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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Tudo é Mercadoria. António Borges Coelho. «Nesta nobreza funcionária e de corte, ocupará um alto lugar. O avô fora corregedor da comarca da Beira; o pai, corregedor de Entre-Tejo-e-Odiana; o sogro, escrivão do Armazém da Guiné e Índia»

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Família e meio social
«(…) João de Barros nasceu com muita probabilidade em Viseu, a mãe que me gerou, pelos últimos anos do século XV. Os biógrafos apontam o ano de 1496 mas sem base segura. Filho natural de Lopo de Barros, vereador de Viseu e futuro corregedor de Entre-Tejo-e-Odiana; neto bastardo de Álvaro de Barros, senhor do morgado de Moreira, junto de Braga; o historiador vinculou-se a Viseu (a família paterna tinha casa em Maçorim), a Braga, a Pombal, a Évora e evidentemente a Lisboa onde viveu quase toda a vida. No lado paterno contam-se cinco irmãos: o homónimo João de Barros, Diogo, Álvaro e Cristóvão de Barros e ainda a irmã, ilegítima como ele, Marta de Barros. O meio-irmão João de Barros, cavaleiro da Ordem de Avis, casou em Évora com Maria Mendes Orta, filha do cidadão eborense João Orta. Um seu meio-cunhado, António Godinho, acompanhou o rebelde bispo de Viseu, Miguel Silva, quando fugiu para Roma.
Além de se considerar vassalo da infanta dona Maria, senhora e duquesa de Viseu, João de Barros não hesita em designar essa cidade como a mãe que me gerou. A expressão é forte. Não se trata tanto de criação mas de geração. Penso que Alexandre Lucena Vale tem fortes razões para reivindicar o autor da Ásia para Viseu embora em Lisboa tenha vivido quase toda a vida. Por outro lado a ascendência paterna do historiador aparece nos Diálogos Morais e Políticos, de Manuel Botelho Pereira, publicados em 1620. O autor não pretende traçar a ascendência de João de Barros mas tão-só referir a genealogia de famílias poderosas de Viseu. Entre elas, aparece a geração legítima e ilegítima de Lopo Barros, pai do cronista-feitor. O livro é escrito quando um neto de João de Barros lutava nos tribunais pelos direitos autorais da IV Década, publicada por João Baptista Lavanha em 1615. Não é verosímil que o neto e outros familiares que viviam em Viseu, como refere Manuel Severim Faria, deixassem passar em claro a genealogia de João de Barros e sobretudo a afirmação de bastardia. Aliás, o próprio Barros, na minuta do seu testamento, trata o futuro genro Lopo Barros, neto de seu pai, Lopo Barros, como seu sobrinho. Não me parece possível pôr em causa a ligação do historiador à família dos Barros de Braga e de Viseu.
Um outro irmão de João de Barros, Gaspar Torres, que em 1527 recebeu a escrivaninha da feitoria de Ormuz, era filho de Francisco Torres e, portanto, irmão pelo lado materno. Em 1565, um Francisco Torres, avaliado na maior quantia de um conto de réis, e uma Ana Torres, também avaliada na maior quantia, habitavam em casa própria na freguesia do Loreto, bem perto do então feitor da Casa da India: o primeiro na Travessa da Cruz que vai de S: Roque para a Atalaia, a segunda na outra banda da Rua de São Roque. O feitor morou na freguesia do Loreto, na Rua do Hospital das Chagas, casa que tinha uma varanda de pau, e, depois, ainda bem perto, à Cruz de Cataquefarás.
Foi primo de frei Brás Braga ou Barros. Contemporâneo em Friburgo de frei Diogo Murça, leitor de Erasmo, reformador dos agostinhos e futuro bispo de Coimbra. Apontam-no como sobrinho de Lourenço Cáceres, mestre do infante Luís e guarda-mor da Torre do Tombo. Gaspar Barreiros, de quem se assumiu como fiador junto de Lucas Giraldes, é confessadamente seu sobrinho. Em Évora aparenta-se aos Resendes, ao menos ao escrivão e feitor de Maluco Duarte Resende, de quem se declara amigo e sangue. Filho bastardo de um corregedor, o futuro cronista nobilitou-se, usando as suas palavras, no lugar onde se os homens habilitam em honra e nome que é na casa del-rei.
Nesta nobreza funcionária e de corte, ocupará um alto lugar. O avô fora corregedor da comarca da Beira; o pai, corregedor de Entre-Tejo-e-Odiana; o sogro, escrivão do Armazém da Guiné e Índia. Ele próprio, depois de exercer o cargo de tesoureiro das casas da Mina e Índia e tesoureiro-mor de Ceuta, desempenhará durante 34 anos o ofício de feitor da Casa da Índia. Socialmente João de Barros pertenceu à nobreza funcionária, marcada pelo dinheiro e a mercadoria». In António Borges Coelho, Tudo é Mercadoria, Editorial Caminho, Lisboa, 1992, ISBN 972-210-759-3.

Cortesia de Caminho/JDACT

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Tudo é Mercadoria. António Borges Coelho. «Os feitos não se fizeram só para ficar na história para brilho e fama que cobriam de rendas alguns descendentes dos heróis. Os feitos fizeram-se para a conquista do comércio…»

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«O Tempo prende-nos em patamares irreversíveis. E quando o corpo gela, cobre-nos com uma mortalha de terra e de silêncio. A História cumpre depois a tarefa impossível de quebrar o bloco de gelo e animar de novo o espaço, as ideias e os corpos. À História nada é alheio. Prende na malha da relação o particular e o singular. Ao demorar-me na vida e na obra de João Barros, a medo ouso. Anima-me, porém, a ideia clássica e bem renascentista de que o homem é um mundo pequeno ou a ideia de Leibniz de que cada mónada criada representa todo o Universo. Quem muito procura pelos indivíduos quebra o nervo da História, escreveu João Barros. Mas não pertenceu ele ao círculo dos homens a quem coube a direcção executiva dos negócios de Além-Mar, dependentes da direcção política, da pressão do mercado e dos feitos de armas de que ele traçou um mural com trompas de epopeia?
Como feitor da Casa da Índia, dedicou os dias a tarefas de direcção executiva dos negócios ultramarinos em ligação com o vedor da fazenda, o seu compadre conde da Castanheira, e com o próprio rei. Parte das noites gastou-as a descrever as regiões e países e principalmente a acção dos navios, das armas e do comércio portugueses. O estudo da vida e da obra de João Barros permite, pois, não só uma aproximação favorável ao conhecimento dos feitos como ao das ideias que os iluminavam. O historiador ensaiou os primeiros passos, navegava Vasco Gama para a Índia. E deitaram-no no túmulo da Ermida de Santo António, na quinta da Ribeira de Alitém, a menos de oito anos da batalha de Alcácer Quibir. Estendeu a vida por três quartos de século a que associamos, na Europa, as transformações operadas pelos Descobrimentos e Conquistas, o Renascimento das artes, das letras e das ciências, os movimentos sociais, ideológicos e políticos da Reforma e da Contra-Reforma. Além de alto funcionário, historiador e geógrafo, João Barros foi pedagogo, obreiro da divulgação da língua portuguesa nos vários continentes, autor de opúsculos de filosofia moral e da jóia literária e filosófica que intitulou Ropica Pnefma.
Leigo, não temeu usurpar a função de levita. Alto funcionário económico e sem qualquer nomeação oficial para o cargo de cronista, ousou escrever os quatro volumes da Ásia. E integrou os primeiros pelotões dos portugueses e europeus que recorreram aos caracteres móveis da imprensa para virem ao encontro e alargarem o número dos seus leitores. Temeu perseguições pela Ropica e queixou-se da ingratidão dos portugueses para com a Ásia. No entanto, Luís Vicente Vives apreciou a Ropica e dedicou ao seu autor as Exercitationes animi in Deum, publicadas em Antuérpia em 1535. As Décadas I e II foram traduzidas para língua italiana por Afonso Ulloa e publicadas em Veneza em 1565-1572. Giovani Battista Ramusio incluiu alguns capítulos das Décadas nas suas Della Navigationi et Viaggi. O xá da Pérsia, segundo informações de seu filho Jerónimo, teria a intenção de mandar transladar as Décadas. Diz-se ainda que o papa Paulo IV mandou colocar o seu retrato no Vaticano ao lado do de Ptolomeu e que o mesmo teria feito Veneza.
Manuel Severim Faria traçou-lhe o primeiro esboço biográfico. No nosso século António Baião procedeu a um levantamento documental quase exaustivo sobre a sua vida. I. S. Révah publicou o texto inédito do Diálogo Evangélico, reeditou a Ropica e escreveu sobre Barros alguns textos fundamentais. António José Saraiva, Maria Leonor Carvalhão Buescu, Banha Andrade, Joaquim Veríssimo Serrão e Jorge Borges Macedo dedicaram-lhe páginas esclarecedoras. C. R. Boxer destinou-lhe em 1981 um precioso e detalhado estudo, ainda não traduzido em língua portuguesa». In António Borges Coelho, Tudo é Mercadoria, Editorial Caminho, Lisboa, 1992, ISBN 972-210-759-3.

Cortesia de Caminho/JDACT

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A narrativa cavaleiresca. João de Barros e a Crónica do Imperador Clarimundo. «Reflecte a opulência e o optimismo do momento de maior brilho para a corte e a empresa imperial portuguesas, através da justaposição do passado mítico/cavaleiresco com o presente histórico»

Cortesia da fcg

Crónica do Imperador Clarimundo de João de Barros (excerto)
«Impresso pela primeira vez em 1522, e dirigido originalmente ao Príncipe D. João, e em edição posterior ao mesmo, já Rei João III, que aparentemente teria “corrigido” os erros do escritor novel, é obra de um rapaz de pouco mais de vinte anos, que muito jovem entrou ao serviço de Manuel I. Embora hoje em dia se conheça o autor por obras mais sisudas, as suas Décadas da Ásia, por exemplo, em vida a fama se devia sobretudo a esta crónica, testemunho eloquente da popularidade do género e da maneira como João de Barros o apropriou. Reflecte, esta narrativa, a opulência e o optimismo do momento de maior brilho para a corte e a empresa imperial portuguesas, através da justaposição do passado mítico/cavaleiresco com o presente histórico, como o próprio título indica: "Crónica do Imperador Clarimundo" donde os Reis de Portugal descendem. Introduz, simultaneamente, e não sem manifesta consciência e orgulho do autor, elementos, sobretudo retóricos, do humanismo.
[...]
A intenção de João de Barros foi evidentemente, desde o início, a de exaltar a coroa portuguesa; mas a matéria, fruto duma tradição e vinculante, deve-lhe ter, de certo modo, forçado a mão. É assim que, nos primeiros dois livros, os de inspiração declaradamente heróico-cavaleiresca, o “Clarimundo” não se afasta em nada, ou quase, dos modelos castelhanos, repetindo personagens, situações e motivos já anteriormente tratados, sobretudo no “Amadis”. [...]

Cortesia de betterworldbooks

Nascido do casamento de Adriano, rei da Hungria, com a filha do rei de França, “Clarimundo” é tirado aos pais pelas intrigas de uma ama. Abandonado junto duma fonte, é recolhido por Grionesa, nobre viúva italiana, e educado por esta como filho. Ainda muito jovem pede e consegue ser armado cavaleiro pelo rei de França, que ignora ter diante de si o próprio filho. Iniciam-se, neste ponto, as maravilhosas aventuras e as muitas peregrinações do herói que é, entretanto, reconhecido pela mãe, acabando depois por encontrar ‘Clarinda’, a mulher da sua vida, filha de Apolinário, imperador de Constantinopla.
A relação amorosa segue os esquemas clássicos do género: é um sentimento sublime que consegue superar os obstáculos e dificuldades de toda a espécie e que será coroado pelo matrimónio, primeiro consumado em segredo, depois realizado oficialmente, após “Clarimundo”, com outros cavaleiros, ter derrotado as forças do Grão-Turco que haviam chegado a ameaçar as muralhas de Constantinopla.
No contexto destas aventuras deve ser referida aquela que, com todo o direito, pode ser considerada a mais importante do romance, visto que constitui o verdadeiro objectivo da sua composição.
No capítulo IV do terceiro e último livro encontramos “Clarimundo” em Portugal, na companhia do mago “Fanimor”, desde sempre o seu protector oculto. Este condu-lo ao alto da torre de Sintra e aqui, tomado pelo espírito profético, descreve-lhe em versos a sua gloriosa descendência: dele procederão os reis de Portugal que estenderão o seu domínio desde as regiões orientais extremas até às mais ocidentais.
A profecia de “Fanimor” ocupa no seu conjunto 41 oitavas e uma quadra em versos de ‘arte maior’, mas por si só confere um sentido novo a todo o romance. “Clarimundo” não é, ou não é mais, um dos muitos heróis dos romances de cavalaria; a sua função não se resolve simplesmente ao nível pedagógico exemplar, já que a sua acção, o seu heroísmo e a sua “corteisie”, recebem também um superior crisma épico.

Cortesia de triplov 

O valor literário desta parte lírica não é, atenda-se bem, proporcionado à importância que ela assume no interior do romance: longe de qualquer tentativa de crítica histórica, tudo se reduz a uma árida lista de nomes que nada têm em comum com a história da dinastia portuguesa que nos é apresentada por Camões nos “Lusíadas”, e em que a figura que adquire maior relevo é a do rei Manuel I, de quem se enumeram os domínios e as terras conquistadas.
Trata-se, todavia, da primeira tentativa quinhentista de poesia épica em Portugal e como tal terá que ser avaliada, em função, também, do contexto em que é introduzida.
João de Barros antecipa-lhe o aparecimento desde o Prólogo em que afirma ter sabido, de um «fidalgo alemão», como Afonso Henriques fora na realidade filho segundo de um rei da Hungria, neto, por sua vez, do imperador “Clarimundo”. A referência a este parentesco lendário se, por um lado, introduz aquela dimensão fantástica que informará depois as vicissitudes cavaleirescas, coloca ao mesmo tempo o romance num plano diferente dos anteriores castelhanos: o leitor português é posto em condições de captar, graças àquela advertência, o sentido profundo, histórico se se quiser, do protagonista, seguindo-o nas suas aventuras através do mundo sem limites da narrativa cavaleiresca.

Sem aquela antecipação, para um nível mais baixo de leitura, a história de “Clarimundo”, tal como nos é narrada nos primeiros dois livros, não apresentaria nenhum elemento de novidade no que respeita à tradição, sentindo-se apenas no início do terceiro livro uma inesperada mudança do registo estilístico e narrativo. O próprio cenário, com efeito, muda neste ponto, passando-se de uma moldura imaginosa e ausente de qualquer referência espácio-temporal precisa, para um Portugal geograficamente conotado, em que a acção cavaleiresca acaba por adquirir um sentido novo. Não se pode falar, evidentemente, de realismo, mas sim de uma atmosfera onírica em que o fantástico é mediado através da experiência real (veja-se, por exemplo, a justificação mítica que o autor dá de alguns topónimos).
“A Crónica do Imperador Clarimundo” vive e é vivificada por este desdobramento de planos:
  • de uma parte o maravilhoso fantástico, da outra o maravilhoso histórico, ambos em relação dialéctica entre si.
Por esta via o romance adquire uma nova funcionalidade enquanto se precisam, em perspectiva, as motivações narrativas». Ettore Finazzi-Agró, Novelística Portuguesa do Século XVI, Lisboa, Instituto de Cultura Portuguesa, 1978, Fundação Calouste Gulbenkian, HALP, 2003.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

João de Barros. Décadas. «Porém, a estas razões houve outras em contrário, que, por serem conformes ao desejo de el-rei, lhe foram aceites. E as principais que o moveram, foram herdar esta obrigação com a herança do reino, e o infante dom Fernando, seu pai ter trabalhado neste descobrimento, quando por seu mandado se descobriram as ilhas de Cabo Verde»

Cortesia de notasereflexoes

«Como el-rei dom Manuel, no segundo ano do seu reinado, mandou Vasco da Gama com quatro velas ao descobrimento da Índia.
Falecido el-rei dom Joam sem legítimo filho que o sucedesse no reino, foi alevantado por rei (segundo ele deixara em seu testamento) o duque de Beja, dom Manuel, seu primo co-irmão, filho do infante dom Fernando, irmão de el-rei dom Afonso; a quem por legitima suceção era devida esta real herança, da qual recebeu posse pelo cetro dela, que lhe foi entregue em Alcácer do Sal, a vinte sete dias de Outubro do ano de nossa redenção de mil quatro centos noventa e cinco; sendo em idade de vinte e seis anos, quatro meses e vinte cinco dias (como mui particularmente escrevemos em a outra outra nossa parte intitulada Europa, e ali em sua própria crónica).
E porque, com estes reinos e senhorios, também herdava o prosseguimento de tão alta impresa como seus antecessores tinham tomado, que era o descobrimento do oriente por esse nosso mar oceano, que tanta industria, tanto trabalho, e despesa, por discurso de setenta e cinco anos tinha custado, quis logo, no primeiro ano de seu reinado, mostrar quanto desejo tinha de acrescentar à coroa deste reino novos títulos sobre o senhorio de Guiné, que, por razão deste descobrimento, el-rei dom Joam, seu primo, tomou, como posse da esperança de outros maiores estados que por esta via estavam por descobrir. Sobre o qual caso, no ano seguinte de noventa e seis, estando em Montemor-o-Novo, teve alguns gerais conselhos: em que ouve muitos e diferentes votos, os mais foram que a Índia não se devia descobrir. Por que, além de trazer consigo muitas obrigações, por ser estado mui remoto para poder conquistar e conservar, debilitaria tanto as forças do reino que ficaria ele sem as necessárias para sua conservação.

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Quando mais que, sendo descoberta, podia cobrar este reino novos competidores, do qual caso já tinham experiência, no que se moveu entre el-rei dom Joam e el-rei dom Fernando de Castela, sobre o descobrimento das Antilhas, chegando a tanto, que vieram repartir o mundo em duas partes iguais para o poder descobrir e conquistar. E pois desejo de estados não sabidos, movia já esta repartição, não tendo mais antes os olhos que esperança deles e algumas amostras do que se tirava do bárbaro Guiné, que seria vindo a este reino quanto se dizia daquelas partes orientais. Porém, a estas razões houve outras em contrário, que, por serem conformes ao desejo de el-rei, lhe foram aceites. E as principais que o moveram, foram herdar esta obrigação com a herança do reino, e o infante dom Fernando, seu pai ter trabalhado neste descobrimento, quando por seu mandado se descobriram as ilhas de Cabo Verde, e mais por singular afeição que tinha à memória das cousas do infante dom Anrique, seu tio, que fora o autor do novo título do senhorio de Guiné que este reino houve, sendo propriedade mui proveitosa sem custo de armas e outras despesas que têm muito menores estados do que ele era. Dando por razão final, aqueles que punham os inconvenientes a se a Índia descobrir, que Deus, em cujas mãos ele punha este caso, daria os meios que convinham a bem do estado do reino.

Cortesia de purl

Finalmente el-rei assentou neste descobrimento, e depois, estando em Estremoz, declarou a Vasco da Gama, fidalgo de sua casa, por capitão mor da vela que havia de mandar a ele, assim pela confiança que tinha de sua pessoa como por ter acção nesta ida, cá, segundo se dizia. Estevam da Gama, seu pai já defunto, estava ordenado para fazer esta viagem em vida de el-rei dom Joam. O qual, depois que Bartholomeu Dias veio do descobrimento do cabo de Boa Esperança, tinha mandado cortar a madeira para os navios desta viagem, por a qual razão el.rei dom Manuel mandou ao mesmo Bartholomeu Dias que tivesse cuidado de os mandar acabar segundo ele sabia que convinha, para sofrer a fúria dos mares daquele grão cabo de Boa Esperança, que na opinião dos mareantes começava criar outra fabula de perigos, como antigamente fora a do cabo Bojador, de que no principio falamos. E assim, pelo trabalho que Bartholomeu Dias levou ao apercebimento destes navios como para ir acompanhando Vasco da Gama até o por na paragem que lhe era necessária à sua derrota, el-rei lhe deu a capitania de um dos navios que ordinariamente iam à cidade de São João da Mina.
E sendo já no ano de quatrocentos noventa e sete, em que a frota para esta viagem estava de todo prestes, mandou el-rei, estando em Montemor-o-Novo, chamar Vasco da Gama e os outros capitães que haviam de ir em sua companhia, os quais eram Paulo da Gama, seu irmão, e Nicolau Coelho, ambos pessoas de quem el-rei confiava este cargo. E posto que por algumas vezes lhe tivesse dito sua tenção acerca desta viagem, e disso lhe tinha mandado fazer sua instrução, pela novidade da impresa que levava, quis usar com ele da solenidade que convém a taes casos, fazendo esta fala publica, a ele e aos outros capitães, perante algumas pessoas notáveis que eram presentes, e para isso chamadas». In João de Barros, Décadas, Selecção, Prefácio e notas de António Baião, Colecção de Clássicos Sá da Costa, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1945.

Cortesia Livraria Sá da Costa/JDACT

terça-feira, 19 de abril de 2011

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «Tal sentimento está na origem da mais antiga obra de Couto, que nos chegou o Diálogo do Soldado prático português. Esta passa erradamente pela primeira versão da outra, posterior de uns bons quarenta anos, que é chamada o Diálogo do Soldado prático...Tendo invernado em Diu em 1560, levou Couto mais ou menos o lapso de tempo de uma década, a ganhar honra na Índia»

(c. 1542-616)
Lisboa
Cortesia dewikipedia

Introdução à Leitura da DÉCADA QUARTA de Diogo do Couto
«Da história do que se chamou a Ásia portuguesa o monumento fundamental que possuímos são as Décadas, perfeitas ou imperfeitas, cuja responsabilidade assumiram sucessivamente João de Barros, Diogo do Couto e António Bocarro. A imperfeição é manifesta no caso de Diogo do Couto, que deveria ter-nos deixado nove Décadas, da quarta à décima-segunda inclusivamente. Destas, chegaram-nos umas completas, outras em epítome; doutra chegou-nos apenas metade; outra deu-se por perdida; de algumas conhecem-se diferentes versões; de nenhuma tinha sido tentado, até há poucos anos, o estabelecimento ou restabelecimento do texto fidedigno.
A presente edição geral procura, mediante o regresso às fontes, impressas ou manuscritas, e o cotejo de testemunhos, quando há vários, oferecer o melhor texto possível de todas as Décadas de Couto. Começa pela quarta, que é a que corresponde aos mais recuados anos que o autor pôs em crónica, e que é também a sua primeira obra publicada.

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Antes da obra, o autor. O próprio Couto afirma que invernou em Diu em 1560. Não se conhece a data exacta da sua chegada à Índia, mas, em qualquer caso, pouco antes terá sido. A Década 4 saiu em 1602.
Começaremos por dizer a nossa visão, num relance, do que foram quarenta anos da vida deste homem, na Índia, salvo um salto a Lisboa, e do seu tempo em Goa. A que se poderiam chamar as primícias difíceis e os labores aturados de um destino imprevisível de cronista.
Tendo, pois, invernado em Diu em 1560, levou Diogo do Couto mais ou menos o lapso de tempo de uma década, a ganhar honra na Índia. Muitos passos disseminados na sua obra permitem reconstituir o que foram o seu baptismo de fogo, e as acções em terra e mar, em que deu provas de soldado, rapidamente prático naquelas andanças e matanças.
Mas este soldado tinha habilitações literárias. Reflectia nas sem-razões que prejudicavam o Estado. Uma delas era que nele punham e dispunham, e até às vezes o governavam, fidalgos dos quatro costados, mas sem experiência suficiente daquelas partes, e às vezes sem experiência nenhuma. No caso de governadores e vice-reis, quando começavam a entender da Índia, é que os mandavam embora.

Cortesia de topatudo 
Tal sentimento está na origem da mais antiga obra de Couto, que nos chegou o Diálogo do Soldado prático português. Esta passa erradamente pela primeira versão da outra, posterior de uns bons quarenta anos, que é chamada o Diálogo do Soldado prático, ou apenas O Soldado prático. Águedo de Oliveira foi quem melhor viu a irredutível alteridade e mesmo a oposição entre as duas. Na mais antiga dialogam duas personagens, e na mais moderna três, e aquela é uma obra de esperanças, e esta de desengano. Distingui-las-emos especificando o primeiro Soldado prático e o segundo Soldado prático. Aquele terá sido composto por volta de 1565-1570. E o que é certo é que se apresenta como o fruto literário da primeira fase da vida do autor na Índia, digamos do seu longo serviço militar. Dialogando com um vice-rei, que acaba de ser nomeado, pretende o soldado fazê-lo beneficiar da sua experiência. E entende Couto, que alardeia assim a sua competência nos assuntos da Ásia, que ela merece ser reconhecida e aproveitada, com vantagem para a coroa e para o Estado, e proveito para ele. Infelizmente parece impossível averiguar qual tenham sido a sorte e o efeito, ao tempo, deste manuscrito, cujo original Severim pretende que foi roubado». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Fundação Oriente 1999, ISBN 972-27-0876-7.

Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

sábado, 12 de março de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. Parte III. «Camões recorda mesmo a pele bovina (IX.23) que, cortada em tiras finíssimas, fez o perímetro de Cartago, por indústria de Vénus. E de Ovídio não tem apenas o conhecimento das Metamorfoses. No início da Elegia III dá-nos um belo retrato moral de Ovídio desterrado...»

Cortesia de paulatravelho
No ano de 1572 foi feita a publicação dos Lusíadas 

Com a devida vénia à Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Prefácio
A Elaboração do Poema
A primeira vez que Eneias é invocado é o «Troiano». Compara-o ao Gama; em II.45.5 lembra que o «piadoso» Eneias «navegou / de Cila e de Caríbdis o mar bravo»; em III.106.1-8 compara a tímida Maria implorando o favor do rei de Portugal a Vénus quando implora a Júpiter o favor para seu filho Eneias, navegando. Camões recorda mesmo a pele bovina (IX.23) que, cortada em tiras finíssimas, fez o perímetro de Cartago, por indústria de Vénus. E de Ovídio não tem apenas o conhecimento das Metamorfoses. No início da Elegia III dá-nos um belo retrato moral de Ovídio desterrado, em confronto com o seu caso pessoal:

O Sulmonense Ovídio, desterrado
na aspereza do Ponto, imaginando
ver-se de seus parentes apartado;
sua cara mulher desamparando,
seus doces filhos, seu contentamento,
de sua pátria os olhos apartando;
não podendo encobrir o sentimento,
aos montes e às águas se queixava
de seu escuro e triste nacimento.
O curso das estrelas contemplava,
como por sua ordem discorria
o céu, o ar e a terra adonde estava.
Os pexes pelo mar nadando via,
as feras pelo monte, procedendo
com o seu natural lhes permitia.
De sua fonte via estar nacendo
os saüdosos rios de cristal,
a sua natureza obedecendo.
Assi só, de seu próprio natural
apartado, se via em terra estranha,
a cuja triste dor não acha igual.
Só sua doce Musa o acompanha,
nos versos saüdosos que escrevia
e lágrimas com que ali o campo banha.
...............................................................

Cortesia de omba
E que leu dos prosadores? Plutarco, com certeza. Em grego? Conheceu a Bíblia. Dos geógrafos e naturalistas algum conhecimento teria. Pelo menos, cita-os em fiada:

Eu sou aquele oculto e grande cabo
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
Plínio, e quantos passaram, fui notório.

Acerca de Plínio parece não haver dúvidas.
Da história geral também não estamos bem informados. Utilizou a Enneades ou Rhapsodiae historiarum, de Sabélico, volumoso tratado que foi parcialmente traduzido em português por D. Leonor de Noronha, «prima co-irmã do amigo e protector do poeta D. Francisco de Noronha,  2.º conde de Linhares». Da tradução só são conhecidos os dois primeiros volumes, impressos em Coimbra (1.º, 1550; 2.º, 1553). A obra geral de Sabélico foi continuada por Paulo Jove e outros.
É notável a prontidão e a frequência com que o Poeta invoca paralelos para pôr em evidência os feitos dos Lusitanos ou os seus defeitos em relação a outros:

Codro, por que o inimigo não vencesse,
Deixou antes vencer da morte a vida;
Régulo, por que a pátria não perdesse,
Quis mais a liberdade ver perdida.
Este, por que a Espanha não temesse,
A cativeiro eterno se convida! 
Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,
Nem os Décios leais fizeram tanto.
(IV.53.1-8)
Não matou a quarta parte o forte Mário
Dos que morreram neste vencimento,
Quando as águas co sangue do adversário
Fez beber ao exército sedento;
Nem o Peno, asperíssimo contrário
Do romano poder, de nascimento,
Que tantos matou da ilustre Roma,
Que alqueires três de anéis dos mortos toma;
E se tu tantas almas só pudeste
Mandar ao Reino escuro do Cocito,
Quando a santa cidade desfizeste
Do povo pertinaz no antigo rito,
Permissão e vingança foi celeste
E não força de braço, ó nobre Tito,
Que assi dos vales foi profetizado,
E despois por JESU certificado.
(III.116 e 117)
Do pecado tiveram sempre a pena
Muitos que Deus o quis e permitiu:
Os que foram roubar a bela Helena,
E com Ápio também Tarquino o viu;
Pois por quem David santo se condena?
Ou quem o tribo ilustre destruiu
De Benjamim? Bem claro no-lo ensina
Por Sarra Faraó, Siquém por Dina.

E, pois, se os peitos enfraquece
Um inconcesso amor desatinado,
Bem no filho de Almena se parece
Quando em Ônfale andava transformado.
De Marco António a fama se escurece
Com ser tanto a Cleópatra afeiçoado.
Tu, também, Peno próspero, o sentiste,
Despois que ũa moça vil na Apúlia viste.
(III.140 e 141)

Teve muita influência no Poeta o poema Argonautica de Valério Flacco e talvez o de Apolónio Ródio. A partida dos mercantes de Belém é associada à dos Mínias:

Foram de Emanuel remunerados,
Por que com mais amor se apercebessem,
E com palavras altas animados
Pera quantos trabalhos sucedessem.
Assi foram os Mínias ajuntados,
Pera que o Véu dourado combatessem,
Na fatídica nau, que ousou primeira
Tentar o mar Euxínio, aventureira.
(IV.83)

Cortesia de purl 
Os Portugueses são os «segundos Argonautas» (IX.64). Não faltam as referências ao Veo (=Velo) dourado (III.72 e IV.83), nem à «rica pele de Colcos» (V.28) (10).
A partida das naus de Belém suscita ao Poeta este símile:

Elas prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos
(IV.85)

E a constelação Argo figura, entre outras, nestes versos:

Este, por sua indústria e engenho raro,
Num madeiro ajuntando outro madeiro,
Descobrir pôde a parte que faz clara
De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.
(VIII.71)

Dos poetas estrangeiros não pode negar-se-lhe o conhecimento de Petrarca, Ariosto, Tasso, Sannazaro, Garcilaso, Boscán. Teve de munir-se de livros auxiliares de estudo, como as Genealogiae deorum, de Boccacio, o Dictionarium poeticum, de Tormentino, a Officina, de Ravisio Textor, os Lectionum antiquarum libri triginta, de Célio Rhodigino.

Cortesia de conversamoswordpress 
Conhecia bem as lendas mitológicas e a história geral da Antiguidade, mas não é fácil determinar as suas fontes. Para além de Sabélico, que conheceu da história romana? Para a história geral dos tempos posteriores à queda do império romano ocidental – lembra Epifânio (11) –, valeu-se Camões dos trabalhos de vulgarização que já no seu tempo existiam, tais como: a Historia rerum ubique gestarum, de Eneas Silvio, o Catalogus annorum et principum, de Valerio Ryd, que chega até 1540, o De vitis ac gestis summorum pontificum, de Plátina, os Commentariorum libri, de Raffael Maffei de Volaterra, as Historie del mondo, de Tarchagnota. Os conhecimentos cosmográficos podem ter sido hauridos na enciclopédia que tem por título Margarita philosophica. A descrição do sistema do mundo ptolemaico foi
extraída do Tratado da Esfera, de Pedro Nunes (1537). Storck, referindo-se aos conhecimentos de Camões, escreve: «Os seus conhecimentos filosóficos derivam, quanto a pormenores, na aparência, da leitura de Diógenes Laércio, Plutarco, Cícero, Valério Máximo, Aulo Gélio, Plínio Sénior e das Antologias. Encontram-se a miúdo reminiscências destes escritores em passagens camonianas romanos que Camões manuseava frequentemente. As suas poesias são testemunho claro de como conhecia ditos e feitos de uma longa série de escritores ilustres: Homero, Aeliano, Xenofonte, Virgílio, Lucano, Ovídio, Horácio, Plauto, Lívio, Eutrópio, Justino, Ptolemeu e outros, ficando indecisa a questão se lia obras gregas no original». In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.


Cortesia do Instituto Camões/JDACT

terça-feira, 1 de março de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. Parte II. «Como é que Camões, errante, pôde ele arrumar no seu cérebro tantos conhecimentos e servir-se deles por onde quer que andou? Estamos mais bem informados acerca da sua despedida de amor, em Coimbra (vão as serenas águas / do Mondego descendo ...) do que dos seus estudos naquela cidade»

Cortesia de oslusiadas

Com a devida vénia à Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Prefácio
A Elaboração do Poema
«Dizer quando o Poeta pousou pela primeira vez a pena sobre o papel não parece muito difícil; mas a quando remonta o pensamento da epopeia? Para Storck o propósito de cantar os feitos heróicos do seu povo e da Pátria tomou, contudo, forma decisiva e amadureceu durante os seis meses de vida no oceano . É uma tese que podemos aceitar. E acrescenta o historiador alemão: «Se o gérmen da epopeia ainda não estendera até então raízes vivazes e tenazes, se na mente do Poeta ainda não se definira claramente o descobridor do caminho da Índia como figura principal, se a primeira e feliz navegação ao Oriente, a empresa do forte capitão, ainda não se revelara no seu esboço e na primeira traça como ponto culminante e foco de irradiação, no qual convergem as acções heróicas dos Portugueses, foi, sem dúvida alguma, durante a travessia que o génio criador do Poeta tomou o seu voo de águia».

Cortesia de poliscopio
Infelizmente, Storck terçou armas pela criação de dois poemas:
  • um, histórico, elaborado ainda em Portugal e em Lisboa e de que o Poeta teve quase prontos os Cantos III e IV,
  • e, depois, a epopeia marítima, em que vem entretecer-se a história do Reino.
Mas isto, a meu ver, é destruir a unidade dos Cantos III, IV e V, que constituem a narrativa dos feitos do Reino ao rei de Melinde e inserem-se na epopeia marítima. Tal narrativa tem muito pouco de histórica: foi sobretudo ideada pelo Poeta. Camões aproveitou muito bem o momento em que aparece pela primeira vez um rei amigo, o de Melinde, para iniciar a narrativa épica desde as origens até aquele momento em que chegou a Melinde. Não se vê como se podem separar estes três cantos e inserir os dois primeiros numa epopeia do Reino.

Prefiro ver a elaboração da epopeia segundo um plano preestabelecido, apenas modificado nesta ou naquela estância por acontecimento posterior à navegação e portanto tendo o seu lugar em qualquer profecia.
Não creio que o Poeta tenha levado longos anos a elaborar a sua epopeia intensamente, e há uma efeméride que mostra bem que em quatro ou cinco anos o Poeta avançara bastante. O trecho insere-se na descrição do orbe terrestre:

Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço os cantos que, molhados,
Vêm do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapados ...
(X.128.1-4)

Refere-se ao rio Mecom, que recolheu os náufragos do navio de Leonel de Sousa, que se afundou nos mares da China nos fins de 1558 (ou princípios de 1559). Entre eles contava-se Camões. O Poeta fala dos «seus cantos molhados», o que significa que se tratava já de um volume apreciável, cuja perda seria irreparável. O principal da obra estava feito. Mas o Poeta ainda a limou e é testemunha do facto o historiador Diogo do Couto, seu amigo, que em Moçambique o viu dedicado a essa tarefa (1568-1569).

Cortesia de palavrasquemetocam
De novo em Lisboa, em 1570, o Poeta deu-se pressa em arranjar forma de publicar o seu Poema e deve ter encontrado um interessado intercessor em D. Manuel de Portugal.
Em 23 de Setembro de 1571 a obra estava na impressão, conforme consta do alvará respectivo. No alvará que concede a Luís de Camões uma tença de 15$000 réis pela publicação de Os Lusíadas (datado de 28 de Julho de 1572) diz-se que a mercê será dada por três anos, a começar em doze de março deste ano presente de mil quinhentos setenta e dous em diante. Esta tença foi dada pelo conhecimento que o rei tem do «engenho e habilidade» do Poeta e pela «suficiência que mostrou no livro que fez das cousas da Índia». A data de 12 de Março de 1572 é uma data assinalável porque deve corresponder à do lançamento da obra.

Como é que Camões, errante por tantas partes do Mundo, dependente, como soldado, das ordens de marcha que lhe impunham e de que naturalmente descansava a bordo dos navios em que embarcava, como pôde ele arrumar no seu cérebro tantos conhecimentos e servir-se deles por onde quer que andou?
Estamos mais bem informados acerca da sua despedida de amor, em Coimbra (vão as serenas águas / do Mondego descendo ...) do que dos seus estudos naquela cidade.
Nem mesmo sabemos quando o Poeta saiu definitivamente de Coimbra. Mas se na 1.ª carta da Índia se queixa de, sem pecado que o obrigasse a três dias de Purgatório, ter passado (em Lisboa) três mil dias de más línguas, piores tenções, danadas vontades, nascidas de pura inveja de verem «su amada yedra de si arrancada, y en otro muro asida», podemos admitir que chegou a Lisboa por 1546.
Camões deve ter assistido a certos conflitos de jurisdição entre os cónegos regrantes de Santa Cruz e a Universidade, transferida de Lisboa para Coimbra. Impossível me é afirmar (porque a presença de Camões em Coimbra coincidiu com uma fase de transição) se Camões já foi ouvir o ensino «artístico» à Universidade ou se se manteve nos colégios de Santa Cruz, protegido por algum parente daquela congregação. É curioso que na narrativa ao rei de Melinde (III.97), falando das obras do rei D. Dinis, o Poeta escreveu:

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofício de Minerva
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar do Mondego a fértil erva.
Quanto pode de Atenas desejar-se,
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva,
Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Do bácaro e do sempre verde louro.

É Vasco da Gama quem informa, mas a verdade é que nesse momento (em 1497-1498) a Universidade estava em Lisboa. Vasco da Gama transmite ao rei de Melinde uma impressão de Camões, que aproveitara com o estudo de Coimbra e com a reforma do ensino ali operada.

Cortesia de purl
Os poetas lidos por Camões foram numerosos. Nem só Virgílio, nem só Homero, ainda que do primeiro teve um conhecimento profundo, que se revela no número de passos imitados, às vezes por forma bastante literal. Por exemplo:

Como isto disse, manda o consagrado
Filho de Maia à Terra, por que tenha
Um pacífico porto e sossegado,
(II.56.1-3)

Haec ait et Maia genitum demittit ab alto,
Ut terrae utque novae pateant Karthaginis arces
hospitio Teucris...
(En., I.297-299)

Quando a mãe de Eneias interroga ansiosamente o Pai dos deuses sobre o futuro do filho, Júpiter «oscula libavit natae» e diz-lhe: «Parce metu, Cytherea, manent immota tuorum / fata tibi ...» (I.256-258). Em Os Lusíadas também Júpiter, ainda mais aceso de amor:

As lágrimas lhe alimpa, e acendido
Na face a beija e abraça o colo puro
(II.42.5-6)

para lhe dizer

... não temais
Perigo algum nos vossos Lusitanos
(II.44.1-2)

No entanto, se Camões reconhece a suserania destes dois (V.94.7 e V.98.2), não desconheceu nem deixou de aproveitar outros: Ovídio, Horácio, Valério Flacco, Lucano, Claudiano e quantos mais ...
Conhece-os por dentro e invoca-os com toda a precisão». In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. «...Em minha opinião, e fossem quais fossem as meditações do Poeta sobre o assunto, o Poema, tal como o temos, começou a tomar forma em 1554 ou pouco depois. A Dedicatória ficou como foi escrita, a marcar um acontecimento que teve foros de miraculoso para os Portugueses «maravilha fatal» - e só o poderia ter sido não longe de 1554...»

Cortesia de oslusiadas

Com a devida vénia à Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro

Prefácio
A Elaboração do Poema
Manuel de Faria e Sousa, cuja «reabilitação» na Europa cis e transpirenaica parece iminente, escreveu, como é sabido, duas vidas de Camões: uma impressa à frente de Os Lusíadas e outra à frente das Rimas Várias, muito modificada. (Deve dizer-se que nem em todos os exemplares das Rimas aparece esta Vida.) A primeira das Vidas é notável por diversos títulos, e ainda pelos dislates que aquele comentador acumulou sobre o início da redacção do Poema, pois diz (col. 35) «que el creerse que la mayor parte deste Poema (la mayor parte, note-se) iva escrito de Portugal quãdo passó a la India, no es difficil; i menos el ver que desde sus primeros años le comẽçó». E mesmo que tivesse começado o seu Poema aos 20 (concede Faria e Sousa), trouxe-o entre mãos trinta anos, pois tendo nascido em 1517 (Faria e Sousa mudou depois de opinião) e imprimido o Poema em 1572 ficam 55, e deduzindo os tais 20 ficam 30 «e quando menos 20». E se alguém argumentar que o Poema só poderia ter sido começado (ou, pelo menos, concebido) depois da leitura das duas primeiras Décadas de Barros e do primeiro livro da História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, por Castanheda, poderá objectar-se com Faria e Sousa que Camões poderia ter conhecido aquelas obras em manuscrito. Mas ainda que não fosse assim, havendo a primeira Década de Barros sido impressa em 1552 e tendo o Poeta partido para a Índia em 1553 «aun queda en pie lo que diximos de q el primero bosquejo se hizo en Portugal en este tiempo que corriò desde la impression de las Decadas a sua partida; o tres años primero que le imprimiese el de 1572; e assi quando menos, son veinte los que truxo consigo este Poema». Uma tão penetrante conjectura devia por força ter o auxílio da Providência. E teve! «O buen Dios, como favoreces las honestas ocupaciones!» E vieram ter-lhe às mãos, ao começar a impressão dos seus Comentários, dois manuscritos, um deles de primacial importância para o seu ponto de vista: «es una copia de los primeros seis cantos, escrita antes que el Poeta passasse a la India: con que me hallo mas contento que un ignorante; mas loco que un enamorado, i mas sobervio que un rico» (na corte de Madrid, acrescente-se). Eis como termina a cópia manuscrita: «Estes seys cantos se furtaraõ a Luis de Camões da obra que tem começado sobre o descubrimento, e conquista da India por os Portugueses: Vam todos acabados, excepto o sexto, que posto que vay aqui o fim delle, faltalhe hũa historia de amores que Leonardo
contou estando vigiando, que ha de prosiguir sobre a Rima 46 onde logo se sente bem a falta della; porque fica fria, e curta a conversaçam dos vigiantes, e o propio canto mais breve que os outros» (col. 37). E assim se fundamentava uma redacção incompleta do Poema, antes de o Poeta ter partido para a Índia.

Cortesia de poliscopio
À história de cavalaria de Fernão Veloso faltava a história de amores de Leonardo, esquecendo que no fim dos Doze de Inglaterra a «companha» pedia a Veloso mais histórias de cavalaria! (VI.69.5-8).
Na segunda Vida, à frente das Rimas, dirá Faria e Sousa no n.º 28:
  • «En la vida del P. que escrivimos en los Comentarios a la Lusiada, desde el numero 16. hasta el 21. hemos procurado mostrar en que tiempos, y en que partes del mundo avia el P. escrito los más de sus Poemas; y despues hallamos que en mucho nos aviamos equivocado, porque tuvimos mejores noticias».
E mais não disse! Ora o n.º 16 referido é justamente aquele em que se ocupa das circunstâncias de tempo e de lugar em que redigiu Os Lusíadas!
Não há qualquer notícia de que o Poeta tenha tido a ideia de escrever um Poema sobre o descobrimento de Vasco da Gama antes de partir para a Índia. Pode supor-se, interpretando alguns versos líricos, que várias ideias heróicas lhe passaram pela mente quando estava ainda em Lisboa, mas não concretizou nenhuma. É certo que o primeiro livro de Castanheda estava à sua disposição desde 1551 e a primeira das Décadas da Ásia desde o ano seguinte. Mas a elaboração de um plano épico não dependia apenas de duas ou três leituras. Camões não ia escrever uma narrativa histórica; ia escrever uma obra de arte, servindo-se de um grande acontecimento histórico. Decidir-se a optar pela fábula pagã também não lhe teria sido fácil, mas, além do exemplo do Mantuano, havia em Camões uma verdadeira idolatria pela beleza do paganismo. Sobre esta matéria estava Camões bem informado ainda antes de partir para a Índia, mas faltava inseri-la num grande campo de acção, que só a experiência marítima lhe daria. E quando falo de experiência marítima não quero referir-me apenas à dura vida de bordo, nem aos grandes fenómenos presenciados, mas às imagens visuais e auditivas que a própria vida do mar pôs ao alcance da sua retina e do seu ouvido e que vieram a transformar-se em versos imortais, como o famoso:


Cortando o longo mar com larga vela

analisado por Tasso da Silveira. A est. 19 do Canto I, que marca o início da narração, só poderia ter sido escrita por um nauta que vê de bordo as outras naus recortando-se num poente solar:
Já no largo oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteu são cortadas,

Nem a alusão mitológica vem empanar a beleza do quadro. À sua experiência marítima pertence a tormenta do cabo da Boa Esperança, que lhe daria a inspiração para a tormenta (irreal) sofrida por Vasco da Gama.
Inseriram-se na sua experiência marítima os ecos surdos do mar, que depois foram transformados em arte:

Bramindo o negro mar de longe brada
Como se desse em vão (= no vão) nalgum rochedo ...

... e cum sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
 
Cortesia de palavrasquemetocam

Em minha opinião, e fossem quais fossem as meditações do Poeta sobre o assunto, o Poema, tal como o temos, começou a tomar forma em 1554 ou pouco depois. A Dedicatória a D. Sebastião foi redigida na hora de iniciar o seu Poema, portanto, por fins de 1554, quando chegou à Índia a notícia do prodigioso nascimento do neto de D. João III, em 20 de Janeiro de 1554. Não só o Poeta se dirige em toda a Dedicatória ao tenro infante «Vos tenrro & novo ramo florecente» (I.7); «Que nesse tenrro gesto vos contemplo» (I.9); «Que afeiçoada ao gesto bello & tenro» (I.16), mas, circunstância para mim muito importante, não procurou alinhá-la na esfera temporal com o ano em que acabou o Poema. A Dedicatória ficou como foi escrita, a marcar um acontecimento que teve foros de miraculoso para os Portugueses «maravilha fatal» - e só o poderia ter sido não longe de 1554. Os versos 
 
E vós, ó bem nascida segurança
Da lusitana antiga liberdade,
 
marcam uma «segurança» presente, que acaba de surgir. Muito mais tarde, em 1575, dirá a D. Sebastião

Assi vós, Rei, que fostes segurança
da nossa liberdade ...

Eram já outros os termos dessa segurança, que o próprio rei, aliás, se encarregaria de destruir.
Não me resta dúvida de que foi por 1554 que o Poeta tratou de elaborar o plano da epopeia (poderia escrever-se um poema sem plano?) e de delinear os principais episódios que, entressachados no Poema, mas fazendo corpo com ele, o encheriam de atractivos estéticos. In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

João de Barros: «Décadas da Ásia». Parte II. «Poucos sabem que as «Décadas», além de serem um hino às glórias nacionais, contêm importantes aspectos estéticos. Dá-se pouca atenção ao lado artístico da obra, por uma razão muito familiar a todos que estudam a literatura portuguesa de quinhentos: a falta de uma boa edição»

Cortesia de wsikipédia

João de Barros, historiador da gesta portuguesa na Índia, é uma figura conhecida de muita gente … pelo menos de nome. Mas poucos sabem que as «Décadas», além de serem um hino às glórias nacionais, contêm importantes aspectos estéticos. Dá-se pouca atenção ao lado artístico da obra de Barros, por uma razão muito familiar a todos que estudam a literatura portuguesa de quinhentos: a falta de uma boa edição.

Hoje, a única edição das «Décadas» acessível ao público é o fac-símile incompleto editado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Décadas da Asia
(Décadas da Ásia de João de Barros. Texto apresentado por T. F. Earle, ed. em CD-ROM. Lisboa: CNCDP/Oxford: Centre for the Study of Portuguese Discoveries, 1999)


Cortesia de carreiradaindia

«Década I,  Livro IX

Capítulo Primeiro. Em que se descreve toda a costa marítima do Oriente corn as distâncias que há entre as mais notáveis cidades e povoações per modo de roteiro, segundo os navegantes.

Pera declaração da terra Malabar, que foi primeira da Índia que Dom Vasco da Gama trihou, na entrada que fez em Calecute. Cidade metrópolí dela, fizemos em soma relação da provincia a que os antíguos propriamente chamaram Índia dentro do Gange, e os naturais moradores Indostão; e depois, por causa do que D. Francisco fez em Quíloa e Mombaça (segundo neste livro precedente fica), tratámos um pouco daquela terra Zanguebar onde elas estão situadas que é parte da terra de África a que os geógrafos chamaram Etiópia sobre Egipto.

Ao presente, porque com a entrada dele, D. Francisco de Almeida, na Índia, os mares orientais desta terra Ásia, começaram a ser lavrados dos com nossas naus e sentir sobre si o grave peso de sua potência, e os moradores da terra firme e do grã número das ilhas, filhas daquele Oceano, sendo sáfaro do nome cristão, submeteram seu intendimento em obséquio de Cristo per doutrina nossa, e todolos que sentiram e ouviram nossas armas, abaixaram seu pescoço ao jugo delas per amor e temor, convém, pera se entender o discurso destas obras, fazermos mais particular relação que a passada, declarando as cidades e principais povoações e portos da costa marítima desta parte oriental isto per modo de itinerário marítimo; ou, por falarmos conforme aos navegantes, será segundo eles usam na maneira de suas derrotas. Porque, per modo de graduação como usamos em as távoas da nossa Geografia, lá se verá mais a olho verificada esta descrição, pois (como dissemos) aqui não serve mais que pera dar razão da história e não pera situação de lugares. Verdade é que dos lugares mais notáveis vai de uns a outros a sua distância pela altura que os nossos pilotos tomaram; mas os lugares do meio, é pela estimativa de singraduras, segundo a ordem da navegação deles, pois a matéria é dela.

Cortesia de trasosmontes
E começando em universal, a terra de Asia é a maior parte das três em que os geógrafos dividiram todo o Universo, e aparta-se da Europa per o rio Tánais, a que agora os naturais dela chamam Dom, e per o Mar Negro, onde se ele vem meter, continuando ao de Grécia pelo estreito de Constantinopla; e da África aparta-se per outro rio opósito a ele, (o qual pela grã cópia de suas águas sempre reteve o antíguo nome de Nilo que tem) e per da linha que se pode com o intendimento lançar deste Nilo pela cidade Cairo, metrópoli de todo Egipto, ao porto de Suez, que está no último seo do Mar Roxo, onde antiguamente foi a cidade dos Héroas - a qual linha haverá ditância de três jornadas de camelo, que podem ser ao mais vinte quatro léguas. Esta parte da Ásia, como é a maior em terra que as outras, assi contém muitas e várias nações de gente, uns que seguem a lei de Cristo, outros a seita de Mahamede, e os mais adoram o demónio na figura de seus ídolos, e outros que são do povo judaico; porque não há aí parte da terra onde esta cega gente se não ache, vaga, sem natureza ou assento, fazendo penitência sem se arrepender de sua contumacia.

E ainda estas quatro nações em crença, naquelas partes, são tam várias cada uma per si, que. falando propriamente. poucos são puros na observância do nome que cada um professa; com as quais nações os nossos, depois que entraram na Índia. começaram comunicar e contender per doutrina. comércio e armas.

( … )

Posto o que passemos ao Oriente dela, às Ilhas dos Léquios e dos Japões e à grande província de Meácó, que ainda por sua grandeza não sabemos se é ilha, se terra firme, continua a outra costa da China, as quais partes já passam por antípodas do merediano de Lisboa. Da qual costa, não sabida dos navegantes, damos demonstração, e de todo o interior desta grande província da China em as távoas da nossa Geografia, tiradas de um livro de Cosmografia, dos chins, impresso per eles, com toda a situação da terra e modo de itinerário, que nos foi de lá trazido e interpretado per um chi que pera isso houvemos.
 
Cortesia de amazonco
E tornado à primeira parte ocidental desta repartição, leixando o interior dos dous estreitos do Mar Roxo e Párseo pera seu tempo, da garganta deste Roxo, que está em altura de doze graus e dous terços, até a cidade Adem, cabeça daquele reino, haverá quorenta léguas, e dela ao Cabo de Fartaque, que está em catorze graus e meio, serão cem léguas. Entre os quais estremos ficam estas povoações: Abiã, Ar, Canacão, Brum, Argel, Xael, cidade cabeça do reino, Herite, a cidade Caxém, que está sete léguas ante de chegar ao cabo Fartaque; e, na volta dele, outro tanto espaço, está a cidade Fartaque, cabeça do reino, assi chamado de que o cabo tomou o nome e a gente fataquis. E daqui té Curiá Muriá, duas povoações onde se perdeu Vicente Sodré haverá setenta léguas; e fica neste meio a cidade Dofar, frol donde há o melhor e mais encenso de toda esta Arábia, e, adiante vinte duas léguas, Norbate. De Curiá Muriá té o Cabo Rossalgate, que está em vinte dous graus e meio, e será de costa cento e vinte léguas, toda é terra estérele e deserta. Neste cabo começa o reino de Ormuz, e dele té o outro Cabo de Muçandão haverá oitenta e sete léguas de costa. em que jazem estes 1ugares do mesmo reino: Calaiate. Curiate, Mascate, Soar. Calajá. Orfacão, Doba e Lima, que fica oito léguas ante de chegar ao Cabo Muçandão, a que Ptolomeu chama Asaboro, situado per ele em vinte três graus e meio, e per nós em vinte seis, no qual acaba a primeira nossa divisão. E a toda a terra que se compreende entre estes dous termos, os arábios lhe chamam Hiámane, e nós Arábia Félix, a mais fértìl e povoada parte de toda Arâbia.

Atravessando deste Cabo.Muçandão ao de cima, a ele opósito, chamado Jasque, com que a boca do estreito fica feita, entramos na segunda divisão, que é mui pequena e pouco povoada, porque deste Cabo Jasque até o ilustre Rio Indo são duzentas 1éguas, nas quais estão estas povoações: Guadel, Calará, Calamete e Diúl, situado na primeira foz do Indo, da parte do Ponente. A qual costa é pouco povoada, por o mais dela ser aparcelada e de perigosa navegação e a terra per dentro quási deserto, chamada dos geógrafos Carmánia; e os párseos contam esta parte na região a que eles chamam Heraque Ajão, na qual se contém os reinos de Macrão e Guadel, que cai sobre o cabo assi chamado.

Cortesia de freguesiasantiagodelitem 
Haverá cento e cinquenta léguas na terceira parte da nossa repartição (não entrando per dentro da enseada de Jaquete, por ser mui penetrante na terra), contando per esta maneira: da Foz de Diúl até a Ponta de Jaquete, trinta e oito léguas; e deste Jaquete, que é dos principais templos daquela gentilidade com uma nobre povoação, té a nossa cidade Dio, do reino Guzarate, cinquenta léguas; na qual distância estão estes lugares: Cutiana, Mangalor, Cheruar, Patão, Corinar; e de Dio, situado em vinte graus e meio, té a cidade Cambaia, que está em vinte dous graus, haverá cinquenta e três léguas em que se contém estes lugares: Mudrefabá, Mohá, Talajá, Gundim, Goga, cidade que está ante de Cambaia doze léguas, dentro dos quais estremos – desta cidade Cambaia e Jaquete - se compreende parte do reino Guzarate, com a terra montuosa dos povos resbutos.

A quarta parte desta nossa divisão começa na cidade Cambaia e acaba no ilustre Cabo Comori, na qual distância por costa haverá duzentas e noventa léguas, pouco mais ou menos, em que se compreende quási toda a frol da Índia a mais trilhada de nós. A qual podemos dividir em três partes com dous notáveis rios que a atravessam do Ponente a Levante: o primeiro divide o reino Decão (a que corruptamente os nossos chamam Daquem) do reino Guzarate, que lhe fica ao Norte; o segundo aparta este reino Decão do reino Canará, que fica ao Sul dele. E ainda parece que, como a natureza fez esta divisão pelo interior do sertão, assi acerca dos que habitam o marítimo de toda esta costa, per outros rios mui pequenos que nascem nas costas destes dous notáveis, fazem a mesma demarcação do Guzarate, Decão e Canará. E assi os pequenos como os grandes, todos vertem da grande serra chamada Gate, que, como atrás vimos, corre ao longo da costa, sempre a vista do mar; peró tem esta diferença, que os grandes nescem no Gate da banda do Oriente, e porque das suas fontes ao mar onde eles vão sair, que é na enseada de Bengala, há grande distância levando consigo o grande número de outros rios, passam não somente per estes reinos acima nomeados que eles dividem, mas ainda per outros que não nomeamos, que por serem no interior da terra não servem ao presente.

( … )

A terceira demarcação, que divide a província Canará do Decão, acaba no Cabo Comori, começando do rio Aligá, em que haverá cem léguas, per esta maneira: de Aligá té outro rio chamado Cangerecorá, que está cinco léguas ao Norte do Monte de Eli, cabo notável nesta costa, haverá quorenta e seis léguas. No qual marítimo jazem estas povoações: Ancolá, Egorapã, Mergeu, a cidade Onor, cabeça do reino. Baticalá, Bendor, Bracelor, Bacanor, Careara, Carnate, Mangalor, Mangueirão, Cumbatá e Cangerecorá, per que corre um do deste nome que é estremo e demarcação, como se verá abaixo. As quais povoações todas são da província Canará, súbditas a el-Rei Bisnagá, que, sendo tam poderoso em terra que partecipa de dous mares deste Ponente e do outro de Levante, que jaz do Cabo Comori pera dentro, entra somente aqui com este pequeno marítimo. E como do Gate pera o mar, ao Ponente do Decão, toda aquela faixa se chama Concão. [...]

Cortesia de arquivohistoricomadeira
Cortesia da Fundação Calouste Gulbenkian/JDACT