Mostrar mensagens com a etiqueta Universidade do Porto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Universidade do Porto. Mostrar todas as mensagens

sábado, 9 de abril de 2016

Sancho I. Peregrino e devoto de S. Senhorinha de Basto. Geraldo Coelho Dias. «O túmulo de Santa Senhorinha é venerado na freguesia do mesmo nome e a igreja paroquial, seiscentista, tem várias e pobres referências iconográficas e tumulares à Santa, mas no mosteiro nada subsiste»

Cortesia de wikipedia

«(…) Santa Senhorinha de Basto (924-982, aproximadamente) é uma santa do século X, nascida em território português, perto de Vieira do Minho, prima de S. Rosendo. Foi educada por uma tia, chamada Godinha e também ela venerada como santa e fundadora do mosteiro de S. João de Vieira, a qual aparece referenciada no cartulário bracarense do Biber Fidei. Todavia, a vida de Santa Senhorinha, pouco estudada ainda, foi publicada em latim nos Portugaliae Monumenta Historica-Scriptores e recentemente traduzida para português. Sabemos que os monges beneditinos da antiga Congregação dos Monges Negros de S. Bento do Reino de Portugal, a consideravam monja e abadessa beneditina e como tal a representaram e difundiram o seu culto. Frei Leão de S. Tomás resume a sua vida e descreve o seu mosteiro, situado no fundo do vale, junto ao rio Basto, a três quilómetros do mosteiro de Refojos, no caminho para Arco de Baúlhe. Na realidade, porém, Santa Senhorinha é anterior à introdução da vida beneditina na nossa região, patrocinada pelas determinações do Concílio de Coyança em 1050, favorecida por Afonso VI de Leão. Deste modo, é puro anacronismo vesti-la a ela e à tia de abadessas beneditinas. Quando muito, tanto ela como seu primo S. Rosendo, terão levado um tipo de vida consagrada, que prolongaria no tempo os usos e costumes da região, que ainda conservava a memória do monaquismo de S. Frutuoso.
Tempos depois, em plena monarquia portuguesa, sucedeu que o miraculado filho de Sancho I, feito rei Afonso II, deu privilégios à igreja de Santa Senhorinha de Basto por provisão datada de Guimarães, a 28/2/1220. O rei Afonso III, filho do dito Afonso II, confirmou o couto e ampliou os privilégios, como consta das Inquirições de 1258. Sabe-se que o rei Pedro I, a 15/9/1360, estando em Valença do Minho, honrou Santa Senhorinha fazendo à sua igreja, onda dona Inês de Castro erigira uma capela a S. Gervásio, uma doação do padroado que detinha na igreja de Santa Maria do Salto, no Barroso, dando-nos a entender que esta, já então, era simples freguesia e não mosteiro. Parece que o couto foi extinto por volta de 1620, quando o benefício passou para o morgado da Taipa, em Celorico de Basto. A igreja tinha quatro anexas (Santa Maria do salto, Ourilhe, Painzela, Pedraido), as quais eram da apresentação do respectivo abade que, por isso mesmo, daí colhia os rendimentos.
De Santa Senhorinha se ocupou, modernamente, o arcediago-bispo de Lamego António Castro Xavier Monteiro, em livrinho de 48 páginas. O túmulo de Santa Senhorinha é venerado na freguesia do mesmo nome e a igreja paroquial, seiscentista, tem várias e pobres referências iconográficas e tumulares à Santa, mas no mosteiro nada subsiste. É sabido de todos que as tropas francesas, depois da 2ª Invasão comandada por Soult (16/5/1809), retiraram a toda a pressa pela mágica e dantesca ponte da Misarela, sobre o rio Rabagão, quase na confluência com o Cávado, na freguesia do Ferral, já no concelho de Montalegre. É ponte muito antiga, romano-medieval, por onde passavam peregrinos a caminho de S. Tiago de Compostela. A ela está ligado um curioso culto dos irmãos S. Gervásio e Santa Senhorinha, que a tradição faz naturais da vizinha região de Basto e que, aqui, teriam atravessado o rio para ir a Compostela e ao mosteiro de Celanova visitar seu primo S. Rosendo. De faco, na região existe uma lenda cde gostoso sabor antropológico-cristão segundo a qual, quando para uma mulher o período de gestação foi atribilado ou já houve caso de nado-morto, se deve fazer o baptismo pré-natal no útero da mãe, extra-sacramental, por um padrinho ali surpreendido, de noite e ao acaso. Este, deitando água do rio sobre o ventre materno, deverá dizer a seguinte fórmula: eu te baptizo, criatura de Deus, pelo poder do Senhor e de Santa Maria. Se fores rapaz, serás Gervaz; se fores menina, serás Senhorinha». In In Geraldo Coelho Dias, D. Sancho I, Peregrino e devoto de Santa Senhorinha de Basto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Revista da Faculdade de Letras, II Série, Vol. XIII, Porto, 1996.

Cortesia da FLUP/JDACT

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Mito e Tradição em Dalila Pereira Costa. Manuel Gama. «… que sempre conduzem uma pátria, são como que as suas sementes que geram, estruturam e dão coesão à sua cultura. E, numa visão arquetípica, tradição e mito são a mesma realidade sob a mesma cor esbatida em tons diferentes: “a tradição requer o mito e o mito exige a tradição”»

jdact

Resumo:
«Tradição e mito são simultaneamente dois temas fundamentais do horizonte antropológico e dois pilares de suporte da estrutura do pensamento de Dalila Pereira Costa. O mito é uma forma de ler a realidade. Se em Dalila Pereira Costa encontramos esta visão hermenêutica, é também evidente que o mito aparece como o motor da acção dos povos e da regeneração das culturas. O esbatimento dos mitos leva à perca da alma das culturas. O povo que não tem os seus mitos tende para a inanidade. Por seu lado, a tradição de uma pátria ganha inteligibilidade quando vertida nos seus símbolos, nos seus símbolos tradicionais. Estes não são coisa morta, elementos de um conhecimento erudito ou arqueológico, passado, mas bem pelo contrário, como afirma Dalila Pereira Costa».

«Mito é um conceito complexo e difícil, pois tanto pode velar como desvendar a realidade. Neste sentido, dados os seus tão diversos níveis de significação, se pode entender a expressão de Fernando Pessoa: O mito é o nada que é tudo. Se na sua primeira acepção, o mito é um relato fabuloso de conteúdo religioso, que depois apareceu a significar a representação, de estrutura imaginativa, com a apreensão de valores, a noção de mito passou além do domínio religioso, sendo então o relato imaginário que tem o valor de símbolo. Neste aspecto, afastado já do seu sentido primitivo, o mito ganhou o significado de projecção no futuro da realização de um ideal, aproximando-se, aqui, do conceito de utopia. A tradição, descoberta pela hermenêutica para o campo filosófico, é o elemento constitutivo da historicidade e da compreensão do homem. O homem não pode sair da História para a poder pensar, estando, pois, condicionado por ela. Ou seja, o homem não tem conhecimento de si, da natureza e da História, sem mergulhar na tradição. No entanto, se a tradição é condição de conhecimento que lhe abre novas perspectivas, se for encarada como via absoluta pode paralisar o pensamento. Assim, a tradição, só quando portadora de passado e de futuro, é capaz de abrir horizontes novos de compreensão e de possibilidade.
Quanto a nós, tradição e mito são simultaneamente dois temas fundamentais do horizonte antropológico e dois pilares de suporte da estrutura do pensamento de Dalila Pereira da Costa. Neste findar de século (XX), de ligação tão íntima com a última metade do anterior-, em que a mentalidade positivo-cientificista parece querer alimentar o devir apenas no aqui e agora, é importante que se mantenha viva a chama do saber não positivista que, apesar de obnubilado por saberes ostentatórios, ainda permanece, afinal, como a estrela que indica o norte. Grande limitação a da cultura presente, que faz tábua-rasa dos mistérios e que quer fazer crer que fora dos trilhos do logismo racionalista e do experimentalismo não há caminhos de verdade. Já António Quadros deixara anotado que o conjunto da obra de Dalila Pereira Costa inclui por um lado, o domínio ou a vertente de uma literatura puramente visionária e mística, por outro, o de uma hermenêutica especialmente empenhada na sondagem e decifração de símbolos, de mitos, de textos sagrados, de uma poesia e de uma novelística onde haja predomínio do elemento transcendental sobre os elementos positivos e sociológicos. É também assim que nós vemos o pensamento da nossa escritora: todo ele repassado pelo brilho dos mitos, em que a tradição é sondada como caminho de verdade e as dimensões de imortalidade e eternidade sempre aparecem no horizonte.
O mito é uma forma de ler a realidade. Se em Dalila Pereira Costa encontramos esta visão hermenêutica, é também evidente que o mito aparece como o motor da acção dos povos e da regeneração das culturas. O esbatimento dos mitos leva à perca da alma das culturas. O povo que não tem os seus mitos tende para a inanidade. Tal seria o efeito do positivismo do século XIX, que intentou desmoronar as visões míticas e destruir todos os heróis. É numa linha contrária a esta tendência alastrante que vemos irradiar o pensamento de Dalila Pereira Costa. Veja-se especialmente a sua obra Da Serpente Imaculada (1984), impregnada pela força de figuras míticas como Anas, Tagus, Atégina, Endovélico, Minius. Neste seu estudo faz-se também a análise dos dois mitos propulsores da expansão portuguesa: a missão e a saudade, ligados respectivamente às acções da cruzada e da emigração. Perante os desmandos imediatos à implantação da República, passados meia dúzia de dias, escrevia sensatamente Sampaio Bruno que era necessário e indispensável o respeito pela grande lei da continuidade histórica: A lei da continuidade histórica, dizia, reside em que as transformações racionalistas contem com o factor da realidade da tradição, de modo que se não suponha possível um princípio na efectividade social só porque ele seja exacto e justo na esfera da especulação pura. No mesmo sentido vai o pensamento de Dalila Pereira Costa. As transformações requerem filiação, que só na tradição encontram a força de futuro, ao mesmo tempo que aquela é fonte de sobrevivência e progresso de uma nação.
A tradição de uma pátria ganha inteligibilidade quando vertida nos seus símbolos, nos seus símbolos tradicionais. Estes não são coisa morta, elementos de um conhecimento erudito ou arqueológico, passado, mas, bem pelo contrário, diz Dalila, elementos vivos e eternos, capazes de eternamente serem conhecidos e usados por uma comunidade na sua vida completa: no pensamento e na acção, como elementos de integração. Os símbolos são a expressão visível, com força de acção, da tradição como espelho de um passado útil e utilizável. A tradição é a grande fonte onde a pátria deve beber a sua força fecundante de desenvolvimento, e nela criará novos ciclos ou formas de vida, de futuro. Enfim, na tradição reside a única força possível de futuro. Como refere Dalila, os arquétipos fundamentais, que sempre conduzem uma pátria, são como que as suas sementes que geram, estruturam e dão coesão à sua cultura. E, numa visão arquetípica, tradição e mito são a mesma realidade sob a mesma cor esbatida em tons diferentes: a tradição requer o mito e o mito exige a tradição. Daí que, para concluir, tomemos o apelo intemporal, e ao mesmo tempo tão oportuno neste findar de milénio (XX), de Dalila Pereira Costa: Agora e aqui, na pátria portuguesa, urgiria realizar o gesto repetido do alquimista, o que nada descobre de novo, mas tão-somente vê de novo um segredo transmitido numa tradição, através dos símbolos». In Manuel Gama, Mito e Tradição em Dalila Pereira Costa, Colóquio Dalila Pereira Costa e as Raízes Matriciais da Pátria, Porto, Maio, Departamento de Filosofia, Instituto de Letras e Ciências Humanas, Universidade do Minho,1996.

Cortesia da UMinho/JDACT

quinta-feira, 3 de abril de 2014

As Máscaras do Passado. Maria de Fátima Marinho. «A culpa era de Orlando, talvez; mas, apesar de tudo, poderemos censurar Orlando? A época era a elisabetana, a sua moralidade não era a nossa; nem os seus poetas; nem o seu clima; nem mesmo os seus legumes. Tudo era diferente»

Cortesia de wikipedia

«Na Idade Média, o passado não era sentido como diferente e as personagens de outras eras eram visionadas como anjos ou demónios e os seus actos explicados através do sobrenatural. Ainda no século XVI, Luís de Camões, em Os Lusíadas, se limita, pela boca de Vasco da Gama, a enaltecer os feitos heróicos ou amorosos, não havendo qualquer análise mais detalhada dos movimentos históricos ou das mentalidades das personagens em jogo. A sucessão dos reis e suas façanhas anula a relativização da heroicidade e do discurso encomiástico que os textos devedores da estratégia do poder nos transmitiram. Só a partir de meados do século XVIII se começa a ter uma noção, embora ainda ténue, da real diferença entre as épocas. As frases de Orlando, de Virgínia Woolf, a seguir citadas, são reveladoras da diferença de mentalidades e de costumes. Nem o século XIX, como veremos, tem uma noção tão nítida da diferença:

A culpa era de Orlando, talvez; mas, apesar de tudo, poderemos censurar Orlando? A época era a elisabetana, a sua moralidade não era a nossa; nem os seus poetas; nem o seu clima; nem mesmo os seus legumes. Tudo era diferente. Mesmo o tempo, o calor e o frio do Verão e do Inverno, eram, podemos acreditar, absolutamente de outra qualidade.

Na realidade, o século XIX marca o início dos estudos da História científica e rigorosa. Herdeiros dos enciclopedistas do século anterior, os intelectuais oitocentistas perceberam que era necessário estudar convenientemente o passado, para argumentar a favor de uma nacionalidade em perigo e de uma camada social que ainda não tivera tempo de assimilar os valores culturais legitimadores de uma identidade. Compreende-se assim o papel de Alexandre Herculano, ao escrever Eurico o Presbítero, O Bobo e O Monge de Cister, cuja acção se situa, respectivamente, no século VIII, aquando da invasão árabe e da correspondente ofensiva da Reconquista cristã, no tempo de Afonso Henriques e no de João I, logo a seguir a Aljubarrota.
Os momentos-chave para a consolidação da nação conjugam-se com pormenores que destacam a topografia dos lugares, as vestes das personagens, consoante a sua classe social, crença religiosa ou nacionalidade, as manifestações culturais ou bélicas. Pretendiam os românticos reconstituir fielmente o passado, na mira de ensinar à nova burguesia emergente os valores ancestrais, criando-lhes laços com a tradição. Acreditavam então que bastava estudar os documentos antigos para se ter um conhecimento completo e irrecusável de outros tempos e que estes, uma vez estudados, eram imutáveis e completos. A par desta crença inabalável na fiabilidade dos textos antigos, havia ainda a ignorância absoluta dos modos de ser e agir dos seres do passado, criando-se uma fundamental anacronia, na medida em que, e apesar de adereços de época, as atitudes, sentimentos e acções, não condizem com o século em que parecem situar-se. Personagens românticas, idênticas às dos romances situados no tempo da escrita, movem-se em cenários que não lhes são estranhos. Aliada a esta singular debilidade, está também a importância e relatividade do ensino da História. É difícil aprender História em textos onde os dados objectivos são inegavelmente de segundo plano e onde os enredos, só exteriormente e em detalhes desinteressantes, têm a ver como passado. Razão tinha Manzoni quando assumia a descrença no papel didáctico do romance e razão tinha Camilo Castelo Branco, quando descurava essa intenção didáctica, usando e abusando da ironia, em ambos os sentidos:

Sabeis demasiado o que foi a revolução francesa, essa tempestade de sangue, vaticinada nos reinados de Luís XIV e Luís XV, e cumprida como a profecia indestrutível de uma lógica de ferro, em que vemos um rei pagar com a cabeça os desatinos que lhe vieram, em herança dos reis passados. Se não conheceis os pormenores dessa luta, cuja história contrista e horroriza, nem por isso vos obrigo a estudá-la como preparatório para a inteligência deste romance. Vós prescindis, naturalmente, de tudo que são acessórios, e eu também prescindo de fazer-vos meu auditório numa pesada prelecção dos sucessos decorridos entre 1789 e 1806. (Camilo 1971);  e o seguimento deste capítulo ameaça enfados e razoáveis espreguiçamentos. Livre-se dele o leitor, se quiser. Eu é que não posso, (…) esquecer-me de que sou, neste caso, historiador, e exorcizo e abomino as execráveis tentações do romancista.
(Camilo 1987)»

In Maria de Fátima Marinho, As Máscaras do Passado, Universidade do Porto, Revista Limite, nº 2, 2008, ISSN 1888-4067.

Cortesia da UPorto/JDACT

As Máscaras do Passado. Maria de Fátima Marinho. «It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness»

Cortesia de wikipedia

«A impossibilidade de transformar o texto no espelho da realidade tem consequências estruturais e conceptuais difíceis de ignorar, implicando a ausência de objectividade. Se isto é verdade para qualquer tipo de texto, não deixa de ser verdade quando o discurso se debruça sobre matéria histórica, instaurando um constrangimento entre a liberdade do escritor e o conhecimento (lacunar, imperfeito, pouco importa) do facto do passado. A certeza de que a imparcialidade não existe justifica e legitima o início do romance A Tale of Two Cities, de Charles Dickens, publicado em 1859, mas que parece já reflectir as preocupações presentes nos textos da segunda metade de novecentos:

It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair, we had everything before us, we had nothing before us, we were all going direct to Heaven, we were all going direct the other way. (Dickens 1985)

A caracterização que é feita de uma mesma época através de enunciados contraditórios deixa antever a disparidade de focalizações e, simultaneamente, a falência de um conhecimento seguro. Pierre Barbéris faz a distinção entre História, História e história, partindo do facto objectivo até à sua textualização histórica e literária. Se atentarmos no que afirma Teolinda Gersão:

A História começa onde começa a escrita (…). Antes é apenas um tempo informe e sem medida. (Gersão 1984)

Percebemos que, mesmo quando se trata de enunciados pretensamente científicos, devemos sempre contar com a descodificação das condicionantes externas, como a convenção ou o discurso da autoridade e posterior codificação em outros modos de percepcionar o real. Perante a certeza da total ilusão de realidade, o sujeito narrativo não se preocupa em escrever a verdade, mas delega essa responsabilidade nas vozes autorais de outros tipos de discurso, acabando por se compenetrar de que a realidade é frequentemente ficção. O difícil equilíbrio entre o real e a sua transposição para a escrita traduz-se de variados modos e, ao longo dos tempos, por formas, frequentemente, opostas, de trabalhar a História como matéria literária. Peter Burke, no valioso ensaio The Renaissance Sense of the Past, chama a atenção para as anacronias presentes ao longo dos tempos, para a ausência de perspectiva histórica na Idade Média e para as alterações que as relações entre História e Literatura foram sofrendo até ao século XIX. Burke acentua também a diferença entre aparência e realidade, na medida em que o jogo que se estabelece entre as duas se revela gerador de sucessivas máscaras, que o texto esconde e desvenda, num vertiginoso movimento. Agustina afirma que No fundo, o que interessa ao historiador não é a verdade, mas uma teoria, o que vem corroborar a ideia de que a verdade não existe e que se tenta a todo o custo atingir algo que escapa e desaparece, sempre que parece estar ao alcance do conhecimento. Burke demonstra que a perspectiva histórica implica a ausência de duas coordenadas: esquecimento do passado e demasiada identificação com ele». In Maria de Fátima Marinho, As Máscaras do Passado, Universidade do Porto, Revista Limite, nº 2, 2008, ISSN 1888-4067.

Cortesia da UPorto/JDACT

quarta-feira, 2 de abril de 2014

As Máscaras do Passado. Maria de Fátima Marinho. «Mal vai porém ao pintor, ou pior vai porém ao pintor, se, tendo de pintar um retrato, descobre que tudo quanto lançou à tela é cor anárquica e desenho louco, e que o conjunto de manchas só reproduz do modelo uma semelhança que a este satisfaz, mas ao pintor não»

Cortesia de wikipedia 

Resumo
O presente ensaio estabelece a importância da presença da História nos textos literários, desde a Idade Média até ao presente. Começando por estudar a ausência de sentido histórico e a inevitável anacronia daí decorrente, debruça-se em seguida sobre as mudanças operadas no século XIX, a fim de melhor se poderem compreender a subversão e transgressão que se verificam a partir do fim dos anos 70 de novecentos. Nos romances pós-modernos, acentua-se a importância da máscara e do duplo, no tratamento que sofrem os factos concretos, a biografia e autobiografia (fictícia) de personagens do passado, a confusão e invenção dos tempos, a memória e o próprio significado conceptual de acontecimentos e atitudes.
«A oposição primária entre História e Literatura tem proporcionado o aparecimento de mal-entendidos que, se por um lado, se esquivam a desvendar as evidentes relações entre as duas, por outro, tendem a encontrar pontos de contacto só aceitáveis se esquecermos as abissais diferenças. A incomodidade, provocada pela proximidade indesejada e pelo afastamento voluntário, tem como consequência uma ambiguidade produtiva que se manifesta, simultaneamente, nas produções literárias desde os tempos mais antigos e nos estudos históricos, que se assumem irremediavelmente como construção narrativa, sob pena de se tornarem numa sequência de datas e de factos sem interpretação. Aliás, a ousadia ocidental de reproduzir o real e os problemas daí decorrentes são magistralmente significados num recente romance do Nobel da literatura turco, Orhan Pamuk, O Meu Nome é Vermelho, quando uma personagem explica a razão do perigo da mimese: 

Segundo ele, nós teríamos representado no último desenho o rosto de um mortal de acordo com as regras do Ocidente, isto é, dando a impressão, não de uma imagem, mas da realidade, de maneira que esta obra incita os que a contemplam a prosternarse perante ela, como numa igreja. (Pamuk 2007)

A ilusão, que parece estar tacitamente presente em toda a representação do real, implica a desconstrução do conceito de imitação e a tentativa, vã, de fixar num momento ideal, a vida e a sua reduplicação. É assim que outra personagem resume o dilema da arte e faz lembrar Óscar Wilde, em The Picture of Dorian Gray: 

O meu filho Orhan, que é pouco subtil de pensamento ao ponto de seguir sempre a lógica, explica-me há vários anos que, por um lado, os mestres eternos de Herat não poderiam pintar-me como eu sou, e que, por outro lado, os pintores da Europa, que não param de pintar crianças com as mães, são incapazes de parar o tempo: e que, por isso, a minha felicidade nunca poderá ser posta em pintura. (Pamuk 2007) 

A incapacidade de reprodução do real, seja ele o do presente ou o do passado, a consciência de que as palavras não exprimem nunca o conflito, mas o seu fantasma (Bessa-Luís 1988) e de que a literatura (…) é uma experiência apenas virtual, que não pode ser utilizada de modo efectivo (Gersão 1984), condicionam a interacção entre História e Literatura, porque uma sabe não poder viver sem a outra, mas sabe também os inevitáveis conflitos que se geram entre a tentativa de estudar e compreender o passado e a tentativa de o fazer interagir, numa perspectiva dinâmica, com o presente e o futuro: (…) é necessário ir criando espaço para o passado que mais convém ao nosso futuro (Macedo 2000), como diria Hélder Macedo no romance Vícios e Virtudes. Há, pois, a vontade de recuperar o texto perdido da História, na convicção plena de que A realidade é um estorvo para os criadores (Bessa-Luís 1988) e de que o modelo e o retrato nunca coincidem, como escreve José Saramago em Manual de Pintura e Caligrafia: 

Na verdade, se qualquer retratado pudesse, ou soubesse, ou quisesse, analisar a espessura pastosa, informe, dos pensamentos e emoções que o habitam, e tendo analisado encontrasse as palavras (…) saberíamos que ele, aquele seu retrato é como se tivesse existido sempre, um outro-ele mais fiel do que o-ele de ontem (…). Mal vai porém ao pintor, ou dizendo mais rigorosamente, pior vai porém ao pintor, se, tendo de pintar um retrato, descobre que tudo quanto lançou à tela é cor anárquica e desenho louco, e que o conjunto de manchas só reproduz do modelo uma semelhança que a este satisfaz, mas ao pintor não. (Saramago 1985) 

In Maria de Fátima Marinho, As Máscaras do Passado, Universidade do Porto, Revista Limite, nº 2, 2008, ISSN 1888-4067.

Cortesia da UPorto/JDACT

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sancho I. Peregrino e devoto de S. Senhorinha de Basto. Geraldo Coelho Dias. «… foi levado por Egas Moniz em peregrinação à ermida de Santa Maria de Cárquere, Resende, onde foi salvo, por milagre de Nossa Senhora, do aleijão com que nasceu?»

Cortesia de wikipedia

«Todos sabemos que, para os reis cristãos da Idade Média, por mais pecadores e violentos que fossem, a religião fazia parte da sua vida e eles não tinham vergonha de a manifestar em público. Não precisavam de se declarar católicos quando andavam pelo reino, em corte aberta, a administrar justiça, a passar correição às suas gentes ou a fazer inquirições sobre os seus reguengos. A Idade Média era tempo de muitas carências ao nível da vida real e de muito atraso cultural; a ciência médica ainda não conseguira resolver banais problemas de saúde ou vencer doenças mais ou menos naturais. Por isso, Deus e os seus Santos, mesmo para os reis, eram sempre o recurso mais imediato e os grandes protectores para os males do corpo e do espírito. Afinal, os reis também sentiam a sua fraqueza natural e, por isso, não deixavam de rezar por si e pelos seus. Para isso faziam peregrinações à Tera Santa, a Santiago de Compostela e a outros lugares santos espalhados pela cristandade. Dentro dos seus reinos, não raras vezes, aproveitavam as suas viagens de governação para visitar os santuários mais famosos e invocar os santos mediadores, que a devoção do seu povo sentia próximos e chegados ao mundo dos homens, particulares advogados para coisas ruins e males desconhecidos. Na doença e nos infortúnios da vida, todos os mortais eram iguais. Não foi assim que Afonso Henriques, o pai da pátria portuguesa, foi levado por Egas Moniz em peregrinação à ermida de Santa Maria de Cárquere, Resende, onde foi salvo, por milagre de Nossa Senhora, do aleijão com que nasceu? Ora, tal pai, tal filho. Que admira, que também seu filho, Sancho I, lhe seguisse o exemplo, quando a desgraça lhe bateu à porta e pôs seu filho, futuro Afonso II, o Gordo, em grave perigo de vida?
Foi exactamente isso que aconteceu, naquele distante 29 de Maio de 1200, conforme reza a pública-forma duma carta de couto passada em Braga pelo tabelião João Fortes, a 10/XII/1278, transcrita depois no Liber Fidei da Sé de Braga e a cujo conteúdo faz referência frei António Brandão na Monarquia Lusitana, parte IV, Livro 12, capítulo 27. Andava o rei em visita pelas úberes mas ermadas terras de Basto, então chefiadas pelo nobre Gonçalo Mendes, da nobre linhagem dos Sousões. Tinha visitado e pousado, com certeza, no célebre mosteiro beneditino de S. Miguel de Refojos de Basto e, ali, teria exposto aos monges a sua apreensão e desolação, face a uma esquisita doença (lepra?) de seu filho e herdeiro, que viria a ser o nosso rei Afonso II, o Gordo (1185-1223). Nessa altura o príncipe herdeiro teria cinco anos de idade. Aos monges teria, então, o aflito e preocupado progenitor ouvido falar da poderosa intercessão e dos extraordinários milagres de Santa Senhorinha. A igreja da Santa era ali bem pertinho e os religiosos, qua assistiam espiritualmente a igreja da Santa, para lá encaminharam o atribulado pai e impotente rei.
Conforme o próprio monarca narra, em estilo directo, na primeira pessoa, lá se dirigiu a fim de rezar, causa orationis, junto do túmulo da gloriosa Virgem, Santa Senhorinha. Não teve respeitos humanos e, diante dos presentes, com gemidos e suspiros, gemitibus et suspiriis, impetrou a saúde para seu filho Afonso, fazendo a promessa de criar à volta da igreja um couto de protecção, que ele próprio percorreu a pé, mandando que Gonçalo Mendes, senhor da terra, levantasse as pedras de coutação. O documento é autêntico e vem reproduzido entre os documentos de Sancho I». In Geraldo Coelho Dias, D. Sancho I, Peregrino e devoto de Santa Senhorinha de Basto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Revista da Faculdade de Letras, II Série, Vol. XIII, Porto, 1996.

Cortesia da FLUP/JDACT

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Universidade do Porto: U. Porto 100. Fórum Colégios da Escola Doutoral. «As actividades de ID&I da U.Porto têm registado um forte incremento qualitativo e quantitativo»


Cortesia de up

«As minhas primeiras palavras são para lhe dar as boas-vindas ao portal da U.Porto. Agradeço a sua visita e espero que a informação aqui disponibilizada seja credora de interesse, revestida de utilidade e promotora de interactividade. Da nossa parte, há o propósito de lhe proporcionar uma viagem virtual pelas entidades que configuram o universo orgânico da U.Porto, permitindo assim o conhecimento das respectivas actividades, competências, valências e recursos humanos.
A U.Porto é a instituição portuguesa do ensino superior que maior número de estudantes acolhe. Diariamente, uma comunidade estudantil de quase 31 mil membros alarga o seu horizonte de conhecimentos em 14 faculdades, uma business school e perto de 70 estruturas de investigação científica. Tudo isto repartido por três campus universitários que congregam, igualmente, residências para estudantes, equipamentos desportivos e instalações de apoio social.
A U.Porto disponibiliza mais de 700 programas de formação (1º, 2º e 3º ciclos e formação contínua), cobrindo áreas do conhecimento tão distintas como as ciências da vida, as engenharias, a inovação tecnológica, os estudos humanísticos, sociais e culturais e a criação artística. Para tanto, a U.Porto possui um corpo qualificado e especializado de 1 873 docentes e investigadores ETI, dos quais 76% são doutorados.
As actividades de ID&I da U.Porto têm registado um forte incremento qualitativo e quantitativo.


Cortesia de up
A nossa Universidade domina a produção científica nacional e é reconhecida além-fronteiras pela sua capacidade de inovação. Nos últimos anos, mais de 1/5 dos artigos científicos portugueses foram publicados por docentes e investigadores da U.Porto. Para dar a conhecer esta realidade multifacetada, o portal da U.Porto organiza conteúdos, estabelece links e uniformiza procedimentos de forma a facilitar o acesso à informação quer por parte dos membros da comunidade académica (estudantes, antigos alunos, docentes, investigadores e demais colaboradores da Universidade), quer ainda por parte de visitantes exteriores à instituição. No primeiro caso, o portal é uma ferramenta de trabalho e de conhecimento interno da comunidade académica da U.Porto. No segundo caso, o portal promove a aproximação da instituição à sociedade onde está inserida, tirando partido das potencialidades das novas tecnologias e da vontade de abertura, transparência e interacção que anima a U.Porto.
Como meio privilegiado de comunicação, o portal da U.Porto está receptivo a comentários e sugestões dos visitantes. O contributo de todos é essencial para que a nossa Universidade avance nos objectivos estratégicos a que se propôs, como o reforço da qualidade e abrangência da formação, a promoção das actividades de ID&I, o incremento do empreendedorismo, a subida do nível de internacionalização e a optimização do modelo de governação universitária. Por tudo isto, desejo-lhe uma boa viagem virtual»! In O Reitor, José Carlos D. Marques dos Santos.

Cortesia da Universidade do Porto/JDACT