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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Um Paladino Discreto da República. Eusébio Leão. António Ventura. «… comum em todas as teses impressas, desde o seu director, José António Arantes Pedroso, até figuras bem conhecidas e prestigiadas como José António Serrano, natural de Castelo de Vide, Miguel Bombarda e José Curry Cabral»

Cortesia de franciscovalente e jdact

«A I República é um dos períodos fulcrais da história contemporânea de Portugal. Esse regime, que nasceu nas jornadas revolucionárias de 4 e 5 de Outubro de 1910, percorreu uma via dolorosa de 16 anos, abreviada pelo movimento militar de 28 de Maio de 1926, conheceu sobressaltos, equívocos, realizações louváveis a par de outras meramente superficiais. E, sobretudo, desperdiçou um grande capital de esperança. De entre os dirigentes republicanos que, a partir do Regicídio, prepararam com maior empenhamento o advento do novo regime, tanto na propaganda aberta, na imprensa, nos comícios ou nas conferências, como nos obscuros meandros das organizações secretas, Eusébio Leão teve uma acção decisiva que contrasta com o esquecimento a que tem estado votado. Esse facto não deixa de suscitar uma certa estranheza, tanto mais que ele integrava o Directório do Partido Republicano, seu órgão máximo, desde o Congresso de Setúbal (1909), com uma acção relevante nos trabalhos que antecederam a insurreição de Outubro de 1910. Esteve presente na varanda da Câmara Municipal de Lisboa, após a vitória, a ele cabendo o anúncio oficial da mudança de regime. Quem foi esse médico franzino que protagonizou um papel de primeiro plano naquele momento decisivo da nossa história, e que conheceu um relativo apagamento mesmo durante a República, agravado depois com a viragem operada em Maio de 1926?

De Gavião a Lisboa
Este percurso empreendido por Eusébio Leão foi, afinal, idêntico ao de alguns, poucos, portugueses que, nascidos em terras do interior, tinham que se deslocar, a fim de prosseguirem os seus estudos, para as Universidades de Lisboa e Coimbra, consoante os cursos que desejassem frequentar. Francisco Eusébio Lourenço Leão nascera em Degracia Cimeira, freguesia e concelho de Gavião, a 2 de Fevereiro de 1864, no seio de uma família humilde; era filho de Eusébio Lourenço, natural de Amieira (Nisa) e de D. Ana Heitor, natural de Atalaia (Gavião). Foi baptizado em casa por necessidade e depois solenemente, na Matriz da vila, a 3 de Abril seguinte. Após ter efectuado os estudos primários em Gavião, Eusébio Leão partiu-para Lisboa. Seus irmãos (...) arrancaram-no muito novo à província e começaram por mandar-lhe ensinar o suficiente para a vida comercial a que o dedicavam. Data de 9 de Dezembro de 1884 o requerimento em que solicitava à edilidade local autorização para transferir a sua residência para a freguesia de Santa Catarina, na capital.
Mas não estava destinado à carreira comercial; matriculou-se na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Não conseguimos localizar, no arquivo da actual Faculdade de Medicina de Lisboa, os documentos referentes à sua passagem por aquela escola, mas o curso não deve ter conhecido sobressaltos de maior, obtendo até louvores em quase todas as cadeiras e prémios pecuniários nos 3º e 5º anos. Foi ainda escolhido, quando frequentava o 5º ano, para prestar serviço no Hospital de Santa Marta por ocasião da grande epidemia de influenza. Em Julho de 1890 apresenta a sua dissertação inaugural intitulada Algumas Palavras sobre os Parasitas do Paludismo, que teve como Presidente o Doutor José Joaquim Silva Amado, Professor de Medicina Legal e Higiene, obtendo aprovação plena. Este pequeno livro de 64 páginas, o único, aliás, publicado por Eusébio Leão durante toda a sua vida, contém algumas informações e referências curiosas. Em primeiro lugar, o trabalho é dedicado Aos meus irmãos António e Ramiro Leão - aos vossos solícitos desvelos devo o meu curso. Está assim explicada a ida para Lisboa e a continuação dos estudos. Foi essencial o apoio dos irmãos, em especial o de Ramiro Leão, abastado comerciante da capital e com negócios no Brasil, o qual, não obstante diferenças políticas profundas, manterá sempre com Eusébio fortes laços de amizade. Mas o jovem estudante não queria depender exclusivamente da generosidade fraternal, durante os seus estudos leccionava, porque era preciso não se tornar pesado a seus irmãos.
No mesmo volume encontramos a relação dos professores da Escola Médico-Cirúrgica, o que era, aliás, comum em todas as teses impressas, desde o seu director, José António Arantes Pedroso, até figuras bem conhecidas e prestigiadas como José António Serrano, natural de Castelo de Vide, Miguel Bombarda e José Curry Cabral. Mas a terceira referência tem a ver com o tema da própria dissertação, muito ligado ao concelho de Gavião, obrigado por uma disposição regulamentar a escrever uma tese escolhi para assunto dela as afecções palustres que abundam na terra de onde sou oriundo. Curiosa alusão à gravidade de que o paludismo se revestia naquela região em finais do século XIX. A vida escolar de Francisco Eusébio Leão foi marcada, desde o início, por uma militância associativa digna de realce, durante os 6 anos que esteve em Lisboa foi Presidente da Caixa de Socorro aos Estudantes Pobres, que vegetava numa situação de decadência, e que ajudou a reerguer. Mas o ano em que termina o curso é um ano muito especial no que respeita à política portuguesa.


A 11 de Janeiro de 1890, a Grã-Bretanha apresenta ao governo português a célebre nota diplomática que ficou conhecida com a designação de Ultimatum, e que suscitou em todo o país uma onda de protestos antibritânicos e antigovernamentais. Embora esse movimento não fosse exclusivamente dinamizado por republicanos, enquadrando até personalidades monárquicas bem conhecidas na Comissão Executiva da Grande Subscrição Nacional, são aqueles primeiros que capitalizarão o descontentamento popular. A tibieza do  governo e a cedência perante as exigências inglesas confundem-se com a fraqueza da Monarquia. Redimir a pátria passaria, assim, pela mudança de regime. Só através da República, Portugal poderia readquirir a sua dignidade e lavar a honra ultrajada». In António Ventura, Eusébio Leão, Um Paladino Discreto da República, edição da CM do Gavião, capa de Raul Ladeiro (Lagóia), Gavião, 1991.

Cortesia da CMGavião/JDACT

sábado, 16 de junho de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. Comentado por Francisco de Borja Garção Stockler. «Chegado a Flor de Rosa, em vez de tomar as cautelas convenientes, contentou-se com saber que no Crato não havia ainda espanhóis: e sem estabelecer guardas avançadas, nem vedetas nos lugares convenientes, assentou de dar algumas horas de descanso à sua Tropa»


jdact
 
«Entretanto existia ainda no Crato alguma porção de trigo e farinha, que era conveniente salvar, e para este fim mandou o Duque um Destacamento de quinhentos homens de Infantaria, e quarenta ou sessenta cavalos, cujo comando confiou ao coronel Carcome, ordenando-lhe que logo que chegasse a Flor de Rosa, aí tomasse Posto, e se mandasse informar se o inimigo tinha ou não já entrado no Crato; qual a situação de seus Postos avançados; e até onde lançava as suas Patrulhas, a fim de executar esta operação com toda a circunspecção, e prudência.
Nesta segunda comissão se houve Carcome como na primeira. Chegado a Flor de Rosa, em vez de tomar as cautelas convenientes, contentou-se com saber que no Crato não havia ainda espanhóis: e sem estabelecer guardas avançadas, nem vedetas nos lugares convenientes, assentou de dar algumas horas de descanso à sua Tropa, que ainda não tinha comido, e se achava assaz fatigada de marcha, que executara na noite precedente e na manhã daquele dia, a qual por culpa de seu guia fora mais dilatada do que deveria ser. No meio do descanso, a que se abandonara, foi surpreendido por um Corpo espanhol de dois a três mil homens, que o Inimigo mandava ao Crato com o fim de apoderar-se do Depósito secundário, que ali existia. Teve Carcome ainda tempo para formar a sua Tropa; mas em vez de expedir logo a notícia do aperto em que se achava para o Campo do Gavião, e para Ponte de Sor, para onde sabia que se tinha mandado marchar de Abrantes um Destacamento assaz forte para auxiliar a sua retirada, e a marcha do seu Comboio por aquele lado; não conhecendo a vantagem que lhe ofereciam o Convento, e a mesma Povoação de Flor da Rosa, aonde poderia fazer-se forte, e defender-se o tempo bastante para ser socorrido; não sabendo mesmo parquear-se com os seus carros; rumou o partido de bater-se em retirada, o que fez por espaço de uma légua Aldeia da Mata. Ali se defendeu valentemente até consumir o cartuxame, que a sua Infantaria tinha nas patronas: e achando-se envolvido por todos os lados, se rendeu prisioneiro de guerra com mais de metade do seu Destacamento, tendo perdido a sua artilharia e munições, e uma grande parte dos carros que conduzira para a evacuação do Depósito». Cartas do autor da História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal, e da restauração deste reino, por Francisco de Borja Garção Stockler [...], Rio de Janeiro, na Impressão Régia, 1813.
In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «José Acúrcio das Neves escreveu a esse propósito: “De Gavião se fez uma expedição para salvar os [depósitos] do Crato, que se compunha de 600 homens e 80 cavalos; mas inutilmente, porque em Flor da Rosa foi ‘surpreendida’ e feita quase toda prisioneira por forças superiores”»



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«Como se vê, Manuel Godoy equivoca-se em vários momentos. Nem o exército luso retirava em direcção a Crato, mas sim a Gavião, nem as tropas que saíram de Portalegre tinham como objectivo persegui-lo. O ‘general’ era, realmente, um coronel, e os fugitivos não levaram o ‘temor’ às tropas de Crato, rumando sim em direcção ao grosso do exército. Claro está que sabemos que estas memórias foram publicadas muitos anos após os acontecimentos que descrevem, e sem recurso a documentos coevos, pelo que é útil compulsarmos essa versão com a que o próprio Manuel Godoy inseriu na “Gaceta de Madrid”.
A descrição do combate, feita pelo comandante das tropas portugueses, apresenta algumas coincidências com a que escrevera sobre o combate de Arronches. Naturalmente que José Carcome Lobo procurava justificar o sucedido. Esse texto, que foi utilizado, certamente, por Luz Soriano na descrição que fez do mesmo episódio. Dele ressalta uma actuação quase impecável. Procedeu-se ao reconhecimento prévio do terreno, as tropas descansavam junto às suas armas mas com duas sentinelas colocadas na torre, presumimos que do mosteiro, dominante da planície. Carcome Lobo teria, também, disposto guardas avançadas, porque no relatório afirma que às duas da tarde fora avisado por ‘vedetas avançadas’ de que o inimigo vinha dos lados de Portalegre. Estava, segundo esta versão, excluída a hipótese de surpresa... E de imediato o comandante se dispôs a defender as posições ocupadas, aprontando as duas bocas de fogo, todos os soldados armados e grupos a proteger os flancos. Outro grupo de militares colocou-se na retaguarda para procurar melhores posições; os carros de bestas foram retirados, na impossibilidade de fazer o mesmo com os que eram puxados por bois, bem mais lentos. A artilharia portuguesa disparou sobre o inimigo, retardando-o, mas a cavalaria lusa repetiu a proeza de Arronches, fugindo precipitadamente e, como ali, atropelando na fuga a infantaria incluindo o próprio Carcome Lobo. Perante o ímpeto atacante, os portugueses retiraram em direcção à Aldeia da Mata, onde se entrincheiraram atrás de muros de pedra e num pequeno bosque, mantendo um fogo nutrido até que, esgotadas as munições, e após duas horas de tiroteio, acabaram por se render na sua grande maioria, incluindo o próprio comandante. Os espanhóis fizeram mais de três centenas de prisioneiros que foram levados para Badajoz e posteriormente libertados, depois de darem a sua palavra de honra em como não voltariam a pegar em armas durante aquela campanha.
A descrição de Carcome Lobo colide com todas as outras versões, nomeadamente com a de Neves Costa, embora este não tenha sido testemunha do combate; e, o que é mais sintomático, contrasta com a de Francisco de Borja Garção Stockler. Este foi, como se sabe, um colaborador íntimo do duque de Lafões, apontado por muitos como o grande responsável pelos desastrosos resultados da campanha de 1801. Já no Brasil, em 1813, no livro que escreveu em resposta às acusações formuladas contra si e o duque por José Acúrcio das Neves, embora reconhecendo alguma valentia a Carcome Lobo, Stockler julga-o muito negativamente, considerando, tal como Neves Costa, que ele fora completamente surpreendido e que não tinha tomado as necessárias medidas para prevenir qualquer ataque inopinado.
Ao menos neste ponto, estava de acordo com José Acúrcio das Neves...

NOTA: José Acúrcio das Neves escreveu a esse propósito: “De Gavião se fez uma expedição para salvar os [depósitos] do Crato, que se compunha de 600 homens e 80 cavalos; mas inutilmente, porque em Flor da Rosa foi ‘surpreendida’ e feita quase toda prisioneira por forças superiores”.

In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

terça-feira, 3 de abril de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «De regresso a Gavião, o oficial português veio a apurar, em Gáfete, que houve um combate de Flor da Rosa, e que alguns fugitivos da coluna de Carcome Lobo tinham por ali passado, fugindo a bom fugir... Quando se preparavam para carregar os abastecimentos ali armazenados, a força portuguesa foi atacada pelas tropas espanholas»


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«No dia 4 sucedeu um episódio curioso. Ao Campo de Gavião chegou um mensageiro espanhol, oficial de Hussares, ajudante de campo do general Inácio de Lencastre, comandante da 2ª Divisão, o qual era portador de uma mensagem para o duque de Lafões. No caminho encontrou a coluna de Carcome, junto a Gáfete, e ficara aparentemente convencido de que aquela se deslocava para Estremoz. À cautela, o coronel português fez-lhe vendar os olhos para que não visse qual o caminho tomado pelo destacamento. Quando o referido oficial espanhol regressou às suas linhas, foi escoltado por alguns portugueses, entre os quais o brigadeiro Neves Costa, que o conduziu por um caminho diferente do que inicialmente tomara, de modo a evitar um encontro com a coluna que fora a Flor da Rosa. No entanto, quando chegou a Alpalhão, Neves Costa aproveitou a sua missão de escolta, com o consequente salvo-conduto, para reconhecer o terreno:
  • ‘lembrando-me que talvez não tivéssemos tropas em Alpalhão, e ignorando-se se os espanhóis ali estavam, tinha agora uma excelente ocasião para me certificar disso; saber ali de algumas novidades relativas a Portalegre e Marvão, e na minha volta vir por Gáfete e Tolosa para saber do que se passava no Crato, etc.’
 Recebido pelo capitão-mór de Alpalhão, Neves Costa veio a saber que, na tarde do dia 3, uma força espanhola proveniente de Portalegre por ali passara em direcção a Crato e que, no dia seguinte, novos reforços de cavalaria e infantaria, com a mesma origem, tomaram idêntico caminho. De regresso a Gavião, o oficial português veio a apurar, em Gáfete, que houve um combate de Flor da Rosa, e que alguns fugitivos da coluna de Carcome Lobo tinham por ali passado, fugindo a bom fugir...
De facto, quando se encontravam em Flor da Rosa e se preparavam para carregar os abastecimentos ali armazenados, a força portuguesa foi atacada pelas tropas espanholas sob o comando do marquês de Mora, com uma flagrante superioridade:
  • 1 esquadrão de Hussares, 3 de Borbón, 2 de Alcântara, 3 de Farnesio, 3 de Almansa, 2 batalhões de Maiorca, 100 homens do 1º batalhão da Catalunha e 4 peças de artilharia.
Terão os espanhóis tido conhecimento atempado da expedição portuguesa, como receava Neves Costa, sendo, assim, deliberada a sua acção sobre Flor da Rosa e Crato com o objectivo de interceptar a coluna? Não obstante as críticas do brigadeiro Neves Costa sobre a falta de secretismo na sua preparação, no ‘Campo de Gavião’, e a possibilidade de ela ser conhecida do inimigo, as dificuldades de comunicação e até, a própria cronologia dos acontecimentos acaba, em nossa opinião, por inviabilizar aquela hipótese. Na verdade, a operação foi planeada a 2 de Junho, e as tropas portuguesas marcharam no dia seguinte, 3, ao pôr-do-sol. Ora, ao compulsarmos os diários de operações das divisões espanholas envolvidas na acção, nada consta sobre uma preparação deliberada ou sobre um conhecimento prévio do sucedido. Assim, no diário da Divisão de Vanguarda lê-se:
  • Dia 4
  • El Mariscal de Campo marquês de Mora con 100 hombres del 1º de Cataluña, 2 Escuadrones de Borbón, 1 de Húsares y otros 3 de la 2ª División, salió al amanezer para ocupar los almacenes que los enemigos habian dejado en Crato y en Flor de Rosa, y proporcionar al mismo tiempo forrages a la Caballeria que ya no podia subsistir en Porto Alegre. Al paso por el lugar de Flor de Rosa encontró con un destacamento enemigo compuesto de 6 Compañias completas de Granaderos y Cazadores, 40 Dragones ingleses, 25 portugueses y 6 piezas de Artilleria, que a las ordens del animoso coronel Josef Carcome llevaba el mismo objeto. El marqués de Mora lo atacó y derrotó completamente matando a muchos y tomando prisioneros 360 hombres entre los quales se encontraban l7 oficiales y el Comandante Principal, que también lo havia sido en la función de Arronches (continua)".
In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

sábado, 17 de março de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «É necessário vigiar e procurar informações da parte de Alter, Avis e Ponte de Sor, sobre a marcha ou forças com que o inimigo se aproxima daquele lado, a fim de que alguma das suas colunas não se avance por aquela parte procurando cortar a nossa retirada sobre a ponte de Abrantes»

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«Em alternativa, havia que ir buscar tudo o que a deficiente logística portuguesa tinha reunido, de forma a impedir que caísse em mãos inimigas. Consciente dessa dificuldade, Neves Costa apresentou um memorando ao duque de Lafões com algumas sugestões:  
  • ‘os destacamentos enviados a Nisa, Alpalhão e Crato para guardarem e protegerem a retirada dos efeitos que dali se houverem de transportar para o Campo do Gavião, podem e devem servir ali de primeira linha dos postos avançados, pois que estes lugares ficando rodeados de planícies podem facilmente descobrir os movimentos e marchas do inimigo numa grande distância. Para este fim, segurança e vantagem dos ditos destacamentos, é preciso que eles sejam compostos particularmente de cavalaria a fim de fazer as rondas e descobrir como se precisa, advertindo que as patrulhas de cada destacamento apenas sentirem o inimigo avisarão não só o respectivo corpo a que pertencerem, mas também os postos ou destacamentos que lhe ficarem contíguos a fim de se evitar a surpresa ou o ser cortado. E necessário recomendar providências para que em Abrantes se examinem os soldados que vão do Campo com o título de doentes, ou licenças, pois é provável que entre estes haja muitos que se retirem ilegitimamente; o que concorre a enfraquecer os corpos que compõem o exército. É necessário vigiar e procurar informações da parte de Alter, Avis e Ponte de Sor, sobre a marcha ou forças com que o inimigo se aproxima daquele lado, a fim de que alguma das suas colunas não se avance por aquela parte procurando cortar a nossa retirada sobre a ponte de Abrantes. E preciso também examinar a natureza e força das fortificações que defendem a dita ponte deste lado do Tejo; pois segundo algumas notícias elas não são capazes de a proteger contra qualquer ataque’.

Por fim, no dia 3 de Junho, projectou-se o envio de uma força a Gáfete, Tolosa, Flor da Rosa e Crato com o objectivo de recolher os abastecimentos ali existentes. Ao brigadeiro Bernardim Freire de Andrade foi confiado o comando da coluna, mas o seu estado de saúde não permitiu que o assumisse, sendo substituído pelo coronel José Carcome Lobo, o polémico comandante das tropas lusas em Arronches, o que não augurava nada de bom. O duque de Lafões assistiu, a cavalo, ao desfile das forças que eram constituídas por 4 companhias de granadeiros, 2 de caçadores, num total de 600 homens de infantaria, e 70 de cavalaria dos quais 30 dragões ingleses da escolta do duque, 2 canhões de 6 e 2 de 3. Este destacamento devia escoltar 60 carros, uns puxados por mulas e outros por bois, destinados ao transporte dos víveres e apetrechos existentes nos armazéns.

Quando a expedição deixou o Campo de Gavião, ao entardecer do dia 3 de Junho de 1801, o seu objectivo era conhecido há algumas horas. E surgiu o receio de que, se esse conhecimento era geral no acampamento português, o mesmo poderia suceder entre o inimigo, que poderia ser alertado pelos seus espiões não obstante a distância a que se encontrava.

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O brigadeiro Neves Costa não podia ser mais pessimista quanto ao resultado da expedição que adivinhava desastroso pela qualidade do seu comandante, moral da tropa e publicidade dos objectivos:
  • ‘O oficial comandante de um corpo de tropas derrotadas em Arronches, era o mesmo que se escolhia para comandar uma expedição que se devia considerar terminando num segundo combate. Que confiança pois podiam ter estas tropas num chefe semelhante publicamente acusado justa ou injustamente como culpado e autor da derrota de Arronches? O soldado, e particularmente o soldado bisonho é perfeitamente uma máquina, ou um animal irracional que precisa de muito jeito para o fazer mover como se pretende. Ainda que Carcome fosse um hábil oficial, e tivesse desenvolvido grandes talentos na acção de Arronches, entretanto os soldados não estavam persuadidos disso, e era preciso no combate imediato atender absolutamente a esta prevenção dos soldados. Não era só Carcome batido e com o crédito de ignorante e de traidor para os soldados brutos, o oficial encarregado desta importante expedição; o conde de Lieutaud, que comandava em Arronches 200 cavalos que fugiram tão vergonhosamente, era novamente o comandante de uma cavalaria de menor número e que justificava o seu temor com a desconfiança e mau crédito do seu comandante. Não se podiam pois comentar, nem de propósito, erros tão crassos e palpavelmente funestos’.

A comparação com o ocorrido em Arronches era inevitável:  
  • ‘vendo que 200 cavalos fugiram ao inimigo em Arronches, agora julgavam suficientes 70 para defenderem um comboio de carros num terreno de planícies imensas’.

Criticando asperamente a incompetência já provada do duque de Lafões e do seu ajudante Francisco Stockler, mas também a aquiescência cúmplice de John Forbes e de Miguel Pereira Forjaz, Neves Costa analisava as características do terreno por onde se iam movimentar os portugueses:  
  • ‘Flor da Rosa e Crato distam do Gavião 5 para 6 léguas. Estas terras distam de Portalegre muito menos de 4, o terreno entre Gavião e Flor da Rosa é de planície aonde a cavalaria tem uma vantagem decisiva; é pois sobre um tal terreno, sobre a vanguarda do nosso exército e para a parte do inimigo que se envia um destacamento de 600 infantes e 70 cavalos, devendo executar a sua comissão num lugar mais próximo do inimigo do que nós; e nestas 5 léguas de distância ficando inteiramente abandonado, sem haver outro corpo que apoiasse em Gáfete ou noutro lugar a sua marcha retirada? Ainda se fosse um reconhecimento, um ataque repentino, etc., que eles tivessem de fazer, mas um movimento tão vagaroso qual era o de acompanhar carros, e fazê-los carregar, e conduzi-los carregados, não devia dar assaz tempo ao inimigo para marchar a atacar este comboio? Grande Deus, e é crível que nos nossos dias tantas loucuras se tenham podido cometer? E notando a publicidade da expedição projectada já no dia antecedente não ficava ainda mais certo o ataque do comboio?’

In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

domingo, 8 de maio de 2011

Conflito Luso-Espanhol de 1801. O Combate de Flor da Rosa. «...A infantaria foi colocada nas alturas a sul de Gavião, formando as unidades de emigrados franceses a segunda linha. O parque de artilharia ficou junto à vila e a cavalaria num vale estreito a sul da mesma, ocupando uma posição impossível de defender uma vez que era dominada por elevações que os portugueses não controlavam»

Cortesia de edicoescolibri 

«Após a evacuação de Portalegre e das posições junto à serra de São Mamede, as tropas portuguesas procederam a uma retirada geral em direcção ao Tejo, acabando por se instalar junto a Gavião. A descrição minuciosa feita pelo Brigadeiro de Engenheiros José Maria das Neves Costa permite-nos acompanhar em pormenor essas movimentações. A 31 de Maio de 1801, já as forças lusas acampavam junto a Gavião, partindo no dia seguinte o Marquês de Tancos para Abrantes, acompanhado pelo desembargador João Ferreira Batalha, encarregado da logística, a fim de orientar a chegada das provisões destinadas a um exército onde o ânimo atingia níveis que rivalizavam com a penúria de alimentos. A infantaria foi colocada nas alturas a sul de Gavião, formando as unidades de emigrados franceses a segunda linha. O parque de artilharia ficou junto à vila e a cavalaria num vale estreito a sul da mesma, ocupando uma posição impossível de defender uma vez que era dominada por elevações que os portugueses não controlavam.

Cortesia de edicoescolibri
O desastre de Arronches não servira de lição ao comando português. Num vale tão exíguo, em caso de ataque inimigo, a coordenação entre infantaria e cavalaria seria impraticável. Por outro lado, o terreno situado entre a vila e o rio Tejo não estava ocupado militarmente nem sequer nele foram colocadas vigias, confiando os chefes militares portugueses na inacessibilidade do terreno. Neves Costa, o mais rigoroso crítico da campanha e dos chefes militares portugueses, verberou asperamente tal excesso de confiança nas defesas naturais, sublinhando que, se essas margens eram, de facto, avessas a qualquer força de cavalaria ou de artilharia, uma «infantaria atrevidamente conduzida podia por ali avançar e rodear a nossa esquerda e fazer-nos por isso perder uma batalha».

A opção pelas terras junto a Gavião para acantonar o exército português provocou, por outro lado, a perda de comunicações com outras localidades da província, com o consequente desconhecimento dos movimentos inimigos. Nem sequer se conservaram partidas de observação nos caminhos de Alpalhão e Portalegre que mantivessem o comando português informado da evolução das tropas espanholas.

Cortesia de edicoescolibri
A 2 de Junho chegou ao campo do Gavião a notícia da entrada dos espanhóis em Portalegre. Mas, sobre a situação de Campo Maior, nada se sabia. Consciente dessa falta, o Duque de Lafões incumbiu o general John Forbes Skellater de estabelecer postos avançados que dominassem as regiões circunvizinhas do acampamento, e de proceder ao levantamento topográfico do terreno onde o exército se encontrava bivacado e suas imediações, «com a individualização necessária das ribeiras, fontes, estradas, eminências e de tudo o que convém reconhecer para as disposições de defesa». O dispositivo montado estava, porém, longe do ideal. Os postos eram insuficientes e na sua maior parte situavam-se a curta distância do acampamento, o que impediria um aviso atempado em caso de ataque inimigo. Os flancos estavam desprotegidos e as patrulhas enviadas em reconhecimento pelo caminho de Gáfete raramente se atreviam a sair da estrada para se internarem no campo.

Outra situação ilustrativa da debilidade do campo do Gavião - sem falar nas deserções constantes - e da forma apressada e caótica como a retirada se efectuara, foi o facto de, embora Alpalhão, Nisa, Crato e outras localidades tenham sido abandonadas pelas tropas portuguesas, ali se conservarem importantes armazéns de víveres e apetrechos, completamente indefesos à mercê do inimigo. Restava determinar se era viável reparar o mal... Dada a proximidade daquelas localidades em relação às linhas espanholas, cuja localização continuava a ser ignorada, seria impossível o envio de tropas para defenderem os armazéns, a não ser que pudessem contar com poderosos efectivos, que, em boa verdade, não existiam». In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Pequito Rebelo: Membro fundador do Integralismo Lusitano e figura destacada no movimento agrário, na base científica e política

(1893-1983)
Gavião
Cortesia de skockyalcyone

«José Adriano Pequito Rebelo foi membro fundador do Integralismo Lusitano e figura destacada no movimento agrário, na base científica e política. Era possuidor de fortuna pessoal, financiando diversas publicações monárquicas integralistas como a revista Nação Portuguesa ou o jornal A Monarquia. Durante a 1ª Grande Guerra, combateu na Flandres como oficial miliciano.

Desenvolveu importante papel no combate que os integralistas lusitanos desenvolveram contra a «Salazarquia» e na desvinculação dos monárquicos ao «Estado Novo». Em 1949, chefiou uma lista agrária independente nas eleições para o Parlamento, designado na altura por Assembleia Nacional. Manteve-se membro destacado nas movimentações monárquicas de oposição ao Estado Novo, acompanhando e incentivando todas as acções visando o seu derrube ou a divulgação dos princípios do Integralismo Lusitano, como o lançamento da Editora Biblioteca do Pensamento Político, a constituição do movimento da Renovação Portuguesa, etc.
Veio a ser empossado no cargo de conselheiro do Duque de Bragança, em 1 de Dezembro de 1978, cargo que manteve até à sua morte». In José Manuel Quintas.

Da esquerda para a direita, em pé: Ruy Ulrich, Hipólito Raposo, Luís de Almeida Braga e José Pequito Rebelo. Sentados: António Sardinha, Vasco de Carvalho, Luís de Freitas Branco, Xavier Cordeiro e Alberto Monsaraz
As Origens do Integralismo Lusitano, Nova Ática, 2004
Foto de José Manuel Quintas
Cortesia de arepublicano

Cortesia de Alameda Digital/JDACT