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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Um estranho em Goa. José Eduardo Agualusa. «Aquele era o Rio Quanza. As casas, adormecidas ao sol, repetiam o claro desenho das ruas do Dondo. Atordoado pelo calor, voltei a experimentar o estranho sentimento de me encontrar num lugar esquecido»

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Plácido Domingo contempla o Mandovi
«(…) Logo que o vi soube que era ele. Trouxera comigo velhas fotografias. Numa delas Plácido Domingo estava vestido de camuflado e estudava um mapa. Era um homem bonito, alto e sólido, de bigode e pêra ao estilo da época, todos os homens queriam ficar parecidos com Lenine. Numa outra fotografia aparecia encostado a um jipe, sorrindo, rodeado por jovens guerrilheiros. Havia ainda uma imagem preciosa: Plácido Domingo, com uma metralhadora a tiracolo, ao lado de Agostinho Neto e Mário Pinto Andrade. Coloquei as fotografias em cima da mesa: comandante Maciel? Ia a dizer, presumo, mas contive-me. O velho olhou para mim sem surpresa: demorou muito, meu jovem. Trouxe as fotografias comigo. Espalho-as sobre a cama. Conheço de cor cada uma delas. Existe de facto essa imagem preciosa: Plácido Domingo, com uma metralhadora a tiracolo, ao lado de Agostinho Neto e Mário Pinto Andrade. Continuemos: eu estava em Corumbá há uma semana. Viajara durante dois dias, de autocarro, entre o Rio de Janeiro e Campo Grande. Em Campo Grande entrevistei o poeta Manoel Barros. Já a caminho de Corumbá, enquanto o autocarro seguia aos solavancos por uma estrada de terra, tive tempo para reler a minha colecção de artigos sobre o comandante Maciel. Pouca gente conhecia o seu verdadeiro nome: Plácido Afonso Domingo.
Em 1962 ele era capitão do exército português. Nesse ano, numa operação cujo escândalo o regime de Salazar não conseguiu sufocar, desviou um avião para Brazaville e juntou-se aos guerrilheiros do MPLA. Desaparecia o capitão Afonso Domingo e nascia um mito: o comandante Maciel. Após a Revolução de Abril desembarcou no aeroporto de Luanda, com outros dirigentes do movimento, e foi levado em ombros por uma multidão febril. Num dos artigos que eu trouxe, um recorte do jornal Diário de Luanda, com a data de 15 de Agosto de 1974, há uma fotografia que mostra a chegada a Luanda de alguns dirigentes do MPLA. Um dos homens, em primeiro plano, parece intrigado e receoso. Consigo escutar, à distância de vinte e cinco anos, o coração dele: Chegámos, minha mãe, chegámos onde? No artigo não se faz menção ao comandante Maciel, este também não é, evidentemente, o seu verdadeiro nome de guerra, mas disseram-me que veio com aquele grupo. Podia ser o tipo que aparece de costas, no canto superior esquerdo, abraçando uma mulher. A estrada corria por entre lagoas brilhantes. Vi os jacarés adormecidos ao sol. Vi uma sucuri enrolada num pau. Pouco a pouco o céu mudou de cor, e as árvores encheram-se de pássaros: garças de asas luminosas, araras vermelhas, bandos de periquitos. As primeiras luzes de Corumbá brilhavam na noite quando me lembrei da velha cidade do Dondo (Plácido Domingo era do Dondo). Na manhã seguinte, ao contemplar o rio, compreendi o que levara o velho guerrilheiro a ficar ali. Aquele era o Rio Quanza. As casas, adormecidas ao sol, repetiam o claro desenho das ruas do Dondo. Atordoado pelo calor, voltei a experimentar o estranho sentimento de me encontrar num lugar esquecido. O mundo passara por aquelas ruas, e fora-se embora. O branco casario do porto pertencia a uma outra era, quando o futuro começava em Corumbá. Um velho pescador, limpando o suor do rosto com a ponta da camisa, contou-me que a cidade já fora o maior porto da América Latina. Eu conhecia a história. Primeiro a opulência, o fausto, a seguir a notícia de que o comboio avançara do litoral até uma cidade próxima, deixando o rio de ser o principal caminho. E depois o abandono. Risquei a segunda pergunta do meu caderno de apontamentos: por que decidiu viver em Corumbá? A primeira pergunta, na verdade, é que me fizera percorrer aquela distância toda: o senhor saiu de Angola em 1975 e não regressou. O que aconteceu? Plácido Domingo estava à espera que eu lhe perguntasse aquilo. Acho que esperara vinte anos: muito provavelmente você vai-se arrepender de me ter feito essa pergunta...» In José Eduardo Agualusa, Um Estranho em Goa, 2000, Livros Cotovia, Lisboa, colecção Série Oriental, Viagens, 2000, Fundação Oriente, ISBN 978-972-842-385-8.

Cortesia FOriente/LCotovia/JDACT

sexta-feira, 25 de março de 2016

Um estranho em Goa. José Eduardo Agualusa. «Hesitei em fazer isso antes porque já existe o Plácido Domingo, o tenor, mas nunca me conformei. Certos nomes deviam ser obedecidos, isto é, deviam implicar um destino»

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«Onde será que isso começa a correnteza sem paragem o viajar de uma viagem a outra viagem que não cessa? In Caetano Veloso

Plácido Domingo contempla o Mandovi
«As gralhas, lá fora, ralham umas com as outras. Arranham a noite numa algazarra áspera. Viro-me no colchão tentando encontrar um pedaço fresco de lençol. Sinto que estou a ser cozinhado ao vapor como se fosse um legume. Salto da cama e sento-me no parapeito da janela. Se fumasse, nunca fumei, seria agora a altura certa para acender um cigarro. Assim, fico a olhar a enorme figueira (Ficus benghalensis), no quintal, tentando seguir entre as sombras o combate das gralhas. Não sopra o alívio de uma brisa. A noite, porém, girando por sobre Pangim imensa e límpida, com a sua torrente de estrelas, refresca-me a alma. Penso nesta frase e não gosto dela. Está uma noite de cristal, funda, transparente, e isso produz, realmente, uma certa sensação de frescura. Acho que não gosto nesta frase é da palavra alma. Alma parece-me uma palavra muito grande. Já toda a gente abusou dela, poetas medíocres, filósofos, guerreiros, conspiradores, mas ainda assim continua enorme. Risco a alma e mantenho as estrelas. Nas grandes cidades não é possível ver as estrelas. Volto ao quarto e ligo o computador. A frase, O que faço eu aqui?, título de uma recolha de textos de Bruce Chatwin, desliza lentamente no écran. Uso-a desde há muito como cortina de protecção. Nesta cidade remota, à uma hora da madrugada, parece-me uma boa pergunta. Uma vez uma jovem jornalista quis saber porque é que eu escrevia. Os jornalistas menos experientes costumam perguntar isto a quem escreve, para ganhar tempo, enquanto pensam no que vão perguntar em seguida. Há quem assuma, com ar trágico, que a literatura é um destino: escrevo para não morrer. Outros fingem desvalorizar o próprio ofício: escrevo porque não sei dançar. Finalmente existem aqueles, raros, que preferem dizer a verdade: escrevo para que gostem de mim (o português José Riço Direitinho), ou, escrevo porque não tenho olhos verdes (o brasileiro Lúcio Cardoso). Podia ter respondido alguma coisa deste género mas decidi pensar um pouco, como se a pergunta fosse séria, e para minha própria surpresa encontrei um bom motivo: escrevo porque quero saber o fim. Começo uma história e depois continuo a escrever porque tenho de saber como termina. Foi também por isso que fiz esta viagem. Vim à procura de uma personagem. Quero saber como termina a história dela.

Há algum tempo que pretendo contar a história de Plácido Domingo. Hesitei em fazer isso antes porque já existe o Plácido Domingo, o tenor, mas nunca me conformei. Certos nomes deviam ser obedecidos, isto é, deviam implicar um destino. Escrevi, há três ou quatro anos, um conto que começava assim. Muita gente me perguntou se a história era verdadeira. Costumo insinuar, quando a propósito de outras histórias me colocam idêntica pergunta, que já não sei onde ficou a verdade, embora me recorde perfeitamente de ter inventado tudo do princípio ao fim. Naquele caso fiz o contrário. Tretas, menti, pura ficção. Disse isto porque queria encontrá-lo. Inventei um nome para ele, ou nem isso, dei-lhe o nome de outro homem. No meu conto, Plácido Domingo, um velho de pele dourada, seco, gestos demorados, a fala antiga e cerimoniosa de um cavalheiro do século XIX, vive em Corumbá, pequena cidade nas margens do Rio Paraguai, junto à fronteira com a Bolívia. Nessa altura, é claro, eu já sabia que Plácido Domingo se havia escondido em Goa. Imagino-o a descer todas as tardes a mesma rua deserta. Vejo-o sentar-se no café, junto ao cais, de frente para as largas águas do rio. O dono do café, um índio melancólico, cumprimenta-o sem se mover: boas tardes señor Plácido! O velho responde inclinando levemente a cabeça. Com as lentas mãos desdobra o lenço e limpa o suor da testa. O tempo enrosca-se aos seus pés como um cachorro vadio. Plácido Domingo, o meu personagem, esconde, debaixo do grande sol de Corumbá, sob a mansidão de um quotidiano sempre igual, um antigo segredo. Na cidade ninguém sabe de onde ele veio. Chegou há vinte anos num vapor cansado, alugou um quarto no Hotel Paraíso, e por ali ficou. Uma vez por semana Plácido Domingo cruza a fronteira e vai até Puerto Suarez. Encontraram-no uma vez remexendo velhos trastes, cobertos de poeira, num sombrio barraco de bugres, e foi quanto bastou para que dissessem que se dedicava a comprar e a vender as famosas cabeças reduzidas dos jívaros. Insinuaram-se até coisas piores. Sentado na sua cadeira Plácido Domingo espera que o índio lhe traga, como todas as tardes, o caldo de piranha. Leva devagar a colher à boca e deixa que o calor lhe dilate o peito. Revigorado, abraça-se à bengala e fica ali, a olhar o rio, à espera que a noite se deite por inteiro, como uma manta de estrelas, sobre os sobrados tristes, a imensa planície inundada, a áspera gritaria dos pássaros. Foi naquele café, precisamente àquela hora, que eu o encontrei». In José Eduardo Agualusa, Um Estranho em Goa, 2000, Livros Cotovia, Lisboa, colecção Série Oriental, Viagens, 2000, Fundação Oriente, ISBN 978-972-842-385-8.

Cortesia FOriente/LCotovia/JDACT

Narração da Inquisição de Goa. Charles Dellon. «Não tivemos aventura alguma que mereça ser narrada, desde a ilha Delfina até às Índias, e apesar de pequenas tormentas que nos atingiram, ditosamente chegámos ao porto de Soali»

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Partida da ilha Delfina rumo às Índias; de Moçambique, da ilha de Socotorá e do Mar Vermelho
«(…) Depois de termos estacionado por certo tempo na ilha Delfina, rumámos para as Índias. Passámos entre a dita ilha e a terra firme de África, e de longe avistámos as ilhas Mayotte, que não ficam longe de Moçambique. É esta praça de Moçambique uma das mais importantes que os portugueses possuem para além do cabo da Boa Esperança. Ali mantêm todo o tempo forte guarnição de tropas. E visto ser a situação ali mui de vantagem, tal sempre fez inúteis os esforços que os inimigos desta nação intentaram para da dita praça se assenhorearem. É o governo de Moçambique de grande monta, e depois da dignidade de vice-rei outro posto não há mais vantajoso do que aquele; por isso a Coroa de Portugal o atribui em recompensa dos mais assinalados feitos, sendo ele usualmente um grau em prol da carreira de vice-rei.
No passado, e ainda hoje, os portugueses têm tirado muito ouro dos lugares de África vizinhos desta praça, e é muito por mor da abundância do rico metal que tão disputado se vê este governo. Ao longo da costa os portugueses têm ainda algumas praças, como Mombaça e outras mais, cujos governos dependem do de Moçambique; em todas elas se faz grande tráfico de marfim, de âmbar pardo, de pó de ouro, e até de ouro em barra; em troca, dão arroz, panos, fazendas de seda e outras mais mercancias que mandam vir das Índias. Passámos depois perto da ilha de Socotorá, de onde vem a goma a que chamamos Aloes Socotrin ou Socotrin; fica perto do Mar Roxo, e é povoada de árabes. As suas terras não são mui férteis, sendo de tâmaras o comum sustento dos habitantes; o arroz e o trigo, nutrimento dos mais ricos, vêm-lhes das Índias.
O bojo arábico, ou Mar Roxo, é um golfo que separa a Ásia da África, ali se faz avultado negócio por via da quantidade de gomas e drogas medicinais que a Arábia fornece; porém a devoção que todos os sequazes de Maomé possuem de visitar o famoso sepulcro do seu profeta, ali faz acorrer ainda mais gente que o comércio e as riquezas do país. O túmulo é em Meca, e todos quantos para ali se encaminham com vista a prestar as homenagens de todos os reinos da Índia, usualmente desembarcam em Moca, considerável cidade da Arábia, seguindo depois viagem até ao lugar aonde os chama a devoção. Não tivemos aventura alguma que mereça ser narrada, desde a ilha Delfina até às Índias, e apesar de pequenas tormentas que nos atingiram, ditosamente chegámos ao porto de Soali.

Em que se narra o que em Surate há de mais assinalável
Surate, que fica só a quatro léguas de Soali, é uma cidade mais ou menos como Orleães, porém muito mais povoada, sendo uma das mais importantes do Império do Mogol, por via do grande comércio que ali se faz e da afluência, não só de todos os povos da Índia, mas ainda de todas as nações da Europa. É banhada por um mui formoso rio, no qual penetram as naus a calafetar. Fica a três léguas do mar, tem favorável situação, e sendo como é edificada numa vasta planura, nada há que a possa combater; outrora não estava ela cercada de muralhas, e isso a expôs ao saque dos príncipes vizinhos, que nela muitas vezes se apoderaram de grandíssimas riquezas. Desde que há alguns anos a cercaram de muralhas, sobre as quais foram aparelhados canhões junto à cidade e à borda de água, há agora lá uma grande fortaleza onde se mantêm tropas numerosas, mas este forte nada tem de regular e não poderia resistir por muito tempo, e assim a cidade, se esta fosse sitiada por uma nação da Europa». In Charles Dellon (1649-1709?), Relation de L’Inquisition de Goa, 1687, Leyden, Holanda, Narração da Inquisição de Goa, tradução e notas de Miguel Vicente Abreu (1827-1883), Nova Goa, 1866, Edições Antígona, Lisboa, 1996, ISBN 972-608-075-4.

Cortesia de EAntígona/JDACT

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Só a mão direita, lembre-se de que a mão esquerda só é usada para pegar num copo ou para nos lavarmos na toilette. É considerada uma mão impura»

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«(…) Permaneci ali sentada, aturdida, em frente daquele amontoado de escombros e rodeada por pessoas e crianças que me fitavam de perto, atónitas, enquanto ia engolindo, a custo, o chá com cardamomo. A humidade escorria-me pela face, como uma espécie de orvalho das noites de Verão que tínhamos no Faial. Voltei a casa ainda muito combalida pela minha primeira experiência na Índia. Toda a família concordou então que devia descansar uns tempos antes de voltar a mergulhar noutra dura experiência da vida indiana. Eram já horas de jantar e tinha de me refrescar para tirar de mim a sujidade e o pó daquele dia e, quem sabe, talvez mesmo limpar-me dos pensamentos mais íntimos e da tristeza que me acabrunhava. Esta era a primeira refeição principal desde a nossa chegada. E eu bem sabia que Taí fizera uso de toda a sua culinária para nos preparar um menu tradicional. A família reuniu-se na sala de jantar e todos se foram sentando nos lugares habituais à volta da enorme mesa. Bhauji ficou à cabeceira, Taí ao seu lado direito e Mohan, o filho mais velho, do lado esquerdo. Mohan tinha sido um bom estudante e agora trabalhava no Departamento de Estatísticas do Governo de Bombaim. Ao seu lado estava Kishori, a mulher, e, completando a roda, seguia-se Shalini e Meena, a filha mais nova de Taí. Na cabeceira oposta, Lica e eu. À frente de cada um de nós havia um thalli, um enorme prato de metal inoxidável, com uma borda à volta. Do lado esquerdo do thalli tinham colocado um copo com água.
O criado trouxe para a mesa os chapatis, uma espécie de pancake, feito com farinha, água e sal, que serve de pão nas refeições indianas. Depois vieram mais três travessas, com diferentes preparações de vegetais com especiarias, servidas em pequenos recipientes do mesmo metal e colocadas na borda, mas dentro do thalli. Estes preparados, que se assemelham a um guisado, são chamados subji, ou chàque, e fazem parte de todas as refeições. Usando as duas mãos, tirei um bocado do chapati e, dobrando-o como se fosse uma pequena concha, meti tudo na boca de uma só vez. Assim me fui servindo dos diferentes recipientes, observando sempre como os outros faziam. Infelizmente, não reparei nas mãos. Foi-me dito imediatamente que nunca devia usar a mão esquerda para pegar na comida. Só a mão direita, lembre-se de que a mão esquerda só é usada para pegar num copo ou para nos lavarmos na toilette. É considerada uma mão impura.
O diferente uso das mãos era verdadeiramente extraordinário. Chegava a ser bastante desrespeitoso se estendêssemos a mão esquerda para aceitar uma oferta ou qualquer coisa que nos dessem. O mesmo acontecia em cerimónias tradicionais ou religiosas, quando se recebia o prassad, uma espécie de água ou doce bento. De futuro teria de me lembrar sempre disto. O criado voltou com o prato principal, arroz cozido sem sal e o caril de peixe. No centro do thalli foram servidas umas colheres de arroz e, ao 1ado, perto do arroz, o caril. Nunca se deve servir o caril por cima do arroz, de forma nenhuma, disseram-me, em casa de um saraswat-brahma nunca se deve fazer uma coisa dessas. Isso é um mau hábito das castas inferiores. Depois do caril de peixe foi servido, uma vez mais, arroz, mas desta vez com iogurte. Esta parte da refeição acabava com o cuddi, uma bebida fresca feita com leite de coco e especiarias. Terminado o repasto, levantámo-nos e dirigimo-nos ao compartimento seguinte, onde havia lavabos. Era aqui que se podia bochechar e lavar os dentes e as mãos. Só depois desta primeira ablução parcial é que a fruta e os doces eram trazidos para a mesa. Depois do jantar fomos para a sala e começou a conversa. Todos falavam animadamente, oscilando entre duas ou três línguas diferentes. Todos falavam, menos eu. Completamente exausta pelo longo dia, fiquei de 1ado, enquanto as experiências do dia me iam passando pela mente, mais parecendo um sonho do que uma realidade». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Em memória de Ofélia e Álvaro José.

Cortesia de E. Tágide/JDACT

domingo, 3 de janeiro de 2016

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «Este sentimento, aliás naturalíssimo mas pouco generoso, determinou a reacção da parte dos brâmanes em 1787 pela ‘Conjuração dos Pintos’. Os ‘charadós’ mais generosos e guerreiros do que os brâmanes, receberam-nos com menos relutância»

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Goa
«(…) Esta classe indígena cristã perdeu tudo, porque enquanto uma porção dela se esforça por civilizar-se, e o tem conseguido em parte, a outra, a mais numerosa, conserva-se no nível em que a foram encontrar os portugueses, ou por falta de aptidões, ou porque camadas superiores a esmagaram na luta. Os charadós e os sudras formam a maior parte da população de Goa. Apartados, como estão no seu conjunto, dos aryas ocidentais e insuperavelmente desligados dos aryas orientais, os brâmanes, ocupam assim um lugar pouco azado para o seu desenvolvimento. Antes deles, estão ali o elemento branco a influir nas sociedades, e o elemento bramânico a neutralizar-lhes as aspirações pela autoridade quase religiosa de casta, e pela incontestável superioridade de raça. Como existe um antagonismo mais pronunciado entre os brâmanes e os charadós do que entre estes e os portugueses, todo o empenho dos segundos é suplantar os seus adversários de casa, os brâmanes, ficando, por este modo, a civilização europeia um degrau acima das suas primeiras e naturais aspirações. É claro que a influência numérica alcançou uma preponderância positiva na política do país. Os brâmanes são batidos na urna e esta vitória efémera consideram-na os charadós como a última solução do problema político-castista.
Mas a questão social, a evolução dessas sociedades, que é feito delas? Por outro lado, os brâmanes, por isso que são nossos irmãos, sentem-se com orgulho bastante para desprezar a civilização que nós lhes levamos. Mas há a notar que os brâmanes cristãos de Goa, porventura por terem abraçado a nossa religião, não são ciosos das suas tradições, e todo o seu empenho é exceder o europeu, no que ele tem de externo, sem contudo perder aquela relutância instintiva por tudo quanto é ocidental e o espírito de casta, o que necessariamente lhes impede uma transformação radical e duradoura. Ao passo que os indígenas pagãos se conservam firmes no lugar em que os fomos achar, religiosamente conservadores e fazendo parte da grande sociedade industânica de além dos Gattes, os cristãos de Salcete, Bardez,e Ilhas ficaram ocupando um lugar muito inferior na acepção histórica da palavra. Prevê-se o resultado destes elementos postos em contacto.
A acção partiu primeiro da colónia portuguesa, como dominante. Para isso ela criou um meio que fosse adequado à sua índole e ao seu temperamento, o militarismo. Nascidos nessa época de heroísmo e abnegação, educados guerreiros, os portugueses não fizeram mais do que mudar de terreno; continuam no Oriente o que foram no Ocidente, raça de aventureiros. Mas pelo seu limitado número e com um único meio de influir, o exército, não puderam conseguir o que outras colónias mais previdentes têm alcançado. Arrastados pela vocação militar, dispunham apenas de um meio para influírem em sociedades pusilânimes e por índole adversas ao regime espartano. Se à variedade de acção se unisse a multiplicidade de meios, que tendem a relacionar mais os factores sociais e a estreitar os seus laços, quer pela comunidade de interesses, quer pela dependência de serviços, outro teria sido o estado desses povos, outra a situação da colónia portuguesa. Como o militarismo era o seu único modo de ser, e habituados como estavam os portugueses ao trato com os árabes, tanto no reino como em outros pontos da Ásia, sofreram uma completa desilusão ao se acharem frente-a-frente com um povo imberbe e servil. O que daí resultou foi o constante desprezo com que eles sempre trataram os indianos, um desprezo tão profundo e tão natural, que não havia português que não se julgasse com coragem bastante para levar de investida uma povoação inteira.
Este sentimento, aliás naturalíssimo mas pouco generoso, determinou a reacção da parte dos brâmanes em 1787 pela Conjuração dos Pintos. Este movimento continuou e nós veremos de que modo. Os charadós mais generosos e guerreiros do que os brâmanes, receberam-nos com menos relutância e, por isso, em vez de um antagonismo formal, pelo menos histórico, entre eles e nós, voltaram-se contra os seus antigos émulos, a quem não podiam admitir a ascendência que iam ganhando num país em que eles se sentiam com mais direito pela sua força numérica. Esta luta tem uma data histórica: a da fundação do Índia Portuguesa (1861), jornal que servia de órgão aos charadós». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!

Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 15 de setembro de 2015

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Aqui, em Kalyan, o governo tinha construído um grande número de barracas pré- fabricadas, muito compridas, para cada uma delas poder alojar várias famílias»

Cunhados 
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«(…) Em casa, todos foram de opinião que devia pôr as minhas roupas europeias de lado. Shalini, toda desembaraçada, foi imediatamente buscar um magnífico sari de seda branca, estampado com enormes flores cor-de-rosa. As blusas dela serviam-me perfeitamente e pude escolher com facilidade uma da mesma cor das flores. Nunca tinha usado um sari, mas senti-me razoavelmente confortável e fiquei logo pronta para sair. No entanto, por precaução, seguraram-me as pregas com um grande alfinete de segurança, não me fosse suceder algum imprevisto. Pouco depois saí com Bhauji no seu novo Oldsmobile, guiado pelo motorista. O cenário era espectacular. O mar cortava a costa já dentada, formando aqui e ali pequenas enseadas. Por vezes abria caminho terra adentro, como pequenos fiordes, formando extensos backwaters que reflectiam os altos montes rochosos que se elevavam entre a planície e a costa. Esta paisagem dramática poderia ser um verdadeiro paraíso para os pintores se não fosse a colossal tragédia humana que acolhia. O meu primeiro passeio turístico na Índia acabara por ser uma visita ao maior campo de refugiados em todo o estado de Maharashtra.
Havia passado um ano depois da divisão da Índia, que tanta miséria e infortúnio trouxera ao povo. Depois da independência da Grã-Bretanha, o país fora dividido para formar dois países independentes. O Paquistão ficou para os muçulmanos e a Índia para todos os outros. Milhares de pessoas viram famílias e amigos separados por uma barreira artificial que daria início a um grande êxodo dos dois lados. A maior parte dos refugiados preferia vir para a Índia, visto ter sido sempre um país secular, aceitando a igualdade de religiões. Em pouco tempo milhares de famílias começaram a passar a fronteira para a Índia. E a corrente continuava. Fugiam a pé, de automóvel ou até em carro de bois, apinhados com tudo o que pudessem acarretar.
Aqui, em Kalyan, o governo tinha construído um grande número de barracas pré- fabricadas, muito compridas, para cada uma delas poder alojar várias famílias. Actualmente, após tão intensa tempestade, poucos eram os tectos intactos e o campo estava num caos; muitos dos escassos valores pessoais que estas infelizes famílias tinham trazido estavam agora perdidos. Cada família procurava ficar reunida à volta do seu fogareiro. Centenas delas cozinhavam assim ao ar livre ou em qualquer canto de uma tosca barraca. Escombros e lixo viam-se por toda a parte, enquanto a miudagem, de caras sujas e roupas enxovalhadas, corria pelo campo e brincava nas poças de lama ali à roda.
O sol ia já alto e o calor apertava quando chegámos a Kalyan. O tempo estava muito abafado. Bhauji saiu do carro e foi a pé fazer a inspecção deste enorme acampamento com os outros engenheiros da localidade. Eu fiquei ali sentada à espera enquanto ia observando tudo o que me rodeava. Inesperadamente, alguém chegou ao carro, onde me mantinha sentada, trazendo-me uma chávena de chá. Aceitei de bom grado e agradeci o chá, que fumegava e cheirava a cardamomo. À minha volta surgiu logo um grupo de miúdos de caras sujas que me olhavam curiosos. Talvez por verem ali uma europeia vestida de sari! Senti-me exposta, desconfortável e com uma grande tristeza pela imensa miséria que me rodeava. A Índia dos meus sonhos, de palácios e templos, de cores vivas e beleza natural, transformara-se rapidamente numa cidade destroçada e na sordidez opressiva de um campo de refugiados destruído pelo ciclone. Senti uma dor profunda no coração. Lembrei-me com saudade da minha terra, das verdes pastagens cortadas por altas sebes de hortênsias azuis, do mar azuis, transparente, e das criptomérias, que oscilam com a brisa suave. Todo aquele mundo distante, perdido agora para mim, passou levemente pelo meu pensamento». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Em memória de Ofélia e Álvaro José.

Cortesia de ETágide/JDACT

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. « Depois da sua conquista pelos portugueses tem ela um lugar à parte, representa na História um papel seu, talvez devido ao deslocamento inesperado do grande ciclo da história do Oriente»

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Goa
«(…) De longe, destacam-se os beirais cingidos por um cinto de luz, as grandes cruzes das torres e dos adros como se fossem iluminadas a bicos de gás. Como as trevas são densas e a iluminação quase nenhuma, vêem-se os pirilampos elevando-se em espirais, que se deslocam lentamente, luzindo ora aqui, ora ali, como a coluna de fogo dos israelitas: aquelas noites são tagicamente belas! Seguem-se depois as de copiosa chuva, o coração de Inverno. Não há rajada de vento que açoite as árvores, nem trovoadas, nem relâmpagos, nada. A chuva desce em bátegas de água grossa e compacta. Sobre o Mandovi faz bulha de estalar de chicotes, sobre os tectos e reparos de ola, que resguardam todas as portas e janelas, faz ruído de vento quando açoita uma densa floresta. Noé abrindo o postigo da Arca não teria um espectáculo diferente. Todo o espaço como que se ilumina do brilho das águas; que parecem paredes de aço erguidas da tema ao céu. Tem este quadro alguma coisa de sinistro porque não tardam a carregar esse fim do mundo o ruído das paredes que se esboroam, os muros que se desmoronam, as fontes de água que rebentam pelos cantos da casa, as rãs que coaxam debaixo das nossas camas. Ninguém se ouve em meio deste ruído, e a gente que anda e fala pelos nossos aposentos parece fantasmas.
Estas noites, porém, não têm o frio das de cá. Na Europa o Inverno, ainda que moralizador, é triste e aflitivo. Traz-nos a ideia da fome e do desalento, das mães que apertam contra o seio os filhinhos enregelados, do operário entrevado que espera a caridade do mundo que odeia. O Inverno aqui é agressivo e obriga-nos a pensar tristemente no corpo que treme de frio e de fome. As noites da Europa são cruéis como o desalento; parecem zombar das vítimas e riem-se do infortúnio nas frias e secas nortadas do Inverno, supremo sarcasmo desta natureza rude e implacável. Nada tem do majestoso, do sublime horrível, dessa sensualidade geradora que, na Índia, parece convidar tudo à maternidade, ao amor: é frio e impassível como o cínico, sarcástico como a morte. Se canta, se ruge, se açoita a terra é como um espectro e não tem a pujança nem a beleza hórrida dos trópicos:

porque o Inverno aqui é um Inverno reles,
não tem o frio russo, que faz vestir peles,
nem das noites do Oriente a música bravia;
por isso sinto em mim a imensa nostalgia
das chuvas, dos trovões; dos gritos das torrentes
e do ulular feroz, longo do vendaval.
In G. M. Bareto

O quadro que tentámos apresentar daquela natureza pródiga e exuberante é, de todo o ponto, necessário para uma melhor compreensão da índole desse povo. Ao estudarmos a história social de Goa achamo-nos em frente de um assunto novo nos nossos fastos coloniais. Depois da sua conquista pelos portugueses tem ela um lugar à parte, representa na História um papel seu, talvez devido ao deslocamento inesperado do grande ciclo da história do Oriente. A Índia Portuguesa não é o Brasil por ser pobre, e por não ter nascido outro rei que tivesse o generoso amor de João VI pelos seus colonos; não é a Austrália, porque o elemento português não foi dominante, como o inglês; não é a América, livre e independente, por isso que o elemento branco, na maior parte militar, considerou sempre esse torrão vinculado aos seus mais gloriosos feitos e às mais soberbas páginas da história da máe-pátria. Como militares, eram os portugueses, por dever e por índole, fiéis ao rei e à pátria; como aristocratas, eram naturalmente conservadores e orgulhosos do seu passado. Tinham ido para a Índia a fim de se armarem cavaleiros, como seus pais o fizeram em Ceuta e Azamor. Não pode ser independente, íamos nós dizendo, porque o elemento indígena em Goa é heterogéneo, esfacelado em classes mais ou menos rivais, sem unidade histórica ou afinidade de carácter, raça ou religião. De um lado estão os hindus, quase metade da população, conservando a pureza da língua, vendo os cristãos como apóstatas e não querendo, de modo algum, transigir com a nova ordem de coisas; do outro, estão os cristãos, entre os quais a distinção de casas impera com maior furor. Possuem um dialecto adulterado, conservam muitos dos hábitos gentílicos e não possuem as aptidões industriais e comerciais desses seus irmãos». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!

Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 1 de setembro de 2015

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Tinha sido um longo dia, agitado e cheio de emoções. Atirei-me para cima da cama e caí num sono profundo. Bateram suavemente à porta do quarto…»

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«(…) Estava verdadeiramente fatigada e estonteada depois daquela esgotante viagem que acabáramos de fazer Senti uma enorme tristeza. Só me dava vontade de chorar com a dor do meu desapontamento e desconforto da situação em que me encontrava. Ia já a arrastar os pés e a ficar para trás: seguiam todos em grande palreio e alheios ao que se passava. Quando chamei por Lica, ele voltou-se para mim e disse em português: … tem paciência, não te posso ajudar, o que diriam se te vissem encostada a mim? Olhei para a frente quase em lágrimas. Iam todos ligeiros, a andar naturalmente, chapinhando ao longo do terreno lamacento e irregular. Quem era eu para me queixar? Ganhei coragem e continuei a andar, como uma autómata e em silêncio, enterrando as minhas sandálias de salto alto na lama quente e escorregadia, sem mais me importar. Um pouco antes de chegarmos a casa parámos numa lojeca que vendia chá, à beira da estrada, na esperança de que houvesse qualquer coisa para comermos. Todos os serviços estavam paralisados e nada havia em casa para comer, nem mesmo pão ou leite. Ao sair do carro, Bhauji, nunca dado a muitas palavras, voltou-se para mim e disse, com um sorriso malicioso: veja lá, com a sua chegada à Índia até todo o país tremeu. Nem me lembro se cheguei a sorrir ou não.
Entrámos na loja do chá. Era uma verdadeira espelunca de madeira com um balcão por cima da sala de entrada e com uma escada bastante precária por onde se subia para lá chegar. Parecia que tudo oscilava debaixo dos nossos pés. Era mesmo para admirar como tudo aquilo não foi pelos ares na fúria do ciclone. Havia várias mesas cheias de pratos sujos e copos de chá que tinham deixado a marca em várias rodelas de chá espalhado sobre a superfície das mesas. Já nem fiz caso do cheiro das frituras enroladas em especiarias. Trepámos logo para o balcão, subindo as escadas oscilantes, cuja madeira rangia a cada pegada, na esperança de que talvez ali estivesse mais limpo. Pelo menos seria mais afastado da turba do 1.º piso. Foi-nos servido o chá. Não consegui comer nada. Fazia agora um calor terrível e o barulho tornava-se ensurdecedor. Tudo me parecia tão irreal! Quase um pesadelo. Olhei para Taí, envolta no seu sari de organdi cor-de-rosa e flores de jasmim a enfeitar o cabelo. Silenciosamente, continuava a bebericar o chá em pequenos goles, alheia a tudo o que a rodeava. Veio-me subitamente ao pensamento a ideia de uma flor de lótus caída numa poça de lama.
Quando chegámos a casa fomos levados directamente para o nosso quarto, no 1.º andar Estava exausta. Tinha sido um longo dia, agitado e cheio de emoções. Atirei-me para cima da cama e caí num sono profundo. Bateram suavemente à porta do quarto e de seguida entrou um criado com o chá da manhã numa bandeja. Era ainda cedo, mas a luz do dia já parecia brilhante e no céu não se via uma única nuvem. Este era decerto um grande contraste em comparação com o nevoeiro e o céu cinzento de Paris, onde as árvores já estavam nuas, em preparação para o Inverno. Senti-me mais descontraída e em paz. Sentámo-nos na cama a bebericar o chá, deliciosamente preparado à maneira indiana com leite e açúcar. Que luxo sermos servidos na cama. Pela janela aberta podia ouvir-se o som de um comboio que passava ao longe e a música de um rádio na vizinhança. De repente apareceu à porta a nossa sobrinha Shalini, que vinha dar-nos os bons dias e perguntar se eu gostaria de alinhar num longo passeio de automóvel com o pai, que tinha de ir fazer uma inspecção para avaliar os danos causados pelo ciclone. O passeio duraria todo o dia e levar-nos-ia ao longo da costa, através de uma área cortada por enseadas e backwaters de beleza excepcional. Saltei logo da cama, entusiasmada. Que sorte maravilhosa poder ver alguma coisa do país mal tinha chegado. Lica não quis ir mas eu não podia perder esta óptima oportunidade». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Em memória de Ofélia e Álvaro José.

Cortesia de ETágide/JDACT

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Goa. A Chave de Toda a Índia. Perfil Político de 1505-1570. Catarina M. Santos. «… estudá-la sem ter de revolver penosamente os arquivos de Lisboa e Goa. Embora nem sempre a história própria de Goa seja aí bem distinguida da do império de que foi cabeça…»

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A situação de Goa
«(…) Eis a cidade morta, a solitária Goa! Seis templos alvejando entre um palmar enorme! Eis o Mandovy-Tejo, a oriental Lisboa! Onde em jazigo régio, imensa glória dorme. Se há parte do que foi o império português sobre a qual se tenha escrito, em prosa como em verso, Sem sombra de dúvida que essa é Goa. Tal profusão é, em boa parte, fruto da pujança intelectual do próprio território, que, dentro do nosso espaço cultural, quiçá, apenas nos Açores encontra paralelo. Em Goa cruzou-se a tradição intelectualista dos brâmanes de antanho com o gosto pelas letras das ordens religiosas, presentes em força naquela que se desejava ser a Roma do Oriente; o resultado foi uma produção histórica e literária multímoda e abundante, que as exíguas dimensões do território não deixariam prever. Quem se der ao trabalho de percorrer-com a vista os três volumes do Dicionário de Literatura Goesa, compilado por Aleixo Manuel Costa e recentemente publicado em Macau, ficará por certo assombrado com a abundância do que se produziu em Goa.
Desde meados do século XIX que, dentro ou fora do pequeno enclave lusitano, muitos, de uma ou doutra forma, se debruçaram sobre o seu passado: reinóis uns, como Cunha Rivara e Tomás Ribeiro, ou luso-descendentes, como Ferreira Martins e Germano Correia; goeses de pura cepa outros, como Néry Xavier, Panduronga Pissurlencar e Bragança Pereira; para não falar já em estrangeiros, como Boxer e Schurhammer. A uns moveram, quiçá, principalmente as memórias gloriosas das façanhas bélicas de outrora, de que foi palco o mar fronteiro a Goa; a outros, moveu antes a irradiação espiritual da Roma do Oriente donde a missionação católica lançou para a China, para Timor, para o Japão e até para rincões recônditos, como os reinos dos Laos e do Tibete; a outros, ainda, atraiu a originalidade insólita daquele cadinho de díspares culturas, que ali se souberam harmonizar numa síntese feliz, ou a multifária riqueza em bens de espírito daquele duplo tesouro de civilizações, como Pierre Gourou o descreveu.
Recentemente, quando a história económica se tornou moda, começou igualmente a aparecer quem, mais prosaicamente, se debruçasse sobre o seu papel nas rotas do comércio mundial e sobre as diversas facetas da sua economia. Poucos são, assim, dentro da história de Goa os campos de investigação que permaneceram virgens até aos nossos dias. Não significa isso, é certo, que a história indo-portuguesa esteja de uma vez para todas feita e que não haja em tal domínio muito trabalho a fazer e mais ainda a refazer. Significa, sim, que não é já fácil achar um tema inteiramente inédito, pois raros são os que, de uma ou doutra perspectiva, não foram ainda abordados pelo labor historiográfico. Quer-nos parecer que desses raros é o que constitui o mote do presente estudo, e aí principalmente reside a sua originalidade.
A história institucional, jurídica e administrativa da antiga Índia Portuguesa foi, de facto, já muitas vezes abordada. Cunha Rivara, Bragança Pereira e Panduronga Pissurlencar publicaram um notável acervo de documentos que permitem comodamente estudá-la sem ter de revolver penosamente os arquivos de Lisboa e Goa. Embora nem sempre a história própria de Goa seja aí bem distinguida da do império de que foi cabeça, podem mencionar-se alguns tentames de síntese nestes campos, como a História da Administração da Justiça no Estado da Índia, de Carlos Gonçalves Pereira, Les Finances de l’Etat Portugais des Indes Orientales, de Vitorino Magalhães Godinho, e os recentes estudos, ainda por publicar, de Vítor Conceição Rodrigues, sobre a organização militar da Índia Portuguesa nos séculos XVI e XVII, para citar apenas três exemplos». In Catarina Madeira Santos, Goa é a Chave de toda a Índia. Perfil Político de 1505-1570, colecção Outras Margens, 1999, ISBN 972-8325-96-7.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!

Cortesia de Outras Margens/JDACT

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «… a majestosa palmeira o céu severo como a lápide de um sepulcro, as trevas da noite a acentuarem no horizonte não sei que imagens sinistras do cadafalso. Ao clarão dos relâmpagos só se vê o Mandovi…»

jdact e wikipedia

Goa
«(…) Abrem-se depois as bocas do céu, e a água cai em jorros como do alto de uma cascata, fria e compassada, como as torrentes diluvianas: eu amava no Oriente as noites tempestuosas, as noites hibernais de pragas cavernosas em que parece ser uma taberna o céu, as noites em que o mar beijado do escarcéu treme, como num leito uma mulher esquecida; em que a chuva que cai, doida, descabelada, com um tinir de grilhões, bate na vidraça e faz crer que pelo ar ovento forçado passa; em que a lua não rompe a atmosfera sombria e jaz como o afogado imerso na água fria; em que o firmamento é triste e temeroso; porque o vento apagou com um sopro as estrelas, aquelas noites tão tragicamente belas.
A natureza oriental tem alguma coisa do carácter humano: tão depressa lhe coram as faces e esbofeteia a terra, como logo cai em torpor. Apaixonada, por assim dizer, nervosa, revolta-se em ímpetos de cólera para logo cair numa modorra, tanto mais feminina, quanto varonil foi a agitação. As primeiras manhãs de Inverno são de uma harmonia e de uma tinta tão suaves como a face de uma virgem. A chuva, fez brotar de um salto arbustos aromáticos que juncam os palmares; os pardais volitam pelos beirais das casas a construírem o seu ninho; as ruas e os tectos ostentem os seus verdes tapetes de relva; o sol tem a luz mansa e opaca da lua de Inverno, e o céu desbotado conserva a homogeneidade das águas de um lago, frias e esverdeadas. Aparece a nave de um templo coada pela luz mística das vidraças góticas. A terra é uma mãe cheia de amor, de risos e de encantos. O Inverno é a Primavera da Índia: ... aonde o duro inverno os campos reverdece alegremente.
A estes indícios da estação chuvosa começam os primeiros trabalhos da lavoura, porque não tarda o rigoroso Inverno, não tardam os dias diluvianos de Junho e Julho. A Ponte de Linhares, ladeada pelo Mandovi e pelos vastos arrozais de Santa Cruz e Mercês, oferece-nos um panorama deslumbrante nessas noites de Inverno. Se não existe Deus, Deus é tudo aquilo: a majestosa palmeira o céu severo como a lápide de um sepulcro, as trevas da noite a acentuarem no horizonte não sei que imagens sinistras do cadafalso. Ao clarão dos relâmpagos só se vê o Mandovi que, qual réstia de luz, se torce rápido e turvo entre Pangim e a outra banda; miríades de insectos açoitam-nos o rosto e vão, coitados, atraídos pela claridade, morrer nos candeeiros que ardem dentro das casas; as rãs coaxam nos charcos, nos poços, fazendo um coro de agreste música. Sobre as paredes, na relva das estradas e dos tectos cintilam os pirilampos, como se a terra fosse um manto cravejado de pedrarias». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!

Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 21 de julho de 2015

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Levei algum tempo a aperceber-me de que aquele vasto manto negro que cobria toda a enorme área do estado de Maharashtra tinha sido causado pelo mais devastador ciclone que esta parte do subcontinente indiano jamais havia sofrido»

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«(…) Acenderam-se os sinais de apenar cintos e apagar os cigarros. Olhei outra vez para fora e franzi os olhos, forçando-me a ver melhor através daquela escuridão. Com efeito, lá estava uma fosca luzinha a piscar, muito ao longe. Continuei a perscrutar através da janela evitando olhar para Lica. Não suportava vê-lo tão desapontado. Pobre Lica, tinha esperado dez longos anos para voltar ao seu país e as luzes de Bombaim tinham sido a última visão que guardara na memória. Mas não estavam lá. As luzes não se viam.
Levei algum tempo a aperceber-me de que aquele vasto manto negro que cobria toda a enorme área do estado de Maharashtra tinha sido causado pelo mais devastador ciclone que esta parte do subcontinente indiano jamais havia sofrido. A vida quotidiana fora severamente perturbada e a destruição era incalculável. Não admirava, portanto, que a notícia do que tinha ocorrido nos tivesse sido ocultada durante o voo pela tripulação de bordo. Havia já muito tempo que a tensão e excitação, pelo que me estava reservado para um futuro próximo, viera a aumentar de dia para dia, de tal forma que quando, finalmente, cheguei à Índia senti-me como que destituída de qualquer sensação. O impacto foi violento. Acabava de chegar a um mundo totalmente diferente, impregnado de cheiros intensos e vozes múltiplas em línguas múltiplas. As pessoas pareciam diferentes, vestidas de maneiras diversas, falando um babel de línguas estranhas e sempre apressadas, num contínuo vaivém, a empurrar carrinhos ou em discussões umas com as outras.
A confusão e o caos dos primeiros momentos desnortearam-me por completo. O grande temporal tinha causado um extenso apagão e toda a área de Bombaim estava às escuras. O edifício do aeroporto e a alfândega eram agora iluminados pelas fracas luzes de vários candeeiros petromax, cujo cheiro a petróleo se juntava aos outros odores. Todo aquele estado estava desordenado e às escuras. Quando saímos do edifício das alfândegas, chamou-me a atenção um grande grupo de pessoas que nos abanavam freneticamente. Parecia impossível, mas muitos dos nossos familiares tinham conseguido enfrentar a natureza para irem ao aeroporto. Parecia incrível terem conseguido lá chegar com tais condições atmosféricas. Fiquei admirada com o grupo que se me deparou à frente. A maior parte deles eram jovens. Havia duas raparigas que trajavam saris e tinham duas longas tranças; ao lado, quatro ou cinco rapazes que me pareciam todos idênticos em idade e aparência. Fui logo apresentada a todos eles naquela altura e várias vezes depois. Ao princípio não conseguia mesmo distingui-los.
As raparigas em saris eram a Kishori, casada com o sobrinho mais velho de Lica, e a Shalini, uma das sobrinhas, já estudante de Medicina. Pareciam tão jovens! Reparei então na senhora indiana que estava por detrás, mais baixa e de pele muito branca, que me olhava, sorridente. Nem me parecia uma figura real. Havia qualquer coisa de etéreo na sua aparência. Tinha o cabelo penteado para trás, preso num rolo e enfeitado à volta com uma pequena grinalda de jasmim branco. Os brincos de diamantes em forma de coração e um outro preso à narina direita faiscavam mesmo àquela fraca luz dos petromax. Envergava um sari cor-de-rosa de fino organdi que me fazia lembrar uma delicada boneca de Dresden. Esta é a Taí, disse Lica, orgulhoso, a minha irmã mais velha. Taí sorriu e saudou-me, juntando as mãos num namasté. Eu sorri também e fiquei calada, sem saber o que dizer Começaram logo todos a falar entusiasticamente numa língua que me era desconhecida. Riam e gracejavam com grande animação, por vezes todos ao mesmo tempo. Nem era para admirar, uma vez que Lica voltava a casa depois de dez anos de ausência.
Quando o bagageiro apareceu com as malas, despedimo-nos dos membros da família que voltavam para o centro de Bombaim e juntámo-nos a Taí e a Bhauji, o nosso cunhado, com quem ficaríamos a viver provisoriamente. Bhauji era um homem de meia-idade, alto, forte e de tez morena, homem de poucas palavras, mas sempre de bom humor. Era então o engenheiro chefe do distrito de Thana, que ficava a alguns quilómetros da cidade de Bombaim. Bhauji vivia numa enorme moradia de dois andares, rodeada por jardins, numa área mais afastada destinada a funcionários de chefia. No total, havia talvez uma meia dúzia de moradias. À volta delas havia ainda um clube e campos de jogos para uso dos moradores. O filho de Bhauji, recentemente casado vivia com eles. Em condições normais, o trajecto do aeroporto até Thana levaria cerca de meia hora de automóvel. Todavia, isso tinha-se tornado quase impossível devido à destruição causada pela tempestade. Havia árvores sem conta caídas por terra, entulhos de destroços a bloquear as estradas, de tal forma que tivemos frequentemente de nos meter através de prados, a corta-mato, para ultrapassarmos as vias bloqueadas. A certa altura tivemos de nos apear para caminharmos ao lado do carto, evitando assim que, com o nosso peso, as rodas ficassem enterradas na terra mole. Não se via nada na escuridão da noite e nem via onde punha os pés». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Em memória de Ofélia e Álvaro José

Cortesia de E. Tágide/JDACT

sexta-feira, 17 de julho de 2015

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Na manhã seguinte fomos de novo conduzidos ao aeroporto para continuarmos a viagem. Nunca nos informaram da verdadeira causa daquela inesperada paragem prolongada, mas acabámos por deduzir que tivesse sido devido a condições atmosféricas…»

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«(…) Embarcámos num Skymaster, preparados para uma longa viagem aérea até à Índia. Iríamos parar em Lyon, Roma, Atenas, Cairo, Darham e, por fim, Bombaim, no total, trinta e seis horas... Não havia jets nesses dias, e todas as vezes que parávamos para abastecimento de combustível ou troca de passageiros éramos levados para bons restaurantes nos aeroportos e tínhamos anda tempo suficiente para dar uma volta pelas lojas, sempre abarrotadas de artigos regionais e nacionais. Quão diferentes eram então as viagens das de hoje, em aviões que oferecem uma viagem rápida, depois do tédio das esperas prolongadas e de serviços de aeroporto demorados!
Íamos agora direitos à Índia e, à medida que o tempo passava, sentia-me cada vez mais excitada e ansiosa. Ao meu lado, Lica repetia constantemente o que eu teria de fazer ou não fazer quando lá chegássemos: como deveria cumprimentar a família e a quem me dirigir primeiro. Repetia-me os nomes e explicava-me a relação que tinham uns com os outros. Tarefa árdua quando se tratava de uma enorme família como a dos Gaitonde. Mais uma paragem antes de Bombaim. Ainda tínhamos de aterrar em Darham, no Médio Oriente. Quanto chegámos, disseram imediatamente ao comandante que o avião não poderia prosseguir viagem para a Índia. Tínhamos de ficar ali até novas ordens. Que terrível desapontamento! A seguir fomos conduzidos por um árabe alto e corpulento até às nossas acomodações improvisadas. Era já noite. Saímos com o nosso guia do edifício da alfândega e começámos imediatamente a pisar areia. Parecia que tínhamos entrado em pleno deserto. Estava tão escuro que não se podia ver além de um ou dois metros. Por fim, chegámos a umas barracas abandonadas. Teríamos de passar a noite ali o mais confortavelmente que nos fosse possível. Ao entrar notei logo que a barraca estava dividida ao longo de todo o comprimento por um corredor, com quartos de um lado e retretes do outro.
O cheiro nauseabundo de urina quase nos sufocava. Cada quarto tinha apenas uma cama de ferro com um colchão e em cima, dobrado, um par de lençóis. A janela não tinha cortinados, deixando-nos à vista de quem passasse do lado de fora. Estava um calor mortal, mas as janelas tinham sido seguras com pregos para não deixarem entrar os mosquitos da malária. O calor era sufocante e sentia as gotas de suor a escolher-me pelo corpo abaixo. Experimentei ir ao banheiro para uma rápida lavadela, mas tive de voltar a correr para o quarto, pois não havia água, o autoclismo não funcionava e o cheiro da sanita, bloqueada, era insuportável. Esta foi, sem dúvida, uma noite memorável, tirada mesmo das Mil e uma noites...
Na manhã seguinte fomos de novo conduzidos ao aeroporto para continuarmos a viagem. Nunca nos informaram da verdadeira causa daquela inesperada paragem prolongada, mas acabámos por deduzir que tivesse sido devido a condições atmosféricas não favoráveis ou a qualquer coisa relacionada com a guerra em Israel.
Começava já a sentir-me sonolenta, devido ao contínuo roncar do motor do avião, mas Lica mostrava-se cada vez mais excitado. Quantos anos tinha esperado por este momento! Olha, daqui a nada vais ver no horizonte uma enorme auréola cor de lannja reflectida no céu... São as luzes da cidade de Bombaim. É uma maravilha Olhei para fora mas não se via nada. Estava tudo escuro, escuro como breu. Não falta muito, dizia ele, vais ver é uma vista para nunca esquecer. Olhei outra vez, continuava escuro. Depois de quase meia hora e com um pouco menos de entusiasmo, Lica repetiu: já deve estar por pouco. Vai ser urna vista maravilhosa, o céu vai parecer como se estivesse em fogo, tal é o esplendor da brilhante iluminação de Bombaim. Eu continuava a olhar para aquela noite escura. De súbito ouviu-se um clique do autofalante e a seguir a voz do comandante, que anunciava: Senhoras e senhores, estamos a sobrevoar Bombaim e preparamo-nos para aterrar dentro de minutos». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Cortesia de E. Tágide/JDACT

terça-feira, 7 de abril de 2015

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «Cobertas de água, impelidas por um vento doido, redemoinham pelo ar em espirais tortuosas; rompem por entre os palmares, como um esquadrão de fogosos corcéis, e batem nas vidraças, como o duro granizo»

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Goa
«(…) Já pelos montes vêm ecoando longínquas e surdas trovoadas. Uma aragem húmida e saturada de um aroma peculiar àqueles climas, um cheiro de barro novo, prenuncia-nos que a chuva começa a cair sobre os montes mais próximos. De súbito estala uma trovoada. Um vento rijo e possante espalha grossos, fios de água e a terra exala um cheiro acre como o de água lançada em ferro rubro. O calor exalado da terra pelas gotas de água atinge a temperatura de ebulição e a poeira levantada pelo vento voltija pelo espaço como as faíscas de um incêndio; por sobre as nossas cabeças, bandos de gralhas, espavoridas e desordenadas, passam grasnando, e o céu parece descer como um capacete de ferro em brasa: estamos asfixiados. Começa, no entanto, a noite a subir bruscamente; a chuva não se fará tardar, porque à proporção que a noite caminha, uma aragem fresca e húmida nos indica que ela cai já em abundância pelos Gates. É noite cerrada. Nem uma estrela brilha no céu; em vez da trovoada a barra da Aguada brama com furor, como o despenhar de uma cascata; o horizonte, de quando em quando, estremece ao clarão dos relâmpagos que deixam ver as águas encapeladas e da cor de terra que dos montes corre pelo Mandovi à boca do mar:

Espalham cheiros nos campos
As florestas tropicais,
volitam os pirilampos
por sobre os verdes juncais.

Já se não ouvem os trilos
que ao sol modulam as aves,
ouve-se a bulha dos grilos
e uns sussurros mais suaves.

Sopra ama tépida aragem;
grupos de esbeltas palmeiras
acentuam na paisagem
as estaturas ligeiras.
F. Leal, in ‘Serenata Indígena

E a noite triste e espessa, como manto de viúva, cobre silenciosa o espaço de há pouco cheio de luz e tintas, ululando raivas e gargalhadas satânicas: segue a majestade sombria e muda do silêncio. O mundo afigura-se-nos então um templo onde se adora o Deus solitário das lendas hebraicas ou a cripta funerária dos egípcios, onde reina a Morte. Esta mudez, porém, vêm, em breve, romper as fortes bátegas de água e as colunas de ar açoitando o arvoredo com ímpeto insano. Cobertas de água, impelidas por um vento doido, redemoinham pelo ar em espirais tortuosas; rompem por entre os palmares, como um esquadrão de fogosos corcéis, e batem nas vidraças, como o duro granizo. Reboa outra vez, o trovão; o mar braveja com mais furor; cortam o espaço, em todas as direcções, em doidos ziguezagues, os coriscos; como as faíscas de uma metralha estalam com mais frémitos, umas após outras, as trovoadas sobre as nossas cabeças, como se num festim os espíritos celestes arrojassem ao mármore duro uma baixela de louça e o Deus da vingança ou Satã presidisse àquele bacanal celeste». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «… à proporção que o sol caminha para o ocaso. De súbito, as tintas chocam-se, esbatem-se, e à variação da luz e da perspectiva, segue-se um véu denso da cor de ouro fosco: “é sol-posto”»

jdact e fundacaooriente

Goa
«(…) Muitas vezes depara a gente com esses filhos do sol, durante os grandes calores, encostados a um objecto qualquer, os braços pendidos, a cabeça caída e os olhos cerrados, esfregando o corpo contra o que se apoiam. Assim dormitam, cabeceiam e suam nessa embriaguez voluptuosa, própria do indiano. Nada há que o arrede dali. O calor na Índia é esmagador e deprime sensivelmente o sistema nervoso; mas tem o quer que seja de grandioso e solene. Não só escalda e abate, mas assombra. Numa tarde de Maio, principalmente, o espectáculo da Natureza toca as raias do sublime horrível: são tardes ameaçadoras, rubras de fogo como a antecâmara do Inferno. O sol desce para o ocaso em verdadeiro triunfo. As águas do mar atingem uma fosforescência única naqueles climas, semelhando uma massa de cristais em que incidem os raios do sol poente. O horizonte é a boca de um vulcão. Largas faixas de luz de um vivo bronzeado, entremeadas de listrões brancos e azul-escuros tremem no horizonte como as franjas de um docel. Nuvens de fantásticas formas, debruadas de luz, túmidas como rolos de fumo que transformam a lisura do véu que nos cobre em fantástico turbilhão de blocos que se movem. Umas correm, outras montam aumentando de corpo e mudando de forma; estes chocam-se, aquelas irrompem do vácuo; desdobram-se umas, desaparecem outras; estas geram as que vão rolando pela fímbria do horizonte, aquelas desfazem-se pelo vento em canudos de fumo; rasga-se o bojo de umas abrindo na abóbada celeste frestas de fogo; outras, quais negros penedos desencadeados do alto, precipitam-se sobre o foco de luz. Ao súbito escurecer por um tropel de sombras, a luz por tal forma reprimida estende-se no alto das nuvens como as lavas de um incêndio por cima de um monte. Nesta contínua e rápida metamorfose de formas, luz e sombras, o espectador parece assistir à génese de novos mundos. Um cataclismo ígneo confunde os céus e o mar numa orgia de luz, variando em intensidade à proporção que o sol caminha para o ocaso. De súbito, as tintas chocam-se, esbatem-se, e à variação da luz e da perspectiva, segue-se um véu denso da cor de ouro fosco: é sol-posto.
Do lado do nascente, o horizonte carrega-se a pouco e pouco. Ameaça a chuva. A luz crepuscular incidindo sobre este fundo negro espalha uma claridade etérea por sobre as cumeadas das serras das Novas Conquistas que se nos afiguram mais próximas. Enquanto deste lado o fundo cada vez mais se alarga e escurece, pelas bandas do mar o amarelo carregado acentue-se cada vez mais até descambar num rubro firme e baço. Como o crepúsculo dura pouco, a intensidade da luz e do calor é rápida, mas vulcânica. As nuvens, que espreitam por detrás dos montes, galgam rapidamente o horizonte visual. Zonas de luz e sombras aparecem e desaparecem, segundo a direcção que as nuvens seguem, para, dentro em pouco, se estender uma escura cortina, que põe a coberto os lados do nascente. Este véu denso e negro como o fumo do carvão bate o reflexo vespertino para o seu foco. O espectáculo é arrebatador. Da Aguada a Ribandar o espaço aparece envolto num clarão que ninguém sabe donde parte. Dir-nos-íamos arrebatados ao Thabor para assistir à transfiguração de um deus. Como na Europa, em dia de névoa, a terra e o céu se confundem, na Índia, numa tarde de Maio, a multidão que passa parece vespertina. A este quadro de tintas bíblicas nada há que se compare na arre ou na imaginação. Sentimo-nos transplantados ao Sinai, onde Moisés se cria arrancado da terra por uma tromba de luz. Numa exuberância tão caprichosa de cores, de audazes crispações, chega a perder-se a consciência da realidade. A imaginação banha-se em um mar de volúpia, a sensibilidade quase se insensibiliza num delírio de êxtases e de doce esquecimento. Só num clima desses poderiam nascer o impassível Buda e o meigo Jesus». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A Arquitectura Religiosa Cristã de Velha Goa. Segunda metade do Século XVI – Primeiras Décadas do Século XVII. António Nunes Pereira. «O rei de Portugal, no seu papel de padroeiro no Oriente, era responsável pelo apoio logístico e financeiro às missões, cabendo-lhe nesta função fundar igrejas e conventos»

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Contexto histórico. O Estado da Índia e o Padroado Português do Oriente. Os profissionais da arquitectura
«O Tratado de Tordesilhas, em 1494, entre Portugal e Espanha, com mediação papal, regulava não só as pretensões de ambos os países ibéricos sobre novos territórios descobertos, mas limitava também geograficamente os privilégios e direitos do rei português. Neste tratado, em que Portugal e Espanha dividiram o mundo em duas metades, através de um meridiano, a ocidente de Cabo Verde, atribui-se a Portugal a metade correspondente ao Velho Mundo, onde, como se confirmou mais tarde, se encontrava o verdadeiro objectivo dos portugueses, a Índia. O significado do Tratado de Tordesilhas não se limitou a evitar confrontações bélicas entre duas nações rivais. Este selou também o que entretanto se tinha tornado realidade: a expansão portuguesa para África e para o Oriente por um lado e, por outro, os descobrimentos espanhóis orientados para o Ocidente desde a viagem de Colombo em direcção ao continente americano. A localização do meridiano que dividiu o globo em duas metades, definido no Tratado de Tordesilhas, permitiu mesmo assim a Portugal ter direito a territórios no continente americano, nomeadamente o Brasil. Desde o final do século XV que os direitos e deveres de padroado da Ordem de Cristo no ultramar foram passando sucessivamente para a Coroa. Após o acidente mortal do príncipe Afonso, filho de João II, o rei Manuel I, primo-direito do rei e grão-mestre da ordem, tornou-se herdeiro da Coroa portuguesa. Quando este sobe ao trono, em 1495, dá-se pela primeira vez a união pessoal entre monarca e grão-mestre da Ordem de Cristo. Em 1514, o papa Leão X fundou a diocese do Funchal, a que passaram a pertencer os territórios conquistados no ultramar.
Alguns direitos eclesiásticos, como, por exemplo, o de nomear um bispo, foram transferidos da ordem para o rei. Após a morte de Manuel I, o seu primogénito, João III herdou não só o trono, mas também o título de grão-mestre da Ordem de Cristo. Em 1533, o papa Clemente fundou, a pedido do rei, a diocese de Goa, que continha todos os territórios sob domínio português a leste do cabo da Boa Esperança. Quando, no ano seguinte, o papa Paulo III confirmou a fundação desta diocese com a bula Aequum reputamus, atribuiu pela mesma todos os direitos de padroado ainda na posse da Ordem de Cristo ao rei de Portugal. Embora somente em 1551 tenha sido colocada a administração da ordem definitivamente sob a tutela do rei de Portugal, todos os direitos eclesiásticos desta tinham já passado para a Coroa. Em 1557, Goa foi elevada a arquidiocese metropolitana, à qual passavam a pertencer as então criadas dioceses de Cochim e Malaca. O Padroado Português do Oriente significou para a Coroa portuguesa não só direitos e privilégios, mas também obrigações. Entre estas contava-se a obrigação de vigiar pela propagação de fé cristã. Na prática, isto significava que a Coroa tinha a seu cargo a parte material (ou temporal) das missões de cristianização, enquanto a Igreja se ocupava da parte espiritual. O rei de Portugal, no seu papel de padroeiro no Oriente, era responsável pelo apoio logístico e financeiro às missões, cabendo-lhe nesta função fundar igrejas e conventos. Teoricamente, a fundação de igrejas e conventos nos territórios sob domínio português era somente possível com a aprovação do rei de Portugal. Na prática, porém, a distância destes territórios à metrópole permitia desvios à regra, como o prova a edificação da Igreja e Convento de Nossa Senhora da Graça em Velha Goa. O rei era assim, para usar um termo contemporâneo, o dono de obra dos edifícios religiosos que se ergueram dentro dos limites do seu padroado. A diferença em relação à metrópole era não lhe ser possível exercer a sua directa influência sobre a arquitectura aqui realizada. Mas a Coroa tinha no Estado da Índia um aparelho administrativo com sede em Velha Goa, que servia também como instrumento do rei para cumprir as suas obrigações de padroeiro. Deste aparelho administrativo fazia parte o lugar de mestre-de-obras de el-rei na Índia, mais tarde denominado engenheiro-mor da Índia. Este lugar era preenchido por engenheiros militares, cuja função principal era a de construir, melhorar e manter as inúmeras fortalezas que nas costas africanas e asiáticas asseguravam o monopólio comercial marítimo português». In António Nunes Pereira, A Arquitectura Religiosa Cristã de Velha Goa, Segunda metade do Século XVI, Primeiras Décadas do Século XVII, Orientalia, Fundação Oriente, Lisboa, 2005, ISBN 972-785-084-7.

Cortesia da FOriente/JDACT

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Pontos de Vista. Bailon de Sá. «O escopo dessas fugidias linhas é trazer à balha o melindroso assunto do apriorismo das leis da natureza e a contribuição das teorias de relatividade e quântica. Não vá supor que se resvala assim na ilusão do subjectivismo»

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Apriorismo
«A evolução do universo tem duas facetas manifestamente distintas. Predomina numa o determinismo Laplaciano. Este faculta-nos a formular as leis da natureza. A outra tem caprichos e segredos que não nos é permitido conhecer na sua totalidade. A sua mola real é o Jeova misterioso. Mas isto não exclui de todo o seu conhecimento. Processos a priori ainda se insinuam nos penetrais do Indeterminismo. Ao filósofo, sei eu, é de especial interesse essa questão de apriorismo. O físico da velha escola odeia-a com todas as veras. Por sua vez, e por fartas razões o físico contemporâneo enjeita o filósofo que se emperra na sua obtusidade, e o físico ortodoxo pelo seu exagerado respeito às convenções. No terreno indefinido onde as fronteiras de Filosofia e Física se confundem espadana o veio irrequieto da Epistemologia Científica. Embora circunscritas a um limitadíssimo campo do sub-atómico, as experiências laboratoriais têm já acogulado a ingenuidade da prodigiosa actividade do cientista. Nos vislumbres do físico filosófico bruxolea a lâmpada da Nova Filosofia. Quero dizer que, embora o Principio de Incerteza de Heisenberg tenha sido formulado, graças a inevitabilidade do efeito Compton nas delicadas experiencias sub-atómicas, encerra ele uma generalização de carácter iconoclasta. Acontece o mesmo com as questões macroscópicas onde a Relatividade de Einstein assolou cabal e irreverentemente as mais respeitadas tradições clássicas.
O escopo dessas fugidias linhas é trazer à balha o melindroso assunto do apriorismo das leis da natureza e a contribuição das teorias de relatividade e quântica. Não vá supor que se resvala assim na ilusão do subjectivismo. O objectivismo do universo, é impossível negá-lo. Mas se as abstracções matemáticas, produto de razão pura, podem ser chamadas subjectivas, é também impossível esquivar-nos ao facto de que a mór parte da nossa bagagem cientifica, essa a que damos o duvidoso nome de Leis da Natureza, é incontestavelmente subjectiva. convém distinguir o chocho subjectivismo de Berkeley do preconizado aqui, que é somente admissível nas leis físicas, e não espirituais ou morais. Não será possível que o eminente físico neozelandês (Eddington) tenha afinado o seu aparelho de forma a apanhar o núcleo, de mesma forma como o monstruoso salteador de velha Ática, Procusto, acomodava os seus hóspedes ao seu leito de ferro? É desconcertador. Esse modo de antolhar e questão nos induze a considerar as leis da Natureza não como descobertas, e por conseguinte, tendo uma existência objectiva nela, mas como invenções, feitas à  nossa forma de pensar. Isto assim, não é apriorismo por excelenciaIn Bailon de Sá, Pontos de Vista, New Age Printers, Goa, Índia, 1998.

Para Álvaro José. Descansa em paz
Cortesia NAPrinters/JDACT