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domingo, 28 de fevereiro de 2021

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «Infelizmente, não via parisienses da segunda estirpe e era nesse momento que lhe nascia na alma uma nova vaga, mais racional e compreensiva: os citoyens estavam em pânico…»

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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Durante as horas seguintes, Carol vagueou por Paris numa apatia entristecida. Nem a Hirondelle revelou a habitual magia e, pela primeira vez, não se sentiu a voar. Aliás, a maior parte do tempo levara a bicicleta pela mão ou sentara-se num banco qualquer, nas Tulherias, nos Campos Elísios, mais tarde em frente à Catedral de Nôtre-Dame, a matutar, deprimida. Não estava apaixonada por Jean-Luc, ele não lhe tinha partido o coração, a questão não era essa! Numa primeira vaga de raiva, concluiu que aquela separação inesperada agravava a sensação dolorosa por ser um manifesto da mudança radical de Paris. Jean-Luc era um símbolo francês, um exemplo de falta de resiliência, de vertigem medrosa e de uma mesquinha ausência de solidariedade. Tal como no romance de Victor Hugo, Os Miseráveis, no presente também existiam os fugitivos e os lutadores que construíam barricadas nas ruas! Jean-Luc pertencia ao grupo dos primeiros.

Infelizmente, não via parisienses da segunda estirpe e era nesse momento que lhe nascia na alma uma nova vaga, mais racional e compreensiva: os citoyens estavam em pânico e, tendo familiares nas províncias, era natural colocarem-se a uma distância segura dos panzers. Jean-Luc fora lúcido, se não partisse hoje de comboio, poderia não o conseguir fazer depois. Após essa curta acalmia, uma terceira onda de emoções levantava-se, crispada e barulhenta, denegrindo o amigo por a haver ignorado, por não mostrar sequer a decência e o cavalheirismo de a informar. Ela não teria revertido a decisão dele, nem esperado uma sugestão para o acompanhar. Mas fugir como um tolo? Caramba, não se viam ainda botifarras nazis nos boulevards e Jean-Luc nem sequer era judeu, comunista, ou soldado, não estava no topo das preocupações alemãs!

De repente, a minha prima lembrou-se da opinião de Polly sobre os franceses e deu por si a concordar com a americana. Andavam aterrados e o desaparecimento intempestivo de Jean-Luc provava-o. Não que o namorado apresentasse falta de apetite sexual, essa parte não validava a teoria de Polly, mas…

Um pensamento intrometeu-se e o coração magoado de Carol acelerou a batida. E se estivesse grávida? Jean-Luc fora-se embora sem qualquer preocupação com essa minúscula probabilidade! Esquecera-a sem lhe dar sequer um romântico beijo de despedida, na gare, como no final dos filmes americanos. Porém, a minha prima dera-se e, mesmo com as precauções tomadas, podia sempre existir um percalço! Na universidade, conhecia pelo menos duas alunas que haviam engravidado sem querer. Aquela dor na barriga, que já sentira várias vezes, seria um pequeno embrião a germinar? Enxotou a tolice. Não estava grávida, o sentimento de abandono é que a fazia pensar assim. A única conclusão certa era a de que o namorado não prestava, ponto final. Decidida, começou a desconstruí-lo. Que parvo, sempre com a boca torta de nojo, ao vê-la comer mexilhões! O odor dele também lhe repugnava, mas o pior era mesmo o cabelo, oleoso, lambido e raramente lavado. Isso e a incapacidade para dar uns passos de dança. Não tinham mesmo nada a ver um com o outro, aquela fora uma mera ligação entre dois solitários, fraca e ténue!

Até na cama era maçador, um aspirante a médico sem qualquer curiosidade pela anatomia feminina. Nem por uma vez a beijara nos mamilos ou lá em baixo e possuía-a sempre deitado em cima dela, que abria as pernas e pronto, um calorzinho no ventre e já está! Agora que pensava nisso, nunca ficara por cima, a tal posição de que Polly tanto gostava. Aliás, o lendário prazer explosivo de que as outras mulheres falavam, que se devia procurar como se fosse o Santo Graal dos romances da Távola Redonda, nunca Carol o encontrara! Jean-Luc era um banal iniciador, sem prática ou jeito, que nem sequer ascendia ao nobre estatuto de ter sido o seu primeiro homem. A dado momento, tanta era a sua irritação que até olhou com brusquidão para a Hirondelle quando esta tombou com o vento, talvez por estar mal encostada ao banco. Levantou-se, furiosa, prestes a brindar com palavrões a bicicleta, como se esta fosse uma extensão de Jean-Luc. Porém, um raio de lucidez atravessou-a: não seriam justos tais desatinos, a Hirondelle nunca lhe falhara, nem um mísero furo tivera em dois anos, revelara-se um monumento de resiliência. Enquanto Paris a abandonava, a fiel bicicleta continuava com ela! Então, levantou-a do chão e acarinhou-a, passando a palma da mão direita no selim. Se algo parecido com amor existia no seu coração, era por aquela bicicleta!» In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris, 

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Sentámo-nos ao balcão da pastelaria. Michael puxou de um maço de cigarros, ofereceu-me um e acendeu outro. Depois perguntou: a Mary quer que tu a ajudes? Sim»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995

Mary

«(…) Estava perplexo. Mary era uma mulher experiente e vivaça, mas nunca esperei um currículo tão vasto. Chamou-te cobarde? A pergunta de Michael atingiu-me como um tiro no peito. Mary tinha dito aquilo na intimidade, não era possível ele saber. A não ser que..., fosse um hábito de Mary. Consciente de ter acertado em cheio, o meu amigo riu-se: sempre a mesma Mary. Faz isso com todos. Insulta-nos, provoca-nos, e depois trepa por nós a cima. Diz-me, Jack, a Mary pediu que a montasses? Corei. Michael deu uma gargalhada e depois gritou, no meio do Rossio: bem-vindo ao clube dos namorados da Mary! Fingiu ter um copo na mão, ergueu o braço e executou um brinde à minha saúde, com pompa e circunstância. Era um patife teatral, o meu amigo! Desatou a rir e o seu riso contagiou-me, e pouco depois já eu ria às gargalhadas. As pessoas que passavam por nós também riam, divertidas. A custo, recuperámos a seriedade, e Michael avisou: o problema é esse, Jack. Muitos homens na cama, muitos segredos que deixam de o ser. Nestes tempos, é preciso ter cuidado. Os alemães têm amigos por todo o lado.

O lembrete de Michael soou-me exagerado. Desconhecedor do furtivo mundo da espionagem, tinha a atrevida ignorância de duvidar. Ela pareceu-me mais preocupada com o coronel... Diz que ele anda a falar com os comunistas, contrapus. Com ela é que ele não fala muito, resmungou Michael. O meu amigo começou a andar na direcção da Suíça e segui-o. A pastelaria, onde a afluência de refugiados obrigara a abrir uma esplanada para a rua, fora baptizada pelos portugueses de Bompernasse, pois podiam observar-se por lá muitas e belas pernas de mulheres estrangeiras. Francesas, belgas, holandesas, judias da Alemanha ou da Polónia, calçavam soquettes, saíam à rua sem meias, luvas ou chapéus, e penteavam o cabelo curto, à refugiada. Aliviadas por terem escapado à guerra, aos black outs, às bombas ou às perseguições da Gestapo, viviam Lisboa como um oásis, um nirvana de paz e felicidade, e mostravam as pernas ao sol, lendo revistas e fumando cigarros, numa animação estranha aos costumes lusitanos.

À frente da Suíça, um agitado grupo de portugueses discutia a recente ocupação de Timor pelos japoneses. Deviam ser funcionários públicos, saídos do emprego há pouco. Alguns tinham na lapela cruzes de Lorena, emblema da França Livre, outros emblemas da RAF inglesa, que usavam com orgulho apesar das multas da PSP. A 20 metros do grupo, dois circunspectos homens de casaco cinzento, provavelmente da PVDE, vigiavam o ajuntamento para evitar o descambar das polémicas. Cá estão os nossos amigos, resmungou Michael. Diversas vezes me confessara a embirração que nutria pelos agentes da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, a PVDE, que considerava gente de segunda categoria. Mal formados, quase todos originários da PSP, não falavam línguas, e Michael descrevia-os como paus-mandados, capazes de incomodar, perseguir e torturar, sem saberem distinguir um francês dum polaco. Porém, embora reconhecesse que existiam influências germânicas e do fascismo italiano na PVDE, Michael considerava que a Gestapo não dominava a polícia de Salazar. Explicara-me que o capitão Agostinho Lourenço, o chefe da PVDE, não era pro-nazi mas sim um neutro, que cumpria estritamente as ordens de Salazar. Para o meu amigo, havia na PVDE homens mais perigosos do que o chefe, como o tenente Marrano, que Michael considerava um filho da pu…, formado na Alemanha pela Gestapo, um sinistro esbirro a quem dava gozo perseguir os judeus e os comunistas.

Sentámo-nos ao balcão da pastelaria. Michael puxou de um maço de cigarros, ofereceu-me um e acendeu outro. Depois perguntou: a Mary quer que tu a ajudes? Sim. E tu queres ajudá-la, ou só queres continuar a montá-la? Sorri: as duas coisas. Ele riu-se. Acenou ao empregado atrás do balcão e pediu duas aguardentes. O homem veio, pousou dois copos, encheu-os e retirou-se. O problema não é a ajuda que vais dar, disse ele. O problema é ajudá-la a ela, à mulher do James. Permaneci calado. Michael prosseguiu, revelando-me uma novidade: ontem chegou um tipo novo a Lisboa. Ralph Jones. Para pôr ordem na casa. Fez uma pausa, depois de dar um trago na aguardente, e baixou o tom de voz, como que a conferir gravidade ao que ia dizer. O coronel Bowles é perigoso. Olhei para ele: por causa dos comunistas? Michael franziu as sobrancelhas, dando-me a entender que não era local para falar em tal tema. Mudou de assunto e perguntou: queres ver a minha nova faca? Tirou do bolso do casaco um coldre, e mostrou-me a faca. A lâmina era afiada, brilhante, límpida como um espelho onde os nossos copos se reflectiam. Segurou-a pelo cabo de madeira trabalhada e afirmou orgulhoso: é uma Randall, igual às que o exército americano usa. Mandei-a vir de lá. Gosto de americanas...» In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Guerra Mundial, Literatura, Conhecimento,

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Ah! Ah, Ah! Cabra? Chamaste-me cabra? Ora querem lá ver que afinal não és só salamaleques! Mary levantou o copo e disse: brindemos a isso! À cabra!»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995
Mary
«(…) Eu, Jack Gil Mascarenhas Deane, filho de mãe portuguesa e pai inglês, nascera em Capetown, na África do Sul, onde vivera seis anos da minha infância. Depois, seguira-se Sydney, na Austrália, até aos 15. Novos projectos do meu pai e nova viagem, até Hong Kong, onde permaneci até aos 25, antes de vir para Portugal. Conhecera ao longo da vida muitas mulheres: criadas, secretárias e até amantes do meu pai. Mais tarde, vieram as prostitutas e as colegas da universidade. Tinha, pensava, um suficiente conhecimento dos temperamentos femininos. Mas estava errado. Em 1941, nunca conhecera uma mulher como Mary, nunca uma mulher me falara assim, em desafio, com hostilidade, pondo em causa a minha coragem, o meu orgulho patriótico, o meu carácter. Estava perfeitamente siderado, paralisado pela sua contundência verbal. Estás sem palavras, inglês?, insistiu ela. A tua diplomacia, a tua educação, não te dizem como responder? O que é preciso para te fazer estremecer? Meu Deus, pareces um figurante do teatro!
Mary estava, definitivamente, lançada. Não sabia o que despertara aquela explosão, e não sabia como contê-la. Fiquei ali, a olhar para ela, sem palavras. Seria aquilo um teste, a sua estratégia de recrutamento? Mary encolheu os ombros, decepcionada: só me saem destes... Achas que, se eu quisesse vir sozinha para casa, não tinha chamado um táxi? Meses mais tarde, estas estranhas mudanças de temperamento de Mary, os seus arranques como eu lhes chamava, tornaram-se compreensíveis para mim. Quanto mais a sua vida e a de James Bowles se iam tornando perigosas em Lisboa, mais instável ela ficava.
Mas, naquela primeira noite, a forma desabrida como me falou pareceu-me conversa de desmiolada e bêbada. Mary, perguntei, o que foi que eu disse que te incomodou tanto? Ela deu uma gargalhada histérica: oh!, sempre um cavalheiro, e imitou a minha voz. Mary, o que foi que eu disse que te incomodou tanto? Depois, regressou ao seu tom impulsivo, hostil, agressivo: acorda, Jack Gil! Estamos em guerra! Na guerra não há cavalheiros, só homens duros e maus. Homens que atiram bombas para cima de cidades! Homens que querem matar nazis!
Diz-me, cavalheiro Jack Gil, porque é que não foste à guerra? Debrucei-me para a frente no sofá e expliquei-lhe: já tenho 30 anos, não fui chamado. Além de que sou filho de mãe portuguesa. Ela fez um gesto de desprezo com a mão: logo vi. És um cobardolas, imitou-me de novo. Sou filho de mãe portuguesa. Os nossos rapazes a sangrarem nas areias dos desertos de África, os pilotos da RAF a caírem como patos mortalmente atingidos e tu, sou filho de mãe portuguesa, já tenho 30 anos. Piff, bem diz o James que a nossa fibra se está a perder. Os nazis não pensam assim, sabes? O Hitler diz-lhes para eles se atirarem a nós e eles fazem-no, pelo Terceiro Reich! E tu: tenho 30 anos, não fui chamado. Não tens vergonha?
Uns anos antes, o meu pai dissera-me o mesmo. Queria que eu fosse para Inglaterra alistar-me na Royal Navy. Recusei. Preferia os bordéis de Hong Kong e mais tarde o Casino do Estoril. Morrer não era ideia que me agradasse, mesmo que fosse pela pátria. Só que, agora que a guerra estava no auge, consumia-me um sentimento de culpa. Sentado atrás de uma mesa de mogno no escritório da companhia de navegação do meu pai, numa rua próxima do Cais do Sodré, não contribuía em nada para mudar o curso daquela guerra estúpida. Muitas vezes perguntara a mim próprio o que poderia fazer, mas nada me ocorria. Perante o desafio de Mary, sentira-me por momentos útil. Ouvir estas palavras, cruéis mas certeiras, irritava-me e explodi: Mary, disse há pouco que te ia ajudar, que ia falar com o Nubar! Porque me estás a humilhar? Sim, não me alistei! Sim, nunca fiz o que o meu pai me pediu, ir para Inglaterra lutar! Mas isso já é passado! Agora, aqui em Lisboa, estou pronto para ajudar a Inglaterra nesta guerra!
Ela escarneceu de mim: olha, de repente temos herói. Vai falar com uma pessoa num hotel chique de Lisboa e já diz que está pronto para ajudar a Inglaterra nesta guerra! Que nobre, que digno! Pobre Jack Gil. Bem vestido, anda de Citroen, noivo de uma portuguesinha de boa família, amiga de Salazar.
Ofendido, esbocei o gesto de me levantar do sofá. Mary murmurou, sibilina: ó pobrezinho, queres ver que o magoei? Falei na noivinha... Gritou, como uma mãe berra à criança que praticou um disparate: pára de te portares como um palerma, Jack Gil! Age como um homem, responde-me à letra, e não te ponhas para aí com delicadezas!
Talvez fosse isso que Mary quisesse, que eu entrasse num combate verbal com ela. E confesso que, embora à superfície aquela verborreia me estivesse a incomodar, aqueles termos provocavam em mim alvoroço. Era como se a trepidação que emanava dela me estivesse a acordar energias, como se um redemoinho me puxasse, e sentia vontade de lhe ripostar, de a agredir de volta. Foi o que fiz.
Mary, já me tinham dito que eras uma cabra.
Um insulto. Em 1941, as pessoas não usavam tanto os palavrões como usam hoje, quando já os banalizaram. Em 41, um insulto era uma coisa grave. Contudo, ao longo da vida fui compreendendo que a atracção sexual entre homens e mulheres é cheia de mistérios, e um deles é que os insultos entre seres que se desejam são por vezes naturais. Trata-se de actos drásticos, destinados a despertar o irracional das pessoas, o seu lado mais violento, apaixonado e animal.
Ah! Ah, Ah! Cabra? Chamaste-me cabra? Ora querem lá ver que afinal não és só salamaleques! Mary levantou o copo e disse: brindemos a isso! À cabra! Vá lá, inglês, filho de mãe portuguesa, bebe um copo à saúde desta cabra maluca! Depois, sorriu com malícia e perguntou: também dizes palavrões durante o sexo? Julgo que corei, pois ela apontou imediatamente o dedo para a minha cara e gritou: estás a corar! Jack Gil, tu dizes palavrões durante o sexo! Tu, o atencioso, o cavalheiro, o noivinho, dizes palavrões durante o sexo! Por instantes, o verniz da civilização era um porto seguro, aonde eu queria regressar desesperadamente. Estava enervado e inseguro. Mas, ao mesmo tempo, desejava possuí-la. O que é que tu lhes chamas, inglês filho de mãe portuguesa?, perguntou. O que é que dizes às mulheres quando lhes falas ao ouvido? Vá lá, Jack Gil! Se vamos trabalhar juntos temos de confiar um no outro. O que é que lhes dizes? Que obscenidades? Então, pela primeira vez na vida, contei a uma mulher o que dizia às outras mulheres quando as possuía». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Como é imprevisível, às vezes dá a outra metade, outras esquece-se, ou não dá a metade prometida. Então, nos dias seguintes, os criados de mesa dos hotéis telefonam uns para os outros…»


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Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «… às vezes dá a outra metade, prometida. Então, nos dias seguintes, os criados de mesa dos hotéis telefonam…»

 Mary

«(…) Vindo de Madrid, nos próximos dias chegaria a Lisboa um homem, de seu nome Nubar Gulbenkian, filho de um milionário arménio. Ficaria instalado no Aviz, o melhor hotel da cidade. O homem traria informações sobre dois pilotos ingleses da RAF, que estavam a atravessar clandestinamente a Espanha. Mary teria de os fazer entrar em Portugal, sem a PVDE notar, e de os fazer seguir para Londres. Não posso ser eu a falar com o Nubar, explicou Mary. Isso seria desmascará-lo. É um importante apoio nosso, mas tem de permanecer secreto. Se os nazis o descobrem é um desastre. Porquê? Mary olhou para mim, como se a calcular o quanto podia contar. O Nubar é um excêntrico. Passeia-se em Lisboa a pé, com uma bengala, seguido uns metros atrás pelo seu Rolls Royce, que guarda na garagem do Aviz. A sua excentricidade é um bom disfarce. Deu uma curta gargalhada, e acendeu outro cigarro: sabes o que contam dele? Sempre que se senta à mesa dos restaurantes dos hotéis, em Lisboa ou no Estoril, rasga uma nota ao meio e dá metade ao criado que o está a servir, prometendo-lhe a outra metade para o final da refeição, se considerar que foi bem servido.

Como é imprevisível, às vezes dá a outra metade, outras esquece-se, ou não dá a metade prometida. Então, nos dias seguintes, os criados de mesa dos hotéis telefonam uns para os outros, à procura da metade da nota que lhes falta, a ver se algum dos outros a tem! Rimo-nos. Naquela época, Lisboa era também um porto de abrigo de muitos milionários europeus, fugidos à guerra, e a cidade fascinava-se com as características de tão ilustres visitantes. Como é que ele sabe que pode confiar em mim?, perguntei. Mary enviaria a Nubar uma mensagem através de um criado do Hotel Aviz. Era outra característica de Lisboa: os criados dos hotéis eram verdadeiros pombos-correios, além de fontes preciosas de informação. O problema era que alguns também trabalhavam para os nazis.

É um dos nossos, murmurou. Uma certa excitação invadira-me. Sentia-me a ser posto à prova. Mary, contudo, tomou a emoção por receio. Não há perigo nenhum, Jack Gil. É só entrares no hotel, pedires para falar com o homem, e depois transmitires-me o que ele te disser. Não há pistolas fumegantes, nem nazis a espreitar nos corredores. Foi a minha vez de dar uma gargalhada: és muito persuasiva! Mirou-me através do seu copo de brandy, e a sua cara surgiu-me deformada pelo vidro e pelas pedras de gelo: confio em ti, Jack Gil. Não sei bem porquê. Ou talvez saiba... Talvez saibas? Desviou o copo, fazendo contacto visual comigo: sabes segurar muito bem nas saias de uma mulher. E isso é razão para confiares num homem? Mary levantou-se e caminhou pela sala na direcção da janela. Lá fora, o ciclone aumentara de intensidade. As portadas exteriores das janelas batiam com força contra a parede, produzindo um ruído desagradável.

Está feio, comentou Mary, observando a rua, e repetiu o que dissera horas antes no carro. Deve ser por isso que hoje não há ninguém a ver ninguém. Era como se o facto de não existir ninguém a observá-la a libertasse da opressão. Foi talvez nesse momento que percebi que era muito infeliz em Lisboa. A sua solidão comoveu-me. Com o passar dos meses viria a confirmar que, sem filhos e com um casamento moribundo, Mary estava à beira de um colapso. Achas que Salazar está a dormir?, perguntou ela, mudando de novo o rumo da conversa. Passava da meia-noite. Dizia-se que Salazar dormia pouco, mas era provável que àquela hora estivesse deitado. Acho que sim. Mary sorriu: um ditador nunca dorme. Pode ser neutral, mas não dorme»» In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Espionagem,

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Mary e os guardas da GNR descobriram dois aviões nazis despenhados, ambos carbonizados. No primeiro, contaram seis cadáveres; no segundo, apenas dois, não havendo sinais de sobreviventes»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995
Mary
«(…) Tinham ouvido barulho de motores de aviões e, ao saírem de casa, olharam para o céu e, espantados, assistiram ao combate. Rajadas de metralhadoras para um lado e para o outro, clarões no céu. Não conseguiam perceber quais eram os aviões ingleses e quais os alemães. Rajadas e mais rajadas, e até começaram a cair bombas. Algumas explodiram e mataram um rebanho de cabras. Viram os aviões a cair. Pelo menos três deles. Em chamas. Depois de se ver livre de um pedaço de cinza, que largou no cinzeiro, Mary deu mais uma passa no cigarro. Sabia contar uma história, fazer as pausas no momento certo, mantendo-me interessado, desejoso de conhecer o resto da narrativa. Os restantes aviões afastaram-se. Os nossos para sul e os alemães para nascente.
Mary e os guardas da GNR descobriram dois aviões nazis despenhados, ambos carbonizados. No primeiro, contaram seis cadáveres; no segundo, apenas dois, não havendo sinais de sobreviventes. Contudo, os guardas juravam que haviam visto um terceiro avião a cair, não sabendo se era inglês ou alemão. Podia ser um dos nossos, podiam existir feridos, disse ela. Um dos guardas acompanhou-me e batemos a região no dia seguinte. Só o encontrámos à tarde. Estava num barranco, partido em dois, com o focinho dentro de um riacho. Na parte da frente não havia ninguém e animei-me com a hipótese de os pilotos terem saltado de pára-quedas. Mas, quando vi a parte de trás, o meu coração ficou negro. Havia dois cadáveres no banco traseiro. Morreram carbonizados, abraçados um ao outro. Ficou em silêncio uns momentos. Depois disse: a última vez que fui ao Alentejo, disse ela, fui a Moura. Tinha havido uma batalha aérea na região. Os nossos aviões contra os dos boches. Os deles vieram do Sul de França, os nossos vinham de Gibraltar, a acompanhar um comboio de navios mercantes.
Deu mais um gole no seu brandy, e uma passa no cigarro.
Os U-Boats andam sempre a tentar torpedear os nossos navios. E os Condores atacam pelo ar, com bombas e metralha. Quando os nossos aviões se cruzam com eles, há chumbo grosso. As batalhas começam no mar, mas por vezes entram por Portugal. Como dessa vez... Fora três semanas antes, contou. Próximo de Moura, vários Condores Focker Wulf lutaram com aviões ingleses. Mary partira de Lisboa quando soubera da refrega, chegando lá um dia depois. Encontrei três guardas da GNR que haviam assistido. Estavam de serviço numa herdade ali perto. Às três da manhã. Jack Gil, deve ser horrível morrer duas vezes. Dois jovens, rapazes, que morreram duas vezes. Primeiro de medo, abraçados, enquanto o avião se despenhava. E depois carbonizados. Deu um novo gole no brandy e continuou: a cerca de 200 metros, pendurado num eucalipto, estava um dos pilotos, enforcado nas cordas do pára-quedas. Demorámos horas para o descer. Como a noite caiu, só no dia seguinte é que voltei ao local. Descobri, a cerca de 500 metros do barranco, um outro pára-quedas. Estava abandonado no chão, aberto, e voltei a animar-me. Havia uma possibilidade de o segundo piloto ter sobrevivido! Embora existisse sangue no chão, o homem tinha conseguido sair do local. Andámos às voltas, e só o encontrámos um quilómetro para leste, já bastante afastado do avião. Foi o azar dele. Mary levou a mão à testa, triste e abatida. Abanou a cabeça, e depois a sua mão penteou uma farripa de cabelo que lhe caía para a cara. Tinha os olhos molhados. Se o tivéssemos descoberto um dia antes, talvez o salvássemos. Assim, foi impossível. Devia ter morrido uma hora antes. No bolso do casaco, descobri um bilhete, onde ele escrevera: Digam à Clarissa que morri apaixonado por ela, e ao meu pai que morri a lutar o melhor que sabia.
Mary fechou os olhos, e assim se manteve mais de um minuto. Eu não disse nada: o silêncio era a minha forma de respeitar o que ela me descrevera. Quando voltou a falar, lamentou-se, olhando para o tecto, como se estivesse a falar com Deus: se eu tivesse chegado mais cedo... Bastava umas horas e chegaria a tempo. Depois, baixou os olhos e implorou: é por isso que preciso da tua ajuda, Jack Gil. Não consigo continuar sozinha. Se tivesse ido com outra pessoa, talvez encontrássemos o rapaz vivo! Tinha acabado de vir de Vila Real de Santo António, onde fora buscar um piloto. Cheguei e nem jantei, voltei a meter-me no carro a caminho de Moura. É impossível fazer isto tudo sozinha, percebes? Preciso da tua ajuda». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

segunda-feira, 23 de março de 2020

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Nada disto era inocente. A intenção era óbvia: afastar um potencial rival das belas secretárias da Embaixada, Rose, Analise e Linda. Como se isso me retirasse de circulação»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995
Mary
«(…) Era um dos boatos mais comuns da época, alimentado pelos ingleses para tentarem cair nas boas graças da população. Como todos os bons boatos, era credível, pois Hitler não controlava o Atlântico, e Portugal podia ser importante para ele vencer a Inglaterra. Mas, em Fevereiro de 41, já era evidente que os desejos de Hitler não incluíam a invasão da Península Ibérica. A célebre Operação Félix, preparada em 1940, e só mais tarde conhecida do público, tinha sido colocada de parte pelo estado-maior nazi. Hitler e Mussolini tinham, em Espanha como em Portugal, regimes amigos. Invadi-los seria pura perda de tempo e recursos. Alimentar o boato da invasão nazi era, pois, propaganda inglesa, e só o imprudente James Bowles continuava a sua preparação para uma operação que nunca aconteceria. Explosivos?, perguntei. Sabes, o James é um militar. Acha que só assim se defende um território.
Mary cerrou os olhos e mexeu-se subitamente na cadeira, como se quisesse livrar-se de um pensamento mau. Depois, o seu sorriso reapareceu e mudou de assunto: ouvi dizer que estás noivo... Confirmei com um aceno de cabeça, e esbocei um sorriso que não escondia o meu incómodo. Normalmente sentia-me embaraçado a discutir o tema com mulheres inglesas. No fundo, tentava separar os meus dois mundos, o português e o inglês, pois isso dava-me mais liberdade nas conquistas amorosas. Mas Mary não largou o isco: noivo de uma portuguesa, menina de boa família, muito importante no regime. Michael tinha sido o arauto do meu noivado. Acrescentava uma pitada de sal à história, notando que o Jack Gil se vai casar com uma portuguesa, cujo pai é amigo do Salazar e já foi ministro. Nada disto era inocente. A intenção era óbvia: afastar um potencial rival das belas secretárias da Embaixada, Rose, Analise e Linda. Como se isso me retirasse de circulação. Pelos vistos, o efeito era o oposto. O tom jocoso de Mary, que a princípio interpretei como crítica, era afinal a manifestação de um forte interesse feminino.
E já a conheces bem?, perguntou ela. Sim, temos conversado muito. Mary deu nova gargalhada: pobre Jack Gil, só tens conversado? Isto, vindo de uma mulher casada, àquela hora e em casa dela, não podia deixar de me perturbar. A Carminho e eu, cumprindo os costumes portugueses, apenas passeávamos de mãos dadas há quase um ano. E o casamento nem sequer estava marcado. O que achas que eu podia fazer com ela?, perguntei, sabendo que pisava terrenos escorregadios. Jogos, respondeu Mary. Jogos perigosos. O que teria acontecido se me tivesse ido embora? Deitado na cama do meu quarto no Hotel da Lapa pergunto-me porque não o fiz. Sei a resposta: aquilo estava-me a excitar, é óbvio. Nós, homens, somos animais sempre e, se sentimos a fêmea disponível, é preciso muito para recuar! Mesmo o receio de ser descoberto não me estava a conter. Afinal, Mary era uma mulher importante. E o coronel, bolas, o coronel Bowles era o chefe do SOE! Se eu me metesse com ela, o marido ia saber no dia seguinte! Jogos perigosos, é verdade. Não me apetecia nada ter o SOE à perna. Ainda por cima com comunistas e explosivos por perto. Mas não me fui embora. Não era da minha natureza. E além disso, momentos depois e saltando de assunto mais uma vez, coisa muito comum nela, Mary mudou a minha vida com uma frase.
Preciso da tua ajuda, Jack Gil. Se essa frase não tem sido proferida, talvez nunca tivesse existido o Jack Gil, espião inglês nos tempos de Salazar. Talvez eu tivesse ido para a América, ter com o meu pai. Talvez eu tivesse casado com a Carminho, tornando-me um bom português, pai de família e sócio do Benfica. Mas aquele preciso da tua ajuda foi determinante, para sempre um marco na minha existência. Até porque, para o justificar, Mary revelou a sua tremenda capacidade de contadora de histórias, daquelas que nos comovem e nos afastam da indiferença». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «A ler a propaganda inimiga, Mary? Folheei a revista. Na capa, uma imagem de Hitler e, na contracapa, outra de Salazar. Ambos os textos eram apologéticos»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995
Mary
«(…) Em casa do meu futuro sogro, onde era maioritário o sentimento pro-germânico, havia queixumes semelhantes de sentido oposto. Luís e António, irmãos de Carminho e ambos militares, costumavam demonstrar-me a sua irritação por Salazar oferecer tantas facilidades aos ingleses. Um inglês com compreensão pelos nazis, comentou cinicamente Mary. Se estivesses em Londres, eras preso por traição à pátria. Sorri.

A natureza transitória da casa de Mary era evidente. Não existiam quadros nas paredes, os móveis eram poucos e não estavam cobertos de bibelots. Era uma casa desocupada onde, por acaso, duas pessoas dormiam. Na sala, um sofá e duas solitárias cadeiras esperavam-nos. Mary dirigiu-se a um armário vazio, retirou uma garrafa de brandy e dois copos e perguntou: queres um charuto para acompanhar? Não recusei a oferta. O meu pai tinha estranhos rituais com os charutos, que sempre me haviam fascinado na infância, e no início da idade adulta ensinara-me, como se me estivesse a transmitir um ancestral segredo de família. Acho que aprendi muito com ele, e talvez tenha herdado uma costela de patife e outra de cavalheiro daquele velho pirata. E a expressão velho pirata aplica-se-lhe bem, a sua companhia de navegação praticava mais pirataria do que comércio... Acendi o charuto, enquanto reparava no exemplar da revista A Esfera, pousado no sofá. A ler a propaganda inimiga, Mary? Folheei a revista. Na capa, uma imagem de Hitler e, na contracapa, outra de Salazar. Ambos os textos eram apologéticos. Não se trata de defendê-los, mas sim de compreender que em Lisboa há muita gente que gosta dos alemães. Isso é porque esta gente não foi bombardeada.
Notei desprezo na sua voz. Acho que, pelo facto de ter sofrido os bombardeamentos, Mary se considerava superior aos portugueses. Como se isso lhe desse uma vantagem moral antropológica. A Salazar se deve, relembrei. Tem conseguido manter Portugal fora da guerra. Para isso, tem de se dar bem connosco, mas também com os nazis. Enquanto negoceia a sua posição o melhor que pode. No seu lugar, faria o mesmo. Aliás, os portugueses vendem-se a qualquer um, continuou Mary. Dos criados de hotel aos polícias. É só abanar com umas libras e fazem tudo o que lhes pedirmos. A sua mordacidade era compreensível. Na Lisboa de 1941, era difícil encontrar gente de confiança. Pobres, e ainda atarantados com a chegada de tantos refugiados de guerra, os portugueses viam nos ingleses e nos alemães uma forma rápida de ganharem uns tostões. O James também se está sempre a queixar, acrescentou ela. Diz que só os comunistas é que não são corruptos. Esses ajudam por convicção.
Portanto, o coronel Bowles andava mesmo a falar com os comunistas e, portanto, a PVDE devia tê-lo debaixo de olho. Os comunistas assustavam Salazar, e nem o facto de Estaline ter assinado um pacto de não-agressão com os nazis acalmava os receios. As pessoas haviam ficado confundidas quando, em 1939, o surpreendente pacto Ribbentrop-Molotov congelara os ódios antes tão declarados entre fascistas e comunistas. À superfície, mesmo nos jornais afectos ao regime de Salazar, não se liam tantas prosas dedicadas a diabolizar o perigo vermelho, os horríveis bolcheviques que perseguiam a Santa Madre Igreja. Mas as suspeitas continuavam bem vivas. Este período anormal de acalmia, que deixou os comunistas desmoralizados e até paralisados, iria acabar em Junho de 41, quando Hitler invadiu a União Soviética. Meses mais tarde, as ligações do coronel Bowles aos comunistas iriam provar-se extremamente perigosas. Mas, naquela noite do ciclone, só Mary vivia preocupada com o marido. Por estes dias, não há muitos comunistas convictos, relembrei. Mas continuam bem organizados. O James tem andado a falar com eles. Mary insistia no tema, por isso mostrei interesse: para quê? Ela deu mais um gole no brandy. Os seus olhos verdes brilhavam. Diz que anda a preparar o país para a invasão dos nazis! Deu uma gargalhada. Anda à procura de locais para esconder explosivos, rádios, sei lá que mais! Está mesmo convencido de que o Hitler vai invadir a Península». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Então, de repente, gritou-me: segura-me nas saias! Fiquei estático, surpreendido com o pedido, e ela abriu muito os olhos, como que a repetir a ordem»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995
Mary
«(…) Já tinha ouvido falar do coronel James Bowles. Em 1941, a desorganização dos serviços secretos ingleses em Lisboa era grande e o comando não estava centralizado. Era pois fácil saberem-se segredos sobre as pessoas. Bowles, o marido de Mary, era o chefe do SOE (Special Operations Executive) em Portugal. Uma espécie de serviço secreto paralelo, o SOE fora criado por Churchill, que motivara o seu primeiro comandante com a célebre frase: vá e incendeie a Europa. Coisa mais fácil de dizer do que de fazer. O SOE partiu à desfilada, com excesso de vontade e inteligência limitada. James Bowles, coronel do exército, fora enviado para Lisboa em finais de 1940 e conhecia mal o país. As suas acções, bem como os seus discursos em jantares ou cocktails, geraram-lhe em poucos meses uma fama de impetuoso e imprudente. Era óbvio que, se eu sabia que ele era o chefe do SOE, também os alemães do outro lado da rua o sabiam. Corria mesmo o rumor de que as indiscrições do coronel Bowles, os seus contactos com os comunistas e os republicanos que se oponham ao regime, haviam começado a incomodar Salazar.
O meu marido é um cabeça dura, declarou Mary. Nesse momento, o Citroen cruzava a Álvares Cabral e senti-me desleal por passar àquelas horas pela rua onde morava a minha noiva, a Carminho, com outra mulher no carro. Se não ganha juízo ainda é mandado de volta para Inglaterra, continuou Mary. E eu com ele. Pareceu-me uma punição demasiado severa e tentei desdramatizar: isso não vai acontecer. Eles respeitam-nos. Queria com isso dizer que a PVDE respeitava os ingleses. Mary talvez estivesse à espera de uma oportunidade daquelas, pois começou de imediato a provocar-me, dando uma pequena gargalhada: respeitam-nos? Nós? Desde quando é que o senhor Jack Gil faz parte desse grupo? Deu nova gargalhada. Não me digas que o embaixador Campbell já te caçou? Embaraçado, tentei explicar-me: o que eu queria dizer é que a PVDE respeita os ingleses, não vai expulsar o teu marido. Ela voltou a rir-se: e o que sabes tu sobre o James, Jack Gil? Naqueles tempos, e à excepção de Michael, todos os ingleses me tratavam por Jack Gil. Era uma subtil diferenciação que me imputavam, acrescentando o Gil, o meu nome português, ao Jack, o inglês. Como se me relembrassem, educadamente, que não era bem um deles.
Sei que trabalha para a Shell, respondi. Mary deu-me uma pequena sapatada na perna e fixou-me intensamente. De olhos na estrada, a passar pelo Rato, tentei não me desconcentrar. O que foi?, perguntei. Continuou a observar-me: já alguma vez ouviste uma bomba a cair? Confundido com a mudança de assunto, senti-me apanhado em contrafé. Mary estava bem informada: sabia que eu não tinha estado em Inglaterra. Tal como eu sabia que ela ficara em Londres até Dezembro, sob o inferno das bombas alemãs. Não quero voltar para lá. Por nada deste mundo declarou. O seu tom de voz era esclarecedor. Mary estava com medo. Percebi tempos depois que esse era um dos motivos para a perturbação da sua alma. Não voltou a falar até chegarmos a casa dela, na Rua do Salitre. Parei o carro, saí e corri para lhe abrir a porta, as abas do meu casaco levantadas pela força do vento. Ela teve dificuldade em sair: tentou segurar as saias, mas não o conseguia fazer ao mesmo tempo que procurava as chaves de casa dentro da sua bolsa. Então, de repente, gritou-me: segura-me nas saias!
Fiquei estático, surpreendido com o pedido, e ela abriu muito os olhos, como que a repetir a ordem. Então baixei-me, apoiei um joelho no chão e envolvi com os meus braços as suas pernas, para parar o movimento esvoaçante das saias. Ao fazê-lo, é evidente que lhe toquei nas pernas, mesmo que apenas levemente, e invadiu-me um princípio de desejo. Entretanto, ela conseguiu finalmente tirar as chaves da carteira, e tentou andar no sentido da porta, o que produziu o óbvio efeito de eu ainda a apertar mais, sentindo as suas pernas tensas contra os meus braços. Embaraçado, levantei-me e dei um passo atrás, enquanto ela entrava depressa em casa. Convidou-me a entrar. No hall, Mary tirou o casaco e pendurou-o, assim como ao chapéu, no bengaleiro. Depois propôs: e se bebêssemos um brandy?
Servindo o brandy, num tom de voz desiludido, Mary comentou: estão muito à nossa frente, os alemães. Nós pomos cegos a cantar versos, enquanto eles pagam aos intelectuais e ganham as mentes dos portugueses. Não era má a ideia de pagar aos cegos no Rossio para cantarem versos a favor dos ingleses. Mas até um tipo como eu, que não era um especialista em propaganda, percebia que, em 1941, os alemães nos levavam vantagem. A Esfera era uma revista pro-germânica, financiada pela Embaixada alemã. Mantinha uma fiel linha pro-Salazar, elogiava a Legião Portuguesa e relembrava, com cadência certa, as grandes façanhas de Mussolini, Franco e Hitler. É por essas e por outras que eles nos estão a ganhar a guerra. Até aqui, em Portugal. E Salazar faz o jogo deles, acusou Mary. As pessoas iam sempre ter a Salazar nas conversas. Era como se as palavras se sentissem atraídas por uma força invisível, como um íman. Os amigos dos alemães queixam-se do mesmo, retorqui». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

sábado, 25 de janeiro de 2020

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Sim, lembro-me do ciclone que fustigou Lisboa naquela noite de 15 de Fevereiro de 1941. As rajadas ultrapassaram os 120 quilómetros por hora! Os barómetros caíram na vertical, e em pouco tempo, até aos 718 milímetros…»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995
Mary
«(…) Sim, lembro-me do ciclone que fustigou Lisboa naquela noite de 15 de Fevereiro de 1941. As rajadas ultrapassaram os 120 quilómetros por hora! Os barómetros caíram na vertical, e em pouco tempo, até aos 718 milímetros, coisa nunca vista em Portugal, e subiram depois, com idêntica rapidez, a 750. Em menos de 24 horas, desceram 40 milímetros e subiram mais de 30! O Tejo revoltou-se em tremendas vagas. Em terra, árvores foram derrubadas, voaram telhados e coberturas de zinco, e nos subúrbios chegaram a morrer pessoas, sugadas pela força dos ventos, que deixavam no chão enormes crateras. Dizem que certas almas reflectem o estado do tempo, alegrando-se quando está sol ou entristecendo-se quando chove. Terá sido esse o caso de Mary, cujo turbilhão sentimental parecia espelhar o ciclone? Já a tinha visto umas vezes, por ocasião dos cocktails que o embaixador Campbell oferecia, mas apenas trocara com ela palavras breves de cortesia. Naquela noite, fiquei sentado a seu lado à mesa do jantar. Certamente falámos de Hitler, Tobruk, dos japoneses a avançarem no Pacífico, e claro que falámos de Salazar. Falava-se sempre de Salazar nos jantares ingleses, e normalmente em tom crítico. Mas o que verdadeiramente recordo é o seu pedido surpreendente, à saída da Embaixada, quando o jantar acabou. Podias dar-me uma boleia... Estávamos à porta do edifício, e o vento zumbia com fúria. Devo ter feito uma cara ligeiramente contrariada, por causa do vento, mas Mary deve ter pensado que fora o seu pedido que me incomodara, pois exclamou: não faças essa cara, eu chamo um táxi! Desfiz-me em desculpas. Entre as inglesas tinha reputação de cavalheiro, e aquele mal-entendido obrigava-me a desfazer o equívoco, para evitar um possível dano à minha fama. Eu levo-te. Vamos, disse eu. Ela fechou o casaco e enfiou um chapéu. Saímos pelo portão da Embaixada, sem falar, de braço dado e encostados um ao outro, numa intimidade forçada pela tempestade. Subimos a rua, e virámos para a Rua do Sacramento, onde deixara o carro.
Quando me sentei ao volante do meu Citroen azul, perguntei: o coronel Bowles não está cá? Mary sorriu e observou o cruzamento com a Rua do Pau da Bandeira. Depois suspirou: hoje, não há ninguém a ver ninguém, Jack Gil. Agora que estou aqui, a passear numa noite quente da Lisboa de fim de século, não posso deixar de estranhar esta calma da Lapa, só quebrada pela passagem de um ocasional carro. Há 50 e tal anos, este era um dos cruzamentos mais animados de Lisboa. Viam-se homens encostados aos carros, às soleiras das portas; táxis parados, com os condutores lá dentro a fumarem; e até vendedores ambulantes a apregoarem os seus produtos. Vigilantes. Controladores. Portugueses a soldo de terceiros, a fingirem que eram portugueses que estavam ali por acaso, mas sem enganarem ninguém. Uns pagos pelos alemães, outros pagos pelos ingleses, para espiarem as entradas e as saídas das embaixadas. Era uma ironia do destino que as duas principais embaixadas beligerantes daquela guerra, a alemã e a inglesa, ficassem praticamente a lado, separadas por menos de 500 metros. Um mundo de distâncias e apenas umas calçadas portuguesas de permeio! Era quase cómico. Mas também o ambiente de Lisboa, em 1941, era quase cómico. Por momentos, pensei em dizer tragicómico, mas o trágico seria exagero. Trágico era o que se passava em Inglaterra, com os bombardeamentos das cidades. Trágico era o que se passava no Norte de África, com a guerra no deserto. Ali, nas ruas de Lisboa, a guerra não era A GUERRA, com mortos e feridos. Era uma guerra diferente: era o eco de uma guerra, eram os despojos de uma guerra, eram os absurdos políticos e económicos de uma guerra, era a psicologia negra de uma guerra, mas não era A GUERRA.
Sim, confirmei, olhando para o cruzamento, hoje não há ninguém. O vento era tão forte que afastara a resolução dos homens portugueses em espiarem os estrangeiros. Não lhes pagam o suficiente para andarem na rua com este tempo, comentou Mary. Desci a Rua do Pau da Bandeira, e depois subi a de São Caetano. Mary, nervosa, acendera um cigarro mal entrara no carro. O que sabia eu sobre ela? Pouco. Sabia que trabalhava na Embaixada, provavelmente para o MI9. O meu amigo Michael contara-me que ela ia muitas vezes ao Alentejo ou ao Algarve recolher pilotos ingleses que passavam a fronteira de Espanha, ou que vinham de barco de Marrocos, e que depois organizava os regressos deles a Inglaterra.
E sabia que Mary era a mulher do coronel James Bowles. Se eu tivesse sabido antes da sua infelicidade, teria podido explicar a razão de a sua alma me parecer afectada pelo ciclone. Mas, naquela noite, ali dentro do Citroen, na Rua de Buenos Aires, não sabia que ela era infeliz. O James nunca cá está, afirmou Mary. Soltou a frase não como um lamento, apenas como a notícia tranquila de um facto. Mais tarde, vim a perceber que esta indiferença de Mary era uma mistificação. Ela forçava-se a declarações frias, isentas de sentimentos, para esconder o que lhe ia no coração. Típico de inglesa. Anda pelo Alentejo, acrescentou». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «São oito da noite e estou lúcido como há muito não me sentia. Um homem, quando chega a esta idade, 85 anos bem vividos, quase só sente agitação na memória»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995
«Nunca esperei regressar a esta rua, e nunca esperei que o meu velho coração sentisse tanta emoção ao pisar os passeios da Lapa. Quando saí do táxi em frente ao hotel foi como se uma bola de demolição tivesse chocado comigo. Fiquei sem respiração por momentos, invadido por sentimentos, memórias de cheiros, imagens e vozes. Não me lembro sequer de ter pago o táxi, nem me recordo das palavras do porteiro, a dirigir-me com cortesia para a recepção. Nada, de repente, existia. A não ser Lisboa, 50 anos atrás. A minha Lisboa, onde amei tanto e tantas vezes. A minha Lisboa, das pensões e dos espiões, dos barcos ingleses e dos submarinos alemães; a Lisboa das ligas da Mary em cima de um lençol branco; a Lisboa dos cocktails no Aviz enquanto eu perseguia Alice; a Lisboa do penteado à refugiada da minha noiva, a Carminho; a Lisboa dessa menina linda, frágil e alemã, Anika, por quem eu arrisquei o pescoço; a Lisboa de Michael... Ó amigo, ó grande amigo de tão épicas horas, de tão tremendas lealdades e silêncios! Tinha tanta vontade de partilhar contigo um brandy, de te ver a descascar uma maçã com a tua fantástica faca Randall, americana (eu sei, meu malandro, não me esqueço, tu sempre gostaste delas americanas), às seis da manhã, na Rocha do Conde de Óbidos, dentro do meu Citroen azul-escuro. Os dois a ver partir um navio, a rirmos como os patifes que éramos, e tu a proferires a nossa senha de felicidade: e nós aqui enquanto Salazar dorme! Sim, e nós ali, a viver, a contar façanhas, a exibir troféus, ou a resmungar sobre a guerra, as manias do embaixador Campbell, os truques dos alemães, os subornos aos portugueses, as belas pernas das refugiadas que invadiam Lisboa. Uma guerra que, na capital, se tentava vencer com planos mirabolantes, espiões inventados e ideias loucas, como aquela de convencer os miúdos a escrever nas paredes, a giz, os VV da vitória dos Aliados, ou a baterem palmas no cinema sempre que apareciam as tropas inglesas. Truques e mais truques de propaganda, e denúncias, muitas denúncias, boatos que se punham a correr, puro terrorismo psicológico de guerra, muito eficaz nessa Lisboa que estava fora e dentro dela ao mesmo tempo. Local único da Europa, linda e cheia de luz, mas também de medo, a Lisboa onde vivi tanto que por mais que viva, e muito foi depois, nunca mais vivi como ali, aqui, nesta Lisboa.
E nós aqui, enquanto Salazar dorme..., dizia o meu amigo Michael. E era mentira e era verdade, porque ele não dormia, ele controlava o país, dizia-se que sabia tudo; controlava as pastas das Finanças, da Guerra, dos Negócios Estrangeiros; falava todos os dias com o capitão Agostinho Lourenço, o chefe da PVDE (chamava-se assim, Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), e ele queria saber tudo e muitas vezes soube também de nós. Nós, os que vivíamos mais à noite, por vezes furtivos, por vezes só na boa vida dessa Lisboa onde o turbilhão de emoções da época fazia subir as saias das mulheres mais depressa. Não fosse o mundo acabar amanhã, o Hitler invadir a Península Ibérica, os americanos invadirem os Açores, os comunistas de Estaline darem cabo do Ocidente, tudo era possível! Estávamos em guerra, e ela era mundial, e mexia com os corações e com os desejos, e tu, Michael, cortavas a casca das maçãs muito fina, com a tua faca Randall sempre afiada, e a Carminho ia ao cabeleireiro para me entusiasmar, e a Alice ia conhecendo as suítes do Aviz, mulher dos diabos, imparável, e a Mary sofria, e bebia brandy, muito brandy, porque o marido nunca chegava, o coronel Bowles nunca chegava, e as coisas ainda iam correr mal, e ela agarrava-se a mim desesperada, e eu tirava-lhe as ligas, atirava-as para cima do lençol e amava-a o melhor que sabia. Era melhor que tu, Michael, desculpa lá mas tens de reconhecer que podias ser admirado como um actor de cinema, mas era eu quem tinha mais jeito com elas, era por mim que elas chamavam, mesmo as alemãs, essa é que te foi difícil de engolir, mas até uma alemã eu seduzi, enquanto Salazar dormia... Agora, sentado na cama deste quarto do Hotel da Lapa, 50 anos depois, dou por mim a pensar que Lisboa sempre esteve comigo, e que nunca parti completamente. Quando saí de cá, em finais de 45, pensava que nada me prendia a esta cidade. Nunca planeei voltar. Corri o mundo e trabalhei em mais de dez cidades, cortesia da minha companhia de navegação. Singapura, Montevideu, Cairo, Los Angeles, Tóquio, Rio de Janeiro, Hamburgo, Atenas, e até, horror dos horrores, Nairobi. Mas nunca vivi como aqui. E nunca quis voltar. Quando o Paul, meu neto, me disse que ia casar com uma portuguesa, sorri. E vou casar em Portugal, avô. Em Portugal... Não soube o que lhe dizer. E quero que tu vás, exigiu o meu neto. Resmunguei e protestei: 85 anos, dores nas costas, aviões, aeroportos, malas. Desculpas.
Na verdade, o meu coração sabia que, um dia, eu ia ter de voltar. Voltar à minha Lisboa, entre a Embaixada inglesa, aqui ao lado, na Rua de São Domingos à Lapa, e a Embaixada alemã, aqui ao lado também, na Rua do Pau da Bandeira. Voltar ao homem que fui, bom e mau, culpado e inocente, cavalheiro e bandido, amante e traidor, amigo e inimigo. Voltar àquela luz de Lisboa. Foram as histórias do avô que me fizeram apaixonar por uma portuguesa. Gosto deste meu neto, o Paul. Bom rapaz, trabalhador, MBA na London School of Economics, apaixonado por uma portuguesa. Mas não sabe quase nada. Contei-lhe muitas histórias da minha vida em Lisboa, mas só as que podia contar. As outras não podia. É difícil explicar o que eu fazia a um rapaz dos anos 90. Eles compreendem o heroísmo dos pilotos da RAF, a abnegação das enfermeiras, a coragem da Resistência francesa, até o espírito dos discursos de Churchill. Compreendem o horror de Auschwitz ou Dachau, a Cortina de Ferro, as bombas atómicas. Mas dificilmente compreendem a mistificação, o suborno, a guerra psicológica, a arte de enganar, as guerras surdas que se passavam em Lisboa. Não sabem o que são espiões. Por outro lado, julgam que o sexo começou agora. Falam dele com autoridade e consideram-se especialistas técnicos. Acham que têm muito prazer, e que antes ninguém o tinha. Não podem compreender um dos segredos da humanidade, um segredo estranho e perturbador: em tempo de guerra, o desespero toma conta das almas e as pessoas amam como loucas. Em Lisboa, amei como um doido. Conheci e dormi com mulheres que amavam como possessas e nunca mais amei assim porque nunca mais ninguém me amou assim. E isso o meu neto não pode compreender, pois a sociedade e a época marcam os homens, e a boa vida e a abundância dos anos 90, no mundo ocidental, não produzem esse tipo de desespero.
São oito da noite e estou lúcido como há muito não me sentia. Um homem, quando chega a esta idade, 85 anos bem vividos, quase só sente agitação na memória. Estou-me a apagar aos poucos, numa lenta mas imparável degradação. Às vezes desato a gritar com a criada, lá em casa, em Inglaterra. Têm de me aturar, mas sei de casos bem piores. Um tipo que conheço já não consegue fazer as necessidades sozinho. É uma humilhação. Eu ainda consigo vir a Lisboa sozinho num avião, meter-me num táxi, e fazer o check-in no Hotel da Lapa. Apesar de continuar a ter pensamentos de homem, a maior parte das minhas memórias não são sujas. Enquanto Salazar dormia, não havia só regabofe com as mulheres. Havia muito mais. Guerras, espionagem, diplomacia. Lembro-me de todos. Dos embaixadores e das secretárias. Dos polícias e das criadas de quarto. Dos milionários e dos judeus refugiados. Dos jornalistas e dos militares. Dos faroleiros e dos taxistas. E lembro-me do ciclone...» In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT