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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falamos longamente da chuva, do amor e das leis»

Cortesia de wikipedia e jdact

Polícia
«(…) Nessa manhã de Dezembro em que chovia (eu falaria depois a Annemarie da chuva lenta, longa), M. Maurice começou a duvidar da sua influência e da influência do partido comunista. Disse-me que já nada poderia fazer por mim. Seria melhor eu partir para a Alemanha ou a França, ou arranjar então lugar num barco que saísse de Antuérpia. Considerava as palavras do meu amigo enquanto bebia cerveja num bar perto da estação. No calor do bar a roupa fumegava. Gotas de água à volta. Calma solidão sem dor. Havia música. Meu Deus! A minha alma conhecia os seus caminhos. A terra era grande. Tudo quanto eu fizesse, cada coisa que me acontecesse, não me tomariam maior ou menor que a fé ou o desespero. Pois o desespero era antigo: uma delgada, tenacíssima raiz. Era uma experiência, um pensamento, um destino, algo que eu aceitava, que me induzia talvez a amar a vida. Estava só no meio da chuva tranquila. Podemos sempre beber uma cerveja como se fosse a última. Em cada instante a terra ainda consegue ser completa: é a única, e isso mesmo a renova. Annemarie sentou-se à minha mesa. Vi logo o tamanho da sua solidão: tinha o tamanho do mundo. Ela era a criatura mais só do mundo. E a sua história apareceu, simples, tenebrosa, entre as nossas duas cervejas. Todas as histórias pessoais são simples e tenebrosas. Não me comovi. Comovido já eu estava: com as coisas, comigo, com a chuva sobre a cidade. Talvez houvesse uma irónica alegoria em nós dois ali sentados diante dos belos copos frios, compreendendo ambos tão facilmente o que nos acontecia e iria acontecer que não tínhamos pressa. Poderíamos morrer ali mesmo. Esperávamos.
Annemarie era francesa, de Lyon. Abandonara um filho de dois anos. O marido combatia na Argélia, talvez estivesse morto. (Ela dizia que o amava, e por que não? O amor e o desespero e a desordem, isso é a nossa parte do jogo). Annemarie não queria regressar à França. Mas vivia na Bélgica sem documentos. Fora já posta na fronteira duas vezes: voltara, voltaria sempre. Que pode fazer uma pessoa senão voltar, estar fora, ser completamente estrangeira, não ter papéis? A terra é enorme. Paramos num sítio. E agora estamos sentados e procuramos, com a nossa história simples e desesperada, atrair o cuidado, o fervor alheio. É assim. Renovamos a espera inútil; o milagre onde não há milagres; a luz ao fundo, sempre ao fundo. Somos ilegais, em cada dia criamos uma rápida, brevíssima beleza surpreendente contra a face do pavor. M. Maurice perdera a última esperança de me salvar. O partido comunista, a viagem de ida e volta em comboio até Clabeck, a chuva, uma impossível salvação (que salvação?), embrulhavam-se dentro de mim, e eu sentia-me embriagado, feliz, irresponsável: sentia-me como se estivesse perto de morrer.
Agora uma mulher bebia cerveja na minha solidão, falava do filho que abandonara, do marido que estava na guerra. (Pronunciava as palavras devagar, arrancava-as inexoravelmente a esse sempre vivo e sempre secreto vocabulário do medo e do empenhamento.) Dizia sorrindo que estava perdida. Gostava da cerveja belga, achava Bruxelas insuportável. Sim, queria morrer. Queria morrer anonimamente, no fim do deserto. Eu percebia. Os chuis farejavam à volta da Gare du Nord, farejavam-nos a todos: pu…, chulos, vadios, indocumentados, ilegais. Sabiam que ela voltara: seria presa? Já o fora algumas vezes: não era o pior. Seria mesmo a única forma agora possível de pensar nas coisas, de avaliar o mundo. Mas aí acabava o jogo. Não se podia dizer: sou livre. Não se podia arriscar a liberdade. (E perguntar: que liberdade?) Eu também seria preso, repatriado: andaria depois por Lisboa a dormir em quartos de amigos, em camaratas públicas. À caça de um almoço, uma sopa, um copo de leite. Todos os lugares são no estrangeiro. E eu passaria junto ao rio, olhando a crespa e lívida massa das águas, a outra margem com o fumo vermelho das refinarias a sufocar a branca luz a prumo. E imaginava já a prisão em Bruxelas. Era preciso enganar a polícia. Rebentar de fome, sim, estrangeiramente, mas não perder nunca a liberdade. (E a pergunta: que liberdade?)
Annemarie tinha o dom da poesia subversiva. Subvertia tudo. A seu lado senti que a minha vida era importante. Que a arriscaria, sempre e sempre, que perderia, mas nada cedendo de mim próprio. O amor do perigo embebedava-me. Começávamos então a lutar contra a polícia do mundo inteiro. Quando anoiteceu saímos do bar e fomos a pé, vigilantes, protegidos, até ao meu quarto de Laeken. Contornamos o que nos parecia suspeito: um carro parado, um vulto vagaroso, as sombras, as vozes. Foi ainda preciso subir furtivamente as escadas do prédio, pois a senhoria já me mandara embora, porque 1º eu não lhe pagava a renda, porque 2º não queria complicações com a polícia. Mas depois o quarto foi nosso. Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falamos longamente da chuva, do amor e das leis». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, 1994, 2004, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-370-119-7.

Cortesia de AAlvim/JDACT

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Holanda
«(…) Não penso na minha alma, diria ele, nem na carne. Não me ponho a perguntar se ganharei a salvação. Eu preciso de amor. Preciso aprender. Mas parece que na comunidade já tudo se aprendera, estava tudo ensinado e sabido desde sempre. E os homens pensavam unicamente em preservar-se do sofrimento; desejavam que a linguagem ficasse intacta, sem mácula. Ele olhava o sol verde entre as patas das vacas e supunha poder envenenar-se legando o cadáver à confusão holandesa. E como se alimentaria essa confusão, como seria divertido o pequeno quadro holandês! Senhor, que lhe aconteceu? Salva-lhe a alma se puderes. Ele era um estrangeiro: envenenou-se. Nada mais sabemos. Que mal te fez a Holanda para a castigares assim? Muito lentamente, o seu amor desenvolveu-se. Era um amor que se aprendia a si próprio, cheio de medo e dúvida. O nosso amor pode atingir tudo?, perguntava. Ou perguntava então: até onde vão os direitos de um... homem? Ou de um poeta? Na Holanda não se fazem fogueiras ao ar livre: nada se percebe do fogo. A Holanda é um país cada vez maior. O mar rouba-lhe meio metro, e logo os holandeses roubam dois metros de terra ao seio fervente das águas. Não compreendo a justiça cósmica. E murmura para si: nada conhecem das coisas do fogo. Os dons mais profundos do homem estiolam dentro deles. Deverei amá-los? Amar o quê, quem?, pergunta a visita. Referes-te aos homens holandeses ou aos dons que esqueceram? E ele não sabe realmente aquilo a que desejava referir-se, o que lhe inspirava o desespero. Sentado na Holanda, pensa: piedade. Para ele? Para os homens holandeses? Em que jogos se enreda uma inocência!

Teoria das Cores
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe. O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor, sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor. Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose. Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.

Polícia
Le petit monsieur Leclair falhou mais uma vez. Nesse dia (Dezembro, chovia) eu fora à sede do partido comunista, recomendado pelo pequeno senhor Maurice Leclair, e recebera uma carta para as forjas de Clabeck. Em Bruxelas o meu trabalho era muito irregular. Só acidentalmente é que dispunha de algum dinheiro. Fazia um pouco de tudo: cortava legumes na Sobela, enfardava aparas de papel na Nouvel Maison Vermeiren ou ajudava Chez Lemaire, uma friture. Não tinha os documentos em ordem. Não havia quem me desse trabalho certo e suficientemente prolongado. Maurice pretendia meter-me em Clabeck, nas forjas (trabalho violento), e que por aí fosse solicitada ao ministério a carta de trabalho. Contava com a influência de alguém do partido comunista. Eu divertia-me sobretudo quando pensava que M. Maurice era antigo colaboracionista e gozava de direitos civis e políticos. A Bélgica era um país confuso, cómico. Por exemplo: o maior amigo do meu protector, um flamengo que amava a cerveja forte, pertencera à resistência.
Eu desejava trabalho, apenas isso. Também um pouco de calor. Pensava em raparigas com quem pudesse dormir ou ir, nas noites de sábado, aos bares da Chaussée d’Anvers. Eu tinha um quarto triste, sem aquecimento. Uma das janelas caía sobre a igreja e o cemitério burguês de Laeken. A outra dava para umas luzes distantes. Sob uma ponte próxima passavam comboios de mercadorias. Às vezes eu fazia com estes elementos estrangeiros um lirismo vagabundo e inocente. Também me sentia entusiasmado com a solidão. Encontrava-me fora dos quadros, vagueava pela cidade. Era já perigosamente conhecido Au Nord, perto da estação, onde as pu… e os chuis eram mais que as mães. De vez em quando perdia por ali uma tarde inteira, arranjava dinheiro para duas cervejas, um pacote de batatas». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, 1994, 2004, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-370-119-7.

Cortesia de AAlvim/JDACT

sábado, 12 de agosto de 2017

As Esquinas do Tempo. Rosa Lobato Faria. «Estranhavam-lhe os silêncios e chegaram a pensar que estava amuada por, na sua qualidade de primogénita, ter sido preterida pela irmã»


Cortesia de wikipedia


«(…) O sobrinho já é adulto. Penso que nem vive com ele. E não precisam de saber mais nada. Onde anda a Madalena? Está na cozinha, disse a mãe. A ajudar a Lucinda a fazer bolos para o chá. A cozinheira Felícia está ocupadíssima com a ceia. Depois do almoço vou ajudá-la. Quero dar o meu toque pessoal ao caril de lulas e ao molho do borrego. Aquele de que tu gostas, Firmino. O pai sorriu. E passou ali uma ternura que, por qualquer razão, sossegou a inquietação de Margarida. O senhor juiz desembargador Diogo António José Leite Pereira Castelo Novais Souza chegou à Casa da Azenha pelas quatro horas da tarde, mesmo a tempo de apreciar o chá. Era um senhor bem apessoado, estatura média, cabelos brancos, olhos azuis, que passou toda a merenda, enquanto trincava com os dentes da frente (provavelmente não tinha os de trás) os bolinhos da Madalena, a observar as três meninas.
Quando demorava mais a olhar uma delas sorria muito a seguir, como que a amenizar aquela mirada avaliadora. Margarida pensava que, se fosse escolhida, teria de invocar cem anos de direitos adquiridos pelas mulheres e explicar que não se considerava uma couve-flor exposta no supermercado (bom, na praça) para que a freguesa, neste caso o freguês, a levasse na alcofa. Imaginava a reacção daquele pai recém-adquirido que faria o que era costume fazer naquela época a qualquer mulher que saísse da norma e estrita obediência ao poder paternal: fechá-la a sete chaves no chamado asilo, onde amarrada à cama ou com banhos gelados e outras torturas haviam de fazê-la voltar à razão. Percebeu que a ideia era o juiz voltar mais vezes até tomar uma decisão. Com muita honestidade, a mãe Maria da Glória ia explicando as características de cada uma delas: Madalena a dona de casa, Mariana a maria-rapaz, Margarida a intelectual. Ficou, pois, a saber que costumava fechar-se na biblioteca a ler livros autorizados pelo pai e até os levava para o jardim ou para o quarto para ler na cama. Margarida ficou convencida de que foi isto que a salvou do casamento com o juiz desembargador, que escolheu Madalena, pois que marido iria querer uma sabichona, tendo à disposição uma dona de casa de dezoito anos, linda e receptiva?
Descobriu também que tinha vinte e dois anos, praticamente, para a época, uma velha solteirona, e alegrou-se com a ideia de que talvez não casasse por ter passado da idade e já não ser vendável a qualquer outro bom partido, se o houvesse, pois àquele fim-de-mundo não chegavam facilmente candidatos.
O juiz desembargador Diogo António José Leite Pereira Castelo Novais Souza ficou alguns dias hospedado na Casa da Azenha, para conhecer melhor a noiva, que parecia satisfeita por ter sido a escolhida e começou a ter ares superiores para as irmãs, um tom de soberba nas ordens às criadas e uma atitude servil perante o noivo, e que Margarida considerou deplorável mas, como não a conhecia não se atreveu a dizer-lhe nada. E, de súbito, foi assaltada por um pensamento terrível, devastador, e que era onde estaria a verdadeira Margarida, a que viera substituir, a que fazia dela uma impostora, e desejou que não estivesse em Lisboa a namoriscar o Pedro, a morrer de prazer nos braços do Miguel e a preparar-se para dar aulas de Matemática. Encheu-se de ciúmes e preferiu pensar que ela estaria no século dezoito, fechada num convento, a namorar pela grade os irmãos das outras freiras. Mas não sabia. Não lhe cabia escolher. E este desvio pelas esquinas do tempo, que escapava a qualquer lógica, colocava-lhe problemas que toda a sua ciência não explicava.
Estranhavam-lhe os silêncios e chegaram a pensar que estava amuada por, na sua qualidade de primogénita, ter sido preterida pela irmã. Ela deixou que esta versão vingasse, pois tinha medo de dizer qualquer inconveniência, falar, sem querer, de neurões, enzimas, cêdês, telemóveis, televisão, ipod’s, ou simplesmente de Fernando Pessoa, Saramago ou Jorge Luis Borges. Já que o tempo lhe pregava esta partida, podia, ao menos, apagar-lhe da memória um século de ciência e de evolução. Outras interrogações a assolavam como, por exemplo, se as pessoas que consideramos geniais não serão apenas viajantes de tempos mais avançados que sabem aquilo que ainda não sabemos!, então chegou Miguel, o sobrinho do noivo. Diogo António José tinha avisado que Miguel, seu único parente, viria para conhecer a noiva do tio. Era esperado em casa, mas ninguém, a não ser a mãe, na sua qualidade de anfitriã, pensava muito nisso. Madalena estava deslumbrada com a sua nova condição e ocupada com o enxoval. Levava os dias a bordar e a servir petiscos ao noivo. Queria a todo o custo provar-lhe que ele fizera a escolha certa. Mariana gostava de sair com o pai pela propriedade, supervisionar com ele a vindima que estava em curso, montar a cavalo e conduzir a charrette. Não ia ser fácil arranjar marido. Margarida divertia-se na biblioteca a descobrir os livros autorizados pelo pai Firmino. Eram obras para meninas românticas, com finais felizes, de autores desconhecidos, com nomes que pareciam pseudónimos, talvez de mulheres. Foi na biblioteca que a mãe Maria da Glória a encontrou: Margarida! Onde é que se meteu? Ah está aqui, pois claro. Venha tomar chá, temos uma visita. Na sala azul, despache-se». In Rosa Lobato Faria, As Esquinas do Tempo, Porto Editora, colecção Marca de Água, 2008, 2011, ISBN: 978-972-0-04181-4.

Cortesia PEditora/JDACT

A Trança de Inês. Rosa Lobato Faria. «Lisboa pouco ultrapassa o Lumiar, Benfica, Monsanto, o Porto fica-se pela Foz, Campanhã e São Mamede. Tudo o resto tem sido sistematicamente demolido»

Cortesia de wikipedia

«Um não sei quê que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê». In Luís de Camões

«(…) Talvez que, depois daqueles milhares de anos longos em que o tempo era o seu próprio embrião, o primeiro milénio da nossa era fosse a infância do tempo. Naquele século catorze que tantas vezes se me torna presente, encontro a demora da adolescência da história, o tempo detendo-se na penumbra dos castelos de pedra. No final do século vinte, que me trouxe a este cativeiro, descubro um ritmo diferente, mais vivo, mais rápido. Mas no princípio do século vinte e dois que agora frequentemente me aparece, tudo se passa em clarões velocíssimos numa sucessão de imagens iluminadas a azul-gelo, azul-inquietação, azul-miragem, como se o tempo tivesse envelhecido e estivesse com pressa de morrer. Estou louco, dirão. Sim, estou louco, já que chamam loucura a qualquer comportamento menos convencional ou sempre que a nossa mente tem acesso a um pouco mais do que à trivialidade estabelecida. Anda, vadio. Hoje vais comer ao refeitório. Já sabes que à mais pequena confusão...
Mas eu estou calmo. Estou a pensar nisto do tempo, estou a viajar dentro da minha cabeça e, excepcionalmente, estou com fome. Sinto falta de comer sentado à mesa, o prato na mão corta-me o apetite. Há caldo, a que eles chamam verde, mas onde as couves são castanhas. Há batatas guisadas com toucinho que uma vez por outra traz um pouco de carne entremeada e é bom. Tem molho e deram-me uma boa fatia de pão. E quando estou a limpar o prato como se tivesse que devolvê-lo lavado, vem-me tudo à ideia. A primeira imagem é a do oficial de ligação entre o SPP e os serviços prisionais, a dizer, levem-no, levem-no, não me façam perder tempo com o que já está decidido. Porque eu errei. Pequei contra o Planeta.
Este é um tempo em que os Governos da Terra decidiram que todos os males do mundo advêm do excesso de população. Refiro-me aos Governos Continentais donde emanam decisões que globalizam toda a legislação relativa à protecção do Planeta Terra. As crianças aprendem na escola que é preciso escolher entre o Homem e a Natureza, e ao escolhermos a Natureza estamos a salvar o Homem. Por mais cruel que isso seja para o indivíduo, acabaram-se os tempos bárbaros em que os interesses pessoais se sobrepunham à salvação da Terra. Esta doutrina intitula-se Salvismo. Agora o Planeta é o deus a quem todos devemos sacrificar. Por isso as leis são inexoráveis. Pena de morte para quem poluir as águas, derrubar árvores, incendiar florestas, matar animais ou os mutilar. Pena de morte para quem lançar qualquer espécie de substância poluente na atmosfera. Pena de morte para quem se reproduzir fora do sistema. Há, evidentemente, regras muito estritas para a criação e abate de espécies para alimentação dos humanos. Cedências no que se refere a bens de primeira necessidade. A vida tornou-se simples, próxima da natureza: estimula-se o artesanato, encoraja-se o despojamento. Mas isso só é possível com a redução drástica da população, para que se possa acabar com o abate de árvores, a industrialização, a construção desenfreada, o exaurimento dos recursos naturais.
Os Governos Nacionais orgulham-se das suas estatísticas que revelam diminuição progressiva da população que, com o tempo irá atingir a quota proposta de 20%. As medidas foram implementadas nos meados do século XXI, nem sequer passaram os cem anos das previsões, apenas cerca de setenta, pois estamos ainda no primeiro quartel do século XXII. Eu nasci em Dezembro de 2084, sou adulto na minha rememoração dos acontecimentos. Chamo-me Pedro Rey e negoceio em madeiras. É uma profissão trabalhosa, mas que me proporciona um nível de vida razoável. Dada a proibição de abater uma árvore que seja, a madeira tornou-se preciosa e atinge por vezes preços muito interessantes. Mas há que recuperá-la das demolições das cidades grandes. Isto é. As cidades periféricas, as zonas-dormitório, deixaram de existir porque a população diminui cada vez mais. E muitos dos habitantes das cidades, entusiasmados com os vantajosos apoios que lhes são propostos, optaram por ir viver em pequenas comunidades nos campos, aldeias verdejantes espalhadas por todo o país. Lisboa pouco ultrapassa o Lumiar, Benfica, Monsanto, o Porto fica-se pela Foz, Campanhã e São Mamede. Tudo o resto tem sido sistematicamente demolido para que, uma vez os terrenos limpos e tratados, se possam plantar florestas e jardins. Respeitam-se os edifícios que pela sua arquitectura ou valor histórico mereçam ser preservados e que passam a erguer-se entre frondosas matas em vez de continuarem a ombrear com dependências de bancos e lojas de quinquilharias. Portugal tornou-se mais bonito. E a Natureza, apaziguada, fez uma trégua na sua profusão de catástrofes e epidemias. Mas não. Ainda não é o paraíso». In Rosa Lobato Faria, A Trança de Inês, Círculo de Leitores, cortesia de ASA Editores, 2005, ISBN 978-989-660-034-1.

Cortesia CL/JDACT

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

As Esquinas do Tempo. Rosa Lobato Faria. «Não é a Margarida, é a minha bisavó, que por sinal também se chamava Margarida. Uma parecença incrível, não achas? Impressionante…»

Cortesia de wikipedia

«(…) Continua indisponível, disse Pedro. Não insistas. Ela foi dar um passeio e não tem rede. A Margarida diz que tu às vezes és um chato, e eu estou a ver que ela tem razão. Se eu ao menos soubesse em que hotel ela está. Mas não diz nada. Vou a Vila Real ou Bragança, ou Braga, sei lá, fazer uma palestra. Quando voltar telefono. Mas nem volta, nem telefona. Já é meio-dia, vou ligar à Matilde. Não faças isso, vais alarmar a senhora sem necessidade. Tens razão. É melhor aparecer à hora do almoço. És mesmo um chato, Pedro! Não sou eu que sou chato. És tu que não percebes nada de amor. Tens um casamento estável, tranquilo, uns filhos óptimos, para ti o amor é um dado adquirido. Mas de um modo geral há um que ama e outro que se deixa amar. Não é isso que dizem? Mariana, sabe alguma coisa da sua irmã?
Eu não, mãe. Não faço ideia. Acho que foi para o Norte. Vila Real, ou lá o que é. Ah, pois, é isso. Matilde estava a par das escapadelas da filha e tinha resolvido achar tudo natural. Preferia que ela tivesse dado um telefonema, como às vezes fazia, para dizer estou bem, mas talvez estivesse tão bem que nem lhe ocorresse telefonar. Antes assim. Desde que tivesse saúde. Quando Pedro chegou, mostrou-se tão tranquila que o contagiou com essa calma que muitas vezes a caracterizava. Senta-te, Pedro. Vou buscar um aperitivo. Mas Pedro não conseguia sentar-se. Andou às voltas na saleta de Matilde e reparou, na camilha do canto, numa fotografia que nunca tinha visto: Margarida vestida de dama antiga, segurando nas mãos um colar de pérolas. E quando Matilde voltou, que linda que está a Margarida nesta fotografia, vestida de dama antiga. Ela que odeia o Carnaval... Não é a Margarida, é a minha bisavó, que por sinal também se chamava Margarida. Uma parecença incrível, não achas? Impressionante. Pedro sentiu-se um pouco tonto. Sentou-se com a fotografia na mão e pareceu-lhe que aquela outra Margarida troçava da sua preocupação e do seu amor.

Margarida, no desespero de não ter um duche que lhe fornecesse água para o banho ou electricidade onde pudesse ligar um secador, lá ficou pronta, lavada a prestações, penteada pela Lucinda, vestida de menina rica do princípio do século vinte. Em compensação, o pequeno-almoço requintado tinha feito as delícias de uma viajante esfomeada. Um século mais tarde não teria comido melhor. A Lucinda levou a bandeja e recomendou-lhe que não se demorasse. Não tinha alternativa: era preciso descer. A escadaria, cheia de quadros, abafava os passos na passadeira de veludo bordeaux e as vozes, vindas de baixo, indicaram-lhe o caminho. Tinha imaginado que talvez os pais se parecessem com os pais, mas, a serem aquele casal austero, não se pareciam nada. A senhora, bastante velha, estava vestida de preto com uma blusa branca dejabot onde se aninhava um camafeu. Um cordão de ouro com duas voltas e brincos de brilhantes nas orelhas. O cabelo grisalho estava apanhado com várias travessas de tartaruga e sobre a cabeça tinha um pequeníssimo véu de tule bordado. Margarida pensou que se ela pintasse o cabelo havia de aparentar menos dez anos.
Bom-dia, Margarida. Está muito bonita. Dê-me um beijo, não precisa de estar assustada, disse a mãe com doçura. O pai não lhe vai ralhar por ter dormido até tarde. Nós sabemos que ontem não se sentia bem. Está melhor?, perguntou o pai, dando-lhe a mão a beijar. Estou um bocadinho melhor, obrigada. Queria ter dito obrigada, pai, mas não conseguiu. Sente-se, então. Não abuse das forças. Mariana também estava na sala. E essa sim, era idêntica à sua irmã do mesmo nome. Estava, como ela própria, mascarada de menina antiga e pareceu-lhe que tinha vontade de rir. O Senhor Novais Souza vai escolher-te a ti, tenho a certeza. Faz sentido, Mariana. A sua irmã é a mais velha e está em idade de casar, disse o pai. Espero que se portem impecavelmente. Não quero risinhos nem segredinhos. Correctas, discretas e, quanto a palavras, só as indispensáveis. Que idade terá esse senhor?, atreveu-se a perguntar Margarida. Estará na casa dos cinquenta, como eu. É um homem na força da vida. Está muito conservado. É viúvo, disse a mãe. E não tem filhos. Só um sobrinho que criou como se fosse filho dele. E quem se casar com o Senhor Novais Souza tem que fazer as vezes de mãe do sobrinho?, perguntou Mariana». In Rosa Lobato Faria, As Esquinas do Tempo, Porto Editora, colecção Marca de Água, 2008, 2011, ISBN: 978-972-0-04181-4.

Cortesia PEditora/JDACT

As Esquinas do Tempo. Rosa Lobato Faria. «É o..., pois..., deixe cá ver. 1908. É isso. É o 1908. Então Margarida percebeu que, como nos contos de fadas, tinha dormido cem anos, e viajado, durante o sono, no sentido inverso do tempo»

Cortesia de wikipedia

«(…) Sentiu-se agoniada. Pensou em vomitar para o balde por baixo do lavatório, fosse qual fosse o fantasma que viesse despejá-lo. A sua roupa interior desaparecera. Por baixo da camisa de noite cor-de-rosa tinha uma calçola pelo joelho, com um folho, do mesmo tecido e da mesma cor. Na cadeira, uma camisa de dia, de alças, e um corpete que não chegava a ser espartilho. Vestiu-se, isto é, na sua ideia mascarou-se, com o vestido de cassa. Olhou-se bem no espelho. Só o rosto era o mesmo. Não tinha verniz nas unhas, agora cortadas rentes. As sobrancelhas não estavam arranjadas e algumas rugas, que já espreitavam ao canto dos olhos, tinham desaparecido. Mas eram os mesmos olhos azuis, sim, a mesma boca cheia, as mesmas maçãs do rosto um pouco salientes. O que faço agora?, pensou, já disposta, por não ter alternativa, a entrar no jogo. Confirmou o que já suspeitava: a mala de rodinhas com o resto das suas coisas, não estava lá. O candeeiro da mesinha-de-cabeceira também não. Era, no seu conjunto, uma partida muitíssimo bem pregada. Mas não lhe parecia que aquelas senhoras amáveis que a tinham recebido fossem capazes de uma loucura destas. Foi à janela e viu o mesmo muro de pedra que lhe parecera ver na véspera e, para além dele, árvores de fruto e vinha a perder de vista. Ninguém a tinha teletransportado para um castelo na Escócia. Foi quando bateram à porta. Uma voz grave de mulher com forte pronúncia do norte, insistiu: menina Margarida, abra a porta! Que novidade é esta de se trancar? É a Lucinda, trago-lhe o pequeno-almoço. Vá lá, está a arrefecer!
Abriu. A Lucinda entrou, fardada de cinzento até aos pés, crista, punhos e avental branco, cujo laço engomado deixava cair duas pontas aladas até aos calcanhares. Bom-dia, menina. Pensei que estivesse doente. E faça favor de não se trancar, porque se lhe dá o ataque a gente não lhe pode acudir. Pousou a bandeja de prata na mesinha ali posta, certamente para esse fim, e de onde o tabuleiro da véspera, o chá, os bolinhos caseiros haviam desaparecido. Agora tinha uma almoçadeira de porcelana com chocolate quente, pãezinhos onde a manteiga se derretia, duas taças com compotas diferentes, e uma grande fatia do que parecia ser pão-de-ló. Vá, toca a comer. A menina hoje não me parece lá muito boa. E é bom que esteja, porque vem o tal amigo do paizinho que quer escolher noiva. As manas já estão prontas. A menina Mariana já anda aos pulos e a menina Madalena está a ajudar a fazer um bolo para o chá. Despache-se Margaridinha, pela sua saúde, antes que a mãezinha venha cá ralhar. Já mando a Rosa arrumar o quarto. Quer que a penteie? Ou vai andar com essa gaforina a receber as visitas?
Quero, disse Margarida, convencida de que aquilo era um filme onde teria de inventar as suas próprias deixas. Faz-me uma trança. Qual trança, qual carapuça. Vou pôr-lhe um laço de cetim amarelo que fica bem com os cabelos castanhos, tão lindos, que a menina tem. Puxo estes aqui para a frente, bem alisadinhos com o pente e prendo-os cá atrás com a fita. Amarelo, com o branco do vestido, fica bonito. Lucinda, que dia é hoje? Perguntou, enquanto a criada procurava numa gaveta cheia de fitas, ganchos e plumas. Que dia é hoje? Ora então a menina não sabe? É o quinze de Setembro. E está um calor que parece Agosto. Quem diria que daqui a nada é Outono. De que ano, Lucinda? Está a fazer pouco de mim? Só para ver se sabes. É o..., pois..., deixe cá ver. 1908. É isso. Não ando sempre a pensar que ano é, mas sei, pois. É isso. É o 1908. Foi este ano que mataram o Rei. Então Margarida percebeu que, como nos contos de fadas, tinha dormido cem anos, e viajado, durante o sono, no sentido inverso do tempo.

Continua com o telemóvel desligado, disse outra vez o Pedro. Eu sei como ela é: desligou-o ontem para a palestra e nunca mais se lembrou de que eu combinei acordá-la. Deixa-a dormir sossegada. É sábado. Talvez tenha decidido passar lá o fim-de-semana. Guilherme é um homem pragmático, sem as complicações sentimentais do amigo. Encontraram-se para um café a meio da manhã e ele esperava passar uma hora descontraído, quando afinal lhe apareceu um Pedro comido pelos nervos. Não estás a ver, Guilherme. O combinado era a Margarida vir para baixo hoje de manhã, ainda a tempo de irmos passar o fim-de-semana a qualquer lado. Não percebo esse vosso namoro. Não é bem namoro. É mais uma amizade colorida. Mais uma razão para a deixares dormir. Pedro inibia-se de confessar aquele ciúme que o devorava, que lhe punha traições na imaginação. O que andaria Margarida a fazer?
Teria conhecido alguém? Iria demorar-se no Norte só para se divertir à sua custa? Ou, pior que isso, nem sequer pensava nele? Era o mais provável. Colegas de profissão, ambos professores de Matemática na mesma escola secundária, amava-a desde a faculdade. Andaram juntos durante alguns meses, depois ela acabou porque decidiu que não queria compromissos, depois retomaram uma, duas vezes, e agora a situação, com a qual ele tentava conformar-se, era a de amigos que dormiam juntos uma vez por outra. Pedro soubera fazer-se amigo da família: do pai, um homem do mundo, formado em Direito, culto e rico; da mãe, uma mulher elegantíssima, só simpatia e charme, com quem Margarida se parecia; das irmãs, Mariana e Madalena, ainda estudantes, uma de Letras, outra de Informática. A tendência de Margarida e Madalena para os números parecia vir-lhes da mãe Matilde, que deixara o curso de Engenharia para casar com Salvador.
Pedro era da casa. Começara por dar explicações à Madalena, depois habituou-se a acompanhar Matilde a exposições de pintura, palestras e concertos para os quais Salvador não tinha paciência. Todos viam com bons olhos a hipótese de um casamento, mas Matilde, que conhecia a filha, não acreditava que isso viesse a acontecer. Margarida era demasiado independente e senhora da sua vida para casar sem estar perdidamente apaixonada. E não estava. Tinha um apartamento próximo da casa dos pais e vinha muitas vezes jantar, o que permitia a Matilde estar a par do dia-a-dia da filha mais velha e, ocasionalmente, dos seus sentimentos. Como daquela vez em que: mãe não conte comigo por uns dias. Vou viajar. Ai sim? Em trabalho? Não. Com uma pessoa. Ah». In Rosa Lobato Faria, As Esquinas do Tempo, Porto Editora, colecção Marca de Água, 2008, 2011, ISBN: 978-972-0-04181-4.

Cortesia PEditora/JDACT

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Trança de Inês. Rosa Lobato Faria. «… melhor arma, o seu mais belo enfeite, o seu mais valioso adereço, Pedro, eu sou virgem, mas haverá uma noite, não sei quando nem onde nem como, em que seremos um»

Cortesia de wikipedia

«Um não sei quê que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê». In Luís de Camões

«(…) Reprovavam tudo, a tua alegria, a tua beleza, o teu desassombro, a tua simpatia, o teu humor. Tenho que pedir desculpa ao senhor doutor Pedro por lhe ter trazido aquela descarada para o ajudar quando faleceu a minha mãe qual descarada pois, a, essa Inês Castro das relações públicas que dizem que é uma doida, nem sei como o paizinho não a despede. Está no período de experiência, nem tem que lhe dar indemnização não sei de que é que está a falar dona Zilda e por favor apresse-me o dossier dos lacticínios porque tenho uma reunião no exterior. A dona Zilda está feliz porque já deu a sua opinião, aliviou a consciência, mais tarde silvará, ele que não diga que eu não o avisei. No bar da firma encontro o Afonso Madeira, economista, um dos poucos aqui dentro com quem mantenho uma relação mais próxima. Posso dizer que somos amigos, enfim, já tomámos muitos copos juntos, ele janta às vezes lá em casa e já me apresentou uma ou outra namorada. Para disfarçar, diz a Constança, pois decidiu que o Afonso, lá porque é solteiro aos quarenta anos, tem que ser homossexual. Mas não é. Tem, isso sim, muita experiência de relações com mulheres e inerentes complicações.
Andas a arranjar lenha para te queimares, diz ele, mas como eu te compreendo. A mulher é deslumbrante achas bom já vi que é mais sério do que eu pensava, se te fechas ao assunto isso é um péssimo sinal. A Constança já sabe? E o que é que tu achas que a Constança deve saber? Que eu saio às vezes com uma colega de escritório? Que não existe entre nós essa coisa horrível, assustadora, demolidora de matrimónios que dá pelo nome de cama e que estás a brincar não estou a brincar mas é irrelevante, visto que já todos, incluindo tu, acreditam numa paixão tórrida, muito física, muito sensual e acham desenxabida uma relação platónica por mais poética que ela seja poética ou outra coisa qualquer que lhe queiras chamar. Deixa lá. Não te preocupes que não é desta que o mundo sai fora do eixo e cá dentro Inês, Inês, Inês, se eles soubessem que és virgem, que mo disseste com toda a altivez do teu sorriso, como quem expõe a sua melhor arma, o seu mais belo enfeite, o seu mais valioso adereço, Pedro, eu sou virgem, mas haverá uma noite, não sei quando nem onde nem como, em que seremos um.
Era na primeira luz da alvorada, lembro-me bem, saltei por cima do corpo adormecido do meu escudeiro para ir encontrar-te no claro-escuro da barbacã onde o sol nascente te punha ora na luz ora na sombra das ameias consoante, iluminada, te viravas à paisagem ou sombria rodavas para mim o teu perfil. Sabei que sou donzela e para vós guardarei a minha virgindade ou com ela morrerei. Uma jura demasiado pesada para mulher tão frágil ou talvez essa fosse a tua força. Porque eu ajoelhei e inexplicavelmente comovido te beijei, um por um, todos os dedos, esguios, branquíssimos, sem anéis. Foi nessa luz da manhã que me contaste que a princesa dona Constança te convidara para madrinha do nosso filho Luís, acabado de nascer, o que significava ficarmos, eu e tu, unidos por laços familiares que tornariam incestuosa qualquer relação física. Tal era a iminência de catástrofe que se desprendia dos nossos propósitos que julgávamos discretos, dos nossos olhares que supúnhamos imperceptíveis. A princesa sabia.
E o meu filho nasceu para morrer pouco depois e para sempre te sentiste culpada porque não pronunciaste em voz alta os votos que competiam à madrinha, apenas fingiste que os balbuciavas, num ardil ingénuo para te não vinculares ao parentesco, e depois acreditaste que o infante não ficara baptizado e morrera pagão. Mas isso foi apenas o princípio. Houve sempre um princípio, embora parecesse que tudo principiara muito antes, num mundo ainda por acontecer, quando o tempo ainda dormia, ou era tão vagaroso como o feto de um outro tempo por nascer. Desde que me mudaram a medicação, algo de estranho começou a acontecer na minha memória. Como se me lembrasse de um tempo a que por comodidade chamarei futuro, mas que não é futuro, é tão presente como aquele em que conheço Inês no escritório do meu pai ou aquele outro em que sou rei e mando matar os algozes da minha amada ou este aqui em que às vezes me fecham num compartimento de segurança para que não destrua o hospital. É como se tudo fosse agora e se confundisse dentro de mim, e só consigo distinguir as situações paralelas porque se passam em velocidades diferentes. É sabido que na infância o tempo não passa, na adolescência demora-se, na idade adulta corre, na velhice precipita-se». In Rosa Lobato Faria, A Trança de Inês, Círculo de Leitores, cortesia de ASA Editores, 2005, ISBN 978-989-660-034-1.

Cortesia CL/JDACT

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A Trança de Inês. Rosa Lobato Faria. «Mas não eras criança. Já o cinto te cingia as ancas, o peito despontava no corpete de lã. O olhar, que mantiveste erguido enquanto te inclinavas e as tranças louras te roçavam os joelhos, era de mulher…»

Cortesia de wikipedia 
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«Um não sei quê que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê». In Luís de Camões

«(…) Já desisti de explicar à dona Zilda que não sou doutor. Ela é uma secretária à antiga, herdei-a do meu avô, toda a vida secretariou doutores e tem imensa vergonha desta despromoção que é trabalhar para um sujeito sem título académico. Portanto, se o senhor doutor permitisse, eu ausentava-me três dias para cuidar da minha mãe que tem noventa anos e apanhou uma forte gripe. Esta Joana é capaz de não dar conta de tudo mas agora entrou uma moça nova para as relações públicas que também tem formação de secretária, já lhe falei e ela não se importa, se o senhor doutor autorizasse eu já não vinha de tarde. Está autorizada, dona Zilda, mande cá a menina das relações públicas, vejo que já tratou de tudo, aliás como sempre, vá descansada que elas cá se hão-de desenrascar. Fico-lhe muito grata, senhor doutor e já liguei para a florista, está resolvido o assunto da senhora dona Constança e o doutor Almeida aguarda uma palavrinha do senhor para marcar a reunião. Ah, e o seu paizinho não vem de manhã. Com pequenas variantes um dia como todos os outros, até que bateste levemente na porta e inundaste a minha sala com a água clara dos teus olhos e salvaste a minha vida com o filtro mágico do teu sorriso e acendeste o mundo com o ouro da tua trança semidesfeita e disseste, venho saber no que posso ajudá-lo, o meu nome é Inês.
Relembro este instante e logo outro com ele se confunde, outro bem mais remoto mas igualmente numa manhã de Inverno que secava ao sol a chuvada da véspera. Correria, não sei, talvez o ano de 1335, ou 1337, mas quem pode confiar na memória de um louco e que importam as datas nessa dinâmica fora do tempo a que chamam paixão. Estava de visita ao meu amigo Álvaro Castro, na Galiza, quando ele disse, (e garantiram mais tarde que não o fez por acaso) gostaria de apresentar-vos a minha irmã Inês, e empurrou a porta que dava para o pátio interior da casa e me fez aceder à contemplação dessa visão imorredoira, uma adolescente alvíssima de longas tranças, bordando a matiz, no seu bastidor, uma grinalda de flores e borboletas. Quem poderia imaginar que essa imagem de serenidade e paz desencadearia para todo o sempre os ventos da tragédia, da loucura, do amor e da morte? Eras a mais cândida das donzelas. Ergueste para mim os olhos, tão de mar que neles passavam barcos ao longe, voos tranquilos de gaivotas.
Mesmo depois das palavras do teu irmão, demoraste algum tempo a perceber que estavas na presença do Infante de Portugal e então, confusa e risonha, ergueste-te e, segurando o bastidor, com a agulha encostada ao dedal de ouro, fizeste a tua vénia rápida e infantil. Mas não eras criança. Já o cinto te cingia as ancas, o peito despontava no corpete de lã. O olhar, que mantiveste erguido enquanto te inclinavas e as tranças louras te roçavam os joelhos, era de mulher, determinado, altivo e tocado de azul. Quando, anos depois, entraste no reino de Portugal como aia da Princesa minha esposa, bastou-me ver aflorar à comissura esquerda da tua boca a sombra imperceptível de um sorriso, para saber que, tal como eu, não esqueceras aquela manhã soalheira de Inverno, aquela corrente de desejo que nos atou e que te fez Rainha ainda antes que o próprio destino o suspeitasse. Ó Pedro, abre lá a porra dos olhos que está aqui o almoço, enquanto não acalmares o facho não vais ao refeitório sou obrigado a pegar no prato de alumínio, a receber no nariz o bafo das batatas com bocados de fígado sabe-se lá de que animal, um molho aguado, rosado, a cheirar a adubo de tubérculo, às vezes pinto estes odores de comida requentada nos meus quadros de louco, numa fúria de borrões abstractos para não te retratar a ti, cuja beleza não é digna de nenhum manipulador de tintas e pincéis, às vezes a tua trança emerge da confusão alucinada das formas e eu sei que estás lá, que entraste na tela só para brincar comigo, com o meu coração esfarrapado, a minha incurável melancolia.
Mastigo como um ruminante apático a comida, fazendo sopas de pão duro no molho, nada me sabe a nada, tanto faz, e vem-me à ideia um outro tempo, a certeza de ter lá estado, não, não é o século catorze, aí não havia batatas, um outro tempo, mais limpo, mais claro, mais calmo, mais natural, mas nem por isso menos cruel. Sonho às vezes contigo nesse tempo futuro, não sei se são as drogas que eles me injectam que me fazem viajar na imaginação, na memória-ao-contrário, se, simplesmente, a intemporalidade da nossa paixão nos dá o dom da ubiquidade através de todas as eras, ou se vítimas de uma maldição, nos cabe a nós representar o homem eterno, a mulher eterna, renovando perenemente a mesma história singela e consabida de sujeição, amor, e morte antecipada. Quando começámos a sair juntos, para jantar quase sempre, para passear em jardins ou em museus às vezes, foi crescendo no escritório um murmúrio inaudível de intriga, um clima inconfundível de reprovação». In Rosa Lobato Faria, A Trança de Inês, Círculo de Leitores, cortesia de ASA Editores, 2005, ISBN 978-989-660-034-1.

Cortesia CL/JDACT

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A Trança de Inês. Rosa Lobato Faria. «Um dia que parecia igual a todos os outros, em que me arrependi pela milionésima vez de ter feito a vontade ao meu pai e ter ido trabalhar para a firma para compensá-lo um pouco do muito que o contrariei por ter estudado pintura…»

jdact e wikipedia

«Um não sei quê que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê». In Luís de Camões

«(…) Ao princípio achávamos que era apenas uma coincidência, Pedro e Inês e os seus amores contrariados, depois, com o decurso dos acontecimentos e o progresso da minha loucura comecei a pensar que eu devia ser a reencarnação de Pedro I, o Cru, mas agora tenho a certeza de que sou o próprio rei, o que não descansa, o que não dorme, o que arrasta a amada pelas noites fantasmagóricas do seu reino, o que manda acender fogueiras para aquecer-lhe o corpo gelado, pela morte, segredam uns, pela paixão perdida, afirmam outros. Não me juraste tu, Inês, que nada conseguiria separar-nos? Como puderam os esbirros de meu pai pensar que te matavam, que matavam este amor sem fronteiras, sem tempo, sem espaço, materializado de onde em onde na história, na eternidade, no coração dos homens? Somos, para sempre, da vida e da morte, para sempre, para sempre, para sempre, somos senhores do tempo, escravos do tempo, a droga que me enfiaram nas veias envolve-me agora nos seus tentáculos quentes e sábios, leva-me pelas ruas da eternidade, por onde é dantes, é depois, é agora, passado e futuro onde perenemente te encontro, te amo, te venero e te conduzo à morte e enlouqueço.
Uma manhã igual a todas as outras. O café com leite pouco quente, a taça da compota besuntada do lado de fora, a manteiga dura, impossível de espalhar no pão fresco. Não quero começar o dia a ouvir falar do meu mau feitio por isso finjo que como pouco só porque tenho pressa. Não me apetece ver a Constança com um roupão que já fez a sua época, dei-lhe um novo nos anos dela mas insiste em vestir sempre o mesmo, fica desmazelada, fica feia, fica mais magra, vem atrás de mim a pisar as manchas de sol de Inverno que as janelas desenham no encerado da casa de jantar, depois no da sala, que atravesso para apanhar as chaves que costumo largar no prato azul de porcelana antiga junto à porta da entrada. São os anos da minha tia, e sabes que ela não gosta de servir o jantar depois das nove. Se te atrasares não posso esperar por ti, estou farta de fazer tristes figuras por tua causa. Hás-de querer tomar banho, hás-de querer mudar de fato e podias mandar a tua secretária telefonar à florista, porque o presente que eu lhe comprei é um bocado simplório. Pedro, estás a ouvir.
Não, não estou a ouvir. Agora não estou com cabeça para te aturar. Liga-me mais tarde, pode ser que eu perceba qual é a tua invenção do dia para me chateares. Anos da tua tia Mila, parece-me bem que não. Que não quê, Pedro, que não quê, mas eu já fechei a porta, já me meti no carro, já estou a sair o portão e a pensar que daqui até Lisboa vou demorar horas, ou saio às sete da manhã de Cascais ou apanho uma fila interminável de pára-arranca. Tenho que pensar seriamente em arranjar um apartamento pequeno em Lisboa, perto do escritório, para evitar este calvário do trânsito, estas horas perdidas a ver crescer a manhã, agarrado ao volante e ao telemóvel, igual a todos os outros habitantes do formigueiro, atrás, à frente e aos lados. Dona Zilda, ligue à minha mulher, por favor, acho que ela precisa de qualquer coisa da florista, diga ao doutor Almeida que não marque a reunião com a agência sem eu chegar, e se o meu pai, ai o meu pai não está, então okay, eu depois falo com ele.
Um dia que parecia igual a todos os outros, em que me arrependi pela milionésima vez de ter feito a vontade ao meu pai e ter ido trabalhar para a firma para compensá-lo um pouco do muito que o contrariei por ter estudado pintura em vez de economia ou direito, Belas-Artes em vez de um curso sério, desses que servem para administrar empresas e aumentar fortunas. Cheguei irritado, em vez de dizer bom dia, pedi um café sem me deter, como os magnatas dos filmes americanos. A dona Zilda e a Joana do computador ainda se ergueram das cadeiras com recados, assuntos pendentes, mas já tinha fechado a porta fazendo jus à minha reputação de intratável, bruto e mal-agradecido. A dona Zilda entrou com pezinhos de lã, senhor doutor o cafezinho, se o senhor doutor me desse licença precisava que me ouvisse um instante, um minutinho só». In Rosa Lobato Faria, A Trança de Inês, Círculo de Leitores, cortesia de ASA Editores, 2005, ISBN 978-989-660-034-1.

Cortesia CL/JDACT

quinta-feira, 26 de março de 2015

Poesia. Mia Couto. «Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te não incomode. Não te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre está nisso»

jdact

Manhã
«Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos»
Novembro 1979


Palavra que desnudo
«Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo
Abril 1981

Poemas de Mia Couto, in ‘Raíz de Orvalho’

JDACT 

A Trança de Inês. Rosa Lobato Faria. «… espetam-me uma injecção ao acaso no corpo que se debate e suavemente surges do nevoeiro com a tua trança luminosa, os teus seios de nácar, as tuas ancas de deusa e ao som de cantos gregorianos que enfeitam a penumbra…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Um não sei quê que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê». In Luís de Camões

«Estou deitado sobre o lado esquerdo, de olhos fechados, imóvel, mas não estou adormecido nem sequer sonolento. É a minha posição de invocar-te, de poder esvaziar o espírito para receber a tua presença imaginária. Nesta imobilidade tomo muita consciência do meu corpo. O joelho direito pesa-me sobre o esquerdo. Osso com osso faz doer. Questão de dois centímetros, procuro uma almofadinha de músculo e fico bem. As mãos estão unidas, dedos juntos, palma contra palma, como um suplicante do século catorze. Unidas e entaladas entre a face esquerda e o colchão. Mas os dedos mindinho e anelar da mão direita começam a ficar ligeiramente dormentes. Não quero mexer-me mas tem de ser. Levanto a mão no ar, abro e fecho abro e fecho abro e fecho, pensar-se-ia que te digo adeus. Mas não. Nunca te direi adeus meu amor, e a mão volta para o seu lugar. Agora podes vir. Quero que desmanches a tua trança, que espalhes os cabelos louros, frisados, imensos, sobre o meu rosto, que roces os teus seios nas minhas costas, que deslizes por cima de mim, que me inundes do teu singularíssimo perfume. Ele está a espreitar-me. Sei que está. Não preciso de abrir os olhos para sentir uma alteração na luz. Isto acontece quando ele cola a testa ao postigo de vidro fingido da minha cela para saber o que se passa aqui. Sei que ele está lá porque intercepta a luminosidade da manhã tentando certificar-se de que estou a dormir. Ele gosta que eu esteja a dormir para ter o prazer de me acordar com dois berros. Hesita. Tão quieto assim só bem desperto ou morto. Os adormecidos movem-se no sono, mastigam o cuspo, murmuram. Enquanto o meu guarda-enfermeiro-carrasco espera que eu adormeça para me chamar em seguida, tu desvaneces-te, não queres testemunhas do nosso sagrado momento de amor. Voltarás mais tarde, talvez na primeira alvorada, para me embalares na tua nudez, na tua paixão, na tua piedade. Agora finjo que durmo. Volto-me com um resmungo, deixo cair um fio de baba pelo canto da boca. Ele entra. O doutorzinho está à tua espera, lazarento. Já ouvi falar deste novo médico que pergunta o mesmo a todos, foste violado pelo pai, abandonado pela mãe, sentes culpa na morte de um amigo. Não, não, não, respondem todos e ele fica num beco sem saída, não pode consubstanciar as suas teorias, não pode provar nada, não pode curar ninguém. Interroga-me num gabinete demasiado pequeno com o ar condicionado no máximo e tenho frio, não consigo pensar, dar respostas coerentes, quero estar nos teus braços, beijar a tua boca de ameixa doce e sumarenta como no tempo em que, e o doutorzinho, que idade tinha quando morreram os seus pais, como é que reagiu, sente-se culpado, e eu, ninguém morreu, nunca ninguém morre, só quem nós matamos na memória, no pensamento e no coração claro, mas não é isso, o que perguntamos é se, tenho frio, viu o seu pai morto, a sua mãe, algum irmão, diga-nos o que sentiu senhor Pedro Santa Clara. Não senti nada, fui eu que os matei no coração no pensamento e na memória, porque tenho a memória o pensamento e o coração ocupados com outras coisas tente lembrar-se, não me lixem os cor…, queríamos perceber a sua infância, estou cansado, alguém abusou, vá para o car…, doutor, com o seu Freud desenterrado, o seu plural majestático e a sua psiquiatria de compêndio, tenho a certeza de que você é que levou no … aos seis anos, pra cima de mim não o senhor Santa Clara não precisa de me ofender, acalme-o, senhor enfermeiro, eu cala-te, cab…, se não queres ir para a cela à prova de som metido numa camisa-de-forças, o senhor doutor só te quer ajudar minha besta tenho frio, quero o colete-de-forças, este doutorzinho saído dos cueiros não percebe nada, não sabe quem eu sou pois, já sabemos que és o D. Pedro, maluco de mer…, responde ao senhor doutor, responde, responde, responde, responde. Mas eu não quero responder, não me quero tratar, só quero os teus olhos atlânticos, verdes, transparentes, senhores de todos os segredos, de todos os feitiços, de todas as paixões, tira-me daqui, leva-me, embala-me, adormece-me, deixa-me pousar a cabeça no teu colo de garça, nas tuas coxas perfumadas, começo a gritar Inês, Inês, Inês, Inês, Inês, espetam-me uma injecção ao acaso no corpo que se debate e suavemente surges do nevoeiro com a tua trança luminosa, os teus seios de nácar, as tuas ancas de deusa e ao som de cantos gregorianos que enfeitam a penumbra, deixas que me apoie na seda dos teus ombros para atravessar, mísero, estropiado e chorando, as ogivas da minha solidão». In Rosa Lobato Faria, A Trança de Inês, Círculo de Leitores, cortesia de ASA Editores, 2005, ISBN 978-989-660-034-1.

Cortesia CL/JDACT

As Esquinas do Tempo. Rosa Lobato Faria. «O chá acabou por fazer efeito e dormiu até de manhã. Os lençóis de cambraia não guardavam qualquer sinal de violação ou de lutas amorosas, tão lisinhos e arrumados como se ninguém ali tivesse dormido»

Cortesia de wikipedia

«Quando Margarida chegou à Casa da Azenha teve aquela sensação, não desconhecida mas sempre inquietante, de já ter estado ali. Não era verdade. Vinha pela primeira vez a Vila Real, com o intuito de fazer uma palestra sobre novas técnicas do ensino da Matemática e os organizadores, cujo convite a lisonjeara, tinham-na instalado num belo turismo de habitação em vez de no rotineiro hotel. Foi recebida por três senhoras de meia-idade que se disseram irmãs e que, por corredores que a Margarida pareceram labirínticos, a conduziram ao quarto. Durante o trajecto, afigurou-se-lhe que as senhoras mudavam constantemente de rosto e de imagem, isto é, a que lhe parecera gorda era agora magra, a que lhe parecera alta agora era baixa e a que fixou melhor, pois fora a que falara e tinha uma bata azul forte com flores brancas, estava agora de escuro, com um casaco de malha com aplicações. Margarida pensou que estas alucinações se deviam ao vinho do Porto que a fizeram beber na pequena ceia que se seguira à palestra, e achou que uma boa noite de sono e a luz do dia a fariam rir desta maluqueira que lhe atravessava a mente. A baixinha, de novo alta, surgiu inesperadamente com bolos caseiros e chá de camomila, todas três em coro lhe desejaram boa-noite, esperando que tudo estivesse a seu gosto. Confusa, Margarida agradeceu e jurou que nada lhe faltava. Depois, fechou a porta à chave e preparou-se para dormir. Foi aí que sentiu o cheiro. Um cheiro talvez a remédio, talvez a malmequeres, talvez a creolina. Deu uma volta pelo quarto à procura da origem do cheiro e não encontrou nada que o justificasse. Reparou então que a cómoda, na parede fronteira à janela, estava coberta de fotografias que se pôs a analisar. Eram fotografias antigas, a preto e branco, amarelecidas mesmo, e representavam senhores e senhoras solenes e alguns meninos de canudos, com folhos a sair das mangas de veludo, calções abotoados abaixo do joelho, a perninha traçada mostrando a botina reluzente de graxa. Não havia crianças coloridas na praia, nem noivas de véus flutuantes, nem grupos risonhos de adolescentes. Ali não havia lugar a sorrisos. Todos sérios, todos austeros, provavelmente todos mortos.
Margarida sentiu um arrepio ao pensar nisto. Apalpou o colchão e encantou-se com o minucioso bordado dos lençóis de cambraia. Verificou a luz da mesa-de-cabeceira e foi à casa de banho fazer a sua toilette nocturna. Tomou um duche delicioso, enxugou-se com uma toalha de óptima felpa. Voltou para o quarto nua, pendurou uns jeans e uma tshirt que tirou da mala para vestir no dia seguinte. De repente sentiu-se incomodada, como se alguém a observasse. E percebeu. Na parede fronteira à cama estava um quadro a óleo representando um homem moreno. Um belíssimo homem, por sinal, que, ao contrário das fotografias da cómoda, parecia bem vivo e a olhava com olhos trocistas. Ela conhecia o truque dos pintores que fazem com que as figuras dos quadros mirem os observadores para onde quer que estes se dirijam. Mas aquilo era de mais. Não se tratava dos olhos vazios e inexpressivos que já vira tantas vezes, mas de um olhar bem vivo, irónico, crítico, apreciador, o olhar de um homem que conhece e ama as mulheres, e instintivamente Margarida foi à mala buscar um pijama e vestiu-o.
O que é que queres? perguntou, desafiadora. E ouviu nitidamente uma voz masculina, grave, doce, responder: tudo. Ficou aterrada. Era muito estranho o que se passava ali. Meteu-se na cama, mas não conseguia despregar os olhos do quadro. Foi com mãos trémulas que tirou os brincos das orelhas e os pousou na mesinha-de-cabeceira, ao lado do castiçal. Castiçal? Claro, para quando faltasse a luz. Que pelos vistos nunca faltava, porque a vela era nova. E o homem a olhar para ela. Tudo, continuava a dizer, agora em silêncio. Tinha-a visto nua, o que poderia esconder-lhe? A não ser o desejo que de repente a assaltou, e acreditou que, durante o sono, ele desceria do quadro e viria violá-la, amá-la com todas as forças, aventura de uma noite com um desconhecido, um feiticeiro, um fantasma. Decidiu beber o chá de camomila para a ajudar a conciliar o sono. Saiu cautelosamente da cama, esforçando-se por não olhar para o quadro. Mas sentia os olhos dele como duas brasas. Queimando-lhe o corpo, os seios, o ventre, as coxas, queimando-lhe a alma como um sortilégio. O seu instinto feminino avisava-a de que não poderia contar aquilo a ninguém, nem a Mariana, sua irmã e melhor amiga, que iria chamar-lhe doida, muito menos ao Pedro, seu namorado de cada vez menos dias.
A verdade é que o homem do quadro parecia ter uma inquietante semelhança com a pessoa por quem estava apaixonada, mas, quando se está louco de amor por alguém, parece-nos ver esse alguém em toda a parte. O chá acabou por fazer efeito e dormiu até de manhã. Os lençóis de cambraia não guardavam qualquer sinal de violação ou de lutas amorosas, tão lisinhos e arrumados como se ninguém ali tivesse dormido. Margarida abriu os olhos e sentiu que qualquer coisa de muito estranho se passava consigo. Deixou-se ficar de olhos fechados, buscando a certeza de que não estava a enlouquecer. Para começar, não tinha o pijama vestido. Apalpou-se sem olhar e sentiu um tecido finíssimo, idêntico aos lençóis. Pôde perceber as rosinhas bordadas na gola, as nervuras do peitilho. Sentiu também que o tecido se lhe enredava nas pernas, como se de uma camisa de noite se tratasse. Tinha a certeza de ter vestido um pijama azul: casaco e calças. Mas quando ousou abrir os olhos e levantar a roupa e espreitar para dentro da cama, viu a longa saia cor-de-rosa cheia de babados. Foi ele, pensou. Está a fazer troça de mim. Mas quando olhou para a parede, resolvida a perder o medo e a pedir-lhe satisfações, o quadro não estava lá.
Então, saltou da cama num pulo e dirigiu-se à casa de banho no intuito de tomar um duche frio que lhe devolvesse a sanidade. Mas aquilo que viu só piorou a situação. Em vez da retrete que instintivamente procurou, havia um penico alto, de esmalte, com pássaros pintados. A casa de banho não era mais casa de banho mas sim um quarto de vestir com um grande guarda-fatos cheio de vestidos antigos. A um canto imperava um lavatório de cerâmica na sua armação de ferro e paisagem cor de sangue, com árvores e passarinhos. O jarro igual estava pousado no chão, cheio de água. Na prateleira da armação havia escovas com cabo, um grande sabonete ovóide, uma luva turca. Dos lados pendiam duas toalhas de linho. Havia ainda um semicúpio de zinco com a respectiva toalha. As toalhas tinham uma linda barra bordada e eram debruadas a renda de um dos lados. Lavou-se como pôde e, ao inclinar-se para a bacia, verificou que em vez do seu habitual cabelinho curto, pintado de ruivo, tinha agora uma farta cabeleira castanha, levemente ondulada, que lhe chegava ao meio das costas. Alucinada, abriu o armário do quarto onde, na véspera, tinha pendurado a roupa. Mas em vez do tailleur e blusa de seda que vestira para a palestra e dos jeans, t-shirt e blaser que reservara para viajar naquele dia, estavam dois vestidos compridos, um de seda azul e outro branco, de cassa». In Rosa Lobato Faria, As Esquinas do Tempo, Porto Editora, colecção Marca de Água, 2008, ISBN: 978-972-0-04181-4.

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