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domingo, 29 de dezembro de 2019

Um Amor Feliz. David Mourão-Ferreira. «Também conheço algumas mulheres, providas de útero e de nádegas, que não passam de nuvens. De tudo isto o mais feio é só a palavra nádegas»

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«(…) Veio depois o Natal; e você publicou, nessa altura, o seu primeiro livro de poemas. Precisamente na antevéspera de Natal encontrei aqui o exemplar que me enviou, só para mim, com a sibilina dedicatória que se impunha. Porque será que apenas agora, quase à beira de outro Natal, com o seu livro de novo aqui à mão e tendo-o já relido por várias vezes, me renasce o desejo de dizer-lhe o que logo nessa ocasião me apetecia ter dito? Não aprecio por aí além, e isso já não é novidade para si, o título que você lhe deu: parece-me, por um lado, inutilmente provocatório e, por outro, injustamente limitativo, como se os seus versos apenas valessem por essa estéril coragem d’épater le bourgeois. O burguês, hoje em dia, já mal existe; e, quando existe, não se escandaliza com coisa alguma: nem com o que a Igreja ainda lhe proíbe nem com o que os sex-shops passaram a fornecer-lhe. Quem é que você escandaliza, a não ser talvez o seu marido, ao comparar-se à Tera que se masturba / debaixo da chuva ou à praia que se vem com o Sol / enquanto o Mar se vem com a Lua? Que almas sensíveis, a não ser porventura a já aludida, julga você ter melindrado ao confessar que lhe falta a experiência de ser igual a uma barca, / no mar alto, / ao mesmo tempo enfiada / por três mastros? E que defuntas pudicícias pensa você ter ofendido ao engastar, nos seus versos, inúmeros termos anatómicos que já são hoje do conhecimento das criancinhas da instrução primária?
A respeito de alguns poemas, mais longos, tenho às vezes pena de que não sejam menos longos: fosse eu entendido em poesia, gostaria de lhe poder explicar porquê. Mas, voltando aos outros, há pelo menos um, que me parece aliás encontrar-se a meio caminho entre os que são somente provocatórios e os que já são um tanto mais que provocatórios, em relação ao qual sinto simultaneamente uma certa frustração e uma espécie de fascínio, de perturbado fascínio. É aquele em que você colocou uma epígrafe do Vinícius de Moraes:

Julguei felizes as nuvens por não terem útero,
até me darem lástima por não terem nádegas.
Não quero dizer com isto que não tenham
muitas vezes a forma de um útero,
o volume de nádegas.

Também conheço algumas mulheres,
providas de útero e de nádegas,
que não passam de nuvens.

De tudo isto o mais feio
é só a palavra nádegas.

Só a palavra.

Falo por mim, e de mim, é claro.

Sabe você o que me apeteceu, assim que li estes versos pela primeira vez? Não, não lhe digo. Mas até cheguei a desejar que se anunciasse, em semelhante período, uma daquelas pediátricas reuniões que inevitavelmente nos aproximariam. Infelizmente não aconteceu. Por mais estranho ou paradoxal que pareça, também a Pediatria entra em férias durante o Natal. E soube, a seguir, que vocês tinham ido para o Douro, lá para casa dos seus sogros. E a minha mulher, prometendo a si própria um novo e ainda mais rigoroso regime de emagrecimento para depois das festas, sucumbia entretanto a variadíssimas tentações de broas e de filhoses, de bolo-rei e de rabanadas, de doces de chila e de lampreias de ovos, ora junto da minha mãe, sempre contemplada, no chamado lar a que recolheu, com duas visitas durante esta época, ora, mais amiúde, junto de três tias sobreviventes, ainda com boa dentição, por cujas velhas casas, respectivamente na Lapa, nas Amoreiras e na Estrela, generosamente se repartia, no louvável esforço de uma vez por ano reforçar, em relação à Terceira Idade, a atenção que mais assiduamente concede à Primeira». In David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz, Editorial Presença, Lisboa, 1986, Depósito Legal nº 10705/85.

Cortesia EPresença/JDACT

sábado, 28 de dezembro de 2019

Um Amor Feliz. David Mourão-Ferreira. «O fulgor dos seus joelhos, que a despeito das meias azuis-escuras se pressentiam ainda bem queimados pelo sol, irradiava em torno uma luzinha pestanejada, como que vinda de um calorífero meio escondido»

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«(…) Em vez de logo a convidar a visitar o meu atelier (o que sem dúvida teria feito se ela fosse apenas bonita) ou de piedosamente a convencer de que não era nada ignorante (o que decerto teria tentado se fosse um estafermo), surpreendi-me, de repente, como nem tendo ouvido o que acabava de ouvir, a encetar um requisitório, meio amargo, meio irónico, contra o carácter fictício de semelhantes reuniões. Foi então que pela primeira vez exprimi em voz alta, falando com ela, tudo quanto acabava de descobrir em matéria de alegorias; e devo tê-lo feito com alguma vivacidade, já que a presença de mulheres belas, ou mesmo nem tanto, continua a produzir em mim, quer nas palavras quer nos gestos, certo estado de efervescência a que a minha mãe sempre se declarou alérgica, mas a que as damas pedantes chamam brilhante, e que a minha pediatra, bastante mais sóbria, rotula apenas de clownesco. Desta vez nem era bem disso que se tratava. Qualquer coisa de mais espontâneo: uma simples necessidade de manifestar o que nesse instante estava a sentir; e de manifestá-lo, precisamente, à única pessoa que ali me parecia feita da matéria dos deuses e se me afigurava também um completo ser humano.
Tínhamo-nos entretanto sentado, a um canto da sala, em duas poltronas muito próximas. O fulgor dos seus joelhos, que a despeito das meias azuis-escuras se pressentiam ainda bem queimados pelo sol, irradiava em torno uma luzinha pestanejada, como que vinda de um calorífero meio escondido. Quase no canto oposto, conversando não sei se com a Magistratura se com o Ensino, a minha mulher, estoicamente de pé, em obediência a um teórico regime de emagrecimento de que nunca mais se vislumbram resultados animadores, lançava-me de quando em quando uns complacentes olhares, mais de nurse que de pediatra, assim vigiando o meu comportamento perante o sumptuoso brinquedo de empréstimo com que estava entretido. Às vezes até sorria, orgulhosa decerto por me ver tão ajuizado. Parecendo menos alta do que já foi, mas ainda imponente, e com o perímetro das suas ancas triplicado desde que há trinta anos nos casámos, mostrava-se mais sólida e inspirava maior confiança que todos ou quase todos esses bonifrates ali à nossa roda. O marido da Y, ao fundo, dialogando com a Diplomacia, mantinha-se negligentemente de costas para nós. E principiáramos a vogar, não sei como, através de uma conversa sobre viagens.
Vendo bem, a Itália, que a Y conhece como os seus dedos, só seria tangencialmente a Itália através de cujos caminhos rompi as solas de alguns sapatos, e onde estive mesmo à beira de romper outras coisas. Vendo bem, os Estados Unidos, aonde vai com frequência, não teriam muito em comum com o que dos Estados Unidos salteadamente conheço. Mas o que me surpreendia era a extrema gentileza, envolvente e receptiva, da atenção com que me escutava. E, ambos estávamos de acordo sobre o ponto mais importante: que apenas em Roma ou em Nova Iorque, para não falarmos senão de grandes cidades, nos agradaria viver por muito tempo. Roma? Sim, claro que sim, pensava eu. Mesmo apesar de certos brados de indignação, no mais puro linguajar carioca, que ainda hoje devem atroar a superfície de uns tantos muros da Via Giulia; mesmo a despeito de certo momento que foi tão difícil de passar junto a uma fonte da Piazza Navona... Ah, só alguém com estes olhos mais que verdes, mais que azuis, conseguiria definitivamente varrer, de tais lugares e da minha memória, a acusadora imagem de outros olhos também claros mas de nenhuma tranquilidade. Principalmente em Roma..., acrescentou a Y. Roma, então... para sempre. Mas eu senti que seria ridículo dizer o mesmo, já que o meu sempre teria decerto um horizonte mais limitado». In David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz, Editorial Presença, Lisboa, 1986, Depósito Legal nº 10705/85.

Cortesia EPresença/JDACT

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Um Amor Feliz. David Mourão-Ferreira. «Mas, terminado o jantar e refluídos todos os convivas para o salão das ditas telas e dos ditos objectos, eis que a belíssima semiestrangeira dos olhos mais que verdes, mais que azuis…»

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«(…) Logo a seguir perdi-os de vista, sorvidos ambos na voragem da apresentação a outras figuras alegóricas, no entrechocado rumor de copos, de risos, de bandejas e de conversas, enquanto eu próprio, subitamente cercado pelas ambulantes alegorias da Política (homem), da Música (mulher) e da Diplomacia (assim-assim), me vi solicitado a concordar com todos eles, e cada um, sem ter opiniões de espécie alguma, julgava tê-las muito diferentes umas das outras, acerca do que deveria ser a nossa participação na próxima Bienal de Caracas ou de Bogotá. Reduzidas as inexistentes discordâncias ao confortável denominador comum do sim-mais-que-também, do antes-pelo-contrário e do pois-pois-talvez-porque-não, apareceram-me a Informação e a Literatura (ambas mulheres, e ambas escanzeladas ruínas que outrora conheci ainda na fase de monumentos) a reclamarem-me ansiosamente, decerto como variante à deglutição de sucessivos e vomitivos aperitivos, que lhes contasse aquela história que a segunda me tinha ouvido, quinze dias antes, na Galeria S. Mamede, sobre o recente e simultâneo aparecimento de riquíssimos poços de petróleo nos Jerónimos e na Batalha, no Templo de Diana e no Mosteiro de Alcobaça, na Torre de Belém e no Convento de Tomar, aparecimento de todo inventado, como é óbvio, mas que teria, quanto a mim, a dupla vantagem de resolver os problemas da nossa desgraçada economia e de melhor confundir ainda os ânimos estéreis de muitos dos meus confrades, cada vez mais preocupados com a salvação do nosso património cultural, mas cada vez menos capazes de o irem acrescentando.
Lá me esquivei o melhor que pude à insistência das duas escanifradas e ambulantes ruínas, garantindo-lhes que já estava a escrever (mentira), como derivativo a outros trabalhos, essa inocente historieta de art fiction, e que teria muito gosto em brevemente lhes enviar a ambas, só para elas, claro, e que as não divulgassem, umas cópias dactilografadas. (Nova mentira, evidentemente: viesse eu algum dia a escrever a historieta, quem me dera que a Literatura ma apreciasse, que a Informação ma difundisse! No fundo não passo de um escritor frustrado). Entretanto, abriram-se as portas ao fundo da sala, e logo a Informação e a Literatura, já cientes dos lugares que lhes competiam, foram das primeiras a precipitar-se por entre as seis ou sete mesinhas armadas no aposento contíguo. E eu, que me esquecera de consultar no vestíbulo o plano da distribuição dos lugares, só a custo verifiquei que me tinham emparedado entre uma corpulenta encenadora que sem dúvida representava o Teatro e uma redonda mas minúscula deputada que fiquei sem saber se simbolizava toda a Assembleia da República ou simplesmente os Direitos da Mulher. Não me era, nenhuma delas, graças aos deuses, nem suficientemente íntima nem completamente desconhecida para que eu tivesse de fazer grandes despesas com a conversa. E, graças aos deuses, acabava de sentar-se, na mesa ao lado, quase defronte de mim, sorrindo-me como se já de há muito fôssemos conhecidos, como se desde sempre nos tivéssemos conhecido, a belíssima estrangeira, ou quase, dos olhos incomparáveis. Mesmo sentada, parecia mais alta que duas ou três, entre elas a Publicidade, que por ali cirandavam ainda à procura dos respectivos lugares.
Terá sido a franqueza da minha inofensiva admiração, estética, digamos, o que imediatamente lhe inspirou confiança? Ou a aparente respeitabilidade da minha grimpa já um tanto grisalha? Ao longo do jantar, ambas as hipóteses me ocorreram: nem uma nem outra de facto estimulantes. Melhor seria contentar-me com o belíssimo espectáculo que me era inesperadamente oferecido; e que me compensava, só por si, de toda essa estopada alegórico-mundana. Mal o espectáculo findasse, escapar-me-ia com a minha mulher, tão depressa quanto possível, para longe daquele antro, sofisticado e ruidoso, de civilizados ameríndios. Quanto a mim, aliás, demasiado civilizados; ou excessivamente pouco ameríndios. Tinham-me logo dado náuseas, no vestíbulo, as revulsivas ornamentações com que esses pobres nómadas de primeira classe, mas de aspecto francamente aciganado, exuberantemente assinalavam o Natal já muito próximo. Depois, no salão, os objectos pseudo-incas ou pseudo-aztecas, diante dos quais se tinham extasiado as tontas da Música, da Informação e do Teatro, só conseguiam ser ligeiramente menos horrendos que certas pseudotelas de pseudodiscípulos do Kandinsky e do Klee, que os donos da casa tinham carregado como lembrança e testemunho da sua anterior passagem por um consulado na Alemanha Federal.
Mas, terminado o jantar e refluídos todos os convivas para o salão das ditas telas e dos ditos objectos, eis que a belíssima semiestrangeira dos olhos mais que verdes, mais que azuis, subitamente largando, lá ao fundo , sem grandes cerimónias, os alegóricos representantes da Política e da Economia, de quem já a tinham flanqueado durante a refeição, vem muito pausadamente ao meu encontro, sorrindo sempre, para apenas me dizer isto, na sua voz baixíssima, quase um murmúrio, com leve sotaque, mas sem a mínima inflexão interrogativa: sabe que não conheço nenhum trabalho do senhor. Depois emendou: nenhum seu trabalho. E acrescentou: a culpa é minha. Sou muito ignorante». In David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz, Editorial Presença, Lisboa, 1986, Depósito Legal nº 10705/85.

Cortesia EPresença/JDACT

Um Amor Feliz. David Mourão-Ferreira. «Nessa noite, se não me engano, a minha mulher e eu simbolizaríamos a Medicina e a Arte: tudo era demasiado genérico para que pudéssemos simbolizar»

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«(…) E foram precisamente os olhos, por me parecerem de todo inacessíveis, por a tornarem de todo inacessível, que me deram nessa noite a coragem de a olhar de frente. Mas sem a mínima veleidade, juro!, de algum dia a seduzir ou conquistar (abomináveis palavras!), apenas com aquele emocionado fervor, também isento de qualquer intenção de posse (outra palavra detestável!), que nos tira a respiração diante de uma obra-prima; e obra-prima tanto mais inesperada por só em trânsito se encontrar num museu medíocre, ou pelo menos anódino, aonde apenas fomos por acaso e aonde é bem provável que nunca mais tornemos.
Tratava-se do primeiro grande jantar oferecido por um desses casais de diplomatas latino-americanos que misteriosamente conseguem ter já entrado em relações, seis meses depois de aqui terem chegado, com todas as pessoas, mesmo todas, pensam eles, que se lhes afigura indispensável conhecer em Lisboa. Um daqueles casais que devem dar-se ao pacientíssimo trabalho, semanas a fio, de criteriosamente agrupar esses manequins em alegóricas parelhas, conjugais ou não, para que do modo mais adequado eles representem, sei lá, a Política e a Literatura, a Diplomacia e a Técnica, a Economia e o Foro, a Música e a Indústria, a Televisão, os Transportes, o Turismo, o Teatro, o Toureio.
Nessa noite, se não me engano, a minha mulher e eu simbolizaríamos a Medicina e a Arte: tudo era demasiado genérico para que pudéssemos simbolizar, mais especificamente, a Pediatria e a Escultura. E, quando por fim chegou aquele casal de estrangeiros relativamente aportuguesados (além de relativamente mais novos que a maioria dos presentes), ninguém terá ficado com grandes dúvidas: se o marido representava a Finança, a Agricultura ou o Investimento Estrangeiro, a mulher, essa, não poderia ali comparecer senão como perfeita imagem da Beleza. Nem outra devia ter sido a estratégica intenção dos donos da casa. No momento das apresentações, eis a designada figura da Beleza (que só por esse facto me estava a causar uma certa antipatia) detendo-se diante da minha mulher, com um sorriso muito simples que imediatamente me desarmou: boa noite, senhora doutora. Não se lembra de mim? A doutora tratou a minha filha quando a minha filha era pequena... A Vicky... Ah! Claro, claro. Lembro-me muito bem.
Depois, perguntando-lhe a minha mulher como estava a pequena, a mãe da Vicky (que não tem forçosamente de se chamar Vicky), erguendo a mão quase à altura da sua própria testa, no gesto de quem desenha no ar o vulto de uma rapariguinha já muito espigada, murmurou, por entre o mesmo bonito sorriso, desta vez um tudo-nada melancólico: assim... Deste tamanho. A dona da casa, que de caninos arreganhados vigiava a cena, incamente ou aztecamente pacientou, a pé firme, enquanto a mãe da suposta Vicky fornecia à minha mulher mais algumas informações suplementares: que a pequena estava a passar muito melhor da asma; que continuava no Liceu Francês; que dentro de dois anos iria estudar para a Suíça; e que viviam ainda, claro está, na mesma quinta dos arredores de Sintra.
Só então compreendi a inca ou azteca paciência da anfitrioa: não estava disposta a que eu fosse apresentado pela minha mulher, ou apenas como marido da minha mulher, o que igualmente redundaria em manifesto prejuízo do carácter alegórico da sua festa; e fez questão, como já acontecera com todas as precedentes apresentações, em acompanhar o meu nome (pois não representava eu ali a Arte?) da necessária referência à minha actividade de escultor. Mas a mãe da pseudo-Vicky, embora sorrindo sempre (ah, que bonito sorriso o seu!), limitou-se a dizer, em voz muito baixa, no tom quase velado em que sempre parecia exprimir-se: tenho ouvido falar. Quase ao mesmo tempo, o shake-hand do marido foi desenvoltamente solene como seria de esperar dos seus óculos de tecnocrata; mas também sobriamente desportivo como convinha à sua pele bronzeada em pleno Inverno». In David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz, Editorial Presença, Lisboa, 1986, Depósito Legal nº 10705/85.

Cortesia EPresença/JDACT

domingo, 12 de março de 2017

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «Há quarenta anos que Riquer não é o meu chefe, mas sim meu mestre. E assim continua. Não é insultante o tom de Myrna, mas sim completamente irónico»

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«(…) É que a lenda arturiana é uma certeza em si mesma, como a religião católica ou a terapia à base de pílulas de alho. A Myrna quer brigar comigo e exibe a sua expressão mais desafiante enquanto me diz: eu creio como Hume, insisto, Hume, David Hume, meu compatriota, que só são válidos os raciocínios experimentais relativos a factos ou à experiência. Citar Hume nesta altura é como citar Santo Agostinho a propósito do Bem e do Mal. Todas as tuas dúvidas racionalistas rendem-se perante o teu filho adoptivo, Parsifal, o demandador do Santo Graal. - E quem é que te disse a ti que verdade é que estou à procura quando ironizo sobre o evidente, a cristandade do mito do Santo Graal? Ainda que seja por vezes tão idealista, estou de acordo com Duby quando diz que o historiador destas épocas avança às cegas e algumas das suas perguntas permanecem sempre sem resposta. Isso já o disseram Agamémnon e o se porqueiro. Não é um demérito, pelo contrário. O fascinante do passado e muito especialmente da Idade Média e tudo o que não sabemos. Porque é que mentes a ti própria? O que fascina é a loucura do cavaleiro à procura da transcendência, não o que essa enteléquia revela das condições subjectivas e objectivas comprováveis no século XII ou XIII. Quando eu me meti no romanismo a visão erudita dominava tudo, acumulativa de grandes ou pequenos desvelos e, agora, assume-se, pelo contrário, maioritariamente, como um avant-la-lettre do realismo mágico. Isso explicaria, por exemplo, o trabalho de Vargas Llosa sobre uma obra capital do cavalheirismo, Tirant lo Blanc. que, a propósito, foi assessorado pelo teu chefe, Martín de Riquer.
Há quarenta anos que Riquer não é o meu chefe, mas sim meu mestre. E assim continua. Não é insultante o tom de Myrna, mas sim completamente irónico, sobretudo a última afirmação dirigida ao Prémio Carlomagno e ao homem mais homenageado, pelo menos, das ilhas de San Simon, e assim o entendem os outros porque se riem da graça e conseguem dissipar toda a sombra de oposição na nossa sobremesa, que para meu desespero se alonga até que aparecem os primeiros bocejos, entre eles os meus, invasores, sem misericórdia para com o desejo que os meus olhos enviam a Myrna. Basta já de dizer disparates. Deixa que este par de mentecaptos vá para a cama. E quando parece evidente que vão para a cama, procuro na minha carteira a pílula de Viagra e engulo-a com a ajuda do resto de um excelente vinho de Gytian. Há que controlar o açúcar no sangue, justifico-me e Myrna aplaude. Finalmente descobrimos onde é que o emérito doutor Júlio Matasanz guarda o açúcar.
Despedimo-nos os quatro à medida que chegávamos aos nossos quartos, Myrna no primeiro andar, pelo que digo em voz alta: tens cá uma sorte. Eu estou no trezentos e um. Uma suíte mas lá em cima, lá em cima. Os outros descolam e entro nos meus aposentos, tentando adivinhar os efeitos que a pílula pudesse ter causado na minha psique ou no meu chouriço, e como a psique parece excitada, o chouriço permanece em repouso e à espera, talvez, da provocação da presença física de Myrna. Da presença física de uma mulher quase sessentona que já não encaixava no formato da exaltante Myrna War Breast de há trinta anos? Não quero ficar a sós com esta evidência, não fosse os efeitos do Viagra reagirem ao contrário, e visto quanto antes o pijama à espera que Myrna toque à minha porta, enquanto a recordo anos atrás em sequências estimulantes que não chegam à minha memória com a fluidez esperada, pelo contrário, aparecem como ruídos outras situações como aquela em que Myrna muito bêbeda começou a mi… quando eu tentava penetrá-la por detrás e no dia seguinte, morta de vergonha, não assistiu às sessões do congresso. Já passou um quarto de hora desde que tomei a pílula de Viagra e começa a ser urgente que Myrna War Breast se apresente com toda a sua matéria da Bretanha, e assim o interpreto quando oiço toques discretos na minha porta. Não posso evitar levar a mão ao sexo para verificar se prometia uma alta madrugada sem piedade e noto-o quase a fazer recordar os seus melhores momentos, mas ao abrir a porta de sorriso feito sai-me o Estremoz com cara de delinquente biológico. Desculpa que te incomode, mestre, mas não terás por aí algum digestivo ou sais de frutos? Os mariscos caíram-me mal nas úlceras e o senhor da recepção disse que ainda não reabasteceram a farmácia. Até amanhã». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sexta-feira, 10 de março de 2017

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «Desta fonte não te aproximes nem sequer um pouco encontrarás outra que da Lagoa da Memória faz brotar a sua fresca água»

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«(…) Erec e Enide são dois pedaços de carne baptizados, sentenciou Estremoz: tem um grande mérito que te atrevas com esses dois adolescentes, dois marmelos que Chrétien Troyes inventou para expor uma fábula sobre o amor segundo as chaves do século XII. Ou a senhora ia para a cama com o seu guarda-costas, caso de Guinevere e Lancelote, ou iam os amantes jovens fazer garganteios para as florestas desfolhadas. Atrevo-me a lembrar-te que nem Erec nem Enide foram duas invenções de Chrétien Troyes e que toda a mitologia arturiana parece nascer de si própria. embora se sustente a historicidade da maioria das personagens, de Artur por exemplo, em relatos como Sueño de Rhonabwy, onde aparece metade deus metade guerreiro. Já Rhys, demonstrou que Artur é a resultante lendária de diferentes chefes militares por vezes medievais e pode-se mais ou menos rastrear essa historicidade nos outros cavaleiros da Távola Redonda. Erec está inserido na tradição celta e assim se configurou o Gereint Mabinogiou. Geoffrey Mobinogiou descreve Artur como um guerreiro contra Hades, não contra Roma. Figueiro converte-se num director de orquestra sorridente e dá a entrada a Myrna, mas nem ela sabe a quê.
Hades, Hades..., recorda, Myrna. Encontrei nas moradas de Hades, à direita, uma fonte... Myrna descobre o que lhe pede Figueiro e a duas vozes recitam a tabuinha órfica de Petélia que está no British Museum.

Encontrei nas moradas de Hades, à direita, uma fonte,
e junto dela erguido um branco cipreste.
Desta fonte não te aproximes nem sequer um pouco
encontrarás outra que da Lagoa da Memória
faz brotar a sua fresca água. Diante estão os guardiães
diz-lhes: sou filha da Terra e do Céu estrelado,
a minha linhagem também é celeste. Vós já o sabeis
estou seca de sede e morro. Pelo que dai-me já
a água fresca que flui da fonte da Memória...

Figueiro e Myrna estão emocionados como só o estariam um tenor e uma soprano no final de um dueto e comentam que era a reivindicação mais melancólica da Memoria que nos tinha legado a literatura antiga, e apoiado por este triunfo emocional, Figueiro crê chegado o momento oportuno de voltar ao rei Artur para reforçar: que Artur fosse, já, uma personagem sem dúvida histórica, não retira a aura lendária que envolve tudo o que diz respeito ao arturiano. De tudo isso emana um encantamento simbólico e ritual situável num território igualmente imaginário.
Não discordo desta afirmação do português, mas parece-me absurdo nesta altura da minha vida e das indagações sobre a chamada matéria da Bretanha, que ainda insistamos na historicidade de Artur e dos seus cavaleiros. A matéria da Bretanha tem valor por si mesma e em si mesma, como uma religião ou uma cultura, e insistir nas suas historicidades faria parte de um dos cinco milhões de inutilidades em que se poderia empenhar qualquer inteligência com vontade de perder tempo. Era já um passo em frente que um marxista como Figueiro d’Amaral assumisse o simbólico como um valor per se e abandonasse o neopositivismo ao Círculo de Viena, um empirismo logicista ou materialismo dialéctico para tirar a magia à demanda do Santo Graal ou aos jogos de recuperação amorosa de Erec. Pois bem, Myrna põe-se neopositivista e arremete contra o idealismo que sobrevive como prova convincente para aceitar como se fosse certa a lenda arturiana». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «… uma tese sobre a minha contribuição para o estudo da canção nacional espanhola e que se comovia cada vez que eu murmurava: este niño se lleva la flor. Que los otros no»

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«(…) Ainda que este tipo de encontros livres tivessem praticamente desaparecido nos últimos cinco anos e eu retivesse como uma sombra do meu amor-próprio os semifracassos sexuais dos últimos congressos: Leyden, Madrid, Montpellier, que me tinham obrigado a interpretar perante o doutor Buscarons o estúpido papel de marido septuagenário escassamente atraído, já, pela sua própria esposa e necessitado de uma sexualidade bioquímica. Viagra, disse ele, enquanto o seu cérebro procurava contra-indicações e não as encontrava. Não. Não és cardíaco. Não. Não sou. E receitou-me Viagra quarenta e oito horas antes de partir para a Galiza, um tesouro de comprimidos romboidais escondido na minha carteira. Um comprimido meia hora antes mais ou menos da previsão da situação sexual e relaxação mental, como antes, dissera-me Buscarons, como se antes fosse o tudo e agora o nada. Também não era assim. O meu cérebro deseja, mas ainda não o faz a partir da derrotada percepção do ancião no qual sobrevive o desejo e não a potência, mas sim da angústia do homem que necessita uma transfusão de mulher e pressente que já não seria fácil para ele procurá-la entre as mulheres jovens e sobretudo novas, à maneira das terras virgens que propiciam a tensão da conquista. Por vezes ainda pressinto uma tensão homem-mulher com as minhas alunas e deixar-me-ia levar por ela, como noutras ocasiões, mas o sete da minha nova década paralisa-me, activa o sentido do ridículo e a substituição do tal como sou pelo tal como me vêem. Jamais, jamais se disse que o doutor Matasanz cometera um deslize ao insinuar-se a esta ou aquela aluna ou professora auxiliar, nem nunca se me atribuiu fracasso algum na cama, podendo exibir uma agenda cheia de direcções propícias, mas que correspondem a mulheres que cresceram comigo, que se gastaram comigo e que só as poderia convocar para que me aplaudissem ou para que eu as aplaudisse a elas, tudo menos convocá-las para uma operação harém saudade em que Paquita Rubial exercesse o papel de esplêndida mamona mas com meia dentadura já postiça ou Mercedes Anglés voltasse a insistir em que lhe atasse aqueles noutros tempos transparentes punhos dos quais se prolongava um dorso de navio, dos melhores navios, com um … no qual se podiam comer sopas e uma c… dantesca, não debalde por mim se vai à cidade doente, escreve Dante. Outras quinze sobreviventes na minha memória erótica, de um total de quarenta e cinco mulheres que me acompanharam numa cama ou num instrumento equivalente, conduziam-me a uma sexualidade memorizada, mas não havia carne fresca, salvo a daquela bolseira italiana empenhada em levar para a frente uma tese sobre a minha contribuição para o estudo da canção nacional espanhola e que se comovia cada vez que eu murmurava: este niño se lleva la flor. Que los otros no.
Este menino leva a flor, os outros não, digo a Myrna mal fica envolvida pelos três homens que a esperavam meditativos sobre as bondades de um menu escasso, mas atractiva a caldeirada ou o sortido de mariscos, por mais que o português lhes oponha a maldição daquele que partilha o seu corpo com o colesterol. Você não tem colesterol? Não, mas poderia ter. É uma graça indirectamente dirigida a Myrna, acostumado a que se ria de tudo quanto diga, inclusive das anedotas mais disparatadas e, com efeito, desata-se a rir, ciente de que o faz sem sentido da adoração, mas sim como um simples acto reflexo compensatório do meu trabalho. Um caldinho e pernil com grelos, peço para estupefacção de Estremoz García e Figueiro d’Amaral, carcomido o primeiro por todas as úlceras que cabem num estômago humano e muito especialmente as de um catedrático por oposição, e afogado em colesterol o português, como só se pode afogar em algo um português. Totalmente. Myrna olha para mim com um ar gozão e desafiador. Está a dizer-me: logo não vais poder dormir, e sabia que eu lhe estava a responder: isso depende de ti. Os outros dois estão interessadíssimos na minha intervenção no congresso, ambos surpreendidos pela minha dedicação a Erec e Enide, os dois mitos arturianos menos estudados pelos investigadores, talvez porque não escondam qualquer mistério». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «Não. O sentido demasiado vulgar com que utilizas a expressão de “a ideia platónica do egoísmo”. Sei que é frequente a utilização desta fórmula, mas não é clarificadora…»

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«(…) Acompanho-os até aos seus quartos, sublinhando com um gesto que o de Myrna estava demasiado afastado da minha suite e nos seus olhos presumi a picardia de uma interrogação. Achas? Ficámos de nos encontrar um quarto de hora depois para o jantar e aproveito o tempo para pentear a minha cabeleira branca, levemente azulada por causa dos cosméticos, essa cabeleira que as minhas alunas adoram quando pousa sobre ela um raio de sol, o raio de sol de sempre, que penetra pelo vitral de sempre, ao longo dos meus quarenta anos de docência como catedrático e que já desde as suas origens adivinhou a situação exacta das minhas prematuras cãs. O cabelo e as mãos. Sei que gostam das minhas mãos capazes de traçar sulcos no ar, que secundam as minhas explicações sobre o papel do veado nos rituais célticos, o animal que fazia a ligação entre os deuses e os homens, aqueles que conduzem à sidh, o além-túmulo, ou o traçado das minhas mãos no ar atrás da metempsicose nas origens de crenças sobre a transmigração das almas de uns corpos para os outros. Através do movimento das suas mãos percebemos a corrida do veado ou o momento em que as almas saem de uns corpos e ocupam outros, diziam-me as raparigas com entusiasmo. Nos anos 50 aplaudiam, por vezes, o final das minhas aulas. Nos anos 60 foi desaparecendo esta possibilidade à medida que os estudantes se tornaram politicamente mais activos e didacticamente mais desconfiados e, inclusive, provocadoramente cínicos, embora possa dizer, com orgulho, que nunca tive nas minhas aulas nem um princípio de contestação, nem meia algazarra, o que os meus colegas não gostavam nada. E que para os rapazes tu és o saber e isso não discutem, por muito que leiam O Idiota da Família. Não liam O Idiota da Família, mas eu sim, com a mesma curiosidade com que lia o Hara Kiri ou o National Ramport ou a Vogue, para estar em dia com tudo e ter a réplica adequada a qualquer intervenção de um delegado de turma ou de qualquer das amigas de Madrona que tinham alcançado graças à Dunia ou à Vogue uma certa capacidade de entender, por fim, a sua condição feminina, não aos níveis de Simone de Beauvoir, mas quase. A Myrna ria-se do que chamava a minha versatilidade intelectual, paralela por vezes, convergente outras com a minha versatilidade vital e considerava-se uma especialista nas minhas versatilidades desde que no começo da nossa relação fixámos mais de uma vez a hora da verdade, o momento em que eu chegaria a um congresso com uma mala maior do que a habitual e viveríamos juntos para sempre. Quem perde a cátedra? Questionei-me, questionou-se, questionámo-nos e ela estava decidida a perdê-la. E faço-o consciente de que sou uma imbecil, de que atraiçoou mais de cem anos de luta pela igualdade das mulheres e que tu não mereces que eu faça este gesto porque és um egoísta, não um egoísta mais, o egoísta por antonomásia. A ideia platónica do egoísta. Não é verdade. Não é verdade? Que tu sejas um egoísta? Não. O sentido demasiado vulgar com que utilizas a expressão de a ideia platónica do egoísmo. Sei que é frequente a utilização desta fórmula, mas não é clarificadora da verdadeira dialéctica platónica. No platonismo as ideias não são necessariamente protótipos que actuam como referentes comparativos do real. Vai levar no …, atirou-me em corectíssimo castelhano e quando verificou que as minhas malas eram as de sempre, ou seja, aquela mala funcional com rodas. uma das primeiras, que tinha comprado em Colónia, deduziu ou induziu que não, que não viveríamos juntos para sempre e não foi por isso que deixou de ir para a cama comigo naquele encontro, embora a notasse um pouco distante, precisa e terminante como sempre, mas distante, como se estivesse e não estivesse comigo. como se aguardasse com impaciência o final dos coitos e do congresso. Vinte anos separavam-nos daquele encontro clarificador, uns dez congressos ou simpósios mais, uma ou outra celebração especial de homenagem a uma qualquer glória das literaturas românicas. E nunca mais voltámos a falar da possibilidade de fugir de nós mesmos para sermos outros. juntos, mas outros, e, no entanto, tínhamos de repente a necessidade de nos encontrar sem esperar congressos reais e eu inventava pretextos para viajar a Londres ou ela para vir até Barcelona, Madrid ou Granada onde nos encontrávamos porque sim, porque necessitávamos de o fazer». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «Oferece-me a sua face para que a beije e procuro aproximar o meu beijo à comissura dos seus lábios, ao mesmo tempo que estendo a mão aos dois cabrestos arturianos…»

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«(…) Com Figueiro d’Amaral tive um debate quase furioso no encontro arturiano de Saint-Malo quando eu defendi a tese de que o ciclo de Chrétien de Troyes testemunha a crise da cavalaria ou o início da irreversível crise da cavalaria e que só a chamada literatura cavalheiresca manteve com vida o mito do cavaleiro medieval até que foi definitivamente substituído pelo mercenário renascentista e mesmo admitindo que alguma vez houvesse cavaleiros como aqueles que foram descritos literariamente, estiveram sempre muito próximos de ser mercenários, como é o caso do Cid, invento que por vezes creio historificado e outras meramente literaturizado pelo não menos eminente don Ramon Menéndez Pidal. Que zombasse sobre a existência real ou literária do Cid indignou o português, que começou a gritar disparates como, por exemplo, que ele, apesar de ser marxista-leninista, insistiu, marxista-leninista, acreditava na existência histórica do Cid e na honesta historicidade do Cantar del Mio Cid. Disse-lhe que eu não era marxista-leninista, mas sim só aproximadamente popperiano e não acreditava nem deixava de acreditar na existência real biológica ou literária do Cid, antes pelo contrário. Quando recuperei o meu assento junto de Myrna senti um beliscão no antebraço e um sussurro junto da minha orelha: desde quando é que tu és popperiano? Disse-o só para o fo… Quanto ao outro, o extremado Estremoz, repetia até à exaustão que era meu discípulo, apesar de se ter doutorado pela Universidade de Salamanca, e tudo isso porque fiz parte do júri do seu doutoramento e também do que lhe outorgou a cátedra, votando a seu favor porque a tese de doutoramento não era má e os meus votos para a sua cátedra outorgavam-me os de outros dois membros do júri quando eu quisesse beneficiar um dos meus discípulos optantes igualmente à cátedra. Sabia, pois, que mal me visse no cais, o grande cretino do Estremoz García se baixaria em inclinada reverência e exclamaria: salve, divino mestre!
E o menéndezpidalianomarxistaleninista português faria com a mão uma pistola e dava-me dois tiros, enquanto os olhos de Myrna me diriam: não os pude evitar. Mas alguma coisa transtornou as nossas vidas porque, à medida que se aproximam, os três olham-me cada vez mais sorridentes e já desembarcados não há salve nem tiros, nem os olhares cúmplices de Myrna, como se alguma coisa tivesse mudado em mim, não neles, e a minha nova natureza os forçasse a alterar a pose em presença de um ilustre professor já embalsamado e Myrna capta-o melhor que ninguém porque adopta compostura de récita teatral e exclama: Deus salve Carlos Magno, aquele por quem a alegria e o prazer regressou à nossa corte! Deus salve o mais bem-aventurado dos criados por Deus ! Era mais ou menos um fragmento coral do final de Erec e Enide, com o acrescento da alusão ao Prémio Carlomagno, e agradeço com um sorriso que procuro que seja simpático. Oferece-me a sua face para que a beije e procuro aproximar o meu beijo à comissura dos seus lábios, ao mesmo tempo que estendo a mão aos dois cabrestos arturianos, que ma apertam com vontade de ma amputar. Como é que se come por aqui? Myrna tinha chegado com uma das suas fomes míticas e era inútil desviá-la desta obsessão quando o corpo lhe pedia alimento e calorias, pelo que ilustrei-a sobre o digno jantar que a esperava no hotel, tendo em conta que o seu funcionamento estava em fase experimental e em certo sentido tinha-se esforçado para receber a minha homenagem. Ocupa-nos tanto o cérebro o ruído do rodar das malas sobre o empedrado que não fica espaço mental para urdir uma conversa e as sombras não ajudam a que os meus olhos ou os de Myrna transmitam uma mensagem suficiente. Mas o seu meio-sorriso revela-me que está consciente de que há uma conversa muda entre nós e que se tornaria explícita mal superássemos os obstáculos da fome, do português e do cretino do meu falso discípulo falsamente predilecto. Recordei-a nua, acentuando com as suas mãos a tenacidade dos seus seios, despreocupada da humidade quente do seu sexo loiro e não fui capaz de juntar a imagem com o seu tempo ou com o seu exacto congresso, ou talvez fosse o ícone erótico que sugeria a história dos nossos encontros arturianos acamados». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O Bibliotecário. A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Era aceitável que se despedissem para tratar cada um dos seus assuntos como se a conversa sobre um colega morto fosse uma coisa banal? Por certo haveria mais coisas para dizer, alguém devia admitir…»

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«(…) Sabem quem disparou?, inquiriu Emily, com uma hesitação na voz que denunciou o seu próprio mal-estar. Continuava sem entender porque alguém quereria matar Arno Holmstrand. Era, sem dúvida, o rosto mais conhecido da universidade, mas era também um homem idoso, com bem mais de setenta anos. Essencialmente, era um ancião reservado e um pouco excêntrico. Não o conhecia muito bem. Haviam-se encontrado algumas vezes e Arno argumentara uns comentários estranhos acerca da investigação de Emily, os problemas que, já se esperavam que um velho professor levantasse sobre os trabalhos dos seus discípulos. Contudo, o relacionamento entre eles não passara disso. Eram colegas, não amigos. Todavia, isso em nada aliviava o choque. Uma morte no campus, e ainda por cima um assassínio, não era uma notícia de todos os dias. E Emily não podia evitar sentir um certo carinho por Arno, embora valorizasse mais a reputação profissional do professor do que o relacionamento pessoal entre ambos. Não fazem ideia, respondeu Jim Reynolds. Os detectives continuam no edifício e a ala encontra-se fechada. E assim ficará durante todo o dia. Ernily bebeu um gole de café frio, mas desta vez o gesto de levar o copo aos lábios pareceu forçado, óbvio, quase desrespeitoso. Era um comportamento demasiado normal para ser feito à luz de tais novidades. Nem acredito que isto tenha sucedido aqui. Maggie Larson ainda mostrava uma expressão de medo. Que alguém tenha tido a coragem... Deixou que se apagasse o eco das suas palavras. Havia uma declaração implícita: ninguém se sentia seguro agora que haviam assassinado um dos seus colegas. O grupo mergulhou num prolongado silêncio, interrompido apenas pela campainha a tocar atrás deles. A sessão seguinte de aulas estava prestes a começar. Entreolharam-se com preocupação antes de cada um seguir para as suas obrigações. Emily sentiu uma incómoda compunção quando tiveram de seguir caminhos separados. Era aceitável que se despedissem para tratar cada um dos seus assuntos como se a conversa sobre um colega morto fosse uma coisa banal? Por certo haveria mais coisas para dizer, alguém devia admitir a emotividade daquela situação.
Eu, bem..., lamento muito o que sucedeu ao Arno. Foi tudo o que conseguiu dizer. Estava surpreendida por aquela perda a afectar tanto. A reacção emocional que experimentava teria sido mais compreensível no caso da morte de um amigo do que de alguém como Arno Holmstrand, que nunca o havia sido. Aileen mostrou-lhe um ligeiro sorriso e abandonou o local. Lutando contra a comoção que sentia, Emily regressou ao seu gabinete, abriu a porta e entrou na minúscula sala. Era surpreendente a facilidade com que a disposição de uma pessoa mudava e quão avassaladora podia ser uma tragédia. Até ter recebido a notícia da morte de Arno, a sua mente estivera focada numa outra coisa: no encontro futuro com o homem que amava. A ú1tima quarta-feira antes do fim de semana prolongado de Acção de Graças significava apenas uma aula logo pela manhã. O resto do dia, se Emilv conseguisse, seria passado a tratar dos preparativos para a ansiada viagem que a levaria de Minneapolis a Chicago, onde passaria o fim de semana com o seu noivo, Michael. Haviam-se conhecido há quatro anos, também no período de Acção de Graças, ele era um inglês a estudar perto de casa na sua área de especialidade, e ela uma impaciente estudante de mestrado que fazia investigação no estrangeiro, tentando partilhar o significado da grande tradição americana com os antigos suseranos coloniais, e desde então, aquele era o dia deles.
Todavia, essa feliz recordação terminou de forma abrupta. O coração de Emily batia descontrolado e a adrenalina aumentara desde que soubera do assassínio ocorrido no campus. Fez um esforço para reprimir o mal-estar que sentia e ligou o computador na sua secretária. Por muito forte que fosse, o choque não podia roubar-lhe forças para encarar todo um dia de trabalho. Deixou cair para cima da mesa o correio que carregara na dobra do braço até àquele momento. Não reparou no sobrescrito amarelo colocado entre dois folhetos de cores brilhantes, porque ainda estava a pensar no assassinato e na sensação de perda. Os seus olhos não notaram a peculiar e elegante caligrafia nem se fixaram na ausência de franquia e de remetente. Foi algo que passou despercebido e se misturou com tudo o resto». In A. M. Dean, O Bibliotecário, A Biblioteca Perdida, 2012, tradução de Dina Antunes, Clube dos Livros, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Bibliotecário. A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Aquele indisciplinado não só o tratara com rudeza como lhe havia torcido o pulso. Fora de si, puxou as mãos contra o peito e esfregou-as para aliviar a dor. Enquanto girava na cadeira…»

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«(…) Os estranhos calafrios que tinham percorrido o corpo de Emily foram substituídos por pele de galinha. Um homicídio em Carleton College era algo inaudito, mas o assassínio de um colega... A notícia deixou-a assustada e em choque. Foi perseguido pelo corredor, acrescentou Aileen. Havia sangue no exterior do gabinete. Não vi o interior. A sua voz tremeu; olhou para Emily. Não deste conta que a polícia andava pelo campus? Emily, ficou paralisada com a novidade. Havia reparado nas viaturas da polícia quando estacionara o carro antes das aulas da manhã, mas não lhes dera importância. As forças da ordem não eram uma presença invulgar ali. Não tinha ideia de que era por isso. Emilv fez uma pausa antes de indagar: porquê o Arno? Não lhe ocorria que outra coisa perguntar. Não é essa questão que me preocupa, retorquiu Emma Ericksen, a colega de Emil-v em História das Religiões. E o que te preocupa?, quis saber Emily. Se atacaram e assassinaram um dos nossos colegas aqui, no campus, então quem é o próximo?

No exterior da sala de reuniões identificada como 26 H, Burton Gifford entregou a pasta de couro a um empregado e lançou-lhe um olhar que deixava claro o seu desejo de ficar a sós após a conclusão da reunião matinal. Desviando-se enquanto os restantes homens abandonavam a sala e percorriam o corredor em direcção à saída, ignorou os numerosos autocolantes de proibido fumar e sacou de um Pall Mall sem filtro de uma cigarreira que trazia no bolso superior do casaco e acendeu-o. Pertenceu à comissão consultiva de política externa do presidente durante os dois anos em que este havia permanecido no poder, sendo um leal apoiante do seu trabalho no Médio Oriente, apesar de o homem no comando não partilhar do seu desejo de que se mostrasse mais agressivo, que negociasse mais a reconstrução do pós-guerra. Tinha-se transformado num dos assessores mais influentes, levando a cabo tarefas políticas e assegurando que o presidente distinguia amigos de inimigos. Gifford vinha do mundo dos negócios, e os negócios não eram senão um mundo de contactos. Gostava de pensar que o presidente estava bem relacionado, ou menos bem relacionado, graças à sua sabedoria e influência. E não estava de todo errado. Ele era o tipo que facilitava os contactos, e o presidente a voz moral que depois os seleccionava.
Um homem chamado Cole permanecia imóvel nas sombras. O seu rosto invisível esboçava desprezo pelo corpulento e influente intermediário político, um homem poderoso de muitos contactos cujo aspecto evocava a imagem de um gato gordo. Estava inchado fisicamente e na sua vaidade. Nada mais existia senão aquilo que fosse relevante para os seus próprios desígnios. Era um defeito pelo qual pagaria, hoje mesmo. Gifford deu uma longa passa no corredor vazio, a beata meio fumada a pender dos seus lábios enquanto usava ambas as mãos para compor o casaco. Cole escolheu esse momento para sair de um gabinete situado do outro lado do corredor e assim aproveitar a distracção e a posição vulnerável daquele homem. Agarrou-o pelos pulsos e, com um movimento único e suave, arrastou-o de volta para a sala de reuniões. Que diabo está a fazer?, inquiriu Gifford, perplexo, deixando cair o cigarro dos lábios.
Não faça barulho e isto será mais fácil, replicou Cole. Manteve o sujeito preso com a mão esquerda enquanto com a direita fechava tranquilamente a porta atrás deles. E agora sente-se. Atirou o homem para uma das cadeiras recentemente desocupadas e situada em redor da enorme mesa de reuniões. Gifford estava indignado. Aquele indisciplinado não só o tratara com rudeza como lhe havia torcido o pulso. Fora de si, puxou as mãos contra o peito e esfregou-as para aliviar a dor. Enquanto girava na cadeira para encarar o seu atacante, pôs-se a arengar: aviso-o já, caro jovem, que não sou o tipo de pessoa que fica sentada e aceita este… Abandonou o discurso retórico a meio quando deu a volta por completo e conseguiu ver as mãos do seu agressor, que acabava de enroscar o silenciador a uma Glock 32 de calibre .357 SIG. Sei perfeitamente quem você é, senhor Gifford ,replicou Cole sem se dar ao trabalho de levantar a cabeça. É por isso que estou aqui.
A cólera condescendente e a sensação de superioridade de Gifford foram substituídas pelo terror e pela impotência. O que..., o que quer?, indagou sem tirar os olhos da arma. Este momento, respondeu Cole, que destravou a arma mal colocou o silenciador. Este momento é tudo o que desejo. Não entendo, proferiu Gifford, horrorizado, empurrando instintivamente a cadeira para trás, como se assim conseguisse alguma protecção contra a ameaça que tinha diante de si. O que quer…, de mim? Apenas isto, respondeu Cole. Não quero nada mais. Não se trata de um interrogatório nem de um rapto. Então, do que se trata? Cole ergueu por fim o olhar e fixou-o nos olhos aterrados de Burton Gifford. É o fim. Não..., não entendo. Sim, já imaginava que não ia compreender, declarou Cole, e disparou três balas ao coração de Gifford, que acabaram com a conversa. O ombro direito de Cole suportou o recuo da pistola e os disparos abafados pelo silenciador ecoaram ligeiramente na enorme sala. Gifford ficou de boca aberta ao ver o rasto de fumo sair do cano da arma donde foram disparadas as três balas que se encontravam alojadas na parte superior do seu corpo. Abateu-se sobre a cadeira quando o sangue começou a escorrer das feridas do peito e das costas. Cole viu-o exalar o último suspiro e desapareceu nas sombras». In A. M. Dean, O Bibliotecário, A Biblioteca Perdida, 2012, tradução de Dina Antunes, Clube dos Livros, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

terça-feira, 7 de abril de 2015

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «Compreendo que a letra é vexatória para a inteligência humana, mas uma certa dose de irracionalidade ajuda-nos a continuar a ser racionais no fundamental. Como este movimento irracional que me leva ao cais…»

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«(…) Já o conhecimento entre ele e ela parte da defesa contra os vexames do anão na presença da rainha Guinevere e para a continuação do seu renascimento como cavaleiro, Erec deverá salvar Enide dos três cavaleiros ladrões, de cinco cavaleiros agressivos, do conde Galoain, dos gigantes traidores ou do conde de Limours, o qual finalmente vence com a ajuda do rei Guivert, o Pequeno, um falso inimigo providencial. Depois Erec e Enide chegam à última prova, a libertação de Maboagrain, príncipe encantado, ligada à grande festa fim de trajecto, A Alegria da Corte, presidida por Artur e Guinevere, com a última prova do seu combate com Maboagrain, para libertá-lo da maldição que o obriga a defender um vergel que é, ao mesmo tempo, prisão de amor. As sequências finais de Erec e Enide foram sempre vistas por mim como agridoces, ambíguas, melancólicas apesar do final feliz. A Alegria da Corte, o nome da casa de Llavaneres que Madrona herdou da sua mãe e que se chamava estupidamente El Remolí de Vent e a que a minha mulher concordou em mudar o nome ainda que arguisse que A Alegria da Corte era demasiado parecido com La Alegria de la huerta, uma zarzuela que julgava ser inconsistente como todos quantos pensaram educar o seu gosto musical nos detestáveis, grosseiros e asfixiantes serões de ópera do Liceu. Eu tinha herdado do meu pai uma certa curiosidade pela zarzuela, já que ele se julgava um bom barítono e se atrevia a cantar quando eu era pequeno, nas escassas reuniões da nossa escassa família ou dos escassos amigos de meus pais. À medida que eu fui crescendo foi renunciando às veleidades líricas, talvez porque lhe desse vergonha fazê-lo diante de mim e recorria às sessões de casa de banho para entoar uma ou outra ária:

Mi aldea
como el alma se recrea al volverte a contemplar
mis lares
despues de cruzar los mares otra vez vuelvo a mirar.

O meu pai nunca tinha sido um homem demasiado expressivo, mas mais tarde compreendi que a minha ascensão cultural o tinha despojado do laconismo que exibia e, desde que eu passei o exame do Estado com distinção, reinava naquela casa o silêncio porque eles nem se falavam por cansaço e nem me falavam por timidez, e eu correspondia da mesma maneira, não por orgulho mas sim porque compreendi que o meu código nunca mais seria o seu. Mas, por vezes, canto zarzuela. Mais tenor que barítono lanço-me à La tabernera del puerto:

No puede ser
esa mujer es buena
no puede ser
una vulgar sirena.

Compreendo que a letra é vexatória para a inteligência humana, mas uma certa dose de irracionalidade ajuda-nos a continuar a ser racionais no fundamental. Como este movimento irracional que me leva ao cais para ver se chega a lancha de Myrna, um pouco angustiado porque só faltam dois barcos regulares e, ao chegar mais tarde, Myrna teria de procurar um barqueiro simpático que estivesse disposto a levá-la às ilhas. E rompe o mar, como se o iluminasse, a lancha que a traz, tenho a certeza, e confirma-o o brilho da sua cabeça dourada por um excelente tom que evoca a cor natural da sua bem acabada juventude, ainda que o meu prazer pela chegada se dissipe ao vê-la acompanhada por dois colegas que se vão, não pelo melhor, insinuando: o chato do Figueiro Amaral e o insuportável Aurelio Estremoz Garcia, para servir a Deus e a si como costuma repetir uma e outra vez, pensando que é engraçadinho ou ateu, na sua imperfeição». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

quinta-feira, 19 de março de 2015

Um Amor Feliz. David Mourão-Ferreira. «Decerto que também ela o entendeu como um tributo de homenagem; mas pairava não sei que sombra de insegurança na simplicidade muito frontal com que se deixava contemplar. Os olhos, enormes, inexcedivelmente bem talhados, mais que verdes, mais que azuis…»

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«(…) Deixemo-nos de complacências: não vale a pena iludir-me, porque é assim mesmo. Quanto mais os anos passam mais me interessa encontrar, na própria vida, aquela chamada Beleza, se possível com B grande, de que pareço fazer troça em quase todos os objectos que me saem das mãos. Ou, pelo menos, a plenitude, a beatitude que o usufruto de tal Beleza deveria trazer consigo. Se as traz ou não traz, já é outro problema. Não sei se o seu caso é igual, ou semelhante, ou um pouco diferente. Juraria, apesar de tudo, que nos encontramos ambos à deriva entre o que somos por dentro e o que a nossa época nos obriga a fazer. Os meus objectos! Já pensei chamar-lhes hobbyjectos; já desejei chamar-lhes hollyjectos. O meu marchand de Lausanne, esse desmancha-prazeres, é que tem torcido o nariz a ambas as designações. Mas não consigo deixar de realizá-los como qualquer coisa a meio caminho entre um passatempo e um culto. E sobretudo assim os entendo. O que não impede, é claro, que eles sejam antes, para a maioria das pessoas, mais dejectos que objectos, com bem pouco de divertido, muito menos de sagrado. E depois, ou antes, como se já isto não bastasse, aquela necessidade de uma espécie de orgasmo, de repetido orgasmo, que tanto existe no desejo de atirar umas palavras contra as outras como na fúria de fundir ou de confundir uns quantos materiais de natureza muito diversa. Talvez eu também saiba, a respeito da primeira dessas tarefas, um pouco mais do que você julga. É possível, sim, que sejamos crianças. Mas, dentro das crianças que somos, nunca tão-pouco deixámos de ser monstruosamente adultos.
E sempre me fez a maior impressão o raio de semelhança que existe entre a palavra adulto e a palavra adúltero. Adultos, adúlteros. Curioso! Aí estão duas expressões que nunca aparecem nas letras dos fados. Pelo menos, em nenhum daqueles que tínhamos acabado de ouvir. Mas nós os dois, só por meias palavras, ficámos então a saber que temos praticamente a mesma vocação. E que, no entanto, não haveria, de momento, grandes possibilidades nem grande interesse de a realizarmos em comum. Que antes existiríamos, de momento, para um ao outro nos compreendermos. Se é que não mesmo para mutuamente nos ajudarmos, você com a sua intuição, eu com a minha experiência. Ou vice-versa. Já percebi... O quê?, perguntei. Porque ficámos de repente calados. Então porque foi? Acendi-lhe mais um dos seus longos cigarros More. E você prosseguiu, por entre uma primeira baforada de fumo: Sabe tão bem como eu. Porque estamos aqui a pensar em duas outras pessoa... E com imensa vontade de falarmos delas. É, capaz de ser isso. Mas o melhor é não dizermos nada... Como queira. Só uma pergunta... Posso?... Claro que pode. Sobre a pessoa em que você está a pensar... Muito mais nova que você? Uns vinte anos. Parece-lhe muito? Parece-lhe de mais? Nem por sombras. De maneira nenhuma. E no seu caso? Uns vinte e tantos mais velho do que eu. Também deve estar certo. Claro que está. Isso posso eu garantir-lhe. Já dura há muito tempo? Há mais de um ano. E vocês? Menos. Bastante menos. Havia apenas um mês, nem tanto, que eu tinha conhecido a Y.

Ao longo de todo o jantar (tinham-nos colocado em mesinhas contíguas, mas, por sorte, quase defronte um do outro) sei que estive constantemente a olhá-la, que não podia sequer fazer outra coisa, e com tal insistência que seria desaforo se não se desse a própria circunstância da sua beleza. Decerto que também ela o entendeu como um tributo de homenagem; mas pairava não sei que sombra de insegurança na simplicidade muito frontal com que se deixava contemplar. Os olhos, enormes, inexcedivelmente bem talhados, mais que verdes, mais que azuis, na zona do inverosímil, já à beira do impossível. Tenho aí, dentro dessas pastas, dezenas ou até centenas de esboços, uns com o modelo à vista, outros bosquejados de memória, do pescoço da Y, dos ombros e do peito da Y, dos braços da Y, de todo o corpo da Y. Só nunca me atrevi a desenhar-lhe o rosto. Muito menos os olhos». ». In David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz, Editorial Presença, Lisboa, 1986.

Cortesia EPresença/JDACT

quarta-feira, 11 de março de 2015

A Biblioteca Perdida. Conhecimento é poder… A. M. Dean. «Sabendo de quê? Conhece Arno Holmstrand, da História? Claro, respondeu Emily. Todos conheciam o professor que era o baluarte do Departamento de História. Mesmo que Emily não pertencesse aos dois departamentos, o de História e o de Religião…»

Alexandria, Egipto 
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Minessota. 9h05
«(…) O dia que iria mudar a vida da professora Emily Wess começou de forma bastante banal. Não havia indícios de tragédia, nenhum sinal de urgência no modo como ela tinha começado a mesma rotina matinal que mantinha todos os dias durante o semestre lectivo. Tinha feito a sua corrida, dado a sua aula, bebido o seu café da manhã. Mesmo assim, enquanto o pesado ar de Outono que respirava todas as manhãs no campus do Carleton College passava por suas narinas, sentia que havia algo errado. Alguma coisa, que não sabia definir completamente, fez arrepiar sua pele quando ia da sala de aula para o seu gabinete. O dia tinha um aspecto estranho, um jeito incomum que ela não conseguia descrever. Bom dia, pessoal, disse ao surgir do corredor central do Leighton Hall, um edifício de três andares onde ficava o Departamento de Religião. Dirigiu-se para a porta que conduzia ao seu gabinete. Este fazia parte de um grupo de salas dispostas em torno de um pequeno espaço comum ao qual se tinha acesso por uma porta, que, não fosse por isso, não chamaria muito a atenção. Quatro outros professores tinham gabinetes no mesmo espaço. Eles, mais um colega, estavam de pé em um dos cantos quando Emily entrou. Ela sorriu, mas o grupinho estava completamente absorto numa conversa meio sussurrada. Depois de um período mais longo que o habitual, um olá emergiu em resposta vindo de alguém do grupo, mas ninguém se voltou para cumprimentá-la. Foi nesse momento que tomou consciência de uma atmosfera estranha que estivera presente durante toda a manhã e que até aquele momento não tinha captado completamente a sua atenção. Um silêncio esquisito tomava conta dos corredores. Seus colegas entreolhavam-se obliquamente e tinham expressões preocupadas.
Apanhando as chaves dentro da bolsa, Emily parou em frente a um conjunto de escaninhos e esvaziou o conteúdo do seu, uma braçada de correspondência: lixo postal que havia deliberadamente deixado acumular por duas semanas. Achava um aborrecimento fazer aquilo todos os dias. Continuava a ouvir as vozes abafadas dos colegas atrás dela. Olhou por sobre os ombros no momento em que encaixava uma chavinha na porta do seu gabinete. Um dos zeladores o encontrou esta manhã, disse uma voz baixa, deliberadamente sussurrada, que Emily pôde entreouvir. Não dá para acreditar, disse outra voz. Tomei café com ele ontem mesmo. Maggie Larson, a professora de Ética Cristã que fizera a última observação, tinha uma expressão sóbria no rosto. Não, pensou Emily consigo quando olhou com mais atenção. Ela parece perturbada. A sua curiosidade se aguçou quando ela percebeu que perturbada também não era a palavra certa. Não, ela parece amedrontada. Emily deixou a chave na posição em que estava na fechadura e virou-se para os colegas. Algo estava absorvendo a atenção deles. Algo que não parecia, ou não soava, bem. Desculpem-me, não quero parecer mal-educada, mas o que está acontecendo?, perguntou, dando um passo na direcção deles. Aquela estranha atmosfera de tensão ia ficando mais densa a cada palavra, mas Emily não sabia de que outra maneira poderia se inserir na conversa deles, já que não sabia de nenhum detalhe, nem mesmo sabia qual era o assunto.
Os outros, entretanto, não pretendiam mantê-la desinformada. Acho que ainda não está sabendo, respondeu uma colega. Aileen Merrin era professora titular da cadeira de Novo Testamento. Ela também fora membro da banca que seleccionara Emily quando ela se candidatou ao seu cargo quase dois anos antes, e Emily, desde essa época, nutria um carinho por ela. Emily esperava que, quando chegasse a época, ficasse tão bem de cabelos grisalhos quanto Aileen. Com certeza não, disse Emily tomando um gole de café frio de um copinho descartável. Feito havia mais de uma hora, tinha ficado frio, mas o acto de erguer o café até os lábios ajudava a disfarçar o embaraço daquele momento com algo um pouco mais normal. Sabendo de quê? Conhece Arno Holmstrand, da História? Claro, respondeu Emily. Todos conheciam o professor que era o baluarte do Departamento de História. Mesmo que Emily não pertencesse aos dois departamentos, o de História e o de Religião, ainda assim conheceria o académico mais famoso e eminente da faculdade. Ele descobriu algum outro manuscrito perdido? Ou foi expulso de algum país do Médio Oriente por ter violado as leis da escavação arqueológica? A seu ver, toda a vez que se fazia menção ao nome de Holmstrand, era no contexto de alguma importante descoberta ou aventura académica. Ele não levou a faculdade à falência com mais uma de suas viagens, verdade? Não, ele não fez nada disso, disse Aileen, que de repente assumiu uma expressão de mal-estar. A sua voz se transformou num sussurro: ele está morto. Morto!?, perguntou Emily, forçando levemente a sua entrada no grupo com um empurrãozinho, abalada com a notícia. De que vocês estão falando? Quando? Como? Ontem à noite. Acham que ele foi morto, aqui no campus. Eles não acham, eles têm certeza, interpôs Jim Reynolds, um especialista em Reforma Protestante. Foi assassinado. Três tiros bem no peito; foi isso que ouvi. Estava à mesa do gabinete. Trabalho de profissional». In A. M. Dean, A Biblioteca Perdida, Conhecimento é poder…, e poder pode matar, tradução de Lenita Esteves, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-85-7927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

quinta-feira, 5 de março de 2015

A Biblioteca Perdida. Conhecimento é poder… A. M. Dean. «Concentrou sua atenção, fixou o olhar no volume e separou três páginas. Com toda a energia que pôde reunir, arrancou-as do livro. Os passos que ouviu no corredor lhe fizeram retomar o foco…»

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Prólogo
«A bala que havia perfurado o seu pulmão permanecia alojada no tórax, mas o velho já não sentia a dor causada por ela. Essa dor se transformara em foco, mesmo que a sua visão periférica estivesse perdendo nitidez. Aquilo era esperado. Arno Holmstrand sabia que eles viriam. Os eventos da semana anterior tinham deixado pouco espaço para dúvidas. Estava pronto. Tivera de apressar os preparativos, mas agora estava tudo em ordem. O palco estava montado e ele fizera o necessário. A única coisa que faltava era completar a última tarefa e depois rezar para que os seus esforços não fossem por água-abaixo. Desabou na poltrona de couro cru atrás da mesa. A superfície de mogno diante dele parecia brilhar, reflectindo e espalhando a luz fraca de um abajur pelo escritório escuro. Uma beleza estranha num momento daqueles. Esticou os braços e pegou o livro que estava aberto sobre o tampo de madeira e, por um momento, a dor que lhe queimava o peito voltou. Se aquilo era necessário, servia como um último lembrete: não havia saída a não ser terminar com tudo. Concentrou sua atenção, fixou o olhar no volume e separou três páginas. Com toda a energia que pôde reunir, arrancou-as do livro. Os passos que ouviu no corredor lhe fizeram retomar o foco. Arno pegou um isqueiro dourado que ganhara quando fora padrinho de casamento de um aluno anos atrás e o acendeu. Segurando as páginas arrancadas sobre uma pequena lixeira ao lado do seu pé, aproximou a chama do papel. No momento seguinte, as páginas já estavam a queimar. Soltando-as na lixeira, observou-as enquanto se enrugavam e eram consumidas pelas chamas alaranjadas. Recostou-se na poltrona. O último acto estava completo. Arno juntou as mãos, entrelaçou os dedos e olhou na direcção da porta do escritório, que se abriu bruscamente. O rosto do homem que o encarava parecia feito de aço, sem nenhuma emoção. Alisando com a mão a jaqueta de couro preta que delineava os contornos de um corpo atlético, examinou rapidamente a sala, olhou a pequena fogueira no cesto de papéis e apontou uma arma na direcção do velho sentado à mesa. Arno ergueu os olhos, fixando-os directamente nos do adversário. Eu estava esperando, suas palavras eram calmas, dotadas de um tom tranquilizador de autoridade. Na entrada do escritório, o homem com a arma não vacilou. Embora tivesse corrido minutos antes, sua respiração já estava novamente em ritmo cadenciado. Arno abandonou a familiaridade fingida da sua voz, que agora assumia um tom estritamente profissional. Vocês me acharam. Um feito e tanto. Mas termina aqui. O homem mais jovem lançou um olhar curioso para Arno e, por um momento, diminuiu o passo. A autoconfiança do velho não era esperada, não naquele momento. Aquilo era a sua derrota. No entanto, estava placidamente sentado, numa calma que perturbava. O intruso respirou fundo. Depois, sem piscar, deu dois tiros, um logo após o outro, directo no peito de Arno. A sala escureceu. Arno Holmstrand ficou olhando o vulto do intruso ficar mais apagado, virar-se e depois sair. A escuridão tomou conta de tudo. Depois, não havia mais nada.
A torre da antiga igreja assomava sobre a cidade, que lá em baixo começava, como de costume, a movimentar-se. Algumas luzes pontilhavam as salas dos colleges em torno da praça e furgões de entrega manobravam na High Street, abastecendo lojas para o próximo dia de trabalho. A lua estava baixa no céu, os primeiros raios de sol ainda ocultos pela noite. Precisamente às 5h30, o imenso ponteiro de ferro do relógio atingiu a sua marca. Por trás do mostrador de metal, um pequeno pino de madeira, deliberadamente inserido em meio à velha engrenagem, partiu-se em dois. O cordão que estava atado ao pino soltou-se e o pacote que ele mantinha suspenso no topo da torre começou sua planeada queda. Depois de uma trajectória em queda livre ao longo dos cento e vinte e quatro degraus da escada em espiral, ao pé daquela torre do século XIII, o pacote chocou-se contra a espessa fundação de pedra. O detonador acoplado à extremidade externa do pacote dobrou-se com o choque, produzindo a sua carga de ignição precisamente direccionada. Antes que o detonador tivesse se incendiado totalmente, o pacote de C4 rompeu-se, explodindo com uma fúria desenfreada. Numa imensa bola de fogo, a antiga igreja ruiu». In A. M. Dean, A Biblioteca Perdida, Conhecimento é poder…, e poder pode matar, tradução de Lenita Esteves, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-85-7927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT