Mostrar mensagens com a etiqueta Abel Estefânio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Abel Estefânio. Mostrar todas as mensagens

sábado, 2 de abril de 2016

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «Para além da Vita Theotonii, atribuída aos séculos XII-XIII, inclui a Regra de Santo Agostinho e as Lendas dos Mártires de Marrocos, que se atribuem aos séculos XV e XVI…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sobre a data em que São Teotónio morreu. O lapsus calami do dia da semana. Sobre a data de canonização
«(…) A presença do arcebispo de Braga nas cerimónias fúnebres realizadas em Coimbra leva-nos a admitir que possa ter aproveitado a mesma deslocação para Miguel Salomão lhe prestar obediência como seu metropolita. A referência à presença do bispo de Viseu, Odório (1147-1166) parece resolver a dúvida deixada no ar por J. da Encarnação quanto ao ano da canonização, que seria assim o de 1163 (Nicolau Santa Maria, 1668, refere o assento no livro de óbitos do Mosteiro de Santa Cruz que o bispo Odório faleceu a 7 de Dezembro de 1166), pois que em 1167 já seria bispo Gonçalo (1166?-1169). Registe-se ainda a confusão relativamente ao nome do bispo do Porto, sendo de admitir que a fonte se referia apenas a Pedro, e que Nicolau Santa Maria tenha deduzido erroneamente o apelido, pois não poderia ser Pedro Rabaldes (1138-1145) mas sim Pedro Senior (1154-1174). Em consonância com esta interpretação, Timóteo dos Mártires, outro cronista dos Cónegos de Santo Agostinho, refere apenas Pedro ao falar da presença do bispo do Porto na canonização, acrescentando, todavia, mais alguns pormenores. Trata-se da indicação da presença na canonização de outras individualidades para além das referidas. São elas, o bispo de Orense, Pedro Seguino (1157-1169), o prior-mor do Mosteiro de São Vicente, Godinho e o mestre-escola da Sé de Lisboa, Álvaro, também eles discípulos e companheiros no habito do mesmo padre Santo Theotonio. Sublinhe-se a participação do prior do Mosteiro de São Vicente de Fora, evidenciando a sua ligação a Santa Cruz, a reter para o estudo da influência da Vita Theotonii nos documentos do Mosteiro de São Vicente quanto à idade de Afonso I. A nova Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, difundiu-se rapidamente, e após a conquista de Lisboa, em 1147, logo se pensou na fundação de S. Vicente de Fora. A presença de cónegos de Santa Cruz no Mosteiro de São Vicente foi muito significativa no final do século XII. O primeiro prior foi Godinho Afonso, que saiu para bispo de Lamego no ano de 1173. Outro cónego, Payo, foi prior castreiro, saindo depois para segundo bispo de Évora em 1180. Foi também prior castreiro Nicolau Annes Taveira, nomeado, posteriormente, bispo de Viseu pelo rei Sancho I, em 1193. Relativamente à data de canonização, aceitamos, pois, a data de 1163, embora as informações nas quais se baseia esta data se conheçam apenas por via indirecta.

A data de produção do manuscrito da Vita Theotonii
Procurando fazer o historial da datação atribuída ao manuscrito, o Prof. José Geraldes Freire, apesar de nos dar conta que dona Joaquim da Encarnação pensava ser um original autêntico e que Alexandre Herculano o considera também ao que parece, autógrafo, admitiu tratar-se de uma cópia dos finais do séc. XV, com base na data de 1476. Não parece contudo ter razão, pois, de acordo com o Catálogo dos Códices da Livraria de Mão do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a mesma encadernação (século XVI-XVII) contém manuscritos de diferentes épocas, o que o terá induzido em erro. Para além da Vita Theotonii, atribuída aos séculos XII-XIII, inclui a Regra de Santo Agostinho e as Lendas dos Mártires de Marrocos, que se atribuem aos séculos XV e XVI, sendo que é no último que figura a data de 1476. José Antunes considera que o texto original da Vita Theotonii deve ter sido escrito depois de 1175, possivelmente por Domingos Salomão [(as duas hipóteses não são compatíveis, dado que Domingos Salomão faleceu a 12 de Julho de 1169. Sabemos pela Vita Tellonis (A. Nascimento, 1998) que Domingos e, mais tarde, o seu irmão Pedro Salomão obtiveram em São Rufo de Avinhão cópias dos textos necessários à vida da canónica. Pela forma impessoal como o autor da Vita Theotonii  se refere ao envio de emissários a Avinhão, não nos permite supor que seja um deles]. A data de 1175 justifica-a atendendo a que no texto se refere que os monges de Santa Cruz foram chamados para orientar o Mosteiro de S. Vicente de Fora, o que considera só se ter verificado depois do seu sexto prior, isto é, por volta dessa data. No entanto, o estudo da informação do texto da Vita Theotonii de que o presbítero Honório foi enviado a Lisboa com dinheiro para a construção da igreja de São Vicente, permite inferir que os contactos se iniciaram numa data anterior aquela, pois, as obras teriam começado no ano de 1148 (como se deduz, pois, do que ficou dito, o mosteiro de S. Vicente de Lisboa foi fundado pelo rei Afonso e construído no ano de 1148 da encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo, que é bendito pelos séculos), tendo como superintendente o referido cónego, que faleceu neste mosteiro em 1161». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

sábado, 2 de janeiro de 2016

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «… este texto aponta o nascimento de Afonso Henriques em 1111, ou até em 1110, admitindo que ainda não tinha completado 15 anos quando se armou cavaleiro, a 17 de Maio. Contudo, se tomarmos o nascimento em 1106, como nos é referido na Vita Theotonii…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Annales D. Alfonsi Portugalensius regis
«(…) Os Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses, constituem uma verdadeira apologia do primeiro rei de Portugal e aproximam-se já do género cronístico; exprimem bem a estreita vinculação entre Santa Cruz e o seu régio fundador: foram provavelmente redigidos imediatamente depois da morte de Afonso Henriques, e a seguir à destruidora invasão almóada de 1184, que ameaçou seriamente a cidade de Santarém; representam, como outros textos historiográficos redigidos em Santa Cruz pela mesma época, uma fonte imbuída do espírito de cruzada, que até então se exprimia raramente em textos e documentos portugueses, apesar da guerra santa. A nossa atenção recai sobre as duas primeiras notícias dos Anais. A primeira é a que descreve a investidura de Afonso Henriques como cavaleiro. Tomando o seu texto vertido para português: 
  • Era de 1163 [1125]. O ínclito infante D. Afonso, filho do conde Henrique e da rainha D. Teresa, neto de D. Afonso, tendo cerca de 14 anos de idade, estando na Sé de Zamora, no dia santo de Pentecostes, tomou de cima do altar as armas militares e vestiu-se e cingiu-se a si próprio diante do altar, como é costume fazerem os reis. 
Este texto aponta o nascimento de Afonso Henriques em 1111, ou até em 1110, admitindo que ainda não tinha completado 15 anos quando se armou cavaleiro, a 17 de Maio. Contudo, se tomarmos o nascimento em 1106, como nos é referido na Vita Theotonii, tem de se corrigir a data da investidura para 1120. Desde esta data até 1127, Afonso Henriques outorgou ou subscreveu, a quase totalidade dos diplomas da sua mãe. Que eu saiba, nunca ninguém relacionou estes factos. Neste contexto, dir-se-ia que a cerimónia correspondia a uma iniciativa de sua mãe para assegurar os direitos do jovem Afonso à sucessão, e não em oposição a ela, como uma data mais tardia poderia insinuar. A segunda notícia dos Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses, refere-se à descrição da batalha de São Mamede: 
  • Na era de 1166 [ano de 1128], no mês de Junho, na festa de S. João Baptista, o ínclito infante D. Afonso, filho do conde Henrique e da rainha D. Teresa, neto do grande imperador da Hispânia, D. Afonso, com o auxílio do Senhor e por clemência divina, e também graças ao seu esforço e persistência, mais do que à vontade ou ajuda dos parentes, apoderou-se com mão forte do reino de Portugal. Com efeito, tendo morrido seu pai, o conde D. Henrique, quando ele era ainda criança de dois ou três anos, certos [indivíduos] indignos e estrangeiros pretendiam [tomar conta] do reino de Portugal; sua mãe, a rainha D. Teresa, favorecia-os, porque queria, também, por soberba, reinar em vez de seu marido, e afastar o filho do governo do reino. Não querendo de modo algum suportar uma ofensa tão vergonhosa, pois era já então de maior idade e de bom carácter, tendo reunido os seus amigos e os mais nobres de Portugal, que preferiam, de longe, ser governados por ele, do que por sua mãe ou por [pessoas] indignas e estrangeiras. Acometeu-os numa batalha no campo de S. Mamede, que é perto do castelo de Guimarães e, tendo-os vencido e esmagado, fugiram diante deles e prendeu-os. [Foi então que] se apoderou do principado e da monarquia do reino de Portugal. 
Em consonância com outras fontes, este texto coloca também a batalha de São Mamede como o primeiro episódio da história portuguesa: o começo do reino independente de Portugal. Sobre a idade de Afonso Henriques, deixa-nos apenas uma referência pouco objectiva de que ia nos dois ou três anos quando o pai morreu, mas coerente com a imprecisão subjacente aos cerca de 14 anos de idade da notícia precedente que, lembramos, foi escrita pela mesma mão. Sendo assim, não me parece que esta notícia traga algum esclarecimento adicional sobre o ano de nascimento de Afonso Henriques, reflectindo antes a dificuldade do autor relativamente ao ano e mês em que morreu o conde Henrique. Merece a pena referir que Alexandre Herculano tomou a primeira notícia da investidura como cavaleiro em 1125, com catorze anos feitos, conciliando-a com a segunda notícia de que tinha dois para três anos quando o pai morreu. Como Herculano admitiu a morte do conde Henrique em 1114, apontou o nascimento em 1111 (De acordo com o fac-simile do cartaz das Festas Gualterianas de Guimarães, realizadas em 1911, apresentado por B. Fonte (2009), foi com a data proposta por Herculano que se comemoraram os 800 anos do nascimento em 1911). Mas, como se veio a considerar que o conde Henrique já se encontrava falecido dois anos antes, em 22 de Maio de 1112, creio que foi isso que levou também a deduzir dois anos à data de nascimento proposta por Herculano, fixando-a actualmente em 1109. Contudo, o ano que melhor concilia as duas notícias é o de 1110, o mesmo proposto no De expugnatione Scallabis, escrito pela mesma altura. Não é impossível que a tradição do nascimento do nosso primeiro rei em 1109 resulte do mesmo equívoco que levou a atribuir a morte de S. Teotónio a uma sexta-feira». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «Os “Anais” são uma relação de factos, segundo a ordem dos anos em que os mesmos ocorrem. Os mais antigos “Anais portugueses” existem em duas versões: ‘a longa’, representada pela segunda parte do Livro de Noa de Santa Cruz; e ‘a breve’, pela primeira parte do mesmo Livro de Noa, procedente de Alcobaça»

Cortesia de wikipedia

A tradição associada ao ano de 1110. De expugnatione Scallabis
«(…) Assinalando fortes pontos de contacto entre a De expugnatione Scallabis e a Vita Theotonii, Lindley Cintra atribuiu-lhes uma autoria comum. Segue a sua argumentação: O estilo vivo, variado, muito pessoal do discípulo do primeiro abade do Mosteiro de Coimbra, que escreveu a sua vida por fins do séc. XII, inícios do séc. XIII, permite a hipótese de também se lhe dever o De expugnatione. Nos dois textos se manifesta a mesma admiração incondicional pelo Rei. E a hipótese é principalmente reforçada: 1.º, pelo facto de, num como noutro texto, se aludir, em termos perfeitamente concordes, à revelação dos objectivos da expedição, feita pelo Rei a S. Teotónio, e às orações com que este e os seus monges acompanharam a arriscada empresa; 2.º, por, na boca do Santo, na sua biografia, na do Rei, no relato da conquista, surgirem precisamente as mesmas citações da Biblia: Domine, Domine… omnipotens qui muros iherico sine gladio et arco subrui fecisti qui etiam ad precem iosue contra gabon solem stare precepisti; Testor deum celi, oculis cuius nuda et aperta saunt omnia, quia nec muros iericho subrutos, nec solis stationem prece iosue ad gabaon in comparationem huius in me pietatis et misericordie facti pro miraculis duco. Não é de crer que estas coincidências sejam puramente ocasionais.
Opinião diferente tem Aires Nascimento, não só porque considera o texto do De expugnatione Scallabis anterior à Vita Theothonii, mas também porque interpreta as semelhanças por dependência e acentua as diferenças. Invocando os preparativos de Afonso Henriques para a tomada de Santarém, salienta que no De expugnatione Scallabis (narrado, como vimos, pelo rei na primeira pessoa), se fazem com uma ampla envolvência dos cónegos de Santa Cruz, a quem dei conhecimento da nossa empresa e em quem tenho confiança, como também por parte de outro clero juntamente com todo o povo, enquanto o envolvimento pressuposto na Vita Theotonii se fica no sigilo de Teotónio. Por outro lado, salienta a profusão de palavras árabes no De expugnatione Scallabis e o seu aparecimento ocasional na Vita Theotonii. Embora considerando, como fizemos, o texto do De expugnatione Scallabis posterior à Vita Theotonii, continuam válidas as diferenças apontadas por Aires Nascimento e, portanto, a não se considera provável uma autoria comum dos dois textos. Só assim se compreende que a anomalia mais acima acentuada de, no segundo destes textos, se situar a morte de S. Teotónio numa sexta-feira, seja a possível origem do equívoco, implícito no primeiro texto, acerca do ano da morte, atribuída a 1166. Subtraindo os 56 anos de idade do rei ao ano assim obtido, fixou-se o seu nascimento em 1110 e portanto, que ia nos 37 anos de idade quando tomou Santarém. Escrito num período crítico da história de Portugal, entre a invasão sarracena de 1184 e a morte do fundador, podemos admitir que o texto do De expugnatione Scallabis desempenhou um papel extremamente importante na transmissão de uma forte ideologia de combate. Estava lançada, em terreno fértil, a semente da nova tradição do nascimento de Afonso Henriques em 1110.

As fontes analísticas
Os Anais são uma relação de factos, segundo a ordem dos anos em que os mesmos ocorrem. Os mais antigos Anais portugueses existem em duas versões: a longa, representada pela segunda parte do Livro de Noa de Santa Cruz e pela chamada Chronica Gothorum; e a breve, pela primeira parte do mesmo Livro de Noa e por uma cópia contida na Summa chronicarum procedente de Alcobaça. A versão longa foi continuada na recensão da Chronica Gothorum por notícias até ao ano de 1122, e depois por outra série sobre Afonso Henriques (até 1184); foram publicadas separadamente, a primeira, sob o nome de Annales Portugalenses veteres, por Pierre David, em 1947, e a segunda, sob o nome de Annales D. Alfonsi Portugallensium regis, por Monica Blöcker-Walter, em 1966. Quanto à recensão breve, publicada por Pierre David, foi também continuada até 1168, existindo igualmente em duas versões: uma na primeira parte do Livro de Noa e outra nos Annales lamecenses (da Sé de Lamego). A recensão breve, tal como foi reconstituída por P. David, não contém qualquer referência à data de nascimento de Afonso Henriques. Na primeira série da versão longa, existem duas referências que o mesmo autor considera que podem ter sido uma interpolação posterior aos Anais (são as que se encontram na PMH, Chronica Gothorum, uma directa, refere o nascimento de Afonso Henriques em 1113; Era MCLI. Natus fuit Infans Alfonsus Comitis Henrici et Regine D. Tarasie filius Regis D. Alfonsi nepos e outra, indirecta, sobre a morte do conde Henrique em 1114; Era MCLII. Cal. Maii obiit Comes D. Henricus; Posteriormente, R. Azevedo dá grande plausibilidade à conjectura de J. Ribeiro (1810), de que no arquétipo da notícia da morte do conde Henrique estivesse Era MCL. II Cal. Maii, o que coloca a morte no dia 30 de Abril de 1112, harmonizando-se perfeitamente com os últimos documentos em que comparece o conde de Portugal e os primeiros que revelam o seu desaparecimento). In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «O primeiro filho do casal régio foi um menino chamado Henrique, que teria morrido cedo, pois este é o único registo do primogénito do rei Afonso Henriques»

Cortesia de wikipedia

A tradição associada ao ano de 1110. De expugnatione Scallabis
«(…) José Mattoso reforça a ideia de que se trata de um escrito único em toda a historiografia portuguesa, por não existir nenhuma outra narrativa de uma acção militar feita pelo rei na primeira pessoa. Mas, como refere, o que permanece por explicar é a atribuição da autoria ao próprio rei e o uso da narrativa na primeira pessoa. O seu autor seria da Sé de Coimbra, segundo Aires Nascimento, ou de Santa Cruz, segundo Lindley Cintra. Esta distinção é, para mim, pouco relevante se atendermos à profunda influência exercida pela comunidade crúzia no restante clero, na segunda metade do século XII, para onde saiu um número significativo de bispos e priores.
Na descrição dos factos, a determinação do tempo faz-se de forma explícita, com pormenores que fornecem quase a nossa desejada certidão civil do rei: Foi ela [Santarém] tomada a quinze de Março, ao raiar de um sábado, na era de 1185 (a. D. 1147), ano esse em que os Mouros, a quem se dá o nome de Mozamida, deram entrada em Espanha e destruíram a cidade de Sevilha, e em que eu tinha quase completado 37 anos de idade e 19 de reinado, ainda não era passado um ano inteiro sobre o meu casamento com Mafalda, filha do conde Amadeu, de quem haveria de nascer o meu filho primogénito, Henrique, a 5 do mesmo mês em que a cidade foi tomada segundo esta sequência de acontecimentos. Obtemos assim, desta forma espantosa, na pessoa do próprio visado, a informação que nasceu em 1110, depois de 15 de Março. Mais se diz que vai no 19º ano de reinado, o que é o mesmo que dizer que estes se contam a partir de 1128, o ano da batalha de São Mamede, que ocorreu a 24 de Junho (a importância da batalha de S. Mamede está subjacente ao título de uma conferência proferida por José Mattoso em 1978 na cidade de Guimarães, a primeira tarde portuguesa numa alusão ao painel da autoria de Acácio Lino, que representa a batalha de S. Mamede e se encontra no Palácio da Assembleia da Republica). A consideração do ano de 1128 como o começo do reinado de Afonso Henriques encontra-se expressa em muitas das notícias dos Annales D. Alfonsi Portugalensius regis.
Os almóadas tomaram Sevilha aos almorávidas em 17 ou 18 de Janeiro de 1147, o casamento com dona Mafalda foi provavelmente a 31 de Março de 1146, portanto quase a fazer um ano, conforme é referido no texto. O primeiro filho do casal régio foi um menino chamado Henrique, que teria morrido cedo, pois este é o único registo do primogénito do rei Afonso Henriques. Torna-se evidente a preocupação do narrador em caracterizar o ano da tomada de Santarém, por indicações cronológicas coerentes entre si e até bem informadas. O tom parece ser o de recordar um acontecimento passado, numa perspectiva de exaltação heróica de um acto de conquista, amplificado pelo decorrer do tempo, como sucedeu relativamente à batalha de Ourique registada nos Anais de D. Afonso por volta de 1185. Registo este que seria da mesma altura da produção da narrativa da tomada de Santarém. De acordo com a opinião de Luís Krus, esta poderia ter sido escrita na sequência do cerco de Santarém pelas hostes almóadas em 1184 (no mesmo sentido, B. Reilly considera a Tomada de Santarém como um texto de natureza literária baseado em contos populares e, portanto, afastado dos acontecimentos que descreve; parece-nos menos plausível a hipótese avançada por A. Nascimento, que considera que a sua composição possa ter sido realizada muito próximo dos acontecimentos, ainda no contexto da emoção provocada pela conquista, e antes da tomada de Lisboa, no mesmo ano, a 25 de Outubro de 1147, com o argumento que esta remeteria, mais tarde, a notícia da tomada de Santarém para segundo plano; podemos contrapor a este argumento que o texto, a ser escrito imediatamente antes da conquista de Lisboa, não poderia deixar de nomear esse objectivo, pois quando a armada dos Cruzados vinda de Dartmouth chegou ao Porto, no dia 16 de Junho de 1147, já o bispo da cidade tinha instruções do rei para os receber, e lhes propor participarem na conquista de Lisboa)». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «… estas formaes palavras, de que dou a copia com a sua mesma orthographia: Eodem die sub era 1222. Obijt illustrissimus Rex Portugallensium doñus Alfonsus…»

Cortesia de wikipedia

Indiculum Fundationis Monasterii Beati Vincentii Vlixbone
«A contagem dos anos de reinado, ao subentender o início do reinado de Afonso Henriques em 1129 (=1147-18), difere das outras fontes. Se tomarmos 1128, como é mais usual, a mesma contagem daria 19 anos, como acontece aliás no De expugnatione Scallabis. Do texto se retira o ano de nascimento em 1107 (=1147-40), mas possível de harmonizar para 1106, se o nascimento foi posterior ao mês de Junho. Na parte final do texto, uma outra referência dá-nos a indicação da data em que este documento foi escrito: …, durante a governação do rei Sancho, filho do referido rei Afonso, governação essa que leva já três anos decorridos no ano da Encarnação do senhor de 1188. Como se vê, o texto tem data de composição certa em 1188, embora o testemunho manuscrito que possuímos seja cópia dos inícios do século XIII (A. Nascimento, 2001, considera que a não referência no texto a aspectos como o da disputa das relíquias de S. Vicente, levam a pensar que a sua redacção primitiva possa ser anterior a esse episódio que data de 1173). A referência a Sancho, que também aparece no Translatio et Miracula S. Vincentii induz a que pelo menos a parte final do Indiculum tenha sido influenciada por aquele texto, como possivelmente também aconteceu no que respeita à idade de Afonso Henriques.

Martirológio da Sé de Lisboa
Refere ainda o ano de 1106 um martirológio da Sé de Lisboa, citado por José Barbosa, aonde, a seis de Dezembro, se lê na margem estas formaes palavras, de que dou a copia com a sua mesma orthographia: Eodem die sub era 1222. Obijt illustrissimus Rex Portugallensium doñus Alfonsus año vitæ suæ septuagesimo octavo. Regni vero ejus quinquagesimo sexto. Qui inter plurima militiæ suæ gesta Civitatem hanc à potestate Sarracenorum eripuit. & operis hujus Ecclesiæ ad honorem Dei, ac memoriam beatæ Virginis regali munificentia extitit fundator, & factor. Continua o mesmo autor: Dizem em Vulgar. No mesmo dia na era de 1222. morreo o Illustrissimo Rey dos Portuguezes D. Affonso aos 78. annos da sua idade, e aos 56. do seu reinado. O qual entre as muitas acções da sua vida, ganhou aos Mouros esta Cidade, e para honra de Deos, e em memoria da Virgem Maria fundou, e fez com Real magnificencia a obra desta Igreja A Era de 1222 corresponde ao ano do nascimento de Cristo de 1184, pelo que subtraindo 78 anos, remeteria o nascimento para 1106, em sintonia com a Vita Theotonii e as fontes do Mosteiro de São Vicente e da Sé de Lisboa. Note-se contudo a deficiência de um ano na indicação da data da morte do rei Afonso Henriques, pois esta só ocorreu em 1185. Apesar disso, constata-se a coerência interna dos dados cronológicos apresentados, sendo correcta a contagem do número de anos de reinado, desde 1128 até 1184.
Apesar do empenho que colocámos na busca do martirológio, e do apoio dado por vários especialistas de que nos socorremos, não o encontramos, o que nos levou a atribuir a sua perda ao terramoto de Lisboa de 1755. Como também não conseguimos encontrar mais nenhuma referência a este martirológio, hesitamos em inclui-lo neste trabalho. Todavia, para além das conclusões que se poderão retirar numa futura análise crítica do texto citado, as referências que lhe são feitas por José Barbosa, de que se trata de um manuscrito antiquíssimo e a importância que atribui à fonte ao sublinhar de que [dele] se naõ lembrou frei António Brandão, permite-nos intuir alguma ancianidade. Acabamos assim por decidir inclui-lo para memória futura.

A tradição associada ao ano de 1110. De expugnatione Scallabis
O De expugnatione Scallabis é um texto de celebração da tomada de Santarém aos mouros, em que o narrador se reveste da personagem de Afonso Henriques para conduzir a narrativa na primeira pessoa. Recentemente, Aires Nascimento apresentou uma nova edição crítica deste documento com o título que detinha anteriormente este manuscrito medieval Quomodo sit capta Sanctaren a rege Alfonso comitis Henrici filio. A sequência dos momentos da acção da conquista de Santarém dá-nos um relato de pormenor que parece transmitir o testemunho de alguém que acompanhou ou refez todo o percurso da acção. Aires Nascimento considera assim que terá sido escrito por algum membro do séquito que participou no ataque, ou por alguém que recolheu impressões de um testemunho directo. Chama ainda à colação um trabalho de Armando de Sousa Pereira onde se admite que represente a memória de um companheiro do rei que depois tenha professado no Mosteiro de Santa Cruz». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

domingo, 23 de agosto de 2015

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «… o rei Sancho, filho do rei Afonso e da rainha dona Matilde, nasceu na noite de S. Martinho, a uma 5ª feira; assim, no seu baptismo tomou o nome Martinho mas depois ele foi chamado de Sancho; nasceu no 26º ano da sua pátria»

Cortesia de wikipedia

As tradições da data de nascimento de Afonso Henriques. A tradição associada ao ano de 1106. Translatio et Miracula S. Vincentii
«(…) Se tomarmos como elemento útil as referências ao rei Afonso Henriques e a seu filho Sancho, associado ao trono nos últimos anos do reinado de seu pai, teremos que admitir que o Translatio et Miracula S. Vincentii foi redigido a seguir à transladação das relíquias em 1173 e antes de 1185. É o testemunho de um contemporâneo, Mestre Estevão, que veio a ser investido na dignidade de chantre da Sé de Lisboa (como declara o incipit e como é plausível pelas qualidades que o próprio texto revela), embora, como refere Maria João Branco, ele próprio possa ter sido também cónego regrante de São Vicente. De todas as fontes coevas que fazem referência à idade de Afonso Henriques, esta é a única cujo nome do autor é conhecido. O historiador jesuíta Gonzaga Azevedo valoriza especialmente este facto: Concorrem, também, em mestre Estevão, curso e formação literária, indicada pelo título de magister, e o ser coevo; nada lhe falta, pois, para ser reputada testemunha digna de fé.
O autor apresenta-se não só como testemunha dos factos, mas defendendo a posse das relíquias pela Sé de Lisboa, contra as pretensões dos cónegos regulares que as queriam levar para o Mosteiro de S. Vicente de Fora. A cronologia da trasladação é apresentada no texto: Regista-se, pois, e celebra-se em alegria e grata memória o dia em que, segundo consta, o corpo do grande S. Vicente foi transladado para a igreja de Lisboa. Essa transladação festiva e solene está marcada no dia 15 de Setembro do ano do Senhor de 1173, no ano 45º do reinado do rei Afonso, aos 67 anos de sua vida, co-reinando [conregnante] Sancho, filho do mesmo rei, de 19 anos, um jovem de carácter admirável, 26 anos depois de tomada a cidade. Fazendo a validação da cronologia aqui apontada, à data da trasladação, obtemos:
  • Anos de reinado: 1173-45=1128;
  • Anos decorridos desde a conquista de Lisboa: 1173-19=1147;
  • Idade de Sancho: 1173-19=1154 (Era de 1192 (=1154), (o rei Sancho, filho do rei Afonso e da rainha dona Matilde, nasceu na noite de S. Martinho, a uma 5ª feira; assim, no seu baptismo tomou o nome Martinho mas depois ele foi chamado de Sancho; nasceu no 26º ano da sua pátria); 
  • A data do nascimento de Sancho corresponde ao dia 11 de Novembro de 1154);
  • Data de nascimento de Afonso Henriques: 1173-67=1106
em perfeita consonância com a informação da Vita Theotonii.
Existem ainda outros elementos caracterizadores de uma possível dependência entre as fontes. O qualificativo de valoroso strenuus, que aparece na Vita Theotonii, sobre a sua invencível bravura na guerra «ob inuictissimam eius in martiis congressionibus strenuitatem»91 tem correspondência nos Miracula S. Vicenti, com sua intrepidez sobremaneira eminente «strenuitas admodum insignis effulsit e nos Annales Domni Alfonsi Portugallensium regis, que o toma como homem intrépido no combate vir armis strenuus.
Observamos ainda que o uso, pouco frequente, do topónimo Lusitânia mencionada na Vita Theotonii ao apresentar um engrandecido monarca … qui tunc infans dux Portugalis erat, sed processu temporis et diuini muneris largitate, post tocius pene Lusitanie et ex parte Gallecie rex est effectus illustris. A expressão é usada também no mesmo sentido no Translatio et Miracula S. Vicentii, Lusitania quoque titulis eius ascribit, e nos Annales D. Alfonsi, na descrição da invasão do emir de Marrocos, em 1184, …, et sic denique subiugata sibi tota Lusitania usque Dorium. Pode-se admitir, portanto, uma tradição comum a estes três textos.

Indiculum Fundationis Monasterii Beati Vincentii Vlixbone
A produção da crónica da tomada de Lisboa aos mouros e da fundação do Mosteiro de S. Vicente, escrita em latim por um anónimo, terá tido lugar no scriptorium do Mosteiro de S. Vicente de Fora em Lisboa. Merece a pena transcrever o início da narrativa, que contém uma referência à data que procuramos: …no ano, pois, da Encarnação do Senhor de 1147, o cristianíssimo rei de Portugal, Afonso, filho do conde Henrique e da rainha Teresa, extraordinário e decidido exterminador dos inimigos da cruz de Cristo, no ano 18 do seu reinado, ou, por outra, aos 40 anos de idade, reuniu o seu exército contra os sarracenos, como era seu costume todos os anos, acercou-se de Lisboa, então cidade deles, e sitiou-a no mês de Junho, montando acampamentos em seu torno». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

sábado, 22 de agosto de 2015

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «… se apoia essencialmente no segundo argumento que refere: o facto de o bispo de Coimbra, Miguel Salomão, aparecer no texto como cónego regular já no momento em que preside às exéquias de Teotónio»

Cortesia de wikipedia

A data de produção do manuscrito da Vita Theotonii
«(…) Por sua vez, o Prof. Aires Nascimento considera o manuscrito da Vita Theotonii uma cópia com intervenções menos hábeis de alguém por volta de 1180, apresentando para o efeito três argumentos. O primeiro tem a ver com a referida falta de correspondência do dia da semana, feria VI, com o dia da morte de São Teotónio a 18 de Fevereiro de 1162. Depois de toda a atenção que nos mereceu o assunto, não encontrei, em si mesmo, nenhum indício que levasse a admitir que pudesse ter tido origem num copista e não no autor. Aliás, penso que a admissão pelo A. Nascimento de se tratar de erro de copista, se apoia essencialmente no segundo argumento que refere: o facto de o bispo de Coimbra, Miguel Salomão, aparecer no texto como cónego regular já no momento em que preside às exéquias de Teotónio. Entendendo que essa situação apenas se verifica depois da sua resignação em 1176, concluiu pela admissão de que esta parte final do texto foi retocada por alguém menos cuidadoso em evitar anacronismos e com pouco rigor em reconstituir factos e datas ou também em rever a cópia. Todavia, este argumento poderá não ser válido, pois é possível que Miguel Salomão tenha sido cónego regrante de Santa Cruz antes de ser bispo de Coimbra. No Livro das Vidas dos Bispos da sé de Coimbra, escrito no século XVI pelo cónego Pedro Álvares Nogueira, refere-se que Miguel Salomão: se meteo no mosteiro de santa Cruz da ordem de santo Agost.˚ q entam florecia nesta Cidade onde deo taes mostras de sua santidade he uirtude que na primeira uacante foi elleito bpõ cõ mta satisfacaõ de todo pouo, porque em tudo trabalhaua por imitar o exemplo do gloriosso padre Sam Teotonio prior do mosteiro de quē era muito deuoto.
Diga-se ainda que os grandes privilégios dados por Miguel Salomão ao mosteiro em 1162, logo no primeiro ano do seu episcopado, podem estar relacionados com a sua procedência de Santa Cruz. O terceiro argumento de Aires Nascimento passa pela consideração que o epíteto de beatissimus (santo) no título da Vita Theotonii, não envolve uma informação cultual, mas apenas um juízo de santidade. De acordo com a sua opinião há que atribui-lo não ao original, mas à cópia, esta derivada de momento posterior ao da canonização de Teotónio, que o texto ainda não conhece nem nele estão presentes narrativas de milagres post mortem que dessem pretexto a uma promoção do culto. Mas não podemos negar que estamos na iminência de uma canonização, não só pela data em que se realizou, no primeiro aniversário da sua morte, que nos permite pensar que foi desde logo planeada a seguir ao funeral, mas também por expressões que se encontram no texto como famulus Dei (servo de Deus) e sucut nobis sanctus referebat (segundo o santo nos referia). A instrução do processo de canonização parece estar a decorrer, conforme transparece da passagem em que o autor nos refere que sanctissimos illius actus senioribus meis ac per hoc sapientioribus plenarie describendos relinquo (deixo que a descrição pertinente dos actos da sua excelsa santidade seja feita pelos meus anciãos que por isso mesmo são mais sabedores). Em meu entender, este passo insinua não só que era um jovem discípulo, mas também a existência de um grupo de anciãos responsável pela condução do processo de canonização. Podemos admitir facilmente que o autor antecipasse o evento, registando-o desde logo, em mais uma demonstração da finitude ad saecula saeculorum que envolvia toda a produção do scriptorium crúzio.
Avaliadas que foram as diferentes propostas de datação do manuscrito, concluímos pela admissibilidade de a Vita Theotonii ser um autógrafo; a hipótese primeiramente avançada por Alexandre Herculano, o que não quer dizer que todas as suas informações sejam fidedignas. Se um dia se identificar o autor gráfico do texto, creio que estará também encontrado o seu autor intelectual. Apesar de admitirmos que o texto foi produzido em cerca de 1162, não será de considerar a autoria de Domingos Salomão, proposta por José Antunes, pois, nesta data, apesar de ainda estar vivo, já não seria um jovem discípulo. O perfil do candidato à autoria intelectual do texto parece corresponder mais ao de Paio, tal como este é descrito por frei Timóteo Mártires: (1) discípulo de São Teotónio; (2) bom letrado de grande virtude, em concordância com as características do texto e com a sua carreira; (3) Prior Crasteiro do Mosteiro de São Vicente (entre 1174 e 1180), pelo que poderia ser ele o veículo de transmissão da tradição do nascimento de Afonso Henriques em 1106 para esse mosteiro; (4) seria bispo de Évora em 1181, afastando-se ainda mais de Santa Cruz onde, alguns anos mais tarde, surgiria uma tradição diferente sobre a data de nascimento do nosso primeiro rei; (5) faleceu a 8 de Setembro de 1204, podendo, portanto, ser um jovem e talentoso discípulo em 1162. A confirmação ou não desta possibilidade poderá ser dada pela análise comparativa das características gráficas da Vita Theotonii com a eventual documentação existente escrita por Paio, como cónego de Santa Cruz, prior crasteiro de S. Vicente ou bispo de Évora, que não foi objecto de estudo» In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

sábado, 15 de agosto de 2015

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «Para além da “Vita Theotonii”, atribuída aos séculos XII-XIII, inclui a ‘Regra de Santo Agostinho e as Lendas dos Mártires de Marrocos’, que se atribuem aos séculos XV e XVI, sendo que é no último que figura a data de 1476»

Cortesia de wikipedia

Sobre a data de canonização
«(…) A presença do arcebispo de Braga nas cerimónias fúnebres realizadas em Coimbra leva-nos a admitir que possa ter aproveitado a mesma deslocação para Miguel Salomão lhe prestar obediência como seu metropolita. A referência à presença do bispo de Viseu, Odório (1147-1166) parece resolver a dúvida deixada no ar por J. Encarnação quanto ao ano da canonização, que seria assim o de 1163, pois que em 1167 já seria bispo Gonçalo (1166?-1169). Registe-se ainda a confusão relativamente ao nome do bispo do Porto, sendo de admitir que a fonte se referia apenas a Pedro, e que Nicolau Santa Maria tenha deduzido erroneamente o apelido, pois não poderia ser Pedro Rabaldes (1138-1145) mas sim Pedro Senior (1154-1174). Em consonância com esta interpretação, Timóteo Mártires, outro cronista dos Cónegos de Santo Agostinho, refere apenas Pedro ao falar da presença do bispo do Porto na canonização, acrescentando, todavia, mais alguns pormenores. Trata-se da indicação da presença na canonização de outras individualidades para além das referidas. São elas, o bispo de Orense, Pedro Seguino (1157-1169), o prior-mor do Mosteiro de São Vicente, Godinho e o mestre-escola da Sé de Lisboa, Álvaro, também eles discípulos e companheiros no habito do mesmo padre Santo Theotonio. Sublinhe-se a participação do prior do Mosteiro de São Vicente de Fora, evidenciando a sua ligação a Santa Cruz, a reter para o estudo da influência da Vita Theotonii nos documentos do Mosteiro de São Vicente quanto à idade de Afonso I. A nova Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, difundiu-se rapidamente, e após a conquista de Lisboa, em 1147, logo se pensou na fundação de S. Vicente de Fora. A presença de cónegos de Santa Cruz no Mosteiro de São Vicente foi muito significativa no final do século XII. O primeiro prior foi Godinho Afonso, que saiu para bispo de Lamego no ano de 1173. Outro cónego, Payo, foi prior castreiro, saindo depois para segundo bispo de Évora em 1180. Foi também prior castreiro Nicolau Annes Taveira, nomeado, posteriormente, bispo de Viseu pelo rei Sancho I, em 1193. Relativamente à data de canonização, aceitamos, pois, a data de 1163, embora as informações nas quais se baseia esta data se conheçam apenas por via indirecta.

A data de produção do manuscrito da Vita Theotonii
Procurando fazer o historial da datação atribuída ao manuscrito, o Prof. José Geraldes Freire, apesar de nos dar conta que Joaquim Encarnação pensava ser um original autêntico e que Alexandre Herculano o considera também ao que parece, autógrafo, admitiu tratar-se de uma cópia dos finais do século XV, com base na data de 1476 inscrita no fl. 45rb. Não parece contudo ter razão, pois, de acordo com o Catálogo dos Códices da Livraria de Mão do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a mesma encadernação (séculos XVI-XVII) contém manuscritos de diferentes épocas, o que o terá induzido em erro. Para além da Vita Theotonii, atribuída aos séculos XII-XIII, inclui a Regra de Santo Agostinho e as Lendas dos Mártires de Marrocos, que se atribuem aos séculos XV e XVI, sendo que é no último que figura a data de 1476.
O Prof. José Antunes considera que o texto original da Vita Theotonii deve ter sido escrito depois de 1175, possivelmente por Domingos Salomão (as duas hipóteses não são compatíveis, dado que Domingos Salomão faleceu a 12 de Julho de 1169; sabemos pela Vita Tellonis que Domingos e, mais tarde, o seu irmão Pedro Salomão obtiveram em São Rufo de Avinhão cópias dos textos necessários à vida da canónica; pela forma impessoal como o autor da Vita Theotonii se refere ao envio de emissários a Avinhão, não nos permite supor que seja um deles). A data de 1175 justifica-a atendendo a que no texto se refere que os monges de Santa Cruz foram chamados para orientar o Mosteiro de S. Vicente de Fora, o que considera só se ter verificado depois do seu sexto prior, isto é, por volta dessa data. No entanto, o estudo da informação do texto da Vita Theotonii de que o presbítero Honório foi enviado a Lisboa com dinheiro para a construção da igreja de São Vicente, permite inferir que os contactos se iniciaram numa data anterior aquela, pois, as obras teriam começado no ano de 1148, tendo como superintendente o referido cónego, que faleceu neste mosteiro em 1161». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «Considerando a morte de São Teotónio em 1162, Afonso Henriques teria então 56 anos, o que coloca a data do seu nascimento em 1106. Contaria na mesma altura 35 anos do governo iniciado em 1128, contando ambos os extremos»


Cortesia de wikipedia

Sobre a data em que São Teotónio morreu. O lapsus calami do dia da semana. Os elementos cronológicos associados
«(…) O último parágrafo da Vita Theotonii, na parte que ainda não analisamos, fornece-nos um conjunto de dados cronológicos associados à data em que São Teotónio morreu. Para a sua análise, é suficiente o recurso à tradução em português: Foi sepultado no dia décimo primeiro das mesmas calendas, no ano 56 do referido rei dom Afonso I de Portugal, em cujo tempo recebeu a veste de Cristo, e no ano 35 do seu reinado. Viveu em votos de vida regular trinta e um anos. Cumpriu o tempo inteiro da sua vida, como ele referia, entre setenta e oitenta anos, segundo o padrão das Escrituras. Considerando a morte de São Teotónio em 1162, Afonso Henriques teria então 56 anos, o que coloca a data do seu nascimento em 1106. Contaria na mesma altura 35 anos do governo iniciado em 1128, contando ambos os extremos. Os 31 anos de votos de vida regular corresponderiam ao tempo de vivência em Santa Cruz, contando também ambos os extremos, dado que a vida comunitária regular se iniciou em 24 de Fevereiro de 1132. Teotónio seria formalmente substituído, em 1162, pelo seu sobrinho João Teotónio (1162-1181) que ele associara, desde 1152, ao governo da canónica. O período de trinta ou trinta e um anos, conforme se conte os extremos, incluiria assim os dez partilhados com o sobrinho, que o aliviou do peso do cargo no último decénio do priorado. A razão dessa delegação encontra-se expressa no texto da Vita Theotonii: Foi o caso que vinte e um anos após a sua entrada no mosteiro começou a contrair uma prolongada enfermidade corporal. Como o início da vida em comunidade foi em 1132, em 1152 se iniciava o 21º ano. Tendo Teotónio continuado a viver no mosteiro ao longo de dez anos que depois ainda teve de vida, não se procedera, então, a nova eleição. É por este motivo que, nesse decénio, muitos dos diplomas atribuem o título de Prior ora a um ora ao outro dos Teotónios. Um manuscrito de Santa Cruz de finais do século XIV, existente na Biblioteca Pública Municipal do Porto com o nº 53, refere a sua eleição formal em 1162, conforme se lê no fólio 75v: Anno ab Incarnatione Filii Dej MCLXII post mortem domni Theotonij primi prioris, domnus Johannes in eius sede confirmatus est prior secundus. Associa-se assim, de forma segura, a eleição de João Teotónio ao mesmo ano da morte do primeiro prior.
A indicação da idade de São Teotónio entre os setenta e os oitenta anos, cuja precisão se revelava uma questão pouco significativa, corresponde aos quadros culturais próprios do homem e do clero medieval. Se nasceu, como vulgarmente se aponta, em 1082, seria realmente em 1162 que se cumpriria aquela passagem da década dos setenta para a dos oitenta como, de uma forma hábil (que me foi sugerida por Leontina Ventura), se poderá ler o texto da Vita Theotonii. Mas a verdade é que a data de nascimento é deduzida do próprio texto. Podemos concluir, com excepção do dia da semana, que todos os dados cronológicos são aceitáveis e concorrem para que São Teotónio tenha morrido em 1162.

Sobre a data de canonização
Aires Nascimento fixou a data crítica de produção da Vita Theotonii entre a data da morte de São Teotónio e a data da sua canonização, tendo obtido esta data de um autor moderno já referido, Joaquim Encarnação, que foi cónego regrante de Santa Cruz na segunda metade do séc. XVIII. Note-se que a data de canonização, tal como este autor a refere, parece apresentar-se como uma data induzida, pois diz-nos que a canonização se realizou na data do primeiro aniversário da data em que faleceu: se junctaram um anno depois de sua morte, no seu anniversario a 18 de Fevereiro, fosse de 1163 ou de 1167. A hesitação quanto à data remete-nos para a pesquisa de outras fontes. Uma delas é a incontornável Crónica da Ordem dos Cónegos Regrantes, publicada um século antes, e que merece a pena reproduzir aqui: Vistos os muitos milagres que o Santo fazia, & os que fez em sua vida, com a inquiriçaõ autentica, que tambem tirou em Viseu o Bispo D. Odorio, da santa vida, & obras mirauiljosass, que fez viuendo naquella Cidade, & aprouados os ditos milagres pello Bispo de Coimbra D. Miguel, se ajuntaraõ em o Mosteiro de S. Cruz o Arcebispo de Braga D. Ioaõ Peculiar, com os Bispos seus sufraganeos, a saber: o Bispo de Coimbra jà dito; o Bispo do Porto D. Pedro Rabaldiz; o Bispo de Viseu acima nomeado; & o Bispo de Lamego D. Mendo, todos irmãos, porque todos eraõ Conegos professos do dito Mosteiro de Santa Cruz, & filhos do Padre Santo Theotonio, & examinada com grande consideraçaõ a pureza da vida do Santo Prior, & seus milagres, & sua gloriosa morte, inuocando primeiro a graça do Espirito Santo, que nas Congregaçoens, & Synodos Catholicos sempre assiste, à petiçaõ de todo o Clero, & Pouo de Coimbra, & de Viseu, & de Leiria, & á instancia do grande Rey D. Affonso Henriques, canonizou o Arcebispo Primàs de Braga como Metropolitano, juntamente cõ os Bispos acima ditos ao glorioso Prior Theotonio em 18. de Fevereiro do anno de 1163. dia do seu felice transito, cantandolhe em lugar do Anniversario dos defuntos, a Missa dos Santos Confessores: os justi meditabitur sapientiam, &c. Cõ grande gosto; & alegria vniuersal de todos os presentes, & particularmente do glorioso Rey D. Affonso Henriques, & dos Conegos do Mosteiro de S. Cruz, como mais interessados na honra, & gloria de seu Santo Prior; a qual canonizaçaõ aprouou, & confirmou o Papa Alexandre III. Vivae vocis oraculo». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

terça-feira, 31 de março de 2015

História e Estudo no 31. A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «O autor anónimo informa que Teotónio ‘foi colocado na cinza e no cilício, segundo a tradição cristã e, perfeitamente na posse das suas faculdades, encarou a morte com alegria’»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sobre a data em que São Teotónio morreu. O lapsus calami do dia da semana
«(…) Podemos fazer o exercício de verificar em que ano próximo de 1162 é que se encontra uma sexta-feira a 18 de Fevereiro. Por consulta das tabelas do Cappeli verificamos que o ano mais próximo do de 1162 em que isso acontece, é o ano de 1166. Foi, talvez por esta razão que Joaquim Encarnação, cónego regrante de Santa Cruz na segunda metade do século XVIII, tal como o já fizera o autor dos Acta Sanctorum, considerou ser este o ano em que morreu o nosso primeiro santo. Isto apesar de ainda ter visto o letreiro porém, que se pôz na sepultura do sancto, no Capitulo, se diz ser sua morte na era de 1200, que vem a ser anno de 1162, e é o que seguem os nossos Historiadores ordinariamente. A posição de J. Encarnação é muito interessante para esta pesquisa. Confesso que também eu comecei por admitir que São Teotónio tinha morrido em 1166, baseado no feria VI e que, portanto, poderia haver erro na inscrição ou leitura da Era indicada no sepulcro. A inscrição referida é a seguinte:

[in :] XII : K(a)L(endas) : M(a)RCII : OBIIT : DOmNUS : THEOTONIUS : P(r)IMUS : P(r)IOR : ET : PATER : MONASTEERII : SanCtE : + [crucis] : E(ra) : M : C [C]

Actualmente faltam os extremos da inscrição, que parecem ter sido cortados, em data que desconhecemos, quando a tampa do sarcófago já se encontrava no altar da capela de São Teotónio, só se lendo, no final da inscrição, MC. Mário Barroca considerou a data de MC [C]. Visitei a Igreja de Santa Cruz de Coimbra para analisar a inscrição ao longo da secção lateral da tampa do sarcófago, hoje a servir de mesa de altar na capela que se ergue na parede sul da Sala do Capítulo, e parece-me que, de facto, não há espaço para conter MC[CIIII], mesmo de forma condensada como aparece algumas vezes em epígrafes da época. Segundo M. Barroca, as semelhanças desta inscrição com a do sarcófago do bispo de Coimbra, Miguel Salomão, que faleceu em 1180, levam a admitir que as duas tampas tenham sido executadas em momentos não muito afastadas entre si, pouco depois da morte do bispo de Coimbra. Perante estes factos, os especialistas são unânimes em considerar que o erro na data da morte de São Teotónio não se encontra na indicação do ano, mas sim no dia da semana. O que poderia então levar à indicação do feria VI? Os erros nem sempre poderão ser explicados de forma satisfatória. Admitimos contudo uma possibilidade. A Era de 1200 assinalada na epígrafe da tampa do sepulcro de São Teotónio corresponderia, pois, ao ano da encarnação de 1162, segundo o cômputo de Pisa, hipoteticamente utilizado na Vita Theotonii, como se viu do estudo dos elementos rasurados da data de fundação do Mosteiro de Santa Cruz. Para a determinação do dia da semana, o ano da encarnação necessita sempre de duas letras dominicais. Começando a 25 de Março de 1161, os dias da semana desse ano até 31 de Dezembro, seriam determinados no calendário perpétuo pela letra dominical do ano do nascimento de 1161; um A. Para os dias da semana, entre 1 de Janeiro a 24 de Março, deveria usar-se a letra dominical do ano de 1162; um G, o que permitiria determinar correctamente que o 18 de Fevereiro tinha sido um domingo. É possível que a confusão entre o procedimento que normalmente se utilizava nos anos bissextos (que também necessita de duas letras dominicais) e o que se deve utilizar no ano da encarnação tenha induzido o uso indevido da letra dominical do ano de 1160; um B. Daí resultaria a atribuição incorrecta de uma sexta-feira ao dia 18 de Fevereiro.

Sobre o mês em que decorreram as cerimónias fúnebres
Merece a pena analisar a descrição da cerimónia fúnebre tal como foi descrita pelo discípulo anónimo, na busca de novos indícios sobre o problema da data da morte. O autor anónimo informa que Teotónio foi colocado na cinza e no cilício, segundo a tradição cristã e, perfeitamente na posse das suas faculdades, encarou a morte com alegria. Armando Martins fornece-nos uma descrição mais detalhada destes rituais de cinza e cilício, em que o moribundo era colocado no chão, pondo-lhe a cabeça sobre uma pedra dura, coberta de cinza, onde era deixado até expirar. Como a morte de São Teotónio ocorreu na própria canónica, in congregatione, seriam celebradas trinta missas, nos trinta dias imediatos e, do primeiro ao sétimo dia, depois da morte, diariamente, por ele seria oferecido pela comunidade todo o ofício dos defuntos, missas, e matinas de nove lições. No trigésimo dia, depois do ofício, por ele se diriam cinco salmos e se faria procissão ao túmulo. No decorrer desses trinta dias, quotidianamente, na canónica seria dada aos pobres a ração completa, prebenda, a que o defunto teria direito, como se ainda estivesse presente. Estas cerimónias arrastar-se-iam assim até 18 de Março seguinte. São deste mês dois importantes documentos que beneficiam o Mosteiro de Santa Cruz. São eles a Karta Liberatis do bispo de Coimbra Miguel Salomão e a doação de Afonso Henriques da mata de Aljazede (mata do Louriçal, no concelho de Pombal). As doações e privilégios não poderiam deixar de estar associadas ao facto, embora não o nomeiem expressamente. Aos dois documentos acima referidos, poderíamos ainda juntar a carta de Afonso Henriques ao papa Alexandre II, em que declara ter fundado o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra para dele fazer mercê ao pontífice, e em que pede nova confirmação de todos os diplomas régios e episcopais a favor do mosteiro. O mesmo se diga da suplicatio do bispo Miguel ao papa Alexandre III para confirmar a carta de liberdade concedida ao Mosteiro de Santa Cruz por ele em Março de 1162». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

sexta-feira, 6 de março de 2015

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «No caso em análise, 18 de Fevereiro de 1162, o dia da semana assinalado (sexta-feira), estaria dois graus afastado do dia em que, de facto, ocorreu (um domingo). Seria mais remota a possibilidade de o autor anónimo ter errado em um grau»

Pormenor da Vita Theotonii (m. Santa Cruz) 
 Cortesia de wikipedia

«(…)
Sobre a data em que São Teotónio morreu
Ao longo da sua vida, S. Teotónio desempenhou o papel de colaborador espiritual de Afonso Henriques. Diz a sua biografia que o rei, quando soube da sua morte, teria dito: antes estará a sua alma no céu do que o corpo no sepulcro. A data da morte de S. Teotónio em 18 de Fevereiro de 1162 merece actualmente o consenso generalizado de todos os historiadores. Poderá assim parecer ocioso determo-nos na análise dos elementos de prova. Penso, contudo, que merece a pena fazer esse percurso, pois, embora o último documento de que dispomos do prior Teotónio seja de 1162, isso, só por si, não nos permite concluir com segurança que não tenha vivido para além dessa data. A informação associada à data em que S. Teotónio morreu, que consta do último parágrafo do texto da Vita Theotonii, vai ser o nosso ponto de partida para a construção de uma hipótese que explique a divergência das fontes acerca do ano de nascimento do rei.

O lapsus calami do dia da semana
O facto de a pontuação de todo o parágrafo estar reforçada a vermelho na primeira letra de cada frase, situação que é excepcional no texto, permite-nos intuir o cuidado envolvido na compilação dos elementos cronológicos aí expressos. Apesar disso, encontramos um problema associado ao dia da morte de S. Teotónio. Para a sua análise detalhada, começamos por tomar a primeira frase dessa cronologia que Aires Nascimento verteu para português do seguinte modo: Adormeceu na consciência de ter vivido bem e dos prémios dos méritos, no dia décimo segundo antes das calendas de Março, a um sábado, à primeira hora do dia, aquela em que Cristo ressuscitou. Conforme se vê, onde no texto original estava feria VI (sexta-feira), Aires Nascimento considerou dever tratar-se de feria VI[I] (sábado). A correcção proposta resulta de o dia da semana indicado no texto do manuscrito não corresponder ao dia do mês desse ano. Com efeito, segundo as tabelas de Cappelli, diz A. Nascimento, aquele dia recaiu num sábado. Trata-se, porém de um equívoco: as tabelas mostram que esse dia foi um domingo. O dia XII das kalendas de Março, 18 de Fevereiro, seria, de facto, um sábado se o ano fosse bissexto. Todavia 1162 foi um ano comum. A. Nascimento deve ter confundido as colunas da tabela, tomando a dos anos bissextos pela dos anos comuns. Fê-lo na convicção de que resolveria assim uma contradição aparente do texto, pois que no fólio 19 assinala-se que Teotónio é surpreendido pela morte: Cum nos septima sabbatti post matutinos seniorum copiosius benediceret, repente super humerum caput paululum inclinauit.
A septima sabbati viria confirmar a datação da morte num sábado (feria VII), como sétimo dia, o dia do descanso divino, e acha menos plausível a manutenção da designação dos dias da semana por um esquema directamente numérico. Com efeito, parece que, ao considerarmos que 18 de Fevereiro de 1162 foi um domingo, teríamos de assinalar uma contradição com a expressão septima sabbati. Penso, todavia, que esta expressão se limita a associar a morte de Teotónio ao dia do descanso divino do calendário judaico. Entendo assim que não se pretendeu nomear o dia da semana, pois nesse caso, certamente seria usado o nome do calendário do papa Silvestre sabbatum em vez do hebraico septima sabbati. Como seria de esperar, no que se refere à forma de indicar uma sexta-feira no texto, verificamos haver uniformidade de critério.
Existe ainda um outro aspecto na mesma citação que merece a nossa atenção. Aires Nascimento substituiu na frase acima citada seniorum por mortuorum pensando tratar-se de um momento das matinas. Sobre este aspecto específico, a tradução quatrocentista da Vida de S. Teotónio com o título de Vida do bem aventurado Padre S. Teotónio primeiro prior que foi no mosteiro de Santa Cruz apresenta um alternativa que merece a pena referir: hũa sesta feira, depois de matinas, inclinou depressa hũ pouco a cabeça sobre hũ ombro, de hũ dos velhos, e mais copiosamente lancaua a bençaõ Tomando a tradução de seniorum por velhos e a nossa interpretação sobre a natureza figurativa de septima sabbati como dia do descanso divino, estamos em condições de propor uma nova tradução para a frase como um todo: Como no dia do descanso divino, e depois de nos ter dado a bênção mais profusamente, de repente, inclinou a sua cabeça um tanto sobre o ombro de um ancião. A análise do problema do dia da semana fica assim restringida apenas ao último parágrafo da Vita Theotonii. É oportuno referir que existe um número considerável de desvios de um grau na ordem da féria em documentos medievais, podendo ter origem no autor ou no copista. No caso em análise, 18 de Fevereiro de 1162, o dia da semana assinalado (sexta-feira), estaria dois graus afastado do dia em que, de facto, ocorreu (um domingo). Seria mais remota a possibilidade de o autor anónimo ter errado em um grau, por defeito, fixando um sábado onde era um domingo, e um copista, cumulativamente, ler no original feria VII e escrever feria VI». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT