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segunda-feira, 23 de julho de 2018

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «O dia de São Martinho deve ter sido considerado, por tudo isto, um dia auspicioso para o nascimento desse infante, que assim vinha ao mundo sob o signo de um patrono…»

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«(…) É certo que São Martinho não era um santo com a envergadura de Santiago, o Mata-Mouros, que há muito arrebatara o lugar de protector da Reconquista; contudo, se levarmos em conta a rivalidade existente entre Braga e Compostela, e o papel que desempenharam São Martinho de Braga (o outro São Martinho) e Santiago de Compostela, respectivamente santos patronos e quase fundadores de qualquer uma das duas metrópoles, essa até talvez fosse considerada uma vantagem. São Martinho de Braga/Dume fora, para além de arcebispo de Braga, um evangelizador, o homem que convertera os Suevos ao catolicismo, em data anterior à própria invenção das relíquias de Santiago e sob cuja invocação também se erigiam muitos templos, pelo que também não era desajustado à comemoração do nome que se deu ao novo filho varão de Afonso Henriques. O próprio Martinho Tours, em cujo dia o infante nasceu, tinha uma história de vida e tradição muito adequada a servir o nome de um jovem infante como Sancho. São Martinho começara a sua vida como um brilhante soldado nos exércitos romanos, abandonando a carreira militar por se ter convertido ao cristianismo, depois do famoso episódio em que rasgara a sua capa para abrigar um mendigo que, mais tarde, em sonhos, veio a reconhecer ser o próprio Cristo. O seu carácter belicoso, a sua actividade militar e o seu labor como mentor de conversões ao cristianismo e evangelizador dos pagãos faziam dele um santo mais que meritório e condigno para o segundo filho varão do primeiro e conquistador rei de Portugal, que, também ele baseava as suas ambições e a sua virtude no desempenho da luta contra o infiel, numa terra onde os pagãos ainda abundavam.
O dia de São Martinho deve ter sido considerado, por tudo isto, um dia auspicioso para o nascimento desse infante, que assim vinha ao mundo sob o signo de um patrono que ao longo da sua vida soubera lutar agressivamente pela expansão da fé cristã e pela conversão dos pagãos, mas que também soubera ser caritativo e generoso para com os pobres e necessitados, numa pastoral muito típica de um santo com as características de missionário-guerreiro como Martinho de Tours. E para um homem com a linhagem de Afonso Henriques, cujo pai, Henrique da Borgonha, era originário precisamente da região adjacente ao arcebispado de Tours, onde o túmulo do santo continuava a atrair: algumas das mais importantes peregrinações da França medieval, ver um filho nascer no dia de um dos santos patronos da França devia parecer um sinal muito positivo.
Ora o destino não quis que o irmão mais velho sobrevivesse, transtornando assim toda a ordem prevista dos acontecimentos: pela entrada em cena do imponderável. Henrique morreu pouco depois do nascimento de Sancho, provavelmente ainda durante o primeiro ano de vida deste último, engrossando, afinal, os números já de si muito elevados da mortalidade infantil na Idade Média, e deixando um vazio na primogenitura masculina da linhagem régia. Martinho era agora o próximo nessa linha de sucessão. Deve ter sido face à probabilidade muito real de Sancho I poder vir a suceder ao pai no trono que foi decidido começar por mudar-lhe o nome de Martinho para Sancho.
Por muilo nobre que o nome Martinho fosse, era um nome que não devia ter quaisquer ressonâncias emocionais como nome de rei. Na Península Ibérica, nunca fora utilizado como tal, nem o seria no futuro, pelo menos durante os séculos XII e XIII. E talvez tenha sido essa a razão por que se decidiu mudar-lhe o nome tão cedo. É que, do Martinho que nasceu neste dia, nunca mais se ouvirá falar. Transformado desde logo em Sancho, nunca mais seria conhecido por aquele que, afinal, tinha sido o seu nome de baptismo. De facto, não fora uma lacónica notícia que os anais mais antigos que temos sobre este facto nos dão, não o saberíamos de todo. Mas os analistas que trabalhavam no seio do scriptorium do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra entenderam ser de registar esse facto:

Sancho I nasceu na noite da festa de São Martinho, foi baptizado como Martinho, mas depois foi chamado Sancho (cognomento Sanctius)».

In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

domingo, 11 de junho de 2017

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «Quando Afonso I sofre o seu infortúnio, de Badajoz, e Sancho, na flor dos seus 14 anos, e apenas acabado de aceder à maioridade, é chamado a assumir maiores responsabilidades»

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«(…) Foi este o ambiente em que se passaram os catorze primeiros anos da vida de Sancho, entre convulsões e mudanças a nível da cristandade e uma plêiade de guerras ao seu redor, guerras de conquista aos mouros, guerras contra os Leoneses, querelas eclesiásticas entre Braga e Toledo e entre Braga e Compostela, múltiplas alianças matrimoniais e acordos de paz entre os reis cristãos peninsulares, tão frequentes quanto ineficientes, ultrapassados e desrespeitados ainda mal a tinta secara no pergaminho, tudo isto junto com a sempre continuada e também sempre frustrada tentativa de fazer reconhecer o reino pela Santa Sé.
Quando Afonso I sofre o seu infortúnio, de Badajoz, e Sancho, na flor dos seus 14 anos, e apenas acabado de aceder à maioridade, é chamado a assumir maiores responsabilidades, é para este mundo que ele é chamado. É no contexto deste panorama político, instável e inseguro, que os seus instintos e a sua decerto incipiente maturidade política serão chamados a intervir, mesmo se nessa missão ele viesse a ser guiado pelos seus conselheiros e por um pai que, embora inutilizado para a guerra no rescaldo de Badajoz, continuaria muito activo e interveniente até à sua morte.

Infância e criação
Na verdade, conforme já mencionámos, Sancho I não nascera para ser rei. Sancho foi o segundo filho varão de Afonso Henriques, mas era sete anos mais novo que o primogénito. Tanto quanto podemos saber, foi o quinto filho a nascer da união legítima do primeiro rei de Portugal com Mafalda de Sabóia.
O primeiro filho, que fora logo um varão, nascera em 1147, pouco mais de um ano depois do casamento dos pais e chamou-se Henrique, de acordo com a tradição e decerto em honra do avô. Era sobre ele que, em princípio, devia ter recaído a obrigação de suceder a Afonso Henriques, ainda que nestes anos a ordem de sucessão ao trono ainda não estivesse tão interiorizada pela linha de primogenitura masculina como mais tarde viria a estar. Nos anos seguintes, a rainha Mafalda daria à luz, consecutivamente, três meninas, Urraca (que nasceu provavelmente ainda em 1148), Teresa (que parece ter nascido em 1151) e Mafalda (nascida em 1153), às quais foram dados nomes que invocavam a mãe, a avó paterna e a tia-avó leonesa das meninas.
De acordo com o testemunho dos Anais de D. Afonso Henriques, fonte de finais do século XII, Sancho I nasceu numa quinta-feira, na noite da festa de São Martinho de Tours, que cai precisamente a 11 de Novembro, e por essa razão fora baptizado como Martinho, em honra do patrono do dia em que nascera. Não é decerto por acaso que se descreve um assunto geralmente deixado no vago com tanto detalhe. Como o primogénito do rei tinha atingido o limiar dos 7 anos de idade ainda vivo e de saúde, talvez se tivesse considerado ultrapassada uma das etapas de maior perigo de morte na primeira infância e se tivesse por isso cedido a orientações de ordem devocional ou espiritual e dado a este segundo filho varão o nome de um santo. São Martinho não era um santo menor, pelo contrário, era muito importante e muito venerado, quer em Franca, onde exercera a parte mais importante do seu apostolado e onde era mesmo um dos santos patronos do reino, quer na Península Ibérica, onde o seu culto também estava muito disseminado, e onde o sincretismo com um outro São Martinho, o de Braga/Dume, contribuía, e muito, para a popularidade do culto martiniano, com especial incidência no Noroeste da Península». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «As vidas do primeiro rei e seu arcebispo parecem ligadas por um estranho paralelismo que os impossibilitou fisicamente»

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«(…) Isto é o que parece confirmar mais uma das múltiplas deslocações de João Peculiar a Roma, desta vez na sequência da morte de Afonso VII, relembremos que precisamente nessa altura Afonso Henriques também se tinha deslocado em missão diplomática à corte de Fernando II, decerto para tirar algum proveito do desaparecimento do imperador das Hispânias. Não descansando, e aproveitando todas as ocasiões possíveis para defender a sua causa, o arcebispo de Braga acabaria por receber um privilégio do papa Adriano IV onde o pontífice lhe conferia grandes vantagens em relação aos anteriores. Mas os dias de grande actividade do quezilento arcebispo de Braga estavam a chegar ao limite. Dentro em pouco, a doença haveria de o confinar a Braga, onde o encontramos em permanência a partir de meados da década de 60. A sua última deslocação a Roma data de 1163, data a partir da qual a deterioração da sua saúde parece tê-lo impossibilitado de prosseguir como até então. Viria a falecer em1175, sucedendo-lhe Godinho, a quem caberia a honra de finalmente conseguir o reconhecimento que ele nunca tinha conseguido, para um rei que também já não lutava pela expansão da fé como antes do infortúnio, de 1169. As vidas do primeiro rei e seu arcebispo parecem ligadas por um estranho paralelismo que os impossibilitou fisicamente, a partir desse momento dramático, quase como se o final da década de 60 marcasse de facto uma mudança radical para o jovem reino de Portugal.
A questão entre Braga e Toledo pode ter sido violentíssima nos anos centrais das décadas de 50 e 60, mas desvaneceu-se nos finais dessa década, quase com a mesma facilidade com que tinha surgido. Mesmo se Alexandre III, consubstanciando a política dos seus antecessores, emitiu várias bulas que reafirmavam o direito de Toledo ao primado, especialmente em 1166 e 1172, o teor moderador e moderado em que esse reconhecimento era feito acabaria por transformar a dignidade primacial num mero adorno honorífico. Nenhum dos contendores parece ter dado muita importância ou dramatizado esse alegado esvaziamento, e o primado passou praticamente a apenas obrigar os restantes arcebispos a uma reverência nominal ao toledano, reservando-se o apelo e a dependência directa para Roma. Decerto isto acontecia porque a situação política era já completamente diferente da que presidira às décadas anteriores, e porque a perda de influência dos reis castelhanos, na sequência da morte de Afonso VII e subsequentes dificuldades sucessórias, faziam girar o pêndulo da influência política de novo para o lado leonês. Fernando II e depois Afonso IX iriam ser os grandes apoios das pretensões de Compostela, de onde recrutavam os seus conselheiros e os seus chanceleres, escribas e notários. Todo este contexto não é, decerto também, alheio ao facto de, logo na década de 70 desse século, e especialmente depois da morte de João Peculiar, em 1175, as contendas entre Braga e Compostela terem tomado o lugar da anterior querela nos corredores da cúria pontifícia.
De agora em diante serão elas o grande motor de dissensão entre os reis e os arcebispos de Leão e Portugal. Mas esta viria a ser uma questão já para o novo e futuro rei vir a tratar. E decerto o infante, que desde 1169 seria chamado a ter uma participação cada vez mais directa nos negócios do reino, não pode ter sido mantido à parte de tantas e tão importantes quezílias, de tantas e tão frequentes alterações em vectores tão intrincadamente unidos e sensíveis como a política régia e a política eclesiástica. Estes mesmos homens que vemos participar tão activamente na construção e consolidação de um reino nascente não podiam descurar a preparação do único infante varão sobrevivente a partir de 1164. Nem a necessidade absoluta que tinham de garantir que este jovem potencial futuro monarca crescia da forma certa e lhes garantia os apoios e as orientações que mais lhes convinham. Neste intento se empenhavam decerto todos na cúria, nobres e eclesiásticos. E os dramáticos acontecimentos de 1169, com a imediata alteração do contexto político circundante, iriam bem cedo demonstrar a pertinência destas preocupações». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «Neste ponto, a sua actuação aproximava-se muito da de Afonso, o senhor seu rei, que também reinou de facto, durante quase quarenta anos…»

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«(…) Por tudo isto, a questão da legitimação do rei e do reino, e do seu reconhecimento, andava muito ligada aos progressos da questão do primado, especialmente a nível diplomático. Assim, embora o propósito mais visível das visitas de João Peculiar à cúria pontifícia pareça ter sido quase sempre o de resolver as questões ligadas com as querelas jurisdicionais com Toledo ou com Compostela, não se pode evitar de reparar que quase todas as suas deslocações a Roma parecem ter obedecido como que a um padrão rítmico que se coordena de forma bastante significativa com os progressos político-militares e territoriais do seu rei. Em 1144, quando o pedido de vassalagem tinha sido entregue na cúria, ele apresentou aí o pagamento correspondente do censo e recebeu a carta de protecção para Afonso Henriques; quando, em 1148, se deslocou a Roma para justificar a sua não obediência a Raimundo de Toledo, decerto aproveitou para reportar a conquista de Lisboa e a restauração de Lamego e Viseu, recebendo uma confirmação pontifícia das sufragâneas de Braga; em 1157 e em 1163 também apresentou sempre mensagens de submissão e vassalagem por parte do rei, apesar de se ter deslocado a esses encontros para responder sobre a sua contumácia em obedecer ao primado de Toledo.
Braga reivindicava a total independência em relação a Toledo, a quem disputava ainda os direitos do primado, por pretender ter direito a usar esse título, com base na anterioridade da posse desse estatuto, que alegava ter usado desde tempos anteriores à própria restauração da diocese de Toledo. Mas a evolução da querela demonstra à sociedade que a interferência das esferas políticas nesta questão não deixava ao acaso o desfecho deste assunto. Ainda em 1150, João Peculiar, na sequência de mais uma suspensão, acabara por ir mesmo a Toledo, prestar obediência ao arcebispo dessa metrópole como a seu primaz, por uma e única vez. O documento onde se regista este acto menciona que o rei Afonso Henriques enviara o arcebispo português a Toledo com o seu próprio filho primogénito, Henrique, que teria então 3 anos, e que Afonso VII, por seu turno, tinha enviado seu filho mais novo, Fernando, de 13 anos, causa reformandi pacis (para se acertar a paz), no que parece ser um encontro entre eclesiásticos com uma óbvia leitura política. Mas não parece ter estado na natureza deste prelado (ou, quem sabe, dos interesses da política portuguesa) manter tal estado de coisas, como sugere o facto de, logo em 1155, vir a ser suspenso mais uma vez, desta vez pelo cardeal Jacinto, legado papal à Península, por causa da sua recusa em comparecer ao concílio provincial convocado e presidido pelo imperador Afonso VII. Até final da sua vida, João Peculiar continuaria sempre a exercer a sua autoridade e a exercer o seu múnus arquiepiscopal como se nada afectasse a sua legitimidade para o fazer.
Neste ponto, a sua actuação aproximava-se muito da de Afonso, o senhor seu rei, que também reinou de facto, durante quase quarenta anos, exercendo a sua soberania sem limitações e como rei de pleno direito, sem ligar ao facto de, apesar de nunca ter deixado de lutar pela legitimação do seu poder pelo papa, apenas ter recebido o reconhecimento pontifício que lhe permitiria afirmar a sua identidade como rei e a existência do território como reino independente e indivisível em 1179, quando finalmente abula Manifestis probatum est lhe reconheceria esses direitos de iure. Apesar de ser verdade que se pode constatar que a questão do primado da Hispânia abrandou depois de várias bulas pontifícias através das quais Roma esvaziava o conteúdo real da detenção da dignidade primacial pelos arcebispos de Toledo, também não deixa de ser um facto que a questão apenas se esvaziaria de importância quando o poder político perdeu interesse em alimentá-la». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

sábado, 15 de abril de 2017

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «… possibilidade de sucesso do pedido de Afonso Henriques para ser reconhecido como vassalo da Santa Sé e rei de Portugal»

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A Longa Espera pelo Trono. O mundo que viu Sancho nascer e crescer
«(…) A medida que a Reconquista progredia para sul, era necessário restaurar as igrejas que durante vários séculos tinham ficado sob domínio muçulmano, e seria ingénuo esperar que os reis que protagonizavam essa conquista não quisessem ter uma palavra a dizer sobre a reorganização eclesiástica desses territórios e sobretudo sobre as pessoas que deveriam ser postas à frente das estruturas então restauradas. Nesse contexto, a forma como os arcebispos se relacionam com os reis dos reinos nos quais se situam as suas arquidioceses assume uma importância fulcral e a Hispânia do século XII assistiu à consciencialização por parte de reis e arcebispos da necessidade e vantagem da sua colaboração na promoção dos interesses respectivos. Os arcebispos de Toledo, de Santiago de Compostela, de Braga e de Tarragona transformaram-se nos aliados mais fiéis e úteis dos reis de Castela, Leão, Portugal e Aragão, respectivamente. Não só porque tentavam que os territórios das suas arquidioceses correspondessem aos territórios dos reis que serviam e que os protegiam, mas ainda porque insensivelmente todos esses arcebispados passaram a ser a instituição onde os reis recrutavam os seus chanceleres e de onde saíam numerosos notários para um dos órgãos decisórios mais importantes da cúria dos reis, a chancelaria.
Esta simbiose entre arcebispados e reinos em breve ajudaria a agudizar ambições pessoais e institucionais, dos arcebispos, como dos reis. Ora a questão do primado insere-se precisamente neste contexto. Quando Afonso VI conquistou Toledo aos mouros, em 1085, o papa achou por bem confirmar a restauração da antiga arquidiocese visigótica e conceder-lhe o estatuto eclesiástico de primaz das Hispânias, tal como nesses longínquos tempos visigóticos detivera. O facto de Toledo passar a deter o primado, ou seja, o direito de primazia sobre todas as outras igrejas hispânicas, implicava que todas as outras igrejas da Península Ibérica deviam prestar-lhe obediência como à sua cabeça.
Essa realidade daria origem à legítima preocupação, neste mundo ainda em construção, de que se pudesse considerar dever haver uma contrapartida dessa primazia na estruturação política da Hispânia, e havia de gerar as bases da quase crónica querela que viria a unir reis e arcebispos numa interessante comunidade de interesses, na medida em que as recusas em obedecer a Toledo por parte dos restantes arcebispos peninsulares acabariam por ter uma inegável leitura política na recusa dos restantes reis peninsulares em obedecerem ao rei de Toledo, isto é, ao rei castelhano. Mas de início, quando o papa agraciou Toledo com o primado das Hispânias, em 1088, nenhum dos restantes arcebispos peninsulares parece ter dado grande importância a essa concessão, e semelhante estado de indiferença havia de se manter ainda durante quase cinquenta anos. Seria só a partir dos anos 40 do século XII que tudo mudaria, e que a questão começaria a tornar-se absolutamente central, com as suas múltiplas ramificações e ingerência nas restantes esferas de poder, e sobretudo na sua coordenação com a outra querela eclesiástica por excelência destes anos, a que oporia Braga e Compostela, especialmente na vertente relacionada com o problema da jurisdição sobre as dioceses de Coimbra e Zamora, Lisboa e Évora.
Ora a questão do primado não se tornou subitamente essencial, não se tornou premente e nuclear, naquela altura e não noutra, por mero acaso. O facto é que se tornou absolutamente central, quando as evoluções políticas dos reinos peninsulares tornaram a questão da hierarquização eclesiástica um assunto relevante. Com Afonso VII no trono de Leão e Castela, um reino forte com tendências expansionistas, os restantes reinos hispânicos sentiram as exigências do arcebispo de Toledo em receber a obediência dos restantes arcebispos como uma tentativa de apropriação política dos seus reinos. O mesmo se diga de Portugal, onde a questão se torna central precisamente na fase em que Afonso Henriques afirmava a sua soberania sobre o território português com maior veemência e nos anos que se seguiram ao seu pedido de protecção papal para as suas pretensões a ser considerado miles beati Petri. Acontecia precisamente nos anos do reinado de Afonso Henriques durante os quais ele liderava o que parecia uma inspirada campanha para sul e leste. E a reivindicação da independência e soberania do arcebispado de Braga face ao de Toledo surgia quase como uma afirmação de independência do reino português face ao castelhano-leonês de Afonso VII, razão por que o arcebispo de Braga, João Peculiar, sempre tentou evitar jurar essa obediência ao toledano.
A fase mais aguda desta querela decorreria precisamente entre 1144 e 1163, facto que decerto deverá imputar-se tanto à índole determinada e aguerrida dos arcebispos de Toledo e Braga como à hostilidade entre os reis que serviam e aos receios derivados da possibilidade de sucesso do pedido de Afonso Henriques para ser reconhecido como vassalo da Santa Sé e rei de Portugal». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «Não devemos, talvez, esquecer-nos de que, pelo menos durante os séculos XII e XIII, a idade adulta começava para estes rapazes aos 14 anos, pelo que 10 anos de idade…»

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A Longa Espera pelo Trono. O mundo que viu Sancho nascer e crescer
«(…) A partir de 1168, a aliança que faz com os almóadas, por intermédio do seu nobre Fernando Rodrigues Castro, junto com uma reaproximação com o futuro rei castelhano, parece terem-lhe dado a segurança de que necessitava para de novo quebrar a precária paz que selara pelo casamento com Urraca Afonso. E assim, a espiral de desentendimento e rivalidade entre os dois monarcas, potenciada pelas conquistas de Afonso Henriques e Geraldo Geraldes no Alentejo em regiões onde os interesses de Fernando II também eram relevantes, só iria parar de rodopiar em Badajoz...
Não se pode esperar que um Sancho I ainda demasiado jovem para se aperceber dos jogos de intriga política que neste contexto se disputavam pudesse ter tido, em 1158, qualquer grau de consciência real dos perigos que tinham afectado o reino português no rescaldo de Sahagún, nem da tensa e complicada situação que a partir daí iria pautar as relações entre os reis peninsulares. Mas não podemos pretender que o mesmo continue a ser verdade nos meados da década de 60, quando, atingida a idade de 10 anos, o encontramos já em Coimbra e até acompanhado por um chanceler privativo da sua casa. Não devemos, talvez, esquecer-nos de que, pelo menos durante os séculos XII e XIII, a idade adulta começava para estes rapazes aos 14 anos, pelo que 10 anos de idade nesses tempos não podem ser encarados com os nossos olhos de hoje em dia. É inegável que o mundo das maioridades e menoridades medievais não pode ser visto à luz dos nossos conceitos actuais. Por isso mesmo, parece improvável conceber que durante os anos que mediaram entre o seu nascimento e 1169 o futuro rei pudesse ter crescido sem que o relato, as consequências e a memória de acontecimentos tão importantes não tivessem penetrado os momentos que presenciava ou em que eventualmente participava na corte do rei seu pai, ou os momentos em que os membros da sua casa e seus próprios conselheiros já começariam a introduzi-lo nas doutrinas em que um jovem príncipe deveria ser ensinado.
Não é razoável partir do princípio de que Sancho nunca se tivesse apercebido de assuntos de importância tão capital para o futuro governo do reino que deveria herdar, ou que aqueles encarregados de o guiarem na sua educação e aprendizagem como futuro rei não se tivessem preocupado em começar a doutriná-lo, sobre os assuntos que enformariam seguramente as preocupações que teria de encarar quando ascendesse à dignidade régia. Embora pareça irrealista imaginarmos um Sancho I criado completamente à margem dos acontecimentos fulcrais desses anos centrais do século XII, quer a nível da política externa, em relação aos reis vizinhos e às nobrezas que alimentavam as numerosas clientelas respectivas, quer em relação ao esforço de conquista que seu pai estava a levar a cabo e problemas que essa política acarretava, não poderemos nunca avaliar qual o grau de familiaridade que o jovem Sancho teve com todos esses importantes desenvolvimentos.
O mesmo se diga do grau de consciência que o infante poderia ter da relevância das querelas eclesiásticas que na época lavravam com tanta violência, ou da tentativa de fazer reconhecer o reino de Portugal em Roma, com as repercussões que qualquer destes assuntos poderia vir a ter na sua vida quando ascendesse ao trono. Por muito jovem que o infante fosse, não poderia, nos anos centrais da década de 60 do século XII, ter sido alheio ao fervilhar das questões acima mencionadas, no agitado ambiente de Coimbra, nem às estruturais alterações que se previa pudessem estar a ponto de acontecer. Havia uma outra dimensão no relacionamento de seu pai com os restantes reinos peninsulares, cuja relação com os sucessos a nível político era inegável e que não pode ter passado desapercebida ao infante. Trata-se da querela que se gerou em torno do primado das Hispânias, a qual se desenvolveu muito mais no contexto alargado da política peninsular e europeia, dos inícios do século XII do que no das questões eclesiásticas puras. A questão do primado das Hispânias é um exemplo acabado de como a política eclesiástica e a política temporal não eram separáveis, nessa Hispânia undecentista, e como a tentativa de converter a rede de sufragâneas dos arcebispados num esboço de igrejas nacionais, acaba por parecer estar sempre na raiz dos problemas. A querela tem os seus fundamentos na forma de conceber a relação dos reis peninsulares com o território reconquistado e com a estruturação da hierarquia da Igreja nesse mesmo território». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «A aliança matrimonial não se concretizou, mas já o mesmo não se pode dizer das investidas expansionistas de Afonso Henriques»

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A Longa Espera pelo Trono. O mundo que viu Sancho nascer e crescer
«(…) Pouco depois de se separarem, Fernando II decidiu fundar Ciudad Rodrigo, no que perece ser uma resposta-desafio às provocadoras investidas do português. Por seu lado, Afonso Henriques perece ter decidido dar a sua réplica ao leonês, ao contratar o casamento de sua filha Mafalda com Afonso II de Aragão, como forma de garantir apoios fora da esfera leonesa-castelhana e ao conjugar essa manobra diplomática com a intensificação do esfoA aliança matrimonial não se concretizou, mas já o mesmo não se pode dizer das investidas expansionistas de Afonso Henriques, que desde então até 1169 não voltará a dar tréguas a nenhum dos seus vizinhos.
rço de conquista em todas as frentes, a sul, a leste e a norte. O contrato de casamento entre a filha de Afonso Henriques e o herdeiro do trono de Aragão foi de facto celebrado, em finais de Janeiro de 1160, em Tui, mas a sua concretização seria frustrada pela morte prematura da infanta.
A luta renovada em todas as fronteiras, parecia, assim, corresponder à necessidade cada vez, mais premente de defrontar um Fernando II progressivamente mais seguro e ameaçador, tal como devia parecer evidente e quem observasse o crescendo das sucessivas agressões que perpetrava contra os interesses de seu sobrinho, Afonso VIII de Castela e dos tutores dele. Com efeito, a decisão de fundar solenemente Ciudad Rodrigo e de restaurar o seu bispado, transformando esse núcleo populacional, que ficava numa região cujo domínio ainda era muito contestado, mas cuja importância estratégica parecia cada vez maior, num autêntico baluarte simbólico, onde se aliariam ao mesmo tempo a fixação populacional de facto e a afirmação da soberania leonesa de direito, afectava de forma negativa vários ar{rios grupos sociais.
Provocou, desde logo, o desconforto e má vontade dos vizinhos de Salamanca, que viam as suas prerrogativas e sua anterior posição ameaçadas pela rivalidade do novo núcleo populacional que agora se fundava, implantado numa posição estratégica muito favorável, por se situar, por um lado, na confluência de duas das estradas mais importantes de penetração para leste e para sul (a Colimbriana e a Dalmatica), e por outro, na perigosa esfera de influência de duas das cidades mais importantes da região, Salamanca e Zamora. Não admira, por isso, que em breve encontremos Afonso Henriques nesses paragens, nem que o encontremos, logo em inícios de Janeiro de 1163, a entrar pela Extremadura adentro e a apossar-se de Salamanca, com o assentimento e colaboração de seus moradores, que entendiam a vantagem desta aliança, numa união de interesses bem típica desta sociedade tão fluida e sempre em permanente autoconstrução e consolidação política.
Se o controle de Salamanca por parte do rei português foi efémero, já o redobro da pressão na Galiza foi mais perene, com as regiões de Límia e Toronho a integrarem de novo o território português, sem que Fernando II, pressionado demais com os problemas com Castela, pudesse reagir de forma eficiente ou atempada. Tradicionalmente, aceita-se que a pressão do lado castelhano teria forçado o leonês a aceitar a paz com Afonso Henriques (Pontevedra/Lerez em 1165), a qual seria ainda reforçada pelo casamento de Fernando II com Urraca Afonso, a filha mais velha de Afonso Henriques, casamento que, de facto, se consumou nesse mesmo ano de 1165. Naturalmente que com esta aliança se esperaria que a rivalidade e hostilidade entre o monarca leonês e o português acalmasse um pouco. Tendo em vista as questões que Fernando II sustentava nas regiões que faziam fronteira, quer com Castela, quer com os árabes, não seria de estranhar que preferisse suspender a guerra com o seu vizinho português e dedicar-se com maior disponibilidade às restantes linhas de guerra que mantinha em paralelo, pelo que um casamento com a filha do rei português deveria parecer um bom contributo para a manutenção de um entendimento harmonioso. Mas a realidade viria a revelar-se bem diferente do que se imaginava em 1165. Já em meados do século XIII, quando terminava a sua crónica sobre a Hispânia, Rodrigo Toledo registava, de forma falsamente surpreendida, que Fernando II, apesar de ser genro de Afonso Henriques, raramente tinha estado em paz com ele. Nunca se tinham dado bem». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

sábado, 19 de novembro de 2016

Papas Perversos. O Papa-Rei. Russel Chamberlin. «Mais de 150 anos tinham passado desde que Carlos Magno fora coroado imperador do Ocidente pelo papa Leão III. Durante século e meio…»

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«(…) Por isso continuou este rumo durante três longos anos até que surgiu um inimigo fora de Roma, o novo rei de Itália, com quem os seus inimigos dentro das muralhas se poderiam aliar. Este novo rei era muito pior do que o outro. O seu nome era Berengário, duque de um dos velhos ducados lombardos, que lutara à sua maneira pelo poder com os meios habituais de assassínio e traição, e se mantinha no poder com os habituais bandos de semibandidos, que o apoiariam enquanto tivessem nisso vantagem. O reinado começou com assassínio e continuou com uma violência e uma profunda avidez que superou até o reinado de Hugo da Provença. Acerca da mulher de Berengário, Liudprand observou causticamente que era apenas a personalidade da filha que lhe roubava o título de pior mulher viva. A sua avareza era insaciável: as damas da corte aprenderam a aparecer diante dela sem jóias, pois o que cobiçava pedia imediatamente.
Durante algum tempo, após a sua coroação, Berengário pilhou o Norte de Itália; depois, inevitavelmente, começou a dirigir-se para Sul, atraído, como todos, por Roma. O exército que o apoiava parecia-se mais com um bando de salteadores do que o exército de um rei, mas os que o compunham eram lutadores vigorosos, pensando no saque, que todos acreditavam haver na cidade. A agradável carreira de João suspendeu-se subitamente. Atrás de si, cidadãos à beira da desordem; perante si, um inimigo implacável que era também um soldado hábil. O manto de príncipe caiu-lhe dos ombros, revelando apenas um jovem amedrontado, cujo único pensamento era salvar a vida e se possível os seus prazeres. Agora era apenas príncipe em título; mas ainda era papa, e como chefe supremo da Igreja Cristã podia apelar aos mais profundos e nobres instintos de todos os seus filhos. No ano de 960, João chamou em seu auxílio o imperador Otão da Saxónia.

A vinda do Imperador
Mais de 150 anos tinham passado desde que Carlos Magno fora coroado imperador do Ocidente pelo papa Leão III. Durante século e meio, a coroa do império tinha-se tornado o vil pretexto para uma guerra de facções, um título vazio, a que até Marózia e Hugo aspirariam. Todavia, ainda subsistia a memória do nobre pacto feito nesse distante dia de Natal, quando as nações em guerra na Europa haviam sido de novo unidas sob um único líder. A unidade não sobrevivera a Carlos Magno, mas a partir daí os homens olharam para o Império Carolíngio como uma Idade de Ouro perdida. Sabia-se que o bispo de Roma podia criar um senhor supremo da Europa que traria a Lei e, com ela, a paz. Contudo, quando um verdadeiro grande rei, Otão da Saxónia, surgiu na Alemanha, foi como se pisasse um palco que estivera mais de cem anos à espera do seu protagonista. Encontrou a Alemanha dividida em cinco grandes ducados, racialmente distintos: fundiu-os num só e impôs-se como chefe.
Otão não se podia reclamar descendente de Carlos Magno, pois sendo Saxão nem era do mesmo povo. Mas, como o grande antecessor, o poder pessoal superaria os argumentos dos juristas, e para alcançar o seu fim, o restabelecimento do Império Carolíngio, reencenou a coroação de Carlos Magno. Recebeu a coroa alemã na linda igreja circular que Carlos Magno tinha construído em Aachen e deram-lhe, sucessivamente, a espada do grande monarca franco, o ceptro, a valiosíssima Lança Sagrada, a lança que trespassara Cristo na cruz. A corte que organizou foi modelada segundo a de Carlos Magno, e embora não se pudesse comparar em qualidades intelectuais, impôs-se todavia no seu tempo como um rei jovem e poderoso, atraindo os mais diversos povos dos quatro cantos da Europa. Entre eles estava o bispo lombardo de Cremona, Liudprand, cujas histórias vívidas, a única orientação de confiança deste século de trevas, conservaram religiosamente a memória de Otão como príncipe de todas as virtudes. Mas não foram as suas pretensões intelectuais e imperiais que tornaram Otão grande aos olhos dos povos para lá das florestas alemãs. Pretendentes imperiais eram algo comum e pretensões intelectuais eram deixadas aos clérigos. O que ele fizera foi esmagar a ameaça terrífica dos Hunos que haviam ensombrado a Europa durante mais de uma geração». In Russel Chamberlin, The Bad Popes, Sutton Publishing, 1969, Papas Perversos, Edições 70, Lisboa, 2005, ISBN 972-44-1207-5.

Cortesia Edições70/JDACT

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «… no Natal de 1159, encontramos Afonso Henriques de novo na corte de Fernando II, na Galiza, onde mais um convénio, conhecido como encontro de Santa Maria de Palos, parece também nada ter conseguido…»

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A Longa Espera pelo Trono. O mundo que viu Sancho nascer e crescer
«(…) Mas a falsa paz que o ano do nascimento de Sancho I parecia consagrar em breve dereria revelar a sua verdadeira natureza. Afonso VII morria em Agosto de 1157, deixando aos seus filhos, como legado, mais uma divisão patrimonial do reino, destinada a terminar num novo surto de cisões e rivalidades entre os agora de novo separados reinos de Leão e Castela. Por outro lado, a ameaça almóada em breve começaria a pressionar de novo as ainda instáveis fronteiras dos diversos reinos hispânicos. As disjunções entre os cinco reinos estavam prestes a renascer como o ponto mais importante na ordem do dia.
Afonso Henriques deve ter antecipado os perigos que esta nova partição dos reinos e a resultante reordenação política poderia trazer para as suas ambições. O novo ressurgimento dos dois reinos de Leão e Castela como unidades políticas independentes não pode ter deixado de o incomodar tendo em vista que acontecia pouco tempo depois do ainda relativamente fresco acordo de Zamora, em 1143, onde seu primo Afonso VII lhe reconhecera a dignidade régia. O rei português devia temer que os herdeiros de Afonso VII considerassem nulo o acordo que estabelecera com seu primo em Zamora, e que fizessem letra-morta do seu recém-adquirido estatuto real, agora que tudo parecia mudar e sobretudo tendo em vista que ainda não tinha tido resposta ao seu pedido ao papa para ser reconhecido como rei e vassalo de Roma, o que lhe permitiria libertar-se da necessidade de reconhecimento permanente por parte dos restantes reis ibéricos. Deve ter sido por temer as intenções do leonês que Afonso Henriques procurou certificar-se delas ao deslocar-se de imediato à corte de Fernando II, logo no mês de Outubro desse ano de 1157, decerto para sondar os planos do novo rei em relação a Portugal e garantir a permanência da paz que acordara com Afonso VII.
Aparentemente, esta visita a Leão, de contornos pouco claros, não surtiu qualquer efeito, visto que logo em Maio do ano seguinte, os dois novos reis, Sancho III de Castela e Fernando II de Leão, acertavam de facto um pacto entre si, que confirmava as suspeitas de Afonso Henriques, uma vez que nos termos desse pacto se acordava a futura repartição e integração de Portugal nos reinos dos dois signatários desse Tratado de Sahagún. A prematura morte de Sancho III viria impedir a concretização dos planos e divisões traçados em Sahagún, e viria lançar Castela numa instabilidade que muito acabaria por beneficiar, quer Fernando II de Leão, quer Afonso I de Portugal e os vizinhos reinos de Navarra e Aragão. Ao morrer tão cedo, Sancho III de Castela deixava como herdeiro o futuro Afonso VIII, que nesta altura tinha apenas 3 anos. A jovem criança teria de esperar ainda bastantes anos até atingir a idade em que começaria a resolver questões tão prementes como a questão navarra e o entendimento com Aragão, para além da eterna rivalidade com o rei leonês.
Seria lógico supor que a morte de Sancho III logo em 1158 poderia ter aliviado as apreensões do rei português sobre o futuro do seu território e da sua dignidade. No entanto, Afonso Henriques parece não ter confiado demais na sua sorte e, provavelmente por isso, parecendo adoptar a filosofia de que, em questões de domínio territorial, a melhor defesa é o ataque, passou à ofensiva, levando a cabo numerosos e sucessivos ataques, quer no limite sul do Além-Tejo, com sucessivas investidas em Alcácer do Sal, Beja e Évora, entre outras praças, quer a norte, na Galiza, onde era importante marcar o seu domínio face ao rei leonês e a Santiago de Compostela. É assim que, durante a década que vai de 1158/1159 até ao desastre de Badajoz, a conquista e o alargamento do território parece ter sido a preocupação principal do rei português e o móbil primeiro do seu governo. As famosas vistas de Cabrera, encontro onde, em Novembro desse mesmo ano de 1158, Fernando II de Leão e o rei português teriam acordado numa definição de áreas de domínio respectivo, muito embora pareçam corresponder ao desejo de assinalar e demarcar esses zonas de forma estável, não parece terem resolvido quaisquer problemas. Logo a seguir a este encontro de amizade, no Natal de 1159, encontramos Afonso Henriques de novo na corte de Fernando II, na Galiza, onde mais um convénio, conhecido como encontro de Santa Maria de Palos, parece também nada ter conseguido, nem em termos de apaziguar as respectivas ambições sobre territórios idênticos, nem no sentido de sanar as desconfianças e suspeitas recíprocas, nascidas com o Tratado de Sahagún». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Urbanismo e Arquitectura. Lisboa. José Augusto França. «Assim, S. Sebastião da Pedreira e Arroios são verdadeiros extremos da cidade alargada, de onde se ganham os arrabaldes rurais. Em volta do monte do Castelo, pelo contrário, multiplicam-se também as ruas vermiculares…»

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A Cidade Manuelina e Filipina
«(…) Constituem a haste maior as ruas dos Escudeiros, dos Douradores, (alargada em 1716) e dos Ourives do Ouro, e a haste menor a famosa rua Nova dos Ferros que termina no largo do Pelourinho onde morre também a rua dos Ourives da Prata, vinda da Madalena. A primeira haste do L, a princípio da rua dos Escudeiros, bifurca-se na rua dos Odreiros que parte igualmente da face sul do Rossio. Ali têm ainda começo a rua do Lagar do Cebo e a longa praça da Palha; a primeira desce irregularmente, pelas ruas das Mudas e dos Carapuceiros, até à rua transversal dos Mercadores, a segunda, continuada pela rua das Arcas, vai ter ao largo da igreja de S. Nicolau onde desembocará também a rua da Cutelaria, que vem do largo da igreja de Santa Justa e, mais atrás, da rua do Poço do Borratém, numa espécie de V cujo vértice se marca na primeira igreja, importante na rede confusa da Baixa.
Outra igreja de importância é a de S. Julião, de onde parte para a igreja da Conceição dos Freires a rua dos Mercadores, no sentido poente-nascente, que é o sentido da rua Nova, mais abaixo, e da rua da Confeitaria, ambas estas paralelas à face norte e oblíqua do Terreiro do Paço, que à última se liga, indirectamente embora, pelos arcos dos Pregos e dos Barretes, que ainda são portas da cerca fernandina. Ainda no sentido norte-sul, sai do Rossio a rua dos Espingardeiros, paralela à dos Odreiros, e do ângulo sudoeste da praça parte a Rua do Carmo que, pelas escadinhas do Caracol do Carmo vai à calçada de Paio de Novais que entronca na rua Nova do Almada no ponto de intercepção da rua das Portas de Santa Catarina. A norte desta (que, continuando pelo Calhariz e Paulistas, vai a S. Bento) é o bairro do Carmo e da Trindade, a sul o bairro de S. Francisco por detrás do qual (e do palácio dos duques de Bragança) se desce aos Remolares, à beira do rio.
Daqui, depois de alguns desvios, sobem rente às muralhas, as ruas do Conde e a larga de S. Roque, deixando a poente o bairro das Chagas e o bairro Alto, e propondo, para norte, o caminho que, pela Cotovia, leva ao Rato, de onde, em vasta encruzilhada, realmente uma placa distribuidora de trânsito, e agora já com diminuta densidade de casario, se passa a S. Bento, a Santa Isabel, a Campolide, a S. João de Bem-Casados, ou se desce, pela rua do Salitre, a Valverde. Ao longo deste, a caminho de S. Sebastião da Pedreira e a partir das Portas de Santo Antão, para norte, correm as ruas das Portas, de S. José, de Santa Marta e de S. Sebastião. Ainda do ângulo nordeste do Rossio se passa, pela calçada, ao Campo de Sant’Ana de onde sai a carreira de cavalos, adiante da qual a Cruz do Taboado é ainda sítio quase inteiramente rústico; ou se passa, por detrás de S. Domingos e pela Saúde, à rua da Palma, deixando a poente os altos de Sant’Antão e do Desterro, a caminho de Santa Bárbara e de Arroios.
Assim, S. Sebastião da Pedreira e Arroios são verdadeiros extremos da cidade alargada, de onde se ganham os arrabaldes rurais. Em volta do monte do Castelo, pelo contrário, multiplicam-se também as ruas vermiculares e só a Sé, a Graça e S. Vicente impõem presenças fortes que são roturas e ao mesmo tempo focos de atracção urbana. Da Graça, pelos Quatro Caminhos, na direcção da Senhora do Monte e da Penha de França, esboça-se já uma linha de urbanização; outra, dos Quatro Caminhos desce para Santa Apolónia. A oeste da cidade, do sítio da Boa-Morte vai uma urbanização para as Necessidades e, ao longo de toda a margem do Tejo, de Santos-o-Novo até Alcântara, é uma mancha ininterrupta de casario, em maior ou menor densidade. Porque o rio é, desde a Idade Média (ou desde sempre) a via real da cidade, a sua possibilidade maior de comunicação.
Manchas maiores ou menores, lineares ou enoveladas em bairros mais antigos, elas fazem de Lisboa joanina, com as suas calçadas em ruína (1746), mau grado o fausto da corte do rei Fidelíssimo e a sua riqueza decorativa (e mesmo contando as suas duas praças, nobre uma, popular a outra), o que um famoso viajante francês (L. S. Mercier) achou ser uma cidade de África. E o Cavaleiro de Oliveira, exilado, nada mais que uma fermosa estrivaria…

A cidade pombalina
Grande parte desta cidade desapareceu cerca das 10 horas da manhã do dia 1 de Novembro de 1755, abalada por um terramoto de raríssima intensidade (graus VIII e X sobre XII da escala de Mercalli) e magnitude (grau 9, o máximo na escala de Richter), cujo epicentro é localizável a oeste de Gibraltar e que foi sentido por toda a Europa, a África do Norte e até nas Américas. Ao sismo, e por ele provocado, sucedeu um vasto incêndio, mais catastrófico ainda, e do duplo cataclismo resultaram cerca de 10 000 mortos (embora na altura os cálculos apavorados tivessem subido até 90 000) e perdas materiais incalculáveis, em prédios e riquezas móveis e preciosas». In José Augusto França, Lisboa. Urbanismo e Arquitectura, Director da Publicação Álvaro Salema, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, série Artes Visuais, Instituto Camões, 1980.

Cortesia de ICamões/JDACT

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Urbanismo e Arquitectura. Lisboa. José Augusto França. «… a nascente pela colina do Castelo e a poente pela que se estende de S. Francisco ao Carmo, um grande L, descendo do Rossio enviezadamente e dobrando a noventa graus para poente, comanda a malha urbana…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Cidade Manuelina e Filipina
«(…) As fontes públicas foram também preocupação régia que Mardel satisfez numa série de desenhos, os mais simples executados (Esperança, Rato, rua Formosa), os outros abandonados, e entre estes duas fontes monumentais coroadas por estátuas de João V, uma equestre, numa edificação de grande volume, outra pedestre, ignorando-se para que locais da cidade, então servida por um magno aqueduto que foi a grande obra de engenharia do reinado joanino. Depois de tentativas e empreendimentos já em 1573, e nos reinados filipinos (1618 e 1621), a iniciativa partiu então do procurador da cidade, Gorgel Amaral (1728), com a intenção de levar água corrente a uma parte da cidade, o Bairro Alto e daí para baixo até ao paço real, remediando uma habitual carência em que já várias vezes tinham pensado os edis. Uma legislação apropriada deu apoio fiscal à empresa, e o decreto de 12 de Maio de 1731 mandou começar as obras iniciadas no ano seguinte e terminadas dezassete anos depois, com prolongamento nas fontes citadinas, numa mãe d’água e num notável arco, às Amoreiras, de Mardel, em 1752. Os engenheiros Manuel Maia e Custódio Vieira conduziram os trabalhos, e depois (1747) o próprio Mardel, sempre com o interesse régio. Desde Caneças, das Águas Livres que lhe deram o nome, o aqueduto conta dezoito quilómetros até às Amoreiras, emergindo da terra no alto da Serafina para galgar o vale de Alcântara até Campolide, em perto de um quilómetro de extensão sobre 35 arcos, 21 de volta perfeita, 14 quebrados ou ogivais, numa forma que não deixou de ser criticada na altura, pela sua lembrança medieval depreciada. O mais alto destes arcos, fechado em Outubro de 1744, mede 65,25 metros de altura, e o todo apresenta uma monumentalidade que impressionou os contemporâneos. A mais magnífica e a mais sumptuosa empresa deste género sem excluir as dos Romanos e dos Franceses, afirmava em 1755 o Journal Etranger de Paris, no ano em que a sua boa construção o fez resistir ao terramoto.
No pólo utilitário oposto ao paço real e à sua patriarcal, o aqueduto é um sinal maior da cidade municipal, num equipamento urbano de que ela precisava e que os seus habitantes mereciam, numerosos como eram já nos princípios de Setecentos. 90 000 fogos (ou seja 360 000 habitantes) contavam as relações paroquiais em 1704, enquanto em 1716, para obtenção de uma segunda diocese na cidade, se garantia ao papa que só a parte ocidental, em questão, tinha 300 000 habitantes, ou seja, o total de 600 000 para a cidade inteira, como se concluiu, imprudentemente, em 1754, em informação igualmente fornecida a Roma. Já em 1739 se tinha afirmado a existência de 800 000, mas mais verosimilhança apresenta um cômputo de 1729, quando se tratava de lançar realistamente o imposto do real da água para a construção do aqueduto; calcularam-se então 50 000 vizinhos (famílias), ou seja uma população de cerca de 200 000 pessoas. Cálculo em certa medida documentado indica 250 000 habitantes na altura do terramoto de 1755.
Este quarto de milhão de pessoas vivia numa cidade que há muito transbordara da cerca medieval: pelos meados do século citavam-se já os sítios dos Anjos, de Andaluz, de S. José, de Santa Marta, da Esperança, de S. Paulo, de Santa Catarina. Ela não alterara por isso a sua estrutura antiga, como vimos, ao longo dos dois últimos séculos: no mesmo sistema parcelar, os mesmos prédios se iam restaurando ou reconstruindo, nas mãos dos seus proprietários, novecentos dos quais eram foreiros do Senado em 1717. A planta que o engenheiro-mor do reino, Manuel Maia, levantou por ordem régia, entre 1713 e 1718, com toda a individuação de praças, palácios, templos, mosteiros, freguesias, ermidas, ruas e travessas, desaparecida, mas de que chegaram cópias até nós, mostra-nos Lisboa em pleno reinado joanino, e é essa cidade que importa agora descrever, nas suas linhas de força. No largo vale da Baixa, limitado a sul pelo Tejo e pelo Terreiro do Paço, de configuração irregular, a norte pelas hortas de Valverde e pelo Rossio, irregular também, a nascente pela colina do Castelo e a poente pela que se estende de S. Francisco ao Carmo, um grande L, descendo do Rossio enviezadamente e dobrando a noventa graus para poente, comanda a malha urbana enredada do conjunto». In José Augusto França, Lisboa. Urbanismo e Arquitectura, Director da Publicação Álvaro Salema, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, série Artes Visuais, Instituto Camões, 1980.

Cortesia de ICamões/JDACT

domingo, 5 de julho de 2015

Gonçalo Vasques Coutinho. Senhor do Couto de Leomil. «Em Outubro de 1385, quando se encontrava no Porto, João I volta a convocar a hoste régia, decidido a avançar de imediato contra as praças-fortes transmontanas que ainda mantinham voz por Castela…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os homens de Trancoso
«(…) Facto é que, ao fim de várias horas de combates, a vitória acabaria por sorrir às forças comandadas por Gonçalo Vasques Coutinho que, para além de terem sofrido um número, tudo o indica, pouco significativo de baixas, conseguiram ainda recuperar todo o saque que era transportado no trem de apoio castelhano e libertar os inúmeros prisioneiros que eram levados para cativeiro. Os motivos para este desfecho não são fáceis de encontrar, mas é provável que a eficácia da liderança de Gonçalo V. Coutinho tenha sido decisiva para manter coesas as linhas e, assim, suportar o embate com as forças inimigas, cuja cadeia de comando pode não ter funcionado tão bem. Mas há um outro argumento que parece ter jogado um papel importante no desfecho da batalha: o vento. De facto, Ayala sublinha os problemas sentidos pelos combatentes castelhanos devido à poeira levantada pelo vento que soprava na sua direcção e que, segundo o cronista, lhes terá dificultado a visão. Parece, pois, de admitir que esse pode ter sido um factor que Gonçalo Coutinho e os outros capitães tiveram deliberadamente em linha de conta quando procederam à escolha da melhor posição para defrontar os homens de Castañeda. Como sintetiza João Gouveia Monteiro, o desfecho da Batalha de Trancoso vinha confirmar, cerca de um ano depois de Atoleiros, que os exércitos castelhanos não eram invencíveis, pelo que o triunfo das forças comandadas pelo Coutinho teve ainda o efeito de animar ainda mais os que tinham apostado na causa de João I. Além disso, a batalha servira ainda para desmoralizar consideravelmente o adversário e, depois das avultadas baixas sofridas durante o cerco de Lisboa, para o privar de mais alguns dos seus principais comandantes militares. Mas acima de tudo, o resultado do prélio vinha anular a ofensiva liderada por Pedro Tenório, que acabaria por não se concretizar em resultado das baixas sofridas na Veiga de Trancoso, obrigando Juan I a alterar os seus planos, ou seja a mudar a estratégia e a rota de invasão das planícies das Alentejo para a estrada da Beira.
Com efeito, pouco mais de um mês depois, a hoste régia castelhana cruza, então, a fronteira, junto a Almeida, passa nas imediações de Trancoso, onde lança fogo à Ermida de São Marcos, símbolo da derrota averbada semanas antes por Juan Rodriguez Castañeda. Daí progride para sudoeste em direcção a Coimbra e a Leiria, até ao planalto de São Jorge, onde chega no dia 14 de Agosto de 1385. Porém, Gonçalo não participará na Batalha de Aljubarrota, segundo Luís Filipe Oliveira, em virtude de um posicionamento algo expectante, ditado pela preocupação em não se comprometer demasiado num enfrentamento que, todos o sabiam, poderia ser decisivo. E tratou-se de uma ausência feita ao arrepio das ordens do rei, que o convocara para que se juntasse à hoste régia, aliás tal como a Vasco Martins, Gil Vasques e Martim Vasques Cunha, João Fernandes Pacheco, Egas Coelho, os outros capitães vitoriosos da Batalha de Trancoso, mas dos quais só os dois últimos conseguem chegar a São Jorge ainda a tempo de integrar o exército português. Contudo, a sua ausência, aliás, tal como a dos Cunha, não terá, em nada, beliscado a relação com o rei.
O cerco a Chaves e a ofensiva de 1386
Em Outubro de 1385, quando se encontrava no Porto, João I volta a convocar a hoste régia, decidido a avançar de imediato contra as praças-fortes transmontanas que ainda mantinham voz por Castela, aproveitando os efeitos da vitória alcançada, meses antes, no planalto de São Jorge. Mas perante a relutância demonstrada por muitos quanto à participação numa campanha que iria decorrer em pleno Inverno, o rei viu-se forçado a ameaçar com o confisco de bens todos quantos, apesar de terem já recebido remuneração, não acorressem ao seu apelo. Gonçalo terá sido um destes, já que parece ter demorado a acatar a ordem do monarca que, chegado a Vila Real, em finais de Novembro, voltará a convocá-lo, bem como aos irmãos Martim Vasques e Gil Vasques Cunha, para que se juntasse à hoste.
Será, pois, para tentar apaziguar a relutância que demonstrara em integrar a hoste régia que João I beneficia Gonçalo com um novo e impressionante conjunto de doações. Assim, ao longo do mês de Dezembro de 1385, entrega-lhe as terras de Numão, Horta, Vila Nova de Foz Côa, Cedovim; Tavares, Cinfães, Parada, Meã; Viseu e a barca da Régua, para além de uma nova carta de doação de todos os bens móveis e de raiz que haviam pertencido a Martim Gonçalves Ataíde. Terá sido, portanto, por essa altura que os contingentes de Gonçalo Vasques Coutinho, e provavelmente também os de Martim Vasques Cunha, finalmente, se reuniram à hoste estacionada em Vila Real e pronta para dar início ao cerco à cidade de Chaves. Perante a resistência demonstrada pela guarnição comandada por Martim Goncalves Ataíde, cunhado de Gonçalo Vasques, João I manda erguer uma grande torre de assalto para impedir o acesso ao rio Tâmega. Ao privar os sitiados de água potável o rei esperara conseguir acelerar a sua rendição. Mas nem assim a resistência esmoreceu, com o cerco a arrastar-se muito para além do que inicialmente se previa e com inúmeros episódios reveladores da tenacidade da guarnição flaviense que, apesar da sede, não dava quaisquer sinais de enfraquecimento. Uma das poucas pessoas que, no interior da cidade, tinha as suas necessidades mitigadas era dona Mécia V. Coutinho, mulher do alcaide e irmã de Gonçalo Vasques, a quem o rei mandava entregar diariamente, por amor de seu irmão, como assegura Fernão Lopes, um cântaro de água». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT

Geraldo Geraldes. O Sem-Pavor. «Ainda que as fontes não permitam perceber qual a composição e dimensão das forças comandadas por ‘Geraldo’, parece evidente que não constituíam uma grande hoste como as que eram mobilizadas pelas monarquias cristãs peninsulares»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os primeiros sucessos
«(…) Vasta, populosa e rica, a cidade estava completamente rodeada por uma forte cintura de muralhas reconstruída no século X, depois de em 913 ter sido devastada pelo rei de Leão Ordonho II. Para além disso, encontrava-se também dotada de um imponente castelo, o que a convertia, em teoria, num alvo ainda mais difícil de alcançar. Contudo, sem o apoio da praça-forte de Alcácer, que os portugueses, na sequência de várias tentativas frustradas, haviam conquistado em 1160, e sem a cobertura de Beja, reduzida a ruínas, como vimos, em 1163, encontrava-se praticamente isolada e à mercê de quem se dispusesse a atacá-la, o que ajuda e explicar, por um lado, o porquê da escolha e a forma fácil como parece ter sido conquistada e, por outro, o facto de não ter sido, no imediato, objecto de uma contra-ofensiva muçulmana. As fontes não adiantam qualquer informação que permita reconstituir a operação, sabendo-se apenas que a cidade tombou, tal como Beja e Trujillo, através de uma operação furtiva lançada durante a noite, como sublinham os Annales D. Alfonsi, de modo a apanhar desprevenida a guarnição inimiga que, em poucas horas, terá sido completamente dominada. Porém, em lugar de reservar para si, como fizera com Trujillo, o domínio directo da praça-forte recém-conquistada, o caudilho volta a surpreender tudo e todos ao decidir entregá-la ao rei de Portugal.
Ainda que, como sugerimos já, a articulação e a comunhão entre os interesses estratégicos dos dois comandantes possam remontar à tomada de Beja, é com esta nova conquista que a relação entre ambos se estreita. Com efeito, em retribuição pela entrega da cidade, Afonso Henriques terá escolhido Geraldo para o cargo de alcaide-mor de Évora, uma nomeação a que tanto os Anais de Santa Cruz de Coimbra como o Al-Bayan, de Ibn Idari, aludem, ainda que de forma breve e pouco clara. Alguns autores veem neste acto, quanto a nós, com algum exagero, a expressão de uma relação feudo-vassálica que se teria então constituído ou cimentado. Contudo, parece-nos evidente, e independentemente de esse vínculo ter, ou não, existido, que O Sem-Pavor não teria muitas mais alternativas, pois dificilmente conseguiria assegurar o domínio efectivo da cidade apenas com as suas forças. Assim, entre pilhá-la e, depois, abandoná-la, como havia sido feito dois anos antes em Beja, e continuar a controlá-la, mesmo que em nome de Afonso Henriques, a opção terá sido, compreensivelmente, a entrega da cidade ao rei.
Esta venda, como pejorativamente é referida pelo cronista Ibn Idari, terá certamente trazido muitos benefícios para Geraldo. De facto, para além da consolidação de uma importante aliança militar e da obtenção do comando da praça-forte de Évora, o caudilho conseguiu ainda assegurar a posse directa de algumas pequenas fortificações próximas da cidade, como o Castelo dos Ladrões, mencionado, por exemplo, em documentos de meados do século XIII, ou o pequeno reduto amuralhado situado a sudoeste da urbe e onde a tradição ainda hoje assinala a localização do Castelo do Geraldo. Mas, acima de tudo, iria passar a beneficiar dos inúmeros recursos que Évora tinha para oferecer: protecção, riquezas, homens, armas, cavalos, alimentos, etc., ou seja, os meios de que necessitava para tornar ainda mais poderoso o exército que tinha sob as suas ordens.
Ainda que as fontes não permitam perceber qual a composição e dimensão das forças comandadas por Geraldo, parece evidente que não constituíam uma grande hoste como as que eram mobilizadas, por exemplo, pelas monarquias cristãs peninsulares para os habituais fossados lançados anualmente contra território inimigo. Pelo contrário. A preferência pelas conquistas furtivas, que envolviam uma logística extremamente simples; ou a rapidez e a discrição com que se deslocavam de um objectivo para o outro, o que remete também para um apurado sistema de informação e exploração do terreno, bem patentes na dificuldade revelada pelo adversário em prever e deter as suas incursões, apontam precisamente para contingentes relativamente reduzidos. Ainda assim, teriam um núcleo mais ou menos permanente na casa das três ou quatro centenas de combatentes veteranos, a que se acrescentavam as guarnições estacionadas nas fortalezas que, a pouco e pouco, iam sendo dominadas, uma cifra que certamente foi crescendo à medida que os êxitos se somavam e que a reputação do líder aumentava». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT

Antão Vasques. Portugueses Medievais. Miguel G. Martins. «… ainda vir a receber, o lugar de Unhos e a adega de Camarate. Nesse documento, datado do dia 10 de Setembro de 1384, ou seja, lavrado nem uma semana depois da partida da hoste inimiga…»

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O Tejo, Coimbra e o Minho
«(…) Terá, pois, chegado incólume a Lisboa onde, tal como os tripulantes, guarnições e comandantes dos restantes navios vindos do Porto, foi recebido pelo Mestre de Avis. Integrou-se então na defesa da capital, não se lhe conhecendo, no entanto, qualquer acção armada durante o cerco, o que não invalida que, como pensamos, se tenha envolvido em algumas das escaramuças que tiveram lugar entre as últimas semanas de Agosto e os primeiros dias de Setembro. Foi precisamente no dia 4 desse mês que a hoste castelhana, profundamente desgastada devido a um surto de peste que dizimava diariamente uma centena de combatentes, levantou o cerco iniciado em Maio. Ao fim de quase quatro meses de fome e angústia, a cidade e os seus habitantes podiam, finalmente, respirar de alívio. Não demorou até que o Mestre de Avis recompensasse de forma generosa muitos daqueles que o tinham apoiado durante esse período, em particular os que tinham integrado a defesa da capital portuguesa.
Trata-se, como sublinha Valentino Viegas, do maior número de doações individuais de toda a vida de João I, totalizando, só durante Setembro, cerca de 130, pelas quais são beneficiados os seus vassalos, escudeiros e criados, algumas figuras nobres e respectivos vassalos e escudeiros, diversos mestres de naus, comendadores das ordens militares, clérigos, etc.. Quanto a Antão Vasques, que Fernão Lopes integra precisamente na lista dos que ao Mestre foram companheiros em defender o reino de seus inimigos, recebe então de João I, em recompensa pelas suas acções e serviços anteriores, mas também pelos que dele esperava ainda vir a receber, o lugar de Unhos e a adega de Camarate. Nesse documento, datado do dia 10 de Setembro de 1384, ou seja, lavrado nem uma semana depois da partida da hoste inimiga, o Mestre de Avis identifica-o como cavaleiro morador em Lisboa. Reencontramo-lo, já em finais de Dezembro, entre as forças que cercaram Torres Vedras, tendo muito provavelmente integrado os contingentes que, sob o comando do Mestre, partiram da capital para se juntarem às forças de Diogo Lopes Pacheco que, em Outubro, tinham dado início a essa operação, mas que, em resultado de alguma falta de efectivos, se defrontavam com grandes dificuldades. Com a chegada da hoste a Torres Vedras, foi entregue a Antão Vasques o comando de um contingente encarregado de manter sob apertada vigilância uma das portas da vila, de modo a evitar que fosse usada pelo adversário para o lançamento de surtidas. Contudo, a tentativa de assassinato do Mestre, por um lado, e a forte resistência demonstrada pelos sitiados, por outro, levou a que João I decidisse interromper o cerco e avançar para Coimbra, para onde estavam marcadas as cortes e onde começavam já a chegar os primeiros procuradores. Não admira, pois, que Antão Vasques esteja presente nas cortes de Março de 1385, nas quais o Mestre de Avis foi eleito, seguramente que com o seu apoio, como rei de Portugal. Com efeito, entre os que participaram nessa assembleia encontramos, como seria de esperar, o seu nome, arrolado por Fernão Lopes no grupo dos cavaleiros.
Como assinalou João Gouveia Monteiro, tanto o rei quanto o condestável escolheram o Minho como palco das acções militares conduzidas depois das cortes de Coimbra. Nesse sentido, é muito natural que, desde logo, Antão Vasques tenha regressado às fileiras do exército de Nuno Álvares, com o qual mantinha uma estreita relação desde a primavera do ano anterior, e, como tal, que tenha participado, durante o mês de Abril e primeiras semanas de Maio, na conquista das praças-fortes de Neiva, Viana, Cerveira e Caminha, tendo igualmente estado presente na tomada de Braga. Já em meados de Maio, Antão Vasques participará também na conquista de Ponte de Lima, uma operação conduzida em conjunto por João I, que deixara o grosso das suas forças a manter o cerco a Guimarães, e pelo exército de Nuno Álvares, a que se tinham já juntado alguns dos auxiliares ingleses que, dias antes, haviam desembarcado no Porto». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia ELivros/JDACT

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Fernando. Senhor de Serpa. Miguel G. Martins. «Não admira, pois, que tivesse sido Sancho II, receoso de uma atitude vingativa por parte do seu ex-chanceler, o verdadeiro mandante, da violenta ofensiva conduzida, em finais de 1236, pelo infante de Serpa»

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Dos primeiros anos aos anos de fogo
«(…) Instalado no seu senhorio, procura então cimentar relacionamentos com os diversos poderes locais e regionais, nomeadamente com o bispo de Évora, Fernando, de quem se faz vassalo e a quem se compromete, em Outubro de 1235, a entregar todos os direitos episcopais que lhe eram devidos, designadamente a terça pontifical das igrejas de Serpa, tanto das já existentes, quanto das que futuramente aí viessem a ser edificadas. Para todos os efeitos, tratava-se do reconhecimento do poder do bispo e da sua supremacia relativamente ao ainda algo frágil poder regional do jovem infante. A mudança para Serpa tem lugar nas vésperas de grandes perturbações e violências no Norte do reino, em Braga, no Porto e em Lamego, por exemplo, e antecede a enorme agitação e mudança nos meios cortesãos e da administração do reino, que levarão, a partir de 1236, a um isolamento cada vez maior do rei. Não admira, pois, que nos anos seguintes Fernando, que não teria ainda 20 anos de idade, se converta num dos principais suportes de Sancho II. E será o próprio monarca que o manipula e empurra para o centro dessas mesmas convulsões colocando-o em rota de colisão com o bispo da Guarda, mestre Vicente.

Uma autêntica caça ao bispo
Aquele prelado havia ascendido à dignidade de chanceler do rei em 1224, depois de uma brilhante carreira eclesiástica que o levou de deão da Sé de Lisboa a canonista e professor na Universidade de Bolonha e, em 1229-1230, ao bispado da Guarda. Será mestre Vicente, durante a sua permanência na chancelaria régia, o responsável por uma profunda reorganização administrativa, no âmbito da qual eleva o cargo que ocupa a uma posição hegemónica, omnipresente e que chega mesmo a eclipsar a figura do rei. Contudo, pouco depois de Janeiro de 1236, naquilo que parece ser um autêntico golpe palaciano, o chanceler é afastado. Com ele tombam também algumas das figuras e famílias nobres mais destacadas no seio da administração do reino. Entre os que são atingidos por esta autêntica purga encontram-se o tio do rei, Rodrigo Sanches, os poderosos Sousas e todos aqueles que, de alguma forma, a eles se encontravam mais ligados. Acossado, humilhado e refugiado na diocese da Guarda, mestre Vicente convertia-se, agora, na perspectiva do monarca, numa figura incómoda, perigosa e ameaçadora, mercê dos seus contactos e capacidade de influência junto do papa. Não admira, pois, que tivesse sido Sancho II, receoso de uma atitude vingativa por parte do seu ex-chanceler, o verdadeiro mandante, da violenta ofensiva conduzida, em finais de 1236, pelo infante de Serpa.
Segundo as queixas do bispo, que se conhecem apenas através do conteúdo das bulas papais emitidas a propósito desses actos, Fernando e os seus homens assaltaram as propriedades do prelado, mas também as dos seus clientes e vassalos, quer no bispado da Guarda, quer no de Lisboa. Num e noutro local, apropriaram-se de bens, destruíram haveres, perseguiram pessoas e praticaram diversos sacrilégios, recorrendo, por vezes, ao auxílio de combatentes muçulmanos recrutados no senhorio de Serpa e nas regiões próximas. Em Santarém, o infante teria ido ainda mais longe ao matar, na presença do próprio mestre Vicente, aparentemente com as próprias mãos e, numa atitude claramente ameaçadora, da qual não mostrou quaisquer sinais de arrependimento, alguns clérigos ligados ao bispo e que ainda exerciam funções na chancelaria régia. Mas seriam estes actos devidos única e exclusivamente à iniciativa de Fernando que, ao que parece, nada teria a ganhar com eles, salvo o que conseguisse roubar e saquear? Tudo indica que não. Pelo menos em alguns meios não existiam quaisquer dúvidas a esse respeito. Com efeito, ao ser informada destes acontecimentos, a Santa Sé reage de imediato e, nos finais de Abril de 1237, envia ao arcebispo de Toledo e ao bispo de Leão instruções para lançar a excomunhão sobre o infante e os seus homens. Porém, ordena igualmente o interdito, a pena eclesiástica que privava os fiéis dos sacramentos, dos ofícios ou mesmo de sepultura religiosa, sobre todo e qualquer local onde o rei e a corte estacionassem, sinal claro de que sabia perfeitamente de onde tinham partido as ordens recebidas por Fernando. Tal como no caso das violências conduzidas contra mestre Vicente, também os abusos cometidos contra a diocese de Lisboa, talvez nos primeiros meses de 1238, parecem ter tido, no mínimo, o beneplácito do rei que, à imagem do que sucedera no ano anterior, terá sido, mais uma vez, o autor moral de todos esses novos desmandos». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT