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terça-feira, 23 de junho de 2015

Teatro. Jaime Sampaio. «… parece-me que o mais interessante de Peixinho Grelhado, é que o alvo da ironia não seja aqui apenas o mundo que o rodeia mas a sua própria obra e as convenções que criou ao longo de décadas de escrita…»

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O Pato Bravo, os Peixinhos e os Lobos com pele de Cordeiro
«São vagabundos seres despojados de bens materiais e voltados para o lado espiritual da existência humana; seres que, graças à distância que (voluntária ou involuntariamente) os separa do resto dos homens, conseguem detectar-lhes os defeitos e pôr o dedo nas feridas da Humanidade. E é precisamente com dois desses vagabundos que se inicia Peixinho Grelhado. Frente a uma fogueira, preparam um peixe para comer, munidos do respectivo manual: um livro especializado que caracteriza cientificamente as várias qualidades existentes de peixe e a forma mais adequada de os fritar, grelhar, assar ou cozer. Seguimos atrás deles. E é aqui que o autor nos apanha na ratoeira. Afinal, o peixinho somos nós: os pequenos deste mundo que os grandes se entretêm a grelhar. Ou a fritar, ou a assar, ou a cozer. E os vagabundos, para usar a língua do autor, que neste texto associa recorrentemente pessoas e animais, revelam-se autênticos lobos em pele de cordeiro. Para além do profundíssimo desencanto contido nesta peça, parece-me que o mais interessante de Peixinho Grelhado, é que o alvo da ironia não seja aqui apenas o mundo que o rodeia mas a sua própria obra e as convenções que criou ao longo de décadas de escrita para o palco. Convenções com que agora decidiu, também ele, brincar, para nos confundir» In Ana Maria Ribeiro, Lisboa, 2001.

Peixinho grelhado
«Estamos em pleno campo, onde podem ser vistas algumas flores, sobretudo malmequeres. Aqui e além, espalhados pelo chão, há restos de árvores abatidas. Ao fundo, corre um riacho que o público não vê, embora possa ouvir o ruído da água, normalmente suave. Em cena, dois homens, Joe e Mac, casa dos quarenta. Com naturalidade e algum desmazelo, vestem calças remendadas e, por cima de camisas de mangas arregaçadas, envergam coletes, de uma cor incerta, comida pelo tempo. Quando a acção começa, o riacho quase não se ouve. Joe e Mac, sentados em toros de grandes dimensões, olham em silêncio para uma fogueira improvisada, onde estão a grelhar peixe. Um tempo.

Joe (num grito, olhando pela primeira vez o companheiro), Mac!
(Mac não reage, continuando a olhar a fogueira. Um tempo)
Joe (procurando suavizar a voz) E se fosses buscar um braçado de lenha?
(Mac continua sem reagir.)
Joe (começando a impacientar-se) É uma coisa que não falta por estas paragens! (Pausa) Desde que eles começaram... (Hesita na palavra)..., as escavações..., há árvores mortas por toda a parte! (Longa pausa. Recuperando, aparentemente, a calma) Ao menos, que diabo, podias arranjar meia dúzia de gravetos. (Pausa. Insinuante) Sempre ajudava a avivar o lume... E o nosso peixinho grelhava... (Com exagerado entusiasmo)..., muito mais depressa...
Mac (continuando s olhar a fogueira; a meia voz) Hum…
Joe (insistindo, sorridente) Nem tinhas de ir longe... Davas meia dúzia de passos e...
Mac (sem mudar de atitude) - Hum...
Joe (com um largo sorriso) Então já vês! (Pausa. De nono impaciente, notando que Mac continua apático) Por que é que não vais? (Levanta-se, indicando a Mac, com severidade, o caminho que ele deve seguir, para encontrar a lenha ou os gravetos)
Mac (leantando-se também e encarando Joe, pela primeira vez; calmo mas categórico) Por duas razões, Joe. (longa pausa.) Bom senso... E um saudável sentido das responsabilidades. (Pausa. Em tom amigável) Pois então tu querias que o nosso peixinho ficasse estorricado? (Trepa para o toro onde já estivera sentado, impondo silêncio a Joe; em tom doutoral) O achigã, Joe, deve ser grelhado em lume brando. (Pausa. Apontando para o peixe que está ao lume) Tempo mínimo, para um exemplar daquela corpulência: vinte minutos.
Joe (desconfiado) Achigã?... (Apontando para a fogueira) Como é que tu sabes? (Pausa) Quem é que te disse o nome..., do nosso peixinho?
Mac (com naturalidade, tirando um livrinho do bolso e abrindo-o em determinada página) Basta olhar a gravura da página vinte e três... (Descendo do toro onde tem estado empoleirado, entrega o livro a Joe.) Achigã... Micropterus salmoides.
Joe (sarcástico, quase sem olhar a gravura) Tá bem, pronto... (Fecha o livrinho com toda a força)... Chamemos-lhe assim... (Atira o livrinho para longe.)
Mac (formalizado) Mas o que é que tu julgas?!... É uma obra séria, Joe!... Universitária! (Começa à procura do livrinho pelo chão) O Autor até fez um..., um doutoramento sobre a matéria... (Continuando à procura do livrinho.) Pisci... (Encontra finalmente o livro e exibe-o, triunfante.) Piscicultura... É esse o termo!...Vem na contracapa... (Lendo) Doutoramento em mil novecentos e setenta e...
Joe (interrompendo-o; preocupado) Pois sim, mas com este lume...
(Mac, durante esta fala de Joe, limpa o livrinho da poeira e guarda-o no bolso, com ar superior)» In Jaime S. Sampaio, Teatro Completo, III, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa, 2002, ISBN 972-271-127-X.

Cortesia de INCM/JDACT

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O Mar não Precisa de Poetas. Jaime Sampaio. «Muita mais água correu e muita água corre ainda, aqui, bestes escritos que deslizam à flor de um mar que, arquétipo preexistente ao seres humanos que não precisa de poetas. Papoilas, o riso dos trigais da cdu…»

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«Ao que vos parecer verso chamai verso, e ao resto chamai prosa». In Irene Lisboa

«Viajamos, esquecemos, imaginamos. O amor é sempre uma criança».

«Os homens inventaram as mulheres. E as mulheres inventaram o mundo».

«Entre céu e terra, desejo e morte, a linha do teu corpo anuncia o norte».

«Se enquanto houver amor, houver amor, vai tudo bem. E enquanto a vida for, também».

«A Morte?... Nós já lá estivemos, calha bem. É uma casa muito grande com muitas janelas sem vista para o mar. Andámos por lá uma eternidade. E como o bom filho à casa torna, havemos de voltar».


«Os dias pingam da torneira do tempo. Quando o nível das águas beijar os meus lábios, logicamente deixarei de cantar. Até lá: Lá-la-ri-lo-lé. Desculpem se desafinei»

«Era então isso a paisagem: umas quantas árvores, campos, sombras, casario? E a vida. Era então isso a vida: o voo de um pássaro inexistente, em viagem urgente para sítio nenhum?»

«Ontem, disse o pardal, à beirinha do telhado. Mas os pássaros têm péssima memória…, e o pardal não acabou o seu discurso».

«Passava uma criança (as crianças também passam) por uma rua da cidade. Mas esta criança levava consigo, pela mão, um velho. (Embora o velho pensasse que era ele quem levava pela mão uma criança)»

In Jaime S. Sampaio, O Mar não Precisa de Poetas, Hugin Editores, Lisboa, 1998, ISBN 972-831-058-7.

Cortesia de Hugin/JDACT

domingo, 21 de junho de 2015

O Mar não Precisa de Poetas. Jaime Sampaio. «Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito da cdu está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Todo o homem de acção é essencialmente animado pela cdu…»

Os Tios 
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«Ao que vos parecer verso chamai verso, e ao resto chamai prosa». In Irene Lisboa

«Ignorância, sim. Porque tem de ser. Mas uma ignorância sorridente».

«Nós nunca estamos verdadeiramente onde estamos. Viajamos».

«Se tiveres pressa toma um avião. Se tiveres sede bebe um copo de água. E deixa-te de coisas. Se achares bonita aquela árvore, diz-lho, que diabo. Se achares que é feia, assobia e segue o teu caminho».

«Ver, ignorar, esquecer. Voltar o passado e o futuro de pernas para o ar… E sonhar, sonhar, sonhar».


«Pois bem. Também nós tivemos um dia de amor. Lá fora chovia e os autocarros… Era um dia de Inverno. Sempre foram curtos os dias de Inverno».

«Agora que estás longe e dissemos, sem lágrimas, as últimas palavras, lembro-me de ti: como éramos felizes quando éramos infelizes nos braços um do outro!»

«Desculpa: ainda sei o teu nome. E a linha do teu corpo (desculpa, rapariga) ainda não aprendi a esquecer-me dela».

In Jaime S. Sampaio, O Mar não Precisa de Poetas, Hugin Editores, Lisboa, 1998, ISBN 972-831-058-7.

Cortesia de Hugin/JDACT

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O Mar não Precisa de Poetas. Jaime Sampaio. «Papoilas: o riso dos trigais. Há sempre um erro novo à nossa espera. Seja ele um cubo ou uma esfera, há que recebê-lo com alegria. É um erro novo. Está à nossa espera»

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«Ao que vos parecer verso chamai verso, e ao resto chamai prosa». In Irene Lisboa

«Há tanto mistério e tanta beleza no acto da criação artística como no seu contrário: passar pela vida sem criatividade. Ambas as coisas são humanas, absurdas. E fugazes».

«Quando morre um poeta, a poesia não fica mais pobre, não senhor. O poeta tinha mesmo de morrer, fazia parte do seu trabalho de casa».

«É preciso ter amado a vida para aceitar a morte. Convém mesmo ter amado alguém».

«Fazer teatro é brincar aos deuses, já se sabe. … Mas os deuses, ao fazerem de conta que faziam o mundo, não estariam também eles a brincar aos teatros?»

«Naquele tempo os deuses ainda viviam, sobreviviam, num daqueles sinistros lares da terceira idade. Os animais, é claro, falavam ainda correntemente. E as plantas, as pedras, os penedos, os penhascos, os minérios e os minerais, cantavam em coro a sua canção. Ainda! … As pessoas é que tinham começado a não existir, buzinando, coléricas, nos engarrafamentos».

«Papoilas: o riso dos trigais».


«As pessoas, no geral, não vivem. Acontecem. E quando acontecem, se acontecerem!, as pessoas, em regra, não fazem a menor ideia, morrendo sem saber quem foram, por onde andaram e com quem. Ora nós, pormenor curioso!, chamamos a esta alcateia de patuscos a humanidade».

«Há sempre um erro novo à nossa espera. Seja ele um cubo ou uma esfera, há que recebê-lo com alegria. É um erro novo. Está à nossa espera».

«As pessoas que sabem tudo, nem sabem o que perdem da beleza deste mundo».

In Jaime S. Sampaio, O Mar não Precisa de Poetas, Hugin Editores, Lisboa, 1998, ISBN 972-831-058-7.

Cortesia de Hugin/JDACT

quinta-feira, 18 de junho de 2015

O Mar não Precisa de Poetas. Jaime Sampaio. «Poesia: o sonoro silêncio das palavras. … E a chuva cai, severa e dura. É a chuva a cair, sem literatura»

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«Ao que vos parecer verso chamai verso, e ao resto chamai prosa». In Irene Lisboa

«O poema germina quando beijamos a palavra certa. Mas nem sempre a poesia chega ao papel, florescendo às vezes na praça pública, sem grande respeito pelas literaturas».

«Para quem sabe ouvir, o silêncio é um som como outro qualquer. Para quem não sabe, o silêncio é a coisa mais triste que pode acontecer a uma pessoa».

«Poesia: o sonoro silêncio das palavras».

«… E a chuva cai, severa e dura. É a chuva a cair, sem literatura».


«Esparramado numa cadeira de lona, na chamada varanda da tia Julieta, Heliodoro escuta o pulsar dos astros. A varanda dá generosamente para o mar e a tia Julieta morreu há muitos anos».

«Chuvada caindo de um céu sem nuvens, a poesia acontece quando menos se espera, desafiando as regras da meteorologia».

In Jaime S. Sampaio, O Mar não Precisa de Poetas, Hugin Editores, Lisboa, 1998, ISBN 972-831-058-7.

Cortesia de Hugin/JDACT

O Mar não Precisa de Poetas. Jaime Sampaio. «Em silêncio esvoaçam antigas palavras. E as feridas reabrem, num perfume de flores. O mar não precisa de poetas. Os poetas é que precisam dele, para falarem, maritimamente, de outras coisas»

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«Ao que vos parecer verso chamai verso, e ao resto chamai prosa». In Irene Lisboa

«Por que será que o meu gato
tem bigode grande e farto
e eu que nasci primeiro
só tenho um buço ligeiro?

O mar não precisa de poetas.
Os poetas é que precisam dele, para falarem,
maritimamente, de outras coisas».

«Mesmo quando é uma grande chatice, a poesia pode não ser chatice nenhuma. O que é preciso é não levarmos os poetas a série (de pessoas sérias está o mundo cheio); o que é preciso é dizermos olá! Quando vemos um poeta. E não o metermos na capoeira do entendimento».

«A poesia é tão fácil como a chuva. Só o não sabe quem usa gabardina».

«Até uma certa idade, todas as crianças são poetas.
Depois, olha…
Só algumas se aguentam, passeando de bicicleta
(Tlim! Tlim! Pelo mar sem fim».


Escrever é anti-natural. Quase tanto como não escrever. E é pândega, afinal, a escrita. As palavras estão ali, naquele dicionário, arrumadinhas por ordem alfabética. Escrever é uma pessoa chegar lá e pumba!... Desarrumá-las sistematicamente».

«Em silêncio esvoaçam antigas palavras.
E as feridas reabrem, num perfume de flores».

In Jaime S. Sampaio, O Mar não Precisa de Poetas, Hugin Editores, Lisboa, 1998, ISBN 972-831-058-7.

Cortesia de Hugin/JDACT