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sábado, 29 de setembro de 2018

As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar. 1926-1932. Cristina Faria. «Acresce a tudo isto o desempenho da administração da dupla governativa Filomeno Câmara / Morais Sarmento, respectivamente alto-comissário e inspector da Administração Pública naquela colónia»

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Enquadramento Político, Económico e Social da Ditadura Militar
«(…) Preparada por Joaquim Nunes Mexia (grande latifundiário alentejano e ministro da Agricultura de I8/4 a 7/7/1929) e lançada pelo então ministro da tutela, Henrique Linhares Lima (8/7/29 – 21/1/30), tinha como principais objectivos apoiar a actividade da grande agricultura alentejana e promover o aumento da produção até, às necessidades da procura, por substituição de importações, dignificando a indústria agrícola como a mais nobre e a mais importante de todas as indústrias e como primeiro factor de prosperidade económica da Nação. O aumento da área de trigo cultivada, o desenvolvimento da indústria química, pela difusão dos adubos industriais, e, a reboque, o notável crescimento da produção, concluem o êxito (inicial) da campanha. Perto do final do ano, quando a Nação adquiriu já a plena consciência do seu estado e manifesta a vontade firme de seguir os caminhos do seu destino, Salazar, na ausência do Presidente do Ministério (em visita oficial a Espanha), consagra o princípio Nada contra a Nação, tudo pela Nação e, em nome da realidade nacional, apela ao desconhecimento das facções, dos partidos, dos grupos, quando os sectores oposicionistas da sociedade se limitam a contestar o fraco empenho demonstrado pela Ditadura nas comemorações do 5 de Outubro de 1910. Lopes Fonseca, mentor da manifestação dos municípios, tinha chegado à pasta da Justiça e dos Cultos por intermédio de Salazar e, tal como este, via em Ivens Ferraz o principal adversário na luta pelo poder no interior da Ditadura (a realização desta manifestação mereceu o comentário de Ivens Ferraz nas suas Memórias; durante a minha ausência passava-se em Portugal um incidente a que não posso deixar de me referir (...), porque, propositadamente, se procurou o afastamento do Chefe do Governo para tirar todos os efeitos políticos que daquele incidente poderiam resultar). Acusado de buscar uma aproximação aos partidos quando o momento exige um governo forte para que a Ditadura leve o barco a bom porto (designadamente, consolidar o equilíbrio do orçamento, realizar a reforma da moeda e completar a restauração financeira, lançar as bases decisivas da reconstrução económica da metrópole e das colónias (...) efectuar a reconstrução política e social do país, pelo regime municipal e corporativo (...) e pela preparação de condições que permitam e garantam a independência e harmonia dos poderes do Estado), Ivens Ferraz chega a apresentar a demissão. Mas será a polémica travada entre Salazar e Cunha Leal, o verdadeiro móbil da queda do seu ministério quando, a propósito das críticas tecidas por este à política financeira delineada para as colónias, o ministro das Finanças exige que o problema seja levado a Conselho de Ministros. Mais uma vez Carmona apoia-lo-á deixando cair o ministério de Ivens Ferraz.
Com o afastamento da presidência do Governo de Vicente Freitas, primeiro, e de Ivens Ferraz agora o republicanismo conservador perde o combate que a corrente salazarista vinha movendo no interior da Ditadura desde finais de 1928 e inaugura, com a constituição do Ministério presidido por Domingos Oliveira logo em 21 de Janeiro de 1930, uma ordem nova, quer do ponto de vista político-institucional quer do ponto de vista económico e social. Em conformidade com esta nova ordem, Salazar, interino das Colónias desde aquela data, demite Cunha Leal do cargo de governador do Banco de Angola e faz aprovar a sua estratégia nesta área de reforço do programa de obras públicas, apoio financeiro limitado, reforma do sistema bancário do império, e promulgação do Acto Colonial, a qual, pelo seu carácter nacionalista e civilizador, reduz o impacte das acusações de que Salazar não se importa com o Império.
Em Outubro de 1929, o crash da bolsa de Nova Iorque potenciara o aprofundamento da crise económica que se vinha avolumando desde o imediato pós-guerra na generalidade dos países do mundo. Em Portugal, embora refreados por factores de ordem estrutural e conjuntural, os seus efeitos vão fazer-se sentir com particular acuidade entre os sectores exportadores metropolitanos e coloniais. Na verdade, a quebra brutal das cotações mundiais dos principais produtos coloniais é a responsável pela redução das fontes de receitas dos circuitos de exportação e comercialização e, no Imperio (sobretudo em Angola), pela crescente tensão que a dependência da economia angolana relativamente à metropolitana cria nos sectores mais visados pela Grande Depressão, visivelmente afectados pela quase paralisação das transferências financeiras. Acresce a tudo isto o desempenho da administração da dupla governativa Filomeno Câmara / Morais Sarmento, respectivamente alto-comissário e inspector da Administração Pública naquela colónia: administrativa e financeiramente atrabiliária e descontrolada responde, em grande medida, pelos acontecimentos revoltosos que de 20 de Março a l0 de Abril se sucedem em Angola, cujo comando recai no Chefe do Estado Maior das Forças Armadas da colónia, coronel Genipro Cunha Eça Almeida. O tenente Morais Sarmento é morto no primeiro dia, Filomeno Câmara é exonerado em 10 de Abril quando, na metrópole, o governo de Domingos Oliveira, na pessoa do ministro interino das Colónias, Oliveira Salazar, (...) é obrigado a ceder às pressões da colónia (...)» In Cristina Faria, As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar, 1926-1932, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-201-6.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar. 1926-1932. Cristina Faria. «A Ditadura era, pois, o garante da ordem e do equilíbrio. Reposta a disciplina nas ruas, acautelado o equilíbrio orçamental e desarticulada a oposição republicana democrática»

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Enquadramento Político, Económico e Social da Ditadura Militar
«(…) No campo oposicionista, porém, a dinâmica conspirativa mantém-se. Depois de solucionadas as divergências entre os comités militares e os linguistas e exilados no exterior acerca dos caminhos a seguir para derrubar a Ditadura, a revolução sai à rua no dia 20 de Julho por iniciativa do Batalhão de Caçadores 7, com o objectivo de pôr fim à degradante situação financeira e às soluções austeras preconizadas por Salazar e capitalizar, a seu favor, a agitação vivida nos três centros universitários do país e a situação de numerosos militares e civis. Paralelamente, o recente fiasco do pedido de empréstimo à SDN, o apoio inequívoco da Igreja, da Inglaterra e da Espanha à manutenção da Ditadura, a eleição de Carmona e a afinação dos métodos repressivos e policiais terão levado muitos a optar pela revolução. Uma revolução que, contudo, sai vencida à partida: ensaiada desde Maio, o processo de preparação que a antecedeu é desarticulado em inícios de Junho quando os seus principais organizadores (comandante Jaime Morais e capitães Chaves e César Almeida) são presos. Com ramificações a nível nacional, dura 12 horas na capital, salda-se em numerosos danos materiais e na prisão e deportação (Angola e Timor) de centenas de militares e civis (a grande componente do movimento) e potencia apoios à situação por constituir mais um forte impedimento à recuperação económica e financeira. Salazar, esse, continua a sua ditadura financeira e, em Setembro, reduz as despesas nos Ministérios da Guerra, do Comércio e das Comunicações e da Instrução Pública.
A Ditadura era, pois, o garante da ordem e do equilíbrio. Reposta a disciplina nas ruas, acautelado o equilíbrio orçamental e desarticulada a oposição republicana democrática, Salazar introduz um factor de confiança para os agentes económicos numa economia em que as políticas orçamentais (tendem) a dar prevalência à estabilidade sobre o crescimento económico e em que os saldos orçamentais passam a ser positivos a partir de 1928 - 1929: logo no início do ano, procede à liquidação de importantes prestações da dívida de guerra e da dívida flutuante, conquistando o reconhecimento internacional; reforma a Caixa Geral de Depósitos e o Banco de Portugal, lançando o crédito público às actividades económicas; anuncia medidas de reactivação das obras públicas (expansão da rede ferroviária e telefónica, aproveitamento hidroeléctrico dos rios Douro e Zêzere, programa de obras de hidráulica agrícola, infra-estruturas portuárias e viárias, etc.); em Junho faz aprovar o Orçamento para 1929 - 1930 com um saldo positivo de 8500 contos e anuncia ao país a extinção da dívida flutuante externa quedando-se saldadas as contas com o estrangeiro. Paralelamente, instaura a reforma tributária e desenvolve um rigoroso saneamento nas administrações coloniais, sobretudo em Angola. A Ditadura possui finalmente um projecto uno e coerente, com prioridades definidas e rumos certos, cujo conteúdo político se traduz na concertação de uma plataforma económico-social e política comum (síntese histórica das direitas portuguesas numa única direita) viabilizadora da crescente hegemonização da Ditadura Militar pela corrente salazarista.
Mas, na sequência da portaria de Junho de Mário Figueiredo, amigo de Salazar em Viseu e Coimbra e então tutelar da pasta da Justiça e dos Cultos (10/11/28 – 8/7/29), a questão religiosa precipita a demissão de ambos os católicos em sinal de protesto contra a revogação da portaria dos sinos pelo Conselho de Ministros do Governo de Vicente Freitas. Depois de reunir com Salazar, Carmona aceita o seu pedido de demissão formalizado em nome de todo o gabinete, e chama Ivens Ferraz para formar novo governo (8/7/1929 - 21/1/1930).
O êxito da prática financeira reconfirma Salazar na pasta das Finanças que prossegue, agora, uma estratégia de redução da oposição entre os sectores mais visados pelas dificuldades do momento. Por um lado, autoriza medidas de protecção à agricultura, sobretudo no Centro e Sul do país, e, em finais de Agosto, faz aprovar as bases para a organização da Campanha do Trigo». In Cristina Faria, As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar, 1926-1932, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-201-6.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

sábado, 3 de maio de 2014

As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar. 1926-1932. Cristina Faria. «… com o objectivo de constituir um ‘contra-poder’ da direita radical ao projecto de partido da Ditadura Militar, a União Nacional Republicana. Mais tarde, viria a constituir a plataforma de arranque do ‘Movimento Nacional-Sindicalista’»

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Enquadramento Político, Económico e Social da Ditadura Militar
«(…) Entretanto, em Agosto, a Ditadura é atacada por dentro; com o apoio de elementos integralistas vários tenentes afectos a Gomes da Gosta (comandante Filomeno Câmara, tenente Henrique Galvão, tenente Alfredo Morais Sarmento, capitão David Neto, Fidelino Figueiredo e António Ferro) procuram, em vão, tomar o poder através de uma iniciativa militar coadjuvada por civis posicionados em lugares-chave do Estado. Segundo António Costa Pinto, o golpe dos Fifis, (12 / 8 / 1927) constituiu o primeiro sinal de resposta do sector fascizante ao seu afastamento forçado do poder, radicalizado pela tentativa de entregar a vice-presidência do Ministério ao coronel Abílio Passos Sousa (a nomeação do Ministro da Guerra para a vice-presidência do Ministério, em 11 / 8 /.1927, foi vista pelos observadores estrangeiros da seguinte forma: O coronel Passos Sousa demitiu-se do lugar de vice-presidente do Ministério [26/8/27], oficialmente porque considerava não poder acumular os novos deveres com os do Ministério da Guerra, na prática porque, existindo duas correntes de opinião diferentes no seio do Exército, considerou impossível constituir um ministério que reunisse o apoio de todo o Exército).
Mas neutralizada a acção revolucionária nas ruas e contidas as belicosidades da direita, resta ao republicanismo conservador restabelecer a normalidade constitucional. Vicente Freitas (representante da ala liberal das chefias militares, identifica-se com o grupo de oficiais republicanos conservadores que consideram a Ditadura Militar como uma solução provisória necessária para preparar o regresso a um regime democrático mais eficaz, o que o coloca em choque aberto com Salazar), tutelar da pasta do Interior de 26 de Agosto de 1927 a 8 de Julho de 1929 promete, em Dezembro de 1927, a realização de eleições administrativas, anuncia um novo projecto de lei eleitoral e dá início ao recenseamento para as eleições presidenciais de Carmona, nas quais caberia à recém-criada União Nacional Republicana (UNR) um papel de apoio à Ditadura. Mas, no exterior, a LDR/LP alega a inconstitucionalidade do empréstimo e, a este respeito, os vários estudos de Salazar, ainda regente das cadeiras de Finanças e de Economia Política na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC), publicados no Novidades de Janeiro a Abril de 1928, firmam a sua posição contra o recurso ao crédito externo sem o prévio estabelecimento do equilíbrio orçamental. Empenhado na defesa de uma alternativa clara e tecnicamente correcta à política financeira seguida pela Ditadura Militar, o professor de Coimbra adianta já algumas das soluções para a profunda crise financeira que o país atravessa.
Perante a impossibilidade física de Sinel Cordes, Ivens Ferraz, ministro do Comércio e interinamente das Finanças, desloca-se a Genebra para encetar as negociações com os técnicos da Secção Económica e Financeira da SDN, que meses antes tinham estado em Portugal para avaliar a real situação do país. Porém, as condições impostas pela SDN (a nomeação de um oficial de ligação junto do Governo Português com funções de controle e o direito do Comité enviar a Portugal, no caso de incumprimento do protocolo, uma comissão financeira, composta por 3 membros, para administrar as receitas consignadas ao serviço do empréstimo), atentatórias do brio nacional, levam o ministro a declinar quer as condições quer a proposta de adiamento (...). A notícia de que a SDN submetia a aprovação do empréstimo à aceitação das condições impostas pelo seu comité financeiro (..) foi recebida em Portugal com grande perplexidade e indignação. Artigos violentos de todas as correntes de opinião surgiram na imprensa portuguesa (...) e, no dia 16 de Março, à sua chegada a Lisboa, Ivens Ferraz é aclamado por milhares de pessoas, no Rossio, numa manifestação organizada pela Liga 28 de Maio, a que também adere a Cruzada Nacional Nuno Álvares Pereira (fundada em Julho de 1918 pelo tenente João Afonso Miranda, a Cruzada Nun'Álvares surge como uma pequena liga nacionalista que opera, em 1926, uma viragem ideológica fascizante. Martinho Nobre Melo foi um dos seus principais ideólogos pós-28 de Maio).
Se, por um lado, a recusa dos delegados portugueses na SDN, genericamente bem aceite pelos vários quadrantes da opinião pública granjeia popularidade para o Governo, por outro apressa um novo tipo de solução para a crise. Tanto mais que, em nome da redução das despesas públicas, o Governo decreta a extinção da Faculdade de Direito de Lisboa, da Faculdade de Letras do Porto, da Faculdade de Farmácia e da Escola Normal Superior de Coimbra, do Liceu da Horta e das Escolas Normais Primárias de Coimbra, Braga e Ponta Delgada, dando início ao maior movimento académico registado durante a Ditadura Militar que culminaria, um mês depois, na greve das três universidades do país e se manteria em movimento de protesto até Outubro seguinte.
Sem finanças nem política financeira, Sinel Cordes é exonerado do Ministério das Finanças em 18 de Abril e substituído, em 26 do mesmo mês, por Salazar na respectiva tutela. Mau grado o curso reformista que a eleição de Carmona para a presidência da República (em 25 de Março) e a nomeação de José Vicente Freitas (em 18 de Abril), para presidente do 4.º Ministério, emprestam à Ditadura Militar, a ausência de um projecto político coerente e apoiado faz tremer a liderança dos militares republicanos conservadores no poder. É nestas circunstâncias que ganha força o programa alternativo proposto pelo mago das finanças. Nas suas Condições da Reforma Financeira, o professor de Coimbra arroga-se o direito de veto sobre as despesas dos demais ministérios, tutelando-lhes a acção, com o fim último de alcançar o equilíbrio orçamental há tanto reclamado pelas forças vivas. Pouco depois, hierarquiza os problemas nacionais e a ordem da sua solução e, subordinando tudo o mais ao sacrifício que o equilíbrio das contas públicas exige, prossegue uma política financeira de austeridade que conta com o apoio das Forças Armadas para conter a impopularidade dela resultante e assegurar a ordem pública». In Cristina Faria, As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar, 1926-1932, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-201-6.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar. 1926-1932. Cristina Faria. «… António Sérgio, entre outros, lançam as bases para a criação da Liga de Defesa da República/Liga de Paris (LDR/LP). E, logo em Julho, no seu primeiro manifesto Ao País, a LDR/LP combate denodadamente as políticas financeira…»


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Enquadramento Político, Económico e Social da Ditadura Militar
«(…) Nos primeiros dias de Fevereiro de 1927, com o objectivo de constituir um forte governo nacional que restaure o regime e a Constituição e, simultaneamente, moralize a vida política portuguesa em nome das liberdades fundamentais e do saneamento da crise económico-financeira ocorre, no Porto (3-7/2/1927) e em Lisboa (7-9/2/1927), com manifestações em diversos pontos do país, a revolta militar e civil republicana que determinaria o futuro da Ditadura. A este respeito, Luís Farinha adianta que a clara vitória militar que [a Ditadura] havia obtido sobre os revoltosos (...) permite, ao sector republicano da Ditadura (onde se evidenciavam agora Carmona e o Ministro da Guerra Passos Sousa), levar por diante uma política de limpeza de todos os resquícios revolucionários e ensaiar mesmo uma política de aproximação aos representantes do republicanismo democrático moderado. Afora da situação, a repressão a que dá lugar traduz-se em centenas de presos, deportados, exilados e mortos, milhares de feridos e avultados prejuízos materiais, ao mesmo tempo que são demitidos todos os funcionários públicos ? implicados e dissolvidas todas as unidades do Exército e da GNR directa ou indirectamente envolvidas nos movimentos. O desenrolar do processo de saneamentos faz-se acompanhar, na situação, por um aumento de apoios à Ditadura: internacionalmente, Inglaterra e Espanha felicitam o Governo na pessoa do Ministro da Guerra, tenente-coronel Passos Sousa, pelo modo eficaz com que combateu e dominou os revoltosos; no plano interno, a Ditadura firma-se nos sectores direitistas conservadores e na direita radical; no plano externo, Afonso Costa Álvaro Castro, Domingues Santos, Jaime Cortesão, António Sérgio, entre outros, lançam as bases para a criação da Liga de Defesa da República/Liga de Paris (LDR/LP). E, logo em Julho, no seu primeiro manifesto Ao País, a LDR/LP combate denodadamente as políticas financeira, económica e administrativa da Ditadura, especialmente as negociações levadas a cabo pelo ministro das Finanças, Sinel Cordes, junto da Sociedade das Nações (SDN), no sentido de obter um empréstimo externo que permitisse ao país efectuar um plano geral de restauração financeira, de estabilização monetária e de desenvolvimento económico. Nos dias seguintes, mais concretamente no dia 17, imponentes manifestações a favor do Governo tiveram lugar em frente ao Congresso (…) por centenas de pessoas representantes dos principais interesses económicos da capital, e por 150 estudantes das Universidades de Coimbra, Lisboa e Porto.
A crise aprofunda-se. Apesar da dívida externa para com a Inglaterra ser reduzida em Janeiro de 1927, esta não deixa de ter um importante peso nas despesas do Estado. A política de despesismo praticada com as Forças Armadas (repressão das revoltas de Fevereiro, rearmamento, novos equipamentos e pessoal), departamentos burocráticos do Estado, administrações coloniais e municipais reforçam igualmente, a par da concessão de elevados subsídios a empresas do sector privado, a política de esbanjamento que caracterizou a administração sineliana. Paralelamente, os sectores mais afectados pela crise, ligados à exportação, reclamam do Governo a estabilização monetária e o equilíbrio orçamental. Pressionado pelas evidências, Sinel Cordes tenta obter o referido crédito externo e, com isso, equilibrar a balança de pagamentos, manter o escudo estável e promover obras de fomento de base». In Cristina Faria, As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar, 1926-1932, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-201-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar. 1926-1932. Cristina Faria. «… amparado por personalidades afectas ao bloco conservador, liderado por Sinel Cordes, ao Integralismo Lusitano (IL) e à direita radical. … as hesitações do momento político não [davam] a qualquer esforço a menor garantia de êxito…»

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Enquadramento Político, Económico e Social da Ditadura Militar
«(…) A primeira destas clarificações termina em 17/6/1926 com o afastamento do comandante José Mendes Cabeçadas Júnior, chefe militar do movimento de Maio em Lisboa, pelo general Manuel Oliveira Gomes da Costa. Com efeito, após ter exigido a nomeação de um governo de carácter extra-partidário, constituído por republicanos que merecessem a confiança do País, Mendes Cabeçadas afasta o Partido Radical, encerra o Congresso da República e o Senado e, no dia 12 de Junho, recebe a carta de Bernardino Machado na qual o Presidente da República afirma não lhe ser possível continuar no exercício da suprema Magistratura da Nação. Demasiado comprometido com os partidos da República, Mendes Cabeçadas revela-se incapaz de congregar as várias facções republicanas e, após ter recusado aceitar o programa apresentado ao Governo pela direita político-militar no dia 14 desse mês, de autoria de Trindade Coelho, é arredado do poder quatro dias depois.
Estava assim afastada qualquer aparência de legitimidade constitucional do poder político. No dia 19 Gomes da Costa é nomeado Presidente do Ministério, e interino do Interior, amparado por personalidades afectas ao bloco conservador, liderado por Sinel Cordes, ao Integralismo Lusitano (IL) e à direita radical. Será, também neste caso, a sua incapacidade para gerir o equilíbrio entre as forças apoiantes o móbil para que uma representação de direita, composta por Sinel Cordes, Raul Esteves, Schiappa Azevedo, Mouzinho Albuquerque e Luís Domingues, exija a sua demissão (7/7/1926). Como bem afirma Oliveira Salazar, convidado por ambos os políticos, Cabeçadas e Gomes da Costa, para tutelar a pasta das Finanças, as hesitações do momento político não [davam] a qualquer esforço a menor garantia de êxito.
Defraudadas as aspirações reformistas do liberalismo republicano, arredadas as pretensões da direita radical, o general Óscar Carmona, representante do bloco militar conservador, chefia o 3.º Ministério da Ditadura Militar com Sinel Cordes à frente das Finanças (9/7/1926). Pareciam, finalmente, reunidas as condições de sólida governação para enfrentar os difíceis problemas administrativos, económicos e sociais em que o país se encontrava mergulhado. No entanto, o campo republicano ligado aos velhos partidos divide-se e protagoniza uma nova fase de clarificações políticas. Por um lado, a esquerda e a direita republicanas, partidárias respectivamente de uma via revolucionária contra a ditadura e de uma solução regeneradora por via legalista; por outro, a direita radical e fascizante, defensora da ruptura com o sistema liberal e apostada numa ortodoxia radical de construção de um Estado nacionalista baseado no corporativismo integral.
Sem nunca ter definido um programa, proposto uma táctica clara ou designado uma liderança, foi o sector republicano-conservador da ditadura quem deteve o poder, quer no governo quer nas Forças Armadas, entre Julho de 1926 e Janeiro de 1930. Mas em meados de Setembro de 1926 têm lugar as duas primeiras tentativas de rebelião contra a Ditadura Militar, prontamente dominadas pelas forças leais ao Governo: o capitão Alfredo Chaves, reviralhista, tenta sublevar o Regimento de Infantaria 19 em Chaves, e o integralista João Almeida, em Lisboa, perpetra uma tentativa de golpe de Estado que visava arrastar a situação mais para a direita. E se a investidura a título interino, do general Carmona na função de Chefe de Estado indiciava a tão desejada unidade, não deixa de ser evidente a constituição de um bloco anti-ditatorial grandemente favorecido pelo agudizar dos mecanismos de controlo e de repressão. E, ainda em Dezembro, a organização de um Comité Revolucionário liderado pelo general Adalberto Gastão Sousa Dias anuncia os intentos de revirar a situação». In Cristina Faria, As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar, 1926-1932, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-201-6.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

terça-feira, 14 de maio de 2013

As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar. 1926-1932. Cristina Faria. «No final dos anos vinte, a formação social portuguesa atravessa o momento crítico de uma prolongada crise económica que reforça a situação de dependência e de atraso que estruturalmente a caracterizam»

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Enquadramento Político, Económico e Social da Ditadura Militar
«(…) No entanto, a República procura a todo o custo equilibrar as finanças do Estado, reforma fiscal de Portugal Durão em 1922/23, inverter a tendência inflacionista e estabilizar o custo de vida; mas o clima de tensão social e o estado de insegurança política, três tentativas golpistas entre Agosto e Setembro de 1924, (será o que nos falta?) não reabilitam a confiança dos investidores, as associações patronais e os grandes grupos económicos organizam-se e, em Setembro de 1924, constituem a União dos Interesses Económicos, UIE, com o fim último de acabar com a desordem e a partidocracia. Porém, os milhares de desempregados produzidos pelo agravamento da crise, o início das deportações sem julgamento de activistas operários, desmantelando em grande parte a organização operária cuja imprensa se encontra em nítida regressão e os excessos das forças repressivas, vão operar uma determinante clivagem política. Em Novembro de 1924 a Esquerda Democrática, ED, de José Domingues Santos sobe ao poder. Segundo Fernando Medeiros, terá sido a natureza radical dos seus projectos, proposta de reforma agrária de Ezequiel Campos; política económica de apoio às pequenas e médias empresas; reconhecimento oficial da Confederação Geral dos Trabalhadores, CGT, libertação dos operários detidos nos meses anteriores e dissolução da Associação Comercial de Lisboa, ACL, que a fez cair em Fevereiro de 1925, mau grado as manifestações populares de apoio ao governo canhoto.
César Oliveira refere igualmente que a breve experiência de governo da Esquerda Democrática presidida por José Domingues Santos assustou as forças sociais e políticas mais conservadoras, dado representar uma saída com apoio popular para a crise da República. Simultaneamente, a reforma financeira não produz os efeitos esperados e o Partido Democrático agrava a pauta alfandegária. No entanto, os mercados nacional e colonial encontram-se em contracção e a falência de centenas de casas comerciais implica consequências de ordem social. É contra esta anarquia governativa que os militares de Braga se revoltam, contra uma República que experimentou 29 ministérios, 13 golpes militares, 4 eleições legislativas e 3 Presidentes da República entre 1919-1926 sem que o seu pessoal político tivesse conseguido granjear a confiança dos investidores e conservar a sua base tradicional de apoio, num processo que acaba por dissociar a tradicional base de apoio da República. A desagregação económica, social e política da República tornaria assim possível que as diversas oposições se aproximassem e se instalasse a crise de legitimidade dos bonzos do PRP.
Fernando Rosas resume:

  • No final dos anos vinte, a formação social portuguesa atravessa o momento crítico de uma prolongada crise económica que reforça a situação de dependência e de atraso que estruturalmente a caracterizam. Uma classe dominante enfraquecida, dividida por contradições, que a conjuntura agrava, sem um sector claramente hegemónico e sem capacidade de enquadramento de um movimento operário em declínio, mas com um passado recente de forte agressividade social e política, põe-se de acordo quanto à necessidade de um novo tipo de poder político.

Instaurada a28 de Maio de 1926, a Ditadura Militar não pôs, também ela, fim à instabilidade característica da República distinguindo-se, ao invés, pela luta activa que evidencia um dos períodos mais convulsivos da história política portuguesa deste século XX. Filha de grandes incertezas, hesitações e tergiversações, a Ditadura Militar sabia apenas para o que nascia: derrubar o partido identificado com António Maria Silva e afastar os homens do Partido Republicano Português das cadeiras do poder. Era esse o objectivo dos partidos e forças políticas consensualmente empenhados na obra de regeneração nacional sob a iniciativa das Forças Armadas.
No entanto, e apesar do objectivo comum, o levantamento não traz consigo qualquer programa previamente definido. É exactamente essa ambiguidade a responsável pelo florescimento de concepções as mais diversas acerca do modo de reformar ou romper com o regime vigente e futura condução dos destinos do país. Neste contexto, os objectivos contraditórios e radicalmente opostos apresentados por cada uma das forças políticas presentes dão origem a separações de interesses entre os revoltosos, aquilo que Fernando Rosas designou por clarificações no processo de transição da Ditadura Militar para o Estado Novo.
Até 1931, a Ditadura Militar caracteriza-se por um equilíbrio instável resultante da luta entre republicanos liberais e conservadores, por um lado, e forças antiliberais e antidemocráticas, por outro. Partidários da instauração de uma república conservadora, embora liberal e parlamentar, o primeiro bloco, com estreitas ligações com a elite militar conservadora e republicana, aposta numa mudança de turno que, dentro da legalidade constitucional, traga ao país a alternância necessária e coloque a ULR na direcção do Estado. E o grupo que se revê na direita republicana onde predominam o Partido Nacionalista, PN, e a ULR de Cunha Leal. O segundo bloco, apoiado pelas forças conservadoras em geral, monárquicos, integralistas e pró-fascistas, preconiza um corte radical com o passado e a Ditadura como um fim em si mesmo, garante da ordem e de uma política conservadora». In Cristina Faria, As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar, 1926-1932, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-201-6.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

domingo, 12 de maio de 2013

As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar. 1926-1932. Cristina Faria. «A juventude é a grande força da vida do homem; onde há sangue novo, há vigor, há certeza de triunfo; onde há cérebro moço, há ideias que fervilham, há ânsias de renovação, há ideias que remoçam»

Cortejo fúnebre do estudante do Instituto Industrial, João Martins Branco, falecido na sequência dos acontecimentos ocorridos no dia 28 de Abril de 1931 na Faculdade de Medicina do Porto. Na foto, o féretro descendo a Rua dos Clérigos numa imponente manifestação de pesar da Invicta (30/04/1931).
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Enquadramento Político, Económico e Social da Ditadura Militar
«Em 17 de Dezembro de 1923, Cunha Leal, em sessão pública realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa, defendia a restauração de um regime ditatorial regenerador e apelava à intervenção da única entidade que, na sua opinião, poderia salvar Portugal: as Forças Armadas, símbolo máximo da Pátria, ‘exemplo de disciplina’ e ‘garante da ordem’. Nesse ano em que a crise profunda, com início em finais de 1919, inícios de 1920, atinge um dos seus pontos altos com o fim do ‘pão político’, o capitão do Exército, mais tarde fundador da União Liberal Republicana (ULR), adivinha o papel preponderante que as Forças Armadas assumirão na ‘salvação nacional’ enquanto instrumento consensual entre as várias sensibilidades políticas presentes no momento e referência última da legitimidade do Estado.
E, de facto, quando em Braga os militares avançam com o movimento em 28 de Maio de 1926, sob a liderança do gen. Gomes da Costa, fazem-no com o objectivo explícito de salvar a Pátria da governação dos ‘bonzos’ do Partido Republicano Português (PRP). Mais do que instaurar um programa político definido, o levantamento preocupar-se-ia em arredar definitivamente da vida política portuguesa a governação corrupta, demagógica e autoritária dos democráticos de António Maria Silva, incapaz de solucionar, ou pelo menos minimizar, a crise financeira, económica e social endemicamente instalada no país. Urgia, portanto, substitui-la por um ‘regime de ordem’, de ‘excepção’, ‘que saneasse as finanças, relançasse a economia na metrópole e nas colónias e criasse as condições de uma nova ordem político republicana’.
As razões do agravamento da crise devem procurar-se no contexto de conflitualidade e instabilidade produzido pela entrada de Portugal na I Guerra Mundial. Os efeitos da economia de guerra ameaçam o país de fome. A carestia dos bens essenciais, o racionamento dos géneros alimentares e a descida dos salários agrícolas e industriais provocam, nas grandes cidades de Lisboa e Porto, assaltos a lojas e motins populares numa onda de agitação social que lança um movimento reivindicativo sem precedentes durante toda a República. Com a ‘República Nova’ de Sidónio Pais a agricultura conhece algum incremento produtivo através de uma política de favorecimento do sector, mas o movimento grevista só é contido pelas medidas brutais de repressão que lhe são infligidas.
No fim da guerra, a derrota das várias iniciativas militares pró-monárquicas reintroduz progressivamente as liberdades e os mecanismos constitucionais suspensos desde o golpe sidonista e a República tenta normalizar a sua situação, sobretudo através do Partido Socialista. Todavia, o desemprego mobiliza os protestos do movimento social contra a especulação, o açambarcamento e a diminuição do poder de compra por parte dos trabalhadores assalariados e dá-se entrada nos anos de 1920 / 21 com um adensamento das lutas e greves gerais. A balança de pagamentos acusa a diminuição do fluxo de remessas de emigrantes do Brasil, o escudo cai vertiginosamente e perde 20 vezes o seu valor em relação à libra. Consequentemente, a inflação galopante não permite que a subida dos salários seja proporcional à subida dos preços e ao aumento do custo de vida e a reacção social extrema-se.
As ‘revoltas da fome’ registadas nos anos de 1922 / 23 levam o Partido Democrático (PD) a favorecer os preços agrícolas como forma de conquistar os sectores mais moderados do campo e assegurar os abastecimentos na cidade e, em 19 de Agosto de 1923, Joaquim Ribeiro, ministro da Agricultura, abole o pão político, o pão barato subsidiado das cidades. O consequente aumento deste género alimentar determina violentas manifestações de protesto entre as classes de rendimentos inferiores motivando o que Fernando Medeiros designou como o último sobressalto da iniciativa sindicalista. Três meses depois, Ginestal Machado coloca o tenente-coronel Ferreira do Amaral à frente da Polícia e, em 24 de Dezembro desse mesmo ano, o governo de Álvaro de Castro nomeia Sá Cardoso para a pasta da Guerra; juntos, protagonizam o endurecimento da repressão contra o movimento operário e sindicalista.

A juventude é a grande força da vida do homem; onde há sangue novo, há vigor, há certeza de triunfo; onde há cérebro moço, há ideias que fervilham, há ânsias de renovação, há ideias que remoçam. In Virgílio Marinha de Campos, Liberdade, 27/4/1930

E o ano de 1924 começa com as ‘jornadas de Fevereiro’ contra a vida cara e o fascismos. Entre os dias 17 e 22 deste mês, têm lugar inúmeros comícios e manifestações organizadas por forças políticas e sindicais de esquerda contra as tentativas de instauração de um regime ditatorial de direita e exigindo a concretização de medidas tendentes à melhoria das condições de vida dos trabalhadores». In Cristina Faria, As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar, 1926-1932, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-201-6.

Cortesia de E. Colibri/JDACT