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sábado, 2 de setembro de 2023

Largada das Naus. António Borges Coelho. «Como comarca, o Alentejo vinha muito à frente: 1700 besteiros contra 1179 da Estremadura onde se situavam três dos centros urbanos mais populosos»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

Principais cidades e vilas

«Os besteiros provinham da gente dos ofícios mecânicos, sapateiros, ferreiros, alfaiates, que maioritariamente laboravam nos centros urbanos. Assim sendo, o rol dos besteiros de 1421, publicado nas Ordenações Afonsinas, permite assinalar no mapa os principais povoados, o mesmo é dizer. permite-nos medir a força do povo miúdo, meão e melhor, isto é dos burgueses ou homens dos burgos. O rol tem servido também para calcular o número de portugueses. Seriam um milhão ou mais.

Apuraram-se 4906 besteiros, assim distribuídos: Alentejo 1700, Estremadura 1179,Beira 1077, Entre Douro e Minho 550, Trás-os-Montes 400. Comparando estes números com os 1000 besteiros ordenados pelas Cortes de Guadalajara de 1390 ou os 8000 do reino de França, infere-se que Portugal não descurava os perigos que vinham de Castela nem os riscos que vinham da política do Mar. As preocupações com a segurança levaram João I a criar, em 1392, um corpo de elite, os besteiros de cavalo.

Os números evidenciam o povoamento disperso característico do Norte, em particular da região de Entre Douro e Minho, e o povoamento agrupado do Sul. Indicam também que os lugares mais povoados se situavam na Estremadura, no Alentejo e no Algarve.

Por ordem decrescente e até 30 besteiros, as localidades ordenavam-se do seguinte modo: Lisboa 300, Évora 100, Coimbra 100, Santarém 100, Guimarães 100. Eram os principais centros urbanos do reino: um em Entre Douro e Minho, outro no Alentejo e três na Estremadura. mas Lisboa vinha muito à frente.

Num segundo patamar, ficavam Elvas 80, Beja 80, Setúbal 65, Torres Vedras 62, Almada 60, Braga 50, Guarda,50. O Porto, burgo por excelência, vivia do comércio marítimo, da pesca e da construção naval, mas só participava com 40 besteiros, ao lado de Olivença 40, Estremoz 40,Leiria 40, Tomar 40, Mértola 40.

No último patamar ficavam Valelhas 39, Faria e Rates 33, Pena Maior 32, Alcácer 30. Silves 30, Faro 30, Tavira 30, Serpa 30, Portalegre 30, Avis 30, Vila Viçosa 30, Monsaraz 34, Montemor-o-Novo 30, Abrantes e Punhete 30, Montemor-o-Velho 30, Ponte de Lima 30, Vila Real 30, Terra de Chaves 30, Bragança 30, Pinhel 30, Covilhã 30, Viseu 30. Lafões 30, Castelo Branco 30.

Como comarca, o Alentejo vinha muito à frente: 1700 besteiros contra 1179 da Estremadura onde se situavam três dos centros urbanos mais populosos. Nalgumas províncias, as cidades e vilas eram ilhas num mar de ruralidade, dominado pela fidalguia e os senhores eclesiásticos.

Os campos

A massa da população dedicava-se à agricultura e à criação de gado. Havia grandes diferenças entre o Norte, o Centro e o Sul. Nas Cortes de Lisboa de 1427, dizia-se que em Entre Douro e Minho e na Beira não haveria cavões e jornaleiros por dinheiro. Tal não significava que não existissem, desde há muito, cabaneiros, homens que viviam do trabalho braçal, em boa parte pago em géneros, e que não tinham mais que uma cabana. Significava que aí era predominante a economia assente em casais, adubados com o suor familiar e exauridos pela renda feudal». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

 Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, António Borges Coelho, Ceuta, Cultura e Conhecimento, História, Descobrimentos,

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

No 31. Largada das Naus. António Borges Coelho. «Uma carta régia de 1426 determinava que qualquer pessoa de Lisboa ou de outro lugar que compre pão na Beira, em Entre Douro e Minho ou em Trás-os-Montes, uma vez que não seja pão da cidade do Porto ou do seu termo…»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

Avanço do mundo mercantil

«João I estabeleceu o imposto da sisa, tornando-o obrigatório para o comprador e o vendedor, fosse fidalgo ou clérigo. Democratizava assim o imposto e a vida pública. Fernão Lopes contabiliza o rendimento do rei em oitenta e dois contos de reais. Os direitos do reino contribuíam com vinte e um milhões, ao passo que o rendimento das sisas subia a sessenta milhões de reais, ou seja, a três quartos. O mundo mercantil ganhava um papel crescente.

Uma companhia de mercadores, formada pelo italiano Persifal e por Rui Garcia Lisboa e Martim Afonso Dinis e Lourenço de Sousa, do Porto, emprestaram ao rei 25 000 coroas de ouro para o casamento da sua filha Beatriz. O reembolso atingirá a soma de 11 535 000 libras. Em 1432 o dote de Isabel de Portugal, duquesa de Borgonha, subirá para 154 000 coroas de ouro, pagas por Pedro Eanes, feitor do rei e mercador português na Flandres.

Vasco Anes, tesoureiro-mor, recebeu do rei em usofruto pelo menos quatro naus e duas barcas. Podia fretar, pôr mestres, escrivães. mercadores, marinheiros, receber o dinheiro dos fretes, os ganhos e empregá-los em mercadorias, tomar contas aos mestres e dar-lhes quitações, sem que lhe peçam contas. Grande depositante na Comuna de Florença, o rei João tornava-se grande armador e encarregava do negócio o seu feitor Vasco Anes. O mundo novo ganhava outro fôlego.

Uma carta régia de 1426 determinava que qualquer pessoa de Lisboa ou de outro lugar que compre pão na Beira, em Entre Douro e Minho ou em Trás-os-Montes, uma vez que não seja pão da cidade do Porto ou do seu termo, pode carregá-lo do Porto para Lisboa, porquanto nós temos ordenado que todos os mantimentos se corram de umas partes para outras por todos os nossos reinos.

A estabilidade pública dependia do preço e da abundância do pão. Na década de setenta do século XIV, os preços do alqueire de trigo aumentaram e continuaram em ascensão até 1384. Baixaram, com algumas excepções. até ao final do século XV. A fome consumiu os lisboetas durante o cerco castelhano de 1384. Houve escassez de pão em 1391 e em 1394. Em 1399, a vereação de Lisboa contratou com os mercadores estrangeiros a troca de sal por pão.

Nos anos de 1401 e 1411 muitos castelhanos atravessaram a fronteira em busca de alimento. Nuno Álvares Pereira socorreu-os com o trigo dos seus celeiros. No ano de 1418 perderam-se as colheitas. E em 1422 e 1427 Lisboa e o seu termo recolheram o ouro necessário para mandar vir trigo de fora do reino». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

 Cortesia de ECaminho/JDACT

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No 31. Largada das Naus. António Borges Coelho. «… o rei considera errada a obrigatoriedade de servir nas galés e, de acordo com o seu conselho, liberta todos os marítimos dessa servidão»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

«Os actos mais importantes da governação foram decididos mediante a audição do verdadeiro parlamento nacional: pedidos para a guerra, leis sobre os salários e sobre política económica, queixas dos fidalgos, do clero e dos concelhos, estabelecimento das casas dos infantes, abusos dos funcionários régios, cláusulas do tratado de paz.

Nas Cortes de Lisboa de 1389, João I estabeleceu um pacto com os concelhos: sempre que se deslocassem para guerra de fronteira, as tropas dos municípios receberiam soldo como os fidalgos.

Nas Cortes de Évora de 1408, as três ordens do reino concordaram em contribuir para montar as casas dos infantes Duarte, Pedro e Henrique, mediante o terço do rendimento das sisas, mas a recolha do dinheiro e a compra dos bens ficavam nas mãos dos homens bons, escolhidos nessas Cortes pelos concelhos. O próprio rei confirma a força deste parlamento quando responde à crítica dos fidalgos: não pode deixar de descontar o rendimento das terras da coroa no pagamento das suas quantias, porque assim. em suas Cortes fora ordenado.

Em 1386. o rei João revogou as medidas que proibiam a exportação de mercadorias sem o pagamento da dízima em prata e sem prévio juramento de que trariam em retorno mercadorias de valor igual. Esta decisão incrementava a produção destinada ao mercado interno e à exportação.

O comércio de mantimentos e de armas e a defesa de Ceuta levaram a um incremento da construção naval e da marinharia. uma armada portuguesa auxiliou os ingleses de Henrique V na batalha de Azincourt. No cerco de Ceuta de 1418-1419, a armada de Granada não se atreveu a defrontar a frota portuguesa de socorro. Antes, nos tempos do monarca Fernando, os galiotes eram arrebanhados à força pelos campos e levados em baraços para as galés. Mesmo agora, segundo uma ordenação, datada de 1420, os homens válidos fugiam e desamparavam a terra. Uns pagavam para serem substituídos, outros perdiam os bens e fugiam.

A armação duma galé provocava sempre alvoroço. Tendo em mente estes factos, o rei considera errada a obrigatoriedade de servir nas galés e, de acordo com o seu conselho, liberta todos os marítimos dessa servidão. Os galiotes passarão a ser contratados mediante o pagamento de soldo, alguns metros de pano e a partilha nos despojos». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

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segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Largada das Naus. António Borges Coelho. «Nunca os concelhos intervieram tão activa e decisivamente na política nacional. Nos cinquenta anos em que João I governou, as Cortes reuniram-se vinte e oito vezes, mais vezes do que em todos os reinados dos séculos XIV e XV»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

«A convulsão social, as guerras, a fome, a desvalorização brutal da moeda não ofuscaram a boa memória do rei João. Os sucessos obtidos no campo político e militar refundaram a independência do reino e criaram um capital mítico que rendeu até aos nossos dias.

Nos anos da revolução, as oportunidades de ascensão social permitiram que um escudeiro de quatro rocins, embora filho de mestre e neto de arcebispo, pudesse criar, quase do nada, o maior senhorio de Portugal. Um tanoeiro alçou-se a alcaide da cidade de Lisboa. Um cavaleiro mercador e corsário. filho e neto de mercadores, tornou-se rico-homem, capitão-mor do mar, alcaide-mor de Lisboa, conde de Abranches. na Normandia. e cavaleiro da Ordem da Jarreteira.

Lançaram-se dez pedidos gerais para as despesas da guerra; gastaram-se 280 000 dobras na conquista de Ceuta, 500 000 em casamentos, viagens, expedições às Canárias. descerco de Ceuta; armaram-se frotas; iniciaram-se obras monumentais como a do mosteiro da Batalha; a moeda desvalorizou, segundo Costa Lobo, 1109 vezes. A Coroa e a economia resistiram. Alguns reais de prata, cunhados nos dias da revolução, foram pendurados ao pescoço como talismã.

As queixas principais vieram dos fidalgos. Os senhorios recebiam a renda em dinheiro e deixavam uma parte maior dos excedentes nas mãos dos produtores. Com os excedentes animavam-se as feiras e o comércio. Por outro lado, os concelhos das cidades e das vilas que, de armas na mão e com o dinheiro da sua bolsa, sustentaram a parte maior da guerra, não se esqueceram de pugnar pela libertação dos tributos feudais que oneravam a produção e o desenvolvimento de uma economia progressivamente mercantil.

Assinado o tratado de paz em 1411, o Conselho Régio decidiu em ordenança um efectivo militar de 3200 lanças, assim distribuídas: Capitães 500, Escudeiros de uma lança 2360, Ordem de Cristo e Ordem de Santiago 100 cada, Ordem de Avis e do Hospital 80. Os escudeiros de uma lança subiam a mais de dois terços dos efectivos. O capitão e ex-juiz de Lisboa Antão Vasques comandara mais de 70 lanças, algumas de fidalgos de linhagem. Vemos bem de que lado social estava a força.

As Cortes

Nunca os concelhos intervieram tão activa e decisivamente na política nacional. Nos cinquenta anos em que João I governou, as Cortes reuniram-se vinte e oito vezes, mais vezes do que em todos os reinados dos séculos XIV e XV. Realizaram-se em dez cidades e vilas: à cabeça, Lisboa, Coimbra, Santarém, mas também em Viseu, Braga, Guimarães, Montemor-o-Novo e Estremoz». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

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Largada das Naus. António Borges Coelho. «Esse projecto nascia da necessidade de firmar um pé fora, no esforço de segurar a independência política e de acalmar o medo de Castela. E da necessidade de dar emprego aos jovens candidatos a fidalgos»

 

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«A palavra mercador, corrente na época, tinha contra si o episódio evangélico da flagelação dos vendilhões do templo e a condenação jurídica e moral dos empréstimos a juros por parte do Direito Canónico. Por isso, a palavra e a actividade do mercador se escondem por trás de outros vocábulos como homem bom, homem honrado, cidadão e com crescente frequência por trás de criado d’el-rei, escudeiro, cavaleiro e mesmo cavaleiro fidalgo.

Toda a sociedade portuguesa participou, como dissemos, e foi marcada pelo movimento da expansão marítima. Mas, socialmente, os grupos determinantes têm origem urbana, honrados ou náo.

São os que constroem barcos e navegam no Mar Oceano, os que aumentam em caudal as rendas do rei e pugnam pelo fortalecimento da Coroa, os que empregam e acumulam crescentes cabedais, mas que seriam excluídos da direcção nominal suprema.

Do ponto de vista das relações exteriores, a posse de Ceuta implicava a manutenção de um corpo militar permanente, calculado em cerca de três mil homens. Portugal era um cruzado militante. O papa abençoava o seu exemplo e esforço. Esta bênção aliviava a i pressão que pudesse ser exercida por príncipes cristãos, designadamente por Castela, e propagandeava os feitos e o poder militar do eino de Portugal.

A conquista de Ceuta envolveu também, desde logo, um projecto mais largo, o de criar um Portugal Além-Mar em África, ao menos o domínio de outras praças marítimas e ainda o assentamento nas ilhas descobertas e a descobrir. Esse projecto nascia da necessidade de firmar um pé fora, no esforço de segurar a independência política e de acalmar o medo de Castela. E da necessidade de dar emprego aos jovens candidatos a fidalgos.

Vale a pena enumerar a fardagem dos títulos que ostentava o rei de Castela, pela graça de Deus, rei de Castela, de Leão, de Toledo, da Galiza, de Sevilha, de Córdova, de Múrcia, de Jaen, do Algarve, de Algeciras e senhor de Biscaia e de Molina. Pelo seu lado. em 1410, o rei de Aragão estendia o seu domínio às ilhas Baleares, à Sardenha, à Sicília. João I era tão só rei de Portugal e do Algarve, a que juntava agora o título de senhor de Ceuta.

Com os seus navios e corsários, Ceuta controlou nos séculos XV e XVI a navegação que velejava pelo Estreito de Gibraltar. Tornou-se escola de milícia e modelo de arquitectura militar. Nos séculos XVI e XVII, responderá ao corso que flagelava as armadas portuguesas e espanholas que regressavam do Oriente, do Brasil, da costa africana e das Américas». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

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segunda-feira, 31 de outubro de 2022

No 31. Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Andalus. António Borges Coelho. «Os grupos berberes que entraram em Espanha na época da conquista eram originários do norte de Marrocos e da Argélia ocidental e central…»

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A Civilização Islâmica e o Gharb al-Ândalus

A Formação da Sociedade de al-Andaluz

«(…) Tenho tribo mais numerosa que a tua. Esta é a tua glória e a glória da tua tribo, exclamava Abu al-Katar al-Sumail, chefe dos cáicidas, enquanto degolava cálbidas na igreja onde se iria edificar a mesquita maior. Artobás e os seus filhos mantiveram-se como cristãos mas tiveram que repartir largamente as suas terras. Ao contrário, sua sobrinha Sara a Goda constitui o exemplo da introdução das mulheres peninsulares na família agnatícia e poligâmica dos conquistadores. Os grupos tribais ou clânicos árabe-berberes, agnatícios e endogâmicos, mantiveram-se pelo menos até aos começos da época califal enquanto as grandes famílias peninsulares se esbatiam entre os séculos VIII e IX. A assimilação dos hispanos à cultura árabe-berbere não ocorre apenas no campo religioso e linguístico mas também no campo social e político.

Os grupos berberes que entraram em Espanha na época da conquista eram originários do norte de Marrocos e da Argélia ocidental e central mas alguns contingentes provinham das grandes tribos nómadas de origem tripolitana como os Nafza e os Hawwara. Os escritores muçulmanos do século IX consideravam estas tribos tunisinas, na sua estrutura social, antiga e profundamente arabizadas. Mas nesta sociedade islâmica, aberta ao comércio mas dominada pelo poder tribal, grassava a contradição cidade/tribo ou usando as palavras do poeta santareno Ibn Sara lavrava a antipatia entre os beduínos e os habitantes das cidades. Nesta contradição, as cidades levavam a melhor destribalizando a tal ponto a sociedade que, numa carta ao califa Yusuf ibn Tasfin, Almutamide escreveu: as nossas genealogias alteraram-se…, forma-mos povos e não tribos. As invasões almorávidas e almóadas trouxeram novo alento aos clãs em território peninsular. Mas enquanto no Magrebe, viviam no deserto ou nas montanhas mesmo à porta de casa, para chegarem ao Andaluz, as tribos tinham de atravessar o mar.

A partir do século X, quando Abederramão III estendeu o seu domínio ao norte de Marrocos, incrementou-se a ligação entre o Andaluz e o Magrebe. Nos séculos XI e XII, as dinastias africanas dos almorávidas e dos almóadas firmaram as ligações entre as duas margens. Médicos, literatos, filósofos andaluzes caminham para a corte dos califas em Marraquexe. Nos arredores, em Agmat, morreu cativo o rei poeta Almutamide e mais tarde a tríade dos grandes filósofos do Andaluz, Avempace, Ibn Tufayl e Averróis. Mas este último, na sua Exposição da República de Platão lembra que nos diferentes povos há indivíduos mais aptos para o saber do que outros. E os povos com mais provas dadas eram os gregos e, nos países islâmicos, primeiramente o Andaluz, e também a Síria, o Iraque e o Egipto, esquecendo-se de sugerir o Magrebe. As ligações entre as duas margens levavam também a situações que se expressam no poema do eborense Isa ibn al-Wakil:

Um exilado na terra do Magrebe

Tem o coração dividido

Entre duas afeições:

Salé tomou uma parte

Évora a outra.

Vejamos um pouco mais de perto o ritmo de islamização no Andaluz. O episódio já citado da luta entre cáicidas e cálbidas, o surto dos muladis que desde a primeira hora se integraram como clientes nos poderes tribais e a revolta do arrabalde de Córdova sugerem que a religião dos vencedores ganhara adeptos, desde os primeiros anos, não só em Córdova como nos habitantes das outras cidades. Ibn Mozain afirma que, no ocidente, com excepção de Santarém e Coimbra, as terras foram conquistadas à viva força e distribuídas entre os soldados, depois de deduzido o quinto para o tesouro pio. No sul de Portugal, logo no primeiro meio século, começa a processar-se a arabização e islamização do território, levada a cabo pelos árabes iemenitas Yahsubi que, sob a direcção do chefe de clã Abu l-Sabbah al-Yahsubi, se estabeleceram em Beja e no Algarve». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Andalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

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domingo, 30 de outubro de 2022

Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Andalus. António Borges Coelho. «Nos primeiros anos, durante as guerras tribais, o chefe dos sírios Abu al-Katar al-Sumail pediu auxílio à gente do mercado de Córdova…»

 

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A Civilização Islâmica e o Gharb al-Ândalus

A Formação da Sociedade de al-Andaluz

«(…)  Os bárbaros que invadiram a Península no século V não seriam mais numerosos. Por outro lado, os afluxos berberes e também árabes continuaram ao longo dos quinhentos anos. A vinda de gente do Oriente é sensível no tempo dos emires, em particular de Abderramão I e II. As emigrações e colonizações berberes forneceram mercenários a Abderramão I e às tropas de Almançor Abu Amir e incorporaram com milhares de membros as invasões e colonizações berberes no tempo das dinastias almorávida e almóada.

Segundo o Código Visigótico, quase todos os caminhos levavam à servidão: o nascimento, o casamento com serva, o cativeiro, o consentimento voluntário, o abuso da força, as sanções penais por rapto, adultério, estupro, insolubilidade, abandono da mulher casando com outra, consultas de adivinhos, falsificação de moeda, etc. Por outro lado, a feroz perseguição movida pelo poder eclesial-militar visigótico aos judeus, há muito instalados como mercadores em todo o Mediterrâneo, forneceria, logo na primeira hora, aliados preciosos aos conquistadores que lhes entregaram a guarda de algumas cidades.

As decadentes cidades hispano-romano-godas opuseram fraca resistência. E após a conquista e durante as guerras tribais e as guerras entre baladis e os sírios de Baly, não se sublevaram devido não só à fraqueza dos poderes derrotados como à conversão de comerciantes, alguns senhores e principalmente servos citadinos à nova religião que lhes proporcionava a liberdade pessoal. E assim os muladis ou cristãos muçulmanizados e clientes dos notáveis das tribos invasoras são visíveis desde os primeiros momentos. Nos primeiros anos, durante as guerras tribais, o chefe dos sírios Abu al-Katar al-Sumail pediu auxílio à gente do mercado de Córdova, facto que parece sugerir não só a liberdade pessoal destes como a muçulmanização de boa parte da população cordovesa. Aliás, os muladis ou cristãos muçulmanizados são visíveis desde as primeiras horas. E no levantamento do arrabalde de Córdova contra al-Hakam I em 817, a gente do arrabalde é então mais ortodoxa que o próprio emir a quem doestam com os gritos: Vem, rezar borracho.

Em contrapartida, os novos senhores não se mostraram muito interessados na libertação dos camponeses que, como quinteiros, ficaram adscritos ao quinto, isto é, ao quinto das terras conquistadas à viva força e destinado ao Tesouro dos muçulmanos. Os invasores combatiam ligados pelos laços da tribo e do clã, ciosos do seu sistema familiar endogâmico e patrilinear. Como mostrou Pierre Guichard, este sistema social de tipo tribal e clânico, característico dos povos árabes e berberes, condicionou a evolução posterior da sociedade andaluza e do poder político e militar aí instalado. Em primeiro lugar, não permitiu a absorpção do novo aparelho religioso-político-militar pelo corpo dos poderes vencidos. Pelo contrário, os peninsulares só acedem ao novo poder integrando-se nele como clientes das tribos e dos clãs». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Andalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

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sexta-feira, 20 de maio de 2022

Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «A conquista significou, pois, um corte. O poder estabelecido foi derrubado e em parte destruído, milhares de prisioneiros foram arrastados até ao Oriente e uma parte substancial da terra mudou de mãos»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Civilização Islâmica e o Gharb al-Ândalus

«(…) No século XI, Ibn Hazm escreve a Epístola sobre a excelência de Al-Andalus. Nesse escrito passa em revista a história literária do Islão peninsular e conclui afirmando a sua superioridade cultural sobre a Pérsia, o Iémen, a Síria e outros países orientais. Na primeira metade do século XII, o santareno Ibn Bassam na sua Daquira ou Tesouro exalta a superioridade dos poetas e literatos de Hespanha sobre os poetas do Oriente. Por sua vez, Al-Saqundi, já durante o domínio almóada, escreve o Elogio do Islão Espanhol onde reivindica, pela excelência das suas cidades e sábios, a superioridade do Andaluz sobre os povos berberes. Há que dar algum desconto ao elogio em boca própria. Com o triunfo da Reconquista, o Andaluz surge depois aos olhos dos exilados como o paraíso perdido. Ibn Said fala nas cidades, nos campos cultivados, nas casas, entre as árvores verdes, continuamente caiadas de branco, por dentro e por fora. No decurso das minhas viagens, não vi país que se possa comparar ao Andaluz quer na beleza, fertilidade, abundância de água, quer na exuberância da vegetação, com excepção dos arredores de Fez ou de Damasco, na Síria. E prossegue: O Andaluz tem sido comparado por muitos autores ao paraíso terreal. Portugal nasce como entidade política quando no Islão peninsular as ciências medievais e a filosofia atingiam um brilho assinalável. Muitos quadros fugiram mas as cidades e os campos com boa parte da sua população ficaram. A sua história, antes e depois, é também a nossa história.

Orgulhamo-nos quando da terra salta um esqueleto de criança datável de 27 a 30 000 anos e integramo-lo no nosso património. O mesmo deve acontecer com os homens e mulheres que habitaram e adubaram com os corpos o nosso solo, muçulmanos, cristãos e judeus, e que enriqueceram o nosso património e o da Humanidade.

A Formação da Sociedade de al-Ândaluz

A construção da civilização islâmica na península conheceu um percurso lento e contraditório. Como em todas as conquistas, vencedor e vencidos influenciaram-se mutuamente. Por outro lado, não podemos perder de vista que o espaço dos ibéricos e dos invasores fora profundamente marcado pela matriz das civilizações mediterrânicas. Segundo Ibn Mozain de Silves, que viveu no século XI, em texto conservado por historiadores posteriores, conquistada a Espanha, Musa ibn Nusayr dividiu o território entre os militares que vieram à conquista, isto é, entre as tribos que nela participaram tal como distribuira os cativos e os bens móveis. Das terras conquistadas deduziu o quinto para o Tesouro Público e dos cativos escolheu cem mil dos melhores e mais jovens para os enviar ao califa al-Wualid Abd al-Malik. Nas terras do norte deixou os cristãos com a sua religião e os seus usos mediante o pagamento de um tributo. A conquista significou, pois, um corte. O poder estabelecido foi derrubado e em parte destruído, milhares de prisioneiros foram arrastados até ao Oriente e uma parte substancial da terra mudou de mãos. Mesmo os filhos do rei godo Vitiza, que, segundo parece, se bandearam pelos invasores, tiveram de partilhar as terras. Alguns autores menosprezaram o número dos recém-chegados. No entanto, os relatos muçulmanos falam em 30 mil árabes e principalmente berberes. A estes há que juntar os 400 árabes de Ifriqiya que acompanharam al-Hurr ibn Abd al-Rahman, os árabes do governador al-Samh ibn Malik al-Khawlani, os 7 000 sírios das tropas de Baly e os militares da hoste do governador Abu l-Khatar al-Husam ibn Dirar al-Kalbi». In António Borges Coelho, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

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sábado, 23 de janeiro de 2021

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Esta diferença é necessária enquanto existam dois tipos humanos diferenciados: o comum dos homens e os sábios»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente

«(…) No primeiro livro, de finalidade teológica, segue os cépticos gregos acerca da impossibilidade da verdade absoluta. Segundo ele, as opiniões reflectem o modo de ser dos homens nas suas diferenças físicas, raciais, éticas e ideológicas. Mas estas desigualdades aumentam devido a oito causas:

1ª o uso de termos equívocos;

2ª a interpretação literal ou metafórica;

3ª o múltiplo conteúdo semântico dos termos por causa do sentido geral;

4ª tomar o do particular e vice-versa;

5ª o excessivo uso do argumento de autoridade;

6ª a utilização abusiva dos argumentos analógicos;

7ª o esquecimento de textos que invalidam outros anteriores;

8ª as naturais diferenças em matérias opináveis.

No Livro das Questões defende a possibilidade da concordância da razão e da fé pois a filosofia e a religião coincidem no seu objecto, que é a verdade, e no seu fim, que é a felicidade humana. Só se separam quanto ao método, discursivo racional na primeira e convencimento na segunda. Esta diferença é necessária enquanto existam dois tipos humanos diferenciados: o comum dos homens e os sábios.

No Livro dos Círculos propõe-se discutir sete teses dos filósofos:

lª a ordem em que os seres procedem da Causa Primeira parece-se a um círculo ideal e o lugar de retorno do círculo reside na forma do homem;

2ª a essência do homem atinge, depois da morte, o termo a que chegou a sua ciência durante a vida e essa ciência parece-se também com um círculo ideal;

3ª na potência do entendimento particular está o informar-se com a forma do entendimento universal;

4ª o número é um círculo ideal, por exemplo, o círculo das unidades, o das dezenas, o das centenas e o dos milhares;

5ª os atributos do Criador não podem predicar-se dele a não ser por via da negação;

6ª o Criador não conhece outra coisa senão a si mesmo;

7ª qual a prova apodítica da sobrevivência da alma racional depois da morte.

O texto toma as suas cautelas: espero em Deus que me preservará do erro e diz que fala como mero informador dos propósitos e intenções dos filósofos, embora se sirva de termos aproximados, diferentes dos que eles usam. Os seres emanam da Causa Primeira, Primeiro Agente ou Causa das Causas, usando a linguagem dos filósofos. O exemplo mais aproximado para explicar essa emanação ou como do Criador procede o ser dos entes é o modo como procede do 1 o ser dos números ainda que não seja lícito comparar o Criador, exaltado seja!, com coisa alguma bem como os seus atributos e operações…» In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

 

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segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Poesia. António Borges Coelho. «Nos passos da minha vida ela sobe cresce cresce da roseira é roseiral»

Cortesia de wikipedia e jdact

Roseira Verde

«Tenho uma roseira verde
que dá rosas todo o ano.
A cada rosa que nasce
o meu rosto sofre dano.
No canto da minha cela
tenho uma roseira verde.

E sou eu próprio que rego
essa roseira mortal.
Nos passos da minha vida
ela sobe cresce cresce
da roseira é roseiral.

À medida que ela sobe
sou eu que me vou murchando.
Primeiro contava as rosas
de lindas rosas vermelhas
ia o meu corpo enfeitando.

Agora passo por elas
fujo ao seu aroma forte.
E se às vezes rio brinco
outras diviso entre as rosas
a própria face da morte.

Roseira Dona Roseira
não me contes os meus anos.
A cada rosa que nasce
brotam pétalas de esperança
murcham os meus desenganos».

Poema de António Borges Coelho. Escrito em 1962. No mar Oceano,

Lisboa, Editorial Caminho, 1981.

Poesia, António Borges Coelho, JDACT, Cultura, 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

No 31. Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Quantas coisas digo que não faço quantas voltas sem me decidir a pôr meu pé em terra»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Um dia, Ibn al-Arabi entrou em sua casa perturbado com o espectáculo das gentes, empenhadas em contradizer a lei de Deus. Al-Uryani disse-lhe: preocupa-te com Deus. Al-Arabi seguiu depois para casa de outro mestre, Abu Imran de Mértola que lhe disse: preocupa-te contigo mesmo! Perplexo, Al-Arabi respondeu: Al-Uryani quer que eu me preocupe com Deus e tu dizes para me preocupar comigo mesmo. O Mertolense replicou: o que disse Al-Uryani é a verdade. O que sucede é que cada um de nós te indica o que o seu próprio estado místico exige. Al-Arabi voltou a casa do Louletano e contou-lhe o sucedido. Abu Imran disse bem porque ele te indicou o caminho da perfeição enquanto que eu te indiquei qual é o companheiro da viagem.
Al-Mertuli, Abu Ymran Musa. Poeta e sufi. Antes da batalha de Alarcos, o califa almóada Yacub visitou-o em sua casa. Mais tarde enviou-lhe um mensageiro com uma certa quantia: o teu senhor tem mais necessidade desse dinheiro do que eu. Toma cem dinares de proveniência lícita. Diz-lhe que, para a sua manutenção pessoal, gaste só deste dinheiro e obterá a vitória. É dele o poema:

Quantas coisas digo que não faço
Quantas voltas sem me decidir a pôr meu pé
em terra.
Critico os meus olhos e não se convencem
aconselho minha alma não aceita
os meus conselhos.
Ai quantas coisas se desculpam dizem
talvez mais tarde. Quantas se demoram.

Outros sufis de nomeada, no século XII, foram Abu Abd Allah b. al-As al-Bayy, alfaqui de Beja, e Abu Abd Allah b. Zayd al Yeburi, de Évora. Este último explicou o Corão e ensinou gramática na mesquita al-Udays de Sevilha. Uma noite, lia uma obra em que se refutava al-Gazalli e cegou de repente. De joelhos, jurou que não voltaria a ler o contestário de al-Gazalli. Então Deus devolveu-lhe a vista. Ibn al-Sid (Silves 1052-Valencia 1127). Ficou conhecido como o de Badajoz mas al-Makkari dá-o como natural de Silves. Amigo de Umar al-Mutawakkil, senhor de Évora e depois último rei berbere de Badajoz. Viveu em Albarracin, Toledo, Saragoça e Valência. Polemizou com Ibn Bayya.
Matemático e poeta, escreveu livros de temas filológicos, de crítica literária, de gramática. De Aristóteles conhece a Lógica, a Metafísica e também o Timeu de Platão. Introduz Al-Farabí no Andaluz. Fala em Tales e Zenão.
Obras principais:

Livro do Aviso Equânime acerca das Causas
que engendram as Discrepâncias de Opinião no Islão (Kitab alinsaf…),
o Livro das Questões (Kitab al-Masail) e principalmente o Livro dos Círculos (Kitab al hadaiq).

In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A Morte do Inquisidor-Geral. António Borges Coelho. «As instalações pessoais compreendiam ainda a cozinha, a copa, o tinelo ou refeitório dos criados com a mesa do pobre, e ainda as áreas reservadas aos hóspedes»

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A morte do Inquisidor-Geral
«(…) Os retábulos de Santa Cecília, de S. Jerónimo, de S. João, de novo o de S. Pedro Mártir, agora com o relato do martírio, e ainda o retrato de frei Fernando Cruz, sobrinho do moribundo, enfeitam as paredes da antecâmara. Os livros da livraria, dominada pelo retrato de S. Tomás, haveriam de render 645 820 réis. Na mobília, o bufete em que escrevo, o contador de pau-santo onde guarda 700 000 réis em ouro e mais 200 moedas antigas de ouro, afora os 800 000 que tinha o secretário Diogo Velho e os 375 000 de dinheiro secreto. Num caixão de pau-santo guarda papéis do Santo Ofício (maldito) que manda entregar sob dupla chave ao Inquisidor-Geral que lhe suceder.
As instalações pessoais compreendiam ainda a cozinha, a copa, o tinelo ou refeitório dos criados com a mesa do pobre, e ainda as áreas reservadas aos hóspedes.
A dispensa e a cavalariça ficavam nos fundos. O inventário dá notícia de arrobas e arrobas de passas e figos, moios e moios de grãos-de-bico, de lentilhas, de feijões, de ervilhas, sete arrobas de bacalhau, onze arráteis de açúcar mascavado, três barris de biscoito, arrobas de velas e de cera. Não faltariam o trigo, a carne, o vinho. Na cavalariça ficavam os animais de tracção, entre eles um macho novo de 90 000 réis, uma liteira grande, uma liteira pequena, o coche e a carroça da água.
Em viagem, a cavalo, de coche ou de liteira, os criados embalavam nos baús de caminho as comodidades do amo e as alfaias da capela. Nestas, a cruz de prata de altar, os castiçais de prata, a caixa de hóstias dourada, um abano com pau de prata, as vestimentas de tafetá de diferentes cores, uma capa de tafetá da Índia branca e roxa com franjas de ouro, o missal na sua bolsa de couro, o Evangelho de S. João, duas bolsas de veludo negro para as esmolas. A cama de caminho em damasco azul seguia em duas caixas. Noutras caixas e baús ia o resto do guarda-roupa, onde não faltava um estojo com as tesouras para a barba e um urinol de prata para o caminho». In António Borges Coelho, A Morte do Inquisidor-Geral, Editorial Caminho, 2007, ISBN 978-972-211-888-0.

Cortesia de ECaminho/JDACT

sábado, 2 de novembro de 2019

A Morte do Inquisidor-Geral. António Borges Coelho. «O Inquisidor-Geral está a morrer ao Rossio, nos aposentos em que vive, situados nos Paços do Santo Ofício que Mateus Couto, arquitecto das Inquisições deste reino»

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A morte do Inquisidor-Geral
«1 de Janeiro de 1653. O bispo Francisco Castro está a morrer na sua câmara, deitado em leito de pau-santo armado com quatro cortinas e céu de damasco verde e branco. Assistem-no três médicos e duas dezenas de fâmulos. Está acamado e sangrado. Na câmara, um Ecce Homo e as imagens de S. Pedro Mártir e de Santa Catarina de Sena. Do guarda-roupa, constituído por centenas de peças, vestimentas multicores, camisas, meias de seda, ceroulas, roupões, capas, sotainas com cauda e sem cauda, barretes, chapéus, escolheu, para a última viagem, uma vestimenta roxa de chamalote de ouro guarnecida de passamanes de ouro com estola e manípulo. À volta do pescoço, a cadeia de ouro que sustém a cruz peitoral também de ouro: no dedo o anel grande de ouro dos pontificais com cinco pedras em cruz, uma no meio, branca, duas verdes e duas azuis. Por baixo da roupa, colada ao corpo, traz ainda urna cruz de ouro niquelada com poderes, concedidos pelo papa Gregório XV, de tirar uma alma do purgatório todas as vezes que com ela se rezar a missa.
O Inquisidor-Geral está a morrer ao Rossio, nos aposentos em que vive, situados nos Paços do Santo Ofício que Mateus Couto, arquitecto das Inquisições deste reino, remodelara por mandado do Ilustríssimo e Reverendíssimo senhor Francisco Castro, bispo inquisidor-geral e do Conselho de sua Majestade. As instalações são amplas, as paredes grossas e forradas de alcatifas, mas não abafam de todo o marulhar do povoléu do Rossio nem os gemidos dos cárceres. Na capela privativa inventariaram-se centenas de objectos: alfaias de ouro e prata dourada, toalhas, frontais, panos de damasco, luvas, albas, sobrepelizes, vestimentas da Índia, de Castela e de Holanda. Nos aposentos pessoais, além da câmara onde agoniza, dispõe de um lavatório e nele um cântaro de cobre para aquecer a água, uma bacia de latão com seu jarro coberto para Sua Ilustríssima lavar as mãos pela manhã, uma bacia de latão para lavar os pés, uma bacia de barbear, um cuspidor de prata». In António Borges Coelho, A Morte do Inquisidor-Geral, Editorial Caminho, 2007, ISBN 978-972-211-888-0.

Cortesia de ECaminho/JDACT

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Al-Uryani, Abu Yafar (século XII). Camponês, natural de Loulé, não sabia ler nem escrever mas foi o primeiro…»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Abu Mohammad Ibn Sara Assantarini (o santareno) (+1123) comparava os relâmpagos a um abissínio que ri com as suas lágrimas. Cantou o papeleiro, a laranjeira, a beringela, o tanque com tartarugas que lembravam soldados cristãos com os seus escudos de alce. Cantou a estrela cadente, cavaleiro a quem, na rapidez do galope, se lhe desatasse o turbante/ e o arrastasse atrás de si como um véu que flutua.
Uma ética hedonista e céptica transparece nalguns versos, por exemplo no Poema da Serra Nevada:

Quando sobre a vossa terra sopra o vento norte
que felicidade para um pobre pecador
gozar as fornalhas do inferno…

Se um dia entrar nos tormentos do inferno
será num dia tão rigoroso
em que até o inferno há-de ser bom.

Ou no claro poema:

Quando me visitou senti desejo de beijá-lo
e duas vezes o beijei em cada face.

Disse depois: por favor, deixa que beije
a tua boca
prefiro as brancas margaridas às rosas vermelhas.

Noutro poema tomou o amor udri como companheiro e afirmava que a castidade é virtude/ quando aquele que a observa/ tem a plenitude física. E apontava como guia da acção o binómio facto-consequência. O sul de Portugal foi terra de sufis, os místicos muçulmanos. Ibn Kasi, Abu 1-Kasim Ahmad b. Husayn (+1152). De origem moçárabe nasceu no termo de Silves. Durante a mocidade só pensou nos prazeres do mundo. Depois abraçou a vida ascética. Deu em esmola os seus bens e percorreu o Andaluz a pregar o desprezo pelos bens deste mundo. Em Almeria conheceu o sufi Ibn Al-Arif (+Marraquexe 1141) quando este embarcava para Marrocos.
Regressado à aldeia natal dedicou-se à leitura dos livros de Al-Gazallí espalhando as suas doutrinas. Em breve tomou o título de mahdi (o imã encoberto). Perseguido, conseguiu escapar mas alguns dos seus seguidores foram presos pelos almorávidas em Sevilha. Em 539, os seus seguidores, os muridun (os adeptos, aspirantes à vida mística) assenhorearam-se da praça forte de Mértola. Évora, Silves, Beja, Huelva e Niebla apoiaram o mahdi. Mais tarde, Ibn Wazir, senhor de Évora e Beja e a seguir de Badajoz e a quem os lisboetas cercados pediram auxílio em 1147, subleva-se contra Ibn Kasi que se dirige a África a incitar o desembarque dos almóadas. Regressa com o exército africano e torna-se governador de Silves.
Pouco depois quer sacudir o domínio dos almóadas e pede auxílio a Afonso Henriques que lhe manda um cavalo, um escudo e uma lança. Descontentes, os habitantes de Silves usam um ardil para entrar no Alcácer das Varandas. Entrados, cortam a cabeça do sufi e exibem-na na ponta de uma lança: eis aqui o mahdi dos cristãos!
Escreveu o livro Os dois Sapatos Descalços de que existe um manuscrito na biblioteca de Constantinopla. Segundo os seus detractores, afirmava que fizera a peregrinação a Meca durante uma noite; transmitia mentalmente o pensamento; gastava dinheiro do tesouro de Deus, só que este dinheiro levava o cunho dos almorávidas.
Al-Uryani, Abu Yafar (século XII). Camponês, natural de Loulé, não sabia ler nem escrever mas foi o primeiro e um dos mais importantes mestres de Ibn Al-Arabi em Sevilha. Quando falava da ciência da unificação, não havia outra coisa a fazer senão ouvir. Com a sua só intenção fixava as ideias como se as consignara por escrito e com a sua palavra punha a descoberto a realidade positiva dos seres. Dedicava o tempo à oração mental, previamente purificado pela ablução ritual e voltado para Meca». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Acaso te deixarás conduzir pela tristeza até à morte quando o alaúde e o vinho fresco estão aí à tua espera?»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Um outro texto, Al-Mann Bil-Imama do bejense Ibn Sahib Al-Sala aborda a história dos almóadas e de algum modo um pouco da história política no actual Alentejo e Algarve. Escreveu também o Kitab al-Muridin (Livro dos Adeptos), hoje perdido e que seria indispensável para o estudo do movimento dos muridines no sul do nosso território e no ocidente peninsular.
Os poetas perdem-se como abelhas ao redor do favo do poder. Mas alguns erguem-se a grande altura. Cantam os saraus nocturnos, o vinho, o amor, os jardins, a água, a paisagem humanizada. Aqui e ali ensaiam a especulação filosófica. No século XI sopra uma brisa de audácia e de liberdade com toda a ambiguidade que esta palavra carrega. Almutamide (+1095), natural de Beja, governador de Silves e rei de Sevilha entre 1069 e 1091, rodeou-se de literatos, historiadores, poetas como o seu amigo Ibn Amar, a sua mulher Itimad Romaiquia (ex-escrava de Romaiq) e seu filho Arradi ibn al-Mutamid, governador de Mértola.
A vida do rei poeta originou toda uma epopeia. Na batalha de Zalaca foi ferido seis vezes e não arredou pé até à vitória. Pouco depois, os seus aliados almorávidas, com o favor dos alfaquis de Sevilha, conquistaram a cidade e degolaram-lhe dois filhos à sua vista. A nora Zaida tornou-se concubina de Afonso VI de Leão e de Castela enquanto o filho Arradi era morto à traição pelos almorávidas em Mértola. Almutamide morre cativo em Agmat, no Atlas sobranceiro a Marraquexe. A caminho do desterro escreveu o poema:

Saíram para pedir a chuva e disse-lhes:
Pudessem
as minhas lágrimas substituir a chuva
que reclamais.
Responderam-me: é verdade, nas tuas lágrimas
encontraríamos
o bastante. Mas de que nos serviriam elas
se estão misturadas com sangue?

Noutro dos seus poemas, propõe uma ética dos prazeres, que certamente haveria de chocar os alfaquis, ao mesmo tempo que esclarecia a sua ideia do sábio:

Acaso te deixarás conduzir pela tristeza
até à morte
quando o alaúde e o vinho fresco
estão aí à tua espera?
Que as preocupações não se tornem
senhoras de ti
enquanto a taça for uma espada cintilante
na tua mão.
Conduzir-se como sage é deixar-se assaltar
pelas preocupações até ao mais fundo
de si mesmo:
Ser sage para mim é não ser sage.

Ibn Mucana Alisbuni Alcabdaq (o lisboeta, o de Alcabideche) (+pouco depois de 1068) cantou os bois de lavra, os javalis que assolavam as hortas, as abóboras, as cebolas, os moinhos de vento». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. « Na lápide funerária de Afonso Peres Farinha proclama-se: viveu durante vinte anos nas margens do Guadiana, nas vilas conquistadas de Moura e Serpa…»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Teremos de esperar pela época dos Descobrimentos e Conquistas para que o Oriente penetre de novo e intensamente na nossa cultura. Mas, nesse mesmo tempo, os expoentes de referência do conhecimento científico, continuarão a ser o médico al-Razí, o médico hispânico Avenzoar, o uzbeque Avicena e o cordovês Averróis, como poderemos verificar, por exemplo, no Colóquio dos Simples e das Drogas de Garcia da Orta. A Reconquista não suprimiu as marcas da civilização islâmica que perduraram na língua e em muitas técnicas agrícolas e artesanais até ao século XX. Os cristãos medievais herdaram a estrutura das cidades islâmicas, usaram os seus alarifes e alvanéis, os meus mouros de Afonso Henriques, na construção de catedrais e fortalezas. Um deles deixou escrito no transepto da sé de Coimbra: escrevo isto como recordação permanente do meu sofrimento. A minha mão perecerá um dia mas a grandeza ficará. O hospitalário Afonso Peres Farinha, cavaleiro de uma lança e futuro prior da ordem do Hospital em Portugal, exemplifica a recepção contraditória dessa influência que teve o seu ponto alto, no ponto de vista da cultura literária, no trabalho dos tradutores muçulmanos e cristãos das cortes de Afonso X o Sábio e do seu neto o nosso rei Dinis. Na lápide funerária de Afonso Peres Farinha proclama-se: viveu durante vinte anos nas margens do Guadiana, nas vilas conquistadas de Moura e Serpa, fazendo muita guerra e muito mal aos mouros e tomando-lhes Arouche e Aracena.
Atravessou três vezes o mar e lá viveu longo tempo. Residiu em muitos locais estrangeiros. Viu muitas e grandes coisas e muitos homens bons daquele tempo, tanto cristãos como mouros. Os muitos vêm carregados de espanto. No campo das ciências e da cultura, não faltaram, em território português, gramáticos de língua árabe, jurisconsultos, sufis, escreventes de história, de crítica literária e principalmente poetas. Abu al-Hayaye al-Halam de Santarém escreveu um comentário sobre a obra do poeta oriental Mutanabi. Por sua vez, Ibn Abdun Silves analisou o longo poema sobre o fim trágico dos abádidas e aftácidas, escrito pelo poeta eborense Ibn Abdun.
Entre os jurisconsultos, destaque para o bejense Abu al-Walid al-Baji (1012-1081) que peregrinou pelo Oriente e polemizou com Ibn Hazm. A história e a biografia contaram com vultos de importância capital. O primeiro foi Ibn Mozain, da família dos reis que dominaram a cidade de Silves nos princípios do século XI. Só nos chegaram fragmentos conservados por outros historiadores mas a ele devemos notícias preciosas sobre a distribuição das terras quando os muçulmanos se apossaram de Hespanha. Ibn al-Imam al-Shilbi (+c. 1156) escreveu as biografias de muitos dos seus contemporâneos na obra Simt aldjuman, infelizmente perdida. No entanto, restaram trinta e cinco passagens conservadas por Ibn Said no Mugrib, passagens que constituem um quarto deste livro.
Para a história e a história da cultura do Islão Ocidental a Dakira (Tesouro) do santareno Ibn Bassam, de seu nome Abu al-Hassam ibn Bassam al-Santarini (+c.1147) é fundamental. A obra reúne, em quatro volumes, uma antologia dos poetas peninsulares, recheada de preciosas notícias de natureza social e político-militar». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de I.Camões/JDACT