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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Poesia. Manuel Alegre. «Que mil flores desabrochem. Que mil flores (outras nenhumas) onde amores fenecem que mil flores floresçam onde só dores florescem»

Cortesia de wikipedia e jdact

Natal
«Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era a gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento.
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia».


Flores para Coimbra
«Que mil flores desabrochem. Que mil flores
(outras nenhumas) onde amores fenecem
que mil flores floresçam onde só dores
florescem.

Que mil flores desabrochem. Que mil espadas
(outras nenhumas não)
onde mil flores com espadas são cortadas
que mil espadas floresçam em cada mão.

Que mil espadas floresçam
onde só penas são.
Antes que amores feneçam
que mil flores desabrochem. E outras nenhumas não.


Última Página
«Vou deixar este livro. Adeus.
Aqui morei nas ruas infinitas.
Adeus meu bairro página branca
onde morri onde nasci algumas vezes.
 
Adeus palavras comboios
adeus navio. De ti povo
não me despeço. Vou contigo.
Adeus meu bairro versos ventos.
 
Não voltarei a Nambuangongo
onde tu meu amor não viste nada. Adeus
camaradas dos campos de batalha.
Parto sem ti Pedro Soldado.
 
Tu Rapariga do País de Abril
tu vens comigo. Não te esqueças
da primavera. Vamos soltar
a primavera no País de Abril.
 
Livro: meu suor meu sangue
aqui te deixo no cimo da pátria.
Meto a viola debaixo do braço
e viro a página. Adeus».
Poemas de Manuel Alegre, in “ist”

Cortesia de wikipedia/JDACT

JDACT

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Alma. Manuel Alegre. «Provocadores, gritava Gonçalo Pena fora de si, ele que, segundo meu pai, era homem de poucas ameaças e chapada pronta. À porta do Cine-Teatro havia um coro que procurava abafar com seus gritos os oradores»


Cortesia de wikipedia e JDACT




«(…) Então, repentinamente, Gonçalo Pena dizia a frase em inglês, espanhol e francês: This stencil bleu no es amarillo but noir. Meu pai ria até às lágrimas, Gonçalo Pena conservava-se de pé, imperturbável, o professor perdia a cabeça e, como não podia fazer mais nada, punha o meu pai no olho da rua, com falta de castigo. Gonçalo Pena continuava a apertar comigo, enquanto o Armandinho, estimulado talvez pela bordoada que tinha dado em Zeca Sucateiro, atacava mais uma vez pela esquerda. O antigo colega de carteira do meu pai era, como já disse, um homem alto, elegante, vestindo sempre do melhor, parecia um lorde. Dizia-se que era maçon e se entregava a práticas secretas, de espada e avental. Vivia ora em Alma ora em Lisboa, no Hotel Borges. E tinha dois pecados: conspirações e mulheres. Já ia na vigésima governanta. Recrutava-as por anúncio no Diário de Noticias. Elas vinham ao hotel e ele fazia a triagem. Às vezes aparecia em Alma com dois ou três oficiais reformados ou compulsivamente passados à reserva. Reuniam-se com a minha avó e falavam por subentendidos. Ficava no ar a expectativa próxima do levantamento, da pólvora e da revolução. Verdade que Gonçalo Pena tinha sido um dos heróis das Trincheiras, quando, por altura da Traulitânia, os republicanos de Aveiro aguentaram o avanço dos monárquicos que vinham do Norte. Foi a batalha mais sangrenta da República e nela morreu mais gente do que em todas as outras revoluções, incursões e contra-revoluções: trinta e quatro mortos, tal foi o preço da resistência republicana. Mas os monárquicos não passaram.
Já ele me pegava no braço para me levar, quando o Armandinho, verdadeiramente de cabeça perdida, finta o defesa direito (meu pai dizia béque), corre até à linha e não se sabe, não se saberá nunca se com intenção ou sem querer, enfia a bola pelo ângulo superior direito e empata a partida. Zeca Sucateiro não se aguentou, esqueceu-se da porrada e tentou entrar no campo para o abraçar. Mas o Armandinho ainda estava a ferver e foi preciso segurá-lo para ele não assentar mais um tento nas ventas de Zeca Sucateiro. Exasperado com a minha recusa, Gonçalo Pena, que também tinha dado um pulo com o golo de Armandinho, foi parlamentar com o meu pai. Que mal o ouviu e acabou por ceder. Ó pá, isto agora está no papo, vai lá que elas ficam todas contentes. Estávamos neste trinta e um de boca quando Neca Pereira, defesa central do Beira- Rio, que jogava de lenço branco a sair dos calções, resolveu ceifar o avançado centro do Vista Alegre em plena grande área. Penalti! Todo o campo emudeceu. O próprio Gonçalo Pena deixou de insistir, dir-se-ia que também ele já esquecido do comício. - Equipa de mer…, disse. Eu não gostei.  Podem não jogar nada, mas são os nossos. Tens razão. Não jogam nada, mas são os nossos.
O árbitro apitou, o avançado do Vista Alegre correu para a bola, fez uma finta de corpo, Zamora não se deixou levar, a bola foi para o lado esquerdo e ele defendeu. Foi o delírio. Só Gonçalo Pena, passado o entusiasmo, voltou à carga. Mas já o Beira- Rio estava de novo ao ataque. Então explodi: não vou, eu sou monárquico, não quero ser republicano, eu sou monárquico. E foi como se tivesse dito uma blasfémia. Gonçalo Pena ficou branco, abriu muito os olhos e não esteve com cerimónias: pregou-me uma estalada e agarrou-me pelo braço. E lá fui, arrastado. Entretido a dar instruções para dentro do campo, o meu pai nem se apercebeu. O comício era no Cine-Teatro, nome pomposo de um barracão que ficava entre a Câmara e a cadeia, já na parte baixa de Alma. Aos poucos fomos deixando de ouvir o barulho do Campo de São Cristóvão e começaram a chegar até nós os ecos do comício. Caminhávamos apressados, sem falar. Gonçalo Pena segurava a minha mão com força, com medo talvez que lhe escapasse e voltasse para o jogo. Havia uma pequena multidão à porta do Cine-Teatro. Quem manda?, perguntava um. E os outros respondiam: Salazar, Salazar, Salazar. Provocadores, exasperou-se Gonçalo Pena, ao ver aquele grupo de fato domingueiro, arregimentado nas redondezas para vir perturbar o comício da oposição. Vinha de lá de dentro a voz de Aurélio Silveira, ex governador-civil de Aveiro durante a Primeira República, talvez o mais íntimo de todos os companheiros de Geraldo Pais, meu avô. Era uma espécie de João Semana, não usava estetoscópio, auscultava com a orelha e diziam os outros médicos que ninguém tinha o ouvido de Aurélio Silveira.
Percorria as serras a cavalo, da Urzeira ao Caramulo. Republicano avançado, sonhava com uma nova revolução francesa e com a igualdade universal. Não cobrava aos pobres, levava-lhes remédios, chegava onde ninguém mais, contentava-se que lhe dissessem onde havia lebres, que depois caçava a cavalo, com galgos. Ele e a mulher, a quem todos chamávamos Tia Matilde, pequena, magra, o cabelo muito preto, os olhos muito azuis, capaz de andar vinte quilómetros a pé, faziam e distribuíam A voz de Alma, jornal republicano e independente. Sempre que o censor, um oficial reformado que morava do outro lado do rio, lhe cortava um artigo, Aurélio Silveira esperava-o em cima da ponte com o seu pingalim de caçar lebres a cavalo. E já se sabia que o coronel não viria à vila tomar café. Com mais corte, menos corte, A Voz de Alma lá ia levando o seu recado. E até o meu pai, que não era republicano mas tinha um fraco pelo Dr. Aurélio, colaborava com artigos sobre caça e outros desportos, sendo mais que certo que todos os anos, na data da morte do meu avô Júlio Faria, considerado o maior desportista do seu tempo, dedicava um artigo à memória do pai, recordando, entre outros feitos, aquele célebre torneio de tiro aos pombos em que meu avô, apesar de monárquico e membro da Casa Real, ousara derrotar o rei Carlos I, ganhando a Taça Eduardo VII.
Provocadores, gritava Gonçalo Pena fora de si, ele que, segundo meu pai, era homem de poucas ameaças e chapada pronta. À porta do Cine-Teatro havia um coro que procurava abafar com seus gritos os oradores. Quem manda?, perguntava, com um sorriso sacana, um tipo de bigodinho fino e olhos achinesados. E o grupo respondia: Salazar, Salazar, Salazar, Carmona, Carmona, Carmona. Aquilo, não sei porquê, se pelas vozes, se pelas caras, se pelo todo, fazia-me um arrepio pela espinha acima. Olhava-se para eles e percebia-se que não eram dos nossos. E à terceira vez que o sacaninha perguntou Quem manda?, Gonçalo Pena respondeu-lhe: a pu… que te pariu. Foi um ver se te avias. Os dois primeiros, ainda Gonçalo Pena os derrubou. Mas eram muitos. Consegui furar e entrar na sala. Lá estava a minha avó, toda de negro vestida, com uma jóia de brilhantes na gargantilha. Ao lado a minha mãe, ostentando, ao peito, as armas da família do meu pai. Assim que me viu, Aurélio Silveira interrompeu o discurso e apontou na minha direcção. Toda a sala se levantou a bater palmas, era como se tivesse chegado o menino Jesus. A muito custo consegui balbuciar ao Dr. Aurélio o que se passava. O nosso amigo Gonçalo Pena está lá fora a ser agredido por um bando de provocadores a soldo do regime. Mas não vamos responder a provocações, a nossa força é a razão. Qual quê? Em menos de um fósforo, metade da sala estava cá fora a despachar o do bigodinho e acompanhantes». In Manuel Alegre, Alma, Publicações dom Quixote, 1995, ISBN 978-972-202-668-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Alma. Manuel Alegre. «Estava o jogo em ponto de rebuçado, quando apareceu Gonçalo Pena, republicano de sangue azul, vagamente primo do meu pai e ainda um pouco mais alto do que ele. Tinha um grande nariz curvo e o lábio inferior um pouco caído»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Aos vinte minutos, já o Beira-Rio estava a perder por três a zero. Zeca Sucateiro, empoleirado na vedação, gritava para o Armandinho Alfaiate, que jogava a ponta esquerda: és um entrevado. Ao que o outro respondia: entrevada era a tua avó. Diga-se de passagem que naquele tempo ainda um jogador podia saltar para fora do campo e ir às fuças à assistência. Era uma cena que se repetia: Zeca Sucateiro atezanava Armandinho e este, quando menos se esperava, ferrava-lhe dois tentos no focinho. Foi o que aconteceu ao findar a primeira parte, continuava o Beira-Rio a levar três. Meu pai, além de campeão de atletismo, tinha sido jogador de futebol da Académica e possuía o diploma de treinador. Quando as coisas estavam a correr mal, o que era quase sempre, pediam-lhe ao intervalo para ele ir às cabinas tentar virar o resultado. Ele chegara a treinar o Beira-Rio, mas tinha-se chateado por causa de Zamora, o guarda-redes, (meu pai dizia keeper), assim chamado por imitar o outro, o grande Zamora da selecção de Espanha. Zamora, ou seja o Firmino, tinha qualidades. Era o que o meu pai dizia. O pior era o feitio. Sempre que Manuel Tinoco ia para trás da baliza, a coisa dava para o torto. Não que não gostasse de Zamora, mas tinha mau perder. Já com a selecção era a mesma coisa. Ao menos levassem as cores da Monarquia, dizia o Manuel Tinoco, que era republicano, fumava charuto e nunca tirava o chapéu à diplomata, nem mesmo para dormir, diziam as más línguas de Alma. Quando a selecção levava nove da Espanha, era assim que ele desabafava: ao menos vestissem a camisola da monarquia, a da República não. E o mesmo acontecia sempre que, no seu entender, Zamora dava um frango. O que, diga-se em abono da verdade, frequentemente acontecia. Então, Manuel Tinoco começava a roer o charuto e dizia-lhe por detrás da baliza: ao menos tira a camisola, não sujes as cores da tua terra. Zamora, isto é, o Firmino, ouvia uma, duas, três vezes. Mas às tantas não se aguentava: despia a camisola e desatava a correr pelo campo fora. Meu pai, que juntamente com seu irmão Tiago, tinha sido campeão nacional de estafeta de quatro por cem, levantava-se do banco e sprintava até o agarrar. Às vezes tinha de lhe pregar um par de estalos. E Zamora lá voltava para as redes do Beira-Rio.
Mas um dia, em que Manuel Tinoco tinha sido especialmente cáustico, ao ponto de lhe dizer: vai vestir a camisola do Beira-Mar, que era a pior coisa que se podia dizer a um beirariense, o Firmino não esteve com meias aquelas: saiu da baliza, amachucou o chapéu de Manuel Tinoco, o que por muitos foi tomado quase como um sacrilégio, despiu-se todo e saiu do campo em pelo. Aí o meu pai chateou-se: não corro atrás de um gajo nu. E nunca mais treinou o Beira-Rio. Mas lá ia às cabinas sempre que lhe pediam e as coisas, como era costume, estavam a correr para o torto. Não sei o que lhes disse naquele dia, mas aos dez minutos da segunda parte, já o Beira-Rio tinha reduzido para dois a três. Lembro-me perfeitamente do segundo golo: Armandinho foi marcar um corner, meu pai deu umas instruções e Almiro veio de trás e marcou. Foi de tal modo que Manuel Tinoco se virou para o meu pai e disse-lhe: amigo Lourenço, este golo é seu. Estava o jogo em ponto de rebuçado, quando apareceu Gonçalo Pena, republicano de sangue azul, vagamente primo do meu pai e ainda um pouco mais alto do que ele. Tinha um grande nariz curvo e o lábio inferior um pouco caído. Como o dos Braganças, dizia o meu pai. Vinha a pedido da minha avó. Está toda a gente à tua espera, disse ele. É uma vergonha se não vais. Mas o Beira-Rio, que era uma equipa desgraçada, estava a jogar como há muito não se via: bola recebida, bola passada, ao primeiro toque, ataques pelos flancos, cruzamentos à linha, à inglesa, como o meu pai gostava. O que ele não conseguia suportar era quando o avançado centro tinha a bola e o ponta lhe pedia: cruza. Grande burro, dizia o meu pai, não se cruza do centro para a ponta, mas da ponta para o centro.
Gonçalo Pena não me largava. Era uma figura singular e não por acaso o haviam escolhido para mensageiro. Ele tinha sido um dos homens de confiança do meu avô Geraldo Pais e suspeitava-se que fora a paixão de minha tia Elvira, irmã de minha mãe, que morreu muito nova, tuberculosa. Dele se contavam histórias extraordinárias. Companheiro de carteira do meu pai no liceu de Aveiro, estava ele um dia a carregar cartuchos na aula de Francês, quando o professor, a quem chamavam o Comme Ici, de repente lhe disparou: diga lá, ó Gonçalo, este lápis azul não é amarelo mas preto. Contava o meu pai que ele se levantou e, muito sério, começou a argumentar que não podia ser, era um contra-senso, recusava-se a dizer, ainda por cima em francês, que era a língua de Descartes, uma frase sem lógica, completamente despida de sentido. O lápis ou é azul ou não é, se é azul não é amarelo e muito menos pode ser preto. Está bem, retorquiu o Comme Ici, eu não quero filosofia, o que eu quero é a frasezinha em francês». In Manuel Alegre, Alma, Publicações dom Quixote, 1995, ISBN 978-972-202-668-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Nostalgia na Segunda. Poesia. A Voz de Brel. «… é já uma legenda da sua época e da sua geração. … e que na ressaca da contra-revolução silenciosa continuou a batalhar, não sem amargura…»

jdact

Cancão com lágrimas
«Eu canto para ti um mês de giestas
um mês de morte e crescimento ó meu amigo
como um cristal partindo-se plangente
no fundo da memória perturbada.

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
e um coração poisado sobre a tua ausência
eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
em que os mortos amados batem à porta do poema.

Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
quem me dera em Maio. Depois morreste
com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
teu nome escrito com ternura sobre as águas
e o teu retrato em cada rua onde não passas
trazendo no sorriso a flor do mês de Maio.

Porque tu me disseste: quem me dera em Maio
porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol. Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera».

Capa negra rosa negra
«Capa negra, rosa negra
rosa negra sem roseira
abre-te bem nos meus ombros
como o vento na bandeira.

Abre-te bem nos meus ombros
vira as costas à saudade
capa negra rosa negra
bandeira de liberdade.

Eu sou livre como as aves
e passo a vida a cantar
coração que nasceu livre
não se pode acorrentar».

Pedro soldado
«Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
e leva o nome bordado
num saco cheio de nada
triste vai Pedro Soldado.

Branda rola não faz ninho
nas agulhas do pinheiro
não é Pedro marinheiro
nem no mar é seu caminho.

Nem anda a branca gaivota
pescando peixes em terra
nem é de Pedro essa rota
dos barcos que vão à guerra.

Onde não andas ceifando
já o campo se fez verde
e em cada hora se perde
cada hora que demora
Pedro no mar navegando.

Não é Pedro pescador
nem no mar vindimador
nem soldado vindimando
verde vinha vindimada
triste vai Pedro Soldado.

Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
deixa o nome bordado
e era Pedro Soldado.

Branda rola não faz ninho
nas agulhas do pinheiro
não é Pedro marinheiro
nem no mar é seu caminho.
deixa o nome bordado
e era Pedro Soldado».
Poemas de Manuel Alegre in “Trovas do vento que passa

Em memória do amigo Fernando José († 4/4/1992). Que estejas em paz.
Abraça o Filomeno e o Mateus. Eu vou ficando por cá…


ISBN 978-989-619-121-7
JDACT

sábado, 2 de abril de 2016

Nostalgia na Minha Idade. Poesia. A Voz de Adriano. «Coimbra, a república independente em que a ousadia, a rebeldia e a inventiva… se deram as mãos na luta por uma academia livre…»

jdact

Fado da promessa
«Trago a minha vida presa
às promessas que morreram
naquele adeus derradeiro
que os teus olhos me disseram.

Quando a morte me levar
se eu não tiver mais ninguém
basta que chorem por mim
os olhos de minha mãe».

Trova do amor lusíada
«Meu amor é marinheiro
meu amor mora no mar
meu amor disse que eu tinha
na boca um gosto a saudade
e uns cabelos onde nascem
os ventos e a liberdade.

Meu amor é marinheiro
meu amor mora no mar
seus braços são como o vento
ninguém os pode amarrar.

Meu amor é marinheiro
meu amor mora no mar».

Pensamento
«Meu pensamento
partiu no vento
podem prendê-lo
matá-lo não.

Meu pensamento
quebrou amarras
partiu no vento
deixa guitarras.

Meu pensamento
por onde passas
estátua de vento
em cada praça.

Foi à conquista
do novo mundo
foi vagabundo
contrabandista.

Foi marinheiro
maltês ganhão
foi prisioneiro
mas servo não.

E os reis mandaram
fazer muralhas
tecer as malhas
de negras leis.

Homens morreram
chamas ao vento
por ti morreram
meu pensamento».
Poemas de Manuel Alegre, in ‘Trovas do vento que passa


ISBN 978-989-619-121-7
JDACT

sexta-feira, 11 de março de 2016

Alma. Manuel Alegre. «O culto da República era, assim, uma forma de religião. Creio que para minha avó não havia grande diferença entre a devoção a Nossa Senhora, o culto da República e a fidelidade cega à memória do meu avô»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Era dia de comício da oposição em Alma, presidido por minha avó materna, Beatriz, em representação de meu avô Geraldo Pais, chefe da Carbonária e fundador da República. O falecido tinha sido íntimo de Afonso Costa e era ainda a referência principal da tribo reviralhista. A minha avó, que tinha um solar perto de Viseu e saíra de uma família de tradição conservadora, levava muito a sério o seu papel de viúva revolucionária. Os republicanos do distrito de Aveiro vinham regularmente a Alma prestar-lhe contas e pedir-lhe conselhos. Tanto quanto me recordo, era sempre a que defendia as soluções mais radicais, como, por exemplo, citando o bispo Santo Isidoro de Sevilha, matar o tirano. Os republicanos acenavam silenciosamente com a cabeça e por vezes entreolhavam-se, um pouco aflitos. A minha avó sentava-me ao pé dela e de certo modo eu era tratado como príncipe herdeiro. Os velhos republicanos manifestavam-me um carinho e uma atenção que era quase uma forma de respeito. Alguns, quando me encontravam no Jardim Novo, na margem direita do rio Alma, perguntavam-me baixinho: Então, como é que se diz? E eu murmurava-lhes ao ouvido: Viva a República. O que era entendido como sinal mais que certo de que a sucessão estava por assim dizer assegurada. Pensando bem, eu era uma espécie de ungido, trazia em mim a graça da República e o sinal dos eleitos. Tal era ainda a força do meu avô materno. Os correligionários contavam com orgulho as suas façanhas. Eu ouvia fascinado essas histórias. Gostava sobretudo da reconquista de Santarém aos monárquicos. Nomeado governador-civil daquele distrito, Geraldo Pais exercia há uns meses o cargo quando, ausente na capital, recebeu a notícia de que a cidade fora tomada pelos monárquicos. Partiu imediatamente para Santarém. Quando chegou ao palácio foi interceptado por um oficial que lhe deu voz de prisão. Preso está o senhor, respondeu o Governador. O outro pôs-se em sentido, o meu avô desarmou-o e levantou-o ao ar, com uma só mão. A Companhia, espantada, apresentou armas a Geraldo Pais, meu avô, que recuperou assim Santarém para a República. Eu gostava desta história e sentia uma íntima satisfação em ser neto de um homem capaz de vencer sozinho um exército inimigo. Não era por acaso que lhe chamavam Geraldo das Forças. A fama já vinha dos tempos de Coimbra e do dia em que, à frente da banda de música de Alma, ele pusera em debandada, manejando habilmente o pau, a investida dos adeptos de várias bandas rivais. Lembro-me de o ver esmagar nozes com os dedos. Dizia-se, também, que em certas sessões mais agitadas, partia a murro a sua carteira de deputado em São Bento. Os seus adversários da vila acusavam-no de ter mandado pôr uma bomba no lugar das aparições. A minha avó negava com veemência, tanto mais que era uma devota de Nossa Senhora de Fátima, junto de cuja imagem mantinha sempre uma vela acesa. Mas os inimigos políticos não desarmavam e diziam que, sendo ele deputado por Aveiro, não se vislumbrava por que outra razão teria sido nomeado governador-civil de Santarém. Fosse como fosse, o certo é que a lenda de Geraldo Pais, para o bem e para o mal, não deixava de crescer, alimentada com fervor pela minha avó, os seus correlegionários e os próprios inimigos. O culto da República era, assim, uma forma de religião. Creio que para minha avó não havia grande diferença entre a devoção a Nossa Senhora, o culto da República e a fidelidade cega à memória do meu avô. Tudo fazia parte do mesmo sentimento de fé e da mesma capacidade de entrega e dedicação. Na qual, evidentemente, eu tinha um lugar destacado. Para a minha avó eu não era só o seu neto: era, sobretudo, a reincarnação do seu marido. Tudo isto se passava numa casa em que o chefe de família, meu pai, Lourenço de Faria, era monárquico. Liberal, gostava ele de sublinhar. E então, quase a medo, às vezes clandestinamente, falava daqueles seus antepassados que tinham participado na revolta de Aveiro contra o monarca Miguel. O bisavô conseguira fugir para o Brasil, mas o irmão, seu tio bisavô, fora um dos enforcados e decapitados da Praça Nova, no Porto. Mártires da liberdade, os seus nomes estavam escritos no monumento a Pedro IV. Mas eu, confesso, ao princípio não ligava muito a esta história. Talvez porque nela não entrasse a palavra República, que para mim tinha um significado mágico. Talvez porque meu pai não pudesse ou não quisesse competir com a influência da minha avó. Que, diga-se desde já, era completada e reforçada pela acção de minha mãe, Mariana, para quem o meu avô era uma outra forma de Deus. Ou talvez o único deus a que toda a vida ela prestou culto. De modo que eu estava praticamente condenado a ser republicano e revolucionário. Só que naquele dia não havia apenas o tão esperado comício da oposição. À mesma hora, o Beira-Rio jogava contra o Vista Alegre. Por isso de nada serviram os rogos de minha avó e os ralhos de minha mãe. Nada me fazia ceder. E por nada deste mundo, muito menos por causa de um comício, eu estava disposto a perder o jogo no velho campo de São Cristóvão. Meu pai, menos por falta de coragem do que por filosofia de vida, não estava para lhes fazer frente. Mas nesse dia senti que secretamente admirava a minha resistência. E às duas por três, perante tal insistência de uma e de outra, dei por mim a perguntar-me porque raio é que, afinal, eu não havia de ser, também, monárquico? Meu pai ouvia, calado. De quando em vez piscava-me o olho. E a minha avó porque tens de ir, e a minha mãe era o que faltava que não. Até que subitamente meu pai explodiu: Não vai, não quer ir não vai, ele é meu filho e quem decide sou eu. Vamos os dois ao jogo. E fomos». In Manuel Alegre, Alma, Publicações dom Quixote, 1995, ISBN 978-972-202-668-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Música. África do Sul. Homenagem. «Talvez o espere a avó o pai amigos e a mãe que disfarça às vezes uma lágrima. Talvez o próprio povo o espere ainda quando subitamente fica melancólico propenso a acreditar em coisas misteriosas»

Cortesia de publico e jdact


«Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo».

«Talvez o espere ainda a Incomeçada
aquela que louvámos uma noite
quando o abril rompeu em nossas veias.
Talvez o espere a avó o pai amigos
e a mãe que disfarça às vezes uma lágrima.
Talvez o próprio povo o espere ainda
quando subitamente fica melancólico
propenso a acreditar em coisas misteriosas.
Algures dentro de nós ele cavalga
algures dentro de nós
entre mortos e mortos.
É talvez um impulso quando chega maio
ou as primeiras aves partem em setembro.
Cargas e cargas de cavalaria.
E cercos. Conquistas. Naufrágios naufrágios.
Quem sabe porquê. Quem sabe porquê.
Entre mortos e mortos
algures dentro de nós.
Quem pode retê-lo?
Quem sabe a causa que sem cessar peleja?
E cavalga cavalga.
Sei apenas que às vezes estremecemos:
é quando irrompe de repente à flor do ser
e nos deixa nas mãos
uma espada e uma rosa».

«Herói é quem num muro branco inscreve
o fogo da palavra que o liberta:
sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.
Herói é quem morrendo perfilado
não é santo nem mártir nem soldado
mas apenas por último indefeso.
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso».


JDACT

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Cruz Malpique: Um escritor. Um Nisense com personalidade

Cortesia LAH1954
Ex libris de Cruz Malpique
Manuel da Cruz Malpique foi um um professor de renome e um escritor português que nasceu em Nisa. A sua família era numerosa e com algumas dificuldades, considerando que vivia da agricultura de subsistência. que vivia da lavoura.
Estudou em Portalegre e posteriormente «rumou» a Lisboa onde se matriculou na Faculdade de Direito e na Faculdade de Letras. Obteve as duas licenciaturas no ano de 1928.

Cortesia de concelhodenisa
(1902-1992)
Leccionou em Faro, Angra do Heroísmo e Luanda. No ano de 1948 tomou posse do lugar de professor no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, onde se manteve até se aposentar. De acordo com a dados reconhidos, nunca exerceu a advocacia. Escreveu numerosos livros, muitos dos quais não foram ainda publicados e encontram-se guardados na Casa Forte da Biblioteca Municipal do Porto. Ofereceu a sua biblioteca particular ao Liceu Alexandre Herculano, no qual existe uma sala com o seu nome.
Liceu Alexandre Herculano, Cortesia LAH1954 
A Câmara Municipal de Nisa atribuiu-lhe a Medalha de Ouro. Morre na cidade do Porto, aos 90 anos de idade, a Invicta que considerou como sua terra adoptiva.
Ainda muito novo, quiçá, um dos seus primeiros poemas, Manuel Alegre dedica as Rosas da Mocidade ao seu professor Cruz Malpique.
AS ROSAS DA MOCIDADE
(Coronemus nos rosis ante quam marcessant)
Ó rosas em flor da doce Mocidade,
Hoje vicejais, amanhã murchais!
Ai botões de rosa da santa idade,
Em que se vive ainda ao sabor dos pais!.

Gozemos,amigos, o feliz instante,
Destas rosas belas, a desabrochar!
Num dia futuro, não muito distante,
Vereis as florzinhas, tristes, a murchar...

Cantemos, cantemos, ao nosso esplendor!
Em taças de oiro, o furto da vida
Bebamos. A nossa alma pede amor,
Deixemo-la andar amando... perdida...

Andemos, que ela esvoaça depressa!
Ai rosas bonitas, que breves sois!
Chorarmos agora, ai, livrai-nos dessa,
Ó rosas viçosas que murchais depois!

Amigos, amigos, segui adeante,
Eu paro, que fico... que fico a chorar!
Gozai, que esta hora passa num instante,
É como uma noite de suave luar!

Vereis, depois, vir noites, noites infindas,
Que não passam nunca, que aborrecem sempre!
Olhai para estas rápidas e lindas,
Estas são assim, olhai... não duram sempre!

Ai rosas benditas, breves, talvez...
Ai rosas bonitas, que lindas que sois!
Vós brilhais um dia, mas uma só vez,
Vós brilhais um dia e murchais depois!.
Manuel Alegre Duarte (5.º ano)

A sua obra percorre campos tão diversos como a filosofia, segundo alguns o seu grande amor, a pedagogia, a análise biográfica, ou a psicologia, revelando uma elevada capacidade intelectual e um perfil de um homem humanista. Eis algumas das sua obras:
«Introdução à vida intelectual» 1934, (a sua tese de licenciatura, foi dedicada a Joaquim de Carvalho, «sábio professor da Universidade de Coimbra», a António Sérgio, com quem conviveu , «à sua inteligência clara e carácter íntegro» e a Carlos Moreira da Costa Pinto, o seu benfeitor;  «O Homem, centro do mundo» 1936; «Como se faz um escritor» 1939; «O homem de ciência» 1940; «Arte de conversar»1950»; «Psicopedagogia da Curiosidade» 1952; «Leonardo da Vinci, operário de inteligência» 1952; «O homem, glória e refugo do Universo» 1953; «Filosofia do Plágio» 1955; «Pão para a boca do homem» 1957; «Chávenas de café quase amargo» 1957; «Psicologia literária do homem do Porto» 1958; «Cervantes, cidadão do mundo»1964; «Perspectivas, dificuldades e heresias da Filosofia» 1965; «Sebastião da Gama, poeta de primeira água» 1965; ... «José Régio, alguns aspectos da sua biografia interior» 1971; ... «Perfil humanístico de Abel Salazar» 1977.
Que personalidade brilhante! Que mente prodigiosa! Que escritor notável de uma vila que também é Notável! Porque estará tão esquecido?
Um Nisense com personalidade.
Jornal de Nisa/concelhodenisa/António Viriato/LAH1954/JDACT