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sábado, 25 de dezembro de 2010

António Damásio: «Agora que expliquei a finalidade principal deste livro, é altura de explicar a razão por que um trabalho dedicado a ideias novas sobre a natureza e significado dos sentimentos evoca Espinosa no seu título. Espinosa é profundamente relevante para qualquer discussão sobre a emoção e sentimenros humanos»

Cortesia de europaamerica


«Na minha perspectiva actual, os sentimentos são a expressão do florescimento humano ou do sofrimento humano, na mente e no corpo. Os sentimentos não são uma mera decoração das emoções, qualquer coisa que possamos guardar ou deitar fora. Os sentimentos podem ser, e geralmente são, revelações do estado da vida dentro do organismo. São o levantar de um véu no sentido literal do termo. Considerando a vida como uma acrobacia na corda bamba, a maior parte dos sentimentos são expressões de uma luta contínua para atingir o equilíbrio, reflexos de todos os minúsculos ajustamentos e correcções sem os quais o espectáculo colapsa por inteiro. Na existência do dia a dia, os sentimentos revelam, simultaneamente, a nossa grandeza e a nossa pequenez.

Cortesia de imagensdigitais

A forma como a revelação se introduz na mente só agora começa, ela mesma, a ser revelada. O cérebro dedica várias regiões que trabalham em concerto ao retratar diversos aspectos das actividades do corpo sob a forma de mapas neurais. Este retrato é uma imagem composta da vida nas suas contínuas modificações. As vias químicas e neurais que trazem ao cérebro os sinais com que este retrato da vida é pintado, são tão específicas como a tela que os recebe. O mistério do sentir está a tornar-se assim um pouco menos misterioso.

Cortesia de imagensdigitais

É perfeitamente legítimo perguntar se a tentativa de elucidar os sentimentos tem qualquer espécie de valor para além da satisfação da nossa curiosidade. Não deve surpreender ninguém que a minha resposta seja afirmativa. Elucidar a neurobiologia dos sentimentos e das emoções que os percebem altera a nossa visão do problema mente-corpo, um problema cujo debate é central para a nossa compreensão daquilo que somos. A emoção e as várias reacções com ela relacionadas estão alinhadas com o corpo, enquanto que os sentimentos estão alinhados com e mente. A investigação da forma como os pensamentos desencadeiam as emoçóes e de como as modificações do corpo durante as emoções se transformam nos fenómenos mentais a que chamamos sentimentos abre um panorema novo sobre o corpo e sobre a mente, duas manifestações aparentemente separadas de um organismo integrado e singular.

Cortesia de imagensdigitais

Mas a tentativa de explicar a biologia dos sentimentos e das emoções também tem resultados práticos. Vai contribuir sem qualquer dúvida paÍa. a descoberta de tratamentos eficazes de algumas das causas principais do sofrimento humano' como por exemplo a depressão, a dor e a toxicomania. Para além disso, compreender o que são os sentimentos, a forma como funcionam e o seu significado humano são passos indispensáveis para a construção futura de uma visão dos seres humanos mais correcta do que a actual, uma visão que tomará em conta todo o espectacular progresso que se tem vindo a fazer nas ciências sociais, nas ciências cognitivas e na biologia. E por que razão terá o construir dessa nova perspectiva qualquer valor prático? A.razão é simples: o êxito ou o fracasso da humanidade depende em grande parte do modo como o público e as instituiçóes que governam a vida pública puderem incorporar essa nova perspectiva da natureza humana em princípios, métodos e leis. Compreender a neurobiologia das emoções e dos sentimentos é necessário para que se possam formular princípios, métodos e leis capazes de reduzir o sofrimento humano e engrandecer o florescimento humano. De facto, a nova perspectiva diz até respeito ao modo como os seres humanos poderão abordar conflitos latentes entre interpretaçóes sagradas ou seculares da sua própria existência.

Cortesia de imagensdigitais

Agora que expliquei a finalidade principal deste livro, é altura de explicar a razão por que um trabalho dedicado a ideias novas sobre a natureza e significado dos sentimentos evoca Espinosa no seu título. Dado que não sou filósofo e que a finalidade deste livro não é discutir a filosofia de Espinosa, é legítimo perguntar: Porquê Espinosa? A resposta curta é fácil. Espinosa é profundamente relevante para qualquer discussão sobre a emoção e sentimenros humanos. Espinosa considerava as pulsões (drives) e motivações, emoções e sentimentos - o conjunto que Fspinosa designava de afectos - como um aspecto centrd da humanidade. A alegria e a tristeza foram dois conceitos fundamentais na sua tentativa de compreender os seres humanos e sugerir maneiras de a vida ser melhor vivida. A resposta longa é mais pessoal e muito mais trabalhosa». In António Damásio.

Cortesia de António Damásio/JDACT

Com a devida vénia a António Damásio e a Publicações Europa-América, Forum da Ciência nº 58, 6ª edição, Fevereiro de 2004, adquirido em Dezembro de 2004.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

António Damásio: «Dar a Palavra aos Sentimentos». Os sentimentos são a expressão do florescimento humano ou do sofrimento humano, na mente e no corpo

JDACT
Com a devida vénia a António Damásio e a Publicações Europa-América, Forum da Ciência nº 58, 6ª edição,Fevereiro de 2004, adquirido em Dezembro de 2004.

Dar a Palavra aos Sentimentos«Os sentimentos de dor ou prazer são os alicerces da mente. É fácil não dar conta desta simples realidade porque as imagens dos objectos e dos acontecimentos que nos rodeiam, bem como as imagens das palavras e frases que os descrevem, ocupam toda a nossa modesta atenção, ou quase toda. Mas é assim. Os sentimentos de prazer, ou de dor, ou de toda e qualquer qualidade entre dor e prazer, os sentimentos de toda e qualquer emoção ou dos diversos estados que se relacionam com uma qualquer emoção, são a mais universal das melodias, uma canção que só descansa quando chega o sono, e que se torna num verdadeiro hipo quando a alegria nos ocupa ou se desfaz em lúgubre requiem quando a tristeza invade.

Dada a ubiquidade dos sentimentos, seria fácil pensar que a sua ciência estaria já há muito elucidada. Mas não está. De entre todos os fenómenos mentais que podemos descrever, os sentimentos e os seus ingredientes essenciais - a dor e o prazer - são de longe os menos compreendidos no que respeita à sua biologia e em particular à neurobiologia. Isto é particularmente surpreendente quando pensamos que as sociedades avançadas cultivam os sentimentos da forma mais despudorada e manipulam os sentimentos com álcool ou drogas ilícitas, medicamentos, boa e má cozinha, sexo real e virtual, toda a espécie de consumos e práticas sociais e religiosas cuja única finalidade é o bem estar. Tratamos dos nossos sentimentos com pílulas, bebidas, exercícios físicos e espirituais, mas nem o público nem a ciência fazem uma ideia clara sobre o que são os sentimentos do ponto de vista biológico.

Cortesia de grandesmensagens
Ao contrário dessas entidades concretas, os sentimentos eram intangíveis. Quando comecei a pensar sobre a forma como o cérebro criava a mente, aceitei sem protesto a ideia de que os sentimentos não cabiam em nenhum programa científico. Podíamos estudar a forma como o cérebro nos movimenta. Podíamos estudar processos sensoriais, tais como a visão, compreender como se organiza o pensamento. Podíamos até estudar as reacções emocionais com as quais respondemos a diversos objectos e situações. Mas os sentimentos, se podem distinguir das emoções – continuavam fora do nosso alcance, para sempre misteriosos e inacessíveis. Não era possível explicar como aconteciam os sentimentos e, ainda menos' o local onde aconteciam.
Tal como era o caso com a consciência, os sentimentos existiam fora das portas da ciência, aí mantidos cuidadosamente não só por uma certa filosofia apostada em negar qualquer explicação neurocientífica pata os fenómenos mentais, mas também por neurocientistas encartados que lhes negavam a entrada A prova de que tomei a sério estas diversas limitações é o facto de que, durante muitos anos, evitei qualquer projecto que dissesse respeito aos sentimentos. Levei muito tempo a descobrir que os obstáculos postos à ciência dos sentimentos não tinham qualquer cabimento e que a neurologia dos sentimentos não era menos viável do que a da visão ou da memória. Mas a realidade de certos doentes neurológicos forçou-me, ao fim e ao cabo, a rever a minha posição.

Cortesia de joaofariaswordpress
Imaginem, por exemplo, encontrar alguém a quem uma certa lesão cerebral tornou incapaz de sentir vergonha ou compaixão, mas em nada alterou a capacidade de sentir tristeza, felicidade ou medo. Imaginem uma pessoa a quem uma lesão de outra região cerebral tornou incapaz de sentir medo, mas não interferia com a capacidade de sentir compaixão ou vergonha. A crueldade da doença neurológica é um poço sem fundo para as suas vítimas - os doentes, bem como os médicos que os observam e tratam. Mas a doença neurológica também tem qualquer coisa de redentor: a doença funciona como um bisturi que separa o cérebro normal do cérebro doente com espantosa precisão e que assim permite uma rara porta de entrada na fortaleza do cérebro e mente.
A reflexão sobre a situação destes doentes e de outros com problemas comparáveis levou-me à construção de diversas hipóteses. Primeiro, era óbvio que certas espécies de sentimentos podiam ser bloqueadas pela lesão de um sector cerebral discreto; a perda de um sector cerebral específico implicava a perda de uma classe específica de fenómeno mental. Segundo, era também óbvio que sistemas cerebrais diferentes controlavam diferentes espécies de sentimentos; a lesão de uma certa região anatómica cerebral não causava a perda de todas as formas possíveis de sentimento. Terceiro, quando os doentes perdiam a capacidade de exprimir uma determinada emoção também perdiam a capacidade de sentir o correspondente sentimento. De forma surpreendente, contudo, alguns doentes incapazes de sentir certos sentimentos eram ainda capazes de exprimir as emoções que lhes correspondem - ou seja, era possível exibir uma expressão de medo mas não sentir medo.

Cortesia de teresita
A emoção e o sentimento eram irmãos gémeos, mas tudo indicava que a emoção tinha nascido primeiro, seguida pelo sentimento, e que o sentimento se seguia sempre à emoção como uma sombra.
Apesar da intimidade e aparente simultaneidade, tudo indicava que a emoção precedia o sentimento. O entrever desta relação específica permitiu, tal como iremos ver, uma perspectiva privilegiada na investigação dos sentimentos.
Estas hipóteses podiam ser testadas com a ajuda de técnicas de neuroimagem que permitem a criação de imagens da anatomia e actividade do cérebro humano. Passo a passo, primeiro em doentes e depois tanto em doentes como em pessoas sem doença neurológica, começámos a mapear a geografia do cérebro que sente. A meta era elucidar a teia de mecanismos que permitem aos nossos pensamentos desencadear estados emocionais e construir sentimentos». In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa.

Cortesia de mensagensvirtuais

Continua.

Cortesia de António Damásio/JDACT