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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Quattrocento. Susana Fortes. «Levantei a cabeça e olhei para o fundo da sala como se precisasse certificar-me de que estava a salvo, protegida dentro daquele templo do saber. Havia quatro ou cinco pessoas…»

 Cortesia de wikipedia e jdact

A Conspiração contra os Médicis
«(,…) Precisamente nesse interesse pela observação exaustiva do mundo se enraizava a grande lição de seus manuscritos, com a qual ele contagiou alguns pintores de sua geração e outros mais jovens, como o próprio Leonardo da Vinci, que era apenas um aprendiz de 14 anos quando os dois se conheceram na bottega de Andrea Verrocchio e não demoraria a se transformar num de seus mais fervorosos admiradores: … captar o movimento de um espirro, a espessura de uma gota de sangue, indagar nos rostos das pessoas até ser capaz de adivinhar a sua fadiga, a sua ambição ou a sua luxúria…, descrever as estrias do palato de um cão. Essa devia ser a verdadeira natureza do artista, pensei, um homem capaz, se necessário, de colocar a sua mão pesquisadora entre as garras de uma fera. Além dessas reflexões, os cadernos também incluíam receitas culinárias, contas domésticas, listas de compras, endereços e até fragmentos de poemas que lhe serviam para dar rédea solta aos demónios que o torturavam por dentro. Mas, outras vezes, as suas anotações adquiriam toda a força da actualidade com a contundência de uma martelada, como aconteceu no dia 26 de Abril de 1478, poucas horas antes que o pintor entrasse para sempre no reino das trevas. Era o último domingo de Abril, e a aura religiosa da Páscoa de Ressurreição ainda flutuava no ambiente. Eu imaginava a reverberação que o sol deixaria no ar parado da praça e, ao imergir naqueles dossier, sentia a mesma vertigem que experimentaria se estivesse debruçada num mirante da muralha: o azul absoluto do céu, a cúpula da Santa Maria del Fiore resplandecendo sob o sol com imponente majestade, as vozes que começavam a se congregar por volta do meio-dia na Via Martelli para ir ao ofício religioso. Nada fazia supor que apenas alguns minutos depois, no momento culminante da missa, quando o padre ia elevar o cálice no altar-mor de Santa Maria del Fiore, fossem acontecer ali factos que transformariam aquele sacramento numa monstruosa carnificina que deixaria as naves do templo repletas de sangue e vísceras palpitantes. Embora as margens dos cadernos fossem muito estreitas, em algumas folhas podiam-se ler frases soltas escritas apertadamente com tinta mais escura. Eu examinava as páginas uma e outra vez, tentando captar até o menor detalhe que desse alguma luz à minha investigação: um ligeiro tremor na caligrafia, a tendência descendente de uma linha, uma frase truncada, qualquer alteração, por mínima que fosse. As descrições de Lupetto pareciam tanto mais vivas quanto mais se atinham à morte real. Na penumbra cavernosa da catedral, as coisas deviam ser percebidas de forma fragmentária, desfocadas, como reflectidas nas lascas de um espelho quebrado, e era assim que eu as via enquanto ia lendo com a mente atenta aqueles pergaminhos envelhecidos: a luz branca dos círios, o rosto de um homem em uma nave lateral com os olhos alucinados, como se tivessem sido projectados das órbitas por um espanto antes que a morte os vitrificasse, respirações agónicas, sapateios espavoridos… No fragor do tumulto, um frade com o rosto coberto por um lenço amarelo que lhe escondia o nariz e as bochechas como uma máscara saiu de trás de um confessionário com o hábito de sarja negro arregaçado até os cotovelos, e os braços ensopados de sangue como os de um açougueiro. Nessa altura toda a catedral já estava um inferno. Ouviram-se gritos e uma atropelada confusão de correrias em disparada começou a sacudir os alicerces do templo. O caos foi tamanho que algumas testemunhas temeram que a cúpula de Brunelleschi desabasse sobre as suas cabeças. Todos fugiam: políticos, cónegos catedralícios recolhendo as vestes até à cintura, embaixadores, fiéis, homens, mulheres e crianças dominadas pelo pânico. Alguém disse então que o sangue dos florentinos não era vermelho, mas preto, e que um homem justo deveria antes arrancar os olhos do que ver certas coisas. Quanto mais adentrava na leitura, mais crescia em mim um sentimento opaco que excedia o interesse puramente académico pela minha tese, uma mistura estranha de morbidez e apreensão que assolava a minha curiosidade. Segundo Lupetto, a notícia do atentado contra a família de Lourenço Médici envenenou o ar com o enxofre de uma tempestade que em pouco tempo faria voarem os toldos e estandartes, abarrotaria os becos com gritos de sabá e cairia sobre a cidade como uma condenação. Esses factos, baptizados com o nome de conjuração dos Pazzi por causa do papel que esta família desempenhou na conspiração, não eram desconhecidos para mim nem para nenhum historiador especializado no Renascimento, mas devo reconhecer que a profusão de detalhes escabrosos conseguiu revirar-me o estômago. Parece que alguns dos conjurados tinham chegado ao extremo de rasgar a carne dos mortos com os próprios dentes, um facto que eu não sabia se devia atribuir à vingança ou a algum tipo de ritual macabro. Por um momento, pensei que provavelmente respondesse a uma motivação religiosa. Isso não significava que tais actos implicassem necessariamente algum tipo de canibalismo, real ou simbólico, como o representado na eucaristia pela comunhão do corpo e do sangue de Cristo, mas talvez ajudasse a explicar. Se não, como entender que alguém enfiasse a mão dentro de um cadáver esquartejado e escavasse no seu interior, como relatava um dos testemunhos recolhidos por Masoni: … arrancou-lhe o coração, partiu-o (…), levou-o a boca, deu-lhe uma dentada e eu, ao ver isto, fugi… As ideias se amontoavam na minha mente quando tentei imaginar o possível significado disso tudo, mas o que li a seguir deixou-me ainda mais estupefacta, provocando-me uma náusea que me obrigou a tapar instintivamente a boca com a mão. Levantei a cabeça e olhei para o fundo da sala como se precisasse certificar-me de que estava a salvo, protegida dentro daquele templo do saber. Havia quatro ou cinco pessoas trabalhando nas suas mesas, e durante um segundo pensei na bestialidade íntima que cada um daqueles educados pesquisadores podia ocultar debaixo da sua roupa. Que tipo de animalidade eu também escondia, para que semelhante carnificina me electrizasse?» In Susana Fortes, Quattrocento, tradução de Maria Alzira Lemos, Pontas Literary, 2007, Planeta, Edições ASA, 2009, ISBN 978-989-230-488-5.

Cortesia de PLiterary/Planeta/Asa/JDACT 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Quattrocento. Susana Fortes. «Eu imaginava Lupetto percorrendo os saguões empedrados, tão silencioso quanto o cão que sempre o acompanhava, jogando sobre o ombro esquerdo uma aba da capa com gesto esquivo, passando junto às portas fechadas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Conspiração contra os Médicis
«(,…) Se tomar distância é sempre um bálsamo para qualquer doença do espírito, viajar no tempo o é ainda mais. Assim, decidi-me entrincheirar dentro da minha fortaleza renascentista, onde não estava disposta a deixar entrar mensagens de telefones móveis, nem cartas procedentes de outro mundo, nem ausências de nenhum tipo. Ali me sentia segura com uma simples xícara de café e o relento do inverno florentino que me enchia a cabeça de sonhos. Embora tivesse aterrado em Florença praticamente por acaso, logo tive a sensação de estar indo a um encontro marcado com muita antecedência, sem que eu soubesse. Cheguei à cidade num dia de Inverno com o capuz do casaco baixado até as sobrancelhas e 300 euros no bolso, sob um aguaceiro de fim do mundo. O limpa-para-brisas do táxi que me levou do aeroporto até ao meu apartamento na Via della Scalla não dava conta de limpar a cortina de água que velava os vidros e mal me deixava entrever o bairro que se estendia atrás de Santa Maria Novella, repleto de fachadas descascadas com pátios alagados e oratórios de virgens nas paredes. Toda a cidade parecia inundada e à mercê da torrente. Mas nesse primeiro momento não me ocorreu pensar que tinha chegado a um lugar cheio de passagens secretas que ligavam perigosamente o passado ao presente. Isso foi algo que descobri depois, quando a força da torrente já me tinha afastado demais da margem para voltar atrás.
Estava tão vampirizada por aquele mundo que às vezes a simples passagem de uma carruagem de turistas me fazia sentir o cheiro inconfundível da bosta de cavalo pisoteada nas ruas medievais onde se agrupavam os grémios. Bem perto, na Via Ghibellina, ficavam as bottegas ou estúdios dos artistas, com tecto abobadado e portões em forma de arco. Dali me chegavam o barulho das marteladas seculares, o pó, o cheiro do trabalho braçal misturado aos aromas penetrantes de vernizes e solventes, até que o reflexo azul muito intenso da labareda de um maçarico me tirava dos devaneios e me devolvia à realidade. Do outro lado da janela do Archivio, os plátanos da Viale della Giovane Italia se iluminavam de vez em quando com a luz dos semáforos. Todos os meus recursos emocionais estavam implicados na pesquisa que eu tinha nas mãos. Achava que, enquanto a versão dos factos estivesse incompleta, a interpretação dependia exclusivamente de mim e, portanto, eu me comprometia por inteiro. Assim, me entreguei à história com aquele tipo de entusiasmo que só se pode dedicar a uma paixão, sabendo que sairia dela com a sensação de ter estado imersa em vidas alheias, em tramas que remontavam a cinco séculos atrás. Talvez tanta profissão de arte como a que se concentrava em Florença se visse compensada por certa inclinação pelos baixos instintos, mas eu jamais teria podido imaginar que, dentro daquela utopia festiva que fez explodir o ambiente do Renascimento, ia me deparar com personagens que poderiam muito bem estar na sala dos horrores do museu de cera Madame Tussauds.
A descoberta de uma fonte com a qual eu não tinha contado no início teve papel importante na mudança de rumo que o meu trabalho foi sofrendo. Falo dos manuscritos nos quais Pierpaolo Masoni anotava tudo o que via e fazia esboços de seus desenhos. Tratava-se de uma colecção de nove cadernos que durante anos havia permanecido ignorada no porão do Archivio e à qual, depois de muitos esforços, eu tinha conseguido acesso graças às intercessões do meu orientador de tese junto à Secretaria Nacional do Património Artístico. Não eram grandes arquivos, mas espécies de cadernos de bolso de formato retangular (quadernini), alguns um pouco maiores do que um baralho, encadernados em pelica e fechados por uma alça e um botão cilíndrico de madeira, um sistema exactamente igual ao do meu casaco irlandês que agora pendia de um cabide, na entrada da sala. Todas as manhãs o pintor amarrava o caderno ao cinto e saía pelo mundo preparado para registar atentamente tudo o que acontecia ao seu redor, como qualquer desses repórteres que podemos ver hoje em dia com uma câmara no ombro e as botas cobertas de barro entre os escombros de uma cidade bombardeada, tomando notas em um bloco de papel suado que depois guardam no bolso de trás da calça.
Eu imaginava Lupetto percorrendo os saguões empedrados, tão silencioso quanto o cão que sempre o acompanhava, jogando sobre o ombro esquerdo uma aba da capa com gesto esquivo, passando junto às portas fechadas, parando às vezes sob um portal para desenhar as gárgulas que espiavam nos beirais com uma careta de voracidade e terror, ou olhando a cidade do alto das muralhas, absorto, com a atenção de um entomologista que estivesse estudando um formigueiro». In Susana Fortes, Quattrocento, tradução de Maria Alzira Lemos, Pontas Literary, 2007, Planeta, Edições ASA, 2009, ISBN 978-989-230-488-5.

Cortesia de PLiterary/Planeta/Asa/JDACT

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Quattrocento. Susana Fortes. «… recém-casados beijando-se na ponte Vecchio, motocicletas que iam saltando ruidosamente entre os pátios dos restaurantes, e centenas de jovens de pele escura que, ao entardecer, vendiam braceletes e relógios a 6 euros na Piazza della Reppublica…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Em 26 de Abril de 1478, quinto domingo depois da Páscoa, a história do Renascimento italiano, e provavelmente também a de toda a Europa, esteve a ponto de dar uma virada. O altar-mor da catedral de Florença acolhia naquela manhã a brilhante e turbulenta nobreza local, encabeçada pelo indiscutível homem forte da República, Lourenço de Médici, chamado o Magnífico. No momento culminante da missa, quando o padre elevava o cálice com o vinho consagrado, os conjurados tiraram as adagas que ocultavam sob suas capas e se atiraram sobre a família do mecenas. Esses factos, conhecidos como A conjuração dos Pazzi, marcaram durante gerações a memória dos florentinos por sua natureza violentamente escabrosa. A sua lembrança passou ao imaginário popular com o signo inconfundível das grandes convulsões colectivas, em meio a um imenso clamor de Dies Irae… Vários artistas ilustres do Renascimento, como Botticelli, Verrocchio e Leonardo da Vinci, registaram esses fatos em seus quadros carregados de recônditas referências simbólicas. Mas nenhum deles conseguiu se aproximar tanto da verdadeira índole do acontecido naquele domingo sangrento quanto o pintor Pierpaolo Masoni».

A Conspiração contra os Médicis
«Contar com um retrato falado do assassino é algo prioritário em qualquer investigação policial, mas se o crime foi cometido há cinco séculos, a coisa se complica. Uma pintura do Renascimento não pode ser considerada exactamente uma prova pericial. Mesmo assim, pode nos dizer muito sobre a vida e as circunstâncias que cercaram o artista. Não me refiro apenas às mensagens do quadro enquanto obra de arte, mas a uma outra dimensão da superfície pictórica, com as suas sucessivas camadas de pigmentos que contam a história de uma determinada obra do mesmo modo como os círculos no tronco da árvore nos falam de sua idade biológica. Às vezes a psicologia do pintor fica registada em cada pincelada, ao alisar ou esfumar, e por vezes até em forma de impressão digital. Segundo alguns cientistas, as pinturas poderiam encerrar o código do DNA do artista, presente microscopicamente em vestígios de saliva ou de sangue. Mas até o momento, e tendo em conta a precariedade de meios com que costuma trabalhar uma historiadora da arte, será melhor não contar com essa possibilidade. Cheguei a Florença com uma bolsa da Fundação Rucellai para escrever a minha tese de doutoramento sobre o pintor Pierpaolo Masoni, conhecido como o Lupetto, um dos artistas mais enigmáticos e promissores do Quattrocento, e que, por causa de um acidente, ficou cego em 1478, quando tinha apenas 33 anos. Felizmente, teve tempo de concluir algumas encomendas importantes para a família Médici, como a polémica Madonna de Nievole, e além disso deixou registo das suas reflexões numa série de manuscritos muito valiosos para qualquer amante da arte. No entanto, desde o primeiro momento em que comecei a imergir nesses textos, depositados numa prateleira do primeiro andar do Archivio di Stato de Florença, minhas obsessões foram-se tornando mais próprias de um detective do que de uma estudiosa do Renascimento.
No início da minha estada na cidade, senti uma profunda decepção. Florença me pareceu uma cidade abandonada à própria sorte, com as latas de lixo transbordando e uma balbúrdia de buzinas e sirenes que quebravam o reflexo de seu passado renascentista. Mas, pouco a pouco, fui-me acostumando àquela respiração de búfalo cansado. Aprendi a caminhar pelas ruas sem esbarrar nas hordas de turistas que invadiam a toda hora as estreitas calçadas do centro histórico. Dependendo do momento do dia, reinava um alarido humano de diferentes níveis: executivos que saíam de casa cedo com uma maleta de trabalho deixando no ar uma nuvem irrespirável de loção pós-barba, crianças a caminho da escola com seus gorros e cachecóis da Benetton, funcionários estatais, frades, japoneses que se retratavam sentados nos próprios joelhos do Holoferney de Donatello, recém-casados beijando-se na ponte Vecchio, motocicletas que iam saltando ruidosamente entre os pátios dos restaurantes, e centenas de jovens de pele escura que, ao entardecer, vendiam braceletes e relógios a 6 euros na Piazza della Reppublica, batendo os pés no calçamento de pedra para espantar o frio. Gente de passagem. Entre aquelas manadas de transeuntes que toda manhã tomavam as ruas de assalto, eu era mais uma. Uma transeunte bastante desorientada, isso sim, com uma bolsa da Fundação Rucellai em meu poder, um contrato de aluguer para seis meses que a reitoria da Universidade de Santiago de Compostela havia conseguido para mim, uma mala cheia de livros e alguns assuntos pessoais que precisava esquecer. A camuflagem é a primeira táctica de sobrevivência que alguém deve aprender para se adaptar a qualquer mundo cujo código desconhece. Mas, quando a sensação de estranheza ficava muito insuportável, eu tinha um recurso infalível para transformar a realidade de acordo com o meu desejo. Enquanto esperava no ponto do 22 para me dirigir ao Archivio ou enquanto tomava um cappuccino no Café Rivoire, na Piazza della Signoria, me punha a olhar pela janela e, sem me esforçar muito, em questão de segundos, o passado irrompia e o fervedouro da Florença do século XV se abria diante de mim. Pela minha cabeça iam desfilando cortesãos e capelães, notários, barbeiros, entalhadores e mercadores, como se eu me encontrasse na filmagem de uma produção de época». In Susana Fortes, Quattrocento, tradução de Maria Alzira Lemos, Pontas Literary, 2007, Planeta, Edições ASA, 2009, ISBN 978-989-230-488-5.

Cortesia de PLiterary/Planeta/Asa/JDACT