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domingo, 29 de abril de 2012

Navegações Portuguesas: Parte VII. D. João de Castro. «Quando embarca para a Índia a bordo da nau “Grifo”, em 1538, tenta resolver vários problemas com que se debatia a náutica quinhentista: a determinação da longitude, a representação cartográfica, a determinação da latitude, o desvio da agulha...»

jdact

«Cientista notável, soldado aguerrido, navegador exímio, décimo terceiro governador da Índia e seu quarto vice–rei, João de Castro é um dos vultos mais brilhantes do «Humanismo Renascentista» português, produto de uma geração de ouro da cultura portuguesa onde, entre muitos outros, se podem referir os nomes de Pedro Nunes, João de Barros, Damião de Góis, Diogo de Teive, André de Resende, André de Gouveia, António Manuel de Melo, Diogo de Sá.
Supõe-se que nasceu em Lisboa a 27 de Fevereiro de 1500, embora não haja registo escrito, tendo falecido em Goa a 6 de Junho de 1548. Pertencia à alta nobreza portuguesa: era filho segundo de Álvaro de Castro, vedor da fazenda de Manuel I e João III, e de Leonor de Noronha.
A nobreza, na qual João de Castro se inseria, alimentava, em meados do século XVI, a camada superior do aparelho militar e administrativo do Estado; empenhando-se em defender um vasto Império comercial e marítimo, alicerçado em fortalezas, feitorias, possessões territoriais e domínios estratégicos espalhados um pouco por todo o Mundo conhecido. É precisamente no seio deste complexo e amplo espaço político-económico, de dimensão planetária, que João de Castro sobressairá pelas suas qualidades de cientista, pelos seus dotes de comandante militar e pelas suas medidas de carácter administrativo.

Moço fidalgo de Manuel I, acaba por abandonar o paço real, sensivelmente com dezoito anos, para se iniciar na arte da guerra em Tânger. Nesse palco militar permanecerá cerca de nove anos, acabando por ser armado cavaleiro pelo governador da cidade, Duarte de Meneses. Quando regressa a Portugal, por volta de 1527, recebe comendas e honrarias, sendo em seguida recomendado para vários cargos que se desconhecem em concreto.
No ano de 1535 participa activamente numa poderosa armada, que engrossa no Mediterrâneo com forças espanholas, para dar caça ao corsário Kheir-ed-Din, mais conhecido por "Barbarroxa", que era apoiado pelos turcos. Aliás, o Império Turco em processo de expansão tanto para Ocidente, como para em Oriente em direcção às águas do Índico, esteve presente na maioria dos combates em que João de Castro tomou parte. Logo em 1539, quando pisa pela primeira vez solo indiano depara com um cerco a Diu, feito pelas tropas turcas comandadas por Soleimão Baxá; em 1541 participa numa armada, capitaneada por Cristovão da Gama, que assola as costas do Mar Vermelho em busca da frota de galés turcas; quando regressa da Índia(1542) é nomeado capitão-mor da armada de guarda-costa, com a tarefa de salvaguardar as praças marroquinas da investida turca; em 1546, já no seu consulado como 13º governador da Índia, trava uma luta heróica – saindo vencedor - contra uma força onde predominavam turcos, que, novamente, cercava a cidade de Diu.


João de Castro frequentou assiduamente a corte do Infante Luís, irmão de João III, tornando-se amigo chegado do príncipe, chegando mais tarde a dedicar-lhe um dos seus trabalhos, o roteiro "De Lisboa a Goa". Recheada de vultos que consagravam parte do seu tempo a debater temas relacionados com a Cosmografia, a Geografia, a Náutica e a Astronomia, a corte do infante Luís foi gozando do incentivo e patrocínio do poder real, não deixando de ser compreensível que assim fosse, pois as matérias discutidas estavam envolvidas na sustentação do "Império da Pimenta", constituindo os "saberes" estratégicos do domínio português. A presença de Pedro Nunes, neste circulo real, era certamente solicitada , não só por ser professor do Infante Luís e de seu irmão, o Infante Henrique, mas também, possivelmente, devido ao valor erudito das suas propostas e ideias; tendo sido porventura nesse ambiente que João de Castro conheceu o grande matemático. Na verdade, a relação entre os dois homens será rica e frutuosa, com a peculiaridade de ser um dos únicos casos verificados, durante as navegações portuguesas, em que teoria e prática se aliaram, ou seja, pela primeira vez havia alguém do meio naval a solicitar os préstimos do cosmógrafo–mor e, inversamente, alguém a quem este confiava ideias para serem postas em prática.

A obra de João de Castro é uma das mais significativas de entre as que se produziram durante os Descobrimentos. Entre os textos que chegaram até nós avultam três excepcionais roteiros:
  • "De Lisboa a Goa "(1538); 
  • "De Goa a Dio"(1538-1539); 
  • "De Goa a Soez" ou roteiro do "Mar Roxo"(1541); 
  • salientando-se entre os outros escritos a "Notação famosa, e muito proueitosa", a "Enformação que dom João de Crasto governador da Índia mandou a el Rey dom Joam 3º..."; atribuindo-se ainda à sua autoria o "Tratado da Sphaera, por perguntas e respostas a modo de dialogo" e "Da Geographia por modo de Dialogo". Contudo, recentemente, estes dois últimos trabalhos têm sido imputados a outros autores.
Tal dúvida em nada belisca o valor dos estudos de João de Castro, que se cotou como uma das figuras cimeiras, no século XVI, no estudo da Astronomia Náutica e da Oceanografia. Os seus roteiros, esplendorosa obra de registo de dados e reflexão filosófica, mostram o que de melhor se produziu no meio náutico português. Mostram como já se combinava, em meados do século XVI, experimentação e a análise rigorosa da realidade, teoria e prática, experiência empírica e raciocínio hipotético.

O pensamento de João de Castro pronuncia, pois, algo de novo. Quando embarca para a Índia a bordo da nau “Grifo”, em 1538, tenta resolver vários problemas com que se debatia a náutica quinhentista: a determinação da longitude, a representação cartográfica, a determinação da latitude, o desvio da agulha; estudando em simultâneo o regime de ventos, as correntes, o magnetismo terrestre. O seu trabalho a bordo configura, assim, um verdadeiro projecto científico, incentivado a partir da coroa.

Vivendo num período muito particular, dominado por três poderosas correntes intelectuais: a tradição escolástica, o Humanismo, a moderna corrente de pensamento proporcionada pelas navegações, João de Castro revê muitos dos pressupostos em que se baseava o pensamento dominante, não se afastando, porém, de uma certa visão organicista do Mundo, bebida na "ortodoxia" aristótélica.
Preocupado com as condições do seu conhecimento, com o papel dos sentidos na observação, apostado numa nova metodologia epistémica, João de Castro, apesar de não recusar em absoluto os paradigmas tradicionais, não teve receio "de sair da opinião comum", e ao fazê-lo arvorou-se como um dos elos que fazem a ponte entre as navegações portuguesas e a revolução científica do século XVII». In Carlos Manuel Valentim, Instituto Camões.

Cortesia de I. Camões/JDACT

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Navegações Portuguesas: Parte XX. As Navegações e a Universidade. «A reforma da Universidade a expensas do terceiro filho de D. João I tem degenerado, portanto, em equívocos. Ora, depois de uma análise mais cuidada aos factos, verifica-se que ironicamente a Universidade se manteve arredada dos meios náuticos»

Cortesia de  desertosedesertificacao

As Navegações e a Universidade
«Tentar perceber a influência dos centros eruditos, nomeadamente da Universidade, nos Descobrimentos tornou-se um tema recorrente na historiografia. Nem sempre abordado de forma correcta. Nem sempre tratado com a devida isenção científica. E quando se procura dar a entender que a Universidade ofereceu formas e métodos para a resolução dos problemas relacionados com as navegações, que assaltaram os oceanos ao longo dos séculos XV e XVI, está-se a cair numa tentativa, muito pretendida, e assaz sugestiva, de que Universidade e Descobrimentos andaram de mãos dadas. O que não deixa de ser uma conclusão algo precipitada.
A corrente que defende ter existido em Sagres, no tempo do Infante D. Henrique, uma «Escola Náutica» povoada de cartógrafos, cosmógrafos, matemáticos e outros cientistas também afirma, numa toada similar, que o Infante não teve outro propósito senão o de fomentar os estudos universitários, quando doou umas casas à Universidade de Lisboa, em 1431, a troco da reforma dos seus estudos, tendo em vista a formação dos navegadores. A reforma da Universidade a expensas do terceiro filho de D. João I tem degenerado, portanto, em equívocos. Ora, depois de uma análise mais cuidada aos factos, verifica-se que ironicamente a Universidade se manteve arredada dos meios náuticos.

Cortesia de rodriguesccpa

Uma das provas mais incisivas não deixa de ser o aparecimento de um único registo (ano de 1437) na docência da Matemática, durante todo século XV. O que é bem revelador da importância que se dava, dentro das instituições de ensino superior, a matérias susceptíveis de serem utilizadas na náutica. Acrescente-se, que o próprio Infante D. Henrique se interessou pela cadeira de teologia, provendo-a de um rendimento anual, circunstância muitas vezes omitida.
Convém, ainda, sublinhar que as explorações oceânicas portuguesas, num primeiro momento, isto é, durante os primeiros decénios do século XV, importam e adaptam a náutica em uso no Mediterrâneo. Nessa «arte de navegar» não eram necessários grandes apetrechos técnicos. A navegação era feita com recurso à agulha de marear, à carta portulano, à sonda (instrumentos há muito conhecidos) e, sobretudo, à sabedoria prática do piloto. Os centros académicos nada tinham a ditar a este tipo de navegação que, numa fase inicial, prestou excelentes serviços à marinha portuguesa. Quando, no decorrer da segunda metade do século XV, a Astronomia começou a ter um papel preponderante na náutica, para cálculo de posições geográficas através da altura meridiana do sol e de outros astros, foram os astrólogos, na sua grande maioria judeus, que trabalharam afincadamente nas observações astronómicas, na elaboração dos regimentos e na tradução de alguns textos, úteis à marinharia. Mais uma vez, como se constata, a Universidade não interveio. Nem era crível que o fizesse.

Cortesia de fabiopestanaramos 

Com efeito, problemas de vária ordem assolaram as corporações académicas, um pouco por toda a Europa, a partir de finais do século XIV. Um dos aspectos marcantes dessa nova realidade emergente foi o lancinante divórcio, que se verificou, entre a cultura universitária e a sociedade em geral. Os saberes da «periferia», ou seja, os saberes que circulavam entre os grupos sociais mais afectos à pratica das artes mecânicas e da técnica, artesãos, construtores de fortalezas, relojoeiros, construtores navais, pilotos, polidores de lentes..., ganharam preponderância, e reconhecimento da sua utilidade, diante dos saberes do «centro», alojados nas instâncias académicas. Na verdade, as Universidades vão perdendo, aos poucos, o monopólio das discussões «científicas»; ainda que alguns centros como Salamanca, Oxford ou Paris sejam palco de violentas disputas filosóficas e intelectuais. Entretanto, muitos professores e mestres reputados preferem ensinar e trabalhar fora dos seus muros e contestam abertamente o tipo de escoliose em que mergulharam os estudos universitários. No início do «Mundo Moderno», as Universidades adormecem em formas de aprendizagem e ensino já esgotadas. Resistem à novidade, à inovação intelectual, à modernidade filosófica e científica. Podemos, então, equacionar os seus préstimos.
Que contributos poderiam oferecer, às navegações oceânicas, instituições pedagógicas em agonia, que sobreviviam à sombra da autoridade doutrinária dos autores antigos (contra os quais lutarão essas mesmas navegações) e do vazio dialéctico? Que contributos poderiam oferecer sistemas de ensino que se desgarravam da realidade? Que contributo se poderia esperar de «escolas» que se isolavam e resistiam às reformas, permitindo que a iniciativa intelectual lhes fugisse das mãos?

Cortesia de eescola

A inovação intelectual tornou-se menos dramática nos centros académicos mais jovens como Wittenberg (1502), Alcalá (1508) ou Leiden (1508), onde já imperava a força do Humanismo, mas não foi suficiente para impedir que os saberes da «periferia», alicerçados no saber técnico, continuassem a ter maior capacidade de resposta para os novos desafios que a sociedade lançava, por via da modificação do seu modo de produção e da sua própria estrutura. O panorama universitário em Portugal não diferia muito do Europeu. A Universidade possui, aproximadamente, cento e vinte cinco anos de existência quando as viagens dos Descobrimentos têm início. D. Dinis conseguira, no ano de 1290, instituir o «Estudo Geral» em Lisboa. Contudo, nos reinados seguintes assiste-se à diletância, instável, do «Estudo» entre Lisboa e Coimbra, com a sua reforma a ser continuamente adiada. Nos reinados de D. Manuel I e D. João III opta-se claramente pelo sistema de bolsas de estudo, através da formação de quadros noutros países. Duas iniciativas tomadas durante o século XVI são no entanto dignas de registo:
  • a criação, por D. Manuel, de uma cadeira universitária de Astronomia regida primeiro por Mestre Filipe (1513) e depois por Mestre Tomás Torres (1521), ambos médicos sefarditas;
  • a decisão reformadora de D. João III em transferir para Coimbra a Universidade (1536), convidando para o efeito professores estrangeiros.
A cadeira de Astronomia instituída por D. Manuel não era frequentada pelos marinheiros que sulcavam os oceanos, porque através do «Regimento do Cosmógrafo–mor» temos notícia de, em meados do século XVI, funcionar uma «aula de Matemática», ministrada pelo cosmógrafo–mor. A «aula», que era destinada a pilotos, sota-pilotos, cartógrafos e outros homens ligados à empresa marítima, tinha lugar nos «armazéns da Índia». No Colégio jesuíta de Santo Antão, de 1590 a 1759, funcionou, igualmente, uma «aula da Esfera», aberta ao exterior, cujos contornos didácticos também passavam pelos elementos de cosmografia e da arte náutica.

Cortesia de historiabrvestec

De entre os cosmógrafos–mor, que se sucederam no cargo, a não ser Pedro Nunes, nenhum esteve ligado estritamente ao meio universitário. De facto, Pedro Nunes (1502-1578), um matemático de projecção internacional, professor catedrático na Universidade, conviveu de perto com os homens do mar; não querendo isso dizer que comungasse dos seus pontos de vista, pelo contrário, com excepção de D. João de Castro com quem manteve bons contactos, foram inúmeras as vezes em que o matemático e os marinheiros não estiveram de acordo. Sintoma claro do difícil relacionamento entre as entidades académicas e o meio naval. Outros homens com formação universitária também estiveram ligados, por formas diversas, de modo esporádico ou indirecto, às navegações quatrocentistas e quinhentistas. Vale a pena citar alguns nomes:
  • Diego Ortiz de Vilhegas, que fora professor na Universidade de Salamanca, célebre Bispo de Ceuta e Tânger, é conselheiro de D. João II e D. Manuel I para assuntos cosmográficos;
  • Francisco Manuel de Melo (1496? -1536), formado na Universidade de Paris, também intervém em alguns pareceres sobre as navegações;
  • Garcia da Orta (1500-1568), boticário, que com base na nova realidade proporcionada pelas navegações lança nova luz sobre a farmacopeia.
Caso diferente foi o de André de Avelar que, atento ao fenómeno das navegações, dá uma aula de cosmografia na Universidade de Coimbra em fins do século XVI; caso único, pois a verdade é que ninguém lhe seguiu o exemplo.
De uma forma geral, pode-se concluir que navegações e Universidade estiveram em dois campos completamente distintos. A provar essa distância de posições, estão os testemunhos, usualmente denominados de «literatura de viagens», em forma de roteiros, livros de marinharia, descrições antropológicas e geográficas, diários de bordo, guias náuticos e outros documentos, escritos na sua esmagadora maioria por indivíduos que não tinham formação universitária, e onde é bem patente uma visão do Mundo anunciadora dos novos tempos». In Carlos Manuel Valentim, Instituto Camões.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Navegações Portuguesas: Parte XIV. As Navegações e o Humanismo. «..possibilitando um conhecimento concreto e directo de uma nova flora, de uma nova fauna, de um novo céu e de novas populações, não é menos verdade que o Humanismo teve um papel determinante na divulgação dos Descobrimentos»

Cortesia de ucm 

As Navegações e o Humanismo
«O historiador suíço Jacob Burckard, na sua monumental obra «Die Kultur der Renaissance in Italien», defendia em 1860 que com o Renascimento Clássico nas cidades italianas, entre os séculos XV e XVI, se abrira uma nova Idade na História das sociedades humanas. Aquele historiador associava ao Renascimento uma autêntica revolução nas formas de sociabilidade, de pensar, de conceber a arte, de agir e de ser, acrescentando que o pano de fundo dessa transformação era o «regresso» à Antiguidade Clássica, cujo brilhantismo fora ofuscado pela «noite» da Idade Média. As ideias de Burckard rapidamente ganharam defensores. Muitos dos seus seguidores começaram, então, a estudar o movimento cultural que, em traços largos, acompanhou o renascer da cultura clássica: o Humanismo.

 Contudo, na discussão que se seguiu, não foi possível estabelecer de forma consensual um conceito de «Humanismo» e «humanista», na sua dimensão sociológica, cronológica e cultural. De certa forma compreendem-se as razões de tais dificuldades, pois é necessário ter presente que, afinal, a Idade Média nunca perdeu em definitivo o contacto com a cultura clássica, tendo inclusive assistido a dois «Renascimentos»:
  • entre os séculos VIII-IX (Renascimento «carolíngio»);
  • e outro de contornos mais vastos, nos séculos XII-XIII (acompanhando o renascimento urbano, o aparecimento das universidades, a tradução de inúmeras obras clássicas a partir de Toledo).
No entanto, nos séculos XV e XVI, vai assistir-se a um redobrado interesse pela cultura clássica, com entusiasmo acentuado nas ricas cidades mercantis italianas. De facto, o Humanismo Renascentista foi operando uma viragem mental, muitas vezes em oposição declarada ao período que lhe antecedeu (Idade Média), apresentando como alternativa o exemplo do mundo grego-latino. Assim, enquanto copiavam e davam a conhecer os autores antigos, os humanistas aplicavam novas técnicas filológicas, apuravam o seu vocabulário clássico e desenvolviam disciplinas doutas como a gramática, a retórica, a poesia, a filosofia moral ou a história.

Cortesia de institutocamoes 
As viagens marítimas dos séculos XV e XVI precipitavam, dessa forma, um choque profundo entre os defensores do «Renascimento» da cultura clássica e aqueles que, diante das novidades trazidas pelos marinheiros, começaram a duvidar da superioridade do saber «antigo». Do prelo das modernas tipografias brotavam as primeiras edições impressas da Bíblia e dos autores mais procurados: Aristóteles, Platão, Estrabão, Euclides, Arquimedes, Plínio, Ptolomeu, Discórides, Sto. Agostinho, Galeno ...; adquirindo muitas destas obras uma divulgação extraordinária.
Digno de registo é o caso de Ptolomeu. Entre a primeira edição da sua Geografia em 1475 e o final do século XV seguiram-se 7 edições, aumentando esse número para 36 durante o século imediato. A obra de Ptolomeu também nos pode ajudar a compreender o embate brutal entre a novidade, que soprava dos meios náuticos, e a transmissão da cultura clássica, essencialmente nos centros eruditos. Essa confrontação está patente na forma como é interrompida a edição da Geografia do alexandrino em 1490; a nova imagem do Mundo imposta pelas navegações na viragem do século XV foi implicando alterações no quadro mental europeu que são traduzidas nas «tabulae novae» (cartas geográficas actualizadas) que acompanham a reedição da Geografia ptolomaica em 1507, depois de dezassete anos ausente das editoras.

Cortesia de rebobinandomemoria
Uma nova mentalidade irrompia com base na explosão informativa que as navegações ofereciam. A «experiência» dos navegadores, abalando o prestígio dos autores clássicos mostrava que a existência de uma zona tórrida no Equador era uma falsa ideia, que afinal existiam antípodas e imensas variedades de estrelas e de povos desconhecidos e que a terra formava um único globo com os oceanos.

Em Portugal o Humanismo foi introduzido por mestres italianos:
  • Mateus Pisano,
  • Estevão de Nápoles, 
  • Cataldo Parísio Sículo.
 Este Humanismo é de início essencialmente literário, aparecendo relacionado com o poder político e cultural do rei/Estado. Importa, no entanto, referir que esta cultura humanista vai estabelecendo pontos de contacto com os Descobrimentos e o seu meio envolvente.
Uma atitude mais céptica em relação às navegações e a crença na absoluta necessidade do conhecimento antigo sobrevive em humanistas fortemente influenciados pela realidade italiana: António Ferreira, Sá de Miranda, Francisco de Holanda e o estrangeiro George Buchanan.  a elevação dos feitos dos «Modernos» a par da defesa da «ciência» herdada dos antigos, que possibilitara a empresa descobridora, era uma opinião defendida intransigentemente por homens com formação humanista, mas que estavam em contacto com o meio náutico e mercantil - marítimo:
  • D. João de Castro (navegador e Vice-rei da Índia),
  • João de Barros (feitor da Casa da Índia),
  • Fernando Oliveira (piloto e tratadista naval),
  • Pedro Nunes (Cosmógrafo–mor);
Uma terceira posição, mais radical, que se regozijava com os feitos das navegações foi apanágio de Garcia da Orta (farmacêutico) e Duarte Pacheco Pereira (navegador). 

Cortesia de historiativanetwordpress
Os centros de cultura humanista multiplicam-se um pouco por todo o país, Braga, Évora, Vila Viçosa, mosteiros, colégios, Universidade, na própria corte: círculos de D. Leonor, da Infanta D. Maria e do Infante D. Luís. Se os Descobrimentos se opuseram, de certa forma, ao Humanismo pelo facto de mostrarem os erros de que muitas obras clássicas estavam eivadas, possibilitando um conhecimento concreto e directo de uma nova flora, de uma nova fauna, de um novo céu e de novas populações, não é menos verdade que o Humanismo teve um papel determinante na divulgação dos Descobrimentos
Um pouco por toda a Europa, os humanistas seguem com atenção e curiosidade o desenrolar da viagens oceânicas. Alguns deslocam-se aos portos ibéricos em busca de notícias. Em Portugal estiveram Martin Behaim e Hieronymus Münzer, dois alemães que ligam as navegações portuguesas aos centros de Humanismo na Europa Central.

Cortesia de 2crbucp
Outros casos houve em que foram humanistas portugueses a levar as notícias aos círculos eruditos (Pedro Margalho, o cosmopolita Damião de Góis, os bolseiros que estudavam nas várias universidades europeias tiveram essa papel) ou a verem as suas obras traduzidas (João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Garcia da Orta). A Europa culta dos Séculos XV e XVI tomava conhecimento, desta forma, do importante papel das navegações no despontar de um novo mundo científico». In Carlos Manuel Valentim, Instituto Camões.

Bibliografia:
ALBUQUERQUE, Luís, As Navegações e a sua Projecção Na Ciência e na Cultura, Lisboa, Gradiva, 1987.
ALMEIDA, Onésimo Teotónio de, "Portugal and the dawn of modern science" in Portugal – the Pathfinder. Journeys from the Medieval towards the Modern World. 1300-ca.1600, ed. George Winius, [S.l.], Madison, 1995, pp. 341-361. BARRETO, Luís Filipe, "Humanismo em Portugal" in Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, Vol.2, Lisboa- S. Paulo, Editorial Verbo, 1990, pp. 1217-1222.
GRAFTON, Anthony, New Worlds Ancient Texts, The Power of Tradition and the Shock of Discovery, Cambridge, Massachusetts, London, Harvard University Press, 1995.
HIRSCH, Elisabeth, "The Discoveries and The Humanists" in Merchants & Scholars- Essays in the History of Exploration and Trade, Ed. John Parker, Minneapolis, The University of Minnesota Press, 1965, pp.33-46.
HOOYKAAS, Reyer, "The Portuguese Discoveries and the Rise of Modern Science" in Boletim da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, nº 2, 1966, pp. 88-107.
IDEM, O Humanismo e os Descobrimentos na Ciência e nas Letras Portuguesas, Lisboa, Gradiva, 1983.
MARTINS, Joaquim Pina, "Descobrimentos Portugueses e Renascimento Europeu" in Revista Española de Teologia, Vol. 44, fasc.2, 1984, pp. 383-392.
RAMALHO, Américo da Costa, Para a História do Humanismo em Portugal (III), Lisboa, I.N.–C.M., 1998.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Navegações Portuguesas: Parte VI. Mestre João Faras

Cortesia de educaja

Com a devida vénia a Carlos Manuel Valentim e ao Instituto Camões.

Na Biblioteca da Ajuda encontra-se um códice com a cota 50-V-19, contendo dois manuscritos, um dos quais é uma cópia do século XVI da Tragédia de la Insigne Reina D. Isabel; o outro uma tradução do latim para castelhano do De Situ Orbis de Pompónio Mela. O autor desta tradução está claramente identificado: Mestre João Faras, bacharel em artes e medicina, «físico» e cirurgião de D. Manuel I. A data exacta em que foi efectuada a tradução não se encontra definida. No entanto, tudo indica, tendo em conta a referência D. Manuel I e o tipo de letra do manuscrito, tratar-se de uma tradução feita ainda nos últimos anos do século XV. Joaquim Barradas de Carvalho identificou, nas suas margens, para cima de cento e cinquenta notas feitas por Duarte Pacheco Pereira, que da tradução da obra de Pompónio Mela se serviu abundantemente como uma das fontes principais para redigir a sua própria obra - o Esmeraldo de Situ Orbis.
Muitos foram os autores a se ocuparem da identificação de Mestre João Faras. De Sousa Viterbo a Fontoura da Costa e Joaquim Bensaúde, de Carlos Malheiros Dias a Frazão Vasconcelos, passando pelos últimos estudos de Barradas de Carvalho todos, de uma forma ou de outra, invocaram valiosos elementos que se conjugam num consenso ainda hoje reinante: o autor da tradução do latim para castelhano «aportuguesado» do De Situ Orbis de Pompónio Mela é o mesmo autor que expediu em Maio 1500, para D. Manuel, uma carta sobre problemas náuticos e astronómicos, quando se encontrava a bordo de um dos navios da armada cabralina. A célebre carta, que aparece escrita num português castelhanizado, eivado de erros, é um testemunho esclarecedor dos problemas e das expectativas, técnicas e mentais, com que o meio náutico português se debatia na viragem do século XV. Pelo conteúdo da epístola percebe-se que Mestre João ia encarregado de fazer observações astronómicas. Os dois únicos documentos referenciados que testemunham a ligação ao meio náutico português de Mestre João Faras, a tradução do De Situ Orbis e a carta enviada a D.Manuel I, foram associados pela forma como o seu autor se identifica - pelo mesmo nome próprio, Mestre João; pelo mesmo grau académico, «bacharel em artes e medicina»; pela dificuldade com que escreve português; e pelo cargo que ocupava, «físico e cirurgião d'el rei D. Manuel». Nada de mais significativo se encontrou. Contudo, novos estudos, depois de uma leitura mais atenta da documentação, essencialmente os registos contidos nas Chancelarias reais, apontam para a sua origem sefardita, servidor dos duques de Bragança e morador na região entre Douro e Minho, tendo-se baptizado com o nome de João de Paz, quando D. Manuel I decretou o baptismo forçado dos judeus, por volta de 1496-97. Situação que terá permitido a Mestre João Faras continuar a exercer as suas funções, mas agora com outro sobrenome, que identificava a sua «devota» conversão. Ora, este «simples» facto veio relançar toda a interpretação sobre a figura do astrólogo, permitindo uma nova grelha de explicações tanto para as razões que motivaram a tradução do De Situ Orbis como para a carta enviada a D. Manuel, a 1 de Maio de 1500. A começar, por exemplo, pela forma como Mestre João se dirige ao rei na carta, queixando-se das acanhadas dimensões do navio onde trabalhava.

De facto, os novos dados, que apontam Mestre João como um servidor da Casa de Bragança, dão-nos o ensejo de inferir que o astrólogo viajava no navio cuja propriedade era dividida entre D. Álvaro de Bragança, irmão do Duque D. Jaime, e alguns mercadores florentinos e genoveses proprietários de casas comerciais em Portugal. Tratava-se da caravela redonda, mercante, «Nossa Senhora da Anunciada» (porte: c.100 tonéis; tripulação: c.30 homens) comandada por Nuno Leitão da Cunha. Sem dúvida um dos navios mais pequenos da armada, que é referido em 1501 por Affaitadi como «lo piu pícolo de tuti» . Notória é a forma como Mestre João Faras, em 1500, se empenha nos cálculos das latitudes e nas observações dos astros no hemisfério sul, ao mesmo tempo que vai testando um novo instrumento de medição astronómica, importado do Índico, o Kamal. O seu conhecimento minucioso das regras e dos métodos de navegação, com referências, em determinado passo da sua carta, ao «regimento do astrolábio», deixa perceber que estava a par dos desenvolvimentos teóricos e práticos da náutica, não sendo de todo descabido supor o seu envolvimento nos estudos e traduções - trabalho geralmente entregue a judeus peninsulares - que conduziram aos regimentos que nós hoje em dia apelidamos de Guias Náuticos de «Munique» e «Évora», que se conhecem edições de cerca de 1508 e 1516 respectivamente. É muito provável que os seus préstimos, nesse domínio, continuassem a despertar a atenção do poder central, porque temos notícia de no ano de 1513 se apresentar em Lisboa para trabalhar como astrólogo, passando a auferir de uma tença. Este registo prova efectivamente que Mestre João não morava em Lisboa e que frequentemente prestava serviços ao rei no campo da náutica astronómica, permitindo-lhe o contacto os sectores mais ligados às navegações, pois só assim se explica a referência, na sua carta, a um mapa mundo, ainda hoje desconhecido, em posse de Pero Vaz Bisagudo, que assinalava onde estava a nova terra descoberta em Abril de 1500. Nos últimos registos de que dispomos, temos notícia de Mestre João se ter estabelecido no Porto com a sua família. Temos assim que, tal como Pero Vaz de Caminha, Mestre João Faras era originário das terras entre Douro e Minho, no qual o Porto constituía o seu centro; e tal como Pero Vaz de Caminha, também Mestre João não ocupava um cargo em exclusivo ao serviço de D. Manuel I. Cortesia de Carlos Manuel Valentim
Cortesia de alvarohfernandes

A Carta do Mestre João Faras, versão:
Senhor:
O bacharel mestre João, físico e cirurgião de Vossa Alteza, beijo vossas reais mãos. Senhor: porque, de tudo o cá passado, largamente escreveram a Vossa Alteza, assim Aires Correia como todos os outros, somente escreverei sobre dois pontos. Senhor: ontem, segunda-feira, que foram 27 de abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho de Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, e a sombra era setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17°, e ter por conseguinte a altura do pólo antártico em 17°, segundo é manifesto na esfera. E isto é quanto a um dos pontos, pelo que saberá Vossa Alteza que todos os pilotos vão tanto adiante de mim, que Pero Escolar vai adiante 150 léguas, e outros mais, e outros menos, mas quem diz a verdade não se pode certificar até que em boa hora cheguemos ao cabo de Boa Esperança e ali saberemos quem vai mais certo, se eles com a carta, ou eu com a carta e o astrolábio. Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina. Ontem quase entendemos por acenos que esta era ilha, e que eram quatro, e que doutra ilha vêm aqui almadias a pelejar com eles e os levam cativos. Quanto, Senhor, ao outro ponto, saberá Vossa Alteza que, acerca das estrelas, eu tenho trabalhado o que tenho podido, mas não muito, por causa de uma perna que tenho muito mal, que de uma coçadura se me fez uma chaga maior que a palma da mão; e também por causa de este navio ser muito pequeno e estar muito carregado, que não há lugar para coisa nenhuma. Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do (sul), mas em que grau está cada uma não o pude saber, antes me parece ser impossível, no mar, tomar-se altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro ou cinco graus, de modo que se não pode fazer, senão em terra. E quase outro tanto digo das tábuas da Índia, que se não podem tomar com elas senão com muitíssimo trabalho, que, se Vossa Alteza soubesse como desconcertavam todos nas polegadas, riria disto mais que do astrolábio; porque desde Lisboa até às Canárias desconcertavam uns dos outros em muitas polegadas, que uns diziam, mais que outros, três e quatro polegadas, e outro tanto desde as Canárias até às ilhas de Cabo Verde, e isto, tendo todos cuidados que o tomar fosse a uma mesma hora; de modo que mais julgavam quantas polegadas eram, pela quantidade do caminho que lhes parecia terem andado, que não o caminho pelas polegadas. Tornando, Senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam ao derredor sobre o horizonte, e ainda estou em dúvida que não sei qual de aquelas duas mais baixas seja o pólo antártico; e estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro; e a estrela do pólo antártico, ou Sul, é pequena como a da Norte e muito clara, e a estrela que está em cima de toda a Cruz é muito pequena. Não quero alargar mais, para não importunar a Vossa Alteza, salvo que fico rogando a Nosso Senhor Jesus Cristo que a vida e estado de Vossa Alteza acrescente como Vossa Alteza deseja. Feita em Vera Cruz no primeiro de maio de 1500. Para o mar, melhor é dirigir-se pela altura do sol, que não por nenhuma estrela; e melhor com astrolábio, que não com quadrante nem com outro nenhum instrumento. Do criado de Vossa Alteza e vosso leal servidor. Johannes, artium et medicine bachalarius.

Cortesia de jeocaz
Bibliografia:
  • CARVALHO, Joaquim Barradas de, La Traduction Espagnole du "De Situ Orbis" de Pomponius Mela par Maître Joan Faras, Lisboa, J.I.U., 1974;
  • COSTA, Abel Fontoura da, A Marinharia dos Descobrimentos, Lisboa, Edições Culturais da Marinha, 4ª ed. 1983;
  • VALENTIM, Carlos Manuel, "Mestre João Faras - Um Sefardita ao Serviço de D. Manuel I" in Cadernos de Estudos Sefarditas, n.º 1, 2000 pp. 167 –220.
Instituto Camões, 2002

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