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domingo, 27 de setembro de 2015

De Princesa a Rainha-velha. Leonor de Lencastre. Isabel Guimarães Sá. «Para a nossa história, contam portanto os filhos sobreviventes: Leonor, Isabel, duquesa de Bragança, e Manuel, que foi rei de Portugal. Diogo fará apenas uma breve aparição nesta biografia, em que morrerá apunhalado pelo cunhado»

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Dona Leonor e os irmãos
«(…) O historiador nem sequer pode garantir que dona Leonor tivesse convivido da mesma maneira com todos os seus irmãos durante a infância. Sabemos, por indicadores indirectos, no entanto, que esteve muito ligada aos três irmãos que sobreviveram. De Diogo, arrancado da sua companhia quando andaria pelos 20 anos e ela 26, sabemos que a sua morte lhe causou um desgosto violento, embora dele tenhamos um único testemunho. Mas, na idade adulta, dona Leonor conviveu prolongadamente com os dois irmãos que lhe restavam. A irmã Isabel acompanhá-la-ia toda a vida, tendo casado com o único homem cuja posição na graduatória do poder estava acima do pai de ambas. Tratava-se de Fernando, duque de Guimarães, herdeiro do título de duque de Bragança, e que viria a morrer anos depois, em 1483, acusado de conspirar contra o primo João II. No entanto, por todo o século XVI, episódio da extinção da sua casa à parte, seriam os duques de Bragança distinguidos do ponto de vista protocolar com a posição imediata a seguir ao rei. Seria, de resto, terminada a União Dinástica, a casa senhorial de onde sairia o rei da nova dinastia dos Bragança, João IV aclamado em 1640.
Isabel morreria em Abril de 1521, e o outro irmão de dona Leonor, o rei Manuel I, em Dezembro do mesmo ano. Dona Isabel foi sepultada ao lado de dona Leonor, numa demonstração clara da relação que mantiveram em vida, consubstanciada na ligação ao Convento da Madre de Deus de Xabregas. Dos outros irmãos de dona Leonor, quatro morreriam crianças e praticamente não aparecem nas fontes: Catarina, Duarte, Dinis e Simão. Apenas há indícios de que Duarte viveu até aos 10 anos de idade, tal como o filho varão mais velho, que, por herdar a casa e o título do pai, aparece mais vezes. Note-se que, mesmo que dona Leonor fosse mais velha do que os irmãos, estava fora de questão suceder fosse no que fosse em havendo herdeiros masculinos. Apenas no caso de estes desaparecerem podia o rei criar uma situação de excepção, autorizando-a a suceder. João morreria sem casar sucedendo no estado de seu pai, com pouca idade, cerca de 10 anos. No seguimento da morte do pai, a mãe tomou posse da ilha da Madeira em seu nome, em Outubro de 1470. Em Janeiro de 1473, no entanto, já Diogo, o irmão a seguir, lhe herdava o património, com excepção do mestrado da Ordem de Santiago, que com prazer e consentimento da dita infante [D. Beatriz] foi dado ao príncipe. Chegou este irmão à idade adulta, embora não tivesse vivido além dos 20 anos, idade em que foi morro pelo próprio rei, acusado de traição. Quanto ao irmão mais novo, Manuel, rei felicíssimo que foi destes reinos, viveria até aos 52 anos de idade, tendo morrido em 1521 após vinte e seis anos de reinado. Para a nossa história, contam portanto os filhos sobreviventes: Leonor, Isabel, duquesa de Bragança, e Manuel, que foi rei de Portugal. Diogo fará apenas uma breve aparição nesta biografia, em que morrerá apunhalado pelo cunhado. Deste trio que viveu até aos anos 20 do século XVI, Leonor, Isabel e Manuel, ficar-nos-á, no entanto, uma impressão de proximidade afectiva e de intimidade familiar.

Criação e educação de dona Leonor
Aproveito também para explicar, em jeito de nora, que tenho estado a usar termos de parentesco habituais nos nossos dias, mas que as pessoas desta época não conheciam. Palavras como sogro, sogra, nora, genro, cunhado, cunhada, entre outros, não constam na documentação. Em vez delas, usam-se pai, mãe, filho, filha, irmão e irmã. Ou seja, o casamento criava um prolongamento daquilo que hoje entendemos por família biológica (ou pelo menos imediata) no sentido estrito. Existiam no entanto os termos primo/a, tio/a com o mesmo sentido que têm actualmente. E, ainda, uma palavra especial para significar parentesco: o devido, que em muitos casos indica mesmo a existência de uma dívida, ou seja, de obrigações para com os parentes. Falava-se justamente em maior devido, para explicar que, devido à proximidade de parentesco, os deveres recíprocos aumentavam. É este portanto o quadro em que nos movemos: por uma questão prática usarei as actuais designações de parentesco, não sem ter explicado que tinham valências diferentes para a época a que nos reportamos.
Não sabemos que tipo de educação dona Beatriz deu aos filhos, nem como os criou. É pouco provável que tivesse amamentado qualquer um deles, porque o costume mandava dar os filhos a uma ama. Dona Leonor teve a sua ama, porque o sistema de reprodução nas casas nobiliárquicas assim o obrigava: as mulheres tinham uma sucessão de partos, sendo necessário evitar os períodos de infertilidade propiciados pela amamentação. O seu sucesso enquanto esposas media-se pela capacidade de dar à luz, e não havia limites para o número de filhos a gerar. Afinal, era o próprio tempo a recolocar as coisas no seu lugar: muitas das crianças acabavam por morrer. Entre os reis portugueses, pode comparar-se o rei Manuel I com João III: o primeiro teve treze filhos, dos quais nove chegaram à idade adulta e o segundo, dez, mas nenhum ultrapassou a idade de 20 anos. A sua última biógrafa falou precisamente em estrelas funestas, para designar a sucessão de mortes ocorrida entre os filhos de João III. Alguns historiadores falam em lotaria demográfica para designar a imprevisibilidade do número de filhos sobreviventes num determinado casal, bem como o eventual desequilíbrio entre o número de filhos e filhas». In Isabel Guimarães Sá, De Princesa a Rainha-velha, Leonor de Lencastre, colecção Rainhas de Portugal, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-709-0.

Cortesia de CLeitores/JDACT

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

De Princesa a Rainha-velha. Leonor de Lencastre. Isabel Guimarães Sá. «A turbulência que se verificava nesta ‘era da conspiração’, tinha a ver, ou com a evolução das repúblicas para monarquias, ou com monarquias onde a distância entre o rei e a aristocracia…»

Porta da sacristia da igreja de NSª do Pópulo
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Ambições de mãe: dona Beatriz e os filhos
«(…) Para mim é clara, e explico-a por mero exercício de honestidade intelectual: por toda a Europa assistimos à criação de um Estado territorial soberano, dentro do qual não há lugar para que várias famílias compitam com a do rei. O princípio da primogenitura, embora já existisse no que toca à sucessão do trono, não era acompanhado por um poder senhorial, territorial e económico condizente, o que levava a contínuas lutas pelo poder no seio da mesma família, ou entre famílias rivais, por vezes aparentadas entre si. A turbulência que se verificava nesta era da conspiração, como lhe chamou Lauro Martines, tinha a ver, ou com a evolução das repúblicas para monarquias, como é o caso de Florença, ou com monarquias onde a distância entre o rei e a aristocracia não era ainda suficiente para o impor como chefe incontestado.

Dona Leonor e os irmãos
Leonor foi, assim, uma entre muitos irmãos. Podemos enumerá-los, embora não saibamos se por ordem de idades, porque desconhecemos o ano do nascimento de todos eles, com excepção de dona Leonor e Manuel: Isabel, Catarina, João, Diogo, Duarte, Dinis, Simão e, finalmente, o irmão mais novo, Manuel. É Damião de Góis quem fornece a lista na sua Crónica de D. Manuel, mas na sua Crónica do Príncipe D. João omite o nome de Catarina, que deve ter sido justamente um destes filhos que desaparecem das fontes em razão da sua curta existência. Mas, se lermos a crónica de Afonso V de Rui Pina, omite-se também Dinis pelas mesmas razóes. De resto, deparei-me com as mesmas dificuldades de outros historiadores ao tentar fixar as datas de nascimento de todos estes irmãos, bem como do ano da morte relativamente aos que morreram.
Em criança, dona Leonor terá tido oportunidade de conviver com alguns desses irmãos falecidos. Nem todos (ao contrário de Catarina, Simão e Dinis) morreram na primeira infância: João, o mais velho, viveu pelo menos até aos 10 anos, bem como Duarte. O que não quer dizer que vivessem juntos: nestas sociedades era hábito confiar as crianças a outras pessoas para as criarem, e sabemos que Duarte foi criado na casa do príncipe, ou seja, do futuro João II. Diz a crónica: e o terceiro filho houve nome Duarte, que o príncipe recolheu para si, e criando-o em sua casa com muita honra e grande amor como próprio filho, faleceu em moço. Os historiadores têm chamado atenção para este sistema de circulação de crianças, em que existem várias modalidades através das quais estas abandonam a família biológica muito antes da idade adulta ou até da adolescência. Os pais confiavam-nas a terceiros, embora em situações muito diversificadas: entregando-as a uma ama que as amamentasse; confiando os rapazes a um aio que acompanhava o seu crescimento e educação; dando-as a criar a nobres de estirpe mais elevada, entre as quais o rei. Nesse caso, tratamos dos fidalgos de criação do rei, ou criados, como são muitas vezes designados nas crónicas. Havia ainda as crianças abandonadas ou expostas, os filhos confiados a mestres de oficinas para aprenderem um ofício, as crianças que eram postas a trabalhar como servidores domésticos, etc. Mesmo a emigração ou a incorporação em forças militares se fazia muito cedo, cerca dos 12 anos. Embora não abrangesse a totalidade das famílias, muitas conservavam os filhos durante todo o processo de crescimento, a circulação de crianças atravessava todas as condições sociais e económicas, generalizando-se a toda a sociedade». In Isabel Guimarães Sá, De Princesa a Rainha-velha, Leonor de Lencastre, colecção Rainhas de Portugal, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-709-0.

Cortesia de CLeitores/JDACT

De Princesa a Rainha-velha. Leonor de Lencastre. Isabel Guimarães Sá. « É interessante verificar que Afonso V ao beneficiar os filhos do seu falecido irmão, tivesse sempre o cuidado de dizer que o fazia com o consentimento do príncipe seu filho»

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Uma mãe eficiente: dona Beatriz, infanta e neta do duque de Bragança
«(…) Retenhamos um aspecto fundamental da nossa biografada: o seu casamento com o herdeiro do trono era consequência de uma importância dinástica e económica que o antecedia. Quase que podemos dizer que foi o rei que casou acima e não o inverso. As relações que manterá com o marido espelham em grande parte esta relação de forças. E aqui tomamos um dado fundamental em que a historiografia sobre as rainhas reúne consensos: o poder que estas últimas detinham não era uma consequência constitucional, mas sim o efeito da sua riqueza e linhagem.

Ambições de mãe: dona Beatriz e os filhos
Vários documentos comprovam que a infanta dona Beatriz esteve atenta a tudo quanto pudesse assegurar e melhorar o futuro dos filhos na sua relação com a Coroa. Afinal, eram filhos do número dois na sucessão ao trono, e Afonso V estava longe de deter a mesma capacidade de sucessão: possuía apenas uma filha e um filho e mantinha-se viúvo, contra os nove filhos que nasceram a dona Beatriz. Era portanto uma aposta natural naquele mundo e num meio em que a sucessão dinástica detinha uma importância crucial. Após a morte do marido em Setembro de 1470, conseguiu que Afonso V abrisse um parêntese na Lei Mental para beneficiar os seus filhos varões mais novos. Passo a explicar: a Lei Mental, promulgada pelo rei Duarte I em 1434, pretendia que os bens da Coroa doados pelo rei fossem herdados apenas pelos filhos varões legítimos primogénitos. Tentava-se deste modo assegurar algum controlo régio sobre as doações de património da Coroa, multiplicando as situações em que estas poderiam voltar à posse directa do rei.
Uma das resoluções da lei era que, no caso de o rapaz mais velho falecer, não só a herança não só ficava automaticamente para o irmão a seguir, como voltava para a posse da Coroa. Dona Beatriz conseguiu logo em 1471 que Afonso V sancionasse a possibilidade de o seu filho Diogo herdar de seu irmão João, que, de facto, veio a morrer no ano seguinte. Mais uma vez, os Apontamentos históricos, já mencionados fornecem a data exacta da sua morte, até agora desconhecida: 16 de Agosto de 1472. Dona Beatriz obteve também do rei, seu primo e cunhado, os privilégios e liberdades de infantes do reino para os seus dois filhos mais velhos, João e Diogo. Tratava-se de um importante beneficio, uma vez que assegurava várias prerrogativas às terras que detinham, entre elas a de não fazer entrar corregedores do rei, passando a justiça senhorial nelas praticada a ser autónoma em relação à justiça régia. Estava-se então nas vésperas da concretização do casamento da filha mais velha do infante Fernando e dona Beatriz, dona Leonor, que a tornaria princesa, porque casada com o príncipe herdeiro João.
Mas, como vemos, dona Beatriz ia urdindo a sua teia, e esta dizia respeito a todos os seus filhos, pelo menos àqueles que iam sobrevivendo à elevada mortalidade infantil da época. Nem tão-pouco deixava de pugnar para conservar e até acrescentar o património que o ambicioso marido construíra em vida. Em jeito de sumário, retenhamos que uma sucessão de privilégios foi aumentando a importância da família do duque de Viseu e Beja. Pouco a pouco, foi-se estreitando um cerco em torno do rei e do seu filho, primeiro pelo infante Fernando, que combinou o casamento das filhas, e depois por dona Beatriz, que se encarregou de concretizar estes últimos e de consolidar a situação dinástica dos seus filhos rapazes.
É interessante verificar que Afonso V ao beneficiar os filhos do seu falecido irmão, tivesse sempre o cuidado de dizer que o fazia com o consentimento do príncipe seu filho. Se era verdade nessa época, não o sabemos, mas a disposição de João II, subido ao trono, seria tudo menos confirmar os privilégios da família dos tios de mão beijada, como o seu pai fizera. O futuro reservaria poucas ocasiões que permitissem imprudências a dona Beatriz. Ao contrário de Afonso V, que parece ter tido ao longo da vida uma singular incapacidade de dizer que não, João II estaria disposto a não fazer mais cedências do que as estritamente inevitáveis. Vários indícios comprovam que teve de facto uma visão negativa do comportamento do pai para com a grande fidalguia do reino. Eu sigo a velha ideia, patente em muitos historiadores mais antigos, de que Afonso V foi demasiado liberal com os grandes e que João II quis fortalecer o poder da Coroa, ou seja, da sua casa, logo desde o início do seu reinado. A historiografia mais recente, no entanto, tem visto esta questão sob uma perspectiva diferente; outros autores, com receio de enfrentar um discurso hegemónico, furtaram-se a esta questão». In Isabel Guimarães Sá, De Princesa a Rainha-velha, Leonor de Lencastre, colecção Rainhas de Portugal, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-709-0.

Cortesia de CLeitores/JDACT

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

No 31. De Princesa a Rainha-velha. Leonor de Lencastre. Isabel Guimarães Sá. «Apesar de não nos ser dito que dona Leonor foi a mais velha, parece ter sido o caso, ainda que continue por explicar o que aconteceu nos anos entre 1447 e 1458, isto é, entre a data do casamento e o nascimento de dona Leonor»

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Uma mãe eficiente: dona Beatriz, infanta e neta do duque de Bragança
«(…) Em primeiro lugar, os dados brutos: só em ouro totalizava 22,5 marcos e 6 oitavas, e a prata 483,5 marcos e 5 oitavas, isto é, o equivalente a 5,1 quilo de ouro e 111 quilo de prata. Eram de ouro as jóias de seu corpo, e de prata muitos dos objectos necessários à sua câmara. Por outro lado, trata-se de um enxoval cujo uso era colectivo e se estendia a uma comunidade de mulheres, uma vez que as damas da infanta aparecem referidas em muitos dos itens. Para elas, havia uma mesa marchetada (isto é, com embutidos), munida de castiçais e saleiros; uma profusão de peças de roupa entre cotas (vestidos), opas e crespinas (toucas ou véus), e várias camas munidas de todo o necessário (colchões, travesseiros, lençóis, etc.). Um total de cerca de trinta arcas e cofres que continham uma extrema variedade de objectos de uso pessoal e doméstico, incluindo as peças mais prezadas enquanto consumos de prestígio.
Havia uma capela completa para as devoções e funções religiosas privadas, de que faziam parte livros litúrgicos (um missal e um breviário), uma vestimenta para um sacerdote e uma sobrepeliz para um capelão, castiçais para o altar, um cálice e uma custódia, a cruz do altar, a naveta para guardar o incenso e o turíbulo para queimar e espalhar o seu fumo, um porta-paz, uma caldeira com hissope para aspergir água benta, galhetas para guardar os santos óleos. Não faltavam também objectos de uso profano como o tabuleiro de xadrez, ou os essenciais e muito prestigiosos objectos de toilette, os espelhos e pentes. Também se incluíam numerosos objectos para levar à mesa, em que não faltavam as confeiteiras (para doces) e os oveiros (para ovos). Sinais de distinção que, mais do que fornecerem os equipamentos necessários à vida doméstica e aos cuidados do corpo e alma, simbolizavam o estatuto régio da noiva e recordavam ao noivo o dever de o respeitar. Estava portanto a infanta dona Beatriz suficientemente provida de bens necessários ao seu novo estado. Vejamos o que aconteceu nos vinte e três anos em que esteve casada com o infante Fernando, antes de enviuvar em 1470.
Teve, segundo consta, nove filhos, o que significa que cumpriu o que se esperava de uma nobre de alta estirpe em termos de reprodução biológica. Se tivermos em conta que pode ter tido desmanchos, filhos mortos à nascença ou de poucos dias que raramente deixavam vestígios documentais, provavelmente teríamos muito mais gravidezes. Mesmo os filhos de reis e rainhas em exercício só são mencionados extensivamente nas crónicas quando vieram a ser herdeiros ou herdeiras do trono. Quando o marido morreu, João era o filho mais velho, dado como tendo 10 anos, ou seja, menos dois do que a irmã. Apesar de não nos ser dito que dona Leonor foi a mais velha, parece ter sido o caso, ainda que continue por explicar o que aconteceu nos anos entre 1447 e 1458, isto é, entre a data do casamento e o nascimento de dona Leonor. Teriam tido filhos entretanto mortos? Ou teria havido um longo período de infertilidade, seguido por muitos filhos?
Dona Beatriz sobreviveu mais de trinta e seis anos ao marido, e assumiu por inteiro o comando da família durante a menoridade dos filhos, em nome dos quais administrava o património da casa, uma grande fortuna e um enorme poderio territorial. Sogra do rei, sogra do duque de Bragança, o número dois no ranking do poder monárquico, tutora de seus filhos rapazes menores, tia da rainha de Castela, Isabel a Católica. Ao mais velho estava destinada a sucessão do mestrado da Ordem de Cristo, mas dona Beatriz assumiu durante breve espaço de tempo a chefia da mesma, na qualidade de tutora de seu filho. Não é difícil imaginá-la como uma mulher autónoma. A sua independência, no entanto, sofria de uma desvantagem que a filha dona Leonor não terá aquando da sua também prolongada viuvez. É que, enquanto mãe de filhos do sexo masculino, dona Beatriz ficaria dependente da sua generosidade e debaixo da sua autoridade quando atingissem a maioridade. Aconteceu com Diogo e mais tarde com o filho Manuel, duque de Beja e depois rei, que lhe pagava uma generosa tença. Dona Leonor seria uma viúva sem filhos, pelo que gozaria de maior autonomia.
De resto, fazemos aqui um parêntese importante para explicar algo de crucial: pela via materna, a rainha dona Leonor fazia a ponte com os Bragança de forma dupla. Por um lado a sua mãe, dona Beatriz, era neta de Afonso, conde de Barcelos, 1.º duque de Bragança e filho ilegítimo do rei João I, e por outro a sua irmã dona Isabel era casada com o terceiro duque do título, Fernando. E já agora uma segunda ligação dinástica importante: a irmã de dona Beatriz, Isabel, era mãe Isabel, a Católica, sendo esta última, portanto, sua sobrinha, e prima direita de dona Leonor. De resto, a avó materna de dona Leonor morreria em Arévalo, onde se juntara à filha (e mãe de Isabel, a Católica) que sofria de perturbações do foro mental. Portanto, dona Leonor, por via de sua mãe, não deixava de ser também uma Bragança, e, demonstrou apego a estes laços de parentesco durante toda a sua vida. Dona Leonor pertencia a uma família cuja linhagem tinha pertenças múltiplas relativamente a duas casas que podiam contender o poder dinástico ao príncipe e depois rei seu marido: os Bragança e os Reis Católicos». In Isabel Guimarães Sá, De Princesa a Rainha-velha, Leonor de Lencastre, colecção Rainhas de Portugal, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-709-0.

Cortesia de CLeitores/JDACT

domingo, 30 de agosto de 2015

De Princesa a Rainha-velha. Leonor de Lencastre. Isabel Guimarães Sá. «… um reino empobrecido, um património real secundário face à soma do dos dois ducados de Bragança e Viseu. Para João II, arriscamos, a família “rica”, seria a da mulher e não a dele. E a mãe, dona Beatriz? E os irmãos de Leonor?»

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Um pai ambicioso. O infante Fernando, irmão do rei Afonso V
«(…) O autor ou autores dos Apontamentos históricos, dão no entanto um timing diferente para este acordo: verificou-se logo a seguir à expedição em que o infante Fernando conquistou Anafé com autorização do irmão, em 1468. Reza o texto: … neste tempo depois da vinda do infante Fernando acabou ele de firmarde tudo com el rei seu irmão o casamento da senhora dona Leonor sua filha com o príncipe João; e assim consertou outro da senhora dona Isabel também sua filha legítima com o conde de Guimarães e el rei por mais enobrecimento deste casamento o fez duque da mesma vila de Guimarães sendo ainda vivo o duque de Bragança seu pai por cuja morte sucedeu o título de dois ducados e etc. Aos 10 anos, estava já a nossa rainha prometida ao herdeiro do trono, e sua irmã ao futuro duque de Bragança. Filhas arrumadas, portanto. Com uma importante consequência, que devemos desde já assinalar. Vistas as coisas pelo lado do futuro João II, agora comprometido, estavam cortadas as hipóteses de fazer outros arranjos matrimoniais. Com efeito, poucos anos antes, em 1465, a irmã de ambos, Joana, casada com o rei de Castela Henrique IV, viera pedir ajuda contra os nobres que se levantavam contra o marido, tendo falado do casamento tanto do rei viúvo como do seu herdeiro. Os casamentos não foram por diante, mas as noivas em perspectiva eram a sua filha muito pequena, Joana, e Isabel, meia-irmã do rei, e depois conhecida por a Católica. Estes planos deviam ser do conhecimento do próprio duque de Viseu, que assim punha termo a quaisquer projectos, interpondo a sua filha entre Afonso V e a família real castelhana, O que terá consequências futuras.
Os sucessores do infante Fernando, nomeadamente a sua viúva, tratariam dos detalhes do negócio com o seu irmão Afonso V. A outra filha, Isabel, nascida depois de dona Leonor, viria a casar pela mesma altura. Uma sequência que, de resto, não tinha nada de aleatório: nos jogos das uniões dinásticas, a filha mais velha, a não ser que tivesse algum defeito, era sempre dada ao noivo mais importante. E é quase tudo o que se pode dizer acerca do pai e da filha, e apenas podemos especular sobre as recordações que esta última teve do pai na sua idade adulta. Recordá-lo-ia ao lado da mãe, em Beja, preparando a criação do Mosteiro da Conceição? Ou como cavaleiro, aprontando expedições a África? Ou como governador das ordens militares de Santiago e de Cristo? Ou, pelo contrário, tinha dele uma imagem ficcionada, alterada pelas recordações e narrativas dos outros? Em todo o caso, relembre-se que, à semelhança de muitas crianças não só das famílias reais como das outras, dona Leonor ficou sem pai muito cedo, e não deixou de ser, embora rica e bem nascida, uma órfã. Numa época em que a esperança de vida era curta e a mortalidade elevada, ficar sem pais durante a infância era um destino relativamente comum.
Relembre-se que esse estatuto era dado a todas as crianças cujo pai, natural detentor do poder paternal, tinha morrido ou não existia, o que fazia com que os que tivessem o pai vivo mas não a mãe não fossem considerados órfãos. Por exemplo, o príncipe João (futuro João II), embora sem mãe desde os sete meses, não era um órfão à face da lei. Dona Leonor foi-o, mas uma órfã para quem o pai teve tempo de cumprir o seu dever antes de morrer: arranjar-lhe um casamento vantajoso. Mesmo sem sabermos o que a figura paterna representou para a filha, adivinhamos o que o tio Fernando pode ter significado para João II: um reino empobrecido, um património real secundário face à soma do dos dois ducados de Bragança e Viseu. Para João II, arriscamos, a família rica, seria a da mulher e não a dele. E a mãe, dona Beatriz? E os irmãos de Leonor?

Uma mãe eficiente: dona Beatriz, infanta e neta do duque de Bragança
 mãe, tinha também reis entre os seus antepassados, sendo neta pela via paterna e materna do fundador da dinastia, o da Boa Memória, João I (1357-1385-1433). Como dissemos, era filha de um dos seus filhos legítimos, infante João, que tinha por sua vez casado com a meia-prima dona Isabel, filha de Afonso, 1.º duque de Bragança, bastardo de João I, e portanto também sua neta por via ilegítima. Casou com o infante Fernando em 1447, mas o seu contrato foi assinado dois anos antes. O seu enxoval é conhecido e encontra-se publicado: … jóias e corregimentos, que recebeu de sua mãe, dona Isabel de Bragança. Às mães competia zelar para que as filhas levassem para o casamento todos os objectos necessários ao corpo e casa. O enxoval de dona Beatriz é elucidativo sob vários pontos de vista, e necessita de um estudo que o enquadre na história da cultura material tardo-medieval, comparando-o com o de outras noivas de estirpe régia». In Isabel Guimarães Sá, De Princesa a Rainha-velha, Leonor de Lencastre, colecção Rainhas de Portugal, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-709-0.

Cortesia de CLeitores/JDACT

domingo, 16 de agosto de 2015

De Princesa a Rainha-velha. Leonor de Lencastre. Isabel Guimarães Sá. «Segundo Góis, os acordos deste casamento foram tratados em 1466, isto é, aos 8 anos de Leonor e 11 do príncipe. O autor ou autores dos Apontamentos históricos, dão no entanto um timing diferente para este acordo»

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Um pai ambicioso. O infante Fernando, irmão do rei Afonso V
«(…) Com a morte deste em 1460, começou o infante a receber os seus bens: os arquipélagos da Madeira e Açores e as quatro ilhas que então se conheciam do arquipélago de Cabo Verde. Entre estas ilhas, avulta a da Madeira, pela importância económica que detinha então o açúcar que nela se produzia, e de que voltaremos a falar. Mas continuou o infante Fernando a acumular património: ficou também com o monopólio das saboarias, o fabrico do sabão não era acessível a particulares, e obteve do papa em 1461 o mestrado da Ordem de Cristo, em concorrência com o próprio rei seu irmão, que também o pretendeu para a sua família. Em 1464, seria a vez de receber Lagos. Junte-se a estes bens de natureza territorial (acompanhados, como se sabe, das prerrogativas jurídicas próprias dos senhorios medievais) os seus interesses na expansão africana, que motivaram várias expedições a Marrocos, e os negócios decorrentes da expansão marítima. Sebastiana Lopes, cujo trabalho temos estado a seguir apoda a sua ambição de desmedida, e chama também a atenção para a incapacidade de Afonso V em fazer frente à avidez do irmão.
O infante Fernando rivalizava ainda com o poderio da maior casa titular portuguesa em tamanho, estamos a falar dos Bragança, com a vantagem de apresentar um território contínuo, ainda para mais de fronteira, enquanto o duque de Bragança tinha os seus senhorios espalhados por todo o reino. Nessa época, a localização de territórios junto à raia significava uma capacidade de organização do ponto de vista militar que conferia grande força aos seus detentores. De resto, o alinhamento de Fernando ao lado do seu irmão em Alfarrobeira, pela força militar com que participou na luta contra o regente Pedro, tinha sido decisivo na vitória da facção do jovem rei. A importância de Fernando na cena familiar régia é de resto confirmada por indicadores indirectos. O infante aparece sempre em lugar de destaque nas cerimónias oficiais. O que não admira, uma vez que seria rei em caso de morte de Afonso V: terá sempre carácter de suplente ao longo da sua vida, que de resto transmitirá à sua descendência com consequências funestas. O seu filho Diogo, como veremos, morrerá às mãos de João II acusado de conspirar contra ele para tomar o seu lugar no trono. Fernando estará presente ao lado do rei em 1451, aos 18 anos, no casamento da irmã de ambos, dona Leonor, com Frederico, imperador da Alemanha. Nas profusas cerimónias descritas por um dos embaixadores do noivo, Nicolau Lanckman de Valckenstein, aparece sempre em lugar imediato ao rei, juntamente com o infante Henrique. Em todas as ocasiões é ele claramente o número dois: quando se apresenta com a sua corte (expressão usada pelo cronista) no desfile, em que todos vestem da mesma cor, ou mais tarde quando desafia o rei para uma justa.
Do mesmo modo, foi o infante que levou nos braços à pia baptismal o seu sobrinho João, depois João II, quando o menino foi conduzido sob um pálio pelas ruas de Lisboa descendo dos paços da Alcáçova à Sé. Foi em 1455, aos oito dias depois que a rainha pariu, que foram 11 do dito mês de Maio. Os paços da Alcáçova situavam-se no castelo de São Jorge, pelo que pode imaginar facilmente a distância percorrida pelo cortejo até à Sé Catedral de Lisboa. Nesse mesmo ano ou no seguinte, Damião de Góis não tinha a certeza, o infante Fernando foi também armado cavaleiro, acompanhado por mil tochas, levadas por quatrocentos cavaleiros e seiscentos escudeiros dos mais luzidos da corte, todos vestidos de um trajo, e libré, (aqui o nosso cronista não hesitou nos números). A data incerta de Damião de Góis é precisada num códice da Biblioteca da Ajuda que corresponde a notas destinadas a serem usadas na escrita das crónicas, de autores desconhecidos, e a que se deu o título de Apontamentos históricos. Nele se afirma que o duque foi de facto armado cavaleiro a 25 de Agosto de 1455, isto é, no mesmo ano em que o futuro João II nasceu. O infante Fernando teve nove filhos com sua mulher, e fundou com ela um convento importante, Nossa Senhora da Conceição de Beja, da observância franciscana, que haveria de ser também o panteão da família, por obra e graça da sua viúva dona Beatriz, que continuou o labor da fundação do convento depois da sua morte.
Interroga-se sobre as relações que dona Leonor teria tido com seu pai. Fraca pergunta, porque impossível de responder. As fontes não nos dão quase nunca esse tipo de informação. Em todo o caso, o pai morreu novo, tendo a filha apenas 12 anos. Como para muitos outros antes e depois dele, dona Leonor foi seguramente uma filha para dar em casamento a um aliado. Mesmo tendo morrido cedo, o pai teve tempo de a apalavrar para casar com o menino que levara nos braços à pia baptismal, o sobrinho João. Segundo Góis, os acordos deste casamento foram tratados em 1466, isto é, aos 8 anos de Leonor e 11 do príncipe. O autor ou autores dos Apontamentos históricos, dão no entanto um timingdiferente para este acordo: verificou-se logo a seguir à expedição em que o infante Fernando conquistou Anafé com autorização do irmão, em 1468». In Isabel Guimarães Sá, De Princesa a Rainha-velha, Leonor de Lencastre, colecção Rainhas de Portugal, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-709-0.

Cortesia de CLeitores/JDACT

terça-feira, 4 de agosto de 2015

De Princesa a Rainha-velha. Leonor de Lencastre. Isabel Guimarães Sá. «A posse destas terras transformou-o, juntamente com o cargo de fronteiro-mor, no maior senhor do Sul do reino. Foi a partir desta época que recebeu o título de duque de Beja, a que juntaria mais tarde o de duque de Viseu…»

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De Menina a Mulher. Os primeiros treze anos (1458-1471)
«Nasceu dona Leonor a 2 de Maio de 1458. Será preciso informar acerca da estirpe da recém-nascida, mais do que sobre as circunstâncias de tempo e lugar, que de resto se ignoram, tirando sabermos que nasceu em Beja. A família dos seus pais era uma só: a descendência de João I e de dona Filipa de Lencastre, os fundadores da dinastia de Avis, que naqueles tempos e naquelas pessoas era bom casar entre primos. Fernando e dona Beatriz, os pais de dona Leonor, eram ambos netos do rei fundador. Ele, filho segundo do rei Duarte I, irmão de Afonso V e neto de João I; ela, filha do infante João (1400-1442), sétimo filho de João I e de dona Filipa de Lencastre. A seu tempo, também dona Leonor casaria com um primo coirmão.

Um pai ambicioso. O infante Fernando, irmão do rei Afonso V
Detenhamo-nos um pouco sobre a figura paterna, que, se não explica tudo, parece configurar boa parte do que se passou depois na família real portuguesa. Foi Fernando o escolhido por seu tio, o infante Henrique, de seu cognome o Navegador (??), que haveria de morrer dois anos depois do nascimento desta sua sobrinha sobre quem se escreve, para lhe suceder na sua vastíssima fortuna. Um primeiro testamento do infante Henrique, que dizem ter sido feito para agradar ao rei Duarte I e apaziguar a sua eventual inveja perante o sucesso económico do irmão, fazia de Fernando o seu herdeiro universal, já transformado em seu filho adoptivo através de uma perfilhação datada de 1436. Ainda que os historiadores que estudaram a questão de perto tenham mencionado a posterior invalidação do testamento, não deixaram de referir que na prática este sobrinho veio a herdar o grosso dos avultadíssimos bens do tio. Pelo tanto, encontraremos o infante Fernando a herdar o título, duque de Viseu e os importantíssimos senhorios do infante Henrique. Mas, se olharmos de perto, a herança do tio e pai adoptivo foi apenas uma de três componentes da fortuna de Fernando: as outras duas incluem o facto de ter sido o sucessor do sogro, que ficou sem filhos homens para lhe suceder, e o de ter ele mesmo agenciado fortuna própria.
A escalada da riqueza e poder de Fernando, duque de Viseu, foi em crescendo desde a sua mais tenra idade. Aos 11 anos foi nomeado mestre da Ordem de Santiago, dominando atravrés dela um território que compreendia a península de Setúbal, grande parte do Baixo Alentejo e ainda alguns lugares do Algarve. A juntar também os elevados rendimentos da ordem, de que recebia uma parte. Por essa razão, vamos encontrá-lo diversas vezes em Palmela, Alcácer do Sal e Setúbal, cenário de alguns momentos fundamentais da sua vida e da da sua família próxima. Em 1447, aos 14 anos, casou com a prima dona Beatriz, filha do infante João e de dona Isabel, filha do primeiro duque de Bragança, e neta de Nuno Álvares Pereira. Por vicissitudes várias dos irmãos da mulher, o infante Fernando acabou por ser o principal herdeiro do infante João, seu sogro, morto em 1442 (entre a herança recebida constava o mestrado de Santiago). No ano seguinte ficou com o posto de fronteiro-mor do Alentejo e Algarve, também em substituição do sogro. Afonso V seu irmão, retirou ainda o cargo de condestável ao filho do regente Pedro, e a vitória de Alfarrobeira confirmou-o nestes três lugares de natureza militar: mestre de ordem religioso-militar, fronteiro-mor e condestável. Como se sabe, Alfarrobeira constituiu o remate da tensão crescente entre várias facções da nobreza, em torno do jovem Afonso V contra os partidários do seu tio Pedro, duque de Coimbra e regente na sua menoridade. A batalha deu-se a 20 de Maio cie 1449, consagrando a vitória da facção do rei, apoiada pelo duque de Bragança.
O conflito teve como rastilho o facto de este último ter feito queixa a Afonso V na sequência da recusa do infante Pedro em deixá-lo passar com a sua hoste nas suas terras, uma vez que se dirigia de Bragança a Lisboa. Relato este conflito aqui porque, juntamente com os que terão lugar em vida da rainha, durante a década de 1480, são as duas grandes manifestações de conflitos internos que dividiam a corte naqueles anos. É importante referir que a família da nossa rainha estava ligada aos Bragança e à facção vencedora, e que seu pai beneficiou com a derrota das forças chefiadas peio infante Pedro. Em 1453 o infante Fernando recebeu em doacção de Afonso V as vilas de Beja, Serpa e Moura. A posse destas terras transformou-o, juntamente com o cargo de fronteiro-mor, no maior senhor do Sul do reino. Foi a partir desta época que recebeu o título de duque de Beja, a que juntaria mais tarde o de duque de Viseu, herdado do tio Henrique». In Isabel Guimarães Sá, De Princesa a Rainha-velha, Leonor de Lencastre, colecção Rainhas de Portugal, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-709-0.

Cortesia de CLeitores/JDACT