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domingo, 10 de maio de 2020

A Maldição de Afonso II. Maria Antonieta Costa. «Ficará bem entregue, acabou por concordar o chanceler. E ficaria igualmente bem se o baptizassem Jorge. Pois sim, mas esse, se bem que é nome de santo, não é nome de rei. Será Afonso…»

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«(…) Não me parece… Já receberam muitas benesses, depreciou o monarca. Esses que referistes têm sido bastante premiados e estou seguro da sua fidelidade. Além disso, como teriam tempo de se ocupar da educação do infante se me acompanham em todas as guerras? Meu pai desbravou bastante, mas eu ainda tenho outro tanto para conquistar. Penso em alguém que esteja completamente disponível para acompanhar o meu filho todos os dias e que, ao mesmo tempo, tenha dado provas de ser competente. Desse modo..., será difícil. Não me ocorre quem... Mas ocorre-me a mim. Irá para os de Riba de Vizela. Ficará bem entregue a dom Mendo Pais, o meu fiel aio, aquele que melhor me preparou para o meu ofício. Senhor, sem desmerecer a vossa escolha, permito-me lembrar duas coisas: que dom Mendo está velho e cansado e até que ponto terá interesse político manter ligação com a linhagem do vosso antigo protector...
Caro dom Julião, não procuro essa contrapartida, mas sim outra, muito mais eficaz: que o próximo monarca deste reino seja, senão melhor, pelo menos tão excelente guerreiro como os dois antecessores. Quanto ao resto, a velhice traz a sabedoria e a experiência que os novos não possuem. Na verdade, senhor, sois exímio no manejo das armas e arguto na escolha das táticas! Pois foi ele quem me ensinou. Portanto, o meu primogénito será criado em casa de Mendo Pais. Seguirá. para lá logo que dê os primeiros passos. Esperemos que cresça bravo o suficiente para completar a reconquista e acrescentar melhores terras.
Ficará bem entregue, acabou por concordar o chanceler. E ficaria igualmente bem se o baptizassem Jorge. Pois sim, mas esse, se bem que é nome de santo, não é nome de rei. Será Afonso, como o avô, o senhor que unificou este pequeno canto repleto de serranias e penedos. Será ele que, depois de mim, conquistará as terras baixas do Sul. Vereis como dom Mendo o treinará de feição para expulsar esses mouros que tanto nos afligem.

O pequeno príncipe foi levado para longe do Paço Real da Alcáçova no final do segundo ano de vida. Dom Mendo recebera a ordem para educar o herdeiro do trono como a sua última tarefa política, acolhendo-o no seio familiar ainda mal articulava as primeiras falas. As linhas mestras que o vassalo seguia eram as mesmas com que formara o seu pai: fortalecer o ânimo, desenvolver o exercício bélico, ensinar o valor da palavra jurada e da obediência religiosa, porque ninguém quereria obedecer a um rei excomungado. Como conteúdo das lições, o nobre utilizava as armas, os jogos militares, a diplomacia, o gosto pelo risco, o sentimento de honra e o culto da lealdade, em detrimento das disciplinas intelectuais do Trivium e do Quadrivium. Um príncipe tinha de ser treinado, sobretudo, nas artes da guerra e nas maquinações políticas.
Dos cinco aos sete anos, o infante aprendera a montar e recebera alguns rudimentos de leitura do capelão do domínio senhorial. Pelos doze, iniciara-se no manejo da espada e da lança, na caça de montaria e falcoaria e na poesia trovadoresca para melhor satisfazer o progenitor, que se aventurava pela escrita de cantigas de amigo. Entrara ao serviço, de dona Onega, esposa dedicada de dom Mendo, como pajem, a fim de adquirir a polidez necessária ao trato com as mulheres. Praticar a arte de donear era o requisito essencial para exaltar o prez (mérito) e a bondade. Assim, passara a conviver com as damas que a rodeavam, as mais novas já com a idade de sua mãe.
Vivendo em terras longínquas, pelos domínios de Urgezes e de Vizela, de vez em quando deslocava-se ao Paço de Coimbra, a fim de visitar a progenitora e os irmãos entretanto nascidos. Até que dona Dulce falecera, algum tempo após o nascimento das suas irmãs gémeas, esgotada por tantos partos consecutivos. Com o pai, tinha poucas oportunidades de encontro, já que andava em campanha. Entretanto, iniciara a aprendizagem de escudeiro. Passara a cingir a espada, a participar em justas e torneios, a acompanhar os cavaleiros em algumas surtidas leves e nas caçadas, enquanto na copa aprendia a trinchar e, na estrebaria, a tratar do seu cavalo. Numa sociedade dominada pelos valores da guerra e da religião cristã, dom Afonso estava a ser convertido pela educação num monarca à imagem de seu pai, num homem de armas cuja espada estaria ao serviço do reino e da fé». In Maria Antonieta Costa, A Maldição de Afonso II, 2019, Clube do Autor, 2019, ISBN 978-989-724-483-4.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

domingo, 16 de fevereiro de 2020

A Maldição de Afonso II. Maria Antonieta Costa. «A um sinal, uma serviçal meteu sob o banco outra caldeira. A parteira comprimiu o ventre de dona Dulce de modo a retirar a bolsa»

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«(…) A parteira havia mergulhado o futuro rei de Portugal na água tépida de uma caldeira de cobre temperada com vinho, sal e mel, esfregando-o e purgando-lhe o estômago, as orelhas e as narinas. Depois de o enxugar no colo, foi depositá-lo no tampo plano de uma mesa. Primeiro, envolveu-lhe as partes genitais com um cueiro. Em seguida, colocou-o sobre um quadrado de linho posto na diagonal e dobrou os cantos sobre o frágil corpinho, comprimindo-lhe a tripa e metendo nas dobras um amuleto de jade. Coberto dos ombros aos pés, foi cingido com as ataduras do pano, enroladas num aperto consistente à sua volta. Bem enfaixado, depositou-o no berço. A criança ainda não parara de chorar, o que era um bom presságio. A parteira voltou-se então para a rainha: agora vós, senhora.
A um sinal, uma serviçal meteu sob o banco outra caldeira. A parteira comprimiu o ventre de dona Dulce de modo a retirar a bolsa. Dirigiu-se à lareira, onde ardia um fogo que, naquele cinzento 23 de Abril, aquecia a alcova, atirando para lá, miudezas, enquanto proferia palavras mágicas. O cheiro de carne assada inundou a atmosfera. Não se podia correr o risco de aquelas partes internas serem comidas por algum animal faminto ou irem parar às mãos de um qualquer ministro do Mal. Condessa, podeis mostrar o infante ao pai, condescendeu a parteira. Dona Toda curvou-se sobre o berço e retirou o recém-nascido. Depois, rodeada de outras damas presentes no acto, assomou à entrada da câmara com o novo príncipe nos braços. Quando a porta se abriu, Sancho I, conselheiros e demais cortesãos acercaram-se dela, curiosos, emitindo exclamações de alegria. Havia olhares satisfeitos e outros circunspectos, de quem temia um varão ou de quem temia outra filha. O do rei estava entre estes últimos. Mas logo a expressão da sua face resplandeceu de felicidade quando ouviu da boca da condessa: Senhor! Eis o vosso primeiro filho homem!
Godinho, o arcebispo bracarense, que a braços com o interminável conflito sobre a legitimidade de poderes eclesiásticos entre Braga e Compostela, procurava apoio régio e viera à corte para relembrar ao monarca que o seu pai, o fundador Afonso Henriques, se tornara independente com o inestimável beneplácito do poder da sua diocese, levantou-se, preparando-se para benzer o novo infante. Por entre vivas e cumprimentos, o soberano pegou na criança, elevou-a um pouco e proferiu, à laia de apresentação: sou um bem-aventurado! Finalmente, um herdeiro para o reino. E será um digno sucessor de seu pai e de seu avô, já que veio ao mundo no dia de São Jorge, o heróico vencedor do dragão, o protector dos cavaleiros no campo de batalha. Nasceu no dia do padroeiro da guerra. Melhor augúrio não poderia haver, exaltou o prelado de Braga. O rei era, verdadeiramente, o espelho da felicidade. A sua união com Dulce, princesa de Aragão, que já durava há cerca de uma dúzia de anos, frutificara em três infantas, levando as bocas da maledicência a conspirar contra a capacidade reprodutora da rainha, tanto mais que a última filha, nascida cerca de quatro anos atrás, não fora suficientemente robusta para superar uma infecção que a matara. Agora, poderia respirar de alívio, pois o nascimento de uma criança saudável do sexo masculino era o garante da continuidade do poder dinástico.
Enquanto a real esposa, enfraquecida, descansava, o rei afastou-se para os seus aposentos levando o fiel chanceler da Cúria Régia. Preocupava-se já com a educação do herdeiro. A tradição aconselhava que os varões nascidos no seio da alta nobreza e da família real fossem criados e nutridos na casa de um vassalo capaz de o formar para a guerra e para a liderança. Esse era também um processo que permitia estabelecer alianças fiéis e duradouras entre as famílias mais poderosas, fortalecendo a sua influência ao disponibilizarem esse apoio à monarquia, que assim as recompensava e as tornava leais. Dizei-me, Julião Pais..., qual dos meus vassalos vos parece ter qualidades para criar o meu sucessor? Um esgar de reflexão surgiu no rosto de Julião Pais. Se me permitis, senhor, creio que talvez não se trate de aptidão, mas de estratégia. Em que pensais? Penso que não se oferece a criação do herdeiro do trono sem contrapartidas. Há que escolher de entre as principais casas senhoriais aquela que vos pode vir a ser mais útil, a que fortalecerá o vosso poder. Poderíamos pensar em Soeiro Viegas, dos de Riba Douro, que descendem de Egas Moniz, aio que foi de vosso pai. Aquele Soeiro que na luta contra os mouros minou por baixo do chão como um coelho?, zombou Sancho, como se o atributo de abrir passagens subterrâneas não fosse suficiente para o recomendar. Olhai que não há animal que tão bem se esconda como o coelho!, ripostou o nobre. Mas se não vos agrada..., podeis pensar nos de Soverosa». In Maria Antonieta Costa, A Maldição de Afonso II, 2019, Clube do Autor, 2019, ISBN 978-989-724-483-4.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

A Maldição de Afonso II. Maria Antonieta Costa. «Em seguida, Petronila pegou no cinto que a condessa Toda lhe estendia, colocou a pedra num encaixe próprio e cingiu-o à volta da dilatada barriga da parturiente. Uma serviçal fez a rainha beber vinagre com açúcar»

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«(…) Dom Paio acenou, compreensivo, e iniciou a Sacram Unctionem Infirmorum (Sacra Unção dos Enfermos). O latim entaramelava-se-lhe enquanto recitava o ritual, ungindo-a sobre os olhos: per istam sanctam unctionem et suam piissimam misericordiam indulgeat tibi Dominus quidquid per auditum deliquisti. Amen. (Por esta santa unção e pela sua piíssima misericórdia, o senhor vos perdoe todos os pecados cometidos pelo que vistes. Amém)
Dona Dulce retorcia-se, evidenciando que as contracções eram agora quase consecutivas. Não obstante, o clérigo repetiu a fórmula por mais cinco vezes ungindo os ouvidos, o nariz, a boca, as mãos e os pés, partes do corpo através das quais se poderia tomar contacto com o pecado. Deixai-a, por favor, pediu dona Toda. Está na hora! O monge benzeu a rainha mais uma vez e apressou-se a sair. De imediato, Petronila descobriu-a, levantou-lhe a camisa e começou a esfregar-lhe as virilhas com uma pedra de ónix vermelha, enquanto sabiamente proferia: tal como esta pedra, por ordem de Deus, brilhou no primeiro anjo, também esta criança se tornará num rei resplandecente. Depois, abriu-lhe mais as pernas, retirou o cataplasma herbáceo de sobre a vulva e, segurando a pedra frente à vagina real, continuou: abram-se as estradas e as portas naquela epifania em que Cristo se tornou humano e Deus. Que se abram todas as portas do Bem e se fechem as do inferno! E assim esta criança saia para o mundo viva e sem morte para a sua mãe. Em seguida, Petronila pegou no cinto que a condessa Toda lhe estendia, colocou a pedra num encaixe próprio e cingiu-o à volta da dilatada barriga da parturiente. Uma serviçal fez a rainha beber vinagre com açúcar. É agora! Ajudem-me, ordenou a parteira. Enquanto duas mulheres traziam o banquinho de parto para os pés da cama, a condessa e a parteira arrastavam dona Dulce para se sentar nele. Valha-me Nossa Senhora do Ó!, exclamou a soberana, quase num grito.
Com a mão pequena, humedecida numa decocção de linhaça e grão-de-bico, Petronila ajudava a dilatação uterina por entre os rangidos dolorosos da parturiente. Amiga, coragem! Muita força!, incitava dona Toda. A parteira continuava o exercício manual emitindo sons estranhos, como se simulasse um animal a parir. A rainha fixava o olhar no dela, numa aflição cada vez maior, acompanhando com os gemidos os grunhidos da parteira, qual rito de sortilégio. De súbito, a mulher exclamou: vem aí! Vem aí!
Ouviu-se um som abafado, algo como uma pedra que cai sobre uma almofada. E Petronila retirou as mãos de sob a abertura do banco, mostrando a cabeça do recém-nascido. Um silêncio profundo reinou na alcova, como se estivessem num túmulo. É homem?, esganiçou-se a rainha, numa precipitação que ultrapassava a vontade de saber se estava vivo. Petronila estendeu o cordão umbilical, calculou que ficasse com uns bons quatro dedos para assegurar uma virilidade robusta, cortou-o e deu-lhe um nó. Levantou a criança de cabeça virada para baixo, presa pelas canelas, e bateu-lhe nas nádegas. Ouviram-se os primeiros vagidos. Depois, rodou-a de frente para a mãe e proferiu, radiante: sim. É homem e está vivo!
Desamparada, Dulce caiu para trás, batendo com as costas na trave da cama. O alívio e a felicidade suplantavam qualquer dor. A aia segurou-a, abraçando-a, esfuziante. Ambas choravam de júbilo. Avisem dom Sancho, recompôs-se a soberana. Por favor, vão avisar o rei.
Afortunadamente, o monarca encontrava-se no Paço Real de Coimbra para gozar aquela bênção. Regressara de uma incursão pelas terras do Sul, onde Abu Yusuf Ya'Qub Al-Mansur ameaçava apoderar-se dos importantes castelos de Almada, Alcácer e Palmela. Esperando assegurar uma defesa mais eficaz daquelas possessões, o soberano decidira atribuir essas fortificações e os seus domínios à Ordem Militar de Santiago, pelo que se reunira com os seus juristas, preparando a redacção dos documentos de doação.
Calma! O rei não foge!, disse a condessa. Esperai pelo que Petronila tem a dizer». In Maria Antonieta Costa, A Maldição de Afonso II, 2019, Clube do Autor, 2019, ISBN 978-989-724-483-4.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

terça-feira, 12 de novembro de 2019

A Maldição de Afonso II. Maria Antonieta Costa. «Fiz tudo..., tudo..., a soberana pareceu animar-se. E terá uma boca perfeita, porque não comi uma só cabeça de peixe, que tanto aprecio»

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«(…) A face sempre rosada de Dulce perdera a cor e a pele o brilho. Olheiras profundas rodeavam os olhos normalmente vivaços. A condessa apiedou-se da amiga de toda a vida. Nunca se haviam separado desde a infância, forte era a teia de solidariedade linhagística que as unia. Auxiliara-a no vestir, fizera-lhe companhia nos passeios, nas distrações e dormira na sua alcova até que se convertera em mulher do infante Sancho, agora sucessor de Afonso Henriques, fundador do reino de Portugal. Acompanhara-a, por isso, desde Saragoça, integrada no seu séquito para a servir, garantindo o seu bem-estar, a sua integridade física e moral. Tantos anos de convivência haviam-nas transformado em confidentes: era a mais íntima das aias da rainha. Descansai a vossa mente. Desta vez nada vos falhou, acrescentou a condessa. A vossa boca não saboreou nem ácido, nem amargo, apenas comida quente e seca para alimentar um feto macho, sorriu, enquanto compunha a dobra do lençol de linho. Fiz tudo..., tudo..., a soberana pareceu animar-se. E terá uma boca perfeita, porque não comi uma só cabeça de peixe, que tanto aprecio.
No final da frase, uma crispação dolorosa obrigou-a a contorcer-se de novo. Petronila aproximou-se e aconselhou: senhora, deveis chamar agora o vosso confessor. Daqui a pouco não haverá tempo. A rainha condescendeu. A parteira real sabia o que fazia. A sua maior habilidade consistia em virar uma criança dentro do útero materno, caso não estivesse na posição correcta para nascer. E estava acima de qualquer suspeita, pois jurara sobre a Bíblia nunca se apoderar do cordão umbilical ou da placenta, muito requisitados no mercado da bruxaria. Um monge de faces rubicundas deu entrada na alcova régia. O seu hábito negro, de camisa de lã e escapulário, caía largo, disfarçando o ventre inchado pelos profanos prazeres da mesa. Era dom Paio, o confessor. Carregava na mão direita um crucifixo e na esquerda um pequeno vaso de vidro contendo o azeite sagrado da santa unção. As lágrimas assomaram em força aos olhos de dona Dulce. Os lábios dela haviam-se transformado num flozinho de tão cerrados para iludir a dor, uma linha rosa-pálido acima do queixo. Contudo, não chorava pelo sofrimento físico, mas pelo da alma. Enquanto dom Paio atravessava o espaço, no seu passo pesado e lento, embora sem ruído, ela relanceava o olhar pelas numerosas imagens de Nossa Senhora mãe, penduradas nas paredes à sua volta, pelos símbolos e relíquias sagrados colocados sobre as arcas. Tudo fora sabiamente disposto para a proteger. Mas naquele momento temia a morte. Tivera consciência de que poderia não sobreviver, e isso enchera-a de tristeza. Como que adivinhando tão tenebrosos pensamentos, o beneditino balbuciou-lhe, quase num sussurro: minha senhora! Então, então... Tanta dor! Para quê tanta dor?!, lamuriou-se a soberana. É a dor do pecado original. É o preço da falha de Eva no Jardim do Éden, enfatizou o clérigo, transformando o sofrimento em punição pelo prazer proibido às mulheres no acto reprodutor. A rainha revoltou-se: e porque tenho de o pagar de todas as vezes? Porque o tivestes também de todas elas! Logo serenou, arrependida: dom Paio..., tenho medo... Não há razão para tal. O coral que trazeis ao pescoço basta para afugentar o pânico, frisou o religioso, enquanto retirava do alforge um pequeno pedaço de metal. Mas segurai este íman com firmeza na vossa mão direita. Agarrai-o bem, que vos dará toda a força de que precisais.
Ah! O vosso amuleto... Não me deixeis morrer em pecado, pediu a parturiente. Vós não tendes pecados…, e não morrereis. Mas tenho de fazer isto. Alguma coisa importante que queirais dizer-me? E o presbítero aproximou o ouvido dos lábios reais, esperando a confissão. Nada..., além do que já sabeis. Que crimes podem ser os meus..., aqui fechada há tantos meses?, lamentou-se». In Maria Antonieta Costa, A Maldição de Afonso II, 2019, Clube do Autor, 2019, ISBN 978-989-724-483-4.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sábado, 14 de setembro de 2019

A Maldição de Afonso II. Maria Antonieta Costa. «O rei manteve-se afastado. Nem sequer cheirastes os seus pés fedidos!, gracejou. Entre duas dores, a jovem soberana continuou, com dificuldade: se o meu primeiro filho tivesse nascido varão...»

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«Querida Toda, cessai já com esse rodopio, por favor! Fico terrivelmente agoniada só de olhar para vós..., como se não me bastasse esta dor excruciante que me trespassa as entranhas... Não olheis, senhora. Concentrai-vos na vossa bem árdua tarefa e deixai-me com a minha, respondeu-lhe a condessa, que não parava de cirandar pela alcova. Dulce fechou os olhos. Vivera sete dos nove meses daquela gravidez na penumbra dos seus aposentos privados, quase como se fosse cega. Nada de horrível poderia ser vislumbrado. Topar com um cadáver caído algures causaria a morte do feto, deparar com um ser humano feio e repugnante provocaria o mesmo efeito. As janelas haviam sido cobertas com tapeçarias de forma a bloquear ao máximo a luz do exterior, um perigo para os olhos da futura mãe. O essencial, para que a gestação fosse bem-sucedida; era manter o ventre quente, no escuro e no silêncio. No dia em que fora afastada e da convivência, o bispo de Coimbra celebrara um elaborado serviço litúrgico em que pedira a Deus a bênção para o nascimento de um varão. Depois do culto e das orações do clero, haviam-na fechado. Rigorosamente igual aos partos anteriores. Gerar um filho era um tormento! Sempre que o físico lhe dava a certeza de estar de novo prenhe, privavam-na da liberdade. E nas seis últimas semanas reduziam-lhe ainda mais o movimento, obrigando-a a permanecer deitada.
Um novo desconforto fê-la abrir os olhos, que se cravaram no tapete pendurado frente ao leito, como se fosse uma abertura para o mundo. Aquela cena de caça de volataria, uma bela paisagem bordada em tons suaves, constituíra a única visão permitida durante todo aquele tempo. Um maravilhoso azul-celeste, que preenchia grande parte da sua dimensão, era cruzado por um ágil e nobre falcão que tentava apoderar-se de uma lebre fugitiva. Era um jogo, masculino a embelezar um espaço feminino onde os homens, incluindo o rei, estavam proibidos de entrar, porque aquilo era um assunto de mulheres. De mulheres que os físicos pensavam ser homens cujo sexo não se formara convenientemente, permanecendo embutido nas entranhas, tornando-as uma versão inferior. E eram esses seres mal-acabados que pululavam pela câmara real: as amas da rainha, a parteira e serviçais.
Aaaaghhh!, gemeu dona Dulce, rebolando-se no leito. A condessa Toda Palacín continuava às voltas pelo aposento. Liderava as servas no manuseamento dos castiçais, dos panos, das caldeiras de água quente. Tinha muita experiência em partos. Com duas filhas, assistira a muitos nascimentos, inclusive ao das primeiras infantas resultantes da união entre o ainda infante Sancho, primogénito de Afonso Henriques, e Dulce de Aragão, de quem era dama de companhia, uma infanta formosa e doce, como o nome indicava. Toda!, chamou de novo a parturiente. E se for outra menina? O seu rosto e colo transpiravam suor, como se pulverizados por pequenas gotas de orvalho. Tinha a tez pálida pela exaustão de tantas horas de sofrimento, de desgaste. Mas, naquele momento, as suas pupilas, muito negras, exprimiam o receio que tal desilusão causaria ao real esposo, coroado há poucos meses, e, sobretudo, ao reino. Não! Desta vez não!, assegurou-lhe a aia em tom exaltado. O rei manteve-se afastado. Nem sequer cheirastes os seus pés fedidos!, gracejou. Entre duas dores, a jovem soberana continuou, com dificuldade: se o meu primeiro filho tivesse nascido varão..., teria agora dez anos. Sou uma má esposa...
A rainha sabia bem a importância da continuidade do poder na Península dos cinco reinos cristãos. Conflitos políticos envolviam as relações entre Portugal, Leão, Castela, Navarra e Aragão. A ascensão do califado almóada, comprometido em revigorar a hegemonia muçulmana na Ibéria, ocupava já grande parte do Al-Andalus. Sois fecunda, senhora..., sois fecunda, rematou a dama, em voz baixa, mas encorajadora. A criança já está formada, é homem e vai nascer, não tarda. E se fiz alguma coisa mal?, lastimou-se ainda». In Maria Antonieta Costa, A Maldição de Afonso II, 2019, Clube do Autor, 2019, ISBN 978-989-724-483-4.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Leituras. Parte XXV. Maria Antonieta Costa. O Segredo de Afonso III: «Essa foi uma visão que sempre a intrigara. Consciente de que tal revelação lhe poderia trazer dissabores, nunca nisso falara a quem quer que fosse e muito menos o poderia ter confidenciado a Estêvão. Tinha a certeza de que o chanceler nunca iria aceitar a verdade»

Cortesia de purl

Lisboa, Paço Real de Enxobregas, 17 de Fevereiro de 1279
«No dia seguinte ao da morte de o “Bolonhês”, Madragana acordou sobressaltada com uma grande gritaria no Paço. Chamou a criada e pediu-lhe que fosse ver de que se tratava. A rapariga voltou passado algum tempo, completamente transtornada:
- Senhora, nem ides acreditarl Acabaram agora mesmo de dar com Abdul-Maalik morto no seu cubículo.
- O quê? tens a certeza!? - perguntou, sentando-se na cama e retirando o farto cabelo da frente dos olhos.
- Ouvi muito barulho para os lados da ala dos aposentos do falecido Dom Afonso. Corri para lá, e, pelo caminho, mais gente corria também. Era uma tal gritaria que não se percebia nada. Entrei na antecâmara, que estava cheia de gente, Matilde, Senhorinha e alguns fidalgos. Mas os guardas cruzaram as lanças e não deixavam passar ninguém para o quarto. Depois, saíram de lá os oficiais régios e, atrás deles, uns mancebos carregando o corpo de Abdul-Maalik numa padiola, todo roxo e torcido. Está um falatório dos diabos.
Ninguém sabe ao certo o que aconteceu.
- Temos de tentar saber. Estou verdadeiramente preocupada. E saltando da cama ordenou:
- Ajuda-me a vestir. Tenho de encontrar Estêvão Anes antes que comece a leitura do testamento. Ele deve estar a par do que aconteceu. Vamos... rápido. Traz-me qualquer coisa para vestir. Não percas tempo com combinações. Gontinha desapareceu e reapareceu num 6pice, trazendo num braçado umas bragas de 1ã muito delicadas; uma camisa alva, de linho finíssimo, com generoso decote; um brial rodado e de mangas extremamente largas, bordado a ouro finíssimo. Para acentuar a silhueta, o brial tomava a forma de espartilho, apertando desde sob o peito até ao início dos quadris com longas trenas, acentuando assim o busto, a cinta e a anca. Depois de se refrescar com água de rosas, a moura vestiu-se e penteou-se com a ajuda de Gontinha o mais depressa que o aperto de todas as fitas dos diversos elementos do vestuário o permitiu. Para toucado, em vez da habitual coifa, a criada escolheu uma simples rede dourada, com a qual prendeu a negra e brilhante cabeleira da ama.

Cortesia de wikipedia

Perfumada de almíscar, como habitualmente, e vestida de veludo preto, como convinha naquela hora de luto, Madragana deixou a sua alcova, voando e espalhando aquele perfume pelos corredores do paço. O brial enchendo na base como um balão e rodopiando em cada curva do caminho, tal era a velocidade com que se movimentava. Contudo, ao chegar perto da porta do grande salão de audiências, encontrou-a já fechada. Quando entrou, procurando uma cadeira pata se sentar, todas as cabeças se voltaram para ela, mirando-a como se fosse uma intrusa, apesar de ter todo o direito de ali estar. Estêvão Anes, que já começara o acto jurídico, salvou o momento, levantando apenas os olhos para ela e continuando a falar, o que obrigou toda a gente a voltar-se rapidamente para a frente a fim de lhe prestar atenção.
(…)
No seu testamento, Afonso III começava por pedir que o seu corpo fosse enterrado no Mosteiro de Alcobaça, junto dos pais, deixando ainda três mil libras para a construção do claustro. Ordenava que pagassem todas as suas dívidas e fossem corrigidas todas as malfeitorias e injúrias praticadas pelos seus homens. Os primeiros a serem referidos foram a rainha e o filho Dinis, nomeando-os seus executores testamentários, juntamente com mais quatro pessoas da sua confiança:
  • o mordomo-mor,
  • o chanceler,
  • Afonso Peres Faria, da Ordem do Hospital,
  • frei Geraldo Domingues, da Ordem dos Pregadores.
Seguiam-se as doações para cada um dos filhos varões, bem como as dos restantes. Dona Branca e Dona Sancha, filhas de Dona Beatriz, herdariam dez mil libras cada. A Dona Leonor, dita filha natural, que teve de Elvira Esteves, deixava a herdade de Água Morta. Finalmente, Martim Afonso, o filho de Madragana, receberia apenas mil libras. Havia doações a todas as sés episcopais. A algumas delas deixava tanto como a Martim, o que indignou Madragana. Seguiam-se os mosteiros e as ordens religiosas, numa lista interminável! Até ao papa doava cem marcos de prata! A enumeração de beneficiados continuava: os hospitais, as albergarias, os pobres, os leprosos do reino e os próprios presos.

Cortesia de wikipedia

Madragana foi alimentando até ao fim a secreta esperança de ainda ouvir ler, se não o seu, pelo menos o nome de Urraca Afonso, sua filha. Depois de rogar a D. Dinis que lhe viesse a suceder, respeitando a sua vontade, D. Afonso terminava as suas disposições delegando sobretudo na mulher, Dona Beatriz, que aparecia como testemunha daquele acto, jurando cumprir tudo o que ali estava determinado.
A moura estava inconformada. Como era possível que o seu rei a tivesse e à jovem Urraca desamparado. Parecia a Madragana que a rainha tinha conseguido uma grande parte do que pretendia, pois só Martim fora considerado herdeiro e apenas com mil parcas libras. A assembleia começava entretanto a reagir e a levantar-se dos seus lugares. O salão fora invadido por um murmúrio de vozes que comentavam o conteúdo do documento. Ainda não restabelecida da frustração, a moura continuava sentada, junto da porta, e ouvia os comentários de alguns fidalgos, em completo desacordo com certas decisões.
(…)
E Estêvão Anes desenvolveu uma série de argumentos com o intuito de consolar aquela mãe. Prometeu-lhe que nunca abandonaria os filhos dela, que, na verdade, embora ninguém soubesse, eram seus filhos também. Já mais calma, a moura perguntou-lhe o que tinha acontecido ao belo escravo sarraceno de Afonso III.
- Ainda é cedo para se ter uma ideia precisa. O que se sabe até agora é que Abdul-Maalik foi encontrado morto esta manhã na cama onde dormia, no cubículo junto à alcova do rei. Mestre Pedro e mestre Domingos das Antas foram chamados para analisar as possíveis causas da morte. Mestre Domingos diz que foi envenenado, porque a língua estava inchada, roxa, e os olhos muito abertos. Juntamente com a posição fetal do corpo, segundo ele, estes sinais indicam que terá tido algumas convulsões. Mas mestre Pedro desvalorizou isso e confirmou que o escravo morreu de ataque cardíaco, porque era muito afeiçoado ao rei e não suportou a sua perda. Em suma, não se entendem.

Cortesia de cmlisboa

- Em quem acreditas? - interrogou a amante.
- Apesar de tudo, em mestre Pedro. Onde já se viu... envenenado! Quem é que teria interesse em envenenar o escravo pessoal de Dom Afonso? Quando Maalik veio para a Corte era ainda um rapazinho. Realmente, o rei sempre o tratou muito bem, levando-o consigo para onde fosse. Acho que Maalik o encarava como se fosse seu pai e pode muito bem ter sucumbido ao desgosto.

Pela mente de Madragana passou, enquanto o chanceler falava, uma imagem difusa, uma lembrança longínqua e turva de uma noite em que, tendo sido chamada à câmara do rei, numa das variadíssimas vezes em que ele o fez para encenar a farsa de que dormia com ela, presenciara uma cena deveras invulgar. Quando lá chegou, Afonso estava já deitado e falou com ela por detrás dos véus que protegiam a sua alta cama de dossel. Porém, a posição dos tocheiros e das lucernas que ardiam junto ao leito permitia que tudo fosse perfeitamente visível para lá das cortinas. Enquanto o rei lhe recomendava que saísse pela passagem secreta e voltasse, sem ser vista, aos seus aposentos, Madragana conseguiu ver, para 1á das camadas de musselina, dois corpos nus masculinos, deitados lado a lado…

Essa foi uma visão que sempre a intrigara. Consciente de que tal revelação lhe poderia trazer dissabores, nunca nisso falara a quem quer que fosse e muito menos o poderia ter confidenciado a Estêvão. Tinha a certeza de que o chanceler nunca iria aceitar a verdade». In Maria Antonieta Costa, O Segredo de Afonso III, Clube do Autor, 2011, ISBN 978-989-8452-28-3.

Cortesia do Clube do Autor/JDACT

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Leituras. Parte XXIIIb. Maria Antonieta Costa. O Segredo de Afonso III: «Madragana ouvira toda a conversa, escondida numa das dobras do opaco cortinado e assim dissimulada permaneceu, tendo-lhe a rainha passado rente, sem dar por ela. Dona Beaftiz sofria também do mesmo mal da bastarda Leonor e nunca escondera o quanto a barregã lhe desagradava»

Cortesia de wikipedia

Lisboa, Paço Real de Enxobregas, 16 de Fevereiro de 1279
«O confessor D. Mateus preparava-se para aproveitar o momento em que o «Bolonhês» parecia recuperar as forças e talvez a consciência, para conseguir uma confissão. Tentava convencer um dos físicos a descer do escanho que ocupava a fim de novamente tomar o lugar deste junto do enfermo.

O chanceler Estêvão Anes, que, por seu turno, dificilmente conseguia afastar o olhar de Madragana desde que ela chegara, e até lhe piscara o olho de um modo discreto, não se incomodava muito em disfarçar o seu apreço pela dama, o que irritava ainda mais o alferes-mor. Para além da afronta de se insinuar junto da moura e de ser brindado com a sua simpatia, Estêvão Anes era colaço do rei.
Tinham sido criados pela mesma ama como dois verdadeiros irmãos de sangue. O oficial nunca perdia de vista o selo real, que suportava, quotidianamente, sempre preso à cintura com robusta cadeia e possante aloquete. A discrição, a inteligência e a obediência cega com que servia o monarca valiam-lhe muitos inimigos. Durante os anos em que ambos tinham vivido em França dedicara-se ao estudo das leis, pelo que desempenhara um papel de relevo nas reformas jurídicas e económicas que o rei levara à prática.
Encostada ao umbral da alta porta, meio oculta pelas cortinas de damasquim, Madragana, que só por uma vez retribuíra, sem que ninguém visse, o doce olhar de Estêvão Anes, espreitou para o corredor. Fora da câmara, na ampla arcada que lhe dava acesso, o jovem príncipe de dezoito anos ia e vinha de um extremo ao outro, em passos largos e nervosos, agastado pelo humilhante acto que acabara de presenciar, impotente.

Cortesia de wikipedia

Estava prestes a substituir o pai e já começava a sentir as limitações que a Santa Sé impunha ao poder dos homens. De repente, ao fundo, vislumbrou a rainha, sua mãe. D. Beatriz deixara o Paço da sua vila de Torres Vedras e viajara para Lisboa logo que o rei ficara acamado. Caminharam, pois, na direcção um do outro.
- A bênção, senhora minha mãe - pediu Dinis.
- Como está o teu pai? - perguntou ela, concedendo-lha.
- Está na mesma ou pior - respondeu, desanimado, o jovem príncipe.
- Creio que chegou a hora de tomares o lugar que te pertence por direito - disse, dirigindo-se ao filho. - Não tenhas receio. Estás bem preparado para governar e eu ajudar-te-ei no que puder.
- Sabeis que será forçoso nomear para o governo do reino outros oficiais que não os do meu pai. Por muito leais que se apresentem, devo criar a minha própria Cúria, o meu próprio Conselho.
( … )
- Podes estar seguro disso, pois começaram antes de teres nascido. Vou ver como ele está. Sabes se há lá dentro alguém do meu desagrado? - acrescentou, mudando de assunto. - Referis-vos, certamente, a Mor Afonso?
- Espero não ter de suportar a presença dessa moura, dessa... infiel, por muito mais tempo - revelou Dona Beatriz, com aspereza.

Madragana ouvira toda a conversa, escondida numa das dobras do opaco cortinado e assim dissimulada permaneceu, tendo-lhe a rainha passado rente, sem dar por ela. Dona Beaftiz sofria também do mesmo mal da bastarda Leonor e nunca escondera o quanto a barregã lhe desagradava. Durante muitos anos, tinha engolido, em silêncio, a existência daquela maldita na Corte. Ansiava poder reduzi-la à mais ínfima condição social. Os seus motivos eram também ditados pelos torpes sentimentos da inveja. Inveja da sua formosura e de lhe ter roubado a atenção e os favores de Estêvão Anes, por quem afinal o seu coração batia desde o primeiro dia em que chegara a Portugal, vinda de Saragoça, a sua cidade natal. Queria, pois, vingança!

Cortesia de wikipedia e revelarlxcmlisboa

Após o comentário que a rainha lhe acabara de fazer, Madragana convenceu-se de que os seus dias no Paço estariam contados. Mesmo assim, não ousou abandonar o quarto, destapando-se, lentamente, depois de a soberana passar e permanecendo junto à porta, local estratégico onde podia ser vista, mas suficientemente discreto para permanecer em sossego.
D. Mateus, tomando a água benta, aspergiu o doente e o quarto. E virando-se para a assembleia anunciou:
- Como não houve confissão sacramental, façamos um acto penitencial.
De súbito, algo de impensável aconteceu. O rei começou a berrar:
  • - Para trás! Para trás, mando eu, que sou vosso rei – vociferou o moribundo, num tom de voz vigoroso, que não se sabia de onde lhe vinha. - Tirem-me essa cruz da frente... sai... sai... Oh, sinal que me atormentas!
O rebuliço no quarto era grande. Todos os presentes percebiam que aquelas manifestações não eram mais do que as breves melhoras da morte. De olhos esbugalhados, D. Afonso gritou, varrendo o quarto com o dedo acusador:
  • - Deixem-me, seus cobardes! Traidores… Qual de vós me trairá quando eu morrer? Qual de vós já me atraiçoou em vida? Quem vos divulgou o segredo?
  • ( … )
  • Fostes vós, capelães de m…., ciosos de esmolas e de bolsas. Vai… Não preciso de ti para me absolveres. Ide chamar o Pedro. Quero o Pedro, ululou.
O outro afastou-se, mudamente, continuando a pender para o moribundo, não desistindo de tentar ouvir o que quer que fosse que este tivesse a transmitir. No meio daquela confusão, Afonso pronunciou, efectivamente, qualquer coisa ao ouvido do seu colaço. Mas logo a agonia da morte tomou conta do seu corpo, que começou a expelir anormais humores ensanguentados pela boca e pelas narinas. Os físicos avisaram que a sua hora chegara.

Dona Beatriz ordenou que chamassem por Dinis. O infante voltou à câmara no exacto momento em que seu pai estremecia com o derradeiro estertor e, após as confirmações silenciosas de mestre Pedro e mestre Domingos das Antas, perante quase toda a Corte ali reunida, o abade de Alcobaça murmurou:
- «Requiescat in pacem». O rei morreu.

E a rainha, virando-se para o infante, afirmou, indicando-o e fazendo uma vénia:
- Deus dê longa vida ao rei.

Todos ajoelharam por dupla razão:
  • em memória do defunto,
  • em sinal de veneração ao novo monarca.
Após este momento reinava a consternação». In Maria Antonieta Costa, O Segredo de Afonso III, Clube do Autor, 2011, ISBN 978-989-8452-28-3.

Cortesia do Clube do Autor/JDACT

Leituras. Parte XXIIIa. Maria Antonieta Costa. O Segredo de Afonso III: «Ricos-homens, oficiais e demais fiéis vassalos que enchiam a alcova régia cochicharam, abanando a cabeça em sinal de desaprovação. O mordomo-mor, o alferes-mor e o chanceler, que poderiam ser considerados os três braços direitos do rei…»

Cortesia de wikipedia

Lisboa, Paço Real de Enxobregas, 16 de Fevereiro de 1279
«Aquele juramento da profissão de fé, que, segundo o abade alcobacense, era condição “sine qua non” para a salvação de D. Afonso, estava a ser difícil de engolir pelos consanguíneos do rei e por todos 16 seus íntimos que se encontravam no aposento. Ricos-homens, oficiais e demais fiéis vassalos que enchiam a alcova régia cochicharam, abanando a cabeça em sinal de desaprovação. O mordomo-mor, o alferes-mor e o chanceler, que poderiam ser considerados os três braços-direitos do rei, se o número máximo desses membros superiores permitidos a um ser humano não fosse apenas um, encontravam-se lívidos, lançando olhares ameaçadores a D. Mateus que traduziam bem a cólera que os possuía. Eram eles os homens mais poderosos do reino, logo abaixo do monarca, e era claro que sentiam aquele juramento roubado como um dos maiores vexames jamais infligidos ao seu soberano.
O eclesiástico, parecendo alheio a estas surdas manifestações de despeito, tentava agora conseguir a confissão. Deambulando em redor da cama, sempre seguido pelo acólito do turíbulo, pronunciava para o efeito, e repetidas vezes, uma citação da Epístola aos romanos do apóstolo Paulo:
  • «Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus O ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação».

Cortesia de wikipedia

Subitamente, D. Afonso estremeceu. Todas as atenções se centraram nele. De um lado e do outro do leito, do alto dos respectivos escanhos, os físicos debruçaram-se sobre o seu corpo doente. Escutaram, apalparam, trocaram impressões e gesticularam numa sucessão de ordens ao reposteiro-mor, que as transmitiu, de imediato, aos serviçais.
- Mais água fria e mais mantéis para fazer pachos. Sua Majestade arde em febre – ordenou um dos curandeiros.
O doente continuava a agitar-se. Levantou os braços e destapou-se. Depois, em gestos débeis, começou a tentar despir a primeira das camisas de linho.
- Ajudem-me a cobri-lo - gritou mestre Domingos das Antas para a criadagem, que, em bicos de pés, mal conseguia chegar aos flancos da cama.

João Peres de Aboim, o mordomo-mor, acercou-se, tentando com a sua alta estatura ajudar a fazer chegar um mantel ao físico. Tinha ganho o cargo não por linhagem, mas por serviço leal. Em tempos, fora também mordomo da rainha. Ponte de Lima e Évora estavam sob a sua tenência e era senhor de muitos herdamentos e préstamos, entre eles searas, almoinhas, matas, adegas, cavalariças, açougues, lagares, azenhas e muito mais. Ouvia-se na Corte que era um dos mais ricos senhores do reino. Acima de tudo, servia o rei sem ganância, com amizade, muita honra e sensatez.
Perante a iminência do desaparecimento do monarca, parecia verdadeiramente inseguro e desalentado. Sabia que pouco mais teria a fazer no Paço, pois que era inevitável que o infante prescindisse dos seus serviços. Portanto, morrendo o rei, morreria também uma considerável parte da sua vida, sem dúvida, a mais gloriosa. Do outro lado da cama, Gonçalo Garcia de Sousa não parava quieto um minuto. O alferes-mor era a antítese do mordomo, não só em temperamento, como em figura. Alguns jograis escarneciam-no nas suas cantigas. Pequeno mas muito activo, ora se chegava ao leito, numa atitude de quem ia trepar por ele, ora se afastava para, em bicos de pés, tentar ver o que se passava no topo.

Cortesia de wikipedia

Mais para o controlar do que para mostrar todo o apreço que lhe dedicava, o rei casara-o com a bastarda régia Leonor. Falso e de má índole, era inimigo declarado de Madragana, apenas porque morria de amores por ela e não suportava a inexplicável atenção que ela oferecia ao chanceler. Sofria de pavorosos ciúmes e ardia em fogo lento de cada vez que os seus olhos pousavam nela, cobrindo-se de suores sempre que contemplava a sua pele sedosa e trigueira. A visão daquela boca carnuda e carmesim, prometendo o sabor dos morangos silvestres, arrasava-o de paixão. Quando aspirava o inconfundível e penetrante perfume a almíscar da moura, que pulverizava o espaço aquando da sua passagem, o nobre tinha uma queda de tensão. Podia sentir a presença dela mesmo no jardim, pois a barregã conseguia impregnar com o seu cheiro voluptuoso milhares de metros cúbicos de ar. A sedução que aquela mulher exercia sobre o fidalgo originava-lhe, na maior parte das vezes, erecções imediatas e indisfarçáveis.

A sua consorte Leonor, uma mulher gorda e sem graça mas nada parva, notara desde cedo os efeitos que aquela exótica beleza morena, de olhos verdes cristalinos, despertava no esposo, o que determinara que nutrisse por ela um ódio e um desprezo camuflados. Marido e mulher, ambos eram terrivelmente afectados pela concubina. Ele, pela existência daquela criatura tão sensualmente magnífica Ela, pela inveja da sua presença elegante, harmoniosa e bela. Outro estremecimento. Toda a gente no quarto foi sacudida pelo novo e repentino esbracejar do rei, que, desta vez, intentava erguer-se do leito. Um murmúrio de vozes inundou o espaço.
Grande rebuliço animou os serviçais, que andaram de cá para lá cumprindo as ordens dos físicos, carregando pequenas caldeiras de água, ora quente ora fria, manipulando frascos de vidro contendo pós e líquidos farmacológicos». In Maria Antonieta Costa, O Segredo de Afonso III, Clube do Autor, 2011, ISBN 978-989-8452-28-3.

Cortesia do Clube do Autor/JDACT

domingo, 11 de setembro de 2011

Leituras. Maria Antonieta Costa. Parte XX. O Segredo de Afonso III. «Naqueles anos em que as pestilências eram o pão-nosso de cada dia, o rei não se podia queixar de ter vivido pouco. Na verdade, quando o comum dos mortais não aspirava ultrapassar os quarenta anos, contar sessenta e oito primaveras era uma grande proeza!»

Cortesia de purl

Lisboa. Paço Real de Enxobregas. l6 de Fevereiro, 1279
«Desde que saíra do convento da Ordem dos Cónegos Regrantes de São Vicente de Fora, Madragana sentia-se mais confortada com a sua sorte. O rei ia morrer. Só Deus saberia quantos dias de vida lhe restavam ainda, mas, pelo menos, ela tinha conseguido assegurar que os factos que poderiam levar ao seu desaparecimento fossem trazidos ao conhecimento de todos. Perdida nos seus pensamentos, foi, no entanto, chamada à realidade pelo som abafado dos passos de uma outra montada atrás da sua. Estaria a ser seguida? Fora, sem dúvida, uma aventura ter saído do Paço de Enxobregas sem companhia. Puxou os arreios e os cascos da sua égua puro-sangue lusitano aceleraram, escorregando repetidamente, descendo as gastas e luzidias lajes de calcário das ruelas da Alcáçova em direcção ao rio. Depois de acenar aos guardas com o lenço vermelho-sangue por que era reconhecida, saiu pela Porta do Sol, passou a Porta do Chafariz dos Cavalos e, já em frente do Tejo, virou à esquerda, em direcção ao Paço.
Depois de largar a égua na estrebaria, dirigiu-se aos seus aposentos e, num corrupio, chamou Gontinha, a sua fiel serviçal, para a ajudar a despir o manto.
(…)
Madragana lançou-lhe um sorriso de agradecimento, já por cima do ombro, e desapareceu nos corredores do Paço, dirigindo-se ao quarto do rei. Quando entrou na câmara, o colossal leito real emergia da penumbra. As tocheiras, acesas e presas nas paredes, emprestavam ao cenário um aspecto um tanto ou quanto fantasmagórico. As sombras dos presentes erravam pela alcova, quais espectros'! Sentiu o peito apertado. Respirava-se mal lá dentro. O cheiro da humidade que escorria nos cantos das paredes de pedra misturava-se com o hálito podre do enfermo, que empestava o ar, apesar da proximidade da revigorante brisa do mar que entrava Tejo acima.

Cortesia de wikipedia

Da cama de carvalho, embora austera, sobressaíam a talha, a exagerada altura do colchão e a sumptuosa manta superior, toda bordada a fio de ouro. Naquela cama, já de si alta, não havia um, nem sequer dois, mas o número profético de três colchões. O corpo do soberano repousava no cimo daquela pilha, quase inacessível ao olhar de quem permanecia ao nível do solo, tal como um dos seus inexpugnáveis castelos. Por isso, os físicos encontravam-se encavalitados em dois escanhos, um de cada lado, para poderem aceder ao enfermo. Naqueles anos em que as pestilências eram o pão-nosso de cada dia, o rei não se podia queixar de ter vivido pouco. Na verdade, quando o comum dos mortais não aspirava ultrapassar os quarenta anos, contar sessenta e oito primaveras era uma grande proeza! O nascimento no seio da fidalguia significava, entre outros privilégios, boa comida na mesa e uma boa nutrição. Por isso, por muitas vitórias que tivesse desfrutado em vida, o rei morria também em glória: morria velho.
Acabava os seus dias com o dobro da idade com que tinha partido a grande maioria dos seus súbditos e até alguns dos seus filhos. A velhice coroava todos os seus feitos. Moribundo e rodeado por grande número dos seus validos, o monarca repousava sobre três colchões de penas de ganso que representavam as três primeiras criações de Deus no universo:
  • O Caos,
  • a Terra,
  • o Céu.


Cortesia de revelarlxcmlisboa e wikipedia

O rei estava depositado sobre o último, ou seja, no Céu. A cobri-lo, duas grossas almocelas de lã de ovelha, .mais a colcha de seda. A envolver o seu arquejante corpo quase cadáver, três camisas de linho. Isto tudo apesar das febres que o faziam derreter-se em suor. Para Madragana, a cena era ao mesmo tempo patética e ridícula. O rei estava a morrer e continuava excomungado em consequência dos seus agravos ao clero. Primeiramente, os bispos lançaram o interdito sobre o reino. Durante sete anos de maldição, o país ficou à deriva sem sacerdotes. Não houvera pároco temente e honesto que aceitasse baptizar os recém-nascidos. Desoladas mães viam os seus filhos morrer poucas horas depois de terem vindo a este miserável mundo, sem os poderem salvar do pecado original com o sacramento do baptismo. Os noivos não se podiam casar. As igrejas estavam fechadas e não se encontrava um confessor.

E que transtorno com os mortos! Para se encontrar padre que quisesse oficiar um funeral era preciso pagar um bom punhado de maravedis. E a situação agravou-se ainda mais quando os clérigos começaram a passar fome por falta do dízimo e de outras dádivas que o povo, já zangado, teimava em não pagar. Que tempos! Tudo por culpa do rei». In Maria Antonieta Costa, O Segredo de Afonso III, Clube do Autor, 2011, ISBN 978-989-8452-28-3.

Cortesia do Clube do Autor/JDACT