segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Al-Uryani, Abu Yafar (século XII). Camponês, natural de Loulé, não sabia ler nem escrever mas foi o primeiro…»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Abu Mohammad Ibn Sara Assantarini (o santareno) (+1123) comparava os relâmpagos a um abissínio que ri com as suas lágrimas. Cantou o papeleiro, a laranjeira, a beringela, o tanque com tartarugas que lembravam soldados cristãos com os seus escudos de alce. Cantou a estrela cadente, cavaleiro a quem, na rapidez do galope, se lhe desatasse o turbante/ e o arrastasse atrás de si como um véu que flutua.
Uma ética hedonista e céptica transparece nalguns versos, por exemplo no Poema da Serra Nevada:

Quando sobre a vossa terra sopra o vento norte
que felicidade para um pobre pecador
gozar as fornalhas do inferno…

Se um dia entrar nos tormentos do inferno
será num dia tão rigoroso
em que até o inferno há-de ser bom.

Ou no claro poema:

Quando me visitou senti desejo de beijá-lo
e duas vezes o beijei em cada face.

Disse depois: por favor, deixa que beije
a tua boca
prefiro as brancas margaridas às rosas vermelhas.

Noutro poema tomou o amor udri como companheiro e afirmava que a castidade é virtude/ quando aquele que a observa/ tem a plenitude física. E apontava como guia da acção o binómio facto-consequência. O sul de Portugal foi terra de sufis, os místicos muçulmanos. Ibn Kasi, Abu 1-Kasim Ahmad b. Husayn (+1152). De origem moçárabe nasceu no termo de Silves. Durante a mocidade só pensou nos prazeres do mundo. Depois abraçou a vida ascética. Deu em esmola os seus bens e percorreu o Andaluz a pregar o desprezo pelos bens deste mundo. Em Almeria conheceu o sufi Ibn Al-Arif (+Marraquexe 1141) quando este embarcava para Marrocos.
Regressado à aldeia natal dedicou-se à leitura dos livros de Al-Gazallí espalhando as suas doutrinas. Em breve tomou o título de mahdi (o imã encoberto). Perseguido, conseguiu escapar mas alguns dos seus seguidores foram presos pelos almorávidas em Sevilha. Em 539, os seus seguidores, os muridun (os adeptos, aspirantes à vida mística) assenhorearam-se da praça forte de Mértola. Évora, Silves, Beja, Huelva e Niebla apoiaram o mahdi. Mais tarde, Ibn Wazir, senhor de Évora e Beja e a seguir de Badajoz e a quem os lisboetas cercados pediram auxílio em 1147, subleva-se contra Ibn Kasi que se dirige a África a incitar o desembarque dos almóadas. Regressa com o exército africano e torna-se governador de Silves.
Pouco depois quer sacudir o domínio dos almóadas e pede auxílio a Afonso Henriques que lhe manda um cavalo, um escudo e uma lança. Descontentes, os habitantes de Silves usam um ardil para entrar no Alcácer das Varandas. Entrados, cortam a cabeça do sufi e exibem-na na ponta de uma lança: eis aqui o mahdi dos cristãos!
Escreveu o livro Os dois Sapatos Descalços de que existe um manuscrito na biblioteca de Constantinopla. Segundo os seus detractores, afirmava que fizera a peregrinação a Meca durante uma noite; transmitia mentalmente o pensamento; gastava dinheiro do tesouro de Deus, só que este dinheiro levava o cunho dos almorávidas.
Al-Uryani, Abu Yafar (século XII). Camponês, natural de Loulé, não sabia ler nem escrever mas foi o primeiro e um dos mais importantes mestres de Ibn Al-Arabi em Sevilha. Quando falava da ciência da unificação, não havia outra coisa a fazer senão ouvir. Com a sua só intenção fixava as ideias como se as consignara por escrito e com a sua palavra punha a descoberto a realidade positiva dos seres. Dedicava o tempo à oração mental, previamente purificado pela ablução ritual e voltado para Meca». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT