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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora. Teresa Vale e Carlos Gomes. Lisboa. «1834. Na sequência da expulsão das ordens religiosas, a zona conventual é transformada em paço episcopal; séc. 19, instalação do Panteão da Casa de Bragança no antigo refeitório dos monges…»

Cortesia de monumentos e sipa

(…)
Cronologia
1720
João Frederico Ludovice é nomeado mestre-de-obras do Mosteiro, por João V.

1755, 1 Novembro
O terramoto causou vários danos, designadamente a destruição do zimbório;

1759, 6 Agosto
Nas Memórias Paroquiais, assinadas por Francisco José Matos, é referido que a igreja tem o altar-mor, quatro capelas no cruzeiro, dedicadas a São Teotónio, Nossa Senhora da Conceição (Evangelho) e Santo António e Santo Agostinho (Epístola); na nave, as capelas de Santa Úrsula, Santa Catarina, São Tiago e Santa Bárbara, a do Santíssimo, onde está a imagem de Nossa Senhora das Necessidades, surgindo, no lado da Epístola, as de São Miguel, São José, Nossa Senhora do Pilar, Nossa Senhora da Pureza e Senhor Jesus; tem três irmandades, a do Santíssimo, com quatro capelães que recebem 45$000, a das Almas com 2 capelães, tendo 45$000 cada um, e a de Nossa Senhora das Necessidades, muito pobre; o pároco é o prior do Mosteiro, com 200$000 de renda; tem três capelães beneficiados, cada um com 40$000; o padroeiro do Mosteiro é o rei.

1764, 9 Julho
O prior do Mosteiro pede ao mestre pedreiro António Victorino Freitas que remova o entulho que ficara da obra do muro da clausura, que confina com a Travessa da Verónica. 20 Julho, Mateus Vicente Oliveira verifica se o muro ficou bem construído, conforme ordem do Senado, por se encontrar a cair para a Travessa.

1773 - 1792
A Patriarcal é instalada em São Vicente de Fora devido às obras na Sé, onde se manteve 20 anos; os religiosos foram então para Mafra; séc. 18, final, execução do presépio por Joaquim José Barros.

1796
Restauro das pinturas do tecto da portaria por Manuel Costa.

1834
Na sequência da expulsão das ordens religiosas, a zona conventual é transformada em paço episcopal; séc. 19, instalação do Panteão da Casa de Bragança no antigo refeitório dos monges, por ordem de Fernando de Saxe-Coburgo; obras de restauro por José Maria Nepomuceno.

1895
Obras de restauro (reconstrução do zimbório).

1903, 27 Fevereiro
São transferidos para o edifício do Seminário Pequeno bancadas e quadros provenientes do Mosteiro de Santa Clara de Santarém; séc. 20, década de 40, o Liceu Gil Vicente ocupou parte das antigas dependências conventuais.

1952
Adaptação da antiga sala do Capítulo a Panteão dos Patriarcas 1995, projecto de arquitectura paisagista do pátio de entrada (das Laranjeiras) e posterior execução.

1992, 1 Junho
O imóvel é afecto ao Instituto Português do Património Arquitectónico, pelo Decreto-lei 106F/92, DR, 1.ª série A, n.º 126.

1999, 26 Março
Elaboração da Carta de Risco do imóvel pela DGEMN.

2006, 22 Agosto
Parecer da DRCLisboa para definição de Zona Especial de Protecção conjunta do castelo de São Jorge e restos das cercas de Lisboa, Baixa Pombalina e imóveis classificados na sua área envolvente.

2007, 20 Dezembro
O imóvel é afecto à Direção Regional da Cultura de Lisboa e Vale do Tejo, pela Portaria n.º 1130/2007, DR, 2.ª série, n.º 245.

2009, 24 Agosto
O imóvel é afecto à Direção Regional da Cultura de Lisboa e Vale do Tejo, Portaria n.º 829/2009, DR, 2.ª série, n.º 163.

2011, 10 Outubro
O Conselho Nacional de Cultura propõe o arquivamento de definição de Zona Especial de Protecção; 18 Outubro, Despacho do diretor do IGESPAR a concordar com o parecer e a pedir novas definições de Zona Especial de Protecção». In Teresa Vale e Carlos Gomes, Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora, Lisboa, Revista Monumentos, 1994.

Cortesia de RMonumentos/JDACT

Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora. Teresa Vale e Carlos Gomes. Lisboa. «1425. Foi recebido pelo mosteiro a dádiva régia de 3 relicários de prata, uma noz moscada encastoada em prata, uma cruz de prata, jaspe, arqueta de prata, cristal, azeviche, rédeas de cavalo e outros bens»

Cortesia de monumentos e sipa

(…)
Cronologia
1147
Fundação do convento de São Vicente por Afonso Henriques, que foi entregue aos cónegos regrantes de Santo Agostinho, instituição da Igreja de São Vicente-de-Fora como sede de paróquia, esta paróquia fora de muros como os Mártires ou Santa Justa, recebeu a designação Fora por não estar sob jurisdição do bispo de Lisboa.

1425
Foi recebido pelo mosteiro a dádiva régia de 3 relicários de prata, uma noz moscada encastoada em prata, uma cruz de prata, jaspe, arqueta de prata, cristal, azeviche, rédeas de cavalo e outros bens.

1551
Segundo Cristóvão Rodrigues Oliveira, a igreja paroquial está sediada no altar de São Julião da Igreja dos Cónegos Regrantes, com um cura e quatro capelães, pagos pelo Mosteiro; na paróquia estão sediadas as confrarias do Santíssimo, Nossa Senhora da Enfermaria, São Sebastião, Santa Margarida e dos Fiéis de Deus, que rendem de esmolas 35 cruzados.

1552
O convento contava 60 frades e 10 criados e dispunha de uma renda de 3000 cruzados.

1569
O rei Sebastião ordena a fundação da igreja de São Sebastião no sítio da Mouraria, como voto gratulatório por ter salvo Lisboa da peste que grassara nesse ano; mais tarde, escolhe-se o Terreiro do Paço para o efeito.

1571, Março
Lançamento da primeira pedra, não sendo concluída a construção do templo, que tinha a traça de Afonso Álvares; as pedras são aproveitadas na construção de São Vicente de Fora.

1582
Demolição do primitivo edifício e início da edificação da nova igreja, segundo projecto de Filippo Terzi, que contou com a colaboração de Herrera, foi executado por Leonardo Torriano, Baltazar Alvares, Pedro Nunes Tinoco e João Nunes Tinoco; séc. 17, trabalha na obra como arquitecto Francisco da Silva;

1608-1612
Obras de feitura do retábulo do coro e dos confessionários, conforme projecto do arquitecto Teodósio Frias, que acompanhou as obras.

1624
É nomeado arquitecto das obras do Mosteiro Diogo Pais, com o ordenado de 20$000; Pedro Nunes Tinoco substitui Baltazar Álvares como mestre principal.

1629, 28 Agosto
Celebrada na igreja a primeira missa.

1631
Feitura de um cofre-eucarístico pelo ourives André Fernandes.

1641, 08 Fevereiro
Nomeação de mestre do Mosteiro João Nunes Tinoco, em substituição de Pedro Nunes Tinoco, tendo sido reconduzido em 1650.

1690, 23 Junho
É nomeado mestre das obras do Mosteiro Luís Nunes Tinoco.

1710
Pintura mural do tecto da portaria pelo italiano Vincenzo Baccarelli.

1716
Concluída a sacristia
(…)

In Teresa Vale e Carlos Gomes, Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora, Lisboa, Revista Monumentos, 1994.

Cortesia de RMonumentos/JDACT

Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora. Teresa Vale e Carlos Gomes. Lisboa. «A nave e a capela-mor são cobertas por abóbadas de berço com marcação de caixotões, enquanto que sobre o cruzeiro se eleva uma cúpula»

Cortesia de monumentos e sipa

Igreja
«Planta longitudinal composta em cruz latina, de nave única com 6 capelas laterais intercomunicantes, transepto inscrito e capela-mor com retrocoro. Volumetria escalonada com coberturas em terraço acima das quais se eleva o volume da cúpula com cobertura piramidal. O alçado principal da igreja integralmente de cantaria, de um só corpo ladeado por 2 torres de secção quadrada encimadas por cúpula e lanternim, organiza-se em 2 níveis. No 1º rasgam-se 3 vãos em arco de volta inteira, de acesso à galilé, gradeados, separados por pilastras e encimados por 3 nichos com estátuas (da esquerda para a direita: São Vicente, Santo Agostinho e São Sebastião), os laterais coroados por frontão triangular e o central por frontão curvo. No nível superior abrem-se 3 janelões rectangulares sobrepujados de frontão curvo (os laterais) e triangular (o central). Acima da cornija eleva-se uma platibanda de balaústres e plintos com pináculos piramidais. As torres, de 3 níveis e delimitadas lateralmente por dupla pilastra, ostentam no 1º um nicho com estátua (na da esquerda Santo António, na da direita São Domingos), encimado por frontão curvo; no nível imediato, nicho com estátua (na da esquerda São Bruno, na da direita São Norberto), dotado de frontão triangular; no 3º nível abrem-se as ventanas sineiras em arco de volta perfeita. A nave e a capela-mor são cobertas por abóbadas de berço com marcação de caixotões, enquanto que sobre o cruzeiro se eleva uma cúpula. Três degraus e uma balaustrada de mármore operam a transição entre a nave e o transepto. O altar-mor, de dupla face, é coberto por um baldaquino assente em 4 colunas rematadas por dossel. O envolvimento das bases das colunas é feito por 8 estátuas de madeira de grandes dimensões, do lado do Evangelho: São José, Santo Agostinho, Santa Mónica e São Vicente; do lado da Epístola a Virgem, São Teotónio, São Frutuoso e São Sebastião. No coro dos cónegos destaca-se o órgão revestido a talha dourada da 1ª metade de setecentos e o cadeiral, de pau-santo, de 3 faces em 2 ordens.

Mosteiro
Planta composta de volumes articulados e coberturas a 4 águas. No alçado principal O., de corpo único e um só andar, destaca-se o portal em arco de volta inteira, de feição seiscentista, ladeado por 2 pares de pilastras caneladas, que se terminam em acrotérios e assim se articulam com uma janela de sacada coroada por uma pedra de armas do reino. Outras 4 janelas, idênticas, sucedem-se para a direita do portal. À esquerda um nicho com a imagem de pedra de Santo Onofre, medalhões e capitéis decorados com a emblemática de São Sebastião e de São Vicente. É a partir deste portal que se pode ter acesso aos claustros e dependências conventuais, podendo igualmente fazer-se através da igreja. Transposto o portal acede-se à Sala da Portaria, compartimento quadrangular com tecto pintado, onde se pode ver a representação do Triunfo da Igreja contra os Manicheus, tendo como figura central Santo Agostinho, datada de 1710, altos silhares de azulejos joaninos figurando cenas históricas e relacionadas com a fundação e a construção do mosteiro e ainda a teia de embrechados polícromos com balaustrada torneada em pau santo. A partir da Portaria tem-se acesso à galeria de um dos 2 claustros (ambos de planta quadrada), os quais ocupam uma vasta área rectangular. Neles destacam-se os silhares de azulejos recortados que revestem os muros num conjunto de 81 painéis, datáveis da 1ª metade do séc. 18 e de temática variada: passos das fábulas de La Fontaine, paisagens campestres e marítimas, cenas galantes e pastoris. A Sacristia, situada entre os 2 claustros, sendo a acesso ao seu interior feito através de um portal e moldura por pilastras e frontão, apresentando as armas reais, é um compartimento rectangular, com revestimento de mármores polícromos de forte impacto decorativo e tecto ostentando uma composição pictórica de autor desconhecido. Outras dependências conventuais, com acesso a partir dos claustros, apresentam silhares de azulejos azuis e brancos do período joanino, sendo de realçar a composição dos alizares das escadarias que levam à torre e aos antigos Paços episcopais, bem como um painel de azulejos representando um cortejo episcopal, nos terraços do patamar dos claustros. D. Fernando de Saxe-Coburgo mandou instalar no antigo refeitório dos monges o Panteão da Casa de Bragança para onde foram transferidos os túmulos que se encontravam junto da capela-mor». In Teresa Vale e Carlos Gomes, Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora, Lisboa, Revista Monumentos, 1994.

Cortesia de RMonumentos/JDACT

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Gama Caeiro. A Assistência em Portugal no Século XIII e os cónegos regrantes de S. Agostinho: «Entre as virtudes que os cónegos, do latim canonicus, haviam de cultivar, avultavam, além da indispensável obediência, a humildade e a caridade. E o perfeito exercício desta exigia a renúncia a toda a propriedade privada»

Cortesia de visita2009

«Já depois da sua morte, ocorrida em 430, foi redigida a chamada «Regula ad Servos Dei», que alguns remontam ao começo do século VI, mas que, segundo parece, é mera adaptação da «Carta 211 de Santo Agostinho e compilação dos «princípios gerais de orientação prática» dispersos pela obra augustiniana.

A primeira e máxima exigência era a de uma perfeita comunhão espiritual e de bens, à maneira das primitivas comunidades cristãs de Jerusalém, seguindo o exemplo dos apóstolos.
Entre as virtudes que os cónegos, do latim canonicus, haviam de cultivar, avultavam, além da indispensável obediência, a humildade e a caridade. E o perfeito exercício desta exigia a renúncia a toda a propriedade privada:
  • «Abstineamus ergo nos, fratres, a possessione rei privatae».
Seria moroso -e dispensável agora - historiar a longa evolução da renúncia à propriedade, como forma de despojarnento e de pobreza. Basta saber que era este o filão espiritual que alimentava, na origem, as canónicas portuguesas.
A corroborar essa exigência em mosteiros de regrantes, encontramos, por exemplo, as constituições promulgadas no capítulo convocado em 1162, pelo segundo prior-mor de Santa Cruz, D. João Teotónio, cujas disposições se destinavam à canónica de Lisboa, ligada por vínculo espiritual de protecção ao Mosteiro de Coimbra e). Aí se prescreve a fuga a toda a apropriação pessoal de bens.

Cortesia de calcanhardemaracuja

«De proprio modis omnibus fugíendo», mas, particularidade a notar, a prática, mesmo das virtudes e actos que constituem o travejamento tradicional da observância monástica, a obediência, a castidade, a pobreza, o jejum, o silêncio, assume aqui uma expressão nova, enquanto impõe, não apenas prosseguir no louvor a Deus e na contemplação, objectivos essenciais da vida monástica, mas também realizar o «munus» sacerdotal, de homens inseridos na comunidade, e que prestavam especial atenção, por disposição da Regra, à «cura animarum» e ao serviço da Igreja.

Não é este o lugar próprio para examinar os numerosos e complexos problemas, ainda incompletamente averiguados, da «Regula Sancti Augustini» ou das diversas disposições conciliares, legislativas, disciplinares, dos usos, dos leccionários, dos «libri capituli» ou capituleiros, dos costumeiros monásticos que se têm de considerar neste estudo.
Mas quereria apenas anotar, como observação de princípio, que o desprezo ou minimização destes elementos - os textos, quer de espiritualidade, quer de natureza legislativa - levaria a não compreender, depois, os modelos e a intenção específica que estiveram presentes no momento de dar concretização às práticas assistenciais.

Cortesia de teleios

No mesmo século, a espiritualidade que enforma os textos que servirão de fonte de inspiração concreta para a elaboração do ideal da pobreza do religioso e para as obras da caridade é diferente nos regrantes, nos cistercienses, ou nas ordens recém-fundadas dos mendicantes, dominicanos e franciscanos. Desprezar estes aspectos seria confundir, em grande parte, os planos do estudo da assistência durante a Idade Média.

O estudo do «léxico», do conceito, da «imagem» que certa época formava do pobre e da assistência ficaria muito incompleto se - além de outras fontes literárias, como anais e memórias coetâneas -, não incluísse o «sermonário», sabido qual o valor didáctico que possuía o sermão na Idade Média. Representa assim um manancial privilegiado, sob este ângulo de investigação, a vigorosa e significativa construção doutrinal da pobreza que um pregador português nos deixou, e que, pela sua filiação intelectual, era ainda, e sobretudo -não obstante a posterior formação franciscana - um «cónego regrante: António de Lisboa.
Seria todavia improcedente o estudo que se limitasse apenas à consideração dos textos atrás referidos. Para o caso concreto das corporações de regrantes em Portugal, a partir do final do século XII, conserva-se documentação muitíssimo valiosa, que pode lançar luz completamente nova sobre a assistência aos pobres, na Idade Média». In A Pobreza e a Assistência aos Pobres na Península Ibérica durante a Idade Média, Instituto de Alta Cultura, Centro de Estudos Históricos, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1974.

Cortesia de Imprensa Nacional-Casa da Moeda/JDACT

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Gama Caeiro. A Assistência em Portugal no Século XIII e os Cónegos Regrantes de S. Agostinho: «Os livros exigidos pela própria orgânica da comunidade canónica, além da "Sagrada Escritura" para a "lectio divina". A "Regula Sancti Augustini", dos Regrantes de Santo Agostinho. E, no caso português, S. Vicente de Fora, em Lisboa, Santa Cruz, em Coimbra, sabemos que tais obras aí existiam»

Cortesia de incm

«Se exceptuarmos o mosteiro cisterciense de Santa Maria de Alcobaça, as duas corporações religiosas que nos séculos XII e XIII desempenham em Portugal papel de maior relevo social, político e cultural pertencem a cónegos regrantes, em Lisboa, S. Vicente de Fora, e, em Coimbra, Santa Cruz.
Parece assim ocioso salientar o interesse em esclarecer a efectiva actuação assistencial dos regrantes portugueses na Idade Média:
  • estudo sugerido agora, mas a demandar continuação, com pesquisa sistematicamente conduzida, em domínio quase por explorar.
A investigação a fazer no caso português poderia abranger, numa primeira fase, os seguintes aspectos:
  • A pesquisa metódica -nos textos da época- das expressões e termos ligados à «pobreza»;
  • A indagação analítica da noção de pobreza: o conteúdo e a evolução histórico-doutrinal do conceito, a distinção entre o seu valor como riqueza espiritual e a sua acepção de degradação material;
  • A projecção em formas concretas da assistência a essa mesma pobreza, na vasta trama de relações de natureza económica, social e religiosa;
  • E, finalmente, o exame comparativo da prática assistencial nas canónicas portuguesas e das actuações desenvolvidas na mesma época pelas outras instituições similares da Europa.

Cortesia de teleios

Estes são, decerto, alguns dos ângulos possíveis de tratamento, muito esquematicamente referidos, de uma realidade que se apresenta muito mais ampla para a investigação, mas pretendemos salientar, apenas, as directrizes que de modo mais directo se aplicam ao nosso tema.
Todo o medievalista pressente que uma inquiração sobre a pobreza e assistência exige uma nova leitura das fontes literárias e de documentação porventura já conhecidas, mas realizadas antes com critério e visão crítica diferentes.
Para obedecer à distinção feita no esquema:
  • primeiramente, quanto à pesquisa terminológica e à análise conceptual sobre o «pobre»,
  • em segundo lugar, o padrão criado de pobreza, e a assistência como termo correlativo daquele.
Lembremos, por exemplo, as «vitae» dos santos ou de fundadores de ordens religiosas e mosteiros, cujo carácter hagiográfico, os «tropos» usuais, o recurso ao milagroso parecem, por vezes, repugnar à exigência de objectividade científica do trabalho histórico.
Cortesia de civilitaschristiana

Mas essas legendas, que, não é de mais recordá-lo, «eram para ler» pelos homens da época, correspondiam a uma «imagem proposta» e, de algum modo, assumida, de valores encarnados na vida concreta.
Especificando agora para os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, em Portugal: em alguns conhecidos textos literários medievais, tais como «A Vida de D. Telo ou A Vida de S. Teotónio», estabelece-se aí um padrão do «homem virtuoso, dotado de profunda caridade e que é paradigmático de todo o cónego regrante. Ora, aí, as relações com o pobre oferecem o maior interesse para o nosso tema. Paradigma decalcado por vezes em outros modelos, quando não lugar-comum da época: isso não prejudica, contudo, a «vigência do padrão».
Outra fonte mais importante ainda, para o estudo em particular da assistência no âmbito desta corporação religiosa, é constituída pelas obras da espiritualidade, na sua ampla acepção.
Os livros exigidos pela própria orgânica da comunidade canónica: além da «Sagrada Escritura» para a «lectio divina» e dos comentários patrísticos, a «Regula Sancti Augustini», imprescindíveis todos eles na livraria de mão dos Regrantes de Santo Agostinho. E, concretamente no caso português, S. Vicente de Fora, em Lisboa, Santa Cruz, em Coimbra, sabemos que tais obras aí existiam, comprovadamente.

O ideal de pobreza estava preceituado na chamada «Regra de Santo Agostinho». Como é sabido, Santo Agostinho fundou diversos mosteiros, pelo menos, dois de monges e um de monjas, mas não redigiu para eles normas de proceder que formalmente pudessem considerar-se uma regra». In A Pobreza e a Assistência aos Pobres na Península Ibérica durante a Idade Média, Instituto de Alta Cultura, Centro de Estudos Históricos, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1974.

Cortesia de Imprensa Nacional-Casa da Moeda/JDACT