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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém. Tiago Moita. «Entre o património então transferido encontravam-se os painéis de azulejo setecentistas, que revestem presentemente a nave da igreja, os retábulos colaterais, diversas esculturas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A edificação da Igreja Matriz

«(…) Dos retábulos, e dos seus oragos, encontra-se preciosa descrição, redigida pelo pe. Manuel Ramos, no inquérito nacional das Memórias Paroquiais (ANTT), em 1758: tem três altares, um mor em que preside o Santíssimo Sacramento, e os dois colaterais, um com o título do Senhor Jesus Crucificado, e outro de Nossa Senhora do Rosário. Significativamente, no mesmo inquérito o sacerdote menciona a existência de duas Irmandades dinamizando a vida da paróquia: a Irmandade do Santíssimo Sacramento e a Confraria de São Domingos. Foi especialmente a primeira que se encarregou do contínuo embelezamento do espaço da capela-mor da igreja, de que era a principal responsável, adquirindo, para o efeito, diversos bens móveis e integrados. Entre os bens adquiridos destaca-se o novo altar do retábulo principal da igreja, com nicho aberto no interior da mesa que mandaram fazer para nele porém a Santíssima Imagem do Senhor Morto para melhor culto da Sexta-feira da Semana Santa, para o qual requereram licença do Senhor Patriarca de Lisboa, dom José Manuel da Câmara (1686-1758), para que o pároco o pudesse benzer e dizer missa, licença que foi concedida por provisão eclesiástica de 9 de Março de 1757. Pensamos, por isso, que os azulejos azuis e brancos, de época setecentista, que animam o espaço arquitectónico intestino da capela-mor, com passos da vida de São Domingos, resultam igualmente de encomenda desta importante Irmandade. No anexo contíguo, situado na fachada lateral esquerda da igreja, com corpo elevado, tinha a Irmandade a sua Casa de Despacho, com acesso directo ao camarim do retábulo-mor, e à própria capela principal por escada no lado oposto.

A ruína causada pelo terramoto de 1755 foi extensa, tendo causado sérios danos na abóbada da capela-mor, abrindo um longo período de contenda entre o pároco e os fregueses, de que dá conta o registo da visitação realizada no ano seguinte. A reconstrução do templo ficou adiada por vários anos, estando ainda por resolver em 1758. Em 1766, a torre da igreja testemunha a aquisição de um novo sino, de bronze, enriquecido com inscrição na zona superior: S DOMIN GOS 1.766. O sino encontra-se hoje desactivado e deslocado para o interior do templo.

No final do século XVIII, a igreja deverá ter recebido uma nova campanha de melhoramentos, sobretudo no exterior, com a construção do novo janelão do coro e do nicho com a imagem pétrea. A leitura da pedra fundacional do Convento de Santa Maria de Jesus de Vale de Figueira, da Província da Arrábida, extinto em 1834, que se encontra hoje no anexo da igreja, relatando a trasladação da mesma para o adro deste templo em 30 de Dezembro de 1861, permite-nos supor ser esta a data em que parte significativa dos bens artísticos e cultuais pertencentes ao convento foram deslocadas para a igreja. Entre o património então transferido encontravam-se os painéis de azulejo setecentistas, que revestem presentemente a nave da igreja, os retábulos colaterais, diversas esculturas, pinturas, e alfaias litúrgicas, que os inventários remanescentes permitem aferir. Naquele mesmo ano, também a torre sineira será enriquecida com o mostrador do relógio, em pedra, com data gravada.

Pelo jornal O Século, de 10 de Agosto de 1928, sabemos que naquele ano se havia começado a preparar o terreno para a construção do muro em alvenaria que delimita o adro da igreja, contudo as obras só muito lentamente avançaram, com prejuízo para quem passava. Em 1982-1983, sendo pároco o pe. Diamantino Henriques Marques, foi integralmente substituída a cobertura de madeira do tecto da nave, perdendo-se a anterior, pintada, da qual subsiste o painel central, com heráldica do orago. Do mesmo modo, foram rebocadas e pintadas as paredes da igreja, que eram então revestidas de estuque pintado em fingidos de mármore, num jogo de cores rosa e branco, com molduras azuis». In Tiago Moita, A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém, 2019, Design Gráfico e Paginação, David Matos Branco, Depósito Legal 453685/19.

Cortesia de DGePaginação/DavidMBranco/JDACT

 JDACT, Tiago Moita, São Domingos de Vale de Figueira, Património, Cultura, Santarém,

sábado, 10 de abril de 2021

A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém. Tiago Moita. «Depois da criação da paróquia, os moradores de Vale de Figueira não apenas levantaram a pia do baptismo, sinal indelével da sua autonomia, como se começaram a organizar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

História e Património

«(…) Neste período, o lugar de Vale de Figueira, e a sua ermida, pertenciam à paróquia e freguesia de São Vicente do Paúl. Entretanto, o crescimento populacional, necessidades de ordem pastoral, e as inspirações do Concílio de Trento, alteraram este quadro.

O nascimento de uma paróquia (1571)

Num manuscrito conservado no Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa (Expediente 1848, Caixa 1) encontramos um treslado, com a data de 12-04-1848, realizado a partir de um documento antigo, no qual se relata as circunstâncias da criação da paróquia de Vale de Figueira (Anexo I). De acordo com este testemunho, a freguesia de São Domingos de Vale de Figueira foi desmembrada da de São Vicente do Paúl por ocasião da visitação feita pelo licenciado Marcos Teixeira no ano de 1570. Esta alteração administrativa e de fronteiras chocou, naturalmente, com inúmeras resistências, colidindo com privilégios e direitos adquiridos, e hábitos seculares. A decisão do visitador foi por isso contestada por Pêro Costa, Prior de São Vicente do Paúl, no Tribunal da Relação Eclesiástica de Lisboa, que escutou também os moradores de Vale de Figueira. Esgrimindo as partes argumentos contrários, que o treslado documenta, consideremos as razões apresentadas pelos habitantes de Vale de Figueira, naturalmente favoráveis à criação da paróquia. Em primeiro lugar, lamentavam-se estes da distância que tinham de percorrer para poder assistir às celebrações na Matriz de São Vicente, dificultosa sobretudo para as pessoas de mais idade e para as mulheres. Em segundo lugar, deploravam não serem assistidos devidamente pelo Prior de São Vicente, especialmente por ocasião de cheias no rio Alviela, que inundavam a ponte de pedra, ainda hoje existente, impedindo a passagem para a Matriz de São Vicente, e impossibilitando a participação nos sacramentos, com dano para as crianças, que ficavam por baptizar, e para os defuntos, que não tinham enterro condigno. Depois de ouvir as partes, o Tribunal da Relação Eclesiástica de Lisboa confirmou a decisão da visitação por Carta de Sentença dada a favor dos fregueses da Ermida de São Domingos de Vale de Figueira, publicada pelo Doutor João Lorena Homem, Desembargador, em audiência de 16 de Agosto de 1571, e lavrada a 12 de Dezembro do mesmo ano. Em todo o caso, embora podendo levantar pia baptismal na Ermida de Vale de Figueira, a nova paróquia permanecia com estatuto de curato filial da Matriz de São Vicente, ficando responsável o Prior de São Vicente por nomear o cura da paróquia de Vale de Figueira, que dele dependia, situação que se conservou até 1834, conforme o documento que vimos a comentar. Depois da criação da paróquia, os moradores de Vale de Figueira não apenas levantaram a pia do baptismo, sinal indelével da sua autonomia, como se começaram a organizar para ampliar o espaço de culto, erguendo a Igreja Matriz no lugar da ermida.

A edificação da Igreja Matriz

A Igreja Matriz de Vale de Figueira, dedicada a São Domingos de Gusmão, encontra-se edificada em situação altaneira, em plataforma artificial formando um adro fechado por muro em alvenaria, junto ao principal eixo viário da povoação. Desconhece-se a data da sua edificação, mas as características formais do edifício, projectado em estilo-chão, permitem-nos enquadrar a sua construção no decurso do século XVII. A igreja estaria pronta nos começos do século XVIII, quando recebe, em 1708, o retábulo-mor e os retábulos laterais, entalhados e dourados, bem como o cruzeiro paroquial, edificado no centro da escadaria principal de acesso ao adro, conforme as inscrições patentes nestes bens». In Tiago Moita, A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém, 2019, Design Gráfico e Paginação, David Matos Branco, Depósito Legal 453685/19.

Cortesia de DGePaginação/DavidMBranco/JDACT

JDACT, Tiago Moita, São Domingos de Vale de Figueira, Património, Cultura, Santarém,

A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém. Tiago Moita. «Permanecendo no terreno da conservação e restauro, sublinhe-se o artigo de Carlos Costa (2017) sobre o restauro da escultura com a imagem do padroeiro, São Domingos Gusmão»

Cortesia de wikipedia e jdact

História e Património

«A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, concelho de Santarém, oferece aos seus visitantes a presença de um património artístico de grande interesse. Para além da arquitectura do seu templo, inclui numerosíssimas peças de vários géneros artísticos, desde imaginária em madeira, terracota, e marfim, pintura a óleo e a fresco, retabulística, azulejaria, paramentaria, mobiliário, pratas e alfaias litúrgicas, entre outras. Significativamente, parte deste património é oriundo do antigo Convento de Santa Maria de Jesus de Vale de Figueira, da Província da Arrábida, fundado no século XVII por Henrique de Portugal, e sua mulher, dona Ana Ataíde, e extinto em 1834, na sequência da revolução liberal.

O património religioso de que aqui falamos tem vindo a ser beneficiado na última década com intervenções de conservação e restauro, quase sempre realizadas por profissionais qualificados e respeitadores das boas práticas, que lhe têm vindo a devolver valor e autenticidade. Estes trabalhos de beneficiação não seriam possíveis sem a sensibilidade da comunidade local, e da sua enorme generosidade, que fazem de Vale de Figueira um caso singular no que respeita à salvaguarda patrimonial. Entendemos que a recém-valorização deste conjunto de obras de arte impõe agora a necessidade de um estudo sistemático e da sua divulgação. Este livro visa cumprir esse objectivo, analisando o património artístico da Igreja de Vale de Figueira sob o ponto de vista da História da Arte, sensibilizando as pessoas para a sua fruição, não apenas enquanto peças ligadas ao culto, mas como autênticas obras de arte que se devem estimar e apreciar. A análise empreendida segue, naturalmente, a metodologia própria da História da Arte, integrando a investigação dos arquivos (em muitos casos, trazendo à luz documentos inéditos), os dados resultantes das intervenções de conservação e restauro, e o estudo estilístico, iconográfico e comparativo das obras de arte.

Importa referir que embora praticamente desconhecido no contexto da historiografia da arte portuguesa, o património de arte sacra da paróquia de São Domingos de Vale de Figueira mereceu referências pontuais em publicações científicas que devemos mencionar. Em primeiro lugar, encontram-se as notícias de Gustavo Matos Sequeira no tomo do Inventário Artístico de Portugal da Academia Nacional de Belas Artes dedicado ao Distrito de Santarém, de 1949, com um recenseamento superficial das existências. Os demais estudos dignos de registo são sobretudo análises sectoriais, referentes ao património azulejar e retabulístico da igreja. No que se refere ao primeiro destacam-se as palavras de João Miguel Santos Simões, na obra pioneira Azulejaria em Portugal no século XVIII, publicada em 1979, sem esquecer o recente contributo de Maria Rosário Salema Carvalho, na sua tese de doutoramento, ainda inédita (Carvalho, 2012, Anexo B: 1260-1267). No campo da retabulística merece referência o estudo colectivo orientado por Irina Crina Anca Sandu (2012), com uma análise multidisciplinar das técnicas e materiais utilizados no douramento do retábulo-mor e dos retábulos laterais.

Permanecendo no terreno da conservação e restauro, sublinhe-se o artigo de Carlos Costa (2017) sobre o restauro da escultura com a imagem do padroeiro, São Domingos Gusmão. Para além destes trabalhos, registe-se a ficha de inventário do património arquitectónico do SIPA/IHRU com o número IPA.00006781, da autoria de Paula Figueiredo, e o inventário dos bens móveis realizado pela Comissão Diocesana para os Bens Culturais da Igreja, da Diocese de Santarém, elaborado por Eva Raquel Neves. Embora apoiado nos estudos destes pesquisadores, o presente livro resulta, sobretudo, de um estudo aturado de novas fontes de informação, em alguns casos virgens de aproveitamento e ricas de informação histórica e artística, e da investigação pessoal.

Embora os primeiros registos de ocupação humana no território que hoje é conhecido como Vale de Figueira, no concelho de Santarém, nos reportem a períodos recuados do Paleolítico, do Calcolítico, da Idade do Bronze, da Idade do Ferro e da época Romana, que se localizam especialmente no campo arqueológico de Chões de Alpompé, é somente nos começos do século XIV que vamos encontrar referências explícitas a um pequeno povoado no lugar de Vale de Figueira, no termo de Santarém. Nascido provavelmente à sombra das numerosas quintas e casais que vieram a existir neste espaço, propriedades das elites urbanas, continuará a crescer ao longo do tempo, quando em 1527 assume estatuto de aldeia, com número populacional ascendendo a mais de duas centenas de habitantes. É possível que os frades dominicanos, residindo em Santarém, onde fundaram convento no século XIII, tenham incrementado a vida religiosa neste lugar, razão pela qual se ergueu ermida, dedicada ao Patriarca São Domingos, no local onde hoje se situa a igreja paroquial. Na recolha que pudemos apurar, a mais antiga referência a esta ermida, e seu orago, remonta ao ano de 1537, numa Mercê de João III aos mordomos de São Domingos do termo de Santarém de uma ração (ANTT, Núcleo Antigo 887)». In Tiago Moita, A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém, 2019, Design Gráfico e Paginação, David Matos Branco, Depósito Legal 453685/19.

Cortesia de DGePaginação/DavidMBranco/JDACT

JDACT, Tiago Moita, São Domingos de Vale de Figueira, Património, Cultura, Santarém,

terça-feira, 14 de março de 2017

Santarém Medieval. Maria Ângela Beirante. «Ao prior coube a Azoia toda livre (Azoyam totam liberam) e Rio Maior. Aos clérigos, a herdade de Alcoentre, o Calhariz e vinhas em Alvisquer»

jdact

As ordens militares e as instituiçoes religiosas
«(…) No início do século XIII, os freires de Évora-Avis são proprietários de várias herdades na Azoia (na proximidade do Gualdim) que lhes foram doadas e vendidas pela família de Pero Sangalho. Nessa época, uma bula do papa Inocêncio II. datada de 1214, confirmava os bens da ordem de Calatrava-Avis, mencionando expressamente a posse das casas de Santarénr, bem como da herdade régia charnada Horta da Lagoa, junto de Monte de Trigo, nos campos da margem direita do Tejo. A ordem de Santiago ou de Uclés foi, tanto quanto sabemos, a terceira instituiçào religioso-militar a dar entrada em Santarém. Data de 1193 este facto, consoante se viu pela doação que lhe fez o rei Sancho I de casas e torre na Alcáçova, de uma herdade na Lagoa Negra, uma almuinha na Assacaia, vinhas à Ponte de Alcoça, de um forno e de um moinho. Em 1241, em composição realizada com o mestre de Avis, o comendador de Santiago recebeu a granja de Horta Lagoa que pertencera aos freires de Avis. Há notícias de que os de Santiago possuíam, no século XIII. herdades além do Tejo, junto de Alpiarça. Parece relativamente tardia a entrada da ordem do Hospital, embora o texto do foral de 1179 preveja a presença de Hospitalários na vila e um documento de 1180 registe o nome de uma testemunha com o determinativo do Hospital.
Já vai adiantado o século XIII quando nos apercebemos da presença desta ordem em Santarém. associada à igreja de S. João de Alpram (Alporão, na designação moderna). A instalação da nova ordem em Santarém suscitou rivalidades com a igreja-mãe do Alpram: S. Martinho de Alpram. Ocorre um diferendo entre o reitor e clérigos desta igreja, por um lado, e os Hospitalários, por outro. S. Martinho exigia o pagamento das dízimas de todas as propriedades que os freires de S. João tivessem no terrno. Em 1260, chegaram a um acordo amigável, sob o arbítrio do bispo de Coimbra, don Egas. O reitor de S. Martinho renunciava às dízimas de todos os banhos, tendas, alcaçarias, lagares de vinho e azelte. e às dízimas que pagavam os mancebos do gado do Hospital. Receberia metade das dízimas das herdades que S. João tinha no Bairro Novo e Assentiz e nas granjas de Tremês, da Rorneira e Ventosa. Todavia, se estas últimas fossem exploradas directamente pelos Hospitalários, não pagariam dízima, mas pagariam dízimas inteiras pelas propriedades que adquirissem depois.
A igreja de S. João do Hospital de Santarém recebe em 1269 uma courela de herdade em Trava (Alpiarça) e uma vinha na Ómnia que lhe deixou em testamento Maria Mendes, filha de Mendo Gonçalves e Maior Joanes, para sustento de uma capela na igreja de S. João, o'nde havia de ser sepultada. A aliança entre a classe militar e religiosa no comando das operações de conquista redundou, como é óbvio, numa dupla vantagem para ambas, possibilitando a capitalização em terras por parte dos institutos religiosos. Em Santarém, o instituto que ventagens mais directas tirou a Reconquista parece ter sido a colegiada de Santa Maria da Alcáçova que, desde a fundação, foi acumulando bens de raiz situados no termo da vila e que, em 1190. no tempo do prior Pedro Joanes, foram divididos entre os clérigos e o prior. Ao prior coube a Azoia toda livre (Azoyam totam liberam) e Rio Maior. Aos clérigos, a herdade de Alcoentre, o Calhariz e vinhas em Alvisquer. Algumas destas propriedades tinham sido deixadas à Igreja por legados pios, mas outras foram obtidas por um processo sui generis que podemos considerar típico desta época. Esse processo foi a presúria, forma secular usada na reconquista cristã, destinada a integrar regiões, se não totalmente despovoadas, pelo menos abandonadas pelos chefes e com uma população rarefeita pela devastação dos fossados e algaras». In Maria Ângela V. Rocha Beirante, Santarém Medieval, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (35813), 1ª edição em Português, Dezembro de 1980.

Cortesia da UNL/FCSH/JDACT

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Conhecimentos no 31. Santarém Medieval. Maria Ângela Beirante. «… hum forno e hum lagar dazeite que an no dicto logo a par da torre da barata os quaes forom de Pero Anes de Pajuha (...) e tres portaes de casas que son na Rua da Alcaçova»

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O perímetro amuralhado
«(…) Montês Matoso refere-se assim à famosa torre: junto da porta da Alcaçova da parte do Poente, no lugar mais alto estava a celebrada Torre do Bufo… Zeferino Brandão, no capítulo X da obra citada, baseando-se num documento que encontrou na repartição da Fazenda do distrito de Santarém, afirma que defronte das casas do conde de Tarouca, na Alcáçova, havia uma cerca com árvores e, no alto dela, uma torre que se chamava do Bufo. Opina que esta ficava para a parte sul da cerca, sobre o muro da Alcáçova, e que tinha de comprido sobre a calçada que vai para o Alfange 105 varas e meia. Além de nos dar a indicação, tal como Montês Matoso, de que foi demolida em 1660, aventa a hipótese de ter sido esta a torre que Sancho I doara à ordem de Santiago, em 1193, como se disse. Ocorre aqui salientar que não são muitas as informações que conheço acerca da Torre do Bufo. As mais antigas encontram-se no tombo da Alcáçova de 1479, onde parece confundir-se com a Torre da Covilhã ou então pode admitir-se que fica situada no mesmo beco (beco primeiro que uay pera a torre da couylhãa ou torre do bufo que todo he hüu).
Em contrapartida, para os tempos mais recuados achei, pelo menos, três referências a uma torre situada na Alcáçova, chamada Torre da Barata. Na sua proximidade, encontrava-se uma casa (domus juxta turri de Barata) que foi legada à igreja de Santa Maria pelo seu proprietário Afonso Martins, segundo nos refere um obituário do século XIII. Em 1330, procedeu-se à arremataçâo por dívidas de alguns bens sitos na Alcáçova, contando-se entre eles: hum forno e hum lagar dazeite que an no dicto logo a par da torre da barata os quaes forom de Pero Anes de Pajuha (...) e tres portaes de casas que son na Rua da Alcaçova. Em conclusão: nos tempos mais recuados fala-se da Torre da Ladra e da Torre da Barata que não devem ser confundidas. A Torre do Bufo é um nome referido muito mais tarde. Será a designação posterior de uma das duas torres anteriores? É uma hipótese plausível.

As ordens militares e as instituiçoes religiosas
É um facto incontestável que um dos grandes suportes da reconquista cristã foi o espírito cruzadístico, cristalizado nas ordens religioso-militares de freires-soldados: actuando ao lado do rei nas operações militares, os freires viram magnanimamente recompensados os seus esforços pelas doações que os monarcas lhes fizeram. Tais doações eram-lhes prometidas, por vezes, mesmo antes das conquistas se concretizarem, servindo de estímulo para a luta. Deve ter acontecido assim com a ordem do Templo que, em Abril de 1147, recebeu de Afonso Henriques todas as rendas eclesiásticas da vila de Santarém, conquistada havia um mês, em cumprimento da promessa régia feita antes e para recompensar a ajuda prestada. Em consequência desta doação, os cavaleiros Templários edificaram na Alcáçova a igreja de Santa Maria, por mandado de mestre Hugo e sob a vigilância de Pedro Arnaldo, segundo a inscrição existente ainda na fachada do edifício que estava terminado em 1154.
Depois da conquista de Lisboa, a posse do eclesiástico de Santarém foi contestada pelo bispo Gilberto. Por isso. Afonso I, em 1159, fez doação do castelo de Cera e seus termos àquela ordem, em troca do referido eclesiástico que passava para a jurisdição episcopal de Lisboa, excepto a igreja de Santiago de Santarém que continuou a pertencer aos Templários. Mantiveram ainda as suas casas na Alcáçova. junto da Porta do Sol. Além da posse desta igreja, situada a meio caminho entre a Alcáçova e a Ribeira, os freires do Templo detinham muitas terras na periferia de Santarém. Em 1180 contavam-se, por exemplo, entre os proprietários das vinhas de Alvisquer. Outra ordem que se implantou no século XII. em Santarém e seu termo, foi a de Évora, também chamada de Calatrava ou de Avis. Em 1173, Afonso Henriques fez uma carta de doação e confirmação a Gonçalo Viegas, mestre daquela ordem, de certos bens em Évora e dumas casas que possuía em Santarém, em Seserigo: de domibus meis quos habeo in Sanctarene in Seserigo. É possível que, ainda no século XII, esta ordem tenha adquirido (talvez por doação) a quinta do Gualdim. a sete quilómetros de Santarém. que já possuía em 1219. De facto, um outro documento do cartório de Avis testemunha-nos a compra de uma herdade na Fonte da Pedra. contígua à quinta do Gualdim, no ano de 1186. Pertencia a Nuno Guterres e são seus compradores Gualdim (daí, o nome que se manteve) e sua mulher Ausenda Domingues». In Maria Ângela V. Rocha Beirante, Santarém Medieval, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (35813), 1ª edição em Português, Dezembro de 1980.

Cortesia da UNL/FCSH/JDACT

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Santarém Medieval. Maria Ângela Beirante. «… outra torre avia no castello de Santarem, em que outrossi estava mui gram tesouro de moeda e doutras cousas, em tamanha cantidade, que ante apontavam fortemente»

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O perímetro amuralhado
«(…) Em qualquer das hipóteses, está fora de dúvida a ideia de que a Alcácova constituía então uma unidade inteiramente autónoma no conjunto da povoação. No século XIII, porém, a povoação encontra-se amuralhada totalmente ou em grande parte. Pergunta-se: foram os reis portugueses que mandaram erguer estes muros ou já os herdaram dos governadores árabes? Inclino-me pela primeira hipótese. Outro problema que se põe é o da articulação da muralha da Alcáçova com a muralha da vila. Embora a leitura do relato da conquista de Santarém nos possa deixar entrever a possibilidade da construção de uma muralha rodeando todo o Alplan, penso que as muralhas erguidas por ordem do alcaide Abu Zakaria foram apenas um reforço da defesa da parte ocidental da Alcáçova que anteriormente teria ruído. Este desabamento ou fractura da muralha deixou vestígios na toponímia, pois existia aqui um lugar designado por muro quebrado (murum quebradum ou murum fractum, nos documentos mais antigos). Os cartórios do convento de Avis e de Santa Maria da Alcáçova guardam memórias desse facto.
Além deste problema da fractura que é atestada pela documentação, é provável que o último grande governador árabe de Santarém quisesse alargar o perímetro da Alcáçova pela necessidade de proteger junto de si os familiares dos oficiais e soldados do seu vitorioso exército, enriquecido nas algaras. Tal alargamento só podia ser feito em terrenos do Alplan. Deixando as conjecturas, vamos aos factos com suporte documental. Temos a certeza do muro quebrado, à distância de apenas oitenta anos da nova cintura amuralhada do último grande vizir ou caide muçulmano e da conquista astuciosa pelo primeiro rei português, e a poucas dezenas de anos dos cercos rigorosos a que os Almóadas submeteram os Cristãos refugiados no roqueiro castelo. A referência mais antiga que conheço vem no Obituário de Santa Maria da Alcáçova incluído no maço I do convento de Avis e diz respeito ao ano de 1226: Paio Joanes Pinhão deixa àquela igreja uma casa perto do muro quebrado. Depois desta, há cinco referências ainda no nresmo Obituário à muralha derrubada: duas sem data e três da primeira metade do século XIII (em 1231; em 1232; e em 1245). Sobre a muralha destruída são também esclarecedores os seguintes documentos do cartório da Alcáçova: o primeiro é de 1281 e informa-nos que Domingos Peres Cabaços, cónego e procurador do prior Pedro, emprazou uma casa junto do muro quebrado. O segundo é de 1363, e localiza uma casa da colegiada junto com o muro quebrado. Uma legenda que vem no verso deste documento, em letra, ao que parece, do século XVII regista: aforamento de huma casa em alcaçova sobre (?) a torre do Bufo. No ano seguinte, faz-se o emprazamento de hüas casas que a dicta egreia ha na dicta villa na Alcaceva. As quaes partem de hüa parte com Azinhagaa que vay per cima da porta da Alcaceva e com rua publica. Na capa deste último pergaminho há uma notícia, em letra que suponho do século XVII, do seguinte teor: aforamento de huas casas na Alcaceva na rua da torre do Bufo.
Várias inferências podemos tirar do cotejo destes documentos. A primeira diz respeito à importância da fractura da muralha que todas as obras de restauração não dissiparam da memória das gentes, pelo menos até ao século XlV, sendo de admitir que parte dessa antiga muralha se mantivesse de pé. A segunda inferência consiste na relacionação do muro quebrado com a falada Torre do Bufo, concluindo-se mesmo que esta torre e a muralha desabada se situavam nas proximidades da Porla da Alcáçova. De modo geral, todos os historiadores de Santarém nos lembram a existência da Torre do Bufo dentro da Alcáçova. identificando-a, por vezes, com aquela que Fernão Lopes constata servir de cofre do tesouro real: outra torre avia no castello de Santarem, em que outrossi estava mui gram tesouro de moeda e doutras cousas, em tamanha cantidade, que ante apontavam fortemente por nom cahir com o muito aver que em ella poinham». In Maria Ângela V. Rocha Beirante, Santarém Medieval, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (35813), 1ª edição em Português, Dezembro de 1980.

Cortesia da UNL/FCSH/JDACT

domingo, 8 de janeiro de 2017

Santarém Medieval. Maria Ângela Beirante. «A Porta do Sol sabe-se bem qual é: exactamente aquela que abre para o sueste a pique sobre o Tejo, e que deu o nome ao jardim que serve de miradoiro à cidade»

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O perímetro amuralhado
«(…) Neste ponto ocorre o problema das muralhas de Santarém e das respectivas portas. Tal problema, sendo premente para o século XII, continua insolúvel para os séculos imediatos, pelo menos em certos aspectos. Já no século X, escreve o cronista mouro Ahmed Arrazi: e o castelo de Santarém jaz em um monte mui grande e mui alto e mui forte e não há lugar por onde o possam combater senão a mui grande perigo. O geógrafo árabe Edrisi afirma, nos princípios do século XII: Santarém é uma vila erguida num monte muito alto, ao sul do qual há um grande precipício. Não tem muralhas, mas no sopé da montanha está um arrabalde erguido na margem do rio (há discordância quanto à localização do precipício; Edrisi coloca-o a sul; o códex 207 de Alcobaça situa-o a leste, chamando-lhe alhafa, lugar de mrdo para os árabes, que para lá atiravam os seus condenados). O primeiro fala só do castelo: o segundo, apenas da vila sem muralhas: cada um olhou, certamente. para aspectos diferentes do mesmo conjunto urbano. Já na História de Portugal, Herculano debatera a questão, ao comparar Santarém com Lisboa: menos defendida que Lisboa pela arte, era-o mais pela natureza; porque, embora não estivesse cingida de muros, como essoutra povoação., e os seus habitantes vivessem em grande parte num arrabalde à borda do rio, o castelo que lhe servia de coroa, edificado no cimo da montanha em que estava assentada era como um ninho de águias pendurado sobre o Tejo. Em nota a esta afirmação o autor opina que tal descrição é o único meio de conciliar a afirmativa de Edrisi de que Santarém não era rodeada de muralhas com todas as memórias coevas que encareciam a fortaleza daquele castelo. Os poucos documentos de que dispomos para o século XII são omissos na toponímia urbana e, por isso, não nos é possível definir o delineamento das muralhas nessa época, Os testemunhos dos séculos posteriores, a contar do século seguinte, nomeiam expressamente apenas duas portas no castelo: a do Sol e a da Alcáçova. Esta última teria uma ponte de que alguns documentos do século XV nos dão conta e cuja memória o padre António Carvalho Costa ainda transmite.
A Porta do Sol sabe-se bem qual é: exactamente aquela que abre para o sueste a pique sobre o Tejo, e que deu o nome ao jardim que serve de miradoiro à cidade. Quanto à localização da Porta da Alcáçova duas hipóteses são admissíveis: ou se trata da Porta de Santiago sobranceira ao buraco de Salinas (a porta de Santiago tomou este nome porque a calçada que dela se dirige ao arrabalde sito no sopé do monte passava pela igreja de Santiago, situada a meia encosta e cujas ruínas desapareceram no século passadp), ou se trata de uma outra porta aberta para a vila, a ocidente daquela. Se aceitarmos que a Porta de Santiago era, de facto, a da Alcáçova (e não apenas um portigo entre outros), teremos de admitir que houve nas suas imediações uma alteração de natureza geológica, alteração, aliás, plausível, dada a natureza e a forma do terreno que tem proporcionado frequentes esbarreiramentos, alguns mesmo nos nossos dias, que cortou a comunicação com a vila, deixando-a somente em ligação com a Ribeira. Esta ideia parece esboçá-la Zeferino Brandão, ao afirmar que se cortou a comunicação entre a vila e a Porta de Santiago, em virtude do desabamento da barreira por onde passava o caminho. O autor não nos diz em que fonte se baseia nem precisa em que época tal aconteceu (entre os manuscritos da Biblioteca Camões que se encontram na B. M. S. encontra-se um auto de vestoria do ano de 1797 que documenta que o caminho antigo que fazia o trânsito da Alcáçova para a vila estava invadiável. Declaram três mestres pedreiros que, em lugar deste, se fizera outro cortando-se uma barreira aonde em outro tempo foram olarias por cuja razão hé tão solta a terra que todos os dias está esbarrando para a mesma estrada de forma que sendo limpa há oito dias pouco mais ou menos já quando eles foram acharão na estrada perto de duas carradas de pedra e entulho acharão que hum Muro que está sobranceiro a mesma Estrada tem o alicerce roubado por cuja razão e pela altura em que se acha eminente a estrada amiaça ruina e deste mesmo Muro e do seu alicerce hé que emanã as pedras que continuo estão cahindo na estrada...) Ao invés, se admitirmos que a porta da Alcáçova ficava a oeste da de Santiago (o que não exclui o tal desabamento), ficamos com certas dúvidas quanto ao atrevintento do rei que, desta forma, se teria exposto a um ataque dos moradores da zona de Alplan». In Maria Ângela V. Rocha Beirante, Santarém Medieval, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (35813), 1ª edição em Português, Dezembro de 1980.

Cortesia da UNL/FCSH/JDACT

Santarém Medieval. Maria Ângela Beirante. «… prova de modo indisputável que foi a alcáçova velha ou castelo mourisco, e não a vila, o ponto atacado. E conclui: os freires deviam saber onde era a propriedade que possuíam. e Sancho I o lugar por onde seu pai acometera o castelo»

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«(…) Em certa altura, o narrador relata: como não estávamos longe da cidade, como bons caminheiros, metemos por um atalho que fica entre o monte Iraz e uma fonte (em árabe denominada Atumarmal, por causa do amargo das suas águas), atravessando o vale, levando à frente Mem Ramires. que conhecia bem os caminhos e as saídas, indo eu na rectaguarda. Trata-se, evidentemente. do percurso por eles tomado e não do ponto da escalada de Mem Ramires que, adiantando-se, subiu com os seus por Alcúdia e corajosamente escalou a casa de um oleiro, junto das muralhas. Não é possível identificar o topónimo Alcúdia. Mas pela leitura de todo o texto é de crer que a escalada teve lugar num ponto mais íngreme do que a calçada de Atamarma e junto do alcácer
mourisco. Depois de Mem Ramires ter subido à muralha disse o rei: levemos auxílio aos companheiros; tomemos a direita, a ver se podemos subir por Alplan. E Gonçalo Gonçalves foi com os seus pela esquerda para ocupar a estrada que vem de Seserigo, para que os inimigos não ocupassem primeiro aquela porta de acesso, frustando assim o nosso trabalho (…) Nós que contávamos subir às muralhas por meio de escadas, entrámos pela porta da cidade, com muito maior segurança. Traduzindo o original latino ficamos a saber que o Alplan era a zona ocidental de acesso ao castelo aquela que, comparada com o precipício de todo o circuito, parecia plana (para a maioria dos linguistas, alplan é um híbrido do árabe al e do latim planum, originando os intermediários alpram e alprão, estando o primeiro bem documentado; mais modernamente, o segundo deu alporão que alguns erradamente fazem provir de Alcorão). Nesta zona ocidental, diz-nos o texto, teria o alcaide mouro Abzechri ou Abu Zakaria, que governou a cidade quase 34 anos, levantando muralhas, baluarte e torres, atulhando os antigos fossos até acima com terra transportada pelos prisioneiros cristãos (deste chefe Abu Zakaria nos diz Herculano que foi o último capitão ilustre dos muçulmanos da Balata e que, como governador de Xantarin, comandou muitas algaras em território cristão; a mais afortunada foi, talvez, a da Primavera de 1144 que o levou à região de Soure onde derrotou os Templários, tendo mesmo aprisionado grande parte deles que levou consigo para Santarém).
O outro topónimo que aparece no relato que vimos seguindo é Seserigo. Este era o nome do arrabalde, correspondente à Ribeira, à borda do Tejo onde vivia grande parte da população da Xantarin mourisca. e que comunicava com a Alcáçova pela íngreme calçada de Santiago. Alexandre Herculano. que historiou o acontecimento em passagem bem conhecida da sua História de Portugal, não fala de qualquer entrada pela Porta de Atamarma, apenas aludindo ao percurso pelo vale entre Monte Iraz e a Fonte de Tamarma, referido pelo relato da conquista. O historiador afirma, isso sim, e mais de uma vez, ter sido a porta do Castelo o ponto da entrada do rei. Todavia, na edição da História de Portugal, como que atraiçoando o espírito do autor, existe a figura da Porta de Atamarma, construção que se conservou até 1864, afastada boas centenas de metros do Castelo ou alcáçova mourisca. Herculano, ao provar a genuidade da fonte que utilizou, invoca dois docuntentos que nos mostram ter sido a alcáçova velha o ponto acometido naquela noite de 15 de Março de 1147. O primeiro é um extracto de uma doação de 1193, de Sancho I aos cavaleiros de Santiago: daquelas nossas casas em que foi erguida uma torre, pela qual o meu pai, rei Afonso, de feliz memória, entrou furtivamente em Santarém. O segundo documento é uma passagem dos artigos aduzidos pelos mesmos cavaleiros, no processo de separação do mestrado de Castela. Referindo a doação de D. Sancho I, afirmam: concedeu à dita ordem um fortim com torre e casas na alcáçova velha do castelo de Santarém. por cujo lugar o mesmo castelo foi recuperado aos sarracenos. Para Herculano, a comparação destes dois diplomas prova de modo indisputável que foi a alcáçova velha ou castelo mourisco, e não a vila, o ponto atacado. E conclui: os freires deviam saber onde era a propriedade que possuíam. e Sancho I o lugar por onde seu pai acometera o castelo.
E possível que sejam estas as mesmas casas que o comendador de Santiago ou de Uclés doa, em 1242, ao rei Sancho II e a todos os seus sucessores, em reconhecimento de  herdamentos e bens que a Ordem dele recebera. Situam-se na Alcáçova de Santarém e têm uma torre a que chamam Ladra, nome que parece coadunar-se com a entrada furtiva de Afonso Henriques no castelo. Não seriam, contudo, as únicas casas que os freires de Santiago possuíam na Alcáçova. porquanto, em 1281, regista-se como sua uma propriedade urbana situada neste recinto. De qualquer modo, postas estas considerações, parece fora de dúvida que a conquista de 15 de Março se exerceu sobre a Alcáçova. Fica por esclarecer, todavia, pelo menos com carácter apodíctico, a localização da Porta da Alcáçova, bem como o ponto exacto da escalada de Mem Ramires que ficaria não muito longe, à esquerda daquela entrada. O que não oferece dúvidas é a localização do caminho que vem de Seserigo, ocupado por Gonçalo Gonçalves: trata-se da calçada de Santiago que seria a única que da Alcáçova conduzia ao dito arrabalde». In Maria Ângela V. Rocha Beirante, Santarém Medieval, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (35813), 1ª edição em Português, Dezembro de 1980.

Cortesia da UNL/FCSH/JDACT

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Santarém Medieval. Maria Ângela Beirante. «Vários são os autores que, ao falarem da conquista de Santarém em 1147, dão como certo que Afonso I entrou na cidade pela Porta de Atamarma»

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«No dia em que surgem as cidades, começa a decadência irremediável da Idade Média feudal e mística»

«Esta é a frase lapidar de um grande historiador das cidades medievais: Henri Pirenne. Se ela é aplicável, nas suas linhas gerais, à história das cidades europeias, de intensa actividade mercantil, sofre, porém, restrições quando se aborda a problemática da história urbana na Península Ibérica e, mais concretamente, em Portugal. Estas restrições provêm, intrinsecamente, dos factores e formas de conjugaçao dos mesmos que intervieram no renascer das cidades peninsulares. No milénio anterior à reconquista cristã, os Romanos tinham instalado já na Ibéria uma estrutura urbana, assente num povoamento de tipo concentrado. Séculos depois, a civilização muçulmana, que sucedeu à romano-goda, desenvolveu os núcleos urbanos existentes, particularmente a sul da linha do Tejo. Romanos e Árabes foram homens da cidade. Mas as cidades romano-árabes da Hispânia foram incorporadas nas novas monarquias neo-godas pela força das armas, brandidas em nome de um credo. Foi o proselitismo religioso da cruzada que presidiu à instalação das grandes ordens religiosas: Templo (Cristo, posteriormente), Hospital, Calatrava (em Portugal, Avis) e Santiago, cuja presença no centro e sul do território foi notável. Foi a secular necessidade da luta pela sobrevivência e, depois, pela supremacia de uma civilização ocidental, irradiando do norte, rude embora, sobre uma civilização mais requintada e urbana, mediterrânea de influência oriental, que dignificou a classe dos milites ou cavaleiros e seu chefe supremo, o rei.
[…]

Santarém no século da Reconquista
O século XII é uma época genesíaca: época de cruzadas, de canções de gesta, da proliferação dos reinos de taifas que substituem na Península a unidade política do brilhante califado de Córdova e permitem, por um lado. as invasões Almorávidas e Almóadas e, por outro lado, o avanço da reconquista cristã. Este século constitui um marco decisivo na definição política do reino de Portugal que implantou os seus limites meridionais nas férteis planícies da Balata (campos situados na margem direita do Tejo, a jusante de Santarém, identificáveis com os campos de Valada), nome, aliás, da província ou território árabe mais ocidental. Da importância da posse de Santarém para o domínio do Ocidente peninsular nos falam, entre outros factos, os incessantes ataques de que foi alvo por parte de Cristãos e de Muçulmanos: conquistada por Afonso VI em 1093, foi recuperada pelos Almorávidas em 1111 e reconquistada definitivamente em 1147 por Afonso Henriques. Esta conquista, porém, não pôs fim à disputa entre Cristãos e Árabes pelo domínio da capital da Balata. Assim. por duas vezes (em 1171 e 1184), os Almóadas tentaram reaver, ainda que inutilmente, este grande centro militar e económico do Andaluz.

A conquista da Alcáçova
Não é fácil discernir de maneira clara e distinta certos pontos obscuros da história de Santarém, como é o caso da sua conquista e do seu perímetro amuralhado. Ambos os problemas se entrecruzam, porquanto o equacionar do primeiro envolve uma resposta para o segundo, o que de modo algum parece fácil. Vários são os autores que, ao falarem da conquista de Santarém em 1147, dão como certo que Afonso I entrou na cidade pela Porta de Atamarma. Assim o afirmaram, no século XVIII, Luís Montês Matoso e Inácio Piedade Vasconcelos. Este último autor presume que Mem Ramires deve ter alcançado a muralha entre a Porta de Atamarma e a subida das Figueiras na Mouraria, enquanto o irmão do rei teria dado a volta pela direita até à Porta de Leiria. Data, pelo menos, do século XVI a tradição de que a Porta de Atamarma (que tinha como um dos acessos a actual calçada de Mem Ramires) fora o lugar de entrada do Conquistador (a oração que o licenciado Lopo Castanheda fez quando João III visitou Santarém, a 2 de Junho de 1524). Em 1920, consagrou-se monumentalmente esta tradição levantando um obelisco na zona da Atamarma. Tal convicção fundamenta-se, ao que me parece, num certo equívoco de interpretação da fonte documental que testemunha o acontecimento: o relato da tomada de Santarém, posto na boca do próprio Afonso Henriques por um monge de Alcobaça, no qual o rei justifica o estratagema usado na sua conquista com o facto de ser uma povoação excelentemente defendida (Codex 207 de Alcobaça)». In Maria Ângela V. Rocha Beirante, Santarém Medieval, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (35813), 1ª edição em Português, Dezembro de 1980.

Cortesia da UNL/FCSH/JDACT

sábado, 20 de dezembro de 2014

Breve História dos Judeus em Portugal. Jorge Martins. «… frei Martim Vasques, ‘o primeiro inquisidor português confirmado’. Os seus sucessores foram os franciscanos frei Rodrigo Cintra (1394) e frei Afonso Alprão (1413) e o dominicano frei Vicente Lisboa (1401). Contudo, não existem provas documentais de […] que tenham assumido actos violentos ou sanguinários em Portugal»

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A introdução da Inquisição
«(…) Os tribunais peninsulares da Inquisição (maldita), estabelecidos em Espanha em 1478 e em Portugal em 1536, afastaram-se radicalmente do sentido e da prática das primeiras acções inquisitoriais medievais. Com efeito, o que presidiu à criação do Santo Ofício (maldito) nos Estados ibéricos foi a presença judaica e a cobiça dos seus bens e fazendas. A atitude papal, quer em relação à Espanha, quer em relação a Portugal, não deixa dúvidas quanto à convicção pontifícia de que os reis ibéricos pretenderiam apossar-se dos bens dos crentes na Lei de Moisés. Mas a história da Inquisição (maldita) é muito anterior às modernas inquisições ibéricas. O zelo cristão que estaria na origem da criação da Inquisição (maldita) medieval já continha em si o gérmen da intolerância religiosa que vingaria na Península Ibérica nos séculos XV e (sobretudo) XVI. Foi isso mesmo que aconteceu em relação aos regulamentos da Inquisição (maldita). O concílio provincial de Béziers, realizado após o concílio geral de Lyon (1245), por ordem de Inocêncio IV, estabeleceu o regulamento inquisitorial sobre o modo de proceder contra os hereges, que serviria de modelo para as modernas Inquisições ibéricas. Ali se podem encontrar a obrigação de denúncia de suspeitos de heresia, o anonimato das testemunhas, a aceitação de acusadores e denunciantes desqualificados (criminosos e infames), a possibilidade de condenação dos mortos, o confisco de bens, a destruição das casas onde se acolhiam os réus.
Quanto à Península Ibérica, a Inquisição (maldita) havia entrado desde os primórdios do domínio cristão e Aragão foi palco das suas crueldades. Castela já a conheceria em 1236, facto atestado por uma bula dirigida ao bispo de Palência. As nomeações de inquisidores dominicanos exclusivamente para Aragão, permite-nos crer que só aí existiriam permanentemente no século XIII. Em Portugal não teria entrado a Inquisição primitiva, o que é corroborado pela rejeição de Afonso II às tentativas do dominicano Sueiro Gomes de lançar os fundamentos inquisitoriais no território luso, que as Cortes de 1211 regulamentariam, atribuindo aos prelados diocesanos as penalidades contra os hereges. Embora não haja indícios da sua acção no reinado de Dinis I, eventualmente existiriam inquisidores no nosso território no início do século XIV de acordo com uma bula contra os Templários de Clemente V àquele rei português e com uma outra, de 1376, através da qual o papa Gregório XI incumbia Agapito Colonna, bispo de Lisboa, de nomear inquisidor um franciscano, visto não haver inquisidores neste país. Recaiu essa escolha em frei Martim Vasques, o primeiro inquisidor português confirmado. Os seus sucessores foram os franciscanos frei Rodrigo Cintra (1394) e frei Afonso Alprão (1413) e o dominicano frei Vicente Lisboa (1401). Contudo, não existem provas documentais de que a acção destes inquisidores franciscanos e dominicanos tenham assumido actos violentos ou sanguinários em Portugal, que resumiu a presença da Inquisição (maldita) à nulidade no século XIV e à ridicularia fradesca no século XV ao contrário do que estava a suceder em Espanha, depois de se ter circunscrito a Aragão no início. Mas, mesmo na vizinha Espanha, só em finais do século XV se pode considerar o efectivo estabelecimento de um tribunal permanente.
A partir da década de 80 do século XV, alguns sinais de instabilidade vêm perturbar a relativa tolerância que predominava. Com efeito, as alterações da política oficial na vizinha Espanha quanto aos judeus originaram uma inversão de atitudes desde os massacres de 1391, passando pelos estatutos da pureza de sangue", aprovados em Toledo em 1449, até, à instalação da Inquisição (maldita) em 1478, que culminaria com a expulsão de 1492. Portugal não poderia ficar incólume à nova situação criada às comunidades judaicas vizinhas. O fluxo migratório para Portugal verificado na sequência dos acontecimentos espanhóis de 1391 e das décadas de 80 e 90 atingiriam o equilíbrio instável que se vivia no nosso país desde meados do século XV, agudizando a situação, favorecendo as instigações clericais no seio da população, sempre disposta a exorcizar os seus fantasmas, projectando as suas angústias num qualquer bode expiatório que estivesse mais à medida das explicações intolerantes dos interessados em trazer para o nosso reino o péssimo exemplo castelhano». In Breve História dos Judeus em Portugal, Jorge Martins, Nova Vega, colecção Sefarad, 2011, ISBN 978-972-699-920-1.

Cortesia de Nova Vega/JDACT

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Breve História dos Judeus em Portugal. Jorge Martins. «… inabalável vontade clerical e régia de extirpar o pluralismo religioso e étnico da sociedade portuguesa. Actuasse o rei João III à semelhança dos seus antecessores e não teria sido necessário que o Marquês de Pombal inviabilizasse a intolerância por decreto»

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O massacre judaico de Lisboa de 1506
«(…) Expulso de Espanha, Ibn Verga seria uma das vítimas do baptismo forçado de 1497 e terá deixado Portugal em 1508, acabando por falecer na Flandres. Deixou uma obra, intitulada Shebet Yehudah (O Ceptro de Judá). Este criptojudeu explicaria a fabricação do milagre do crucifixo. Também foi através da sua obra que ficámos a saber que, na madrugada de 17 de Abril de 1506, havia sido descoberta uma celebração pascal judaica secreta, de que resultaria a prisão de dezasseis cristãos-novos. Dois dias depois, precisamente no domingo de Pascoela, os cristãos-novos seriam libertados, a troco de elevado preço e considerável influência, gerando um mal-estar no seio da população cristã de Lisboa. Quanto à descrição do milagre, há várias versões (Góis, Osório, Verga), mas o autor do panfleto alemão, que parece ter sido o único relato de uma testemunha ocular do episódio, afirma que não conseguiu ver a luz divina, embora as duzentas pessoas que enchiam a igreja de S. Domingos lhe tenham garantido ter visto. Também a frase proferida pelo infeliz cristão-novo é motivo de controvérsia. Damião de Góis diz que o cristão-novo terá associado a luz a uma candeia acesa ao lado do crucifixo. Jerónimo Osório afirma que o cristão-novo terá duvidado que um pedaço de pau pudesse fazer um milagre, versão que o panfleto alemão corrobora, com o acréscimo da sugestão por parte da vítima de que se se regasse o crucifixo, logo se apagaria a luz. Seria uma improvável provocação, que o mais incauto cristão-novo (ou velho) não arriscaria.
A testemunha ocular alemã, autora do citado panfleto, descreve o horror da carnificina de forma perturbada, considerando-a inacreditável para quem a não tivesse presenciado, como ele o fez com os seus próprios olhos. Do mesmo modo, não deixa dúvidas sobre o papel dos três frades dominicanos, que percorreram a cidade durante o massacre, erguendo cruzes e gritando: Morte aos judeus! A instigação dominicana à bárbara violência foi, pois, determinante para a loucura sanguinária que se apoderou do povo de Lisboa. Ao invés de a condenar, os dominicanos atiçaram o ódio, participaram na carnificina, tornando-se nos principais responsáveis morais e materiais do massacre judaico de 1506.
Trinta anos depois, a Inquisição (maldita) era estabelecida por acção irredutível de João III, proporcionando à facção intolerante da Igreja Católica, uma perseguição oficial, estatal e ilimitada, dos crimes de heresia, que é como quem diz, do judaísmo persistente, apesar do fundado terror experimentado, tanto por cristãos-novos como por cristãos-velhos. O massacre de 1506 foi o prenúncio da vitória da intolerância e constituiu um corte com as práticas tolerantes dos nossos primeiros monarcas em relação às comunidades judaicas até finais do século XV. Este funesto episódio constituiu uma premonição, não da inevitabilidade do estabelecimento da Inquisição (maldita), mas da inabalável vontade clerical e régia de extirpar o pluralismo religioso e étnico da sociedade portuguesa. Actuasse o rei João III à semelhança dos seus antecessores e não teria sido necessário que o Marquês de Pombal inviabilizasse a intolerância por decreto. Na realidade, a partir do último quartel do século XVIII, o antijudaísmo esfumou-se sem contestação popular, como se nunca houvera existido.
Isso deve-se ao facto de aqueles que estimulavam a intolerância estarem, a partir daí, manietados, impedidos da manipulação popular, o que resultou numa solução eficaz para um persistente problema social que parecia insanável, apesar dos esforços de homens como o padre António Vieira, Luís da Cunha, o Cavaleiro de Oliveira e Ribeiro Sanches. O massacre de 1506 antecedeu uma viragem social, que contribuiu para a decadência deste povo peninsular, como muito bem assinalou Antero de Quental em 1871 nas Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos. A Câmara Municipal de Lisboa, em associação com as comunidades judaica e católica, inauguraram em 22 de Abril de 2008, no Largo de São Domingos, o epicentro da tragédia, monumentos de desagravo aos judeus vitimados pela intolerância, o que constitui um indiscutível gesto de justiça póstuma». In Breve História dos Judeus em Portugal, Jorge Martins, Nova Vega, colecção Sefarad, 2011, ISBN 978-972-699-920-1.

Cortesia de Nova Vega/JDACT

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Breve História dos Judeus em Portugal. Jorge Martins. «… capturando aqueles que se haviam recolhido nas igrejas, carregando mortos e vivos para as fogueiras que se acendiam na capital. Foram três dias de terror, pilhagem e carnificina, de que resultariam, de acordo com os cronistas coevos, entre dois e quatro mil mortos»

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«A situação criada com o baptismo forçado era explosiva. Qualquer sinal de hipotético judaísmo poderia gerar a animosidade cristã. Na verdade, cristão-novo, converso convicto ou não, permanecia eternamente judeu aos olhos da população maioritariamente cristã. Foi nesta conjuntura, favorável ao antijudaísmo, que o citado cristão-novo cometeu a imprevidência. Mal proferiu a contraproducente blasfémia, o povo caiu sobre ele, arrastou-o para a rua e agrediu-o barbaramente até cair inanimado. Prostrado no Largo de S. Domingos, foi identificado pelo irmão, que se debruçou sobre o seu cadáver e gritou lancinantemente: Quem matou meu irmão?!. Acto contínuo, foi igualmente executado pela turba, que, de pronto, acendeu uma fogueira e queimou os dois infelizes cristãos-novos.
Num clima de intolerância crescente, surgiu um frade que proferiu um inflamado sermão antijudaico, enquanto o povo se aglomerava em torno da redentora fogueira aos quais se juntariam mais dois frades dominicanos, frei João Mocho e frei Bernardo, exibindo o crucifixo milagreiro e fazendo apelos sanguinários contra os judeus: Heresia! Heresia! Destruam o povo abominável!.... E assim se espalhou o povo pelas ruas de Lisboa, procurando cristãos-novos que passavam desprevenidos, forçando a entrada nas suas casas, capturando aqueles que se haviam recolhido nas igrejas, carregando mortos e vivos para as fogueiras que se acendiam na capital. Foram três dias de terror, pilhagem e carnificina, de que resultariam, de acordo com os cronistas coevos, entre dois e quatro mil mortos. Na Miscelânea de Garcia de Resende e na Symmicta Lusitana, alegação dos judeus ao papa Paulo III contra a Inquisição (maldita), defende-se as quatro mil vítimas e Damião de Góis, na Crónica de D. Manuel, fica-se pelas mais de 1900 almas. O número de duas mil vítimas é o mais consensual entre os historiadores, de Alexandre Herculano a Yosef Yerushalmi.
O rei Manuel I protelou a sua intervenção no motim e só o fez quando já não havia vítimas para queimar nas fogueiras. Nem Álvaro de Castro, o governador da Casa do Cível, nem Aires da Silva, o regedor da Casa da Suplicação conseguiriam demover a populaça tresloucada, quando tentaram acalmar os ânimos. Embora tardiamente, o rei, informado dos factos quando passava por Avis em direcção a Évora para visitar sua mãe enferma, castigou duramente o povo de Lisboa: sentenciou os responsáveis pela chacina a penas corporais e à perda dos seus bens a favor da Coroa; mesmo os que não tivessem participado no massacre e no saque perderiam um quinto dos seus bens; suspendeu a eleição dos representantes da Casa dos Vinte Quatro e dos seus quatro representantes à vereação municipal lisboeta; retirou as honrarias da cidade; mandou executar cerca de meia centena de amotinados e os dois frades dominicanos, frei João Mocho e frei Bernardo, verdadeiros instigadores do massacre.
Entre os populares lisboetas e os frades dominicanos estavam marinheiros estrangeiros, designadamente alemães, que ajudaram à barbárie, mas que também deixaram relatos escritos, que circulariam no seu país, reportando o sucedido. São fontes pouco conhecidas em Portugal, cujos historiadores se têm cingido aos cronistas que não assistiram aos acontecimentos: Damião de Góis (Crónica do Felicíssimo rei D. Manuel), nascido em 1502; Samuel Usque (Consolação às Tribulações de Israel), nascido entre 1495-1500; Jerónimo Osório (De Rebus Emmanuelis Regis Lusitaniae), nascido no próprio ano do massacre. Todos eles eram demasiado jovens para compreender os acontecimentos.
Foi o historiador Yosef Yerushalmi quem divulgou novas fontes, tais como os citados panfletos alemães e uma interessante obra de Salomon lbn Verga, um judeu espanhol exilado em Lisboa, que também terá presenciado (parcialmente?) os acontecimentos. De acordo com este último, o milagre fora inventado pelos dominicanos, que teriam congeminado a luz por detrás do crucifixo, criando a ilusão de estar a irradiar daí». In Breve História dos Judeus em Portugal, Jorge Martins, Nova Vega, colecção Sefarad, 2011, ISBN 978-972-699-920-1.

continua
Cortesia de Nova Vega/JDACT

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Breve História dos Judeus em Portugal. Jorge Martins. «… capturando aqueles que se haviam recolhido nas igrejas, carregando mortos e vivos para as fogueiras que se acendiam na capital. Foram três dias de terror, pilhagem e carnificina, de que resultariam, de acordo com os cronistas coevos, entre dois e quatro mil mortos»

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«A situação criada com o baptismo forçado era explosiva. Qualquer sinal de hipotético judaísmo poderia gerar a animosidade cristã. Na verdade, cristão-novo, converso convicto ou não, permanecia eternamente judeu aos olhos da população maioritariamente cristã. Foi nesta conjuntura, favorável ao antijudaísmo, que o citado cristão-novo cometeu a imprevidência. Mal proferiu a contraproducente blasfémia, o povo caiu sobre ele, arrastou-o para a rua e agrediu-o barbaramente até cair inanimado. Prostrado no Largo de S. Domingos, foi identificado pelo irmão, que se debruçou sobre o seu cadáver e gritou lancinantemente: Quem matou meu irmão?!. Acto contínuo, foi igualmente executado pela turba, que, de pronto, acendeu uma fogueira e queimou os dois infelizes cristãos-novos.
Num clima de intolerância crescente, surgiu um frade que proferiu um inflamado sermão antijudaico, enquanto o povo se aglomerava em torno da redentora fogueira aos quais se juntariam mais dois frades dominicanos, frei João Mocho e frei Bernardo, exibindo o crucifixo milagreiro e fazendo apelos sanguinários contra os judeus: Heresia! Heresia! Destruam o povo abominável!.... E assim se espalhou o povo pelas ruas de Lisboa, procurando cristãos-novos que passavam desprevenidos, forçando a entrada nas suas casas, capturando aqueles que se haviam recolhido nas igrejas, carregando mortos e vivos para as fogueiras que se acendiam na capital. Foram três dias de terror, pilhagem e carnificina, de que resultariam, de acordo com os cronistas coevos, entre dois e quatro mil mortos. Na Miscelânea de Garcia de Resende e na Symmicta Lusitana, alegação dos judeus ao papa Paulo III contra a Inquisição (maldita), defende-se as quatro mil vítimas e Damião de Góis, na Crónica de D. Manuel, fica-se pelas mais de 1900 almas. O número de duas mil vítimas é o mais consensual entre os historiadores, de Alexandre Herculano a Yosef Yerushalmi.
O rei Manuel I protelou a sua intervenção no motim e só o fez quando já não havia vítimas para queimar nas fogueiras. Nem Álvaro de Castro, o governador da Casa do Cível, nem Aires da Silva, o regedor da Casa da Suplicação conseguiriam demover a populaça tresloucada, quando tentaram acalmar os ânimos. Embora tardiamente, o rei, informado dos factos quando passava por Avis em direcção a Évora para visitar sua mãe enferma, castigou duramente o povo de Lisboa: sentenciou os responsáveis pela chacina a penas corporais e à perda dos seus bens a favor da Coroa; mesmo os que não tivessem participado no massacre e no saque perderiam um quinto dos seus bens; suspendeu a eleição dos representantes da Casa dos Vinte Quatro e dos seus quatro representantes à vereação municipal lisboeta; retirou as honrarias da cidade; mandou executar cerca de meia centena de amotinados e os dois frades dominicanos, frei João Mocho e frei Bernardo, verdadeiros instigadores do massacre.
Entre os populares lisboetas e os frades dominicanos estavam marinheiros estrangeiros, designadamente alemães, que ajudaram à barbárie, mas que também deixaram relatos escritos, que circulariam no seu país, reportando o sucedido. São fontes pouco conhecidas em Portugal, cujos historiadores se têm cingido aos cronistas que não assistiram aos acontecimentos: Damião de Góis (Crónica do Felicíssimo rei D. Manuel), nascido em 1502; Samuel Usque (Consolação às Tribulações de Israel), nascido entre 1495-1500; Jerónimo Osório (De Rebus Emmanuelis Regis Lusitaniae), nascido no próprio ano do massacre. Todos eles eram demasiado jovens para compreender os acontecimentos.
Foi o historiador Yosef Yerushalmi quem divulgou novas fontes, tais como os citados panfletos alemães e uma interessante obra de Salomon lbn Verga, um judeu espanhol exilado em Lisboa, que também terá presenciado (parcialmente?) os acontecimentos. De acordo com este último, o milagre fora inventado pelos dominicanos, que teriam congeminado a luz por detrás do crucifixo, criando a ilusão de estar a irradiar daí». In Breve História dos Judeus em Portugal, Jorge Martins, Nova Vega, colecção Sefarad, 2011, ISBN 978-972-699-920-1.

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Cortesia de Nova Vega/JDACT

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Breve História dos Judeus em Portugal. Jorge Martins. «Uma luz brilhou, incandescente, no crucifixo da capela da igreja. Todos viram. Todos rejubilaram. Todos se sentiram recompensados pela crença profunda e sincera. “Todos?” ‘Não’»

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«O rei Manuel, ao invés de disponibilizar navios no Porto, em Lisboa e no Algarve, para a saída dos judeus do reino, determinou a sua concentração em Lisboa, garantindo-lhes o embarque para o estrangeiro. Cerca de 20000 judeus provenientes de todo o país acabariam por ser conduzidos ao Palácio dos Estaus, futura sede da Inquisição (maldita). Esfomeados, sedentos e encurralados em espaço exíguo, à espera dos prometidos navios, seriam, no entanto, visitados por dois irmãos convertidos, mestre Nicolau, futuro médico da rainha D. Isabel, esposa de Manuel I e Pedro de Castro, eclesiástico em Vila Real, dispostos a baptizá-los. Impossibilitados de saírem livremente do país, conforme fora prometido no Édito do ano anterior, seriam levados aos milhares às igrejas mais próximas e benzidos apressadamente contra sua vontade.
Mesmo os mais velhos e indefesos judeus foram arrastados pelos cabelos até à pia baptismal, preferindo alguns deles atirar-se aos poços e cisternas, numa inesquecível cena apocalíptica, que vários cronistas registariam. Não passaria muito tempo até que o rei Manuel exarasse nova portaria, desta vez para proteger os judeus, que ele bem sabia não se terem efectivamente convertido ao cristianismo, apenas os haviam obrigado a sê-lo formalmente, de forma a preservá-los no futuro, pouco importando se continuariam a judaizar ou não. Com efeito, a portaria de 30 de Maio de 1497 estipulava que ninguém poderia inquirir os cristãos-novos sobre matéria religiosa durante um período de vinte anos. Tratava-se de uma verdadeira amnistia geral, duma formalidade que preservava os judeus sem judaísmo declarado mas consentido.
Compreensivelmente, os judeus, que já haviam sido expulsos de Espanha e estavam agora a ser aprisionados em Portugal, não acreditaram na sinceridade desta medida e trataram de abandonar o nosso país mal puderam, com suas famílias e bens. Os mais abastados, antes de saírem, negociavam letras de câmbio com os cristãos, para serem trocadas noutros países. Detectada esta astuciosa artimanha hebraica, o rei aprovaria medidas que contrariavam a estratégia económica e a finalidade migratória, através de dois alvarás de 1499: o de 20 de Abril, que proibia os negócios com judeus, e o de 21 de Abril, que impedia a saída do reino de conversos de 1497, sem licença régia, ambos sob pena de perda dos bens dos infractores. Apesar destas medidas, um considerável número de judeus terá conseguido evadir-se da prisão lusa, subornando alguns zelosos cristãos.

Da expulsão ao estabelecimento da Inquisição
O massacre judaico de Lisboa de 1506
No entanto, o pior estava ainda para vir. O primeiro sinal dos tempos difíceis que se temiam foi o famigerado massacre judaico de 1506, que teve início no dia 19 de Abril, domingo de Pascoela cristã e que prolongou por mais dois dias. O clima que se vivia então em Lisboa era deplorável: a peste assolava a capital desde Outubro do ano anterior, situação dramaticamente ampliada pela seca e pela fome. O rei Manuel I refugiara-se em Abrantes. As ruas exibiam os horrores da tragédia. Naquele dia, o convento de São Domingos estava repleto de desesperados cristãos, velhos e novos, esperando um sinal divino que acudisse àqueles que não tinham posses ou condições de fuga. Constava que um milagre se manifestara, no dia 15 desse mês, naquele templo dominicano. A vontade de crer era demasiado forte para descrer em qualquer sinal, por pequeno ou inacreditável que fosse. A predisposição faz a ocasião. Era a única esperança. Não se podia desperdiçar uma fugaz manifestação divina. E aconteceu. O sinal implorado com toda a convicção repetiu-se. Uma luz brilhou, incandescente, no crucifixo da capela da igreja. Todos viram. Todos rejubilaram. Todos se sentiram recompensados pela crença profunda e sincera. Todos? Não.
Na verdade, houve um que ousou duvidar da natureza divina da luz. Teria sido o reflexo de uma das muitas candeias acesas naquele convento, para chamar a atenção do Omnipotente. Incautamente, proferiu as palavras proibidas, indesejadas, demolidoras da esperança compensada. Era um cristão-novo. Heresia! Naquele domingo de Pascoela de 1506, apenas nove anos após a conversão forçada de milhares de judeus portugueses, decretada por Manuel I, já não se podia ser judeu, era-se cristão-novo oficial e criptojudeu de convicção. Mas, quem, em menos de uma década deixa de ser o que é, para ser aquilo a que o querem forçar? Muitos deles, quiçá a maioria, ter-se-ão tornado judeus secretos, com todos os perigos que isso implicava». In Breve História dos Judeus em Portugal, Jorge Martins, Nova Vega, colecção Sefarad, 2011, ISBN 978-972-699-920-1.

continua
Cortesia de Nova Vega/JDACT