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sábado, 8 de maio de 2021

Os Mistérios da Coroa. Nancy Bilyeau. «Segui o grupo até ao fim da rua e em seguida por outra via margeada por tabernas, que se abria para um imenso descampado plano apinhado de pessoas que já tinham chegado e aguardavam a execução do dia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Londres, 25 de Maio de 1537

«(…) Eu estava presa dentro do labirinto do jardim do meu tio. Ele havia acabado de construí-lo e não se cansava de repetir que os monges que tinha contratado para desenhá-lo eram melhores do que os que o cardeal Wolsey usara. O labirinto tinha sido inaugurado naquele dia, 4 de Setembro, data da celebração anual do segundo duque de Buckingham, meu avô falecido havia tempos. Nós, os primos, fomos vendados e conduzidos até ao centro. Então nossas vendas foram retiradas, e mandaram que saíssemos correndo para ver quem chegaria primeiro. Percorram o labirinto! Percorram o labirinto!, gritava meu tio do lado de fora das sebes sinuosas. Eu era uma das mais novas e logo fiquei para trás. Em pouco tempo me vi sozinha. Corria de um lado para outro esperando ver as paredes verdes se abrirem para o jardim, mas o meu instinto estava sempre errado e eu só me embrenhava ainda mais no labirinto.

O que há com você, Joanna? Pense, menina, pense! As vozes foram ficando mais altas, mais impacientes. Joanna, deixe de ser boba!, gritou um dos meninos. Alguém mais velho o mandou calar a boca. Eu virara o centro das atenções, coisa que sempre detestava. Será que havia dobrado à direita naquela curva ou à esquerda? O pânico me fazia esquecer os caminhos que já tinha percorrido. Como minha cabeça girava com o aroma das rosas. Dúzias de roseiras vermelhas muito bem podadas se espalhavam pelo labirinto. A temporada dessas flores estava quase no fim e as suas pétalas já tinham murchado e caído. Além disso, já havia passado a hora do dia em que o seu frescor estava no auge.

Mas eram muitas roseiras, e eu passara por elas várias vezes. Quase podia sentir na boca o sabor pungente daquelas rosas altivas e cheias de pólen. Fiz uma curva bem rápido e trombei com Margaret. Caímos as duas no chão, rindo, com as contas de nossas mangas bufantes emboladas umas nas outras. Depois de nos soltarmos, ela me ajudou a levantar. Margaret era um ano mais velha e cinco centímetros mais alta que eu e sempre muito mais inteligente e bonita. Minha prima-irmã, minha única amiga. Margaret, onde se meteu?, gritou o duque de Buckingham. É melhor não ter entrado no labirinto de novo para buscar Joanna. Ah, ele vai zangar-se consigo, falei. Não deveria ter vindo. Margaret piscou para mim. Limpou a sujeira das nossas roupas de festa e me conduziu para fora do labirinto sem largar a minha mão em momento nenhum.

Estavam todos nos esperando na entrada, no que parecia ser uma reunião completa do clã dos Stafford e de todos os nossos criados. Meu tio, o duque, mais importante nobre da Inglaterra, usava roupas bordadas em prata e uma longa pena de avestruz no chapéu. Ao lado dele estava seu irmão mais novo, sir Richard Stafford, meu pai. Por pouco não os alcançava uma sombra comprida que se estendia pelo jardim, lançada pela torre quadrada que se erguia acima de nós. O castelo de Bornbury (?), em Gloucestershire, fora construído para fazer frente aos ataques. Não de algum inimigo estrangeiro, mas de muitas gerações de reis Plantagenetas cobiçosos de poder. Destemida, Margaret foi directamente até ao duque. Viu, pai, encontrei Joanna, disse ela. Já podem ir jogar ténis. Ele nos examinou com as sobrancelhas arqueadas enquanto todos aguardavam, tensos. Mas o duque de Buckingham riu. Beijou a filha adorada, sua filha ilegítima, criada junto com os quatro rebentos de sua submissa duquesa. Eu bem sei que você é capaz de tudo, Margaret, falou. Meu pai também me deu um abraço apertado. Ele havia passado o dia inteiro caçando, e me lembro do seu cheiro de suor, terra e relva seca esmagada. Eu me senti muito aliviada e feliz.

A carroça londrina deu uma travagem e estremeceu, derrubando-me por cima da palha. Foi o fim do meu devaneio.  Tínhamos deixado para trás os muros da cidade e viramos para uma rua lateral. As rodas da carroça estavam atoladas na lama. O carroceiro praguejou quando os cavalos relincharam, e os homens barulhentos se moveram para a parte de trás da carroça. Não faz mal, disse-me a mulher. Já estamos quase em Smithfield.

Segui o grupo até ao fim da rua e em seguida por outra via margeada por tabernas, que se abria para um imenso descampado plano apinhado de pessoas que já tinham chegado e aguardavam a execução do dia. Eram centenas: homens, mulheres, marinheiros e costureiras, além de crianças. Uma família me empurrou para passar, a mãe carregando um cesto de pão, o pai com um menino encarapitado nos ombros. Sem qualquer aviso, um cheiro fétido dominou minhas narinas, minha garganta e meus pulmões. Meus olhos lacrimejaram. Era o pior cheiro que eu já tinha sentido em Londres. Dei um grito e levei as mãos à garganta, que ardia. É o matadouro, que fica a leste daqui, explicou a mulher com quem eu viajara na carroça. Quando o vento sopra de lá, o cheiro de sangue e vísceras pode ser bem ruim. Ela tocou meu cotovelo. Estou vendo que você não está acostumada com Smithfield. Venha comigo, não saia de perto». In Nancy Bilyeau, Os Mistérios da Coroa, Editora Arqueiro, 2012, ISBN 978-858-041-082-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Nancy Bilyeau, Literatura, Londres, 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Nancy Bilyeau. Os Mistérios da Coroa. «Todas as três, respondeu outro. Uma risada nervosa percorreu a carroça. Era crime zombar dos casamentos do rei, que se divorciara da primeira esposa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Londres, 25 de Maio de 1537

«(…) Um rapaz sentado à minha frente abriu um sorriso e disse, em voz alta, para a carroça inteira escutar: estamos gratos ao rei por queimar uma bela jovem em Smith eld. A última pessoa a morrer na fogueira foi um falsário velho e feio. Um bolo de pão mastigado me subiu pela garganta e cobri a boca com a mão. Mas ela é bonita mesmo?, perguntou alguém. Um homem já idoso, de olhos azuis leitosos, enrolava com o dedo um pelo comprido que brotava do meio de seu queixo. Eu conheço uma pessoa que já viu lady Bulmer em carne e osso, e ela é bonita, sim, disse ele devagar. Mais do que a rainha. Que rainha?, gritou um dos homens. Todas as três, respondeu outro. Uma risada nervosa percorreu a carroça. Era crime zombar dos casamentos do rei, que se divorciara da primeira esposa e executara a segunda para dar lugar à terceira. Muita gente já tinha perdido mãos e orelhas por causa disso. O velho torceu o pelo do queixo com mais força.

Lady Bulmer deve ter ofendido muito o rei para ele mandar queimá-la em praça pública diante dos plebeus, em vez de mandar decapitá-la perto da torre ou de enforcá-la em Tyburn. Eles trouxeram para Londres todos os nobres e dalgos, todos os seguidores de Robert Aske, disse o rapaz. Para receber a justiça do rei. Ela vai ser apenas a primeira a ser executada.

Minha respiração se acelerou. O que aqueles londrinos iriam dizer, o que iriam fazer comigo se soubessem quem eu era e de onde vinha? Uma coisa era certa: eu jamais chegaria a Smithfield. Busquei nas minhas preces algo para me fortalecer. Senhor meu Deus, ajudai-me a ser obediente sem reservas, pobre sem servilidade e casta sem excepção. Essa tal de Margaret Bulmer é uma rebelde imunda!, gritou a mulher que tinha dividido o pão comigo. Uma papista do norte que conspirou para derrubar nosso rei. Humilde, alegre sem esbórnia, séria sem afectação, activa sem frivolidade, submissa sem amargura, verdadeira sem duplicidade. Com voz branda, o velho disse: no norte, as pessoas deram a vida pelas tradições. Queriam proteger os mosteiros. Todos soltaram exclamações de desprezo. Aqueles monges gordos escondendo potes de ouro enquanto os pobres morrem de fome do lado de fora dos seus muros.

Ouvi falar numa freira que pariu o bastardo de um padre. As freiras são todas pu… Ou então aleijadas..., ou estúpidas, desprezadas pelas famílias. Ouvi um ruído rascante. Foi minha própria risada, uma risada amarga, sem alegria, e que ninguém escutou, pois nesse mesmo instante ouviu-se um grito do lado de fora da carroça. Uma criança de rua passou correndo, tão depressa que ultrapassou os nossos cavalos. Um olhar de pânico por cima do ombro revelou que não era um menino, mas sim uma menina de rosto encardido, com os cabelos cortados curtos.

Um punhado de terra voou pelo ar e atingiu seu ombro. Ai!, gritou ela. Seus cachorros! Dois meninos grandes apareceram junto à lateral da carroça e riram. Iriam alcançá-la dali a um minuto. Os homens em cima da carroça atiçaram a perseguição. A menina saiu correndo pela rua em direcção às lojas. Outra garota acenou do vão de uma porta. Por aqui!, gritou. A moça entrou, e a porta se fechou atrás das duas. Os meninos chegaram segundos depois e começaram a esmurrar a porta, mas estava trancada. Fechei os olhos. Era outra menina quem corria. Aos 8 anos, sem ar, com a barriga doendo, eu corria por um caminho cercado por altas sebes de teixo, em busca de uma saída. Podia ouvir pessoas chamando meu nome, mas não conseguia vê-las. Rápido, Joanna, rápido... nós vamos jogar ténis depois!, gritavam meus primos, tão fortes, tão duros.

Vamos, menina, você consegue!, bradava o meu tio Edward Stafford, terceiro duque de Buckingham e chefe da família. Tem que encontrar a sua própria saída. Não podemos mandar ninguém atrás de vós e correr o risco de perder mais uma criança». In Nancy Bilyeau, Os Mistérios da Coroa, Editora Arqueiro, 2012, ISBN 978-858-041-082-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Nancy Bilyeau, Literatura, Londres, 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Os Mistérios da Coroa. Nancy Bilyeau. «Eu me recostei numa lateral da carroça. Passámos por um pequeno mercado que parecia não vender outra coisa que não especiarias e ervas. Agora que havia parado de chover, os vendedores retiravam as mantas que mantinham secas as suas bancadas estreitas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Londres, 25 de Maio de 1537

«Quando uma execução na fogueira é anunciada, as tabernas de Smith eld encomendam barris extras de cerveja, mas quando a pessoa a ser executada é uma mulher, e ainda por cima pertencente à nobreza, a bebida chega em carroças lotadas. Eu iria andar numa dessas carroças na sexta-feira de Pentecostes, no ano do reinado do rei Henrique VIII, para rezar pela alma de lady Margaret Bulmer, a traidora condenada. Pude ouvir o chamado do carroceiro enquanto seguia para a Cheapside Street, apertando na mão o mapa de Londres que, duas noites antes, eu copiara em segredo de um livro. Agora que eu tinha chegado a uma rua grande e calçada com pedras, conseguia andar mais depressa, mas minhas pernas latejavam. Havia passado a manhã inteira caminhando com dificuldade na lama. Smithfield! Está indo para Smithfield? A voz soava alegre, como se o destino ao qual se referia fosse uma feira do Dia de São Jorge. Logo à frente, diante de um curtume, vi quem tinha gritado: um homem grandalhão que açoitava o lombo de quatro cavalos atrelados a uma grande carroça. Meia dúzia de cabeças espiavam por cima da borda.

Espere!, gritei o mais alto possível. Eu quero ir para Smithfield! O carroceiro se virou e seus olhos vasculharam a multidão. Acenei, e seu rosto se iluminou com um sorriso caloroso. Conforme eu me aproximava, minha barriga se contraía. Eu tinha prometido não falar com ninguém naquele dia, nem pedir ajuda. O risco de ser descoberta era enorme. Mas Smith eld cava a norte e a oeste de Londres, fora dos limites da cidade, e ainda faltava muito para chegar lá. Quando me aproximei, o carroceiro me olhou de cima a baixo e seu sorriso desapareceu. Eu estava usando uma pesada túnica de lã, a única que consegui para a viagem. Era feita para o mais rigoroso dos invernos, não para a primavera, muito menos para um dia em que a névoa mantinha o clima abafado. A bainha amarfanhada da túnica estava encharcada de lama. Mas pelo menos eu me sentia grata por ninguém conseguir ver, através do tecido grosso, minha combinação molhada de suor.

Mas eu sabia que não eram apenas as roupas desarrumadas que estavam fazendo o carroceiro pensar duas vezes. Muitas pessoas achavam minha aparência estranha. Meus cabelos são negros como ônix polido e meus olhos são castanhos, salpicados de verde. Minha pele morena não era vermelha em Julho, nem pálida em Dezembro. Minha pele é como a de minha mãe espanhola, mas não tenho os seus traços delicados. O meu rosto puxou ao do meu pai, que era inglês: testa larga, malares saltados, queixo marcado. É como se a incompatibilidade do casamento dos meus pais travasse uma batalha no meu rosto, bem à vista de todos. Em uma terra de moças rosadas e brancas, eu me destaco feito um corvo. Houve um tempo em que isso me incomodava, mas agora, aos 26 anos, eu já não me preocupava com coisas tão bobas. Um xelim pela viagem, moça, disse o carroceiro. Pague e vamos indo.

Seu pedido me pegou de surpresa, embora eu devesse estar preparada para a cobrança. Estou sem moedas, gaguejei. O carroceiro soltou uma risada que foi como um latido. Acha que eu faço isso por diversão? Escute aqui, moça, me restou pouca cerveja... Ele deu um soco no barril de madeira atrás de si. …e tenho que ganhar o suficiente para pagar pela carroça. Por trás do barril, eu podia ver seus passageiros espichando o pescoço para me olhar. Espere, falei, levando a mão à bolsinha de pano dentro do bolso que eu havia costurado na parte interna da roupa. Agitando os dedos lá dentro, encontrei um anel. Não queria dar a ele nada de mais valioso. Tinha subornos importantes pela frente. Estendi o anel. Isto aqui serve? Num segundo, a cara feia do carroceiro se transformou numa expressão de deleite, e o anel de ouro de minha falecida mãe sumiu na palma suja da sua mão.

Ao subir na traseira da carroça, pude distinguir pena e desprezo no rosto dos outros viajantes. Meu anel devia valer bem mais do que o percurso. Encontrei um monte de palha limpa num canto, sentei-me e baixei os olhos, tentando evitar os olhares curiosos, enquanto a carroça retomava o seu curso. Senti um cotovelo me cutucar nas costelas. Uma mulher corpulenta escorregou para mais perto de mim. Era uma senhora de meia-idade, a única outra pessoa do sexo feminino naquela carroça. Sorrindo, ela me estendeu um pedaço de pão. Eu não comia nada desde a ceia da véspera. Em geral apreciava a sensação de fome, o facto de dominar minha carne mortal e fraca, mas aquela missão exigia certo vigor. Peguei o pão com um meneio agradecido da cabeça. Um bocado de comida e um gole de cerveja aguada do cantil de madeira da mulher fortaleceram meu corpo entorpecido.

Eu me recostei numa lateral da carroça. Passámos por um pequeno mercado que parecia não vender outra coisa que não especiarias e ervas. Agora que havia parado de chover, os vendedores retiravam as mantas que mantinham secas as suas bancadas estreitas. O odor de uma rica mistura de borragem, sálvia, tomilho, alecrim, salsa e cebolinha se espalhou pelo ar e se dissipou depois que passamos. Os cheiros da cidade voltaram a predominar. Avistei umas construções de quatro andares, mais prósperas do que quaisquer outras que eu já vira antes. A placa de um ourives pendia numa esquina». In Nancy Bilyeau, Os Mistérios da Coroa, Editora Arqueiro, 2012, ISBN 978-858-041-082-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Nancy Bilyeau, Literatura, Londres,

terça-feira, 5 de julho de 2016

Tudor. O Segredo. CW Gortner. «Tudo à minha volta pareceu recuar. Recordando o que o guarda no portão dissera, um disparate qualquer sobre a Princesa Isabel estar na cidade, senti uma pontada no coração quando a cavalgada acelerou»

jdact

«(…) A multidão, um grupo de gente rude e de ar miserável, parou. Distraidamente, observei alguns miúdos de rua descalços que iam andando pé ante pé pelo meio daquela gente, com cães colados aos seus calcanhares; eram gatunos e, pelo aspecto, nenhum teria mais de nove anos. Era difícil olhar para eles sem me ver a mim mesmo, o desgraçado em que talvez me tivesse tornado caso os Dudley não me tivessem acolhido. Mestre Shelton fez uma carranca. Estão a bloquear-nos a passagem. Vai lá ver se descobres para onde é que esta gentalha está toda a olhar especada. Se puder ser evitado, preferia não ter de abrir caminho à força. Passei-lhe as minhas rédeas, tornei a desmontar e enfiei-me pela multidão, sentindo-me, por uma vez, grato pela minha constituição delgada. Insultaram-me, empurraram-me e acotovelaram-me, mas consegui chegar lá à frente. Pondo-me em bicos de pés para espreitar por cima das cabeças, vislumbrei a estrada principal, pela qual avançava uma cavalgada sem nada de particular. Estava prestes a virar costas àquela cena quando, abrindo caminho aos empurrões, uma mulher corpulenta veio pôr-se ao meu lado, agitando no ar um ramo de flores meio murchas. Deus vos abençoe, querida Bess!, gritou. Deus vos abençoe, Vossa Graça!
Lançou as flores ao ar. A multidão calou-se. Um dos homens que seguia na cavalgada recuou mais para o centro da mesma, como se para esconder algo, ou alguém, dos olhares. Foi então que reparei num cavalo de oficial malhado escondido por entre os cavalos maiores. Sabia apreciar cavalos; olhando ao seu pescoço arqueado, à musculatura suave e ao empertigado erguer dos cascos, reconheci tratar-se de um exemplar de uma raça espanhola raramente vista em Inglaterra e mais cara do que o conjunto que o duque tinha nas suas cavalariças. E então olhei para o cavaleiro. Percebi de imediato tratar-se de uma mulher, ainda que um manto com capuz lhe ocultasse as feições e que umas luvas de couro lhe escondessem as mãos. Ao contrário do que era costume, ela montava o cavalo com uma perna para cada lado; contra os lados da sela trabalhada em relevo, as suas vistosas botas chamavam a atenção, estava ali uma rapariga franzina, sem nada que a distinguisse à excepção do cavalo, mas que avançava como se determinada a alcançar o seu destino. Porém, sabia que estava a ser observada e ouviu a exclamação da mulher, porque voltou a cabeça. E então, para meu espanto, tirou o capuz e revelou um rosto longo e delgado, envolto numa auréola de cabelos acobreados. E sorriu.
Tudo à minha volta pareceu recuar. Recordando o que o guarda no portão dissera, um disparate qualquer sobre a Princesa Isabel estar na cidade, senti uma pontada no coração quando a cavalgada acelerou pela estrada fora, desaparecendo ao longe. A multidão começou a dispersar, embora um dos miúdos de rua tenha avançado furtivamente até à estrada para apanhar o ramo de flores. A mulher que o lançara mantinha-se imóvel, como se hipnotizada, as mãos sobre o peito e o olhar perdido na direcção da cavalgada que já desaparecera, com as lágrimas a brilharem-lhe nos olhos fatigados. Estendendo a mão, toquei-1he ao de leve no braço. Ela voltou-se para mim com um ar aturdido. Viste-la?, e, embora estivesse a olhar directamente para mim, tive a impressão de que não me via. Vistes a nossa Bess! Finalmente ela veio ter connosco, louvado seja Deus. Só ela nos pode salvar das garras de Northumberland, aquele demónio. Mantive-me imóvel, grato por trazer a libré no alforge. Era assim que os londrinos viam João Dudley, duque de Northumberland?
Eu sabia que o duque era actualmente o mais destacado ministro do rei, tendo chegado ao poder após a queda de Eduardo Seymour, o anterior protector do rei e também seu tio. Muitos na nação tinham amaldiçoado os Seymour pela sua avareza e ambição. Teria o duque incorrido no mesmo ódio?» In CW Gortner, O Segredo dos Tudor, 2011, tradução de Miguel Romeira, 20/20 Editora, Topseller, 2014, ISBN 978-989-862-643-1.

Cortesia de Topseller/20/20Editora/JDACT

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Tudor. O Segredo. CW Gortner. «E então, para meu espanto, tirou o capuz e revelou um rosto longo e delgado, envolto numa auréola de cabelos acobreados. E sorriu»

jdact

1553. Whitehall
«(…) A multidão, um grupo de gente rude e de ar miserável, parou. Distraidamente, observei alguns miúdos de rua descalços que iam andando pé ante pé pelo meio daquela gente, com cães colados aos seus calcanhares; eram gatunos e, pelo aspecto, nenhum teria mais de nove anos. Era difícil olhar para eles sem me ver a mim mesmo, o desgraçado em que talvez me tivesse tornado caso os Dudley não me tivessem acolhido. Mestre Shelton fez uma carranca. Estão a bloquear-nos a passagem. Vai lá ver se descobres para onde é que esta gentalha está toda a olhar especada. Se puder ser evitado, preferia não ter de abrir caminho à força. Passei-lhe as minhas rédeas, tornei a desmontar e enfiei-me pela multidão, sentindo-me, por uma vez, grato pela minha constituição delgada. Insultaram-me, empurraram-me e acotovelaram-me, mas consegui chegar lá à frente. Pondo-me em bicos de pés para espreitar por cima das cabeças, vislumbrei a estrada principal, pela qual avançava uma cavalgada sem nada de particular. Estava prestes a virar costas àquela cena quando, abrindo caminho aos empurrões, uma mulher corpulenta veio pôr-se ao meu lado, agitando no ar um ramo de flores meio murchas. Deus vos abençoe, querida Bess!, gritou. Deus vos abençoe, Vossa Graça!
Lançou as flores ao ar. A multidão calou-se. Um dos homens que seguia na cavalgada recuou mais para o centro da mesma, como se para esconder algo, ou alguém, dos olhares. Foi então que reparei num cavalo de oficial malhado escondido por entre os cavalos maiores. Sabia apreciar cavalos; olhando ao seu pescoço arqueado, à musculatura suave e ao empertigado erguer dos cascos, reconheci tratar-se de um exemplar de uma raça espanhola raramente vista em Inglaterra e mais cara do que o conjunto que o duque tinha nas suas cavalariças. E então olhei para o cavaleiro. Percebi de imediato tratar-se de uma mulher, ainda que um manto com capuz lhe ocultasse as feições e que umas luvas de couro lhe escondessem as mãos. Ao contrário do que era costume, ela montava o cavalo com uma perna para cada lado; contra os lados da sela trabalhada em relevo, as suas vistosas botas chamavam a atenção, estava ali uma rapariga franzina, sem nada que a distinguisse à excepção do cavalo, mas que avançava como se determinada a alcançar o seu destino. Porém, sabia que estava a ser observada e ouviu a exclamação da mulher, porque voltou a cabeça. E então, para meu espanto, tirou o capuz e revelou um rosto longo e delgado, envolto numa auréola de cabelos acobreados. E sorriu.
Tudo à minha volta pareceu recuar. Recordando o que o guarda no portão dissera, um disparate qualquer sobre a princesa Isabel estar na cidade, senti uma pontada no coração quando a cavalgada acelerou pela estrada fora, desaparecendo ao longe. A multidão começou a dispersar, embora um dos miúdos de rua tenha avançado furtivamente até à estrada para apanhar o ramo de flores. A mulher que o lançara mantinha-se imóvel, como se hipnotizada, as mãos sobre o peito e o olhar perdido na direcção da cavalgada que já desaparecera, com as lágrimas a brilharem-lhe nos olhos fatigados. Estendendo a mão, toquei-1he ao de leve no braço. Ela voltou-se para mim com um ar aturdido. Viste-la?, sussurrou, e, embora estivesse a olhar directamente para mim, tive a impressão de que não me via. Vistes a nossa Bess? Finalmente ela veio ter connosco, louvado seja Deus. Só ela nos pode salvar das garras de Northumberland, aquele demónio. Mantive-me imóve1, grato por trazer a libré no alforge. Era assim que os londrinos viam João Dudley, duque de Northumberland? Eu sabia que o duque era actualmente o mais destacado ministro do rei, tendo chegado ao poder após a queda de Eduardo Seymour, o anterior protector do rei e também seu tio. Muitos na nação tinham amaldiçoado os Seymour pela sua avareza e ambição. Teria o duque incorrido no mesmo ódio? Voltei costas à mulher. Mestre Shelton aproximara-se atrás de mim; do alto do seu cavalo baio, mostrou-se ameaçador». In CW Gortner, O Segredo dos Tudor, 2011, tradução de Miguel Romeira, 20/20 Editora, Topseller, 2014, ISBN 978-989-862-643-1.

Cortesia de Topseller/20/20Editora/JDACT

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Tudor. O Segredo. CW Gortner. «O poder absoluto, meu rapaz, tem o seu preço. Cerrou os maxilares. E agora, fica atento. Nunca se sabe quando é que nos vai aparecer pela frente…»

jdact

«(…) A escumalha anda toda em polvorosa com os rumores da doença mortal de Sua Majestade e com um disparate qualquer sobre a princesa Isabel estar na cidade. Cuspiu para a terra. Idiotas. Até eram capazes de acreditar que a Lua é de seda, se houvesse gente suficiente a jurar-lho. Não se deu ao trabalho de verificar os documentos. Se fosse a vós, mantinha-me longe das multidões, aconselhou, fazendo-nos sinal para avançarmos. Ao passarmos sob a torre de vigia, ouvi, nas nossas costas, aqueles que tinham sido travados começarem a protestar aos gritos. Mestre Shelton tornou a guardar os documentos no alforge. Ao abrir o manto, revelou uma espada larga presa às costas. Ao vislumbrar aquela arma, fiquei momentaneamente fascinado. Disfarçadamente, levei uma mão à adaga que trazia embainhada no cinto, um presente de mestre Shelton quando eu fizera catorze anos. Sua Majestade, o rei Eduardo... está a morrer?, arrisquei perguntar. Claro que não, replicou ele. O rei tem estado doente, nada mais, e as pessoas culpam o duque por isso, da mesma maneira que o culpam por quase tudo o que acontece de mau na Inglaterra. O poder absoluto, meu rapaz, tem o seu preço. Cerrou os maxilares. E agora, fica atento. Nunca se sabe quando é que nos vai aparecer pela frente algum velhaco capaz de nos degolar só para nos ficar com a roupa. Não duvidei das suas palavras. Londres não era, de todo, o que eu imaginara. Em lugar das avenidas bem ordenadas e cheias de lojas que povoavam a minha imaginação, atravessámos um autêntico emaranhado de ruelas torcidas, com lixo amontoado por toda a parte e das quais partiam becos sinuosos que iam desembocar numa sinistra escuridão. Por cima de nós, fileiras de edifícios delapidados amparavam-se uns nos outros como árvores tombadas, as suas varandas em ruínas unindo-se para bloquear a luz do sol. Reinava uma calma sinistra, como se toda a gente tivesse desaparecido, e o silêncio resultava ainda mais desconcertante por suceder ao clamor que deixáramos para trás, junto à porta da cidade. De súbito, mestre Shelton parou. Escuta.
Fiquei com todos os sentidos alerta. Apercebi-me de um som abafado que parecia chegar de todo o lado em simultâneo. O melhor é esperarmos, recomendou mestre Shelton. Segurando mais firmemente as rédeas do Cinábrio, fi-lo desviar-se para um lado instantes antes de a rua ser invadida por uma turba. A sua chegada foi tão inesperada que, apesar de eu estar a segurar firmemente as rédeas, o Cinábrio começou a empinar-se. Receando que ele espezinhasse alguém, desci da sela e segurei-o pelo freio. A multidão passou à nossa volta. Barulhenta a ponto de nos ensurdecer, era uma mistura muito diversa de gente a cheirar a suor e a esgotos e fez-me sentir como uma presa. A minha mão começou a descer para a adaga no meu cinto, mas então percebi que ninguém estava interessado em mim. olhei para mestre Shelton, que continuava montado no seu imponente cavalo baio. Ele gritou-me uma ordem que não consegui entender. Estiquei o pescoço, fazendo um esforço para o ouvir por cima do barulho. Torna a montar!, gritou ele outra vez, com o avançar da multidão em tropel quase a deitar-me por terra. A custo, lá consegui subir de novo para o dorso do Cinábrio e então fomos levados na maralha, navegando por entre toda aquela gente até transpormos uma passagem estreita que foi desembocar à beira-rio.
Fiz o Cinábrio parar. Diante dos meus olhos corria o Tamisa, as algas dando-lhe a aparência de jaspe líquido. Rio abaixo, lá mais ao longe, envolta em névoa, uma estrutura de pedra impunha-se à paisagem. A Torre de Londres. Detive-me, incapaz de desviar os olhos da infame fortaleza real. A meio galope, mestre Shelton aproximou-se pelas minhas costas. Eu não te disse para ficares atento? Anda. Não é altura para apreciar as vistas. As multidões de Londres podem ser tão ferozes como um urso num fosso. Forçando-me a desviar o olhar, observei o Cinábrio, os flancos tremiam-lhe, cobertos por uma fina camada de transpiração, e as suas narinas fremiam, mas parecia não ter sofrido uma beliscadura. A multidão correra para mais adiante, para uma estrada larga delimitada por um alinhamento de casas e de letreiros de tabernas a abanarem. Enquanto avançávamos, levei a mão à testa, embora já fosse tarde; mas, por milagre, não perdera o chapéu». In CW Gortner, O Segredo dos Tudor, 2011, tradução de Miguel Romeira, 20/20 Editora, Topseller, 2014, ISBN 978-989-862-643-1.

Cortesia de Topseller/20/20Editora/JDACT

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Tudor. O Segredo. CW Gortner. «Os papistas eram os católicos. Para eles, o chefe da igreja era o papa em Roma e não o nosso soberano. Dona Alice era católica; embora me tivesse educado na fé calvinista, como mandava a lei»

jdact

1553. Whitehall
«(…) A família adquirira estantes e estantes de tomos, sobretudo para alardearem a sua riqueza, já que os seus varões se mostravam mais orgulhosos das suas proezas nas caçadas do que de qualquer talento que pudessem ter para as letras. Quanto a mim, aprender tornou-se uma paixão. Naqueles tomos bafientos descobri um mundo sem limites, no qual podia ser quem quisesse. Contive um sorriso. Mestre Shelton também era instruído, no seu caso, isso era essencial para administrar as despesas da família. Mas ele fazia questão de dizer que nunca aspirara a mais do que lhe cabia nesta vida e que não toleraria tai presunção a ninguém. Na sua opinião, nenhum servidor, por mais empenhado que fosse, deveria aspirar a ser versado na filosofia humanista de Erasmo ou nos ensaios de Thomas More, quanto mais fluente no francês ou no 1atim. Se soubesse tudo o que o dinheiro que gastara na minha tutoria comprara naqueles últimos anos, de certeza que não ficaria satisfeito.
Em silêncio, chegámos ao alto da colina. Com a estrada a entrar por um vale despido de árvores, a aridez da paisagem chamou a minha atenção, habituado como estava à vegetação desregrada da região central da Inglaterra. Embora não nos tivéssemos afastado muito dessa zona, sentia-me como se tivesse entrado numa terra estrangeira. O fumo sujava o céu como dedadas. Avistei duas colinas gémeas e depois uma imponente muralha que se erguia em torno de uma desordenada extensão de casas, de torres de igreja, de propriedades à beira-rio e de infindáveis ruas com gelosias a todo o seu comprimento, com o largo leito do Tamisa a cortar pelo meio de todo aquele cenário. Ali está ela, anunciou mestre Shelton. A cidade de Londres. Em breve terás saudades da paz do campo, isto se algum assassino ou se a peste não te deitarem a mão antes disso.
Apenas conseguia olhar. Londres era tão densa e ameaçadora como eu a imaginara, com milhafres às voltas no céu, como se o próprio ar estivesse putrefacto. Mas, à medida que nos aproximávamos, vi, adjacentes àquela muralha serpenteante, pastos salpicados de animais, canteiros de ervas aromáticas, pomares e prósperas aldeolas. Parecia haver ainda muita vida rural em Londres. Chegámos a uma das sete portas da cidade. Fascinado, eu tentava reparar em tudo ao mesmo tempo, no grupo de mercadores demasiado bem vestidos para o carro de bois em que seguiam; no latoeiro que, a cantarolar, carregava uma canga na qual chocalhavam facas e partes de armaduras; ou nos incontáveis pedintes, aprendizes, indivíduos de ar formal, talhantes, curtidores e peregrinos. As vozes entrechocavam-se em discussão com os guardas postados na porta da cidade, que tinham travado o avanço de toda aquela gente. Quando mestre Shelton e eu nos juntámos à fila, ergui o olhar para a porta que se agigantava à nossa frente, com os seus imponentes torreões e as suas ameias, que mais pareciam presas enegrecidas pela fuligem. De súbito, fiquei petrificado; uma colecção de cabeças fervidas em piche e enfiadas em estacas fitava-nos com as suas órbitas vazias, um arrepiante festim para os corvos, que iam debicando a carne nauseabunda. Papistas..., murmurou mestre Shelton, parado ao meu lado. Sua Senhoria, o duque, ordenou que as suas cabeças fossem exibidas como aviso.
Os papistas eram os católicos. Para eles, o chefe da igreja era o papa em Roma e não o nosso soberano. Dona Alice era católica; embora me tivesse educado na fé calvinista, como mandava a lei, todas as noites eu via-a rezar com o seu rosário. Foi nesse instante que me dei conta de quão longe estava do único lar que alguma vez conhecera. Lá, ninguém reparava nos costumes dos outros. Ninguém se teria lembrado de fazer queixa às autoridades; isso só trazia chatices. Em Londres, porém, parecia que um homem podia perder a cabeça pela sua fé. Um guarda de ar desmazelado aproximou-se de nós num andar arrastado, limpando as mãos engorduradas à túnica. Ninguém pode entrar!, vociferou. Por ordem de Sua Senhoria, o duque, a partir de agora as portas da cidade estão fechadas! Ao reparar no brasão no manto de mestre Shelton, deteve-se. Estais ao serviço de Northumberland? Sou o administrador-mor da esposa de Sua Senhoria. Mestre Shelton tirou do alforge um rolo de documentos. Trago aqui salvo-condutos para mim e para o rapaz. Somos esperados na corte. Ah sim?, O guarda lançou-lhe um olhar malicioso. Bom, todo o desgraçado que aqui chega diz sempre que o esperam nalgum lado». In CW Gortner, O Segredo dos Tudor, 2011, tradução de Miguel Romeira, 20/20 Editora, Topseller, 2014, ISBN 978-989-862-643-1.

Cortesia de Topseller/20/20Editora/JDACT

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Tudor. O Segredo. CW Gortner. «Deves estar sempre preparado para acontecimentos importantes, Brendan Prescott, recomendava ela. Nunca sabemos quando vamos ser chamados a destacar-nos de entre os nossos»

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1553. Whitehall
«(…) Mestre Shelton queria que eu fosse o seu sucessor, depois que a velhice ou a doença exigissem a sua aposentação. Não era papel a que eu aspirasse em particular, sobrecarregado como estava com as cansativas obrigações domésticas para as quais lady Dudley não tinha tempo nem inclinação pessoal. Embora fosse um futuro bem melhor do que aquele a que alguém da minha posição podia almejar, achava preferível manter-me um ajudante de estábulos a tornar-me num lacaio privilegiado mas condenado a aguentar os caprichos dos Dudley. Aos cavalos, pelo menos, eu compreendia; já o duque e a sua mulher eram-me estranhos em todos os sentidos. Ainda assim, não devia mostrar-me ingrato. Inclinando a cabeça, murmurei: será uma honra se algum dia for tido como digno de um tal cargo. Um sorriso áspero, tão mais surpreendente por ser tão raro, iluminou a expressão de mestre Shelton. Não me digas... Era o que eu achava. Bom, nesse caso, vamos ter de fazer por isso, não é verdade?
Sorri-lhe de volta. Ser escudeiro de lorde Robert era já um desafio de peso, mesmo sem ter de me preocupar com a possibilidade de um futuro cargo de administrador. Embora não visse o terceiro filho mais velho do duque há anos, ele e eu éramos próximos em idade e tínhamos passado a infância juntos. Na verdade, Robert Dudley sempre fora o meu tormento. Já em pequeno, era o mais bonito e talentoso da prole dos Dudley, bem-sucedido em tudo aquilo a que se dedicasse, fosse o tiro ao arco, a música ou a dança. Alimentava também um orgulho desmedido na sua superioridade; era um tiranete que se deliciava a liderar os irmãos em alucinadas caças ao enjeitado. Por mais que tentasse esconder-me ou por mais ferozmente que eu me batesse ao ser descoberto, Robert conseguia sempre deitar-me a mão. Obedecendo-lhe, o seu numeroso bando de irmãos ia mergulhar-me nas águas sujas do fosso ou então deixava-me pendurado sobre o poço do pátio até os meus gritos se transformarem em choro e a minha querida dona Alice vir a correr salvar-me. Passava a maior parte do tempo a subir velozmente às árvores ou então a esconder-me. aterrorizado, pelos sótãos. Até que Robert foi chamado à corte para ser o pajem do jovem príncipe Eduardo. Depois que os seus irmãos foram também chamados a ocupar cargos semelhantes, descobri uma nova e imensamente bem-vinda liberdade da sua tirania.
Mal podia acreditar que estava agora a caminho para ir servir Robert, e por ordem da sua mãe, nada mais, nada menos. Mas claro que as famílias nobres não acolhiam os desafortunados como eu apenas por caridade; sempre soubera que iria chegar o dia em que seria chamado a pagar a minha dívida. A minha expressão deve ter traído os meus pensamentos, porque mestre Shelton aclarou a garganta e, algo desajeitadamente, disse: não te preocupes, agora, tu e Robert são dois homens; tem atenção aos modos e faz o que ele mandar e tudo te correrá bem, vais ver. Em mais uma rara demonstração de sensibilidade, estendeu o braço e afagou-me o ombro. Dona Alice orgulhar-se-ia de ti. Ela sempre achou que haverias de ser alguém. Senti um aperto no peito. Vi-a na minha mente, a apontar-me o dedo enquanto o seu bule de chá fervia na lareira, e eu ali sentado, a boca e as mãos peganhentas de compota acabada de fazer, olhando-a, embevecido. Deves estar sempre preparado para acontecimentos importantes, Brendan Prescott, recomendava ela. Nunca sabemos quando vamos ser chamados a destacar-nos de entre os nossos.
Desviei o olhar, fingindo estar a ajustar as rédeas. O silêncio alongou-se, interrompido apenas pelo bater compassado dos cascos na estrada de pedra coberta de lama seca. E então, mestre Shelton disse: espero que a tua libré te sirva. Não te fazia mal nenhum pores alguma carne nesses ossos, mas tens boa postura. Tens andado a praticar com o bordão, como eu te ensinei? Todos os dias, respondi, forçando-me a erguer o olhar. Mestre Shelton nem imaginava o que mais eu andara a praticar naqueles últimos anos. Fora dona Alice quem me ensinara a ler. O seu era um caso excepcional: uma filha de mercadores que recebera instrução mas que enfrentara dificuldades; aceitara um lugar ao serviço dos Dudley para, tal como gostava de dizer, conservar a alma e a carne juntas. Dizia-me sempre que o único limite para a nossa mente é aquele que nós mesmos lhe impomos. Após a sua morte, eu jurara prosseguir com os estudos em sua memória. Mostrava-me de tal maneira entusiástico na presença do monge de hálito nauseabundo contratado por mestre Shelton que, antes que se desse conta, já ele me estava a explicar as complexidades de Plutarco. Era frequente eu passar a noite acordado a ler livros que ia furtar à biblioteca dos Dudley». In CW Gortner, O Segredo dos Tudor, 2011, tradução de Miguel Romeira, 20/20 Editora, Topseller, 2014, ISBN 978-989-862-643-1.

Cortesia de Topseller/20/20Editora/JDACT

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Tudor. O Segredo. CW Gortner. «… era senhor de uma estatura impressionante e montava o seu garanhão com autoridade; o seu manto ostentava um brasão puído, um urso segurando um bordão, assinalando o seu estatuto de administrador da família Dudley»

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1553. Whitehall
«Como tudo o que é importante na vida, esta história começou com uma viagem, na estrada para Londres, mais precisamente; era a minha primeira excursão a essa cidade, a mais fascinante e sórdida de todas. Partimos antes da alvorada, dois homens a cavalo. Nunca fora além do Worcestershire, o que tornou ainda mais inesperada a chegada de mestre Shelton, trazendo a ordem para eu me apresentar na corte. Mal tendo tempo para juntar os meus poucos pertences e para me despedir da criadagem (incluindo a minha querida Annabel, que chorou como se o seu coração se fosse partir), vi-me montado a cavalo, a deixar para trás o castelo de Dudley, onde vivera toda a minha vida, sem saber quando ou se regressaria. O empolgamento e a apreensão que sentia deveriam ter chegado para me manter acordado. Ainda assim, depressa me deixei adormecer, embalado pela monotonia dos campos que atravessávamos e pelo andar vagaroso e confortável do Cinábrio, o meu ruão.
Acordei em sobressalto ao ouvir mestre Shelton dizer: Brendan, meu rapaz. Vamos, acorda. Estamos quase a chegar ao nosso destino. Endireitei-me na sela. Pestanejando para espantar o sono, ergui a mão para compor o chapéu, mas apenas senti os meus cabelos ruivos-claros, que eram impossíveis de pentear. Ao chegar para me levar de volta consigo, mestre Shelton franzira o sobrolho ao ver como eu os tinha compridos e resmungara que os ingleses não deviam usar o cabelo grande, como os franceses faziam. Tão-pouco ficaria satisfeito ao saber que eu perdera o chapéu. Oh, não... - Olhei para ele. Mestre Shelton fitou-me, impassível. Uma cicatriz franzida atravessava-lhe a face esquerda, maculando-lhe as feições duras. Não que fizesse diferença. Archie Shelton nunca fora um homem bonito. Ainda assim, era senhor de uma estatura impressionante e montava o seu garanhão com autoridade; o seu manto ostentava um brasão puído, um urso segurando um bordão, assinalando o seu estatuto de administrador da família Dudley. A qualquer outro, aquele seu olhar granítico teria inspirado ansiedade. Mas fazia oito anos que mestre Shelton fora recebido na família para supervisionar a minha educação, pelo que já me acostumara aos seus modos taciturnos.
Caiu-te há uma légua. Estendeu-me o chapéu. Desde os meus tempos nas guerras escocesas que não via ninguém dormir tão profundamente sentado no dorso de um cavalo. Dir-se-ia que já estiveste em Londres algumas cem vezes. Detectei um humor áspero naquela sua repreensão, o que confirmou a minha suspeita de que mestre Shelton se sentia secretamente satisfeito por esta mudança abrupta na minha vida, embora não fosse do seu feitio dar a sua opinião sobre o que quer que o duque ou lady Dudley ordenassem. Na corte, não vais poder andar a perder o chapéu, avisou. Tornando a pôr na cabeça o chapéu de tecido vermelho, olhei para o alto da colina, onde a estrada salpicada de sol desaparecia. Um escudeiro deve ter sempre atenção à sua aparência. Mestre Shelton olhou-me fixamente. Os meus senhores esperam muito dos seus criados. Confio que saberás comportar-te junto daqueles que estão acima de ti.
Claro. Endireitando os ombros, recitei, no meu tom mais obsequioso: … é aconselhável guardar silêncio sempre que possível e manter sempre o olhar em baixo quando nos dirigem a palavra; quando na dúvida sobre como devemos dirigir-nos a alguém, bastará dizer, simplesmente, meu senhor ou minha senhora. Fiz uma pausa. Vedes! Não me esqueci. Mestre Shelton resfolegou. Estou a ver que não. Vais ser o escudeiro de lorde Robert, o filho de sua senhoria, o duque, e não estou disposto a ver-te desbaratares uma oportunidade assim. Se te distinguires nessa função, quem sabe? Poderás chegar a camareiro ou talvez a administrador. Os Dudley são conhecidos por recompensarem aqueles que os sabem servir. Devia ter desconfiado, pensei mal lhe ouvi estas palavras.
Ao instalar-se em permanência na corte com a sua família, lady Dudley passara a enviar mestre Shelton duas vezes por ano ao castelo. Ao visitar-nos, ele fazia por deixar bem claro que viera ver que tal andavam as coisas, mas, se anteriormente os meus deveres se cingiam aos estábulos, a partir dessa altura mestre Shelton tratou de me confiar outras tarefas domésticas e começou a pagar-me uma modesta soma. Inclusivamente, arranjou-me um tutor, um monge ali da zona que passou a viver no castelo, um dos milhares que, desde que o velho rei Henrique acabara com os mosteiros, calcorreavam a Inglaterra vivendo de súplicas e de combinações. Para a criadagem do castelo de Dudley, o administrador da sua senhora era uma aberração, um homem frio e solitário que não casara nem tivera filhos; mas, comigo, ele sempre se mostrara inesperadamente amável. Sabia agora porquê». In CW Gortner, O Segredo dos Tudor, 2011, tradução de Miguel Romeira, 20/20 Editora, Topseller, 2014, ISBN 978-989-862-643-1.

Cortesia de Topseller/20/20Editora/JDACT

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Quando o Cuco Chama. Robert Galbraith. «Strike absorveu o impacto, ouviu o grito agudo e reagiu instintivamente: estendendo o braço comprido, agarrou num punhado de tecido e de carne; um segundo guincho de dor ecoou pelas paredes de pedra…»



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«Porque nasceste quando a neve tombava?
Devias ter vindo quando o cuco chamava.
Ou quando as uvas estão verdes nas vinhas
ou pelo menos quando as lestas andorinhas
voam para escapar
ao verão a acabar».
[…]
In Christina Rossetti, A Dirge

«(…) Robin ficou imóvel, com a boca ligeiramente aberta, sentindo um encantamento que ninguém que a conhecesse poderia ter compreendido. Nunca tinha confidenciado a um só ser humano que fosse (nem mesmo a Matthew) a sua ambição secreta e infantil de toda a vida. E que isso fosse acontecer hoje, logo hoje! Parecia um piscar de olhos de Deus (e também isso, de algum modo, ela relacionava com a magia do dia; com Matthew e o anel; embora, devidamente considerados, não houvesse qualquer relação). Saboreando o momento, aproximou-se lentamente da porta com as letras gravadas. Estendeu a mão esquerda (com a safira agora sem brilho, a esta luz fraca) na direcção do puxador da porta; mas antes de ter tempo de lhe tocar também a porta envidraçada se abriu de rompante. Desta vez, Robin só não escapou por um triz; cem quilos de homem todo enxovalhado colidiram com ela; Robin perdeu o equilíbrio e foi catapultada para trás, com a mala de mão a voar, os braços a adejar como pás de moinho, na direcção do vazio para lá da escadaria mortífera.
Strike absorveu o impacto, ouviu o grito agudo e reagiu instintivamente: estendendo o braço comprido, agarrou num punhado de tecido e de carne; um segundo guincho de dor ecoou pelas paredes de pedra, e a seguir, puxando e esbracejando, ele conseguiu voltar a pôr a rapariga em terreno firme. Os guinchos dela ainda ecoavam pelas paredes e Strike apercebeu-se de que ele próprio tinha berrado Jesus Cristo! A rapariga estava contorcida com a dor contra a porta do escritório, a gemer. Pela maneira corno estava corcovada, virada de lado, com uma das mãos enfiada debaixo da lapela do casaco, Strike deduziu que a salvara agarrando-lhe uma parte substancial do seio esquerdo. Uma cortina espessa e ondulada de cabelo muito louro escondia a maior parte do rosto corado da rapariga, mas Strike via lágrimas de dor a pingarem do olho que não estava coberto pelo cabelo. … da-se... Desculpe! A sua voz alta reverberou nas escadas. Eu não a vi... não esperava que estivesse alguém aqui... Por baixo dos pés deles, o estranho e solitário designer gráfico que ocupava o escritório do andar de baixo berrou: o que é que está a acontecer aí em cima!, e um segundo depois uma queixa abafada vinda do andar de cima indicou que o gerente do bar do rés-do-chão do prédio, que vivia num apartamento no sótão por cima do escritório de Strike, também tinha sido incomodado, talvez até acordado, pelo ruído. Strike empurrou a porta com a ponta dos dedos, para não ter qualquer contacto acidental com o corpo dela enquanto ela estivesse encolhida contra a porta e mandou-a entrar para o escritório. Está tudo bem?, perguntou o designer gráfico num tom quezilento.
Strike bateu com a porta do escritório atrás de si. Eu estou bem, mentiu Robin numa voz trémula, ainda corcovada, com a mão no peito, e de costas para ele. Ao fim de um ou dois segundos, ela endireitou-se e voltou-se para ele, com o rosto corado e os olhos ainda marejados de lágrimas. O seu atacante acidental era gigantesco, a sua altura e o facto de ser peludo, combinados com um princípio de barriga, davam-lhe o aspecto de um urso-pardo. Tinha um dos olhos inchado e pisado, com um corte na pele logo abaixo da sobrancelha. Sangue seco depositava-se em arranhões com rebordos brancos na face esquerda e no lado direito do seu pescoço grosso, revelado pelo colarinho aberto da camisa engelhada. É o se... senhor Strike?, sou. ... eu sou a temporária. A quê? A secretária temporária. Da Soluções Temporárias? O nome da agência não varreu o ar de incredulidade do rosto dele. Ficaram a olhar um para o outro, nervosos e antagonizados». In Robert Galbraith, Quando o Cuco Chama, tradução de Ana Saldanha, Maria Segurado e Rita Figueiredo, Editorial Presença, 2013, ISBN 978-972-235-153-9.

Cortesia da EPresença/JDACT

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O Cuco no 31. Quando o Cuco Chama. Robert Galbraith. «Porque nasceste quando a neve tombava? Devias ter vindo quando o cuco chamava. Ou quando as uvas estão verdes nas vinhas ou pelo menos quando as lestas andorinhas voam para escapar ao verão a acabar»

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«Porque nasceste quando a neve tombava?
Devias ter vindo quando o cuco chamava.
Ou quando as uvas estão verdes nas vinhas
ou pelo menos quando as lestas andorinhas
voam para escapar
ao verão a acabar».
[…]
In Christina Rossetti, A Dirge

«(…) As barreiras de metal e os tapumes de plástico azul que rodeavam as obras na estrada tornavam muito mais difícil ver para onde devia dirigir-se, porque ocultavam metade dos pontos de referência desenhados no papel que tinha na mão. Atravessou a rua esventrada em frente a um prédio alto de escritórios, identificado como Centre Point no seu mapa, e que parecia um waffle gigantesco de cimento, com a sua grelha densa de janelas quadradas uniformes, e encaminhou-se mais ou menos na direcção de Denmark Street. Encontrou-a quase acidentalmente, seguindo por um beco estreito chamado Denmark Place e saindo para uma rua curta cheia de fachadas de lojas coloridas: montras pejadas de guitarras, de teclados e de todo o tipo de produtos musicais efémeros. Umas barreiras vermelhas e brancas rodeavam outro buraco aberto na estrada, e os trabalhadores com coletes fluorescentes saudaram Robin com assobios logo de manhã, que ela fez de conta que não ouviu. Consultou o seu relógio. Como tinha dado a margem de tempo usual para o caso de se perder, tinha chegado um quarto de hora adiantada. A porta do escritório que ela procurava, pintada de preto e sem quaisquer características especiais, ficava à esquerda do 12 Bar Café; o nome do ocupante do escritório estava escrito numa tira de papel pautado colado com fita-cola ao lado da campainha do segundo andar. Num dia normal, sem o anel novinho em folha a brilhar-lhe no dedo, talvez ela tivesse achado aquele pormenor desanimador; hoje, no entanto, o papel sujo e a tinta da porta a descascar eram, tal como os vagabundos da noite anterior, meros pormenores pitorescos no pano de fundo do seu fantástico romance. Olhou de novo para o relógio (a safira cintilou e o seu coração deu um salto; veria aquela pedra a brilhar para a resto da sua vida) e depois, num acesso de euforia, decidiu subir antes da hora e apresentar-se entusiasmada a um trabalho que não tinha a mínima importância.
Estava a estender a mão para a campainha quando a porta preta se abriu de rompante e saiu uma mulher de roldão para a rua. Num estranho segundo estático, as duas olharam-se nos olhos, ambas a prepararem-se para aguentar uma colisão. Os sentidos de Robin estavam especialmente alerta nesta manhã encantada; a visão daquele rosto por uma fracção de segundo causou-lhe uma tal impressão que, pensou ela, momentos depois de conseguirem evitar-se uma à outra por uma unha negra e de a mulher de cabelo escuro se apressar a descer a rua) virar a esquina e desaparecer da vista, poderia desenhá-la perfeitamente de memória. Não foi só a extraordinária beleza do seu rosto que se lhe gravou na memória, mas também a sua expressão: lívida, mas estranhamente agitada. Robin segurou na porta antes de ela se fechar sobre as escadas acanhadas. Uma escadaria antiquada de metal subia em espiral à volta de um elevador de gaiola igualmente antiquado. Concentrando-se em evitar que os seus tacões altos ficassem presos nos degraus de metal, subiu até ao primeiro patamar, passando por uma porta onde estava pendurado um cartaz laminado e emoldurado a dizer Crawdy Graphics, e continuou a subir. Foi só quando chegou junto à porta envidraçada no andar acima que Robin se apercebeu, pela primeira vez, do tipo de negócio para onde a tinham enviado como secretária. Ninguém na agência lhe tinha dito. O nome no papel ao lado da campainha lá em baixo estava gravado no painel de vidro: C. B. Strike, e por baixo as palavras Detective Privado». In Robert Galbraith, Quando o Cuco Chama, tradução de Ana Saldanha, Maria Segurado e Rita Figueiredo, Editorial Presença, 2013, ISBN 978-972-235-153-9.

Cortesia da EPresença/JDACT

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Quando o Cuco Chama. Robert Galbraith. «Porque morreste quando os cordeiros nasciam? Devias ter morrido quando as maçãs caíam, quando o gafanhoto corre perigo, e são restolho empapado os campos de trigo. E todos os ventos suspiram…»

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«Porque nasceste quando a neve tombava?
Devias ter vindo quando o cuco chamava.
Ou quando as uvas estão verdes nas vinhas
ou pelo menos quando as lestas andorinhas
voam para escapar
ao verão a acabar.

Porque morreste quando os cordeiros nasciam?
Devias ter morrido quando as maçãs caíam,
quando o gafanhoto corre perigo,
e são restolho empapado os campos de trigo.
E todos os ventos suspiram
pelas doces coisas que agonizam».
In Christina Rossetti, A Dirge

«Embora os vinte e cinco anos da vida de Robin Ellacott já tivessem tido os seus momentos de drama e de acontecimentos especiais, nunca antes ela tinha acordado com a certeza de que viria a recordar o dia que aí vinha para toda a vida. Pouco depois da meia-noite, o seu namorado de longa data, Matthew, tinha-a pedido em casamento por baixo da estátua de Eros, no meio de Piccadilly Circus. No alívio estonteado que se seguiu à aceitação dela, ele confessou que tinha planeado fazer-lhe o pedido no restaurante tailandês onde tinham jantado, mas que não tinha contado com o casal silencioso na mesa ao lado, que passara o tempo a escutar a conversa deles. Por isso, ele sugeriu um passeio pelas ruas no escuro, apesar dos protestos de Robin de que ambos precisavam de se levantar cedo, e finalmente a inspiração apoderou-se dele e conduziu-a, perplexa, aos degraus da estátua. Aí, atirando a discrição ao vento gélido (de uma maneira que não era nada típica dele), pediu-a em casamento, de joelho no chão, em frente a três sem-abrigo encolhidos nos degraus a partilhar o que parecia ser uma garrafa de álcool etílico.
Tinha sido, na opinião de Robin, o pedido de casamento mais perfeito de toda a história do matrimónio. Ele até tinha um anel no bolso, que ela usava agora; tinha uma safira e dois diamantes, servia-lhe na perfeição e durante todo o caminho até ao centro foi a fitá-lo na mão pousada no regaço. Ela e Matthew tinham agora uma história para contar, uma história de família engraçada, do tipo que se contava aos filhos, na qual os planos dele (ela adorava que ele tivesse feito planos) saíam furados e se transformavam em algo espontâneo. Ela adorava os vagabundos e a lua, e Matthew, em pânico e nervoso, de joelho no chão; adorava Eros e a velha e suja Piccadilly e o táxi preto que tinham apanhado para casa, para Clapham. De facto, não estava longe de adorar toda a cidade de Londres, que até àquela altura não a tinha ainda convencido, ao fim de um mês a viver lá. Até os passageiros macilentos e mal-encarados, apertados à sua volta na carruagem do metro, estavam banhados pela luz radiante do anel; e quando saiu para a luz do dia gélido de Março na estação de metro de Tottenham Court Road, acariciou a parte de baixo do anel de platina com o polegar e sentiu uma explosão de felicidade ao pensar que talvez comprasse umas revistas de noivas à hora do almoço.
Olhares masculinos demoravam-se nela enquanto abria caminho por entre as obras que estavam a decorrer no topo de Oxford Street, consultando um pedaço de papel que segurava na mão direita. Robin era, por quaisquer padrões, uma rapariga bonita; alta e bem feita, com cabelo louro arruivado que ondulava com as suas passadas rápidas, e com o ar frio a dar cor às suas faces pálidas. Este era o primeiro dia de uma colocação como secretária por uma semana. Robin fazia trabalhos temporários desde que tinha vindo viver com Matthew em Londres, embora não por muito mais tempo; já tinha aquilo a que chamava entrevistas a sério marcadas. Muitas vezes, o maior desafio destes trabalhos ocasionais pouco inspiradores era encontrar os escritórios. Londres, depois da pequena cidade no condado de York que ela deixara, parecia vasta, complexa e impenetrável. Matthew tinha-lhe dito para não andar pelas ruas com o nariz enfiado no roteiro da cidade, porque a faria parecer uma turista e a tornaria mais vulnerável; por isso, na maior parte das vezes ela guiava-se por mapas mal desenhados que alguém na agência de trabalho temporário lhe fazia. Não estava convencida de que essa atitude lhe desse o ar de uma londrina de gema». In Robert Galbraith, Quando o Cuco Chama, tradução de Ana Saldanha, Maria Segurado e Rita Figueiredo, Editorial Presença, 2013, ISBN 978-972-235-153-9.

Cortesia da EPresença/JDACT