Mostrar mensagens com a etiqueta Almeida Garrett. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Almeida Garrett. Mostrar todas as mensagens

domingo, 22 de maio de 2016

Folhas Caídas. Almeida Garret. «E fui: e a noite era bela, mas não vi a minha estrela que eu sempre via no céu: cobriu-a de espesso véu alguma nuvem a ela, ou era que já vendado me levava o negro fado onde a vida me perdeu?»

jdact

[…]
Quando eu Sonhava
«Quando eu sonhava, era assim
que nos meus sonhos a via;
e era assim que me fugia,
apenas eu despertava,
essa imagem fugidia
que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
agora a vejo fixar...
Para quê? Quando era vaga,
uma ideia, um pensamento,
um raio de estrela incerto
no imenso firmamento,
uma quimera, um vão sonho,
eu sonhava, mas vivia:
prazer não sabia o que era,
mas dor, não na conhecia ...»

Aquela Noite!
«Era a noite da loucura,
da sedução, do prazer,
que em sua mantilha escura
costuma tanta ventura,
tantas glórias esconder.
Os felizes..., e ai!, são tantos...
Eu, por tantos os contava!
Eu, que o sinal de meus prantos
do aflito rosto lavava,
os felizes presunçosos
iam nos coches ruidosos
correndo aos salões doirados
de mil fogos alumiados,
donde em torrentes saía
a clamorosa harmonia
que à festa, ao prazer tangia.

Eu sentia esse ruído
como o confuso bramar
de um mar ao longe movido
que à praia vem rebentar:
Ee disse comigo: vamos,
os lutos d’alma dispamos,
à festa hei de ir também eu!

E fui: e a noite era bela,
mas não vi a minha estrela
que eu sempre via no céu:
cobriu-a de espesso véu
alguma nuvem a ela,
ou era que já vendado
me levava o negro fado
onde a vida me perdeu?

Fui; meu rosto macerado,
a funda melancolia
que todo o meu ser revia,
qual o ataúde levado
a egípcio festim, dizia:
como vós fui eu também;
folgai, que a morte aí vem!
Dizia-o, sim, meu semblante,
que, onde eu chegava, o prazer
cessava no mesmo instante;
e o lábio, que ia a dizer
doçuras de amor, gelava;
e o riso, que ia a nascer
na face linda, expirava.
Era eu, e a morte em mim,
que só ela espanta assim!»
[…]
Poemas de Almeida Garret, in “Folhas Caídas



In Almeida Garret, Folhas Caídas, Publicações Europa América, Livros de Bolso, 2007, ISBN 978-972-102-783-1.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

sábado, 12 de março de 2016

Camões. Poema. Camoneana 423. Almeida Garrett. «Certo amigo na angústia, que aos tormentos myrradores, que a vida me entravavão, aligeiraste o peso, e com amiga dextra cravaste á roda do infortúnio cravo, que ao giro bárbaro lhe impece de alfim dar cabo aos procellosos dias…»

Cortesia da BNP e jdact

CAMÕES
Canto Primeiro

[…]
«Vem; não receies a acintosa mofa
desta volúvel, desprezível gente,
povo de variáveis sycophautas:
não te conhecem elles. Eia! Vamos:
deixa o caminho da infeliz Pyrene;
taes mágoas, com ahi vão, poupa a meus olhos;
Assás tenho das minhas. Largo! aos mares:
livres corramos sobre as ondas livres
do oceano indomado por tyrannos,
livre como sahiu das mãos do Eterno,
sua feitura única no globo,
que impias mãos d'homens não poderão inda
avassallar, destruir. Ahi d'entre as vagas
surge a princeza altiva das armadas,
pátria da lei, senhora da justiça,
couto da foragida liberdade.
Salve, Britania, salve, flor dos mares,
eu te saúdo, ó terra hospitaleira!
Se ora, pousando em tuas ricas praias,
podesse ir abraçar fieis amigos,
que pelas ribas desse nobre Thamesis
vivem á sombra d'arvore sagrada
de abençoada independência a vida!
Não posso; mas sobeja-me a lembrança
indelével, e a voz não morredoura
da sincera, gratissima amizade.

Certo amigo na angústia, que aos tormentos
myrradores, que a vida me entravavão,
aligeiraste o peso, e com amiga
dextra cravaste á roda do infortúnio
cravo, que ao giro bárbaro lhe impece
de alfim dar cabo aos procellosos dias
do malfadado, perseguido vale;
a ti minhas endeixas mal cantadas
nas solidões do exílio, onde as repettem
os ermos echos de estrangeiras grutas,
a ti meus versos consagrei na lyra:
quebrada sobre o escolho da desgraça
inda languidos sons desfere a medo,
que a teu fiel ouvido vão memorias
Lembrar da patria, e recordar do amigo.

Ouves? Rija celeuma aos ares sobe,
e fere os ventos, que nas ondas folgão.
Terra, terra! Bradou gageiro álerta.
Terra! echoa confusa vozeria
da maritima turba: Oh! Voz querida,
doce aurora de gôso, e de esperança
ao coração do nauta enfraquecido,
do alquebrado sequioso passageiro,
que a esposa, os filhos, ou talvez a amante
nessa voz doce, e grata lhe alvejarão.

Terra, e terra da pátria! Debuxada
se ve pullando a magica alegria
Nnos semblantes de todos. Ja contentes,
um se affigura surprehender o amigo,
outro á esposa fiel cahir nos braços;
este da velha mãe, que ha tanto o chora,
ir enchugar as lagrimas afflictas;
aquelle entre alvoroços, e receios,
não ousa de pensar se ao pae enfermo
na descarnada mão rugosa, e sècca
osculo filial lhe é dado ainda.

Respeitoso imprimir, ou se a ternura,
se o amor de filho sobre lage avara
se irá quebrar de gélido sepulcro,
que em sua ausência, tamlonga, lho roubasse.
Qual da amada, que sempre foi constante,
ou sempre, ao menos, lha pintou de longe
a namorada ideia, perto agora
começa de temer que tal distancia,
separação tammanha, e tam comprida,
novo amante mais perto... Mas quem sabe?
Talvez... E esse talvez é de esperança
querida sempre, sempre lisonjeira».
[…]


In Almeida Garrett, Camões, Poema, Camoneana 423, Paris, R. 32594, Livraria Nacional e Estrangeira, Rue Mignon, 2, faub. St. Germain, Biblioteca Nacional de Portugal (Biblioteca Nacional de Lisboa) 1825.

Cortesia da BNP/JDACT

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O Arco de Santana. Almeida Garret. «Há de partir logo para onde está el-rei Pedro, e dar-lhe de tudo parte, que nos valha com a sua justiça, e venha açoitar este malvado bispo, e enforcar os seus cónegos, os seus frades e portageiros»

jdact

O Arco da Santa. A Conversa das Vizinhas
«(…) E as lágrimas, fio a fio, a correr pelas faces da pobre noiva, que mais interessante e linda a faziam. E deve de saber o leitor que ela era linda, como eu seguramente creio, e em poucas linhas se verá por quê. As lágrimas porém da boa Ana, com serem mui sentidas e sinceras, não lhe interromperam o discurso nem por meio segundo; continuou logo: Sim, sim; e bem no digo eu. Tenho coisa cá dentro que me agoura grande mal a mim e aos meus: e não me vem senão daquele bispo, que é a perdição e ruína desta cidade, ele e os seus cónegos e os seus portageiros e os seus archeiros e toda essa gente da Sé. E mete na conta o reverendo padre fr. João Arrifana, que é boa peça. Mas não há-de ser assim, Aninhas, que Deus nos há-de acudir, e a justiça del-rei Pedro I. E donde há de ela vir, menina? Não sabes que desde o interdito grande e das excomunhões que houve nesta terra por causa do alvoroço do povo contra a tirania do bispo o rei Pedro, e que depois se acordou tudo com el-rei e o papa, nunca mais as justiças del-rei se quiseram meter com a nossa terra, nem catar-nos foros, nem ser por nós, e nos deixaram à mercê do bispo e da sua gente? Como há de el-rei Pedro agora?... Sei tudo isso, sei; mas olha que há de vir quando eles menos o esperarem, com aquela espada na sua real mão, que Deus temperou para destruição de tiranos e avexadores do povo. Que cedo faça Deus esse milagre, Gertrudinhas. Senão, mal estou; que ainda hoje aqui veio o almudeiro do bispo, aquele esconjurado leva-e-traz, que de manhã rouba o povo na casinha da portagem e de tarde faz o ofício do demónio tentador, a desinquietar quanto rapariga e mulher honesta tem o Porto...
Para serviço e aumento da igreja de Deus!... Dizem eles. Não, filha, quem tal bispo nos deu... Também! Foi el-rei defunto que cá o pôs. No fim da sua vida faziam dele quanto queriam, principalmente frades e clérigos e gente de guerra, a quem parece que Deus deu este reino por seu... Deus não, que é pecado tal dizer: deu-lho o demo por nossas culpas. Mas que te disse o almudeiro? Esconjurado seja ele! Veio com os mesmos recados do costume: Que tivesse eu mais juízo e prudência; que fosse onde me diziam, ou desse hora em que o bispo cá viesse; que não escorraçasse a fortuna que à porta me batia... Que meu marido, se eu teimasse, nunca mais o veria; que nas covas dos paços da Sé mo haviam de enterrar vivo, donde sol nem lua veria, e pão e água comeria como um forçado das galés del-rei. E trazia-me presentes de ricas pedras e de ouro fino que me lançou no regaço, e teimou tanto até que... Até o que, menina?... Que lhas arremessei à cara com quanta força tinha. E bem arranhada lhe ficou: inda bem! Inda bem, querida Aninhas! E o ladrão do almudeiro?...
Fez-se negro de raiva com o insulto; e, sem dizer palavra, começou a ajuntar o que estava pelo chão, pérolas, ouro... Jóias bem lindas eram elas! E meteu tudo nos golpes de saio, e foi-se sem mais Deus te salve do que um sumido Tu mo pagarás, que ia rosnando pela escada abaixo. Tens razão para ter medo, filha; agora o vejo eu: mas ainda lhe havemos de dar remédio. Quem? Eu... Nós, se Deus quiser; nós e a nossa boa fortuna. Nós! Tu com dezasseis anos e eu com vinte, teu tio na corte, meu marido em Lisboa, que havemos nós de fazer, mulheres, sós e sem ninguém? Sem ninguém! Sem ninguém não, que aqui tenho a minha madrinha e padroeira, a minha senhora Sant’Ana.
E eu o meu Vasco, que há de fazer o milagre sem ser santo. O teu Vasco! Que se há-de ele atrever contra o bispo cujo é? Do bispo ele como eu sou do mouro de Granada. É estudante, mas não quer ser clérigo; e, em tendo idade que lhe não possa pegar o tio, há-de ir para Salamanca. As covas de Salamanca! Apelo eu, filha! Bruxo queres o moço? Bruxo! Que bruxo é meu tio, que tantos anos lá esteve, e saiu curando de toda a moléstia e enfermidade com suas drogas e mezinhas? Que por isso anda na corte com el-rei Pedro I que Deus guarde, e nunca d’ao pé de si fora o quer, que outro físico o não trata! E que há de fazer o teu Vasco no meu apertado caso?
Há de partir logo para onde está el-rei Pedro, e dar-lhe de tudo parte, que nos valha com a sua justiça, e venha açoitar este malvado bispo, e enforcar os seus cónegos, os seus frades e portageiros. Bem simples sou eu; mas não sou tão simples como tu, Gertrudes. Com que el-rei Pedro há-de atender a duas pobres raparigas, e sobretudo a uma do povo como eu, para castigar fidalgos e senhores que tudo podem, e sempre, desde que há sempre, fizeram o que quiseram? E clérigos então! Se eu tal via na nossa terra, dizia que andava o mundo às avessas. Pois hás-de ver, hás-de ver!, replicou a entusiasta Gertrudes, com um acento que nem a mais exaltada malhada ou setembrista dos nossos dias saberia imitar, – com uma firmeza e confiança que a fariam admitir sem mais provas na república de... Em qualquer das repúblicas com que nos mimoseia de vez em quando a polícia para maior glória sua e descanso nosso». In Almeida Garret, O Arco de Santana, 1845-1850, Imprensa Nacional, Livraria Figueirinhas (1947-1ª edição) Porto Editora, Porto, 2011, ISBN 978-972-004-980-3.

Cortesia de INCM/PortoE/JDACT

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O Arco de Santana. Almeida Garret. «… que é legado de meu pai, que bem dito o deixou no seu testamento, que antes faltasse o unto no caldo de sua filha única, do que o azeite na alâmpada do arco da Santa»

jdact e wikipedia

O Arco da Santa. A Conversa das Vizinhas
«(…) Pois bons quinhentos anos antes deste fatal acontecimento, fora esse arco de Sant’Ana testemunha e próprio lugar de cena, da interessantíssima história que vou relatar, e que extraí, com escrupulosa fidelidade, do precioso manuscrito achado na livraria reservada do reverendo Prior dos Grilos, a quem Deus perdoe não ter deixado na sua cela, quando fugiu, nem uma caixa de doce, nem uma garrafa de vinho potável, nem gulosice de nenhuma espécie, das que eram de esperar naquele devoto aposento, e que bem contávamos achar nele os pobres estudantes quando ali chegamos mortos de sede e de cansaço. Por mim, bem contente fiquei com esta única parte do espólio que me coube, e, salvo o doce, que a esse não perdoava eu, não tomaria outra, apesar da legislação e prática então vigente, e que não sei se ainda hoje vige e viça, mas conheço muita gente que viçou, floreou e frutificou por ela e com ela. Vamos adiante! Eu, se por leis de guerra, não estou em boa posse do que assim houve e hoje dou por meu na presente crónica, sincera e publicamente me acuso, e farei plena restituição a quem competir. Não é costume entre os nossos irmãos escrevedores de histórias, contos e semelhantes; mas não importa.
Seriam dez horas da noite, horas mortas para aquela boas eras em que nossos temporãos avoengos jantavam de dia às dez para as onze, e ceavam quase com dia, ao por do sol. A noite era de luar, mas o estreito da rua e a proximidade das muralhas da cidade, que então corriam pouco além daquelas imediações, mal deixavam penetrar um baço reflexo de seu clarão pela obscuridade permanente. Apenas a lâmpada do arco dava ténue e raro vislumbre de claridade, tão frouxo e tíbio que mal indicava o sítio em que jazia, mas em que nada quebrava as trevas circunstantes. Era a estas horas e neste lugar, que de uma gelosia à esquerda do arco surdiu uma voz baixa e como de quem teme e deseja ao mesmo tempo que a ouçam. Dizia a voz: Aninhas, mana, Aninhas!... Menina, mana, ouves? Sou eu: ouves?
Cada uma dessas palavras era dita com grandes intervalos uma da outra, e crescendo progressivamente de tom, por modo que a última já se devia de ouvir sem dificuldade em pequena distância. Mas, se alguém ouviu, ninguém respondeu. Seguiu-se um bom minuto de silêncio. Logo, da mesma gelosia donde pareceu sair a voz, saiu também uma mãozinha delicada e alva que, de tão alva, resplandeceu com a pequena luz da lâmpada que toda reflectia sobre ela. A mãozinha bateu mansinho nos vidros do arco, repetindo outra vez: Aninhas, psiu! Ouves?
Não tardou a escutar-se o pé ante pé de quem acudia àquele chamado; foi um vulto escuro e, ao parecer, feminino, que, pelo postigo que da casa fronteira abria para o interior do arco, entrou daquele modo cauteloso e sorrateiro. Encaminhou-se até ao extremo canto oposto, onde o arco pegava com as casas da esquerda, e resvés com a janela donde surdira a primeira voz. Sentiu-se então algum rumor debaixo do arco, e um murmurar de voz masculina que dizia: Bem digo eu que a moça é um anjo! É a santa que lhe vem falar: querem ver? Mana, mana! Exclamou de cima do arco o vulto que aí tinha aparecido: não ouviste uma voz de homem aqui por baixo? Não. E, daqui onde eu estou, até lhe veria a sombra, se aí estivesse alguém. Não tenhas medo: toda a vizinhança dorme já; e, a não ser o bispo ou Pêro Cão, não creio que ninguém mais vele em toda a cidade.
Logo te lembraram esses fariseus... Que a virgem Maria os confunda, mais a senhora Sant’Ana! Amém! E justiça del-rei Pedro I que sobre eles caia! Ai Gertrudinhas! Que se Deus e seus santos me não valem, não sei que será de mim. Justiça del-rei Pedro I, dizes tu. E donde há de ela vir a esta terra, onde nem rei nem povo nunca puderam nada contra seus tiranos e opressores?...  El-rei, filha, tão longe, e tão fora de eu nunca o poder ver... E os meus inimigos tão poderosos e tão perto... El-rei Pedro I! O caso que eles fazem dele, e o que lha eles importa com sua justiça e suas leis! Eles sim!... Que nesta cidade mais reis são eles que nenhum rei: dizem os traidores; e dizem-no e fazem-no; e que outro rei farão, em vez dele, se lhe não catar seus privilégios como já fizeram ao bisavô que se chamava... Ao irmão de seu bisavô, queres dizer; el-rei Sancho.
Pois sim, será; que disso nada sei, nem sou lida e sabida como tu... Também não tenho tio físico que traz anel no dedo e gualdrapa na mula, e anda atrás de el-rei c’os alforjes cheios de drogas. Cá eu, sou a pobre mulher de um ourives, que não sei senão governar a minha casa, deitar as minhas teias... E ser o exemplo das mulheres honradas. Que assim foram todas, e já estes clérigos de má morte, mais estes frades trapaceiros não fariam o que fazem. A resposta de Gertrudes produziu o seu efeito, abrandando o tom picado que visivelmente transparecia na fala antecedente da que, já agora claro se vê, era a sua íntima amiga, a boa Ana, Anicas, ou Aninhas, como ela, pelo engraçado diminutivo minhoto, lhe chamava.
Tornou-lhe a sincera Ana com a primeira suavidade e mavioso acento: Minha querida Gertrudinhas, olha que to digo hoje aqui, na presença da senhora Sant’Ana que nos ouve... E eu que lhe acendo todos os dias a sua lâmpada, que é legado de meu pai, que bem dito o deixou no seu testamento, que antes faltasse o unto no caldo de sua filha única, do que o azeite na alâmpada do arco da Santa. E assim vê lá se eu lha acenderei todos os dias ou não! E quando estou doente é meu marido... Coitado! O que será feito dele? Quem no mandou ir lá para Lisboa, a troco de arrecadar essas dívidas que Deus sabe se ele nunca as haverá? Mas para lá foi, e por lá anda; e, com mal um ano da casada, eu cá fiquei só, com o meu Fernando, que já diz pai, a pobre criança!... Mas nunca o pai lho ouviu dizer, nem Deus sabe se ouvirá! Diz-me cá uma coisa negra no coração que não...» In Almeida Garret, O Arco de Santana, 1845-1850, Imprensa Nacional, Livraria Figueirinhas (1947-1ª edição) Porto Editora, Porto, 2011, ISBN 978-972-004-980-3.

Cortesia de INCM/PortoE/JDACT

O Arco de Santana. Almeida Garret. «Ai, rua de Sant’Ana! Que é do teu arco e da tua festa, quando se lhe armava aquele palanque com que ficava uma igreja improvisada, e um coreto e um púlpito, aonde grasnava a música, berrava o frade…»

jdact e wikipedia

O Arco da Santa
«Mal pensa o voluntário académico, quando descendo rua de Sant’Ana abaixo, o braço no armão da peça, e os olhos na alta janela donde, entre o festivo azul e branco, lhe sorri constitucional beldade; e ele vai misturando, no alvoroçado pensamento, conquistas bélicas e amorosas, as damas que há de render e as guerrilhas que há de espatifar, e mais que tudo, as histórias que sobre isso se hão de contar à noite no refeitório dos Grilos hoje, oh impiedade! Convertido em casa de tripudio e bambochata de maganos estudantes, mal pensa ele que terreno clássico vai pisando, por que veneráveis padrões históricos vai passando sem os conhecer, que interessantíssima cena romântica é essa em que, depois de tantos séculos, novo e não menos interessante actor, lhe coube vir figurar. Falta-te, é verdade, ó nobre e histórica rua de Sant’Ana, falta-te já aquele teu respeitável e devoto arco, precioso monumento da religião de nossos antepassados, e que, certo é, mais te vedava a pouca luz do céu material que tuas augustas dimensões deixam penetrar, mas era ele em sim mesmo, foco da espiritual luz de devoção que ardia no bendito nicho consagrado à gloriosa santa do teu nome.
Caíste pois tu, ó arco de Sant’Ana, como, em nossos tristes e minguados dias, vai caindo quando aí há nobre e antigo às mãos de inovadores plebeus, para quem nobiliarquias são quimeras, e os veneráveis caracteres heráldicos de rei-d’armas, Portugal língua morta e esquecida que nossa ignorância despreza, hieroglíficos da terra dos Faraós antes de descoberta a inscrição Damieta! Assentaram os miseráveis reformadores que uma pouca de luz mais e uma pouca de imundície menos, em rua já de si tão escura e mal enxuta, era preferível à conservação daquele monumento em todos os sentidos respeitável! Com que desapontamento deste meu coração, depois de tantos anos de ausência, não andei eu procurando, em vão!... Na rua de Sant’Ana, uma das primeiras que a minha infância conheceu, as góticas feições daquele arco?... E a lâmpada que lhe ardia contínua, e os milagres de cera que lhe pendiam à roda, e toda aquela associação de coisas que me trazia à memória os felizes dias de minha descuidada meninice! Meninice que passou, sem mocidade, a esta tão trabalhosa, tão árida, tão despegada virilidade, em que não tardam as cãs e as rugas a visitar-me com mais precoce velhice ainda!
Ai, rua de Sant’Ana! Que é do teu arco e da tua festa, quando se lhe armava aquele palanque com que ficava uma igreja improvisada, e um coreto e um púlpito, aonde grasnava a música, berrava o frade, e toda a vizinhança tinha um dia de folgar?... E muito se rezava e muito se namorava e muito se comia, e todos iam para o céu. Ora que o façam hoje! Foi o célebre fracasso de José U que acabou com a devota festa e com o meu querido arco também. José U, para ilustração da presente história seja dito, era um curioso figurão da minha terra, uma das notabilidades, como se dizia em França, e hoje por cá se diz também já nos botequins, umas das notabilidades desta nobre e sempre leal cidade. Insigne mestre de capela, trazia arrematadas todas as festas e oragos menores do Porto e seus subúrbios, sem exceptuar os três São Joões rivais; a saber, São João o velho ou o republicano, de Cedofeita, São João o malhado, da Lapa, São João o realista, do Bonfim. Com efeito, São João que da fama de pedreiro se não livra!... Não me faltava ver mais nada.
Era o Sr. José U homem bem apessoado, e de tal capacidade e rotundidade nas formas posteriores, que, por elegante e popular metonímia, lhe chamaram a parte pelo todo, e foi apelidado José U, ou José outra coisa que a gravidade da minha história me não deixa por aqui mais clara. Andava, entre outras, de imemorial posse, na sua correicção e jurisdição harmónica, a parte música instrumental e vocal da festa de Sant’Ana do arco. Corria o ano de 182... Chegou o dia da santa, armou-se o palanque, treparam os menestréis ao coreto, saíram os padres detrás duma janela, principiou a missa cantada, sobre garraio capucho ao púlpito, começa José U com a sua gente o moteto de rigor... E eis senão quando, o travejamento de toda aquela caranguejola que dá de si, rende, casca, e zás por ali abaixo desanda tudo à rua. José U com o rolo de solfa na mão, o ceptro, o bastão de general Colcheia! Cai com todo o peso do seu nome num rabecão já estatelado.
Foram dentro com tremendo som os tampos do bojudo instrumento; e foi tremendo o diapasão que no violento contacto se fez... Em tal estado e posição ficou o bem-aventurado, que, à primeira sensação de desgosto e terror geral, sucedeu o riso e turbulenta cachinada. Acabou-se a festa da santa, poupou-se ao capuchio muita berraria e muita sandice, e os festeiros jantaram mais cedo. E assim terminou a última função da senhora Sant’Ana do arco. E o arco foi demolido daí a pouco tempo para minha eterna saudade e de todos os amadores e veneradores de arcos antigos e de semelhantes preciosidades. Fora fatídica, fora fatal ao bendito arco a agourenta queda de José U!» In Almeida Garret, O Arco de Santana, 1845-1850, Imprensa Nacional, Livraria Figueirinhas (1947-1ª edição) Porto Editora, Porto, 2011, ISBN 978-972-004-980-3.

Cortesia de INCM/PortoE/JDACT

domingo, 18 de outubro de 2015

Folhas Caídas. Almeida Garret. «… a leitura de Folhas Caídas evidencia, diria que até à exaustão, uma teatralidade que põe em dúvida a sinceridade da confissão anunciada. E ainda não se sonhava o nascimento de Fernado Pessoa...»

jdact

[…] Essa é uma disputação mais longa. Mas sei que as presentes Folhas Caídas representam o estado de alma do poeta nas variadas, incertas e vacilantes oscilações do espírito, que, tendendo ao seu fim único, a posse do Ideal, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chegar a ele, ora ri amargamente porque reconhece o seu engano, ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade vã. Deixai-o passar, gente do mundo, devotos do poder, da riqueza, do mando, ou da glória. Ele não entende bem disso, e vós não entendeis nada dele. Deixai-o passar, porque ele vai onde vós não ides; vai, ainda que zombeis dele, que o calunieis, que o assassineis. Vai, porque é espírito, e vós sois matéria. E vós morrereis, ele não. Ou só morrerá dele aquilo em que se pareceu e se uniu convosco. E essa falta, que é a mesma de Adão, também será punida com a morte. Mas não triunfeis, porque a morte não passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quase nada no poeta». In Garret, Janeiro, 1853.

«Convém, desde já, alertar os leitores para o seguinte aspecto: em Folhas Caídas, o poeta faz uma dedicatória no primeiro poema da colectânea (Ignoto Deo) e, de imediato, apresenta a despedida no segundo (Adeus!). Seguem-se, então, as restantes folhas caídas, nas quais, numa espécie de analepse narrativa, nos dá conta de um caminho percorrido por duas personagens (eu e tu) que as conduziu ao momento do adeus». In Farol das Letras.

«(…)
II
Adeus!
«Adeus!, para sempre adeus!,
vai-te, oh!, vai-te, que nesta hora
sinto a justiça dos Céus
esmagar-me a alma que chora.
Choro porque não te amei,
choro o amor que me tiveste;
o que eu perco, bem no sei,
mas tu..., tu nada perdeste:
que este mau coração meu
nos secretos escaninhos
tem venenos tão daninhos
que o seu poder só sei eu.
Oh!, vai..., para sempre adeus!
Vai, que há justiça nos Céus.
Sinto gerar na peçonha
do ulcerado coração
essa víbora medonha
que por seu fatal condão
há-de rasgá-lo ao nascer:
há-de, sim, serás vingada,
e o meu castigo há-de ser
ciúme de ver-te amada,
remorso de te perder.
Vai-te, oh!, vai-te, longe, embora,
que sou eu capaz agora
de te amar, Ai!, se eu te amasse!
Vê se no árido pragal
deste peito se ateasse
de amor o incêndio fatal!
Mais negro e feio no Inferno
não chameja o fogo eterno.
Que sim? Que antes isso? Ai, triste!
Não sabes o que pediste.
Não te bastou suportar
o cepo-rei; impaciente
tu ousas a deus tentar
pedindo-lhe o rei-serpente!
E cuidas amar-me ainda?
Enganas-te: é morta, é finda,
dissipada é a ilusão.
Do meigo azul de teus olhos
tanta lágrima verteste,
tanto esse orvalho celeste
derramado o viste em vão
nesta seara de abrolhos,
que a fonte secou. Agora
amarás..., sim, hás-de amar,
amar deves... Muito embora...
Oh!, mas noutro hás-de sonhar
os sonhos de oiro encantados
que o mundo chamou amores.
E eu réprobo..., eu se o verei?
Se em meus olhos encovados
der a luz de teus ardores...
Se com ela cegarei?
Se o nada dessas mentiras
me entrar pelo vão da vida...
Se, ao ver que feliz deliras,
também eu sonhar ...Perdida,
perdida serás, perdida.
Oh!, vai-te, vai, longe, embora!
Que te lembre sempre e agora
que não te amei nunca..., ai!, não:
e que pude a sangue-frio,
covarde, infame, vilão,
gozar-te, mentir sem brio,
sem alma, sem dó, sem pejo,
cometendo em cada beijo
um crime... Ai!, triste, não chores,
não chores, anjo do Céu,
que o desonrado sou eu.
Perdoar-me, tu?... Não mereço.
A imundo cerdo voraz
essas pérolas de preço
não as deites: é capaz
de as desprezar na torpeza
de sua bruta natureza.
Irada, te há-de admirar,
despeitosa, respeitar,
mas indulgente... Oh!, o perdão
é perdido no vilão,
que de ti há-de zombar.
Vai, vai..., para sempre adeus!
Para sempre aos olhos meus
sumido seja o clarão
de tua divina estrela.
Faltam-me olhos e razão
para a ver, para entendê-la:
alta está no firmamento
de mais, e de mais é bela
para o baixo pensamento
com que em má hora a fitei;
falso e vil o encantamento
com que a luz lhe fascinei.
Que volte a sua beleza
do azul do céu à pureza,
e que a mim me deixe aqui
nas trevas em que nasci,
trevas negras, densas, feias,
como é negro este aleijão
donde me vem sangue às veias,
este que foi coração,
este que amar-te não sabe
porque é só terra, e não cabe
nele uma ideia dos Céus ...
Oh!, vai, vai; deixa-me adeus!»
Poema de Almeida Garret, in ‘Folhas Caídas’

In Almeida Garret, Folhas Caídas, Publicações Europa América, Livros de Bolso, 2007, ISBN 978-972-102-783-1.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

Folhas Caídas. Almeida Garret. «Saúde, riqueza, miséria, pobreza e ainda coisas mais materiais, como o frio e o calor, não são senão estados comparativos, aproximativos. Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a ele»

jdact

«Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memória. A outros versos chamei eu já as últimas recordações da minha vida poética. Enganei o público, mas de boa-fé, porque me enganei primeiro a mim. Protestos de poetas que sempre estão a dizer adeus ao mundo, e morrem abraçados com o louro, às vezes imaginário, porque ninguém os coroa. Eu pouco mais tinha de vinte anos quando publiquei certo poema, e jurei que eram os últimos versos que fazia. Que juramentos! Se dos meus se rirem, têm razão; mas saibam que eu também primeiro me ri deles. Poeta na Primavera, no Estio e no Outono da vida, hei-de sê-lo no Inverno, se lá chegar, e hei-de sê-lo em tudo. Mas dantes cuidava que não, e nisso ia o erro. Os cantos que formam esta pequena colecção pertencem todos a uma época de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras colecções. Essas mais ou menos mostram o poeta que canta diante do público. Das Folhas Caídas ninguém tal dirá, ou bem pouco entende de estilos e modos de cantar. Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gosto mais deles do que de nenhuns outros que fizesse. Porquê? É impossível dizê-lo, mas é verdade. E, como nada são por ele nem para ele, é provável que o público sinta bem diversamente do autor. Que importa? Apesar de sempre se dizer e escrever há cem mil anos o contrário, parece-me que o melhor e mais recto juiz que pode ter um escritor é ele próprio, quando o não cega o amor-próprio. Eu sei que tenho os olhos abertos, ao menos agora. Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos, que são seus filhos; mas o sentimento paterno não impede de ver os defeitos das crianças. Enfim, eu não queimo estes. Consagrei-os ignoto deo. E o deus que os inspirou que os aniquile, se quiser: não me julgo com direito de o fazer eu. Ainda assim, no ignoto deo não imaginem alguma divindade meia velada com cendal transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia para que todos a vejam bem clara. O meu deus desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e não definido sentimento de alma que a leva às aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta. Imaginação que porventura se não realiza nunca. E daí, quem sabe? A culpa é talvez da palavra, que é abstracta de mais. Saúde, riqueza, miséria, pobreza e ainda coisas mais materiais, como o frio e o calor, não são senão estados comparativos, aproximativos. Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a ele. Logo o poeta é louco, porque aspira sempre ao impossível. Não sei. Essa é uma disputação mais longa. Mas sei que as presentes Folhas Caídas representam o estado de alma do poeta nas variadas, incertas e vacilantes oscilações do espírito, que, tendendo ao seu fim único, a posse do Ideal, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chegar a ele, ora ri amargamente porque reconhece o seu engano, ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade vã. Deixai-o passar, gente do mundo, devotos do poder, da riqueza, do mando, ou da glória. Ele não entende bem disso, e vós não entendeis nada dele. Deixai-o passar, porque ele vai onde vós não ides; vai, ainda que zombeis dele, que o calunieis, que o assassineis. Vai, porque é espírito, e vós sois matéria. E vós morrereis, ele não. Ou só morrerá dele aquilo em que se pareceu e se uniu convosco. E essa falta, que é a mesma de Adão, também será punida com a morte. Mas não triunfeis, porque a morte não passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quase nada no poeta». In Garret, Janeiro, 1853.

«O sujeito poético atesta que Folhas Caídas são uma confissão sincera da alma. Pessoalmente, não tenho tanta certeza assim. Apesar do autor ter advertido para o facto das presentes folhas caídas resultarem do estado de alma do poeta nas variadas, incertas e vacilantes oscilações do espírito, não nos devemos esquecer de que estamos diante de um homem de teatro. E, antes dos actores representarem em palco, o primeiro a fazê-lo é sempre o dramaturgo no acto da escrita. A selecção criteriosa das folhas que apanhou, antes que as levasse o vento, e a forma como as ordenou em livro são um acto de consciência. Aliás, a leitura de Folhas Caídas evidencia, diria que até à exaustão, uma teatralidade que põe em dúvida a sinceridade da confissão anunciada. E ainda não se sonhava o nascimento de Fernado Pessoa...» In Farol das Letras

I
Ignoto deo
«Creio em ti, Deus: a fé viva
de minha alma a ti se eleva.
És, o que és não sei. Deriva
meu ser do teu: luz..., e treva,
em que, indistintas!, se envolve
este espírito agitado,
de ti vem, a ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
pelo sopro criador
tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive de eterno ardor
o que está sempre a aspirar
ao infinito donde veio.
Beleza és tu, luz és tu,
verdade és tu só. Não creio
senão em ti; o olho nu.
Do homem não vê na terra
mais que a dúvida, a incerteza,
a forma que engana e erra.
Essência!, a real beleza,
o puro amor, o prazer
que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
o que inspirado se afasta,
ignoto Deus, das ronceiras,
vulgares turbas: despidos
das coisas vãs e grosseiras
sua alma, razão, sentidos,
a ti se dão, em ti vida,
e por ti vida têm. Eu, consagrado
a teu altar, me prosto e a combatida
existência aqui ponho, aqui votado
fica este livro, confissão sincera
da alma que a ti voou e em ti só ‘spera».
Poema de Almeida Garret, in ‘Folhas Caídas’

In Almeida Garret, Folhas Caídas, Publicações Europa América, Livros de Bolso, 2007, ISBN 978-972-102-783-1.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Garrett. De Fingimentos e Conclusões. Leituras. «Nasce o ideal da nossa consciência da imperfeição da vida. Tantos, portanto, serão os ideais possíveis, quantos forem os modos por que é possível ter a vida por imperfeita»

jdact

«(…) Gomes Amorim, o seu dedicado biógrafo e confessado discípulo, sai à liça dos comentários que lhe tildam o mestre de vaidoso mas não nos tira as dúvidas quanto à verdadeira autoria do inesquecível elogio: De quantos elogios acusam o autor de ter tecido a si próprio, e posto às costas dos seus editores, se o prólogo da segunda edição das viagens foi escrito por ele, nenhum revela maior vaidade, segundo o juízo dos contemporâneos; em meu humilde conceito, porém, está a mais cabal pintura que de tamanho engenho se podia obter em tão pequena tela. Tudo que diz de si é de uma verdade tão indiscutível, que só há a lastimar o não ter sido de outra pena aquele elogio merecidíssimo, se com efeito o produziu a sua. Gomes Amorim não nos tira aqui as dúvidas sobre a autoria do prólogo. Mas parece inclinado a admitir que assim seja na lástima que manifesta e talvez ainda mais no juízo que emite sobre a verdade do que ali se diz. Pessoalmente, confesso que nem sequer chego ao ponto de lastimar que o elogio tenha saído da pena do próprio Garrett. Dou graças aos deuses pelo facto de não me sentir obrigada a defender-lhe a honra pelante os detractores, e à distância de século e meio lembro que o escritor não fazia mais, nem menos, do que o seu mestre e modelo Camões tinha já feito quase três séculos antes: ter a consciência do seu imenso valor de escritores e a coragem de afirmá-lo, alto e bom som, preto no branco, na praça pública das invejas ou das indiferenças (Outros, depois, como Fernando Pessoa e Jorge de Sena hão-de seguir-lhes o gesto e não com menos verdade e pertinência).
Fica-nos, pois, não a lástima mas, pelo contrário, o agradecimento de um texto que, como diz Gomes Amorim, e com ele assentimos plenamente, nos dá, para sempre, uma cabal pintura do engenho garrettiano. Mais adiante, voltarei à forma como esta cabal pintura sintetiza, de forma exemplar, o percurso do escritor e a sua prática literária dando-nos, ao mesmo tempo, pistas valiosíssimas para a leitura da obra. Quero, todavia, antes recordar como, afinal, apenas dois anos antes deste prólogo, tinham os seus contemporâneos visto aparecer nas páginas do Universo Pittoresco, na secção Biographia, um outro texto onde, em cerca de doze longas páginas, distribuídas em três entregas, se apresentava ao leitor O conselheiro de Almeida Garret. Nele, também em terceira pessoa, se traçava um retrato da vida e da obra do escritor, não menos elogioso que o Prólogo das Viagens. E aqui parece não se pôr sequer dúvidas quanto à autoria garrettiana do mesmo. O próprio Gomes Amorim, logo no início da sua biografia de Garret, indica que está a utilizar o manuscrito original daquele texto e identifica o seu autor com as seguintes palavras que são, ao mesmo tempo, e tal como o juízo que há-de pronunciar sobre o prólogo das Viagens, de pena por esta fragilidade: Infelizmente, porém, até nos maiores engenhos se revela a fragilidade humana; e não foi este Garrett isento dela. Na sua biografia, publicada no Universo Pittoresco, da qual possuo o manuscrito original, escreveu ele, falando de si. Aquelas maneiras polidas, que só dá o nascimento e alta educação...» In Maria Fernanda Abreu, Leituras de Almeida Garrett, Revista da Biblioteca Nacional, 1999, Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Cortesia da BNP/JDACT

domingo, 30 de março de 2014

História do Romantismo em Portugal. Ideia geral do Romantismo. Garrett, Herculano, Castilho. Teófilo Braga. «… o primeiro que formulou o principio, o homem é obra de si mesmo, que, na Scienza Nuova achou uma lei racional da vida collectiva do homem sobre a terra, esse mesmo…»

jdact

NOTA: Conforme o original

Causas do Romantismo.
Erudição medieval dos historiadores modernos
«(…) Apesar da immensa elaboração económica e scientifica, o século XIX distingue-se principalmente pelo génio histórico: a renovação intellectual partiu da abstraçao metaphysica para a critica, das hypotheses gratuitas para a sciencia das origens, do purismo rhetorico para a philologia, oppoz aos designios providenciaes o individualismo, deu ás sciencias académicas, que serviam para alardear erudição, um intuito serio indagando nos factos mais accidentaes os esforços do homem na sua aspiração para a liberdade; só em um periodo assim positivo é que se podia achar a unidade de tamanha renovação; essa unidade é a Historia. Quebraram-se as velhas divisões da historia sagrada e profana, de historia antiga e moderna; todas as creações do homem, por mais fortuitas merecem hoje que sejam estudadas nos documentos que restam; as instituições sociaes, as industrias, os dogmas, o direito, as línguas, as invasões, as obras inspiradas pelo sentimento, os costumes, superstições, são objecto de outras tantas sciencias, separadas por methodo para melhor exame, mas comparadas e unidas, em um único fim, a sciencia do homem. Em todas estas creações da actividade humana, o fatalismo supplanta nos períodos primitivos a liberdade, o sentimento suppre a falta do desenvolvimento da rasão, a auctoridade impõe-se á consciência e á responsabilidade moral, emfim a paixão não deixa ao homem a posse plena de si mesmo, o acto praticado revela quasi sempre ura paciente em vez de um órgão activo. A historia religiosa ou politica, a historia das invenções, a historia da linguagem, mostram-nos o homem n'este estado secundario, n'esta dependência de espirito; terror sagrado e auctoridade, acaso, e formação anonyma provocada pela necessidade de uma communicação immediata, são moveis violentos que arrastam o homem em vez de serem exercidos e dirigidos pela sua liberdade. Nas condições sentimentais em que entra já um elemento de rasão não acontece assim: as creações artisticas não são provocadas pelo interesse, não têm um fim calculado, não se impõem dogmaticamente, não se exigem, nem são fatalmente necessárias. Isto prova o seu grande valor, a sua proximidade dos resultados finaes d'esta grande e unitária sciencia do homem.
É por isso que no século que soube conceber a filosofia da historia, que soube deduzir da discordância das religiões e das linguas, das raças e dos climas uma harmonia superior, a tendência para a perfectibilidade indefinida do homem, só a esse século competia lançar as bases positivas da historia das litteraturas. Dá-se aqui uma coincidência que explica este facto; o primeiro que formulou o principio, o homem é obra de si mesmo, que, na Scienza Nuova achou uma lei racional da vida collectiva do homem sobre a terra, esse mesmo, o inaugurador da philosophia da historia, Vico, propoz do modo mais racional as bases da critica homérica e a verdadeira theoria da evolução do teatro grego. N'estes dois processos estavam implicitos os modos como a moderna historia procede no exame das litteraturas.
Foi também Schlegel, o que primeiro fez sentir a unidade das linguas indo-europêas, o mesmo que determinou a lei orgânica que dirigiu a elaboração das Litteraturas novo-latinas. Repetimos, a historia das litteraturas é uma creação moderna; quando Aristóteles ou Quintiliano observaram o modo de revelar os sentimentos nas obras da litteratura grega, achavam n'ellas, é verdade, um produto vivo, mas não procuravam a espontaneidade da naturesa, procuravam o canon rhetorico dentro do qual ella devia ficar restricta todas as vezes que precisasse exprimir sentimentos análogos. Eusthato e Donato, estudando Homero ou Virgilio, não iam mais longe do que a colligir as tradições da escola que bordaram a vida dos poetas, separados da sua obra e peior ainda da sua nacionalidade. Os trabalhos de Struvio e Fabricio reduziram-se a vastas indagações bibliographicas dos monumentos que restavam da antiguidade. Os jurisconsultos da escola cujaciana, animados com o espirito critico da Renascença, tiveram por isso mesmo um vislumbre mais verdadeiro do que viria a ser a historia das litteraturas; elles foram ás obras litterarias do teatro romano, ás satyras de Juvenal e Horácio procurar a colisão dos interesses sociaes para recompôrem o sentido dos fragmentos das leis que se haviam perdido n'esta renovação da Europa chamada os tempos modernos». In Teófilo Braga, História do Romantismo em Portugal, Ideia geral do Romantismo, Garrett, Herculano, Castilho, Nova Livraria Internacional, Imprensa Sousa Neves, Lisboa, 1880.

Cortesia NLInternacional/JDACT