quinta-feira, 14 de novembro de 2019

A Maldição de Afonso II. Maria Antonieta Costa. «Em seguida, Petronila pegou no cinto que a condessa Toda lhe estendia, colocou a pedra num encaixe próprio e cingiu-o à volta da dilatada barriga da parturiente. Uma serviçal fez a rainha beber vinagre com açúcar»

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«(…) Dom Paio acenou, compreensivo, e iniciou a Sacram Unctionem Infirmorum (Sacra Unção dos Enfermos). O latim entaramelava-se-lhe enquanto recitava o ritual, ungindo-a sobre os olhos: per istam sanctam unctionem et suam piissimam misericordiam indulgeat tibi Dominus quidquid per auditum deliquisti. Amen. (Por esta santa unção e pela sua piíssima misericórdia, o senhor vos perdoe todos os pecados cometidos pelo que vistes. Amém)
Dona Dulce retorcia-se, evidenciando que as contracções eram agora quase consecutivas. Não obstante, o clérigo repetiu a fórmula por mais cinco vezes ungindo os ouvidos, o nariz, a boca, as mãos e os pés, partes do corpo através das quais se poderia tomar contacto com o pecado. Deixai-a, por favor, pediu dona Toda. Está na hora! O monge benzeu a rainha mais uma vez e apressou-se a sair. De imediato, Petronila descobriu-a, levantou-lhe a camisa e começou a esfregar-lhe as virilhas com uma pedra de ónix vermelha, enquanto sabiamente proferia: tal como esta pedra, por ordem de Deus, brilhou no primeiro anjo, também esta criança se tornará num rei resplandecente. Depois, abriu-lhe mais as pernas, retirou o cataplasma herbáceo de sobre a vulva e, segurando a pedra frente à vagina real, continuou: abram-se as estradas e as portas naquela epifania em que Cristo se tornou humano e Deus. Que se abram todas as portas do Bem e se fechem as do inferno! E assim esta criança saia para o mundo viva e sem morte para a sua mãe. Em seguida, Petronila pegou no cinto que a condessa Toda lhe estendia, colocou a pedra num encaixe próprio e cingiu-o à volta da dilatada barriga da parturiente. Uma serviçal fez a rainha beber vinagre com açúcar. É agora! Ajudem-me, ordenou a parteira. Enquanto duas mulheres traziam o banquinho de parto para os pés da cama, a condessa e a parteira arrastavam dona Dulce para se sentar nele. Valha-me Nossa Senhora do Ó!, exclamou a soberana, quase num grito.
Com a mão pequena, humedecida numa decocção de linhaça e grão-de-bico, Petronila ajudava a dilatação uterina por entre os rangidos dolorosos da parturiente. Amiga, coragem! Muita força!, incitava dona Toda. A parteira continuava o exercício manual emitindo sons estranhos, como se simulasse um animal a parir. A rainha fixava o olhar no dela, numa aflição cada vez maior, acompanhando com os gemidos os grunhidos da parteira, qual rito de sortilégio. De súbito, a mulher exclamou: vem aí! Vem aí!
Ouviu-se um som abafado, algo como uma pedra que cai sobre uma almofada. E Petronila retirou as mãos de sob a abertura do banco, mostrando a cabeça do recém-nascido. Um silêncio profundo reinou na alcova, como se estivessem num túmulo. É homem?, esganiçou-se a rainha, numa precipitação que ultrapassava a vontade de saber se estava vivo. Petronila estendeu o cordão umbilical, calculou que ficasse com uns bons quatro dedos para assegurar uma virilidade robusta, cortou-o e deu-lhe um nó. Levantou a criança de cabeça virada para baixo, presa pelas canelas, e bateu-lhe nas nádegas. Ouviram-se os primeiros vagidos. Depois, rodou-a de frente para a mãe e proferiu, radiante: sim. É homem e está vivo!
Desamparada, Dulce caiu para trás, batendo com as costas na trave da cama. O alívio e a felicidade suplantavam qualquer dor. A aia segurou-a, abraçando-a, esfuziante. Ambas choravam de júbilo. Avisem dom Sancho, recompôs-se a soberana. Por favor, vão avisar o rei.
Afortunadamente, o monarca encontrava-se no Paço Real de Coimbra para gozar aquela bênção. Regressara de uma incursão pelas terras do Sul, onde Abu Yusuf Ya'Qub Al-Mansur ameaçava apoderar-se dos importantes castelos de Almada, Alcácer e Palmela. Esperando assegurar uma defesa mais eficaz daquelas possessões, o soberano decidira atribuir essas fortificações e os seus domínios à Ordem Militar de Santiago, pelo que se reunira com os seus juristas, preparando a redacção dos documentos de doação.
Calma! O rei não foge!, disse a condessa. Esperai pelo que Petronila tem a dizer». In Maria Antonieta Costa, A Maldição de Afonso II, 2019, Clube do Autor, 2019, ISBN 978-989-724-483-4.

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