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sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Pedro IV. A História Não Contada. Paulo Rezzutti. «Esse espetáculo nacional patrocinado pela ditadura entrava em flagrante contraste com a primeira cerimónia de sepultamento, que em 1834 pretensamente levara Pedro ao seu descanso final…»

jdact

Um morto e quatro e funerais

«O caixão ficou em câmara ardente no Funchal, e a esse navio juntaram-se tanto os vasos de guerra brasileiros Pernambuco, Santa Catarina e Paraná quanto os portugueses Gago Coutinho, Sacadura Cabral e João Belo. A esquadra binacional foi saudada por aviões da Força Aérea Brasileira logo que entrou nas águas territoriais do país. Obedecendo ao cerimonial, a Funchal aportou no Rio de Janeiro em 22 de Abril, para que coincidisse com a data em que Cabral chegou ao Brasil em 1500. Esqueceram-se de que a mesma data também marcava o aniversário de 151 anos do decreto de João VI que estabelecera o filho como príncipe regente. No monumento aos combatentes brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial, o presidente português Américo Tomás entregou oficialmente Pedro à pátria adoptiva.

A propaganda política, a ditadura já se havia utilizado de símbolos populares, como alguns jogadores de futebol e a própria selecção brasileira, beneficiando-se muito e do prestígio obtido pelo suor e pela garra da equipa que sonhara a Taça do Mundo de 1970. Dois anos depois, Médici poria um morto e alguns vivos a correr o Brasil inteiro em favor da sua imagem. No próprio dia 22 de Abril, enquanto, sob o clamor de mais de 5000 pessoas, o corpo de Pedro seguia para o seu antigo palácio, na Quinta da Boa Vista, corredores partiam dos pontos extremos do território brasileiro, do norte, do sul, do leste e do oeste, levando uma tocha representativa do fogo simbólico da pátria. Ambos, corredores e Pedro, deveriam chegar sincronizados à colina do Ipiranga, no Monumento à Independência, em 7 de Setembro, 150 anos exactos depois do histórico dia.

Pedro recebeu um verdadeiro tratamento de santo. O seu corpo subiu e desceu de inúmeros camiões do Corpo de Bombeiros e de blindados militares, passou por diversas capitais brasileiras, sendo o seu caixão velado em várias catedrais pelo país. Morto, viajou pelo Brasil mais do que quando nele viveu. Sacolejado por todo o Brasil, o ex-monarca ainda achou quem o incomodasse.

Dentro do caixão, aberto em 2012, havia diversos cartões-de-visita. Alguns remontavam ao início do século XX; outros pertenciam a embaixadores e militares que tinham participado nas comemorações do Sesquicentenário.

Naquele 7 de Setembro de 1972, jactos sobrevoaram o monumento. Tiros de canhão, e até sons de buzinas, ensurdeceram o ar. Era como se o Brasil tivesse vencido mais uma partida de futebol.

Acontece, porém, que os portugueses não se haviam preocupado com o tamanho interno do local onde o caixão seria depositado. Se a ex-miss Brasil, Marta Rocha, perdera o concurso de Miss Universo de 1954 por conta de duas polegadas a mais nos quadris, Pedro ficaria quatro anos do lado de fora do sarcófago porque o caixão tinha oito centímetros a mais que o espaço que lhe era destinado.

Esse espetáculo nacional patrocinado pela ditadura entrava em flagrante contraste com a primeira cerimónia de sepultamento, que em 1834 pretensamente levara Pedro ao seu descanso final no Panteão dos Bragança, junto aos seus antepassados.

Pedro experimentou, nesse segundo funeral, tudo (e um pouco mais) o que não quisera experimentar no primeiro. No seu testamento, afinal, havia esclarecido que queria ser inumado como simples general. Ao contrário do ocorrido em 197 2, em 1834 o seu corpo foi levado para o jazigo durante a noite, o que parecia representar, na época, um processo de integração do morto no seu novo mundo». In Paulo Rezzutti, Pedro IV, A História Não Contada, 2015, Casa das Letras, 2016, ISBN 978-989-741-495-4.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

JDACT, Paulo Rezzutti, Pedro IV, Brasil, História, Conhecimento, Literatura,  

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Pedro IV. A História Não Contada. Paulo Rezzutti. «Portugal preparou-se para o traslado do ex-monarca. Localizaram o corpo no Panteão dos Bragança, no mosteiro lisboeta de São Vicente de Fora, e providenciaram três novos caixões para Pedro…»

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Um morto e quatro e quatro funerais

«No final, São Paulo ganhou a disputa e ficou com o corpo da imperatriz. Dessa forma, dona Leopoldina, que escrevera certa vez à irmã Maria Luísa: nesta corte é necessário um espírito de sacrifício, sob todos os pontos de vista, acabou por ir parar a São Paulo, cidade em que nunca estivera em vida, na famosa colina do Grito, 126 anos depois de morta.

A vinda do corpo de dona Leopoldina abria um precedente. A cripta passava de cenotáfio a um local consagrado pela religião católica, condição imposta pelos trinetos de dona Leopoldina, Pedro Henrique e Pedro Gastão, para que concordassem com o traslado do corpo desde o convento, no Rio de Janeiro, até à colina do Ipiranga. Estava criada, assim, a oportunidade de preencher o outro sarcófago vazio, dedicado a Pedro I.

A possibilidade de trazer o corpo do imperador surgiu 18 anos após a chegada de dona Leopoldina à cripta. Em 1964, foi instaurado no Brasil, a partir de um golpe, um regime militar. O nacionalismo, a exaltação dos símbolos pátrios e das festas cívicas, nas quais se buscava um simulacro de participação política no Estado Nacional, constituíram o cenário perfeito para a apoteótica festa em homenagem aos 150 anos de independência, em 1972. Desse modo, um comité foi instituído pelo presidente Médici visando a preparação das festividades e as diligências junto de outra ditadura, a salazarista, de Portugal, paru a vinda do corpo de Pedro para o Brasil.

Assim, o nosso inquieto imperador atravessaria pela terceira vez o oceano Atlântico, agora para protagonizar um espetáculo repleto de símbolos históricos e religiosos. Transformado pela ditadura brasileira numa verdadeira relíquia sagrada, é de se considerar a opinião que Pedro, paladino liberal e constitucional sem muita paciência para solenidades, teria a respeito de ser usado por um sistema de governo contra o qual provavelmente, se vivo, lutaria.

Opositores e defensores não faltavam na época no Brasil, inclusive entre descendentes de pessoas ligadas intimamente à vida de Pedro, como José Bonifácio Andrada Silva e o marquês de Barbacena. Dois frutos da linhagem do Patriarca da Independência, o deputado federal Zezinho Bonifácio e o general António Carlos Andrada Serpa, estavam ao lado do regime militar, nada, aliás, muito diferente da índole do famoso antepassado, reputado como homem autoritário. Por outro lado, Vinícius Caldeira Brant, sociólogo e ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), bem como descendente do marquês de Barbacena, era torturado nos porões da ditadura durante as festividades do Sesquicentenário da Independência.

Portugal preparou-se para o traslado do ex-monarca. Localizaram o corpo no Panteão dos Bragança, no mosteiro lisboeta de São Vicente de Fora, e providenciaram três novos caixões para Pedro: um de madeira, estofado e forrado internamente com tecido, onde o corpo foi acomodado, envolvido por um de chumbo e outro de pau-santo ornado com símbolos portugueses e brasileiros. O peso total era de 250 kg.

O cerimonial em Portugal teve início em 10 de Abril de 1972, quando houve uma cerimónia religiosa no Panteão dos Bragança. Posteriormente, o esquife foi conduzido por soldados portugueses até ao exterior do templo, onde uma força do 5" Batalhão de Caçadores, do qual Pedro fora comandante, prestou ao monarca as devidas honras militares. O caixão foi colocado num veículo do exército e transportado por Lisboa, sob escolta de um esquadrão de cavalaria da Guarda Nacional Republicana, até ao cais de Santa Apolónia, onde veio a ser embarcado no navio Funchal por fuzileiros navais de ambas as nacionalidades. Nesse momento, dois navios de guerra, um brasileiro e um português, deram uma salva de 21 tiros». In Paulo Rezzutti, Pedro IV, A História Não Contada, 2015, Casa das Letras, 2016, ISBN 978-989-741-495-4.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

JDACT, Paulo Rezzutti, Pedro IV, Brasil, História, Conhecimento, Literatura,

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Pedro IV. Paulo Rezzutti. «A cripta sob o monumento foi construída no início da década de 1950, com as paredes revestidas em granito verde e o tecto, não mais existente, em mármore amarelo»

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Um morto e quatro e quatro funerais

«A sua paixão por velocidade levava-o a conduzir, ele próprio, os cavalos do seu veículo, e a cavalgar a toda a carga pelos arredores do Rio de Janeiro. Isso causou diversos acidentes, como o de 1823 que o prendeu ao leito partido e sujo, semelhante ao estado em que se mostrava a meus olhos naquela manhã de Abril.

Quanto a ser aventureiro, então, esse é um capítulo à parte. Pedro não pensou duas vezes antes de se declarar brasileiro e lutar contra Portugal, terra natal da qual era herdeiro, pela independência do Brasil. Também não temeu largar tudo neste último país para reunir, após penhorar joías e prataria, um exército que invadisse Portugal e destronasse o irmão a favor da filha.

Se é na morte, como dizem, que encontramos a paz e o descanso que a vida nos tirou, Pedro não teve essa sorte. Aquela era a quarta vez que o tinham sepultado. A anterior havia ocorrido em meados de 1987, em virtude das obras no monumento e de uma das inúmeras inundações ocorridas na cripta. Os sarcófagos por pouco não acabaram submersos. Os seus imperiais ocupantes viram-se, como diversos outros brasileiros, com a casa inundada e tiveram de se abrigar num vizinho ou parente, no caso o Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga.

Os caixões de Pedro e de dona Leopoldina ficaram expostos ao grande público no salão Nobre do Museu, aos pés do quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo; para arrepio de alguns professores que conduziam excursões escolares e sussurros de rápidas ave-marias entre funcionários. Voltaram a cripta no final dos anos de 1980, em cima de um veículo militar escoltado por oficiais de diversas armas, em mais uma comemoração do 7 de Setembro.

A cripta sob o monumento foi construída no início da década de 1950, com as paredes revestidas em granito verde e o tecto, não mais existente, em mármore amarelo. O controverso Monumento à Independência, que fica acima, conhecido como bolo de noiva, é de 1922. Inicialmente, a cripta seria um cenotáfio, espécie de memorial fúnebre em homenagem a Pedro e dona Leopoldina, representados pelos sarcófagos vazios. O corpo da imperatriz permaneceu de 1826 a 1911 no convento da Ajuda. Devido às obras de remodelação da área central do Rio de Janeiro, o convento foi demolido e os sarcófagos de membros da família imperial, transportados para o Convento de Santo António. Pedro esteve em Portugal desde o falecimento, em Setembro de 1834.

O cenário mudou em 1954, durante a preparação para os festejos do quarto centenário da cidade de São Paulo. O instituto histórico local resolveu coroar a festa levando o corpo de dona Leopoldina do Rio de Janeiro para a capital paulista, a fim de o depositar na cripta. Um longo braço de ferro entre a ordem Franciscana, responsável pela guarda do corpo da imperatriz, e a comissão dos festejos teve início com o presidente Getúlio Vargas e o ministro da Educação e Cultura de um lado, querendo fazer a vontade dos paulistas, e os franciscanos, protegidos pelo arcebispo do Rio de Janeiro, dom Jaime Câmara, do outro». In Paulo Rezzutti, Pedro IV, A história não contada, 2015, Casa das Letras, 2016, ISBN 978-989-741-495-4.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

 JDACT, Paulo Rezzutti, Brasil, História, Conhecimento,

quinta-feira, 24 de março de 2022

Grande Sertão. Veredas. João Guimarães Rosa. «Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal na minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro! Um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser, se viu; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão!, determinaram, era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe! Quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente, depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja! Que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá, fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte.

Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele, dizem só: o Que-Diga. Vote! Não... Quem muito se evita, se convive. Sentença num Aristides, o que existe no buritizal primeiro desta minha mão direita, chamado a Vereda-da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita, todo o mundo crê: ele não pode passar em três lugares, designados: porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando: Eu já vou! Eu já vou!..., que é o capiroto, o que-diga... E um Jisé Simpilício, quem qualquer daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa; razão que o Simpilício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta p’ra ele rupeia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar... Superstição. Jisé Simpilício e Aristides, mesmo estão se engordando, de assim não-ouvir ou ouvir. Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem, no Andrequicé. Um Moço de fora, teria aparecido, e lá se louvou que, para aqui vir, normal, a cavalo, dum dia-e-meio, ele era capaz que só com uns vinte minutos bastava..., porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras! Ou, também, quem sabe, sem ofensas, não terá sido, por um exemplo, até mesmo o senhor quem se anunciou assim, quando passou por lá, por prazido divertimento engraçado? Há-de, não me dê crime, sei que não foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes, clareia razão de paz. Mas, o senhor entenda! O tal moço, se há, quis mangar. Pois, hem, que, despontar o Rio pelas nascentes, será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses... Então? Que-Diga? Doideira. A fantasiarão. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças!

Não seja. Eu, pessoalmente, quase que já perdi nele a crença, mercês a Deus; é o que ao senhor lhe digo, à puridade. Sei que é bem estabelecido, que grassa nos Santos-Evangelhos. Em ocasião, conversei com um rapaz seminarista, muito condizente, conferindo no livro de rezas e revestido de paramenta, com uma vara de maria-preta na mão, proseou que ia adjutorar o padre, para extraírem o Cujo, do corpo vivo de uma velha, na Cachoeira-dos-Bois, ele ia com o vigário do Campo-Redondo... Me concebo. O senhor não é como eu? Não acreditei patavim. Compadre meu Quelemém descreve que o que revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, flutuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes, dão encosto. Compadre meu Quelemém é quem muito me consola, Quelemém de Góis». In João Guimarães Rosa, Grande Sertão, Veredas, 1956, Livraria José Olympio Editora, Editora Nova Fronteira, 2001, ISBN 978-852-091-209-6.

Cortesia de NFronteira/JDACT

JDACT, João Guimarães Rosa, Brasil, Literatura, 

terça-feira, 8 de março de 2022

Poesia. Brasil. Paulo Moska, Francisco Gonçalves e Maria Betânia. «Onde estará o meu amor? Se a voz da noite responder onde estou eu, onde está você estamos cá dentro de nós. Sós»

Cordesia de wikipedia e jdact

Onde estará?

Como esta noite findará
E o sol então rebrilhará
Estou pensando em você
Onde estará o meu amor?
Será que vela como eu?
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim?
Onde estará o meu amor?
Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Sós
Se a voz da noite silenciar
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer
Onde estará o meu amor?

Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Sós
Se a voz da noite silenciar
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer
Onde estará o meu amor?

Onde estará o meu amor?»

Estou Pensando

«Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Pensar em te esquecer
Pois quando penso em você
É quando não me sinto só
Com minhas letras e canções
Com o perfume das manhãs
Com a chuva dos verões
Com o desenho das maçãs
E com você me sinto bem

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer

Eu, pensando em você
Pensando em nunca mais
Pensar em te esquecer
Pois quando penso em você
É quando não me sinto só
Com minhas letras e canções
Com o perfume das manhãs
Com a chuva dos verões
Com o desenho das maçãs
E com você me sinto bem

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer

Pensando em você
Pensando em você
Pensando em você
Pensando em você»

Cortesia de wikipedia/JDACT

JDACT, Poesia, Encantamento, Brasil, 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Poesia. Ainda Bem. «O meu coração já estava aposentado´sem nenhuma ilusão tinha sido maltratado tudo se transformou…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ainda Bem

«Ainda bem
Que agora encontrei você
Eu realmente não sei
O que eu fiz pra merecer
Você

Porque ninguém
Dava nada por mim
Quem dava, eu não estava afim
Até desacreditei
De mim

O meu coração
Já estava acostumado
Com a solidão

Quem diria que a meu lado
Você iria ficar
Você veio p’ra ficar
Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim

O meu coração
Já estava aposentado
Sem nenhuma ilusão

Tinha sido maltratado
Tudo se transformou
Agora você chegou

Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim

O meu coração
Já estava acostumado
Com a solidão

Quem diria que a meu lado
Você iria ficar
Você veio p’ra ficar
Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim

O meu coração
Já estava aposentado
Sem nenhuma ilusão

Tinha sido maltratado
Tudo se transformou
Agora você chegou

Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim

Ainda bem»

Poema de Arnaldo Antunes Filho e Marisa Monte 

Cortesia de MonteS e RosaC/JDACT

JDACT, Brasil, Poesia, Marisa Fonte,

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

A Filha das Flores. Vanessa Mata. «O dia não se adiantava nem atrasava, tudo era visto com o espanto de quem descobre coisas novas a todo instante. Era cheirado e sentido honestamente, demoradamente»

 jdact e wikipedia

«(…) Diziam os vingativos que as tais fofoqueiras teriam todos os traumas causados por elas revelados nos seus enterros, escritos nas suas línguas, que se estenderiam como pergaminhos, contando os seus males. Nas suas mortes, as línguas das fofoqueiras se rebelariam e sairiam dos seus corpos. Iriam ao lado do caixão, em caçambas, carroças, carrocerias, dependendo do tamanho da fofoca e da destruição causada por elas. Cheirariam tão mal que ninguém mais, nem os seus poucos entes queridos, as acompanharia até ao túmulo. Elas, as senhoras donas das suas línguas, quando ouviam tais pragas, paravam por algum tempo a sua compulsão, rezavam dezenas de novenas… mas logo caíam no vício novamente. A sua língua será enterrada numa carreta, fedendo como ovo podre, gritava um e outro, depois de qualquer fofoca descoberta. Titia Margarida achava que estava certa nas suas escolhas, os seus seios e pernas permaneciam firmes e esticados, arrebatadores e nocauteadores. E as suas coxas não podiam ser mostradas em qualquer dos cantos da cidade. Ela obedecia de pronto à picuinha da fofoca antes de ela começar, assim evitava qualquer mote. O invejado ditava as regras, e titia não as testava. Talvez estivesse realmente na maturidade do relacionamento formador de família, que não permite caçar formigas nem pular horas, se encontrando com o nada. Poderia dormir com os filhos nas ideias, enquanto nós, muitas vezes, dormíamos em cima de um ingazeiro velho, olhando os seus frutos que se assemelhavam a cobras, cada um com o seu galho largo e aprazível servindo de abraço. De madrugada, ele se balançava, e o barulho das folhas era sombrio, desmanchava lendas que contávamos baixinho como um remédio de brincar que produzia arrepios, mas que era também acalentador. Batia no íntimo fantasmagórico dos pântanos e no ninar da tarde da criança mais tranquila.

Cheirava a sombra e ao que era escondido, nunca claro o bastante. As estrelas relaxadas e exibidas. Na luz de Agosto, no pôr do sol, tons de laranja coloriam a todos e a tudo. O amarelo dourado ferrugem, quando chegava, era como se fritasse o final da tarde. Durante o pôr do sol, era possível ver o outro lado do mundo logo ali, até o cheiro podíamos sentir: cheiro de palavras deixadas de molho e saídas estufadas, façudas, esperadas em frente ao forno de tantas horas. A molecadinha juntava teorias: que a noite tinha assassinado o dia, ou que as cores que nos invadiam eram dos estágios da briga e da morte dele. Contavam os detalhes. Em cima do ingazeiro, narrando como um homem de circo, titia Florinda fazia as honras: o amarelo era o começo do inflamado, o início da grande luta; o roxo, a primeira punhalada, seguida da facada mortal; o vermelho, o seu sangue derramado no horizonte; e, por último, a penumbra da escuridão: a noite retirando o corpo do dia, jogando-o no precipício do outro lado do mundo e tomando o seu lugar de uma vez. Para matar o dia, a noite usava um punhal especial, cravejado de brilhantes que, depois do feito, se distribuíam em espécimes conhecidas como estrelas. O céu dali é mais bonito, mais largo e profundo do que em qualquer outro lugar. Enquanto um contava a saga da luta entre os dois seres gigantes, a noite e o dia, vez por outra eu contava a minha versão:

Nossa Senhora borda o maior céu para nós, num tecido que não se anuncia em acabar. É como se existisse um céu para cada noite e para cada lugar, para nos fazer companhia. Nossa Senhora nos deu este. O dia não morre, ela apenas o tapa para dormirmos num tecido grosso e milenar. Os furinhos no pano velho fazem com que a luz o atravesse e não nos deixe totalmente no breu. Titia Florinda ria dessa história e fazia questão de contá-la a todos os vizinhos, junto com a resposta dela, claro: Nossa Senhora tem mais o que fazer do que ficar bordando, bordando. Eu caía do sonho sempre que ela dizia isso. Quando acordava, os tempos eram cheios. O dia não se adiantava nem atrasava, tudo era visto com o espanto de quem descobre coisas novas a todo instante. Era cheirado e sentido honestamente, demoradamente. As coisas em tamanhos enormes, da casa às frutas. Acho que, com os anos, as nossas energias de observação diminuem, junto com o olfato, o tacto, a visão e a energia vital, e a nossa percepção vai-se apagando na distracção e nos afazeres. Perdemos a amplitude da infância, que nos faz perceber os detalhes puros e a enormidade das coisas. Num lado afastado do grande quintal, que se emendava com o jardim, havia mangueiras centenárias. Na época dos seus frutos, o chão se pintava de mangas e cheiros: coquinho, espada, bourbon, sabina, boi e abelhas de todos os tipos. Besouros, uns bichos do mato e, no alto das suas copas frondosas, araras e outros pássaros que conseguiam driblar as suas onipresenças. Todas com os seus pares, casadas para sempre, monogâmicas até à morte, e depois dela também. As senhoras frondosas, que chamávamos de baianas, eram generosas com todas as espécies e bichos de diferentes tamanhos, dos grandes aos rastejantes, até com as vacas do nosso vizinho Tenório, que dependuravam os pescoços nas cercas para alcançar algum fruto, e muitas vezes só faltavam pedir por favor ou pelo amor a Deus. A cada mugido aprendiam a ganhar mangas. Era uma verdadeira luxúria. Quando alguma manga pequena, morta antes do tempo, caía, fincávamos uma varinha entre ela e uma manga maior e, nesta, quatro varetas imitando as pernas. O fruto proibido era uma maçã?! Só se Eva não conhecia a manga! Lambuzávamos do rosto às bochechas, das mãos aos braços, e as ideias não eram mais as mesmas». In Vanessa da Mata, A Filha das Flores, 2013, Editora Schwarcz (Summertime, MarciaMoraes), Companhia das Letras, 2013, ISBN 978-858-086-825-8.

Cortesia de ESchwarcz/CdasLetras/JDACT

JDACT, Vanessa da Mata, Literatura, Brasil,

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina. José Presas. «Depois de feitos os primeiros cumprimentos, ofereceu-me uns periódicos para que me entretivesse com sua leitura enquanto voltava para despedir-se do núncio…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O bergantim atingira, na sua rota, o ponto em que me era forçoso abandoná-lo para continuar a viagem, e, aproveitando um cúter inglês, única embarcação que havia no porto, segui caminho até ao Rio de Janeiro. Previa o risco iminente que corria de ser considerado prisioneiro de guerra. Por outro lado, porém, não podia por mais tempo permanecer estacionado na vila de Santos, onde podia passar-se um ano sem que arribasse navio nacional ou estrangeiro. Com três dias de navegação fundeamos na baía do Rio, e logo tivemos a visita regulamentar. Informado o seu chefe, da minha procedência, voltou imediatamente a participar ao Governo a minha chegada. Pelas providências que este tomou, vim saber que se dava à minha pessoa grande importância, pois que no mesmo momento fui mandado chamar pela própria falua da visita, e conduzido por um ajudante-de-ordens perante o general comandante da praça, o qual, depois de amplo interrogatório, me despediu com a única ressalva de não sair da cidade sem expressa permissão sua. Com semelhante disposição, confirmaram-se meus receios e previsões, e vi-me reduzido, na minha opinião, à triste sorte de prisioneiro. Assim permaneci coisa de um mês, até que se apresentou, com dois navios de linha e outras embarcações menores, o contra-almirante Smith, que tendo recomendado a seu imediato, o comodoro Moor, que escoltasse a Família Real de Portugal até ao Rio de Janeiro, ficara cruzando diante da barra do porto de Lisboa, a fim de observar e tomar conhecimento das operações do general Junot e compenetrar-se dos objectivos e planos que este formava acerca de Portugal.

Dois dias depois da chegada do contra-almirante Smith, este me mandou, por intermédio do seu ajudante-de-ordens, Carol, solicitar instantaneamente tivesse a bondade de ir a bordo do seu navio, sem nada adiantar-me quanto ao objecto da entrevista que desejava. Mais a necessidade que a curiosidade decidiu-me a comparecer perante sir Sidney Smith, que me recebeu, na antecâmara de seu navio, com uma amabilidade e cortesia pouco comum em pessoas de sua carreira e categoria, ainda mais quando estão dominando, de suas fortalezas marítimas, a todos que encontram no seu caminho, ou nos lugares em que têm arvorado seu pavilhão, atitude que, geralmente, deixa de ser ameaçadora, para converter-se em fulminante. Depois de feitos os primeiros cumprimentos, ofereceu-me uns periódicos para que me entretivesse com sua leitura enquanto voltava para despedir-se do núncio de Sua Santidade, monsenhor Caleppi, que em companhia de dois portugueses tinha ido felicitá-lo por sua feliz chegada. Livre já das visitas de cerimónia, fez-me entrar no camarote, e iniciou a conversa perguntando-me acerca da situação do Rio da Prata, a saber: a respeito da opinião pública, número de tropas, meios e recursos com que podia contar o general Liniers para sua defesa, e se, quando saí de Buenos Aires, ali se temia que voltassem pela terceira vez os ingleses a conquistá-la. Minha resposta a todos esses quesitos foi um tanto exagerada a favor do general Liniers, de quem disse ter à sua disposição uns vinte mil homens, porque, após a última derrota experimentada pelos ingleses, se engrossaria o exército espanhol com tropas mandadas vir de todas as províncias, e que o aumentariam ainda reforços que se esperavam do vice-rei de Lima. Vi, pela fisionomia de Smith, que essa notícia lhe era pouco agradável; não obstante, continuou seu interrogatório apresentando-me um plano de toda a costa do vice-reinado de Buenos Aires, para que lhe indicasse qual o ponto que, na minha opinião, era o mais qualificado e favorável a um desembarque de tropas. Respondi-lhe ser essa matéria bastante estranha a meus conhecimentos, e que, mesmo quando possuísse alguns, sempre seriam muito inferiores, por uma razão natural, ao de um chefe de primeira ordem da Marinha Real Inglesa.

Sorriu com a resposta; e disse-me, então, francamente, que o objectivo de sua vinda era o de tentar, pela terceira vez, a conquista de Buenos Aires, para a qual se estava preparando uma grande divisão nos portos da Inglaterra. Já se passara algum tempo nessa conversação, e julgando ter satisfeito seus desejos, quis despedir-me, mas instou muito comigo para que o acompanhasse no jantar. Os ingleses costumam servir-se da mesa para arrancar dos convivas o que convém a seus interesses. Nessa ocasião, tinha de agir com a maior circunspecção, para ficar sempre senhor de mim mesmo e medir bem as palavras». In José Presas, Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina, Edição do Senado Federal, volume 130, Brasília, 2013, ISBN 978-857-018-271-5.

Cortesia de ESenadoFederal/JDACT

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Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina. José Presas. «Em começos do ano de 1808, precisando voltar da América do Sul para Espanha, embarquei-me num bergantim português que partia de Buenos Aires para a costa do Brasil…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Qual o intuito de José Presas escrevendo as Memórias secretas de Dona Carlota Joaquina? Na verdade, o aventureiro catalão só teve em mira cobrar-se dos seus serviços como secretário particular e fomentador da intriga do Prata. Escreveu esta obra com o intuito premeditado de fazer revelações indiscretas e dar a entender à então rainha viúva de Portugal que poderia ir mais longe ainda, relatando por miúdos factos a que faz alusões veladas e remotas. Em suma: tentava uma chantagem em grande estilo contra a antiga senhora e ama, cujas veleidades políticas animara, a fim de melhor fazer valer os seus serviços e justificar a permanência a seu lado. Época pitoresca era essa, em que os reis e rainhas colocavam acima do seu poder pessoal o seu confessor, temerosos de uma omissão, punível pela justiça divina, a ponto de escreverem suas confissões completas que, imprudentemente, deixavam ao alcance dos seus áulicos, capazes de comerciar com esses segredos, exigindo dinheiro em troca de silêncio! A parte final do livro de Presas, a conclusão, o arremate dessa obra que seria um simples pano de amostra, uma indicação do muito que ele sabia e do quanto seria perigoso deixar a rainha de atendê-lo, insinua com tanta arte e habilidade quando era possível em tão escuso negócio a premeditada chantagem: Medite também sobre as fatais consequências que lhe poderia ter acarretado, pondo em mãos do próprio príncipe (João) a confissão geral que, involuntariamente, e por esquecimento, me entregou..., e que devolvi, como devia, com os demais papéis, sem dar-me por entendido de que a havia visto e lido, etc. Finório como era, se naquela época já estivessem em uso as cópias fotostáticas, Presas teria, sem dúvida, muito inocentemente, tirado fac-símile das confissões de dona Carlota, como por certo havia tirado cópia manuscrita dos trechos mais comprometedores...

Em começos do ano de 1808, precisando voltar da América do Sul para Espanha, embarquei-me num bergantim português que partia de Buenos Aires para a costa do Brasil com destino ao porto da vila de Santos. Foi ali que tive a primeira notícia de que os exércitos francês e espanhol tinham invadido Portugal, e de que o general Junot, comandante do primeiro, se havia apoderado de Lisboa, sem ter conseguido impedir a fuga da Família Real, que, sob a protecção e guarda da esquadra inglesa, capitaneada pelo contra-almirante sir Sidney Smith, se refugiara nos seus Estados do Brasil. Ao mesmo tempo que os franceses se assenhoreavam de Lisboa, os espanhóis, às ordens do general Tarauco, ditavam leis na opulenta e importante cidade do Porto, e, operando ambos os exércitos com estreita aliança, tinham subjugado toda a Lusitânia, oprimindo extraordinariamente a todos os habitantes com o peso insuportável de uma guerra injusta e assoladora. O auxílio, que o governo da Espanha prestava com tanta generosidade aos projectos do imperador Napoleão nesta empresa, comprometeu a segurança pessoal de todos os espanhóis, que na ocasião se achavam nos domínios sujeitos ao príncipe regente de Portugal, o qual, pelas consequências de uma justa represália, não podia deixar de considerar como inimigos os súbditos espanhóis. Essa a sorte que me era lícito esperar desde que pusesse o pé em terra no porto de Santos. Não obstante, nenhum estorvo ali sofri, quer de parte do governo, quer da polícia». In José Presas, Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina, Edição do Senado Federal, volume 130, Brasília, 2013, ISBN 978-857-018-271-5.

Cortesia de ESenadoFederal/JDACT

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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina. José Presas. «Esse livro se caracteriza, sobretudo, pela polémica com o abade de San Juan de la Pena, defensor do absolutismo e de Fernando VII»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Merecia absoluta confiança da princesa. Pode-se dizer que foi ele quem conduziu sobre os ombros o pesado encargo de todas as negociações a fim de realizar os propósitos da infanta, tendo activa correspondência com os partidários de sua senhora e com vice-reis e demais autoridades coloniais. O marquês de Casa Irujo lhe imputa o facto de haver protegido no Rio de Janeiro os perseguidos pelo vice-rei de Buenos Aires. Isso, se realmente prejudicava os interesses da Espanha, favorecia os da princesa, posto que muitos desses perseguidos eram partidários seus. Por sua mediação, foram enviados importantes auxílios para Montevideu, sendo, para isso, burladas as intrigas de lord Strangford. Apesar das censuras dos historiadores argentinos à conduta de Presas, devemos reconhecer nele grande habilidade para a intriga e excelente perspicácia para observar as questões políticas. Esses dons representam o motivo que influi para que o embaixador inglês obtivesse, em 1812, a separação de Presas da princesa, seguindo ele para a Espanha no desempenho de missão especial. Sua vida, anos mais tarde, na Espanha, teve lances de certa sensação. Resolveu o ex-secretário de dona Carlota Joaquina fazer-se publicista, contribuir com a sua opinião para o esclarecimento das questões políticas e entrou logo a guerrear o absolutismo. O seu primeiro livro, impresso na casa Carlos Lawalle Sobrinho, em Bordeaux, circulou em 1817 e despertou grande celeuma, sendo proibido por decisão das autoridades policiais.

Aludindo a esse panfleto, cujo autor mereceria, no seu entender, pena de açoites, senão mesmo de fuzilamento, disse o alcaide de Madrid, Julian Cid Miranda: se Presas cai em meu poder, em menos de três dias eu o terei mandado à Plaza de la Cebada... Era o lugar em que os inimigos da realeza pagavam pela sua audácia. Presas teve, porém, a prudência de fugir para a França... Esse livro não era outro senão a Pintura de los males que há causado a la España el gobierno absoluto de los últimos reinados y de la necessidad del restablecimiento de las antiguas cortes por estamentos, o de una Carta Constitucional dada por el rey Fernando.

Além desse livro e destas Memórias secretas de Dona Carlota Joaquina, escreveu Presas um Juicio imparcial sobre las principales causas de la revolución de la América Española, y acerca de las poderosas razones que tiene la Metropoli para reconocer su absoluta independencia, um proyecto sobre el nuevo método de convocar lãs antiguas cortes de Espanã, conforme a las leyes fundamentales de la monarquia, y arreglado a las luces y circunstancias del dia; um panfleto político, Filosofía del trono y del altar del império y del sacerdocio, a que se seguiu outro: El triunfo de la verdad; e , por fim, uma Cronología de los sucesos más memorables ocurridos em todo el âmbito de la monarquia española, desde el año 1759 hasta 1836, este editado na Imprenta de M. Calero, em Madrid, em 1836, ao passo que todos os demais foram impressos em Bordeaux.

Imprimiu também, em 1815, antes de qualquer outro livro, uma Representación que eleva al Rey Nuestro Señor D.Fernando VII, por motivo das perseguições que sofreu em Granada, onde foi contador provincial, por parte de vários empregados por ser ligado à família reinante e, especialmente, à princesa do Brasil, de quem fora secretário. Em El triunfo de la verdad, publicou o ex-secretário de dona Carlota as cartas de Fernando VII a Napoleão Bonaparte, escritas em Valençay e nas quais o fraco soberano espanhol, num deplorável excesso de bajulação e covardia, felicitava o poderoso imperador dos franceses, usurpador de sua coroa e dos seus domínios, pelas brilhantes vitórias militares alcançadas... Esse livro se caracteriza, sobretudo, pela polémica com o abade de San Juan de la Pena, defensor do absolutismo e de Fernando VII». In José Presas, Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina, Edição do Senado Federal, volume 130, Brasília, 2013, ISBN 978-857-018-271-5.

Cortesia de ESenadoFederal/JDACT

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Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina. José Presas. «… como secretário de dona Carlota mereceu sempre lisonjas por parte desta, que apreciava e reconhecia nele as qualidades necessárias para o desempenho da sua difícil missão»

Cortesia de wikipedia e jdact

«As Memórias Secretas de dona Carlota Joaquina de José Presas constituem um dos livros mais pitorescos e mais ricamente informativos que se escreveram sobre o período regencial do Brasil. Essa obra, verdadeira raridade, que poucas bibliotecas actualmente possuem, nas suas duas únicas edições, uma tirada em Bordeaux, em 1830, na casa impressora Carlos Lawalle & Sobrinho, e outra em 1858, na Imprenta El Comércio, de Montevidéu, é citada unicamente por todos os historiadores que se ocuparam daquele importante período da nossa história ou da intriga desenvolvida pela princesa do Brasil para se apossar da coroa de rainha do Prata, em detrimento dos interesses de seu próprio irmão, o rei Fernando VII, da Espanha. Para alguns historiadores, como, por exemplo, Oliveira Lima, essa obra deve ser examinada sob prudente reserva. O depoimento de Presas é apaixonado e injusto, sem dúvida, em muitos passos. Isso, porém, não invalida a larga soma de informações que o livro possui sobre uma série de factos e episódios que interessam à história. Para outros, porém, o testemunho de Presas é digno de fé, merecedor de crédito. A julgar pela opinião da própria Carlota Joaquina, seu secretário deve merecer inteira fé, diz o sr. Tobias Monteiro, na sua nota à sua História do Império (Elaboração da Independência,  procurando dar forças a essa opinião com a transcrição da carta em que a princesa, recomendando-o a Fernando VII, dizia que era ele desprovido de toda a mentira e lisonja. Não pode, porém, prevalecer esse julgamento de dona Carlota sobre a atitude futura de José Presas. A princesa o teria, com toda a certeza, reformado totalmente... Preferimos, neste passo, a opinião de Oliveira Lima, que muito aproveitou, na sua obra D. João VI no Brasil, os subsídios de Presas. Podemos dizer, sem nenhum erro, que o retrato moral e físico da princesa, nessa obra se baseia quase que exclusivamente nos apontamentos das Memórias secretas de Dona Carlota Joaquina, também utilizados, em maior ou menor escala, em Duas grandes intrigas, de Alfredo Varela; A Corte de Portugal no Brasil, de Luís Norton; Carlota Joaquina, de César Silva; A Corte no Brasil, de A. C. d’Araújo Guimarães; Carlota Joaquina, de Assis Cintra; e D. João VI no Brasil, livro de Luís Edmundo que está sendo publicado fraccionadamente na imprensa.

Quem era esse singular personagem, que surgiu inesperadamente no Rio de Janeiro e se ligou, de tal forma, à história do período regencial no Brasil? São poucos os vestígios que deixou José Presas de si mesmo nos arquivos e bibliotecas. Os dicionários biográficos nada dizem sobre a sua existência, seu nascimento, sua origem, suas obras, sua morte. Omissão completa e inexplicável. Pouco conseguimos apurar sobre esse misterioso espanhol, hábil intrigante, arguto observador dos acontecimentos políticos, homem de muito engenho e habilidade, capaz de encher de sonhos vãos a cabeça da infanta Carlota, servi-la, enquanto possível, como secretário e homem de confiança e, em seguida, ainda obter, por sua real mercê, uma boa sinecura na Espanha, além da promessa de uma gorda pensão... O não pagamento dessa pensão foi a origem deste curioso livro, cheio de encarecimento dos serviços prestados e de ameaças de escândalo, caso não fosse o autor pago dos atrasados de dezassete anos de completo olvido...

Do pouco que se sabe ao seu respeito, consta o seu lugar de origem, a Catalunha. Meninote, ainda, José Presas fora para Buenos Aires, onde se educou sob os cuidados de seu tio e protetor, dom Francisco Sálvio Marull, que o internou, por sua conta, no Real Colégio de São Carlos. Terminado o curso de humanidades, Presas cursou a Universidade de Charcas, onde obteve o título de licenciado em leis. Estabeleceu-se, então, por conta própria, em Buenos Aires, com banca de advogado, fazendo-se chamar, de então por diante, dr. Presas. Quando a Inglaterra, tomando represálias contra a atitude política da Espanha em face de Napoleão, fez invadir Buenos Aires, Presas se declarou pelo partido inglês, convencido de que a dominação britânica era um facto consumado. Ao verificar-se a reconquista de Buenos Aires, com Santiago Liniers à frente, Presas foi preso como traidor, conseguindo, no entanto, fugir para o Rio de Janeiro. Nas Memórias secretas de Dona Carlota Joaquina o ardiloso catalão omite, por completo, esses interessantes detalhes...

A maneira pela qual chegou ao Rio e se colocou ao serviço da princesa, ele próprio no-la relata nesse trabalho. J. M. Rubio, na sua obra La infanta Carlota Joaquina y la politica de España en América, dá-nos algumas notas sobre as actividades de Presas: sua actuação como secretário de dona Carlota mereceu sempre lisonjas por parte desta, que apreciava e reconhecia nele as qualidades necessárias para o desempenho da sua difícil missão». In José Presas, Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina, Edição do Senado Federal, volume 130, Brasília, 2013, ISBN 978-857-018-271-5.

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terça-feira, 29 de junho de 2021

Poesia. Gilka Machado. «De súbito, houve um pasmo de esplendor, uma ebriez de beleza... E nossas almas se chocaram vertiginosamente…»

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Viagem ao Sétimo Céu

«Viagem de nossas almas,

galgando alturas,

vencendo longes,

na noite quente

que milhões de luzes

abrasavam ainda mais

Por entre céus,

subíamos

ao Silvestre;

a cidade,

lá em baixo,

era um céu infernal

e o céu dilatava os olhos

enamoradamente

para as estrelas

que bailavam no abismo

Que silêncios

e que ermos,

e que distâncias

incomensuráveis

entre nossos destinos!

Nossas almas viajavam

e as mãos afrodisíacas do vento

afagavam as ervas do caminho

e misturavam nossos cabelos

De súbito,

houve um pasmo de esplendor,

uma ebriez de beleza...

E nossas almas se chocaram

vertiginosamente,

num beijo sem lábios...

Chegaremos um ao outro

A cidade estendia

um tapete de sóis

aos nossos pés;

e nos olhares das estrelas

havia vontades longas

de escorregar para a terra;

e em toda a espiritualidade

do infinito

vislumbrei o desejo humano

de se precipitar

sobre o céu novo da cidade

infernalmente iluminada

E em meus membros senti

uma súbita fuga,

um desagregamento

de mim mesma,

uma ânsia de adormecer

nos seus braços

esta velha fadiga de ser alma».

Poema de Gilka Machado, in Wikipedia

Cortesia de wikipedia/JDACT

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