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quinta-feira, 21 de março de 2019

Poesia. António Botto. «Dizes-me adeus? E porquê? Quando voltas? Quando vens?»

jdact

Bebe mais vinho

De Curiosidades Estéticas (1924)

«Bebe mais vinho
E põe
Mais ruge
Na tua boca delgada;
E fuma,
E cai no brocado azul
Desta enorme almofada.
Tens, por vezes,
Um sorriso
Desenhado com tamanha segurança
Como de quem tudo sonda,
Tudo alcança…
Cigarros? Pronto, amor: aqui os tens!
Dizes-me adeus? E porquê?
Quando voltas? Quando vens?»

Conversando a sós contigo

De Piquenas Esculturas (1925)

«Conversando a sós contigo,
Desfruto o prazer imenso
De não pensar no que digo
E de dizer o que penso.
E mais uma vez
Afirmo
Sem receio de que seja desmentido:
A maior felicidade
É ser-se compreendido».
In António Botto

In António Botto, Poesia, Assírio & Alvim, 2018, ISBN 978-972-372-067-9

Cortesia de A&Alvim/JDACT

Poesia. António Botto. «Anda, vem…, porque te negas, carne morena, toda perfume? Porque te calas, porque esmoreces»

jdact

Quem é que abraça o meu corpo
De Canções (1921)
«Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?
És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido».


Anda, vem…, porque te negas
De Canções (1921)
«Anda, vem…, porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha, rosa de lume?
Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.
Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!
E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!
Anda, vem!… Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos…
Tenho saudades da vida!
Tenho saudade dos teus beijos!»
In António Botto

In António Botto, Poesia, Assírio & Alvim, 2018, ISBN 978-972-372-067-9

Cortesia de A&Alvim/JDACT

sábado, 16 de novembro de 2013

Entre Memória e Arquivo. Exposições. «A fatalidade, várias vezes no meu caminho aparece; mas, não consegue perturbar a minha serenidade. Somente, no meu olhar, poisa e fica mais tristeza. Não me revolto, nem desespero. Quero morrer em beleza».

jdact


«Não leves a mal, perdoa...
Mas a frieza que eu ponho
nos meus beijos
não é cansaço, nem tédio.
O teu corpo
tem o charme necessário
para iludir ou prender,
e a tua boca
tem o aroma dos cravos
à tarde, ao anoitecer.
Não é cansaço, nem tédio.
É somente uma certeza
que eu não sei como surgiu
aqui - no meu coração:
não, amor; não és aquela
que o meu sonho distinguiu...
Não queiras a realidade.
A realidade mentiu...»


«Ia a tarde no final.
Somem-se os últimos ecos
duma jota aragonesa.
E a tarde,
não tem o ar natural
de quem falece na sombra.
Quando Ele surge na arena
Uma flor de oiro!
Sensualíssimo, viril,
e flexuoso
procura aproximar-se do toiro
a multidão
refulge num delírio de loucura.
Então,
com suprema galhardia
ergue o braço
para matar.
Há uma luz de labareda,
e o silêncio é mais profundo.
Os cornos tocam no oiro e na seda.
E ele, - tomba,
vencido,
Rasgado,
cheio de sangue na fronte.
A tarde
principia a arrefecer.
Tem o ventre descoberto,
e as negruras
da sua virilidade
toda a gente as pode ver».


JDACT

terça-feira, 6 de julho de 2010

Eugénio de Andrade: Contemporâneo dos movimentos neo-realista e surrealista. Propondo uma poesia elementar, cuja musicalidade só encontra precedentes na nossa lírica medieval, ou num poeta como Camilo Pessanha, que Eugénio de Andrade assume, a par de Cesário Verde, como um dos seus mestres

(1923 - 2005)
Póvoa da Atalaia, Fundão
Cortesia de citi
Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, foi um poeta português. Nasceu numa pequena aldeia da Beira Baixa situada entre o Fundão e Castelo Branco, filho de uma família de camponeses, «gente que trabalhava a pedra e a terra». A sua infância é passada com a mãe, que é a figura dominante de toda a sua vida e da sua poesia. O pai, filho de camponeses abastados, pouco esteve presente, dado que o casamento, efectuado mais tarde, durou muito pouco. Em 1935, afirma-se em si o interesse pela leitura. Passa horas a ler em bibliotecas públicas e começa a escrever poemas. Em 1938 escreve uma carta e envia três ou quatro poemas a António Botto, que manifesta interesse em conhecê-lo. Em 1939 publica o seu primeiro poema, «Narciso» e, pouco tempo depois, passa a assinar com outro nome. «Nasce o poeta Eugénio de Andrade».
Cortesia de wikipédia
Em 1941 faz-se a primeira referência pública à sua poesia na conferência que Joel Serrão, seu amigo, pronunciou na Faculdade de Letras de Lisboa, sobre «A Nova Humanidade da Poesia Nova». Um ano depois, em Novembro, Eugénio de Andrade lança o seu primeiro livro de poesia, «Adolescente». Em 1943, o poeta muda-se novamente acompanhado pela sua mãe para Coimbra, onde permanece até ao final do ano de 1946. Em 1945, a Livraria Francesa publica o seu livro «Pureza».
Cortesia de jq
Com «As Mãos e os Frutos», em 1948, que Eugénio de Andrade alcança o sucesso. A partir dessa data, inicia-se uma carreira especialmente rica em poesia, mas também com produções nos domínios da prosa, da tradução e da antologia. Eugénio de Andrade, ergue-se ao primeiro plano da poesia portuguesa.
A 14 de Março de 1956 morre a sua mãe e morre uma parte do poeta: «A minha ligação à infância é, sobretudo, uma ligação à minha mãe e à minha terra, porque, no fundo, vivemos um para o outro».
Cortesia de chicailheu
Durante os anos que se seguem, o poeta foi convidado para participar em vários eventos e travou amizades com muitas personalidades da cultura portuguesa e estrangeira, como Joel Serrão, Miguel Torga, Afonso Duarte, Carlos Oliveira, Eduardo Lourenço, Joaquim Namorado, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teixeira de Pascoaes, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Mário Cesariny de Vasconcelos, José Luís Cano, Ángel Crespo, Luís Cernuda, Marguerite Yourcenar, Herberto Helder, Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, Óscar Lopes, e muitos outros... . A verdadeira «fina flor» das Artes...
Algumas obras de Eugénio de Andrade.
Poesia
  • Adolescente, 1942:
  • Pureza, 1945;
  • As Mãos e os Frutos, 1948, 21ª edição, 2000;
  • Os Amantes sem Dinheiro, 1950, 16ª edição, 2000;
  • As Palavras Interditas, 1951, 13ª edição, 2002;
  • Até Amanhã, 1956, 13ª edição, 2002;
  • Coração do Dia, 1958, 12ª edição, 1994;
  • Mar de Setembro, 1961, 12ª edição, 1994;
  • Ostinato Rigore, 1964, 11ª edição, 1997;
  • Obscuro Domínio, 1971, 8ª edição, 2000;
  • Véspera de Água, 1973, 6ª edição, Limiar, 1990;
  • Escrita da Terra, 1974, 7ª edição, 2002;
  • Homenagens e outros Epitáfios, 1974, 8ª edição, 1993;
  • Limiar dos pássaros, 1976, 7ª edição, 1994;
  • Primeiros Poemas, 1977, 10ª edição, 2000;
  • Memória Doutro Rio, 1978, 4ª edição, Limiar, 1985;
  • Matéria Solar, 1980, 5ª edição, 2000;
  • O Peso da Sombra, 1982, 3ª edição, Limiar, 1989;
  • Branco no Branco, 1984;
  • Vertentes do Olhar, 1987, 5ª edição, 2003;
  • O Outro Nome da Terra, 1988, 2ª edição,Limiar, 1989;
  • Contra a Obscuridade, 1988, 5ª edição, 1993;
  • Rente ao Dizer, 1992, 4ª edição, 2002;
  • Ofício de Paciência, 1994, 2ª edição, 2000;
  • O Sal da Língua, 1995, 4ª edição, Associação Portuguesa de Escritores, 2001;
  • Pequeno Formato, 1997, 2ª edição, 1997;
  • Os Lugares do Lume, 1998, 2ª edição, 1998;
  • Os Sulcos da Sede, 2001, 3ª edição, 2002.
Prosa
  • Os Afluentes do Silêncio, 1968, 9ª edição, 1997;
  • Rosto Precário, 1979, 6ª edição, 1995;
  • À Sombra da Memória, 1ª edição, 1993.
Antologias
  • Daqui Houve Nome Portugal, 1968, 4ª edição, Edições Asa, 2000;
  • Memórias da Alegria, 1971, 2ª edição, Campo das Letras, 1996;
  • Antologia Breve, 1972, 7ª edição, 1999;
  • A Cidade de Garrett, 1993, 3ª edição, 1997;
  • Fernando Pessoa, Poesias Escolhidas, 1995, 6ª edição, Campo das Letras, 2001;
  • Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões, 1972, 5ª edição, Campo das Letras, 1996;
  • Erros de Passagem, selecção e prefácio, 1982, 3ª edição, Campo das Letras, 1998;
  • Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, 1999, 7ª edição, Campo das Letras, 2002;
  • Sonetos de Luís de Camões, Assírio & Alvim, 2000;
  • Poemas Portugueses para a Juventude, Edições Asa, 2002.
Literatura Infantil
  • História da Égua Branca, 1977, 8ª edição, Campo das Letras, 2002;
  • Aquela Nuvem e Outras, 1986, 10ª edição, Campo das Letras, 2002.
Eugénio de Andrade é um dos mais lidos e traduzidos dos poetas portugueses. Após algumas tentativas juvenis que mais tarde repudiou, impôs-se definitivamente no panorama da actual poesia portuguesa com «As Mãos e os Frutos» (1948). Contemporâneo dos movimentos neo-realista e surrealista, quase não acusa influência de quaisquer escolas literárias, propondo uma poesia elementar, cuja musicalidade só encontra precedentes na nossa lírica medieval, ou num poeta como Camilo Pessanha, que Eugénio de Andrade assume - a par de Cesário Verde - como um dos seus mestres.
Cortesia de patricialino
Se muitos poetas portugueses foram marcados pelo desencanto, «Eugénio de Andrade vai buscar ao paraíso da infância, à intimidade com a terra, à pura felicidade de se ter um corpo a fulgurante alegria de alguns momentos privilegiados». Os 50 anos da vida literária de Eugénio de Andrade foram assinalados no Porto com um colóquio internacional sobre a sua obra, cujas actas estão agora disponíveis no primeiro número dos «Cadernos de Serrúbia», editados pela Fundação Eugénio de Andrade.

As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade

As palavras que te envio são interditas
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
Eugénio de Andrade

Cortesia de Ana Peixoto d'Almeida/FEA/wikipédia/JDACT

domingo, 20 de junho de 2010

António Botto: Um poeta com sentido de humor sardónico e incisivo. Uma mente irreverente, mas um conversador brilhante e inteligente

Cortesia de bajoelsignodelibrae

Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia
Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.
Chorámos, rimos, cantámos.
Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.

O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!
Deserto de aguas sem fim.
Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...

Elle afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De rôxo as aguas tingia.
«Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
- Ó voz moribunda e dôce

Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
. . . . . . . . . . . . . . . .
E os poetas a cantar
São echos da voz do mar!
António Botto

JDACT