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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Vida de Nun’Alvares. Oliveira Martins. «E não sei no mundo que hoje me podesse confortar mais, como ver tão santo cavalleiro, como tu has de ser. E como tu verás maravilhas que excederás; porque Deus, que te fez nascer em tal pecado…»

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Conforme o original

O prior do Hospital
«(…) O logar de Tristão achava-se vago na Mesa redonda dos cavalleiros: foi esse logar que Nun’Alvares, ou Galaaz, preencheu. Era um sólio perigoso, uma cadeira de morte, que acabava com todos os que nella se sentavam. Quando o heroe appareceu na sala, cerraram-se todas as portas e janellas por encanto; mas um raio de sol, entrando milagrosamente, illuminou em cheio a figura do heroe que aparecia armado de loriga e bravoneiras, com dois signaes vermelhos sobre o braço. Por onde entrara? Ninguém o vira. Com elle vinha um ermitão, que assim disse para o rei Arthur: eu te trago o cavalleiro desejado que vem d’el-rei David e de José d’Arimathea, por quem as maravilhas d’esta terra e das outras haverão acima. E Galaaz sentou-se na cadeira terrível, dizendo todos compassadamente: Galaaz, sêde o bem-vindo! Era aquelle o bastardo de Lançarote do Lago, sobrinho do rei Marte da Cornualha: o cavalleiro de quem Merlim e os prophetas haviam fallado como o que descobriria o Santo Graal, terminando assim as aventuras do reino de Logres. Era elle que havia de descobrir o sacrario da pátria, dando a commungar aos seus filhos a hóstia santa do sacrifício; era elle quem terminaria, também, as aventuras do reino de Portugal, com façanhas que gradualmente iam avultando na sua imaginação, á medida que os annos cresciam, e, com o crescer, o sol da vida, subindo, ia desmanchando as névoas da flor da terra. Em torno da Mesa sentavam-se, confundidos em admiração, os cento e cincoenta cavalleiros presididos pelo rei Arthur. Eram Booz de Gaunes, o velho pae do presidente e do imperador Alaino de Constantinopla, nascido de uma filha do rei da Gran-Borgonha, que o seduzira por encantamento, obrigando-o a mentir aos votos de castidade; era Percival, de Galles, e Eric, o filho d’el-rei Lot; eram Ganet e Garriet, Leonel e Brandinor, Ocursus-o-negro, Orinides-o-branco, e Sagramor, e Gardamontanha, mais Arnal-o-formoso, com Martel-do-grande-escudo, e os outros em cujo gremio entrava Galaaz, como Nun’Alvares, quando o pae o levou á corte d’el-rei Fernando I, em 1373.
A idéa da partida para Santarem, á corte, apparecia-lhe como a do seu heroe para a sala dos cavalleiros: ia sentar-se ahi na cadeira vasia e terrível, para vencer o Fado n’uma successão de aventuras e façanhas inauditas. Também levava uma armadura forjada com o lume da virtude; e mais de uma vez simulara com os ermitões do Bomjardim a scena do cemitério, quando Galaaz quis ver a campa do cavalleiro desleal sobre que os demonios dançavam em permanencia. O defunto gemia agonias no seu tumulo, ensombrado por uma velha arvore, e, soluçando, pedia a Galaaz que se afastasse; mas o cavalleiro impavido levantou a campa, d’onde sahiu um fumo negro como pez, depois chammas, depois o próprio demónio em pé : ai, Galaaz, santa coisa vejo em ti… Vejo-te cercado d’anjos, que não posso durar contra ti. E porém te deixo o meu logar, em que longo tempo folguei… E foi-se o diabo. No fundo do tumulo estava o defunto armado. E a historia termina dizendo que a campa do moimento demonstra a dureza dos corações que Nosso Senhor achou no mundo, quando aqui veio. porque na terra nom achou el se nom duros corações: e bem parecia, porque o filho não amava o pae. nem o pae o filho, e por isto iam todos ao inferno.
Já as historias tinham um symbolismo moral; e esse momento novo da educação entrava no espirito do nosso heroe, apresentando-lhe a vida como um exercício de virtude, ensinando-lhe que o mérito das acções não está no que são, mas sim no que significam; dizendo-lhe que o supremo destino da existência é converter os homens ao bem, levantando de sobre elles a campa dos pecados da carne, em corações endurecidos pela vida bravia dos tempos. Por isso o ermitão acompanhara sempre Galaaz, para lhe mostrar a significação e o alcance dos lances da sua vida aventurosa, como os coros da tragedia antiga, commentando as acções dos heroes. E Nun’Alvares relia a falla do ermitão, onde se faz a apotheose da bastardia, considerando-se necessário o peccado de origem para a consummação das façanhas: filho! Coisa santa e honrada, flor e louvor de todos os mancebos, outorga-me, se te praz, que te faça companhia em toda a minha vida, emquanto te puder seguir... E não sei no mundo que hoje me podesse confortar mais, como ver tão santo cavalleiro, como tu has de ser. E como tu verás maravilhas que excederás; porque Deus, que te fez nascer em tal peccado, como tu sabes, por mostrar seu grande poder, essa grande virtude te outorgou por sua piedade e pela boa vida que tu começaste de tua meninice até aqui, que te dará poder, e força, e bondade de armas e de ardimento sobre todos os cavalleiros que nunca trouxeram armas no reino de Logres (ou de Portugal?) assim que tu darás acima a todas as outras maravilhas e aventuras, onde todos falleceram e fallecerem. E quero todos teus feitos saber que acabarás, pois foste feito em tal peccado, onde os outros não poderam vir, que foram feitos em leal casamento…
Assim educado, partia Nun’Alvares para a corte aos treze annos. A própria bastardia que, embora corrente e commum no tempo, podia levantar-lhe pensamentos deprimentes do animo, encontrava sancção e apotheose nos livros da sua paixão. Os bastardos eram eleitos. Deus escolhia os manchados por esse peccado de origem. A virtude do peccador é preferente. Ia disposto a exceder todas as façanhas e prodígios, de valor e de abnegação. Floria-lhe o lyrio da virtude cândida na alma ingénua; pulava-lhe nas veias o sangue com os impulsos da força exuberante». In Oliveira Martins, A Vida de Nun'Alvares, História do estabelecimento da dinastia de Avis, Livraria de António Maria Pereira, Editor, 1893, Makew Parr Collection/Magellan and the Age of Discovery/Presented to Brandies University, 1961.

Cortesia de LAPereira/JDACT

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Música. Poesia. Crato. «Para um amigo tenho sempre um relógio esquecido em qualquer fundo de algibeira. Mas esse relógio não marca o tempo inútil. É um arco íris de sombra, quente e trémulo. É um copo de vinho com o meu sangue e o sol»

Cortesia de wikipedia e jdact


Sílabas
«Sílabas.
O álcool de Dezembro é frio e rouco.
O cigarro amarga. É um cigarro clínico.
Sílabas.
Com sílabas se fazem versos.

O tampo da mesa é liso.
Uma colher é uma forma complexa
familiar e deliciosa.
Um corpo é nítido
como um criado sem servilismo.
Uma mulher condensa-se
no olhar do poeta.
Um corpo. Duas sílabas.
O dinheiro à justa. A gola da gabardina
para tapar a nuca
e os ouvidos.
Sílabas».


JDACT

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Embaixador João Pequito. Colecção Beneméritos SCML. Ana Gomes. «A curiosidade de mergulhar na efervescência da vida, reservada apenas aos homens livres, também lhe decifra a reputação que soube conquistar de charmeur-des-femmes, mas, acima de tudo, desvenda-o como leal e cumpridor do código de camaradagem»

Faculdade de Direito da U. de Lisboa
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Introdução
«(…) À firmeza indomável do carácter somava uma sôfrega curiosidade que o explica como leitor compulsivo de jornais, como amante das artes em geral e da literatura em particular, ou ainda como apreciador dos prazeres da mesa, dedicação ao paladar que lhe fazia merecer o título de gourmet. A curiosidade de mergulhar na efervescência da vida, reservada apenas aos homens livres, também lhe decifra a reputação que soube conquistar de charmeur-des-femmes, mas, acima de tudo, desvenda-o como amigo praticante, leal e cumpridor do código de camaradagem, viciado nas tertúlias que tinha a competência de saber manter sempre estimulantes.
Apesar de ter crescido filho único, não teve essa condição até à adolescência, idade em que um acidente de viação lhe roubou o irmão mais velho, assim abruptamente sonegado a um futuro promissor. Uma morte que carregou discretamente por toda a vida adulta, persistentemente guardada na reserva de um passado que não denunciava nos tempos e espaços de convívio. Mas que inevitavelmente marcou a sua compreensão da fragilidade da vida que se apaga sem aviso, obrigando-o a olhar a existência como algo a ser desfrutado com prazer, paixão e voracidade. Nem o anúncio de um cancro que o ameaçava nos últimos anos, e que viria a ser o rastilho do seu óbito, o desmobilizou na sua cruzada de optimismo. Recebeu a notícia da doença com preocupação mas não esmoreceu nos seus propósitos: os de viver a vida e preparar a morte. Detentor de uma fortuna considerável, em parte herdada da família, mas que soube multiplicar exponencialmente ao longo dos anos, a redacção das suas derradeiras vontades era sentida como uma missão a cumprir. O destino a dar aos seus bens foi alvo de prolongada meditação e constante transformação.
Se João Pequito tinha como imutável a determinação de canalizar a sua riqueza para os outros, tendo como intermediária uma instituição com intervenção social, o dilema era escolher a eleita. A principal inquietação do antigo embaixador era a de que o seu espólio fosse debelado por administrações menos empenhadas que desvirtuassem a sua dádiva. Como tal, acompanhava com fervorosa atenção as notícias que circulavam sobre as entidades que olhava como potenciais candidatas a herdeiras. Qualquer informação depreciativa era motivo para novas inquirições e consequente alteração da decisão testamentária.
No início de 2002, cerca de ano e meio antes da data da sua morte, redige as finais intenções nas quais a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa emerge como herdeira da sua vasta riqueza e depositária da sua exigente confiança. À secular instituição da capital não impôs uma finalidade concreta de aplicação dos bens, num gesto de reconhecimento da missão de boas causas que a Misericórdia praticava. Elegeu ainda o combate ao cancro como beneficiário da sua fortuna, ao deixar ao Imperial Cancer Research, prestigiada entidade de investigação na área da oncologia com sede no Reino Unido, uma fatia substancial dos valores financeiros que acumulara. Não foram ainda esquecidos alguns familiares, o advogado e amigo Paulo Ennes, a governanta que o serviu ao longo de quase duas décadas em Gáfete ou ainda a Junta de Freguesia desta localidade alentejana, todos contemplados com legados em bens ou quantias monetárias.
Para lá das dádivas que podem ser inventariadas, o outrora diplomata deixou uma herança que vive na memória dos que o conheceram. E que se revela num mesmo sorriso, sempre igual nos diferentes rostos daqueles que fizeram parte do seu círculo de amigos. Uma expressão que nasce invariavelmente à mera invocação do seu nome. Nela se lê um valioso espólio de amizade. Uma promessa de generosa descoberta. Uma crónica de liberdade. Um elogio à vida vivida de João Pequito, benemérito da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa». In Ana Gomes, Embaixador João Pequito, Colecção Beneméritos SCML, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Lisboa, 2011, ISBN 978-972-8761-90-5.

A amizade de Armando Mafaldo
Cortesia da SCML/JDACT

Embaixador João Pequito. Colecção Beneméritos SCML. Ana Gomes. «Um genuíno espírito livre, que a ficção literária certamente encaixaria no perfil do anti-herói: provocador, excessivo e inconvencional. Mas também generoso, franco e solidário»

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Introdução
«Filho de abastados proprietários alentejanos, fez do mundo a sua casa. Diplomata de carreira, preferia a frontalidade à mera cortesia. Solteiro por vocação, alimentava assiduamente uma teia de sólidas amizades que prezava como uma família. Apesar de valorizar a poupança no dia-a-dia, não se privava dos detalhes que maior satisfação lhe emprestavam: os prazeres sensoriais do quotidiano, as viagens pelo mundo e o festivo convívio com os amigos, embrulhado em paladares e conversas animadas. Exuberante no seu insaciável consumo da vida, mantinha discretos alguns gestos de solidariedade e outras consensuais qualidades que facilmente lhe granjeariam o elogio dos demais. Mas não era o reconhecimento público que o movia. Era o gozo de viver cada dia, sempre fiel a si próprio.
Num permanente equilíbrio entre os extremos onde gostava de morar, João Eduardo Nunes Oliveira Pequito revela-se como uma figura complexa, intensa e fascinante. Nos invariavelmente saudosos testemunhos dos que o conheceram, surge como um bon vivant, amiúde irreverente e sempre descomprometido. Um genuíno espírito livre, que a ficção literária certamente encaixaria no perfil do anti-herói: provocador, excessivo e inconvencional. Mas também generoso, franco e solidário.
Se fosse personagem de uma história imaginada, certo é que desempenharia o papel de protagonista. Mas, porque a realidade consegue ultrapassar a ficção, irrefutável é o lugar que ocupa na história da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, enquanto um dos seus maiores beneméritos no século XXI. Posição conquistada ao ter eleito, depois de prolongada ponderação e meticulosa avaliação, a secular a instituição da capital como a herdeira dos seus avultados bens, num gesto de generosidade invulgar.
Invulgar é um apelido que assenta como uma luva ao embaixador João Pequito, como faz prova a narração da recheada viagem que foi a sua vida. Uma jornada que arranca em Lisboa no ano de 1925, poucos meses antes dos pronunciamentos ocorridos em várias divisões militares do país, conduzindo à instauração de uma ditadura militar. Convulsão que pôs fim à I República e abriu caminho ao Estado Novo, regime político que viu vigorar, com desagrado, até às vésperas de completar meio século de existência. Se cresceu sob o signo do sistema liderado com mão de ferro por Salazar, já não envelheceu debaixo dos seus auspícios, recebendo com entusiasmo a democracia para a qual a revolução do 25 de Abril de 1974 abriu portas em Portugal.
Desde a infância vestiu o papel de viajante, para o qual demonstrou ter verdadeira vocação ao longo da vida adulta, enquanto diplomata de carreira. No início, era a obrigação filial de seguir a família nas frequentes mudanças de morada pelo território nacional, fruto das nomeações do pai, magistrado de profissão, para distintas comarcas judiciais do país. Assim se compreende que João Pequito tenha concluído os primeiros estudos na Covilhã, seguindo depois para Santarém, cidade onde frequentou o liceu, para só mais tarde regressar à sua cidade natal, quando ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Depois, foram as exigências profissionais enquanto membro do corpo diplomático português, que o fizeram seguir rumo a destinos como Paris, Hong-Kong, Roma, Rio de Janeiro, Bruxelas ou Cidade do México, locais onde exerceu funções ao serviço do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE).
Apesar de ser um cidadão do mundo, com genuína natureza cosmopolita, não esqueceu a genética familiar, com profundas raízes no solo do Alentejo. Por isso, entre as frequentes deslocações à escala do globo, o diplomata jamais renunciou ao insistente regresso a Gáfete, pequena freguesia alentejana, de onde era originário o pai, e na qual a família Pequito residiu durante prolongadas temporadas. Ostentava mesmo um orgulho salutar no seu ancestral berço alentejano. Quando confrontado com a franqueza desarmante que o caracterizava, respondia com recurso ao humor, arte que dominava com mestria: apresentava-se como uma improvável mistura de diplomata e alentejano, jogando habilmente com os estereótipos que transformam o diplomata no representante da cerimónia polida e o alentejano em sinónimo de frontalidade genuína.
Tanto na vida pessoal como na profissional, optou sempre por tomar as posições que julgou adequadas, indiferente à aprovação ou censura exteriores. Teve a ousadia de manter-se fiel aos valores que escolheu como seus. Nunca enveredou em filiações partidárias, mas tinha sólidas concepções sociais e políticas das quais jamais abdicou. Mesmo quando o cenário político o desaconselhava. Assim se podem entender gestos profissionais incomuns, como um pedido de licença ilimitada, graças ao qual se afastou temporariamente da carreira em 1968, para só regressar depois de 1974. Ou a assumpção, um ano depois, em pleno vigor do PREC, das funções de presidente da comissão ministerial de saneamento e reclassificação criada no seio do MNE, devido à qual terá inevitavelmente conquistado algumas animosidades. Ou mesmo a entrada na disponibilidade simples em 1984, a seu pedido, deixando precocemente a carreira diplomática». In Ana Gomes, Embaixador João Pequito, Colecção Beneméritos SCML, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Lisboa, 2011, ISBN 978-972-8761-90-5.

A amizade de Armando Mafaldo
Cortesia da SCML/JDACT

domingo, 14 de outubro de 2012

O Pólo Museológico de Escultura em Pedra. Crato. Maria João V. Carvalho. «… da salvaguarda e mostra pública do património nacional, provendo complementaridades cronológicas, temáticas e narrativas, em Portugal, o programa da Flor da Rosa apresenta algum pioneirismo»

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O Pólo Museológico da Flor da Rosa
«A cedência pelo Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) de um grupo de esculturas em pedra provenientes da colecção do comandante Ernesto de Vilhena para serem mostradas no Mosteiro da Flor da Rosa em depósito de longa duração, acordado protocolarmente pelas respectivas instituições de tutela, Instituto dos Museus e Conservação e IGESPAR, constitui o acervo material de um novo espaço museológico. Integra-se no projecto global de Conservação Recuperação e Valorização do Mosteiro de Santa Maria da Flor da Rosa, na perspectiva da melhoria das condições de fruição pública deste espaço monumental e da sua adaptação a novos usos.
Se os actos de empréstimo de longa duração são práticas correntes entre os organismos encarregados da salvaguarda e mostra pública do património nacional, provendo complementaridades cronológicas, temáticas e narrativas, em Portugal, o programa da Flor da Rosa apresenta algum pioneirismo. O conceito parte da selecção de um conjunto de objectos extraídos de uma única colecção, a Colecção de Escultura do MNAA, e desta foram eleitas peças com uma proveniência específica, a colecção Vilhena, todas seleccionadas entre espécies conservadas em reserva, assim destinadas à criação de um pólo museológico.
O projecto nasceu em 2004, proposto ao MNAA pela então Direcção Regional de Évora do IPPAR, cujas competências passaram para a Direcção Regional da Cultura do Alentejo e, desde essa data, ficou salvaguardada a responsabilidade técnica e científica do Museu em todas as fases do plano de trabalhos, desde a concepção museológica e programática, passando pelos procedimentos necessários à concretização material da cedência, que incluiu intervenções de conservação e restauro, e pela participação na exposição e na divulgação de conhecimento sobre as esculturas, que resulta desde já neste primeiro catálogo patrocinado pelo IGESPAR.
Desta experiência destacam-se quer o reforço da fronteira institucional entre o sector museológico e o sector do património, quer a participação pluridisciplinar de profissionais com especializações heterogéneas que incluem a arquitectura, a engenharia, a arquitectura museográfica, a conservação e restauro, a gestão patrimonial, a história da arte e a programação cultural.
O Museu Nacional de Arte Antiga contará, portanto, com um novo pólo expositivo inteiramente dedicado à mostra de parte das suas esculturas, em complementaridade programática com a sua própria exposição permanente sedeada em Lisboa, magnificado pela inclusão num monumento com a importância do Mosteiro de Santa Maria da Flor da Rosa. A situação geográfica, refuncionalizando a valia histórica de atalaia em região de fronteira, integra-o estrategicamente nas redes do turismo cultural, tal como recomendado nas resoluções das Assembleias Gerais do ICOM em 1998,2000 e 2006, que se afiguram fundamentais para a captação de novos públicos para o núcleo-mãe. A implementação deste conceito em parceria inter-institucional, conquanto sujeita à tutela ministerial comum, incluiu-se, em perspectiva teórica e salvaguardadas as correlativas diferenças de escala, na mais recente tendência internacional dos museus nacionais de referência para a criação de núcleos/pólos em territórios e realidades culturais distintas, como acontece com o Museu Hermitage de São Petersburgo desde 2004 e acontecerá com o Museu do Louvre no emirado do Abu Dhabi». In Maria João V. Carvalho, O Pólo Museológico de Escultura em Pedra, IGESPAR,2008, ISBN 978-989-8052-07-0.

Cortesia de IGESPAR/JDACT

Guia Artístico do Crato. Jorge Rodrigues e Júlio Pereira. «Um Guia que pretende guiar os visitantes através do Concelho. São publicadas plantas e indicadas as localizações exactas, sempre que possível, das obras a visitar. Possui um grande número de fotografias, ajudando a identificar e conhecer o que se visita…»

Perspectiva do Crato por Pedro Tinoco (1615-21)
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Freguesia do Crato e Mártires
«O Concelho do Crato possui mais de 40 antas inventariadas. São as mais antigas manifestações da presença humana na região, com cerca de 4 000 a 5 000 anos de idade. Pela densidade destes vestígios que revela o espólio deles exumado, é de crer ter sido toda esta região, no período neo-neolítico, um local de estabelecimento ou de passagem de povos que se dedicavam à pastorícia e a práticas agrícolas incipientes. Na freguesia do Crato, são duas as antas melhor conservadas.

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Arquitectura e espólio
A anta do ‘Couto dos Andeiros’, também conhecida por ‘Anta da Portela ou Folha dos Carros’, possui uma câmara circular, da qual restam 5 esteios de xisto quartzítico ainda intactos, sobre os quais descansa a mesa ou chapéu, do mesmo material. Forneceu espólio reduzido: contas de xisto (2), um pingente, pontas de seta e elementos de silex talhados. A anta da ‘Tapada dos Canchos’ possui igualmente uma câmara sub-circular formada por 6 esteios de xisto quartzítico que sustentam a mesa. Do corredor de acesso à câmara restam 4 esteios menores, partidos, na face Norte. Pormenor interessante da arquitectura do monumento é a pedra de travamento que foi interposta entre o topo do esteio mais a Sul da câmara e a cobertura, nivelando-a e equilibrando-a.
Forneceu espólio escasso: 5 contas de colar em xisto e calaíte, pontas de seta e elementos de silex talhados, uma faca do mesmo material, 5 machados polidos de anfibolite e um fragmento de placa-ídolo em grés micáceo, figura oculada com bico de ave.
O espólio destas antas, bem como de todas as outras exploradas por Agostinho Farinha Isidoro, nos anos 60 e 70, no concelho e imediações, encontra-se depositado no Instituto de Antropologia Dr. Mendes Correia da Universidade do Porto.

Planta da vila do Crato
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Implantação
Conforme é comum nas antas, que são templos funerários destinados ao enterramento colectivo, os testemunhos descritos encontram-se sobre um relevo proeminente. A anta do ‘Couto dos Andreiros’ no cimo de um outeiro, a anta da ‘Tapada dos Canchos’ a meia encosta de um morro mais importante, e junto de cursos de água (a primeira, perto de um arroio que corre na base do outeiro, a outra dominando a Ribeira das Feixotas, afluente da Ribeira de Seda).

Anta da Portela de Carros
Anta da Tapada dos Canchos
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Localização
Anta do ‘Couto dos Andreiros’, no topo de um outeiro, a cerca de 400 m. a leste da Estação de C. F. do Crato. É visível da estação, debaixo de uma oliveira que marca o cume da elevação. Acede-se ao monumento seguindo a pé, para leste, a linha de C. F., inflectindo depois para norte, atravessando o riacho que corre paralelamente a esta.
A anta da ‘Tapada dos Canchos’ fica situada a cerca de 2 Km. A leste da vila do Crato. Deve tomar-se o caminho vicinal que, na estrada de Alter do Chão-Crato, já perto desta vila e na subida que a ela conduz, parte à direita, de um fontanário de espaldar caiado.
Percorrem-se cerca de 1500 m., seguindo o curso da ribeira das Feixotas. Chegando à base do morro maior do percurso, avista-se a anta em terreno de azinheiras. Acessível a pé ou em veículo de todo o terreno». In Jorge Rodrigues e Paulo Pereira, Guia Artístico do Crato, C. M. do Crato, Crato, 1989.

Cortesia da CM do Crato/JDACT

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A Vida de Nun'Alvares. Oliveira Martins. «Da Idade Média, germinando nestes elementos sociais e morais, brotou a flor extravagante da Cavalaria, ideia incoerente e superiormente bela, em que as contradições do pensamento contemporâneo e a noção caótica da vida e do mundo…»

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Conforme o original

O prior do Hospital
«D'isto veiu a instituição dos monges militares; e neste sentido, o prior do Hospital era um homem typo do seu tempo. Era-o também, como astrólogo, porque a astrologia, exprimindo as ambições do espirito secular, surge como a alvorada do pensamento scientifico desabrochado na Renascença. Era-o, finalmente, na carnalidade dissoluta dos seus costumes, geral a uma época libertina, particularmente na Hespanha, onde o exemplo da polygamia musulmana mais concorria para obscurecer o instincto casto do povo aryano.
Da Edade-média, germinando n'estes elementos sociaes e moraes, brotou a flor extravagante da Cavallaria, idéa incoherente e superiormente bella, em que as contradicções do pensamento contemporâneo e a noção cahotica da vida e do mundo apparecem sublimadas, aspirando para um ideal indefinido, subindo para as nuvens, como as agulhas dos  templos, braços erguidos, de mãos postas, para o céo. O valor e o milagre, o heroe e a protecção de um Deus sempre activo, o destino sacrosanto da vida votada ao resgate do tumulo do Redemptor, a definição paradoxal do heroismo pela abnegação e sacrifício, a castidade e a pobreza no império desbragado da luxuria e da cubiça: uma como que volta dos sentimentos moraes constitucionaes do tempo, contra a realidade, exagerando a vida activa para a negar absolutamente, extrahindo do naturalismo espontâneo dos costumes um idealismo phantastico: eis ahi o que foi a Cavallaria, que apparece, ao terminar da Edade-média, como flor da poesia, sempre nihilista.
Foi assim também que do herdeiro de Rodrigo Gonsalves, o heroe bravio da tragedia de Lanhoso, do turbulento bispo Gonçalo, e do prior, pae de trinta e dois filhos, nasceu Nun'alvares. Trazia hereditariamente comsigo todos os elementos que geraram a Cavallaria, e por isso a flor incoherente da Edade-média appareceu humanizada no bastardo de fr. Álvaro. Os homens superiores são sempre symbolos: nem a superioridade está n'outra coisa. O homem é maior, ou menor, conforme a porção de humanidade que lhe corre na alma. E para que a este caracter typico de Nun'alvares não faltasse um único traço, veiu também ao mundo por bastardia. Porque será que o instincto agudo se compraz na antithese, sublimando quasi sempre a negação da ordem? Será a adivinhação de que essa ordem é apenas abstracta, e um ente de razão, visceralmente opposto á anarchia real das coisas?
Tudo, pois, fadava Nun'alvares para heroe da Cavallaria nacional; e a iniciação que o pae e o seu astrólogo pedagogo, mestre Thomaz, lhe deram nos livros da época, definiu, logo desde a infância, o caracter predestinado do futuro condestavel de João I.
  • ‘Havia grão sabor e usava muito de ouvir e ler livros de historias, especialmente usava mais ler a historia de Galaaz, em que se contem a somma da Tavola Redonda’.
Pela primeira vez surgia em Portugal um homem formado pela educação litteraria, mas este género, que posteriormente foi até á cópia servil, iniciava-se de um modo ainda espontâneo. Com o crescer dos annos, Nun'alvares ia creando em si uma natureza nova, assimilando, sem o sentir, a alma phantastica de Galaaz: n'uma confusão de realidade e fabula, num mixto de pureza e extravagância, como tudo quanto o rodeava e lhe constituía o ambiente phantasmagorico da vida. Essas primeiras impressões cunharam-se-lhe de um modo indelével no espirito infantilmente plástico; e nem de longe sonhava que o facto de se confundir a si com Galaaz, irmãos na bastardia: o facto de ambicionar gloria igual, e ir fantasiando uma existência semelhante de sacrifícios e aventuras: o facto de se estar formando, assim, por educação litteraria, em vez de obedecer espontaneamente á lei da natureza, era o signal certo de que os velhos tempos acabavam com elle.
Surgia, com effeito, uma éra nova para o mundo, para Portugal. Nun'alvares, sem duvida alguma, foi o nosso Messias. Remiu-nos a um tempo do peccado antigo da inconsciência, definindo claramente o destino piedoso e heróico da vida, sobre o passado de inconsciência bravia. Remiu Portugal do captiveiro castelhano imminente, abstraindo a nação dos limbos obscuros da politica pessoal dos reis, para a assentar sobre os alicerces firmes da vontade popular; acclamando-a n'um voto de acção heróica, e deixando-a, de pé e armada, prompta para a conquista do seu logar épico na historia da civilisaçao moderna. Mal pensava em creança Nun"alvares, ao ouvir a historia de Galaaz, cujo ‘corpo bem talhado e contenente manso’ era também como o d'elle próprio, que tal seria a sua demanda do Santo-Sepulchro e do Graal de José de Arimathea! As phantasmagorias que lhe enchiam de assombro educativo a imaginação infantil haviam de tornar-se, porém, em realidades gloriosas. Seria o Galaaz portuguez: não um typo de phantasia, mas sim um homem, com a idéa, porém, doidamente arrebatada pelo mysticismo cavalleiroso. Seria o precursor das gerações alumiadas pelo claro pensamento que na sua infância, e n'esse signo fatídico traçado á sua vida pela phantasia de um poema, desabrochava com todo o viço e toda a frescura espontânea de uma alma virgem, temperada no aço do heroísmo, coroada com assucenas de piedade mystica. A poesia foi, será sempre, iniciadora e medianeira. Por mão d'ella sahia, primeiramente, o pensamento, das névoas da inconsciência espontânea e natural, para o reino claro da razão reflexiva». In Oliveira Martins, A Vida de Nun'Alvares, História do estabelecimento da dinastia de Avis, Livraria de António Maria Pereira, Editor, 1893, Makew Parr Collection/Magellan and the Age of Discovery/Presented to Brandies University, 1961.

Cortesia de Livraria António Pereira/JDACT

sábado, 16 de junho de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. Comentado por Francisco de Borja Garção Stockler. «Chegado a Flor de Rosa, em vez de tomar as cautelas convenientes, contentou-se com saber que no Crato não havia ainda espanhóis: e sem estabelecer guardas avançadas, nem vedetas nos lugares convenientes, assentou de dar algumas horas de descanso à sua Tropa»


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«Entretanto existia ainda no Crato alguma porção de trigo e farinha, que era conveniente salvar, e para este fim mandou o Duque um Destacamento de quinhentos homens de Infantaria, e quarenta ou sessenta cavalos, cujo comando confiou ao coronel Carcome, ordenando-lhe que logo que chegasse a Flor de Rosa, aí tomasse Posto, e se mandasse informar se o inimigo tinha ou não já entrado no Crato; qual a situação de seus Postos avançados; e até onde lançava as suas Patrulhas, a fim de executar esta operação com toda a circunspecção, e prudência.
Nesta segunda comissão se houve Carcome como na primeira. Chegado a Flor de Rosa, em vez de tomar as cautelas convenientes, contentou-se com saber que no Crato não havia ainda espanhóis: e sem estabelecer guardas avançadas, nem vedetas nos lugares convenientes, assentou de dar algumas horas de descanso à sua Tropa, que ainda não tinha comido, e se achava assaz fatigada de marcha, que executara na noite precedente e na manhã daquele dia, a qual por culpa de seu guia fora mais dilatada do que deveria ser. No meio do descanso, a que se abandonara, foi surpreendido por um Corpo espanhol de dois a três mil homens, que o Inimigo mandava ao Crato com o fim de apoderar-se do Depósito secundário, que ali existia. Teve Carcome ainda tempo para formar a sua Tropa; mas em vez de expedir logo a notícia do aperto em que se achava para o Campo do Gavião, e para Ponte de Sor, para onde sabia que se tinha mandado marchar de Abrantes um Destacamento assaz forte para auxiliar a sua retirada, e a marcha do seu Comboio por aquele lado; não conhecendo a vantagem que lhe ofereciam o Convento, e a mesma Povoação de Flor da Rosa, aonde poderia fazer-se forte, e defender-se o tempo bastante para ser socorrido; não sabendo mesmo parquear-se com os seus carros; rumou o partido de bater-se em retirada, o que fez por espaço de uma légua Aldeia da Mata. Ali se defendeu valentemente até consumir o cartuxame, que a sua Infantaria tinha nas patronas: e achando-se envolvido por todos os lados, se rendeu prisioneiro de guerra com mais de metade do seu Destacamento, tendo perdido a sua artilharia e munições, e uma grande parte dos carros que conduzira para a evacuação do Depósito». Cartas do autor da História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal, e da restauração deste reino, por Francisco de Borja Garção Stockler [...], Rio de Janeiro, na Impressão Régia, 1813.
In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

terça-feira, 5 de junho de 2012

A Vida de Nun'Alvares. Oliveira Martins. «Já o Hospital era entre nós uma milícia particularmente portuguesa, sujeita á coroa, como as ordens monásticas não militares, embora no espiritual ligada ao grão-mestrado, quando o prior fr. Álvaro Gonçalves foi a Rhodes…»



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Conforme o original

O prior do Hospital
«Outra Palestina foi a Hespanha, avassallada também pelo Islam ; e por isso os exércitos cruzados paravam aqui, nas derrotas das suas viagens do mar do Norte para o Mediterrâneo; por isso as ordens hyerosalemitanas, que tamanho papel tiveram na fundação de Portugal, se enraizaram, engrandecendo-se. Expulsos da Palestina os hospitalários com a conquista da Terra-Santa pelos egypcios (1201), levaram para Chypre o seu tabernáculo; mas também d'ahi foram repellidos, indo estabelecer-se em Rhodes (1310).

NOTA: Os hospitalários ficaram em Rhodes até á conquista da ilha pelos turcos de Solimão, em 1530. Carlos V deu-lhes então a ilha de Malta, d'onde os cavalleiros se ficaram chamando posteriormente,como antes se tinham dito de Rhodes.

N'esta época, porém, a ‘lingoa’ de Portugal soffrera uma revolução profunda, desde que el-rei Diniz I nacionalizara as ordens hyerosalemitanas, colocando-as sob a sua autoridade real, e transferindo para a cavallaria de Christo os bens do Templo, abolido por Clemente V. Já o Hospital era entre nós uma milícia particularmente portugueza, sujeita á coroa, como as ordens monásticas não militares, embora no espiritual ligada ao grão-mestrado, quando o prior fr. Álvaro Gonsalves foi a Rhodes, «muy grandemente e bem acompanhado», tributar o seu preito de vassallagem.
Mas por isso mesmo que a ordem se tornara portugueza, era no concurso das forças politicas da nação um dos elementos preponderantes, não havendo talvez na corte cargo mais invejado, nem de maior valia, do que o priorado do Hospital. Entrando em Portugal em 1119, no tempo de el-rei Affonso Henriques, a ordem recebera d'este rei e dos seus successores a doação de vinte e uma villas e logares.
Os seus domínios concentravam-se no centro do reino, sobre o curso do Tejo e do Zêzere, alongando para o sul um braço, e para o norte outro:
  • o primeiro era Montoito, a igual distancia de Évora e do Guadiana;
  • o segundo eram Lobelhe-do-Matto e Ranhados, entre Vizeu e o Mondego.
Dominando o valle do Zêzere, no curso médio da sua margem direita, possuíam os hospitalários Alvares e a Pampilhosa, fronteiros aos quaes ficavam na margem esquerda os castellos de Oleiros e do Pedrogão-pequeno. A Certan e o Bomjardim, com Proença-a-nova mais para leste, aninhada no alto dos montes que dividem as aguas do Zêzere das do Tejo, continuavam em direcção d'este rio as parelhas de castellos da ordem. Depois vinha o Carvoeiro, numa dobra do pendor austral do terreno; depois Belver, a cavaleiro sobre a margem direita do Tejo, em frente do Gavião ; depois, acima do Gavião e do lado de Villa-Flor, o castello da Amieira, construído pelo prior fr. Álvaro Gonsalves;
depois Tolosa; depois o Crato, com Flôr-da-Rosa, e Elvira e a commenda de Cores, e o logar de Aguilheiro, e o concelho da Margem, e o couto da Coutada, e o casal do Monte, e a villa de Ferrajos, com vinte e quatro comendas. Tal era, pois, a familia em que nasceu Nun'alvares.

A mãe, quando em dezembro de 1372 viu a luz em Coimbra a infanta D. Beatriz, fora feita sua cuvilheira.

NOTA: Na casa da infanta eram aias D. Theresa de Meira, mulher do alcaide-mór de Portel, e Violante Affonso, viuva de Diogo Gomes de Abreu. Camareira-mór, era Maria Affonso, mulher de Vasco Martins de Melo. Cuvilheira, era a amante do prior do Hospital, cujas relações continuaram.
Outros querem que Iria Gonsalves fosse filha de Álvaro Gil do Carvalhal, dos senhores de Evora-monte.

Andava, pois, na corte d'el-rei Fernando, onde o exemplo dado pelo soberano, que tirara Leonor Telles a seu marido, sanccionava a licença dos costumes do tempo. Andava na corte, e lá continuou a ficar: nem o prior hospedava nos mosteiros da ordem as successivas mães dos seus trinta e dois bastardos. Filha do alcaide-mór de Almada, Pedro Gonsalves do Carvalhal, que tinha também na corte um filho, Martim Gonsalves, não era nenhuma creatura humilde, sem ser, porém, dama de alta gerarchia.
Em 1373, na época a que nos estamos referindo, contava Nun'alvares treze annos, com a virilidade precoce. Os homens formavam-se muito mais breve n'esses tempos agrestes, de uma barbárie alliada, porém, aos requintes e contradicções inherentes ao periodo de civilisação confusa a que se chama Edade-média. Chocavam-se os elementos de creação espontânea, de violência pristina e barbara, próprios de povos que emergiam do captiveiro musulmano ao som da guerra, por entre os escombros da civilisação antiga, derruida por completo na Hespanha á mão dos árabes: chocavam-se com as tradições, com as ruinas, com os restos dispersos e pervertidos d'essa Antiguidade, que parecia ás imaginações ter acabado afogada no sangue de Christo. A egreja era o vehiculo da tradição clássica, e também por isso mesmo, a auctoridade suprema, como representante, na terra, do poder de um Deus temido. Os ministros da religião dominavam as almas por um processo de auto-intimidação, semelhante ao dos feiticeiros primitivos; e se a barbarisação do pensamento e do saber frequentemente rebaixava os dogmas theologicos e os cânones rituaes até ao nivel da feiticeria simples: a violência dos costumes levava os sacerdotes a envergar também a armadura e a empunhar a espada, apparecendo soldados n'uma sociedade essencialmente guerreira». In Oliveira Martins, A Vida de Nun'Alvares, História do estabelecimento da dinastia de Avis, Livraria de António Maria Pereira, Editor, 1893.

     
Cortesia de Makew Parr Collection/Magellan and the Age of Discovery/Presented to Brandies University, 1961/JDACT 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Vida de Nun'Alvares. Oliveira Martins. «Não faltavam, portanto, sementes de força bravia na ascendência de Nun'Alvares, que vinha ao mundo temperado por três gerações de tal gente. O pai nascera quando o bispo Gonçalo ainda não era deão, nem até clérigo: foi nos estudos, em Salamanca, que o futuro arcebispo de Braga “filhou”»



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«Andava então o mundo transtornado. Com a morte do imperador Henrique VII (1308-14) viera o crisma dos eleitores, e dois imperadores a disputarem a terra : o duque de Áustria, Frederico III, e o da Baviera, Ludovico Pio. A Itália ardia em guerra. Em França morrera Filipe “o belo” (1285-1314), ao que se dizia vítima da sua guerra aos Templários. No céu tinham-se visto três luas, e um grande cometa durante três meses. Em 1315 choveu o ano inteiro, sem cessar. A Áustria e a Bohemia andavam assoladas por heresias; a Alemanha, o Brabante, a Polónia e a Inglaterra, por fomes e pestes. Clemente V (1305-16) mudara o papado de Roma para Avinhão (1309) e extinguira a ordem dos Templários (1312), ré de tantos crimes. Mas quando o deão do Porto chegou a Avinhão, já o papa tinha morrido, ficando mais dum ano vago o sólio pontifício. O bispo do Porto teve de sair; conseguindo, porém, ser transferido pelo papa João XXII (1317-34) para Lisboa, onde continuou a administrar os bens do Templo em Portugal, até que, em 1320, o rei Diniz fundou com eles a ordem de Cristo. O deão estava vingado, mas o ódio do bispo Gonçalo não estava satisfeito.
Embora o papa lhe tivesse dado a mitra de Leão, antes de lhe dar o arcebispado de Braga, Gonçalo, que durante dois anos ficou em Avinhão, perseguiu o bispo fr. Estevam, até que o expulsou de Lisboa para Cuenca. Foi sempre assim o ódio eclesiástico. E Gonçalo, o prelado quase omnipotente, era também um politico audaz e hábil.
Esteve na batalha de Loures, entre el-rei Dinis e o infante Afonso; interveio para a reconciliação do pai com o filho; e foi quem, sendo este já rei, celebrou as pazes com Afonso “o bom” de Castela (1312-50), o que tomou Algezira aos mouros, em 1344.
Tal era o sangue que girava nas veias do pai de Nun'alvares.
E esse sangue ardente vinha em ebulição desde Rodrigo Gonçalves, de Pereira, por via do avô do arcebispo, Pêro Rodrigues, o que casou com Estevaninha Ermigia da Teixeira, e matou na lide seu primo Pêro Poiares. Rodrigo Gonçalves e seus irmãos, Gonçalo, fundador de Nandim, e Elvira, da Palmeira, descendiam da casa de Cella-nova, transmontanos cruzados de sangue leonez. A história deste avô contava-se na família, como exemplar do génio cruelmente justiceiro. Casara com Ignez Sanchez e, deixando-a no castelo de Lanhoso, soube como ela aí fazia maldade com um frade de Bouro. Rodrigo Gonçalves foi lá em armas, cercou o castelo, e pondo-lhe fogo, fez arder na mesma fogueira a mulher e o frade, e a mais gente, com as bestas, os cães, e tudo quanto havia dentro, para que a chama consumisse por completo os sacrílegos e a desonra.
Não faltavam, portanto, sementes de força bravia na ascendência de Nun'Alvares, que vinha ao mundo temperado por três gerações de tal gente. O pai nascera quando o bispo
Gonçalo ainda não era deão, nem até clérigo: foi nos estudos, em Salamanca, que o futuro arcebispo de Braga “filhou”. Tareja Pires Villarinho, e o fez nela. O pai meteu-o quase criança no Hospital, cujo mestre era seu tio avô Estevam Vasques Pimentel, irmão da mãe do arcebispo, Urraca Vasques, da casa dos Pimenteis, casada com o conde de Trastamara Gonçalo Pereira, de quem o filho tirou o nome. Cresceu fr. Álvaro sob o patrocínio do tio, e quando este morreu, tinha o rapaz dezoito anos, sucedeu-lhe no priorado da ordem, cuja sede era o Crato.
Governando, pois, a ordem do Hospital desde largos anos, tornara-a como que apanágio da sua família, tanto lhe aumentara o poder e a riqueza. As cruzes floreteadas do seu brazão viam-se esculpidas num sem número de castelos.
Tinha construído o da Amieira, forte e mui formoso; os paços do Bomjardim, junto à sua vila da Sertã; a igreja de Santa Maria, em que Deus fazia muitos milagres; e além de outras numerosas obras, rematava o castelo da Flôr-da-Rosa, o seu mosteiro e igreja, povoando o lugar com colonos adscritos. Da ordem fundada em 1110 por Gérard de Martigue para a Cruzada, havia em cada nação, ou “lingoa”, um prior, balios e comendadores. Havia as “lingoas” da Provença, do Arverno, de França ou de Paris, da Itália, do Aragão, da Alemanha, e de Castela e Portugal.
O grão-mestre, a quem se chamava eminência, governava a ordem superiormente a todas as “lingoas” enquanto ela manteve o seu carácter cosmopolita, ou internacional. O comendador-mor era o “pilar da lingoa” da Provença; o marechal, o “pilar do Arverno”, o hospitalário, o da França; o almirante, o da Itália;, o conservador-mor, o do Aragão; o balio-mor, o da Inglaterra; e finalmente o de Castela, ao qual primitivamente andava sujeita a “lingoa portuguesa”, era o chanceler-mor da ordem. Por todo o mundo, os monges cavaleiros do Hospital, regrantes de Santo Agostinho, levavam em tempo de paz, o seu manto negro com a cruz de ouro de oito pontas, sobre o lado, e outra cruz sobre o peito. Em todas as batalhas aparecia nas armaduras a grande cruz branca da ordem, e o pendão com as armas: guelas escarlates e cruzes de prata. Eram a milícia de Cristo: um dos vários exércitos monásticos, em que o cosmopolitismo europeu se definiu primeiro, sob o influxo da religião, para o resgate da Terra-Santa, onde padecera Cristo». In Oliveira Martins, A Vida de Nun'Alvares, História do estabelecimento da dinastia de Avis, LIvraria de António Maria Pereira, Editor, 1893.


Cortesia de Makew Parr Collection/Magellan and the Age of Discovery/Presented to Brandies University, 1961/JDACT