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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Após uma viagem curta a bordo de um veículo utilitário, serpenteando por entre as vans de empresas que forneciam comida às companhias aéreas e os caminhões de combustível…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Embora eu nunca tivesse falado sobre ele com meus pais, os dois com certeza sabiam que eu já tivera meu quinhão de desilusões amorosas. Na realidade, eu às vezes desconfiava que a obsessão insistente de minha mãe com James Moselane era apenas o seu modo de consolar a nós duas. E que consolo maior poderia haver do que imaginar um futuro ideal em que eu morava na propriedade bem ao lado da sua casa, feliz para sempre?

Quando o Sr. Ludwig voltou, guardei a revista e tirei meu casaco de cima da cadeira para ele poder se sentar ao meu lado. Obrigada, agradeci ao pegar um dos cafés. O calor do copo foi uma bênção para minhas mãos nervosas. A propósito, o senhor não chegou a me dizer o nome da fundação que está pagando este nosso luxo. Ele removeu a tampa do seu café. Sou um homem cauteloso. Ele deu um golinho e fez uma careta. O que vocês, britânicos, têm contra o café? Bem, posso lhe dizer o nome: Fundação Skolsky. Açúcar?

Instantes depois, enquanto eu pesquisava freneticamente a Fundação Skolsky no Google, ouvi Ludwig dar uma risadinha e, quando olhei para cima, flagrei-o espiando descaradamente o meu celular. Não vai achar nada on-line, informou-me. O Skolsky prefere ser discreto. Coisas de bilionário. Talvez a intenção dele fosse fazer um comentário bem-humorado, mas não achei graça nenhuma. À nossa volta, o portão de embarque estava coalhado de funcionários da empresa aérea e passageiros com esperança de embarcar na frente, mas eu continuava sem saber quase nada sobre a nossa viagem. Desculpe, mas nunca ouvi falar na Fundação Skolsky, falei. A sede fica em Amsterdão, imagino... Ludwig se abaixou e pôs o copo no chão. Como eu disse, Skolsky é um homem discreto, um empresário interessado em arqueologia. Ele patrocina escavações no mundo inteiro. Encarei-o à espera de mais detalhes. Ele não deu nenhum, então me inclinei um pouco para a frente, deixando bem claro que esperava mais. Como por exemplo...?

Ludwig sorriu, mas algo na expressão predatória de seus olhos me disse que ele estava ficando irritado. Não posso dizer antes de chegarmos lá. É o protocolo da Skolsky. Fiquei tão incomodada com seu jeito desdenhoso que tive uma súbita lembrança do café intragável do aeroporto e das bem-intencionadas palavras de alerta ditas por James na noite anterior. A suposta inscrição das amazonas talvez fosse um trote..., ou coisa pior. Fora o que ele dissera. Peguei-me pensando mais uma vez em qual seria o meu papel em tudo aquilo. Estava ficando claro, e de forma bem desagradável, que Ludwig não sentia mais necessidade de cair nas minhas graças. Cheguei a desconfiar que o súbito declínio dos seus bons modos fosse um prenúncio da semana por vir. Qualquer pessoa normal prestaria atenção nesses sinais de alerta e iria embora enquanto ainda havia tempo. Mas eu não podia. O caderno vermelho da avó escondido na minha bolsa já derrotara o meu bom senso tempos antes. Está pronta?, perguntou Ludwig, pegando seu cartão de embarque. Vamos lá.

Segundos depois, descíamos a ponte de embarque. Eu ainda não sabia porque estávamos a caminho de Amsterdão, mas àquela altura tinha a certeza que seria inútil perguntar. E fiquei ainda mais desnorteada quando, em vez de subir a bordo, Ludwig parou para trocar algumas palavras com um homem de macacão e grandes protectores de ouvido de cor laranja. O homem primeiro me lançou um olhar desconfiado, depois abriu uma porta na lateral do portão de embarque e nos conduziu por alguns degraus instáveis de metal até chegarmos à pista, junto ao avião. Mesmo ali, do lado de fora, o ar estava tomado por barulho e cheiro de combustível queimado. Quando abri a boca para perguntar o que estava acontecendo, me senti sufocar com a fumaça do jacto e não consegui me fazer ouvir.

Após uma viagem curta a bordo de um veículo utilitário, serpenteando por entre as vans de empresas que forneciam comida às companhias aéreas e os caminhões de combustível, paramos ao lado de outro avião. Só nessa hora, quando vi minha mala trocar de mãos e desaparecer dentro do bagageiro, me abordei de que nosso suposto voo para Amsterdão fora apenas um disfarce cuidadosamente planeado. Mas não houve tempo de questionar o Ludwig sobre a mudança no nosso destino, pois, após um controle de segurança dos mais superficiais, fomos conduzidos depressa ao avião por uma escada de fundos. Belo acessório, comentou Ludwig quando o detector de metais emitiu um bipe ao passar por meu bracelete de bronze. A senhora usa isso como arma? Ainda não, mas posso vir a usar, retruquei, tornando a baixar a manga. Ele não precisava saber que o bracelete pertencera à minha avó e que eu o havia desenterrado da minha gaveta de lingerie poucas horas antes, como um marco inicial daquela inesperada aventura. Até onde Ludwig sabia, eu aceitara viajar por causa do dinheiro e da possível glória académica; não queria que ele descobrisse quanto aquilo era pessoal para mim. Se Skolsky podia se manter discreto, eu também podia». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Anne Fortier, JDACT, Literatura,

domingo, 23 de janeiro de 2022

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «… em toda a sua sabedoria libertina, devia ter-me ofendido de propósito para cauterizar minha ferida e, perfeccionista como era, completar minhas aulas de esgrima com o golpe mais honrado de todos: o de misericórdia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Imagino que o seu benfeitor não seja o jovem Moselane..., sugeriu meu pai, olhando pelo retrovisor. Quando me virei, vi James saindo da faculdade com uma raquete de ténis no ombro. Um calor repentino e nada agradável tomou conta do meu corpo. Ali estava ele, a sensatez em pessoa, lindo como nunca. Não seria mais prudente lhe dizer que eu iria viajar em vez de sair de fininho daquele jeito? Ai, droga, falei, conferindo o relógio. Temos de ir, sério. Meu pai continuou a olhar pelo retrovisor enquanto avançávamos pela Merton Street, decerto perguntando-se como contar à minha mãe sobre aquela agourenta mudança de cenário, e cada tremor de sua pálpebra fazia aumentar o bolo de culpa que eu sentia no estômago. Mas como eu lhe poderia contar a verdade? Ele nunca havia tomado qualquer iniciativa de conversar sobre a avó, nunca me contara sobre o caderno que ela claramente escrevera para mim. Abordar o assunto agora, a caminho do aeroporto, a uma velocidade para ele supersónica, não era uma ideia nada boa. Desculpe, meu pai, murmurei, afagando seu braço. Na volta eu explico.

Passamos algum tempo em silêncio dentro do carro. Com o rabo do olho, pude notar a preocupação paterna cada vez maior lutando contra sua boa índole, que tanto resistia a confrontos. No final ele respirou fundo e disse: Só me prometa que isso não é alguma espécie de..., fuga amorosa. Ele teve de levantar um pouco a voz para pronunciar a palavra. Nós temos dinheiro de sobra para pagar uma festa de casamento, você sabe. Fiquei tão chocada que desatei a rir. Pai, sério! Bom, o que quer que eu pense? Curvado sobre o volante, ele parecia quase zangado. Você passa três horas em casa, pergunta sobre a sua certidão de nascimento..., e agora vai viajar para Amsterdão. Ele me lançou um olhar, e na sua expressão pude ver uma centelha de medo genuíno. Prometa que isso não tem a ver com nenhum..., homem. Sua mãe jamais iria perdoar-me. Ah, meu pai! Inclinei-me para lhe dar um beijo na bochecha. O senhor sabe que eu jamais faria isso. Não sabe? Ele assentiu sem convicção, e acho que eu não podia culpá-lo. Embora fosse raro o assunto vir à baila, eu não tinha dúvidas de que meus pais haviam deduzido bastante coisa em relação ao meu grupo bastante heterogéneo de ex-namorados, aos quais Rebecca se referia como cavaleiros do Apocalipse, embora nenhum deles merecesse título tão nobre.

Por algum motivo, eu nunca tinha tido muito jeito com homens. Talvez a causa fosse minha própria predilecção por ficar sozinha ou quem sabe, como Rebecca sugerira certa vez (esquecendo por um instante minha paixão infantil por James Moselane), eu tivesse algum defeito genético passado por minha avó que me impedisse de me apaixonar. Sempre que algum relacionamento terminava mal, com lágrimas e palavras ditas para magoar, eu chegava a desconfiar que talvez não gostasse de homens e pronto, e que talvez por isso tivesse na gaveta da escrivaninha um maço cada vez maior de cartas de adeus me acusando de ser uma vaca frígida, embora em termos mais eloquentes, claro. Instigada por Rebecca, lá de Creta, na ocasião do meu vigésimo sétimo aniversário, cheguei a pensar que talvez meu problema pudesse ser resolvido simplesmente mudando o foco de homens para mulheres. No entanto, depois de reflectir a respeito por mais ou menos uma semana, tive de concluir que elas despertavam ainda menos meu interesse. A triste conclusão, decidi, devia ser que Diana Morgan estava fadada a ser solitária..., uma daquelas damas de ferro cujo legado, no lugar de netos, consistia em monografias de 3 quilos dedicadas a algum finado professor.

Três dias depois disso, Federico Rivera aparecera. Sendo frequentadora antiga do Clube de Esgrima da Universidade de Oxford, eu não me deixava impressionar fácil por homens exibidos, mas percebi na hora que aquele mestre espanhol que viera passar uma temporada em Oxford era outra história. Apesar de não ser bonito no sentido estrito do termo, ele era alto e tinha um físico invejável. E mais: possuía uma energia explosiva absolutamente inebriante. Federico era um perfeccionista não apenas na esgrima, mas também na arte da sedução e, embora eu tenha certeza de que ambos sabíamos desde o início quais seriam as consequências inevitáveis das minhas aulas nocturnas particulares com ele, passou vários meses concentrado nos meus golpes e contragolpes e mais nada..., antes de finalmente me seguir até ao chuveiro e me ensinar o coup d’arrêt sem dizer uma palavra. Nosso caso durou o Inverno todo e, apesar da sua insistência em que guardássemos segredo, acreditei piamente quando ele disse que eu era o amor de sua vida. Um dia, num futuro próximo, nós contaríamos sobre o nosso relacionamento..., nos casaríamos..., teríamos filhos... Isso nunca foi dito de forma explícita, mas ficou sempre subentendido. E quando ele fugiu de volta para a Espanha da noite para o dia sem nem ao menos se despedir, fiquei tão pasma e magoada que pensei que nunca mais voltaria a ser feliz.

Aí vieram todas as descobertas horríveis: os muitos outros casos dele em Oxford, a noiva furiosa em Barcelona, sua vergonhosa dispensa do clube de esgrima..., mas mesmo assim eu lhe escrevi várias cartas chorosas jurando amor e compreensão e implorando uma resposta. E ele respondeu. Vários meses depois, recebi um envelope gordo enviado de uma academia de esgrima de Madrid contendo todas as minhas cartas, a maioria ainda fechada, e 500 euros. Como ele não me devia dinheiro nenhum, fui forçada a supor que aquele era o seu modo de me remunerar pelos serviços prestados. Fiquei tão irada que levei semanas para entender que mestre Federico Rivera, em toda a sua sabedoria libertina, devia ter-me ofendido de propósito para cauterizar minha ferida e, perfeccionista como era, completar minhas aulas de esgrima com o golpe mais honrado de todos: o de misericórdia». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Anne Fortier, JDACT, Literatura,

sexta-feira, 9 de julho de 2021

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «O barco então balançou e os rapazes, na mesma hora estenderam a mão para amparar o pai. Mirina viu os três olharem nervosos para a água e entendeu…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Norte de África

«(…) Assim que chegaram perto o suficiente para serem vistas, Mirina acenou com a lança no ar para chamar a atenção dos outros. A água agora batia na sua cintura e Lilli ia agarrada às suas costas. Os homens a encararam incrédulos, o que não era de espantar. Eles nos viram!, arquejou Mirina, avançando com passos bambos pela água lamacenta. Estão sorrindo e acenando para subirmos a bordo... Ao se aproximar do barco, porém, viu que os homens não estavam sorrindo, mas sim gesticulando frenéticos, com os semblantes contorcidos pelo medo. Instantes depois, agoniados, os homens puxaram primeiro Lilli, depois Mirina para dentro do barco e, logo em seguida, aliviados, apontaram para a água enquanto desfiavam longas explicações num idioma estrangeiro. O que foi?, quis saber Lilli, segurando-se na túnica enlameada da irmã. O que eles estão dizendo? Quem me dera eu entendesse, murmurou Mirina. A julgar pela aparência, os pescadores eram o pai e dois filhos adultos. Não pareciam do tipo que se deixava abalar com facilidade. Eu acho...

O barco então balançou e os rapazes, na mesma hora estenderam a mão para amparar o pai. Mirina viu os três olharem nervosos para a água e entendeu, por fim, o motivo de seu alarme. Uma forma comprida e malhada rodeava o barco, deslizando o imenso corpo pela água barrenta. Seria um peixe grande? Mas ela não viu nem cabeça nem cauda, somente um corpo interminável da mesma grossura de um ser humano. Era uma cobra gigantesca. O que houve?, ganiu Lilli, sentindo a súbita tensão. Me diga! Mirina mal conseguia falar. Já tinha visto cobras grandes, claro, mas nunca algo como aquilo. Ah, nada, conseguiu articular, enfim. Só umas algas presas no casco. Após alguns segundos de aflição, a cobra pareceu perder interesse pelo barco, e os homens relaxaram e recomeçaram a conversar. Verificaram mais algumas armadilhas, mas a pescaria foi magra: apenas uma dúzia de peixes e um par de enguias. Apesar disso, eles pareciam animados ao recolher as varas e, a duras penas, começar a impulsionar o barco para a frente com movimentos curtos e ritmados. Para onde estamos indo?, sussurrou Lilli, trémula de cansaço. Mirina puxou a cabeça da irmã para junto do peito e afagou seu rosto sujo de lama. Para a cidade grande, leoazinha. A Deusa da Lua está nos esperando, lembra-se?

Aurora

Se o dr. Ludwig ficou surpreso ao me ver sentada junto ao portão de embarque, folheando com gestos casuais uma revista de bordo abandonada, não demonstrou nada. Apenas meneou a cabeça como se minha presença já fosse esperada e ofereceu: café? Assim que ele se afastou, relaxei de alívio e exaustão. Por mais calma que aparentasse estar, as últimas horas sem dúvida tinham sido as mais agitadas da minha vida, e eu não havia parado sequer para respirar depois de encontrar o caderno da avó no sótão. Por sorte, meu pai tinha-se mostrado muito disposto a uma pequena aventura e insistira em me levar até ao aeroporto. Mas confesso que estou um tanto curioso, dissera ele, de modo sensato, durante a nossa curta paragem em frente à minha faculdade em Oxford, enquanto eu lutava para enfiar no banco de trás do Mini a mala feita às pressas.

É só por uma ou duas noites, respondi, sentando-me no banco do carona e ajeitando meu rabo de cavalo. Talvez três. O motor continuava ligado e meu pai ainda segurava o volante, mas o carro não andou. E as aulas que precisa dar? Eu me remexi no banco, incomodada. Antes que o senhor perceba, eu já vou ter voltado. É uma viagem de pesquisa. Na verdade, uma pessoa está pagando para ir a Amsterdão...» In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Anne Fortier, JDACT, Literatura,  

quinta-feira, 8 de julho de 2021

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Duvido, falou Mirina, mentindo, enquanto golpeava a água à frente com a lança. Cobras não gostam de água aberta. Bem nessa hora, vozes as fizeram parar»

Cortesia de wikipedia e jdact

Norte de África

«(…) Tudo o que Mirina conseguia escutar era o grasnar dos pássaros. Vozes... Lilli girou a cabeça para um lado e outro. Vozes de homens. Esperançosa, Mirina escalou uma rocha grande para poder ver melhor. Diante delas se descortinava um litoral e uma grande extensão de água. Ficou aliviada. É o mar!, exclamou ela, apontando sem pensar. É enorme..., exactamente como a mãe disse que seria. Com excepção da mãe delas, ninguém da aldeia tinha visto o mar. Mas os anciãos faziam muitas referências a ele sentados à sombra da figueira, meneando a cabeça para concordar uns com os outros. O mar era grande, azul e perigoso, diziam, espantando distraidamente as moscas, e em seus litorais distantes havia cidades cheias de riscos e sofrimento, cidades povoadas por estrangeiros maus... A mãe sempre rira dessas palavras, lembrando às filhas que os homens costumavam julgar mal aquilo que não compreendiam. A cidade não é mais má do que o povoado, dissera ela certa vez, descartando aquilo tudo com um gesto da mão coberta de massa de pão. Na verdade, as pessoas lá são bem menos invejosas do que aqui. Então porque foi embora?, quisera saber Mirina, salpicando mais farinha nas mãos da mãe. E porque não podemos voltar para lá?

Talvez voltemos. Mas por enquanto é aqui que a Deusa nos quer. Mirina não havia se deixado enganar. Sabia que a mãe estava escondendo alguma coisa relacionada à Deusa da Lua. No entanto, não importava como formulasse suas perguntas, não conseguia obter as respostas que desejava. Tudo o que sua mãe dizia era: nós somos servas fiéis da Deusa, Mirina. Ela sempre nos vai ajudar. Nunca questione isso. Conforme as irmãs avançavam pela vegetação rasteira e pegajosa do estuário, Mirina descobriu que o mar era surpreendentemente raso e pantanoso. Juncos altos brotavam da água e não havia ondas; na verdade, a água mal se movia. Não estou gostando disto aqui, disse Lilli em determinado momento, quando as duas estavam afundadas até ao joelho na lama e na vegetação marinha viscosa. E se tiver alguma cobra?

Duvido, falou Mirina, mentindo, enquanto golpeava a água à frente com a lança. Cobras não gostam de água aberta. Bem nessa hora, vozes as fizeram parar. É a mesma coisa que eu escutei antes!, sibilou Lilli, aflita, grudando o corpo às costas da irmã. Está vendo de onde vem? Mirina afastou os juncos com a ponta da lança. Por entre o emaranhado de caules verdes, pôde distinguir um barquinho com três pescadores a bordo. Estavam entretidos demais com suas redes para reparar nas duas. Decidiu que eram trabalhadores, portanto dignos de confiança. Vamos! Foi levando a irmã pela água, ansiosa para chegar ao barco antes que ele sumisse. A perspectiva de passar mais uma noite no leito seco do rio ou naquele pântano coalhado de insectos era insuportável. Aonde quer que aqueles pescadores fossem, ela e Lilli iriam também». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Anne Fortier, JDACT, Literatura

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Encarei-o à espera de mais detalhes. Ele não deu nenhum, então me inclinei um pouco para a frente, deixando bem claro que esperava mais. Como por exemplo...?»

Cortesia de wikipedia e jdact

Aurora

«(…) Quando o sr. Ludwig voltou, guardei a revista e tirei o meu casaco de cima da cadeira para ele poder sentar-se ao meu lado. Obrigada, agradeci ao pegar um dos cafés. O calor do copo foi uma bênção para as minhas mãos nervosas. A propósito, o senhor não chegou a me dizer o nome da fundação que está pagando este nosso luxo.

Ele removeu a tampa de seu café. Sou um homem cauteloso. Ele deu um golinho e fez uma careta. O que vocês, britânicos, têm contra o café? Bem, posso dizer-lhe o nome: Fundação Skolsky. Açúcar?

Instantes depois, enquanto eu pesquisava freneticamente a Fundação Skolsky no Google, ouvi o sr. Ludwig dar uma risadinha e, quando olhei para cima, observei-o espiando descaradamente o meu telefono móvel. Não vai achar nada on-line, informou-me. O sr. Skolsky prefere ser discreto. Coisas de bilionário. Talvez a intenção dele fosse fazer um comentário bem-humorado, mas não achei graça nenhuma. À nossa volta, o portão de embarque estava coalhado de funcionários da empresa aérea e passageiros com esperança de embarcar na frente, mas eu continuava sem saber quase nada sobre a nossa viagem. Desculpe, mas nunca ouvi falar na Fundação Skolsky, falei. A sede fica em Amsterdão, imagino... O Ludwig se baixou e pôs o copo no chão. Como eu disse, o Skolsky é um homem discreto, um empresário interessado em arqueologia. Ele patrocina escavações no mundo inteiro.

Encarei-o à espera de mais detalhes. Ele não deu nenhum, então me inclinei um pouco para a frente, deixando bem claro que esperava mais. Como por exemplo...? O Ludwig sorriu, mas algo na expressão predatória de seus olhos me disse que ele estava ficando irritado. Não posso dizer antes de chegarmos lá. É o protocolo da Skolsky. Fiquei tão incomodada com o seu jeito desdenhoso que tive uma súbita lembrança do café intragável do aeroporto e das bem-intencionadas palavras de alerta ditas por James na noite anterior. A suposta inscrição das amazonas talvez fosse um trote..., ou coisa pior. Fora o que ele dissera. Peguei-me pensando mais uma vez em qual seria o meu papel em tudo aquilo. Estava ficando claro, e de forma bem desagradável, que o Ludwig não sentia mais necessidade de cair nas minhas graças. Cheguei a desconfiar que o súbito declínio dos seus bons modos fosse um prenúncio da semana por vir. Qualquer pessoa normal prestaria atenção nesses sinais de alerta e iria embora enquanto ainda havia tempo. Mas eu não podia. O caderno vermelho da avó escondido na minha bolsa já derrotara o meu bom-senso tempos antes.

Está pronta?, perguntou Ludwig, pegando no seu cartão de embarque. Vamos lá. Segundos depois, descíamos a ponte de embarque. Eu ainda não sabia porque estávamos a caminho de Amsterdão, mas àquela altura tinha certeza que seria inútil perguntar. E fiquei ainda mais desnorteada quando, em vez de subir a bordo, o Ludwig parou para trocar algumas palavras com um homem de macacão e grandes protectores de ouvido de cor laranja. O homem primeiro me lançou um olhar desconfiado, depois abriu uma porta na lateral do portão de embarque e nos conduziu por alguns degraus instáveis de metal até chegarmos à pista, junto ao avião. Mesmo ali, do lado de fora, o ar estava tomado por barulho e cheiro de combustível queimado. Quando abri a boca para perguntar o que estava acontecendo, me senti sufocar com a fumaça do jacto e não consegui fazer-me ouvir.

Após uma viagem curta a bordo de um veículo utilitário, serpenteando por entre as vans de empresas que forneciam comida às companhias aéreas e os caminhões de combustível, paramos ao lado de outro avião. Só nessa hora, quando vi a minha mala trocar de mãos e desaparecer dentro do bagageiro, me toquei de que nosso suposto voo para Amsterdão fora apenas um disfarce cuidadosamente planejado. Mas não houve tempo de questionar o Ludwig sobre a mudança em nosso destino, pois, após um controle de segurança dos mais superficiais, fomos conduzidos depressa ao avião por uma escada de fundos. Belo acessório, comentou Ludwig quando o detector de metais emitiu um bipe ao passar pelo meu bracelete de bronze. A senhora usa isso como arma? Ainda não, mas posso vir a usar, retruquei, tornando a baixar a manga.

Ele não precisava saber que o bracelete pertencera à minha avó e que eu o havia desenterrado da minha gaveta de lingerie poucas horas antes, como um marco inicial daquela inesperada aventura. Até onde Ludwig sabia, eu aceitara viajar por causa do dinheiro e da possível glória académica; não queria que ele descobrisse quanto aquilo era pessoal para mim. Se Skolsky podia manter-se discreto, eu também podia. Enquanto a aeronave manobrava até à pista de decolagem com nós dois bem presos por nossos cintos de segurança na primeira classe, falei para Ludwig: talvez agora seja um momento oportuno para o senhor me informar aonde vamos... Ele encostou sua flûte de champanhe na minha. Para Djerba. A uma viagem produtiva. Desculpe o subterfúgio; é que há muita coisa em jogo». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

 Anne Fortier, JDACT, Literatura, 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Anne Fortier. A Irmandade Perdida. «… a noiva furiosa em Barcelona, sua vergonhosa dispensa do clube de esgrima..., mas mesmo assim escrevi-lhe várias cartas chorosas jurando amor e compreensão e implorando uma resposta»

Cortesia de wikipedia e jdact

Aurora

«(…) Por algum motivo, eu nunca tinha tido muito jeito com homens. Talvez a causa fosse minha própria predilecção por ficar sozinha ou quem sabe, como Rebecca sugerira certa vez (esquecendo por um instante minha paixão infantil por James Moselane), eu tivesse algum defeito genético passado por minha avó que me impedisse de me apaixonar. Sempre que algum relacionamento terminava mal, com lágrimas e palavras ditas para magoar, eu chegava a desconfiar que talvez não gostasse de homens e pronto, e que talvez por isso tivesse na gaveta da escrivaninha um maço cada vez maior de cartas de adeus me acusando de ser uma vaca frígida, embora em termos mais eloquentes, claro.

Instigada por Rebecca, lá de Creta, na ocasião do meu vigésimo sétimo aniversário, cheguei a pensar que talvez o meu problema pudesse ser resolvido simplesmente mudando o foco de homens para mulheres. No entanto, depois de reflectir a respeito por mais ou menos uma semana, tive de concluir que elas despertavam ainda menos meu interesse. A triste conclusão, decidi, devia ser que Diana Morgan estava fadada a ser solitária..., uma daquelas damas de ferro cujo legado, no lugar de netos, consistia em monografias de 3 quilos dedicadas a algum finado professor. Três dias depois disso, Federico Rivera aparecera. Sendo frequentadora antiga do Clube de Esgrima da Universidade de Oxford, eu não me deixava impressionar fácil por homens exibidos, mas percebi na hora que aquele mestre espanhol que viera passar uma temporada em Oxford era outra história. Apesar de não ser bonito no sentido estrito do termo, ele era alto e tinha um físico invejável. E mais: possuía uma energia explosiva absolutamente inebriante. Federico era um perfeccionista não apenas na esgrima, mas também na arte da sedução e, embora eu tenha certeza de que ambos sabíamos desde o início quais seriam as consequências inevitáveis das minhas aulas nocturnas particulares com ele, passou vários meses concentrado nos meus golpes e contragolpes e mais nada..., antes de finalmente me seguir até ao chuveiro e me ensinar o coup d’arrêt sem dizer uma palavra.

Nosso caso durou o Inverno todo e, apesar da sua insistência em que guardássemos segredo, acreditei piamente quando ele disse que eu era o amor da sua vida. Um dia, num futuro próximo, nós contaríamos sobre o nosso relacionamento..., nos casaríamos..., teríamos filhos... Isso nunca foi dito de forma explícita, mas ficou sempre subentendido. E quando ele fugiu de volta para a Espanha da noite para o dia sem nem ao menos se despedir, fiquei tão pasmada e magoada que pensei que nunca mais voltaria a ser feliz. Aí vieram todas as descobertas horríveis: os muitos outros casos dele em Oxford, a noiva furiosa em Barcelona, sua vergonhosa dispensa do clube de esgrima..., mas mesmo assim escrevi-lhe várias cartas chorosas jurando amor e compreensão e implorando uma resposta.

E ele respondeu. Vários meses depois, recebi um envelope gordo enviado de uma academia de esgrima de Madrid contendo todas as minhas cartas, a maioria ainda fechada, e 500 euros. Como ele não me devia dinheiro nenhum, fui forçada a supor que aquele era o seu modo de me remunerar pelos serviços prestados. Fiquei tão irada que levei semanas para entender que mestre Federico Rivera, em toda a sua sabedoria libertina, devia ter-me ofendido de propósito para cauterizar minha ferida e, perfeccionista como era, completar minhas aulas de esgrima com o golpe mais honrado de todos: o de misericórdia.

Embora eu nunca tivesse falado sobre ele com os meus pais, os dois com certeza sabiam que eu já tivera meu quinhão de desilusões amorosas. Na realidade, eu às vezes desconfiava que a obsessão insistente de minha mãe com James Moselane era apenas o seu modo de consolar nós duas. E que consolo maior poderia haver do que imaginar um futuro ideal em que eu morava na propriedade bem ao lado da sua casa, feliz para sempre?» In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Anne Fortier, JDACT, Literatura,  

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Não seria mais prudente lhe dizer que eu iria viajar em vez de sair de fininho daquele jeito? Ai, droga, falei, conferindo o relógio. Temos de ir, sério»

Cortesia de wikipedia e jdact

Norte de África

«(…) Quem me dera eu entendesse, murmurou Mirina. A julgar pela aparência, os pescadores eram o pai e dois filhos adultos. Não pareciam do tipo que se deixava abalar com facilidade. Eu acho... O barco então balançou e os rapazes na mesma hora estenderam a mão para amparar o pai. Mirina viu os três olharem nervosos para a água e entendeu, por fim, o motivo de seu alarme. Uma forma comprida e malhada rodeava o barco, deslizando o imenso corpo pela água barrenta. Seria um peixe grande? Mas ela não viu nem cabeça nem cauda, somente um corpo interminável da mesma grossura de um ser humano. Era uma cobra gigantesca. O que houve?, ganiu Lilli, sentindo a súbita tensão. Me diga! Mirina mal conseguia falar. Já tinha visto cobras grandes, claro, mas nunca algo como aquilo. Ah, nada, conseguiu articular, enfim. Só umas algas presas no casco. Após alguns segundos de aflição, a cobra pareceu perder interesse pelo barco, e os homens relaxaram e recomeçaram a conversar. Verificaram mais algumas armadilhas, mas a pescaria foi magra: apenas uma dúzia de peixes e um par de enguias. Apesar disso, eles pareciam animados ao recolher as varas e, a duras penas, começar a impulsionar o barco para a frente com movimentos curtos e ritmados. Para onde estamos indo?, sussurrou Lilli, trémula de cansaço. Mirina puxou a cabeça da irmã para junto do peito e afagou o seu rosto sujo de lama. Para a cidade grande, leoazinha. A Deusa da Lua está nos esperando, lembras-te?

Aurora

Se o dr. Ludwig ficou surpreso ao me ver sentada junto ao portão de embarque, folheando com gestos casuais uma revista de bordo abandonada, não demonstrou nada. Apenas meneou a cabeça como se minha presença já fosse esperada e ofereceu: café? Assim que ele se afastou, relaxei de alívio e exaustão. Por mais calma que aparentasse estar, as últimas horas sem dúvida tinham sido as mais agitadas da minha vida, e eu não havia parado sequer para respirar depois de encontrar o caderno da avó no sótão. Por sorte, meu pai havia-se mostrado muito disposto a uma pequena aventura e insistira em me levar até ao aeroporto. Mas confesso que estou um tanto curioso, dissera ele, de modo sensato, durante a nossa curta paragem em frente à minha faculdade em Oxford, enquanto eu lutava para enfiar no banco de trás do Mini a mala feita às pressas.

É só por uma ou duas noites, respondi, sentando-me no banco do passageiro e ajeitando meu rabo-de-cavalo. Talvez três. O motor continuava ligado e meu pai ainda segurava o volante, mas o carro não andou. E as aulas que precisa dar? Eu me remexi no banco, incomodada. Antes que o senhor perceba, eu já vou ter voltado. É uma viagem de pesquisa. Na verdade, uma pessoa está pagando-me para ir a Amsterdão... Imagino que o seu benfeitor não seja o jovem Moselane..., sugeriu meu pai, olhando pelo retrovisor. Quando me virei, vi James saindo da faculdade com uma raquete de tênis no ombro. Um calor repentino e nada agradável tomou conta do meu corpo. Ali estava ele, a sensatez em pessoa, lindo como nunca. Não seria mais prudente lhe dizer que eu iria viajar em vez de sair de fininho daquele jeito? Ai, droga, falei, conferindo o relógio. Temos de ir, sério. Meu pai continuou a olhar pelo retrovisor enquanto avançávamos pela Merton Street, decerto perguntando-se como contar à minha mãe sobre aquela agourenta mudança de cenário, e cada tremor de sua pálpebra fazia aumentar o bolo de culpa que eu sentia no estômago. Mas como lhe poderia contar a verdade? Ele nunca havia tomado qualquer iniciativa de conversar sobre a avó, nunca me contara sobre o caderno que ela claramente escrevera para mim. Abordar o assunto agora, a caminho do aeroporto, a uma velocidade para ele supersónica, não era uma ideia nada boa. Desculpe, pai, murmurei, afagando seu braço. Na volta eu explico.

Passamos algum tempo em silêncio dentro do carro. Com o rabo do olho, pude notar a preocupação paterna cada vez maior lutando contra a sua boa índole, que tanto resistia a confrontos. No final ele respirou fundo e disse: só me prometa que isso não é alguma espécie de..., fuga amorosa. Ele teve de levantar um pouco a voz para pronunciar a palavra. Nós temos dinheiro de sobra para pagar uma festa de casamento, sabes. Fiquei tão chocada que desatei a rir. Pai, sério! Bom, o que quer que eu pense? Curvado sobre o volante, ele parecia quase zangado. Passa três horas em casa, pergunta sobre a sua certidão de nascimento..., e agora vai viajar para Amsterdão. Ele me lançou um olhar, e na sua expressão pude ver uma centelha de medo genuíno. Prometa que isso não tem a ver com nenhum..., homem. Sua mãe jamais me iria perdoar. Ah, pai! Inclinei-me para lhe dar um beijo na bochecha. O senhor sabe que eu jamais faria isso. Não sabe? Ele assentiu sem convicção, e acho que eu não podia culpá-lo. Embora fosse raro o assunto vir à baila, eu não tinha dúvidas de que meus pais haviam deduzido bastante coisa em relação ao meu grupo bastante heterogéneo de ex-namorados, aos quais Rebecca se referia como cavaleiros do Apocalipse, embora nenhum deles merecesse título tão nobre». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Anne Fortier, JDACT, Literatura,   

quarta-feira, 11 de março de 2020

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Conforme as irmãs avançavam pela vegetação rasteira e pegajosa do estuário, Mirina descobriu que o mar era surpreendentemente raso e pantanoso. Juncos altos brotavam da água e não havia ondas; na verdade, a água mal se movia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Norte de África
«(…) Tudo o que Mirina conseguia escutar era o grasnar dos pássaros. Vozes... Lilli girou a cabeça para um lado e outro. Vozes de homens. Esperançosa, Mirina escalou uma rocha grande para poder ver melhor. Diante delas se descortinava um litoral e uma grande extensão de água. Ficou aliviada. É o mar!, exclamou ela, apontando sem pensar. É enorme..., exactamente como a mãe disse que seria. Com excepção da mãe delas, ninguém da aldeia tinha visto o mar. Mas os anciãos faziam muitas referências a ele sentados à sombra da figueira, meneando a cabeça para concordar uns com os outros. O mar era grande, azul e perigoso, diziam, espantando distraidamente as moscas, e nos seus litorais distantes havia cidades cheias de riscos e sofrimento, cidades povoadas por estrangeiros maus...
A mãe sempre rira dessas palavras, lembrando às filhas que os homens costumavam julgar mal aquilo que não compreendiam. A cidade não é tão má do que o povoado, dissera ela certa vez, descartando aquilo tudo com um gesto da mão coberta de massa de pão. Na verdade, as pessoas lá são bem menos invejosas do que aqui. Então porque foi embora?, quisera saber Mirina, salpicando mais farinha nas mãos da mãe. E porque não podemos voltar para lá? Talvez voltemos. Mas por enquanto é aqui que a Deusa nos quer. Mirina não se havia deixado enganar. Sabia que a mãe estava escondendo alguma coisa relacionada à Deusa da Lua. No entanto, não importava como formulasse as suas perguntas, não conseguia obter as respostas que desejava. Tudo o que a sua mãe dizia era: nós somos servas fiéis da Deusa, Mirina. Ela sempre vai nos ajudar. Nunca questione isso.

Conforme as irmãs avançavam pela vegetação rasteira e pegajosa do estuário, Mirina descobriu que o mar era surpreendentemente raso e pantanoso. Juncos altos brotavam da água e não havia ondas; na verdade, a água mal se movia.
Não estou gostando disto aqui, disse Lilli em determinado momento, quando as duas estavam afundadas até ao joelho na lama e na vegetação marinha viscosa. E se tiver alguma cobra? Duvido, falou Mirina, mentindo, enquanto golpeava a água à frente com a lança. Cobras não gostam de água aberta. Bem nessa hora, vozes as fizeram parar. É a mesma coisa que eu escutei antes!, sibilou Lilli, aflita, grudando o corpo às costas da irmã. Está vendo de onde vem? Mirina afastou os juncos com a ponta da lança. Por entre o emaranhado de caules verdes, pôde distinguir um barquinho com três pescadores a bordo. Estavam entretidos demais com suas redes para reparar nas duas. Decidiu que eram trabalhadores, portanto dignos de confiança. Vamos!
Foi levando a irmã pela água, ansiosa para chegar ao barco antes que ele sumisse. A perspectiva de passar mais uma noite no leito seco do rio ou naquele pântano coalhado de insectos era insuportável. Aonde quer que aqueles pescadores fossem, ela e Lilli iriam também. Assim que chegaram perto o suficiente para serem vistas, Mirina acenou com a lança no ar para chamar a atenção dos outros. A água agora batia na sua intura e Lilli ia agarrada às suas costas. Os homens a encararam incrédulos, o que não era de espantar. Eles nos viram!, arquejou Mirina, avançando com passos bambos pela água lamacenta. Estão sorrindo e acenando para subirmos a bordo... Ao se aproximar do barco, porém, viu que os homens não estavam sorrindo, mas sim gesticulando frenéticos, com os semblantes contorcidos pelo medo. Instantes depois, agoniados, os homens puxaram primeiro Lilli, depois Mirina para dentro do barco e, logo em seguida, aliviados, apontaram para a água enquanto desfiavam longas explicações num idioma estrangeiro. O que foi?, quis saber Lilli, segurando-se na túnica enlameada da irmã. O que eles estão dizendo?» In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.
                                                                      
Cortesia de EArqueiro/JDACT

sábado, 21 de dezembro de 2019

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «O aconchego da família, as preocupações e mexericos, tudo se mesclava num sonho radiante e feliz, um mundo de inocência impossível que agora existia apenas em palavras»

Cortesia de wikipedia e jdact

Norte de África
«(…) Mirina e Lilli seguiram o rio por dez dias. Tinham água de sobra para beber, mas a terra que as cercava de ambos os lados era estéril. Sempre que Mirina encontrava alguma planta que lhe parecesse minimamente comestível, mascava algumas folhas ou pedaços da raiz e esperava um pouco para observar os seus possíveis efeitos. Só então a oferecia a Lilli. E toda a vez que o regato preguiçoso empoçava em algum ponto, ela o vasculhava na tentativa de pegar um peixe solitário. Nos dias mais quentes, um animal ou dois podiam descer até ao rio em busca de água e, graças ao seu arco e a algumas flechas restantes, Mirina em geral conseguia obter essa carne desconhecida para o jantar. Esses eram os momentos bons. Elas ficavam acordadas até tarde, comendo até se fartarem, e inevitavelmente se pegavam relembrando a vida de antes. Como as mazelas diárias de seu povoado agora pareciam triviais. E como ganhavam valor todos os pequenos prazeres. O aconchego da família, as preocupações e mexericos, tudo se mesclava num sonho radiante e feliz, um mundo de inocência impossível que agora existia apenas em palavras.
Como Mirina e Lilli tinham nascido no povoado de Tamash, as duas sempre haviam pensado nele como o seu lar. E quando as outras crianças zombavam delas por serem estrangeiras, com hábitos estrangeiros, a mãe apenas descartava os comentários, e garantia às filhas que os outros não sabiam o que estavam dizendo. Eles acham que uma mulher ter filhos com homens diferentes é uma coisa má, dizia ela, revirando os olhos. Mal sabem que o pai deles mesmos talvez não seja quem acham que é. Além da acusação de promiscuidade, havia também a questão das misteriosas habilidades de sua mãe com ervas e raízes. Contudo, embora as mulheres da aldeia pudessem passar os dias na bisbilhotice sobre o seu comportamento pecaminoso, bastava alguma doença acometê-las para que aparecessem na porta da sua casa implorando remédio.
Mais de uma vez, os anciãos, com belas túnicas e bastões esculpidos, tinham visitado o seu casebre para pedir a Talla que parasse de praticar as suas artes estrangeiras. Mas ela só fizera balançar a cabeça, pois sabia que as mulheres do povoado jamais os deixariam expulsá-la. Numa ocasião específica, Mirina lembrava-se de ter ouvido a mãe provocar o chefe da aldeia dizendo: você acha que eu joguei um feitiço no seu passarinho caolho, Nholo? Quem sabe se você não passasse o dia inteiro sentado em cima dele, falando bobagem, ele conseguisse voar de novo. Agora até esses instantes infelizes pareciam maravilhosos ao serem recordados. Implicâncias eram esquecidas; dívidas, perdoadas. Mirina se assombrou ao constatar como a morte levava embora todos os detalhes incómodos da vida e tornava puro e acolhedor um povoado inteiro de pessoas mesquinhas. Conforme os dias da monótona viagem iam passando, as irmãs muitas vezes retornavam às mesmas lembranças, como se o prazer aumentasse com a repetição.
Ainda consigo ver, dizia Lilli, disfarçando uma risadinha. Mãe tentando pegar o velho galo... Ah, como ela ficou brava! E todos aqueles meninos perdidamente apaixonados por você, mas com medo até de sorrir na sua frente... Mirina nunca repreendia a irmã por falar assim. Apenas ria também e a deixava vagar por esse passado imaginário pelo máximo de tempo possível. Sabia que o presente não tardaria a se impôr. No décimo primeiro dia, o rio se alargou formando um delta, e então, por fim, Mirina começou a ver indícios de outros seres humanos. Canais rasos escavados para irrigação deixavam a paisagem parecida com teias de aranha, mas mesmo assim nenhuma gota d’água chegava até aos campos. O chão ali era tão seco quanto na sua aldeia e não havia um agricultor sequer à vista. O que foi?, perguntou Lilli, incomodada pelo longo silêncio da irmã. Nada. Mirina tentou parecer alegre, mas a verdade era que estava morta de preocupação. Para onde quer que olhasse, tudo o que via eram ferramentas agrícolas abandonadas e áreas desertas do que seriam pastagens. Os únicos animais visíveis eram corvos magros a voar em círculos no céu. Onde estavam as pessoas? Shh! Lilli parou de repente e levantou a mão. Está ouvindo? O quê?» In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.
                                                                      
Cortesia de EArqueiro/JDACT

sábado, 22 de dezembro de 2018

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Mas as duas continuavam vivas. Haviam sobrevivido à pestilência e agora também ao deserto. Dali em diante, as coisas só poderiam melhorar»

Cortesia de wikipedia e jdact

Norte de África
«(…) Sem dizer nada, Mirina a puxou mais para perto. Ela parecia feliz, continuou Lilli. Quis me abraçar, mas aí viu você e acho que teve medo de você ficar chateada com ela por me levar embora... então não levou. As duas passaram um tempo deitadas em silêncio. Sua antiga vida agora parecia muito distante. No entanto, a lembrança dos amigos e pessoas queridas que tinham perdido ainda era forte o suficiente para fazer ambas engasgarem e se calarem, assim como Mirina sabia que continuaria a sentir aquele fedor horrível da doença e da morte para sempre. Depois de sair do povoado, as duas haviam passado muito mal, com tremores e convulsões. Mirina tivera certeza de que iriam morrer; na verdade, quase se alegrara com isso. No entanto, aos poucos havia começado a melhorar, e Lilli também, embora a febre da irmã tivesse durado o suficiente para prejudicar os seus olhos. Durante várias terríveis manhãs, a menina havia acordado do seu sono agitado vendo cada vez menos, até por fim perder completamente a visão. O dia já vai raiar?, perguntara Lilli no último dia, olhando para o sol sem nada ver. Não falta muito, não, respondera Mirina com um sussurro, abraçando a irmã e soluçando enquanto a beijava repetidamente e a verdade dolorosa dava um nó na sua garganta.
Mas as duas continuavam vivas. Haviam sobrevivido à pestilência e agora também ao deserto. Dali em diante, as coisas só poderiam melhorar. Mirina recusava-se a pensar de outra forma. Tem certeza de que..., começou a perguntar Lilli, como fazia todas as noites. Só que dessa vez não terminou a frase, apenas mordeu o lábio e virou o rosto. Ambas sabiam que só haveria resposta para a grande questão de Lilli quando chegassem à cidade. Será que a Deusa da Lua conseguiria reverter os danos da febre e fazê-la recuperar a visão? Só a Deusa sabia. De uma coisa eu tenho certeza, falou Mirina, polindo a pulseira da mãe na túnica. Por baixo do insistente resíduo de fuligem, a serpente com cabeça de chacal de que ela tão bem se lembrava a encarava com os olhos enegrecidos. Mãe sentiria orgulho se visse agora. Lilli ergueu o rosto com uma expressão intrigada na direcção da irmã. Não acha que ela ficaria zangada comigo por estar inútil? Mirina a puxou mais para junto de si.
Inúteis são agricultores que não plantam e pastores que não pastoreiam. Lembre-se que é uma irmã. Uma irmã não precisa de olhos para ser útil, só de um sorriso e de um coração valoroso. Lilli deu um suspiro pesado e os seus ombros afundaram quando ela se recostou na bolsa das duas. Eu sou só sua meia-irmã. Talvez por isso não tenha a mesma coragem. Se o meu pai fosse o mesmo que o seu, talvez eu também tivesse um coração de caçadora. Shh! Os pais vêm e vão, mas a Terra permanece a mesma. Assim como não existe meio coração, não existe meia-irmã. É, pode ser, murmurou Lilli. Mas eu ainda não tenho certeza se um dia vou conseguir voltar a sorrir. Bom, pois eu tenho, retrucou Mirina, pousando o queixo sobre a cabeça da irmã. Lembre-se: quem enfrenta o leão se torna o leão. Nós vamos enfrentá-lo e vamos voltar a sorrir. Mas leões não sabem sorrir, balbuciou Lilli, abraçando a bolsa. Mirina deu um rugido e começou a mordiscar o pescoço da menina até as duas rirem. Então nós vamos ensinar». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.
                                                                      
Cortesia de EArqueiro/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Era um pássaro!, gritou Lilli, esfregando a perna com fúria. Ele me bicou! Onde está? Não deixe ele me morder de novo. Mirina ergueu uma das mãos para proteger os olhos do sol…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Norte de África
«(…)Conseguimos, Lilli! Mirina cambaleou nas pedras instáveis do leito do rio. Não havia muita água; o que outrora devia ter sido um curso d’água caudaloso não passava agora de uma fenda comprida e estreita na paisagem desértica. Mas ela estava animada demais para se decepcionar e exausta demais para sentir algo além de um débil latejar quando as pedras irregulares esfolaram os últimos pedaços de pele intacta dos seus pés cansados. O rio! Finalmente caindo de joelhos à beira d’água, soltou de seu pescoço os braços finos de Lilli, que o enlaçavam desde o raiar do dia. Está ouvindo? É o rio! Ela desceu a irmã inerte até ao chão e começou a despejar água nos lábios que tinham passado o dia inteiro calados. Vamos, beba. O deserto fora maior do que ela imaginava. Os seus cantis de bexiga de cabra haviam secado antes mesmo de elas chegarem à metade da travessia. Ela tranquilizava Lilli dizendo ver árvores no horizonte, além da planície escaldante. Torcia para as próprias palavras virarem realidade. No entanto, à medida que as horas passavam sem nenhuma sombra ou água, as conversas entre as irmãs foram se tornando mais e mais breves, até não restar mais palavras a serem ditas.
Nos últimos dias de viagem, Mirina não havia parado de escutar a voz paciente e firme da mãe instando-a a prosseguir, prosseguir. Precisa chegar ao rio, dizia a voz, num sussurro urgente. Não pode parar. Precisa seguir em frente. As palavras nunca falhavam nem enfraqueciam. Da mesma forma que a mãe jamais havia deixado a sua cabeceira durante todas as noites de doença e medo na infância, também permaneceu fiel ao seu lado naquelas últimas horas cambaleantes, quando não havia mais nada a que se agarrar excepto algumas palavras insistentes na sua cabeça. Preciso chegar ao rio. No final do rio fica o mar. Junto ao mar, a cidade. Na cidade vive a Deusa da Lua. Só ela tem o poder de curar a minha irmã.
Quando Lilli finalmente recobrou os sentidos, virou o rosto em todas as direcções, com os olhos frágeis quase fechados e sem nada ver. Então começou a chorar, os ombros estreitos tremendo de tanto desespero. Aqui não é o rio, soluçou ela. Você só está dizendo isso para me reconfortar. Mas é, sim! Sinta só. Mirina guiou as mãos da irmã até à água rasa. Eu juro que é. Ela correu os olhos pela paisagem desolada e poeirenta. Antigamente, muitas árvores deviam margear aquele curso d’água, mas agora eram apenas esqueletos tombando em busca de apoio, tristes resquícios de um mundo de viço havia muito desaparecido. Tem que ser aqui. Mas eu não estou ouvindo nenhum barulho de água, falou Lilli, enxugando corajosamente as lágrimas e inclinando a cabeça na tentativa de escutar. Deve ser um rio bem silencioso.
É, sim, reconheceu Mirina. Um rio velho e cansado. Mas ele ainda está vivo e vai nos levar até ao mar. Vamos, agora beba. As duas passaram algum tempo em silêncio, saciando a sede. No início, foi como se a garganta de Mirina tivesse esquecido o que fazer para engolir, mas depois de conseguir forçar os primeiros goles ela pôde sentir o líquido fresco descer pelo corpo e restaurar a vida por onde passava. Depois de matar a sede, recostou-se nas pedras e fechou os olhos. Tantos dias sem descanso e aquele último trecho sem água... Por quanto tempo havia carregado Lilli no colo? Dois dias inteiros? Não, não era possível. Um grito assustado e um súbito bater de asas a fizeram levantar-se. Ao ver a irmã aterrorizada sacudindo os braços para afugentar o inimigo que não via, ela sacou na mesma hora a faca do cinto.
Era um pássaro!, gritou Lilli, esfregando a perna com fúria. Ele me bicou! Onde está? Não deixe ele me morder de novo. Mirina ergueu uma das mãos para proteger os olhos do sol e viu dois abutres magros voando em círculos no céu. Praga maldita!, balbuciou, guardando a faca e pegando o arco. Estavam querendo banquetear-se com osco hoje... Porque os deuses nos desprezam tanto?, questionou a mais nova, segurando os próprios joelhos e começando a balançar-se para a frente e para trás. Por que eles querem a nossa morte? Eu não perderia o meu tempo pensando no que os deuses querem ou não. Mirina tirou da aljava a sua melhor seta para aves. Se eles quisessem, mesmo, nos matar, poderiam ter feito isso quarenta vezes. Apoiou a seta na corda, pôs-se de pé devagar e a puxou para trás. Está claro, que algum poder nos quer manter vivas. Mais tarde, quando estavam deitadas junto à pequena fogueira de gravetos sob um céu estrelado, digerindo a refeição sem gosto, Lilli se aconchegou junto à irmã e disse: a mãe veio falar comigo, sabia? Eu a vi muito bem...» In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.
                                                                      
Cortesia de EArqueiro/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Diana!, exclamara a mãe, acenando impaciente para mim. Venha cumprimentar a avó. Olá, balbuciara, embora na mesma hora sentisse que o cumprimento era inadequado»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Assim, da mesma forma que as crianças aprendem a agradar aos pais andando de bicicleta e indo para a cama quando eles mandam, elas desenvolvem furtivamente habilidades mais sombrias, em geral relacionadas a latas de biscoito guardadas em lugares arriscados; no meu caso, foi a capacidade de abrir e fechar a velha porta do sótão sem fazer barulho. Embora eu não precisasse daquele truque havia muitos anos, fiquei satisfeita ao constatar que ainda o dominava. Parei um instante na soleira e fiquei escutando por alguns instantes os ruídos lá de baixo, mas tudo o que captei foi o tilintar ocasional de xícaras. No dia inteiro, os meus pais na verdade só tinham um hábito previsível, que era ler juntos o jornal depois do almoço. Era inútil tentar envolvê-los numa conversa a três nessa hora; uma vez guardada a louça e feito o café, eles perdiam-se felizes num mundo feito de críquete e políticos corruptos.
Mesmo assim, não consegui parar de pensar que os dois estavam lá em baixo quando acendi a única lâmpada do sótão, que parecia pendurada no tecto por grossas teias de aranha. Ao avançar pelo piso, tentei lembrar-me de qual das tábuas rangiam e quais eram seguras..., mas logo percebi que muitos anos se haviam intrometido entre mim e o caminho que eu conhecia tão bem. Imprensado debaixo de nosso íngreme telhado, o sótão era basicamente um vão triangular sem luz natural, excepto a que entrava pela janela em formato de meia-lua junto à cumeeira norte. Apesar de empoeirado e deserto, aquele cómodo sempre exercera um estranho fascínio sobre mim. Quando criança, sempre que espiava dentro de uma velha mala de couro ou baú de madeira ali, eu esperava encontrar algo mágico. Talvez fosse uma caixa de jóias esquecida, ou então uma bandeira pirata esfarrapada, ou ainda um maço de cartas de amor ressecadas..., aquele recinto e seu cheiro esquisito de cedro e naftalina continham sempre a promessa de segredos de família e portais para outros mundos. Então, um belo dia, quando eu tinha 9 anos, a porta mágica finalmente se abriu.
Avó. Eu ainda podia vê-la ali em pé, de costas, olhando por horas a fio pela janela em formato de meia-lua..., não com a resignação saudosa que se poderia esperar de alguém trancado a sete chaves, mas com determinação, como se estivesse à espreita de um ataque inevitável. Até então, tudo o que eu sabia sobre a mãe do meu pai era que ela estava doente num hospital de um país distante. A parte do país distante era invenção minha, decerto para explicar o facto de nunca a visitarmos como íamos visitar a avó durante a sua doença longa e inexplicada. Sem pensar muito no assunto, imaginava-a acamada como ele, com tubos de plástico a entrar e sair pelas roupas, mas em algum lugar no estrangeiro, com paredes caiadas e um crucifixo pendurado acima da cabeceira.
Mas do nada, numa tarde de chuvinha fina, eu tinha chegado do colégio e encontrado uma mulher alta em pé no meio da nossa sala, com uma pequena mala no chão ao seu lado e uma expressão de rara serenidade no rosto. Diana!, exclamara a mãe, acenando impaciente para mim. Venha cumprimentar a avó. Olá, balbuciara, embora na mesma hora sentisse que o cumprimento era inadequado. Mesmo então dava para sentir que algo não se encaixava a respeito daquela desconhecida de braços e pernas compridos, mas me lembro de ser incapaz de identificar o quê.
Talvez fosse o facto de ela ainda estar vestida com a capa para chuva, o que lhe dava o aspecto de uma simples transeunte à espera de um autocarro ou alguém que sairia a qualquer instante. Ou talvez eu estivesse confusa, pois, na minha experiência obviamente um tanto limitada, aquela mulher não se parecia em nada com uma avó. Em vez do cabelo enroladinho com permanente das senhoras da cidade, usava uma trança grisalha que descia pelas costas e o seu rosto quase não exibia rugas. Na verdade, o seu rosto quase não tinha expressão». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.
                                                                      
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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Quando éramos pequenas, Rebecca e eu tínhamos uma pequena caixa de recordações num dos cantos do sótão escuro, escondida debaixo da janela, e entrávamos ali de fininho para examinar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Foi só depois de se aposentar que meu pai passou a dedicar-se ao jardim. Ele, que nunca fora muito afeito a mudanças, ainda contava histórias nostálgicas sobre aquele pequeno pedaço de terra que estivera por tantos anos na família. As maçãs nunca tinham o sabor tão autêntico quanto as que ele recordava da infância, tampouco as framboesas eram tão abundantes quanto no tempo em que ele era pequeno, quando colhia cestos e mais cestos, que levava para a sra. Winterbottom na cozinha. Essas imagens românticas eram sempre editadas com cuidado de modo a excluir os detalhes inoportunos. O pai que vivia para o trabalho e a mãe hospitalizada não eram citados. Desaparecia também o facto de que a sra. Winterbottom, a governanta, era uma mulher sisuda e sempre paramentada com luvas de plástico, muito eficiente no quesito higiene, porém incapaz no que fosse relacionado a ternura. Sobravam apenas um menininho e o seu jardim, emoldurados pela folhagem da época e salpicados por uma levíssima camada de purpurina.
Enfiei a cabeça para dentro do porão e vi, conforme esperado, um punhado de mulheres sentadas em bicicletas ergométricas posicionadas de frente para um vídeo de exercícios. Olá, mãe! E olá, senhoras! Olá, meu bem! A minha mãe estava usando a camiseta de manga comprida amarela que eu lhe havia dado de Natal e uma bandolete segurava os seus cabelos curtos e grisalhos. Ela era uma das únicas mulheres que eu conhecia que não temia ficar suada e, por esse facto ser fonte de imenso constrangimento, ao longo dos anos havia-se transformado numa das coisas que eu mais admirava nela. Faltam dez minutos!
Enquanto eu tornava a subir a escada, vi o meu pai ainda mexendo no comedouro de pássaros e senti um súbito calor de nervosismo brotar no estômago. Dez minutos. Justo o que eu precisava. O escritório do meu pai era um cubículo empoeirado provido de todo o aparato de um cavalheiro vitoriano. As paredes eram cobertas de alto-a-baixo por estantes arqueadas pelo peso e, espalhados entre os livros, havia tesouros especiais: insectos dentro de caixas de madeira, vermes e cobras preservados em vidros, pássaros extintos com olhos de vidro brilhantes a observar do alto das prateleiras, feito predadores, em uma saliência rochosa. Até onde a minha memória alcançava, o cheiro daquele espaço tinha um perigoso poder de atracção, um aroma de história, conhecimento e transgressão infantil.
Eu estava mais velha, porém não menos nervosa, então esbarrei por acidente numa caneca mal posicionada sobre a mesa. Por alguns segundos de aflição, canetas, réguas e clipes espalharam-se por todo o lado. Atabalhoada e nervosa de culpa, recoloquei tudo de volta na caneca e tornei a posicioná-la sobre as contas do mês, onde era o seu lugar. Meu pai apareceu na porta. Olá!, exclamou ele, unindo as duas sobrancelhas peludas. Será que eu deveria ficar lisonjeado por achar a minha correspondência tão interessante? Mil desculpas, balbuciei. Estava procurando a minha certidão de nascimento. Ele desfez o cenho franzido. Ah! Deixe-me ver... Sentando-se pesadamente na cadeira de escritório, ele abriu e fechou algumas gavetas antes de encontrar o que procurava. Voilà! Pegou uma pasta novinha com o meu nome escrito. Os seus documentos estão aqui. Andei fazendo uma arrumação. Por fim, o meu pai sorriu. Pensei que seria bom poupá-la da bagunça. Encarei-o, tentando decifrar o que havia por trás do sorriso. O senhor não andou...,jogando coisas fora, andou? Ele piscou algumas vezes, sem entender o meu súbito interesse pelos seus projectos. Nada importante, eu acho. Pus quase tudo dentro de uma caixa. Os documentos de família, essas coisas. Talvez queira queimar, mas..., vou deixar a decisão por sua conta. A porta do sótão rangia. Sempre fora quase impossível visitar aquele espaço em segredo.
Quando éramos pequenas, Rebecca e eu tínhamos uma pequena caixa de recordações num dos cantos do sótão escuro, escondida debaixo da janela, e entrávamos ali de fininho para examinar o seu conteúdo sempre que nos atrevíamos. Havia um sabonetinho de um hotel em Paris, uma rosa seca de um buquê de noiva, uma bola de golfe da propriedade dos Moselanes, além de alguns outros tesouros que não podiam cair em mãos erradas. O que as duas andam a fazer no sótão?, perguntara a minha mãe certo dia durante o almoço, fazendo Rebecca derramar limonada na mesa da cozinha. Nada, respondera eu, com uma inocência forçada. Então brinquem lá fora. A minha mãe precisara de quase um rolo de toalha de papel para limpar a bagunça de Rebecca, mas não fizera nenhum comentário. Afinal de contas, minha amiga era filha do pároco. Não gosto que fiquem naquele lugar empoeirado». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.
                                                                      
Cortesia de EArqueiro/JDACT