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domingo, 13 de janeiro de 2019

O Mito Maçónico. Jay Kinney. «Icke identifica, pois, a Franco-Maçonaria como a sucessora de uma velha fraternidade babilónica: sábios que, originalmente, procuraram libertar a consciência da humanidade…»

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«(…) Diz-se que nesse texto ele anexou as origens da Franco-Maçonaria a Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, hoje conhecida pelo nome oficial de Ordem Soberana Militar e Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta (ou, simplesmente, Ordem de Malta ou Cavaleiros de Malta), uma das várias ordens de cruzados medievais. Nenhuma prova foi avançada para fortalecer a teoria de Ramsay, mas o romantismo desta sugestão fez com que ela fosse desenvolvida por outros, estando na origem de relatos diversificados. O mais popular é aquele que diz que existe um forte elo de ligação entre a Franco-Maçonaria e a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (Ordem do Templo ou Cavaleiros Templários).
Dois dos mais influentes maçons do século XIX, Albert Gallatin Mackey e Albert Pike, brincaram com a noção de que a Franco-Maçonaria era herdeira, se não fosse mesmo descendente directa, dos Mistérios da Antiguidade: um sistema iniciático de sabedoria arcana que constituiu uma importante parte do substrato espiritual da humanidade. Estas interpretações, mais subjectivas que objectivas, foram examinadas de modo rigoroso por Mackey nos seus livros History of Freemasonry, Encyclopedia of Freemasonry e outros ensaios. Pike, por outro lado, discorreu sobre estas ideias num volumoso compêndio intitulado Morals and Dogma, assim como em variadíssimos ensaios e conferências. Nenhum destes autores acreditou, verdadeiramente, na teoria sobre a Franco-Maçonaria ser herdeira dos Mistérios da Antiguidade, mas encontraram semelhanças intrigantes entre uma coisa e outra. Com efeito, aquilo que Mackey e Pike fizeram foi usar a Franco-Maçonaria como uma pedra de toque, com a qual especularam e estudaram uma série de temas que, à luz do que sabemos hoje, podemos apelidar de estudo comparado sobre religiões. O trabalho deles inspirou certos maçons a explorar os campos do esoterismo, da filosofia clássica e da história da antiguidade. Por outro lado, também providenciaram aos críticos antimaçónicos um manancial de materiais que estão na base de muitas das acusações de satanismo e paganismo.
Sobre isto, tomemos como exemplo as sinistras teorias da conspiração elaboradas por David Icke. Este indivíduo carismático, em cujo passado se contam actividades tão heterogéneas como relatador de futebol e porta-voz do partido britânico Os Verdes, descobriu a galinha dos ovos de ouro com uma série de livros, autopublicados, sobre a relação de que toda a gente se encontra dominada por uma raça reptiliana de mutantes inter-dimensionais. Os livros de Icke são um êxito de vendas em certos círculos de inspiração New Age e em outros com ligações políticas à extrema-direita.
Icke identifica, pois, a Franco-Maçonaria como a sucessora de uma velha fraternidade babilónica: sábios que, originalmente, procuraram libertar a consciência da humanidade da influência vampírica dos reptilianos. O secretismo de que essa fraternidade necessitava para conduzir os seus trabalhos transformou-se, ao longo dos séculos, numa forma corrupta de manipulação e controlo de poder, levando a que a dita fraternidade fosse absorvida pelos alienígenas. No seu sítio da Net, Icke alega que existem túneis secretos por baixo de cada loja maçónica, de maneira a facilitar as reuniões com os reptilianos.

Telefones Luciferinos
Estas histórias são reminiscentes da extravagante e muitíssimo popular fraude antimaçónica perpetrada em França, nas últimas duas décadas do século XIX, por Gabriel Jogand-Pagès, que escreveu sob o pseudónimo de Leo Taxil. Taxil começou a carreira literária como escrevinhador de panfletos anticlericais e evoluiu para autor de panfletos de pornografia anticlerical, tais como o título The Secret Love Life of Pope Pius IX. Também fundou a Liga Anticlerical, em 1881. Em meados de 1885 fingiu converter-se ao catolicismo e escolheu um novo saco de pancada: a Franco-Maçonaria. Passou a escrever propaganda antimaçónica para ser lida pelos católicos». In O Mito Maçónico, Jay Kinney, 2009, tradução de David Soares, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-176-0.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sábado, 12 de janeiro de 2019

O Mito Maçónico. Jay Kinney. «De acordo com as palavras de Hall, a Franco-Maçonaria data dos tempos imemoriais em que a ilha da Atlântida, supostamente, existia, recheada de antiga e avançada sabedoria»

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Rufiões do Púlpito
«(…) Apesar de a Franco-Maçonaria actual se distanciar do espírito revolucionário desses tempos inaugurais, ainda conserva muitos ideais iluministas, como a ideia de uma fraternidade entre os homens, na qual confluem indivíduos de religiões distintas, uma regra que faz com que aqueles que pretendem reformar o mundo de acordo com uma visão ou ideologia monoteísta observem a Franco-Maçonaria como sendo uma ameaça.

Babilónia-Mistério
Muitas das suspeitas sobre o Ofício relacionam-se com interrogações suscitadas pelas suas origens nebulosas. Desde que a primeira Grande Loja foi fundada em Londres, no ano de 1717, que as diversas teorias concorrentes sobre as origens da Franco-Maçonaria têm sido problemáticas para os historiadores. Já existiam lojas maçónicas em actividade antes dessa data; e foram quatro dessas lojas de pedreiros de Londres que se organizaram numa espécie de federação a que chamaram de Grande Loja, com o objectivo de regular e sistematizar o trabalho da Franco-Maçonaria. Mesmo assim ainda é difícil dizer-se que a moderna Franco-Maçonaria, que se assume como especulativa (filosófica e ética), evoluiu directamente da maçonaria operativa (as comuns confrarias de pedreiros), cujas oficinas se popularizaram na Europa durante a Idade Média. Tantas conjecturas deram azo a que florescessem inúmeras hipóteses diferentes sobre as origens da Maçonaria. Elas vão, invariavelmente, na direcção do passado, a uma época anterior à idade do Iluminismo. O sabor deste género de teorias românticas pode ser provado, por exemplo, nesta transcrição de um livro escrito por Manly Palmer Hall, um autor prolífico que estudou temas místicos e esotéricos:

A Maçonaria é uma universidade que ensina as artes liberais e as ciências da alma a todos aqueles que se mostrem sensíveis às suas palavras. É uma sombra da grande Escola Atlante de Mistérios, que, em todo o seu esplendor existiu na Cidade dos Portões Dourados, no local em que, agora, o Oceano Atlântico se agita em marés inquebrantáveis.

De acordo com as palavras de Hall, a Franco-Maçonaria data dos tempos imemoriais em que a ilha da Atlântida, supostamente, existia, recheada de antiga e avançada sabedoria. Quando ela se afundou, é lógico que os sacerdotes atlantes encontraram um modo de escapar ilesos para a terra seca do Egipto e foram eles os verdadeiros precursores dos Mistérios Egípcios. Isto segundo Hall... Que a existência da ilha da Atlântida nunca tenha sido provada, nem sequer demonstradas as pretensas ligações que teria com o Egipto, não interessa nada.
Mesmo assim, a hipótese atlante não é muito mais fantasiosa do que a origem tradicional que a Franco-Maçonaria oferece de si mesma. A história oficial da Franco-Maçonaria, escrita nas Constituições da primeira Grande Loja de Londres, em 1723 e 1738, pelo reverendo John Anderson, traçam a origem da Franco-Maçonaria ate à pia linhagem de Adão, descrito nesses documentos como sendo o primeiro sábio maçónico. Em 1737, Andrew Michael Ramsay (o Chevalier Ramsay), um maçon escocês que vivia em França e que apoiava a campanha que desejava devolver o trono à casa de Stuart, compôs um famoso discurso (Discurso de Ramsay) que, alegadamente, queria entregar à Grande Loja de França (fundada em 1732)». In O Mito Maçónico, Jay Kinney, 2009, tradução de David Soares, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-176-0.

Cortesia de SEmergência/JDACT

O Mito Maçónico. Jay Kinney. «Fosse de propósito ou, simplesmente, porque andavam no ar, várias ideias maçónicas sobre os valores do individualismo, fraternidade e igualdade produziram impacto nas esferas políticas»

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A um Oceano de Distância
«(…) De modo coincidente, o período e o espaço em que ocorreu o escândalo
do rapto e assassinato de Morgan foi o ano de 1826, mesmo no meio do condado mais incendiário do Estado de Nova Iorque, acalorado pelas sucessões entusiastas de revivalismos evangélicos que assolaram a área naquela altura. A Franco-Maçonaria andava a ser atacada do alto do púlpito e era somada à lista interminável de pecados mortais. O cheiro a enxofre impregnava o ar. Por mais estranho que possa parecer, aquele também foi o Estado em que nasceu o Mormonismo. Foi ali que Joseph Smith descobriu as Placas Douradas de que fala o Livro de Mórmon: encontradas em 1827, no monte de Cumorah Hill, na vizinhança da cidade de Manchester, a pouco mais de quinze quilómetros de distância do sítio onde Morgan foi raptado. Aliás, grande parte dos primeiros seguidores de Smith foi composta por franco-maçons descontentes com o Oficio. Anos depois, em 1842, Smith e Brigham Young adoptariam a Franco-Maçonaria com entusiasmo, interpretando os seus rituais como sendo resquícios de antigas iniciações bíblicas. Quando Smith introduziu a prática da poligamia entre os crentes do seu culto, uma das mulheres com quem ele se casou foi a viúva de Morgan.

Rufiões do Púlpito
A conexão turbulenta entre ansiedade antimaçónica e fervor evangélico ainda persiste nos Estados Unidos. Hoje, os pastores cristãos são líderes proeminentes do antimaçonismo, tal como os seus antepassados o foram nos tempos que serviram de palco ao incidente com Morgan. No seio da vicejante subcultura fundamentalista norte-americana, os livros de conteúdo antimaçónico são grandes sucessos nas livrarias de índole cristã; e muitos pastores evangélicos pregam propaganda antimaçónica, dando a ouvir histórias sobre abusos maçónicos e satânicos, como se combater essas heresias fosse o dever de cada paroquiano.
O evangelista norte-americano Pat Robertson, conhecido pelos seus programas televisivos religiosos, publicou, em 1991, um livro intitulado A Nova Ordem Mundial, no qual acusa a Franco-Maçonaria norte-americana de ser uma parte fundamental das forças que conspiram para instaurar o Governo Mundial Único (de matriz anticristã e cujas sementes foram plantadas durante a Revolução Americana). Robertson pergunta:

Será possível que meia dúzia de eleitos tenham um plano, revelado no Grande Selo adoptado como insígnia na fundação dos Estados Unidos, para criar não só o país que os pais fundadores e os campeões da nossa liberdade envisionaram, mas também um mundo radicalmente diferente, sob os desígnios de uma religião misteriosa e inventada para substituir as velhas ordens cristãs da Europa e da América?

Robertson refere-se, neste excerto, à ideia instituída de que o Grande Selo dos Estados Unidos, que se pode encontrar no verso de uma vulgar nota de um dólar, é, com efeito, um emblema maçónico. Este assunto é matéria de muitas análises, mas as desconfianças de Robertson sobre o significado do símbolo denunciam uma mentalidade que está longe de se reconciliar com os tempos modernos. Não há dúvida de que a Franco-Maçonaria contemporânea é um produto do Iluminismo britânico. As lojas do século XVIII reuniram-se nos pisos superiores de bares, lugares abertos, mas privados, que possibilitavam encontros em que indivíduos pertencentes a diferentes classes pudessem falar de igual para igual e manter discussões filosóficas (não-sectárias) regadas com boa cerveja. Fosse de propósito ou, simplesmente, porque andavam no ar, várias ideias maçónicas sobre os valores do individualismo, fraternidade e igualdade produziram impacto nas esferas políticas.
Indubitavelmente, esta nova era de ciência, razão e valores universais ameaçou os alicerces do poder instituído, mantido pela Igreja e pela Coroa. Um efeito colateral da emergência do novo paradigma foi o desenvolvimento da hostilidade dirigida contra a Franco-Maçonaria pelos representantes dos vários regimes conservadores. Tudo começou em 1738, o ano em que o Vaticano condenou a Franco-Maçonaria por considerá-la uma organização com aspirações de controlo político e religioso. A Maçonaria representava um milieu social que não respondia perante a igreja católica e a questão do seu secretismo entrava em conflito com a primazia da prática da confissão. Hoje muitos norte-americanos que têm ligações de destaque com a facção mais à direita do espectro religioso, como o referido Pat Robertson, apresentam argumentos similares a estes. (Por ironia, também Estaline os usou, para fortalecer a doutrina do controlo do Estado e não era um político de direita)». In O Mito Maçónico, Jay Kinney, 2009, tradução de David Soares, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-176-0.

Cortesia de SEmergência/JDACT

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O Mito Maçónico. Jay Kinney. «O Ofício, que até tinha assistido ao nascimento da república norte-americana e se fazia rodear de uma aura de virtude cívica, passou a ser visto como uma força corrupta que ameaçava a lei e a ordem»

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A um Oceano de Distância
«(…) O filme O Tesouro, realizado em 2004 por Jon Turteltaub e interpretado por Nicholas Cage, agarrou nesta velha premissa para apresentar uma história na qual os Pais Fundadores maçons esconderam pistas sobre a localização secreta (em solo norte-americano) do tesouro dos Cavaleiros Templários, nas costas da Declaração da Independência e em outros artefactos históricos. Numa demonstração de invulgar paternalismo, a Franco-Maçonaria norte-americana é, nesse filme, apresentada como uma benevolente fraternidade secreta que mantém o tesouro escondido porque ele é demasiado grande para ser possuído por um único homem ou um único país. Um desfecho que não se combina com a premissa de que foram os maçons que deixaram as pistas para que o tesouro fosse encontrado. Aparentemente, está-lhes no sangue serem criadores de segredos e disseminadores de pistas para esses mesmos segredos.
No Reino Unido, a opinião pública sobre a Franco-Maçonaria nunca deixou de ser associada aos maneirismos que afectam os modos da classe média alta, um sentimento que provoca a desconfiança das classes inferiores em relação ao Ofício, principalmente a classe trabalhadora, mas nos Estados Unidos, país no qual as diferenças entre classes não têm tanta importância nas relações entre os indivíduos, a Franco-Maçonaria tem sido observada pela generalidade do público como uma fraternidade formada por americanos de gema, oriundos dos níveis mais activos da sociedade. No seu pico de popularidade, a Franco-Maçonaria norte-americana contou com quatro milhões de membros, o que significa que em cada cem homens adultos, registados nos cadernos eleitorais, oito foram maçons.
Mesmo assim, o pedigree patriótico da Franco-Maçonaria norte-americana não a poupou de ser vilipendiada. O sentimento antimaçónico é algo que pesa na psique colectiva dos americanos e, mais uma vez, as responsáveis são as suspeitas de secretismo e corrupção. Mal tinham passado trinta anos depois da presidência de George Washington e um escandaloso incidente, que envolveu os franco-maçons da alta sociedade do Estado de Nova Iorque, provocou a fundação da terceira força política norte-americana: o Partido Antimaçónico. Em 1826, William Morgan, um maçon ressabiado, foi raptado nas vésperas de publicar um livro no qual, supostamente, revelaria a verdade sobre a Franco-Maçonaria norte-americana, incluindo descrições dos rituais. Morgan nunca mais foi visto. Houve quem dissesse que ele fora levado para o Canadá e ordenado a nunca mais voltar, mas, a pouca distância do ocorrido, um cúmplice do rapto foi capturado pelas autoridades e confessou que o homem fora assassinado depois de ter sido abduzido.
Seriam os rituais maçónicos assim tão terríveis que a sua revelação suscitasse a intolerância do público? Foi mesmo isso que os americanos pensaram. Contudo, os tais rituais já tinham visto a luz em diversas denúncias públicas, sob a forma de folhetins, há mais de um século, e a sociedade norte-americana não rebentara pelas costuras por culpa disso. Esta era a constatação de que o incidente com Morgan pedia uma leitura mais complexa. Infelizmente, o que se sucedeu piorou as coisas. Correu, nessa altura, o rumor de que a condenação do suspeito daquele crime estava a ser boicotada pelos maçons e o público sublevou-se. O Ofício, que até tinha assistido ao nascimento da república norte-americana e se fazia rodear de uma aura de virtude cívica, passou a ser visto como uma força corrupta que ameaçava a lei e a ordem. Na verdade, a Franco-Maçonaria nova-iorquina foi obrigada a dividir-se em duas facções rivais: a urbana e a rural (cada qual com as suas Grandes Lojas) por culpa das acusações graves que pesavam sobre o Grão-Mestre da segunda. Um historiador sugeriu que foi o medo de uma exposição pública dessa corrupção que esteve por trás do desaparecimento de Morgan, em vez das preocupações sentidas pela revelação dos rituais.
Fosse o que fosse que tivesse estado na origem do incidente, a Franco-Maçonaria norte-americana saltou da frigideira para o fogo e o anti-maçonismo transformou-se num movimento político responsável pela eleição, em diversos Estados, de parlamentares, congressistas e, no estado de Vermont, de um governador, antimaçónicos. Em 1830, foram criados cento e vinte e quatro jornais antimaçónicos, um surpreendente 1/8 dos jornais nacionais. A Franco-Maçonaria norte-americana eclipsou-se durante uma geração e os seus membros resignaram aos magotes. Cerca de duas mil lojas devolveram as cartas-patentes às respectivas Grandes Lojas e abateram colunas. Apenas na década de 1840 é que a Franco-Maçonaria se reanimou e ganhou novos elementos». In O Mito Maçónico, Jay Kinney, 2009, tradução de David Soares, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-176-0.

Cortesia de SEmergência/JDACT

O Mito Maçónico. Jay Kinney. «Mesmo assim, o livro tornou-se um “best-seller” graças ao público ávido de descobrir o que se passava naqueles meios secretistas; e que, depois da leitura julgou ver os seus medos confirmados»

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«(…) Cerca de cem anos antes de este episódio ir para o ar, já o escritor Rudyard Kipling se entretivera a satirizar o Ofício no conto O Homem Que Queria Ser Rei, adaptado ao cinema num filme memorável de John Huston, interpretado por Sean Connery (um verdadeiro maçon) e Michael Caine. Nessa história, dois soldados do exército britânico, tornados vigaristas, buscam as suas sortes pelas terras paquistanesas, atravessando a cordilheira do Hindu Kush até chegarem à província afegã do Nuristão; aí, ambos ascendem ao poder sobre várias tribos autóctones só porque são maçons: é que a religião preservada pelos sacerdotes tribais consiste numa espécie de sistema protomaçónico, no qual os sinais e toques usados pelos maçons do mundo civilizado encontram muitas semelhanças. Os dois malandrins são tratados como deuses pelos maçons selvagens até que um deles, como Homer Simpson, vai demasiado longe e provoca uma rebelião. Os soldados não têm escolha a não ser fugir para salvar a pele.
Kipling tornou-se maçon cerca de dois anos antes de escrever este conto. Trabalhando como jornalista na Índia, foi iniciado, em 1886, por uma loja de Lahore (composta por colonos e nativos), a capital da província paquistanesa do Punjab. Tratava-se de um mundo muitíssimo diferente da vila ficcional de Springfield, em que mora a família de Homer Simpson, mas os temas do segredo maçónico, poder e seus abusos estavam tão na moda nesses tempos como agora. O filme A Verdadeira História de Jack, o Estripador, realizado em 2001, interpretado por Johnny Depp e Heather Graham, avançou a ideia de que o assassino titular seria um maçon enlouquecido, incumbido pela própria rainha Vitória de abafar um escândalo que envolvia a realeza; tarefa que ele cumpre com requintes de sadismo, no dito filme. No final, acaba por ser julgado pelos irmãos maçons e a identidade dele é encoberta pelos agentes da polícia que também são obreiros.
Este filme baseou-se num mastodôntico álbum de banda desenhada, intitulado From Hell, escrito por Alan Moore e desenhado por Eddie Campbell. Uma banda desenhada que se inspirou numa teoria da conspiração concebida pelo escritor Stephen Knight num livro intitulado Jack the Ripper: The Final Solution. O mesmo autor escreveu, em seguida, um livro chamado The Brotherhood: The Secret World of the Freemansons, publicado no Reino Unido em 1983. As denúncias de Knight sobre alegada corrupção e conspiração dentro dos aparelhos policiais, judiciais e empresariais ingleses basearam-se, na maioria, em material colhido junto de fontes anónimas e em citações anedóticas. Mesmo assim, o livro tornou-se um best-seller graças ao público ávido de descobrir o que se passava naqueles meios secretistas; e que, depois da leitura julgou ver os seus medos confirmados.
A controversa reacção originada pela publicação do livro provocou, um pouco por todo o Reino Unido, uma série de pedidos de investigações oficiais, da revelação pública de quem fosse franco-maçon e o seu eventual despedimento de cargos da função pública. A pressão tornou-se tão forte que a Grande Loja Unida de Inglaterra foi obrigada a abandonar a prática de não dar importância a este tipo de calúnias e deu início àquilo a que se pode chamar de uma era de abertura e relações públicas pensadas de modo a dispersar suspeitas e a corrigir a péssima imagem que se desenvolvera. Em simultâneo, florescia um novo género de história alternativa que se tornara muito popular nas ultimas décadas. Os seus autores, a maioria britânicos, escreveram uma multiplicidade de livros que tinham como objectivo revelar os segredos perdidos da Franco-Maçonaria. Estes não consistiam nas ligações sórdidas entre os poderes instituídos e a sociedade secreta sob escrutínio, como no livro de Knight, mas em verdades que vinculavam a Franco-Maçonaria à ordem dos Cavaleiros Templários, aos cristãos joanistas, aos gnósticos, aos mistérios egípcios e até ao Divino Arquétipo Feminino. Estas verdades não passavam de um conjunto de velhas ideias românticas que se popularizaram entre os próprios maçons dos séculos XVIII e XIX e que, uma vez recuperadas, perduraram até à actualidade. Em seguida, veremos como surgiram essas verdades e se, com efeito, elas contêm alguma coisa de verdadeiro.

A um Oceano de Distância
A reputação de que a Franco-Maçonaria norte-americana goza junto da opinião pública desse país difere daquela de que desfrutam as suas análogas europeias, e com boa razão. É que há muito tempo que os maçons norte-americanos fazem gáudio da filiação maçónica dos Pais Fundadores, indivíduos como George Washington, Benjamin Franklin e Paul Revere, ao mesmo tempo que arrogam uma imagem de benevolência patriótica para a Franco-Maçonaria norte-americana: é uma crença popular, entre maçons e profanos, que foi o Oficio que esteve por trás da Revolução Americana de1776». In O Mito Maçónico, Jay Kinney, 2009, tradução de David Soares, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-176-0.

Cortesia de SEmergência/JDACT

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O Mito Maçónico. Jay Kinney. «… de forma deliciosa num episódio da série televisiva de animação norte-americana Os Simpsons, criada pelo desenhador Matt Groening, no qual nos é apresentada uma sociedade secreta…»

CapafantásticadolivroantimaçónicoLesMystèresdelaFranc-MaçonneriedeLéoTaxil (cerca de 1890)
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O mito maçónico
«(…) Sempre que a opinião pública julga ter compreendido a Franco-Maçonaria, se é que alguma vez a compreenderá, de todo, essa pseudo-compreensão é feita de determinados conceitos contraditórios. De acordo com eles, a Franco-Maçonaria é (à vossa escolha): uma anódina hoste de homens que se devotam à realização de rituais bizarros, vestidos com roupas estranhas; uma cabala secretista formada por elementos oriundos das mais poderosas e elevadas elites da sociedade; um grupo de patriotas conservadores e devotos que se dedica à filantropia e ao bem-comum; uma rede dissimulada de pagãos, ocultistas e cultistas new agers que conspiram para criar uma Nova Ordem Mundial; uma tradição centenária que perpetua sabedoria e ensinamentos esotéricos antiquíssimos. É difícil pensar em outra organização que tenha frutificado tantas especulações contraditórias. O público tem opiniões bem formuladas sobre grupos tão diversos como, por exemplo, os Escuteiros ou a Máfia, mas a verdadeira estupefacção ergue a cabeça no que diz respeito a Franco-Maçonaria. Quando, pela primeira vez, me dispus a descobrir a verdade sobre ela, achei que esse caldo de concepções era uma mistura fascinante. Existiria alguma coisa no Oficio (como a Franco-Maçonaria é apelidada pelos seus constituintes) capaz de fomentar percepções públicas tão particulares? Depressa descobri que quanto rnais fundo investigava, mais intrigante o assunto se tornava.
A descrição que a Franco-Maçonaria faz de si própria, e que pode encontrar-se nas fontes escritas e difundidas pelo Oficio, é inócua. De acordo com elas, a Franco-Maçonaria é numa das fraternidades seculares mais antigas do mundo..., uma sociedade de homens preocupados com valores morais e espirituais. os membros são instruídos nos seus preceitos através de uma série de rituais encenados que dão continuidade a antigas fórmulas, usando vestuário e ferramentas do ofício de pedreiro como alegorias. Será esta a fraternidade que William Cooper, hoje o arquétipo do teorista da conspiração, acusou de ser uma das mais malévolas e terríveis organizações que já apareceram à face da terra? Segundo as palavras de Cooper, os maçons são personagens poderosas que trabalham para a subjugação do globo.
Outro crítico da Franco-Maçonaria, chamado Martin Wagner, observou a fraternidade por outra perspectiva. Ele escreveu: tenho provas conclusivas que desvendam que a Maçonaria é um culto sexual, no qual os poderes geradores são idolatrados em rituais sob o disfarce de símbolos fálicos. O falicismo é a essência da religião que é a Franco-Maçonaria. É claro que os líderes maçons negam quaisquer suspeitas que se dirijam a este tipo de especulações. Na verdade, insistem que: a Franco-Maçonaria não é uma religião, nem pretende substituí-la. A sua qualificação essencial [a crença na existência de um Princípio Divino Superior] é aquilo que a torna aberta aos crentes de todas as religiões. A Franco-Maçonaria espera que esses homens mantenham as crenças pessoais; e, ao mesmo tempo, proíbe que se discutam assuntos religiosos nas suas assembleias.
Encontrei esta mistura de suspeitas e acusações em imensas ficções que evocam o Oficio, por vezes num registo humorístico. Inúmeros mitos maçónicos foram satirizados de forma deliciosa num episódio da série televisiva de animação norte-americana Os Simpsons, criada pelo desenhador Matt Groening, no qual nos é apresentada uma sociedade secreta chamada os Cortadores de Pedra. Nessa história, Homer Simpson (o patriarca da família disfuncional que baptiza a série) suplica para ser iniciado nesse clube exclusivo, a que pertencem dois colegas de trabalho e o patrão dele, o Burns. Assim que é admitido no seio dos Cortadores de pedra, Homer descobre, para sua felicidade, que pode usufruir de todos os privilégios e mordomias que são prerrogativas dos membros da sociedade, incluindo o uso de uma auto-estrada ultra-secreta. Ganhando a liderança da sociedade por mérito de um sinal de nascimento que o marca como sendo o escolhido, profetizado nas escrituras do grupo, Homer goza de um breve período em que se sente tão poderoso quanto Deus, até ao dia em que, num volte-face inesperado, pede aos seguidores que pratiquem o bem comum em vez de passarem o tempo deles em faustosas jantaradas. Esta decisão semeia, imediatamente, o descontentamento no seio da sociedade dos Cortadores de Pedra e toda a gente a abandona para formar uma nova fraternidade: a Antiga e Mística Sociedade Daqueles Que Não São Como o Homer». In O Mito Maçónico, Jay Kinney, 2009, tradução de David Soares, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-176-0.

Cortesia de SEmergência/JDACT

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O Mito Maçónico. Jay Kinney. «… pelo menos se não confundirem muito os factos históricos, mas outras explicações, criadas pelos críticos antimaçónicos, são perigosas…»

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«Em 2001, um mês depois de ter sido iniciado na Franco-Maçonaria, eu e a minha mulher fomos até Inglaterra. Aparentemente, o nosso hotel londrino encontrava-se a pouca distância do edifício de Freemason’s Hall o impressionante quartel-general da Grande Loja Unida de Inglaterra, a orientadora maçónica britânica. De modo geral, há visitas guiadas a Freemason’s Hall todos os dias, mas, por acaso, quando lá fomos, essas visitas não estavam disponíveis. Era o dia das comunicações trimestrais, para as quais se reúnem representantes de lojas e corpos provinciais de toda a Inglaterra. Disseram-nos para voltar noutro dia. Nesse momento, uma visão curiosa desenrolou-se diante dos nossos olhos, enquanto nos preparávamos para descer a escadaria até à rua. Uma série de táxis pretos estacionou à beira do passeio, à frente de Freemason's Hall, e de dentro deles saíram diversos passageiros quase idênticos, como se fossem os proverbiais Homens de Negro: vestidos com fatos e gravatas pretas, todos com pastas pretas nas mãos. Os homens, todos maçons, subiram a escadaria à pressa e entraram em Freemason’s Hall, enquanto que na rua mais táxis estavam a parar e a deixar sair mais maçons vestidos de preto.
Pensei: isto é a vida real ou, sem saber como, entrei num filme dos Monty Python? Aos meus olhos norte-americanos, aquela cena era quase cómica, mas, ao mesmo tempo, provocou-me um arrepio na espinha. A Franco-Maçonaria tem sido sempre acusada de ser um culto e o que acabara de ver não ajudava a dispersar essas acusações. Em que raio é que me fui meter?, pensei. Não demorei muito tempo a desmontar a estranheza desse episódio. A reunião trimestral estava prestes a começar. A maioria dos maçons devia ter vindo de comboio até Londres e apanhado táxis das estações ferroviárias até Freemason’s Hall. A maioria dos táxis de Londres é preta (e por razões que nada têm a ver com a Franco-Maçonaria). Ao contrário da Franco-Maçonaria norte-americana, a inglesa exige um código de vestuário simples, mas formal para as reuniões: daí os fatos pretos e as gravatas, aliás, o simples facto de toda a gente usar a mesma roupa serve para criar um espírito de fraternidade; em especial numa cultura ainda arreigada às convenções distintivas de classe. Então e as pastas? Tratavam-se das pastas em que eles levavam os aventais cerimoniais (que remetem para os aventais de trabalho dos pedreiros medievais, os supostos antepassados da Franco-Maçonaria).
Todavia, só passados muitos anos é que encontrei resposta para a pergunta que fiz nessa altura: Em que raio é que me fui meter? Há uma série de perguntas legítimas que são, imediatamente, formuladas quando se começa a querer compreender o que é, de facto, a Franco-Maçonaria. É mesmo urna sociedade secreta e se é, para quê tanto secretismo? De onde é que originou, na verdade? Para quê tantos rituais e aparatos estranhos? Qual é a razão dos nomes grandiosos dos graus e dos títulos oficiais? Qual é o motivo para que existam tantos graus iniciáticos diferentes, tantas ordens e organizações maçónicas? Ao fim e ao cabo, qual é o objectivo disto tudo? Será que existe alguma recompensa secreta que justifique a quantidade de tempo e esforço que ogastos ao longo dos séculos para manter esta enigmática instituição? Porque as respostas a estas questões não são fáceis de encontrar, até para maçons, quanto mais para profanos, um muro de pseudo-respostas tem sido construído para preencher essas lacunas. Algumas são inofensivas, como as especulações imaginativas dos historiadores alternativos, pelo menos se não confundirem muito os factos históricos, mas outras explicações, criadas pelos críticos antimaçónicos, são perigosas. E não apenas para os maçons, mas para a sociedade, em geral. Os nazis subiram ao poder na Alemanha por fazerem dos judeus e dos maçons os seus bodes-expiatórios e hoje em dia os locais de reuniões das lojas maçónicas têm sido alvo de atentados de fundamentalistas islâmicos. Acusações negras sobre a Franco-Maçonaria ser um culto satânico ou uma ferramenta das elites mais poderosas são receitas de sucesso para os escritores de best-sellers, mas essas historietas só servem para envenenar a opinião pública com declarações ilusórias e más interpretações paranóicas.
É claro que toda a gente gosta de uma boa história, o que, em parte, explica a popularidade de livros como os de Dan Brown, por exemplo. As fraternidades secretas podem ser excelentes assuntos para histórias de suspense, mas é preciso lembrar que as histórias são, bem vistas as coisas, ficções. Um romancista pode pôr-nos os cabelos em pé com as ligações suspeitas que vai criando nas suas ficções, e se for mesmo talentoso, é bem capaz de nos fazer acreditar nelas. Mas assim que fechamos o livro, é bom deixar as coisas fictícias lá dentro. De qualquer das formas, diz-se que a realidade é mais estranha do que a ficção. Vamos ver se isso é verdade». In O Mito Maçónico, Jay Kinney, 2009, tradução de David Soares, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-176-0.

Cortesia de SEmergência/JDACT