antologia pessoal. Antologia crítica. Júlio Conrado. «O livro de Júlio Conrado, Querido Traficante, 2006, é um novo ponto nesta tentativa de traduzir em ficção o Portugal contemporâneo. Convergem nele alguns dos mais recentes instrumentos expressivos do autor, a sátira aguçada e o risco da caricatura»

jdact

O Portugal contemporâneo de Júlio Conrado
«Júlio Conrado é um escritor realista. Estreou-se em 1963 com um livro de contos, A Prova Real, a que se seguiu seis anos depois novo livro de contos, Clarisse, Amargura, Dezembro, este com um prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, onde a dado passo se diz, “nos contos de Júlio Conrado verifica-se impressionante aderência da realidade ficcionada a um exigente programa neo-realista”, palavras escritas há quase quarenta anos mas que permanecem verdadeiras e válidas se retirarmos da frase o pequeno prefixo de três letras que por lá anda a mais.
É difícil saber o que seja hoje, na sociedade portuguesa do engenheiro Sócrates, marcada pelo cliché da eficiência social da modernização, um exigente programa neo-realista, mas com toda a certeza sabemos o que é um escritor de tradição realista, com um programa de anatomia social, interessado em documentar as mazelas sociais e morais de grupos diferenciados, novas ou repetidas, para depois as denunciar, pondo a descoberto, na imaginativa da ficção ou na linha do verso, aspectos pouco conhecidos ou mesmo escondidos do tecido social e contribuindo assim para um retrato mais nítido e veraz de uma particular realidade humana.
A literatura narrativa de Júlio Conrado apontou sempre, desde a sua estreia, nesta direcção, primeiro numa vertente áspera e amarga que ia ao encontro do tal programa de exigências neo-realistas de que falava Urbano em 1969, cuja natureza é uma argumentativa determinista do realismo, e depois numa versão mais solta e livre, mas não menos áspera, com uma vetusta faceta satírica e porventura caricatural, exuberante e hiperbólica em termos expressivos, que não perde por isso fidelidade aos pressupostos da documentação social.
Este segundo e último modo do escritor tem coincidindo com o período posterior à revolução dos cravos, servindo-lhe o livro Era a Revolução, 1977, onde se transita da sociedade do Estado Novo para a da democracia representativa, de sobressaltada porta de entrada. Nesse livro, que de resto teve uma bem sucedida fortuna crítica, sente-se passar um vento de tempestade, furioso e revoluteante, que tanto vai como vem, derrubando no seu alucinado caminho todos os obstáculos e abrindo com a sua força de intempérie todas as portas e janelas, que assim se ouvem vibrar e bater, abertas que estão ou ficam, apesar do estrondo, ao infinito de todas as possibilidades futuras.
O melhor realismo de Júlio Conrado, penso nos enredos de Maldito entre as Mulheres, 1999, ou De Mãos no Fogo, 2001, mas também nos retratos paródicos de Desaparecido no Salon du Livre, 2000, é pois aquele que apresenta debaixo do vestuário da ficção, tecido em geral com uma trama azeda e grossa, pouco apiedada, a sociedade portuguesa saída da revolução dos cravos, sobretudo aquela que foi regulada ou normalizada pela entrada de Portugal na Europa, aí se destacando os períodos cavaquista e guterrista, com os seus sucedâneos imediatos, mais pardos ou mais vivos, de Barroso a Sócrates.
O livro de Júlio Conrado, Querido Traficante, 2006, é um novo ponto nesta tentativa de traduzir em ficção o Portugal contemporâneo. Convergem nele alguns dos mais recentes instrumentos expressivos do autor, a sátira aguçada e o risco da caricatura, num traço exagerado mas firme e reconhecível, e percebe-se no seu propósito o interesse de alargar o volume da ficção anterior, multiplicando as medidas, de modo a que o retrato seja mais largo e ambicioso, nele cabendo a diversidade forte das camadas sociais representativas da actual sociedade portuguesa, isto é, Igreja, Universidade, Governo, Moda, Edição, Trabalho.
A fotografia de grupo que daí se colhe é cruel. A sociedade portuguesa contemporânea é uma sociedade retraída e triste, sem verdade e sem substância, amedrontada e desprezível, com um clero, vicioso, uma classe política corrupta e incompetente, um escol universitário básico e superficial, uma corporação de escritores ambiciosos e intrujões, um jornalismo vendido e boçal, uma classe trabalhadora desmoralizada e incapaz de se apresentar como alternativa social». In António Cândido Franco, Querido Traficante, O Portugal contemporâneo de Júlio Conrado, Enfoques, Júlio Conrado, De Tempos a Tempos. Antologia pessoal. Antologia crítica, Roma Editora.

continua
Cortesia de Roma E./JDACT

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

‘Defensa Femenina’ e ‘Invectiva da Fermosura’. Literatura Panfletária e Satírica. Ana Hatherly. «Assim, enquanto na ‘Defensa Femenina’ nos é proposta uma etimologia em que se destaca a sua dimensão alegórica, na ‘Invectiva da Fermosura’ a questão é sobretudo explorada para fins de sátira, de crítica, ao declarar-se que mana está ligada a mona, palavra que significa ‘macaca’»


Cortesia de quimera


Defensa Femenina em abono da Manisse das Senhoras Mulheres contra a murmuração dos homens.
Invectiva da fermosura contra o indecoroso abuzo da manice em resposta à defensa feminina feita para manifesta ainda que indigna protecção do mesmo dilirio.  In Quimera.


«Os textos atribuídos ao visconde de Asseca e a frei João Manuel atraíram a nossa atenção por conterem elementos que julgamos de interesse para uma investigação das relações entre a imaginação literária e a convivência no nosso país durante o período barroco, em particular no que diz respeito às críticas ao comportamento da mulher.
O texto atribuído ao visconde de Asseca intitula-se Defensa Femenina / em abono da Manisse / das Senhoras Mulheres / contra a murmuração dos homëns; o atribuído a fr. João Manuel, Invectiva da fermosura contra o indeco /roso abuzo da manice em resposta à defença / femenina feita para manifesta ainda que indigna / protecçaõ do mesmo dilirio. Do manuscrito do visconde de Asseca encontrámos duas versões: a acima referida, numa Miscelânea de Prosas compilada por Antonio Correya Vianna, com data de 1782, actualmente na Biblioteca da Ajuda, e uma outra, sem data, incompleta e com algumas diferenças textuais, incluída numa Miscelânea do século XVIII da Colecção Pombalina, existente na Biblioteca Nacional em Lisboa. A versão por nós transcrita é a que se encontra na compilação de Antonio Correya Vianna, sendo as mais significativas variantes da outra assinaladas em notas ao longo do traslado.
Do texto de fr. João Manuel também conhecemos dois manuscritos: o que transcrevemos, que consta da mesma Miscelânea da Colecção Pombalina da Biblioteca Nacional, e o que se guarda na Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Évora. Nenhum tem data. As diferenças entre estas duas versões são mínimas e pouco significativas. Por isso não as assinalamos.
Na transcrição das versões seleccionadas reproduzimos a ortografia original, respeitando a acentuação e a pontuação peculiares, sem corrigir lapsos. Porém, para facilitar a leitura, desenvolvemos as abreviaturas e introduzimos no texto de fr. João Manuel algumas palavras (entre parênteses rectos) que no original tinham sido obliteradas por um derrame de tinta e que o cotejo com a versão de Évora nos permitiu conhecer.
A identificação dos autores, nos códices da Biblioteca Nacional, é feita pelos respectivos copistas no alto da primeira folha, sumariamente dizendo, num: Visconde de Aseca; noutro: Fr. João M.el .No códice da Biblioteca da Ajuda o copista acrescentou ao título os seguintes dizeres: Discurso / jocosserio / Escrito / Pello Exmo Visconde de Asseca. [...]

Debruçando-nos agora sobre o conteúdo dos textos, verificamos que ambos giram à volta da questão da Manice, palavra que designa uma prática que os dois autores se empenham, respectivamente, em defender (visconde de Asseca) e em condenar (fr. João Manuel).
No discurso do visconde de Asseca, em que a Manice é justificada em nome do ‘amor de sÿ mesmo’ e em virtude duma tendência segundo a qual ‘uma Formozura se inclina a outra Formozura’, é de importância considerável a declaração da etimologia da palavra, grafada manisse pelo copista do visconde de Asseca e manice pelo de fr. João Manuel.
Na ‘Defensa Femenina’ pode ler-se:
  • Para darmos principio a esta Manisse, he necessario examinar a derivassaõ, ou principio que tem este docissimo nome de Mana. Os Autores mais graves que tractáram de ethimologias, dizem que Mana, se deriva de Maná; e a razaõ he, porque o Maná sabia a tudo aquilo que a vontade podia apetecer; e que nas Manas, se acha tambem esta propriedade, porque tem differentes sabores na diversidade dos üzos: derigidos igoalmente pella ley do gosto...
Na ‘Invectiva da Fermosura’, depois de ter sido contestado que a Formosura seja a origem da Manice, declara-se quanto à etimologia da palavra:
  • Diz o nosso Author que segundo a melhor etimologia, este nome mana se diriva de Manna: naõ o duvido, mas he do manná galenico com que se emfastia o gosto e naõ daquelle manná em que o desejo encontra na variedade o desfastio. He hüa mana hum rescipe de Cupido com que a fermosura se purga do aggrado e bizarria. Senaõ vejaõ as manas a propria etimologia do seu nome que a coriosidade descobrio nos authores de melhor nota, e incognitos ao seu defensor. Manná (se avemos de seguir os authores castelhanos) derivace de mano, que em portugues significa a maõ a qual como instromento da manice, deu a etimologia ao nome...
A seguir, o autor afirma que ‘este nome manná he Paranomazia de mona’, acabando por estabelecer um paralelo jocoso entre ‘manas’ e ‘monas’, e ‘manices’ e ‘monices’.
Assim, enquanto na ‘Defensa Femenina’ nos é proposta uma etimologia em que se destaca a sua dimensão culta, alegórica, séria, na ‘Invectiva da Fermosura’ a questão é sobretudo explorada para fins de sátira, de crítica, ao declarar-se que mana está ligada a mona, palavra que significa ‘macaca’.
Da comparação dos dois textos em breve se torna evidente que a sua maior virtude residirá, porventura, no seu acentuado contraste.
[...]
Destes dois textos pode dizer-se que ambos seguem as normas do debate académico barroco, ambos são elegantes, eruditos e discretos, só que o do visconde de Asseca é um discurso sério e o de fr. Manuel é um discurso joco-sério [...]. In Ana Hatherly, Defesa e Condenação da Manice, Quimera, Lisboa, 1989, Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia de FCG/JDACT