Mostrar mensagens com a etiqueta Monge. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Monge. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «Nós, primeiros monges de Cister, fundadores desta comunidade (o termo latino é ecclesia, por recuperação do sentido bíblico do mesmo…»

jdact

«(…) O carácter documental e factual do texto tornava-o operativo para utilizações sucessivas: é o que acontece com o chamado Exordium Magnum, de Conrado Eberbach, no qual se podem reconhecer tendências polémicas. A análise do texto tem levado a identificar duas partes no documento:
a) I-XV, a fundação de Cister, que pode, por sua vez, repartir-se em I-IV; V-XIV (este, divisível ainda em V-VIII e IX-XIV);
b) XV-XVIII, o modo de vida. Elementos narrativos alternam com elementos documentais. A recolha destes torna manifesta uma intenção: afirmar a legitimidade jurídica e administrativa das acções empreendidas pelos fundadores de Cister. Reconhece-se, por outra parte, um esquema similar na base da organização dos elementos reunidos: pedido apresentado por um grupo de monges a uma autoridade eclesiástica; aceitação do pedido e emissão de um documento; aplicação prática; comentário sobre o carácter canónico dos dados referidos; integração eventual de documentos. Tal esquema favorece a hipótese de se considerar que os elementos não foram reunidos por aluvião, mas se subordinam a um plano. Na segunda parte, em que se descreve a vida dos inícios, juntamente com os elementos narrativos, algo dramatizados, há a sublinhar as reflexões de carácter sapiencial e teológico, onde um novo esquema se torna perceptível: explicitação dos critérios de referência presentes na reforma (a Regra de S. Bento é o dado mais em evidência), indicação das normas práticas. Resultado possivelmente de várias intervenções que se prolongam no tempo, reflecte preocupações e alegrias de uma comunidade monástica na pujança de vida.

Notícia da Fundação de Cister
Nós, primeiros monges de Cister, fundadores desta comunidade (o termo latino é ecclesia, por recuperação do sentido bíblico do mesmo; não é sem interesse reconhecer tal regresso à linguagem bíblica quando sabemos os esforços de Estêvão Harding por melhorar o texto bíblico corrente e eram patentes nas reformas monásticas do tempo as referências à comunidade primitiva de Jerusalém, considerada como ecclesia. Preferimos, à semelhança de outros, traduzir por comunidade que escapa à conotação hierarquizada e vinca o valor de congregação, termo, no entanto, que pelos usos tomados noutros contextos, também não serviria o valor de base, que é o de afirmar a vida apostólica na sua pureza de convocação eclesial), com o presente documento, notificamos quantos vierem depois de nós, dando-lhes a conhecer o carácter estritamente canónico da fundação e o apoio de autoridade que lhe foi concedido bem como o tempo e as pessoas graças às quais o nosso mosteiro e a forma de vida que aí levamos tiveram os seus inícios. Possam eles, assim, através do conhecimento autêntico destes factos, apreciar com maior solidez e perseverança tanto este lugar como a observância da Regra que nós, por mínimos que sejamos, e por graça de Deus, aí introduzimos. E assim rezai por nós que suportámos o peso de toda a jornada e do calor sem desfalece e, por vosso lado, até ao último suspiro, e ao longo do caminho estreito e escarpados que a Regra mostra, esforçai-vos por poderdes firmar-vos auspiciosamente no repouso eterno, uma vez deposto o fardo da carne». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «… plausivelmente atribuíveis a reformulações tardias, com a particularidade de relativamente ao último elemento se remeter para momento em que as abadias eram doze»

jdact

«(…) Estaria em concordância com a data indicada a referência ao comportamento negativo do papa Pascoal II que se deixou cair nas mãos do imperador germânico a ponto de lhe conceder (por extorsão no cárcere) o privilégio das investiduras (pecado de funestas consequências e que os cistercienses procuraram combater juntamente com o episcopado francês e com a intelectualidade mais empenhada do tempo). No entanto, o teor da referência é, demasiado genérico, pelo que parece serem de postular alguns anos de intervalo, quando a própria actuação pontifícia assume a questão de forma mais radical. Esta situação pode ver-se reflectida na personalidade do papa Calisto II, com a vantagem de ela aparecer como referência explicitadora de outros elementos. De facto, enquanto bispo de Vienne, ele fora um dos mais virulentos opositores da actuação de Pascoal II. Por outra parte, é a ele que os fundadores, motivados certamente pela familiaridade mantida nas negociações para a fundação da abadia de Bonnevaux (entre 1117 e 1119), recorrem a fim de obterem a confirmação dos seus actos, dos Capítulos e Constituições, ou, noutra formulação, de alguns capítulos relativos à observância da Regra de S. Bento e a algumas outras aplicações ditadas pela natureza da Ordem e da fundação. A aprovação teve lugar a 23 de Dezembro de 1119.
Fosse para apoiar as suas pretensões, declarando que desde sempre os fundadores se tinham pautado por formas canónicas e em harmonia com as autoridades (pelo que se lembravam os actos do arcebispo de Lião, legado pontifício, e as aprovações do papa Pascoal II), fosse para enquadrar o acto pontifício que lhes chegava, o Exordium traçava as linhas da evolução da nova observância. Não servia menos para celebrar com regozijo a expansão da nova Ordem, colocando como demonstração da benevolência divina e aprovação das opções tomadas a entrada maciça de novos monges, que permitiam a difusão para longe das fronteiras primitivas. Aos que iam tomando as responsabilidades noutros lugares não era certamente molesto lembrar o percurso que fora feito e a necessidade de manter a coesão, a unanimidade, pois todos a queriam preservar nesses anos de fervor.
O artifício do discurso em primeira pessoa que encontramos no início do documento pode dever-se a uma transposição literária que o próprio abade do momento, Estêvão Harding, depois de ter visto partir Roberto (forçado a regressar a Molesme, no ano imediato ao da fixação em Cister) e de ter assistido à morte de Alberico, dificilmente reivindicaria para si em exclusivo. Mas, se alguém o endossava a todos, a comunidade inteira participava da rememoração. É provável, no entanto, que a forma actual do Exordium Paruum seja resultado de intervenções posteriores, onde se reflectem tensões que se tornam mais evidentes entre 1130 e 1150 entre cistercienses e clunicenses. Nessas condições, um Exórdio Primitivo que acompanharia os documentos apresentados ao papa e bem assim, posteriormente, a bula de aprovação, teria sofrido remodelações, mas elas são difíceis de determinar. Poderá imaginar-se também que a celebração dos primeiros capítulos gerais, em que tomavam assento os abades da primeira geração (todos eles saídos de Cister, mas com pouco tempo de permanência na casa-mãe, pois, pouco mais de um ano após a entrada e uma vez realizado o ano de provação haviam partido), tenha sido ocasião para constituir uma primeira redacção dos factos primitivos.
O carácter elaborado desse início do EP, com estrutura de epitáfio (em que se nota a identificação de um sujeito de relação, a mensagem de base, o apelo à rememoração do leitor) bem como a forma de organização, de todo o texto obrigam a atribuir-lhe, mais que uma data, uma intenção. É evidente um propósito didascálico e revalorizativo desses inícios, com afirmações tão características como o de acentuar a legitimidade canónica da fundação e a creditação do género de vida através de normas bem definidas. O final do documento, ao assinalar, por outro lado, o acontecimento da entrada de Bernardo e dos seus familiares, deixa em aberto a suspeita de alguma tentativa de valorização intensiva de um momento privilegiado, se é que não também alguma tensão momentânea entre duas gerações (representadas emblematicamente por Estêvão e Bernardo), tensão essa superada no reconhecimento das diferenças e na alegria de viver num mesmo projecto de perfeição.
Por outro lado, não é de excluir que a redacção tenha sido objecto de amplificações ou refundições e acrescentos motivados por circunstâncias várias, mormente as tensões entre monges negros (Cluni) e monges brancos (Cister), em tempos em que Molesme decaía do seu fervor primitivo e se tornava necessário reafirmar a pureza de intenções dos fundadores, em tom mais ou menos polémico, o que nos levaria para uma data entre 1140 e 1150 e permitiria explicar alguns dados, como a ruptura com o duque e a proibição de utilizações do mosteiro por parte dele ou a referência à confirmação da Carta Caritatis, dados esses mais plausivelmente atribuíveis a reformulações tardias, com a particularidade de relativamente ao último elemento se remeter para momento em que as abadias eram doze». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «A repristinação dos acontecimentos tem certamente uma intenção. Várias propostas têm sido aventadas para explicar essa primeira memória e a verosimilhança joga com a carga de significação atribuída aos dados do texto»

jdact

«(…) A sensibilização para a integralidade do projecto cisterciense animará porventura alguns a indagar das suas razões, não apenas em atitude intelectiva de análise de fontes, mas em experiência de vida, quando descobrirem que a vida monástica é, a vida cristã que rompe todos os vínculos (...) que a impedem de ser integral. A leitura dos primitivos cistercienses impõe-se a todos quantos queiram reavaliar o sentido da preservação de uma memória que não se contente com um vago sentimento de nostalgia ou preservação de monumentos. É impossível ficar indiferente à experiência cisterciense, pois ela marcou a Europa ao longo de séculos e sobretudo nos alvores de um período particularmente fecundo da gestação do mundo ocidental em que vivemos. Os monges de Cister traçaram caminhos que são itinerários, deixaram edifícios que são monumentos, arrotearam terras que são definitivamente espaços humanos. As suas vozes são reconhecíveis no silêncio dos seus livros e dos seus documentos. Não basta recordá-los, é necessário ir-lhes ao encontro. Como escreveu Dom Maur Cocheril, monge cisterciense que longamente percorreu os caminhos portugueses dos seus irmãos de outros tempos:

Quando os monges, durante séculos e séculos,
impressionaram com a sua marca uma terra,
ainda que não ficasse da moradia dos monges
senão uma pedra que se desagrega,
senão um grão de areia que se esboroa,
a pedra, a areia falam dos monges.
Mesmo que a pedra e o grão de areia
por seu turno desaparecessem,
a terra, a velha e nobre terra,
a terra sobre a qual os monges se debruçavam,
o vale em que rezavam,
as árvores que plantaram
continuariam a falar deles.
Porque, durante séculos e séculos,
os monges impressionaram com a sua marca uma terra.

A tradução dos primitivos documentos cistercienses que aqui oferecemos deseja servir de apoio para a descoberta dessas marcas. In Aires A. Nascimento

Os inícios da Ordem Cisterciense: exordium paruum
A memória de Cister cedo procurou constituir testemunho dos acontecimentos em forma narrativa. Não há, porém, indicação explícita e directa de quem o faz e quando isso acontece ou quais as razões que estão subjacentes a um acto de memória apresentado como tal. Reconhece-se facilmente que isso dá lugar a uma encenação em que os fundadores de Cister tomam sobre si a responsabilidade de uma narrativa em que já são notórios desenvolvimentos que ocorreram ao longo de uns vinte anos, desenvolvimentos esses que não estavam de forma alguma contidos no primeiro plano ou propósito de reforma monástica que Roberto e seus companheiros pretendiam levar a cabo. A repristinação dos acontecimentos tem certamente uma intenção. Várias propostas têm sido aventadas para explicar essa primeira memória e a verosimilhança joga com a carga de significação atribuída aos dados do texto.
Um cenário possível para a sua elaboração é o da entrada de um contingente significativo de monges em torno de 1132, que desencadeia ou apressa (caso se aceite a hipótese de Estêvão Harding ter concebido antes tal projecto para obviar a dificuldades económicas da primitiva comunidade) a fundação de novas abadias. Qualquer dos dois factores, em si, e sem que a conjugação deles se revele essencial, pode ter gerado a necessidade de dar testemunho dos primitivos anos de implantação da nova observância monástica (tão nova se pretendia que o próprio mosteiro tinha sido designado por novo, Nouum Monasterium, e só posteriormente o nome alterna com o topónimo Cistelium, convertido do nome comum deduzido das características físicas do local, talvez por sobreposição de nova interpretação de um antigo nome derivado da existência de um marco miliário, cis-tertium). Dirigido a um novo grupo, que representava uma nova geração e se assumia com uma dinâmica que se vê retratada em Bernardo, monge saído da fidalguia borguinhona e que tem no terreno apoios que lhe permitem lançar Claraval e ganhar liderança, pode representar a reacção dos mais antigos que desejam afirmar as razões da sua iniciativa primeira e dar conta da sensatez das opções tomadas ao longo das primeiras duas décadas, ao mesmo tempo que se revêem na juventude que agora aparece disposta a assumir as responsabilidades de continuadores. Porém, o confronto que o texto revela entre esses dois grupos é por demais pacífico para exigir que lhes reconheçamos uma interpenetração de perspectivas e para pressupor a veneração dos primeiros tempos de uma história comum em nome dos fundadores». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «É certo que poderíamos ter recorrido às traduções medievais do Fundo Alcobacense. No entanto, haverá que confessar que, por mais venerandas que elas sejam…»

jdact

«(…) As normas foram sendo estabelecidas nos documentos comuns saídos dos capítulos gerais e o próprio texto fundamental da Carta de caridade, aprovado em 1119 pelo papa Calisto II, sofre as consequências de reelaborações sucessivas, sendo as estratificações reconhecíveis, mas nem sempre determináveis por documentação. Ficam também pouco evidentes os acontecimentos que lhes possam estar na origem ou os responsáveis que redigiram os textos cujas redacções se foram sucedendo. A memória entremeia neles com as reflexões ou as mensagens que se desejam transmitir num momento determinado, sem que seja fácil recuperar as tensões reais ou desmontar os mecanismos mais significativos. No entanto, as diversas redacções têm de ser assumidas como reflexo de ambientes que, em repristinações do passado, vão lançando modelos que são tentativas de aperfeiçoamento. Esses textos primitivos constituem as referências cistercienses mais específicas. A sua história é confusa e complexa, até porque os testemunhos foram sendo substituídos à medida que novas situações levaram a reformulação textual. Há a reconhecer, aliás, que, tratando-se de textos em formação eram também instrumentos de formação, cujo conhecimento devia ser posto ao alcance dos noviços que se preparavam para entrar nas comunidades cistercienses, ficando, pois, a sua transmissão sujeita aos mecanismos da leitura feita pelo mestre do noviciado. De qualquer modo, quando Bernardo Fontaine dá entrada no mosteiro de Cister, não muito longe do seu lugar de nascimento, as decisões de base estavam já tomadas; mesmo que nesses documentos primitivos se possam detectar elementos que se identificam com passos das suas obras, as suas intervenções, directas ou por entreposto leitor dos seus textos, terão sido pontuais e fica-nos sobretudo a expressão comunitária de um grupo marcado desde a origem pela busca da unanimidade. Não é nosso propósito dirimir aqui problemas de acumulações ou de reformulação nem tão pouco indagar a autoria de cada intervenção ou mesmo identificar qualquer ramo de tradição mais autónomo. Apenas nos move apresentar uma tradução, fiel e fundamentada, desses textos, na forma mais aceite pela tradição cisterciense, a fim de que possa ser reconhecida.
É certo que poderíamos ter recorrido às traduções medievais do Fundo Alcobacense. No entanto, haverá que confessar que, por mais venerandas que elas sejam, a distância a que colocaríamos qualquer leitor não andaria muito longe da que supõe o próprio texto latino. De qualquer modo, porque a própria história do texto interessa para reconhecer os momentos originais da vivência cisterciense, na introdução a cada um dos textos, tentar-se-á apontar a problemática de base, sem presumir de qualquer solução, pois ela está longe de ser pacífica ou líquida. Na bibliografia de referência poderá encontrar-se o complemento necessário para aprofundamento das questões que continuam a pender sobre os primeiros tempos da reforma cisterciense. Tenha-se presente, neste aspecto, que a estrutura cisterciense assenta em dois pilares: a) o direito constitucional, formado pelos textos orgânicos que criam e organizam a Ordem de Cister; b) o direito não constitucional, isto é, das regras de âmbito diverso, administrativo, litúrgico, económico, disciplinar, que regem a vida de todas as abadias. E no Capítulo Geral da Ordem, que reúne anualmente todos os Abades, que se estipulam as regras de funcionamento.
Conhecem-se ainda mal as fases de evolução das codificações do século XII, pois a tradição sofre soluções de continuidade que nem sempre é possível colmatar, até porque a substituição levava à eliminação de instrumentos anteriores. De qualquer modo, parece possível resgatar alguns dos elementos mais antigos e perceber o seu valor. A tradição faz remontar aos anos 1120 - 1130 as primeiras tentativas de codificação das orientações fundamentais: para a liturgia, os Ecclesictstica officia; para os conversos, os Usus Conversorum; para a organização da vida monástica, os Instituta, na diversidade de regras, sem sistematização aparente. Na base, ficava a Carta caritatis et unanimitatis como referência fundamental que tudo enformava, mas, mesmo esta, não era texto
imutável. Por outro lado, a comunidade monástica não deixou já nos primeiros tempos de lançar por escrito os primeiros elementos de uma memória colectiva que já é engrandecedora para os primeiros momentos da Ordem; pertence-lhe o Exordium Paruum (assim designado para distingui-lo do Exordiurn Magnum, de maiores dimensões que escreveu mais tarde, entre 1190 – l210, Conrado de Eberbach, monge de Claraval, ainda que não seja inconcussa a relação estabelecida com o Exordium Cistercii». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

domingo, 23 de outubro de 2016

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «Mas, em contraste com a orgânica monárquica de Cluni, a função do Abade é apoiada e corrigida pelo Capítulo Geral de realização anual»

jdact

«(…) Estrutura feudálica na organização monástica em concordância com a mentalidade do tempo; apoio concedido pelos poderes constituídos, de papas e príncipes (que escolhem as abadias cistercienses para sua sepultura), mas também de bispos e clero secular (pois o mosteiro cisterciense não oferece concorrência quer no temporal quer no espiritual e permite captar apoios na própria rede de relações que estabelece pela Europa inteira, tanto no plano espiritual como no civil); aproveitamento racionalizador dos meios materiais (domínio da natureza, aproveitamento dos recursos hídricos, organização das granjas, exploração e transformação dos produtos, emprego de mão de obra minimamente habilitada e enquadrada, intervenção nos mercados através de entrepostos, investimentos calculados). Enfim, por muito que se multipliquem as explicações, ou justamente porque elas dependem da perspectiva escolhida, não se pode ter em menos conta a sinceridade interior dos monges e a clarividência dos orientadores, individualmente ou em grupo, para responderem a uma autêntica multidão de homens, que não eram os menos válidos do meio de onde procediam. Não bastava, o desejo de fidelidade estrita à Regra de S. Bento, era necessária a clarividência exercida nos momentos oportunos e através das instituições e dos mecanismos de relação oportunamente criados. Mas a clarividência assentava também na planificação de uma estrutura interna, a um tempo funcional e simples, em que se conjugava a organicidade hierárquica com a participação das diversas unidades monásticas na vigilância pela adequação de um projecto de base às situações concretas.
A comunidade cisterciense era composta de pessoas várias, segundo uma escala relativamente larga: monges professos clérigos, não necessariamente com ordens, mas conhecedores das letras e com cultura para assumirem as funções de orientação; monges leigos, que normalmente não sabem ler, ainda que não faltem excepções de relevo (por exemplo, Alano de Lille) e habitualmente se confundem com os conversos, pois entram nessa categoria; noviços, em formação durante um período inicial que não ultrapassa um ano; conversos, leigos particularmente afectos aos serviços braçais, que vivem habitualmente nas granjas e celebram domingos e festas no mosteiro; doentes, por doença passageira ou crónica; domésticos ou familiares, homens e mulheres ligados ao mosteiro e nele trabalham, beneficiando dos seus sufrágios, em vida e em morte. Ao mosteiro acudiam também de forma passageira, outras pessoas, cuja presença é regulamentada: abades de outras comunidades, nomeadamente o abade-pai; hóspedes; peregrinos; assalariados sazonais; autoridades eclesiásticas e seculares. A coordenar toda essa comunidade humana estava o Abade, com os seus auxiliares, o prior e os encarregados das diferentes funções comunitárias.
Mas, em contraste com a orgânica monárquica de Cluni, a função do Abade é apoiada e corrigida pelo Capítulo Geral de realização anual. Semelhante figura aparece em funcionamento quando se multiplicam as fundações cistercienses. Falta-nos saber se tal instância funcionou nos primeiros tempos da vida em Cister como modo de regulação da vida em caridade e unanimidade e se foi a partir dessa experiência que se abrangeu as fundações que foram sendo criadas por solidariedade entre todos ou se foi o alargamento que fez surgir semelhante modo de proceder. O facto é que o Capítulo Geral, juntamente com a Visita anual se converteram em instâncias fundamentais de legislação e controlo da acção cisterciense. A expansão cisterciense faz-se por diferentes modelos: enxameação, caso em que uma comunidade envia um grupo de monges fazer uma fundação num território oferecido por um senhor; substituição, quando o grupo cisterciense toma o lugar de outra comunidade que desaparece; filiação ou agregação, e integração de uma anterior comunidade, que permanece sob a nova obediência; tutela, relativamente aos mosteiros femininos, cuja primeira filiação data de 1125, e cuja assistência fica entregue à vigilância do abade do mosteiro mais próximo. Nestas condições (e a expansão mantém-se até, meados do século XIII, tempo em que o renovamento espiritual e a resposta a necessidades novas são tomados pelas Ordens Mendicantes), a salvaguarda da identidade primitiva só pôde manter-se graças a um espírito previdente e organizador, não obstante os momentos de tensão ou de crise». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «Com a diferença de categorias monásticas, os conversos têm o seu lugar a partir de 1120; escoamento de necessidades emergentes de uma nova sociedade onde surgem as universidades e se instala uma economia monetária e mercantil»

jdact

«(…) Deve ser atribuída a Estêvão (e não antes, pois a situação apenas ocorre nos seus dias) a regulamentação genial do sistema hierárquico, participativo e articulado de todas as abadias na gestão da Ordem. O abade de Cister mantém a primazia, mas é regulado pela vigilância dos abades das primeiras fundações (La Ferté, Pontigny, Claraval, Morimond); a ele pertence servir de instância de apelo, e é ele quem convoca e preside o Capítulo Geral da Ordem que reúne todos os anos os diversos abades e analisa o cumprimento da Regra, mas não fica isento da correcção fraterna. As abadias são autónomas e interdependentes: nenhuma ficar obrigada a prestações pecuniárias a outra, mas todas acodem às dificuldades de cada uma. Não obstante a sua autonomia, as abadias devem, antes de mais, obter o assentimento do bispo do lugar e devem-se mutuamente o dever de caridade, que significa ajuda e correcção. O capítulo geral é o instrumento fundamental da partilha monástica e da sua regulamentação.
Quando Estêvão morre em 1133, as fundações eram já 71 e depressa subirão em flecha, sendo já 352 à morte de Bernardo, em 1153; continuando em ascensão, estendem-se aos mais diversos recantos da Europa, atingindo 640 comunidades em 1240. O número de monges é impressionante, ainda que não uniformemente distribuído: em 1150, três anos antes da morte de Bernardo, Claraval tem 500 monges, Cister 250. O êxito tem sido explicado por razões várias de conivências essenciais e de conluios internos escolha apropriada dos locais de implantação, recrutamento de postulantes adultos, com exclusão dos pueri oblati, o que caucionava a estabilidade por razões de maturidade individual e maior sentido de responsabilidade; acolhimento de excedentários demográficos particularmente das linhagens senhoriais; resposta a expectativas e cultura aristocrática do tempo que, de algum modo, transpõe para o mosteiro!

NOTA: Os números apresentados pelos diferentes analistas nem sempre coincidem, pois dependem dos diferentes factores considerados. Os 500 do tempo de Bernardo, aparecem assim distribuídos pelos bancos da igreja: 162 reservados ao monges (sendo 128 nos bancos do coro da frente e 34 no coro de trás) e 328 destinados aos conversos. Não há obviamente que dar fé a números fantasiosos que uma certa historiografia, de que é exemplo o nosso Bernardo de Brito, procurou insinuar (para aquele, no seu auge, Alcobaça teria albergado 999 monges, número totalmente fantasioso, pois não se adequa aos próprios edifícios e lugares de serventia, igreja, refeitório, dormitório). Costuma-se distribuir o fenómeno da expansão cisterciense dos primeiros tempos por quatro fases: inícios (1119-1129), apogeu (1129-1153), nova ordem (1153-1240),
estagnação (após 1240). Retenha-se sobretudo a larga expansão no tempo de Bernardo de Claraval, a irradiação a partir sobretudo de Claraval e de Morimond, ultrapassando Cister, que ficava limitada pelas suas obrigações de acolher anualmente os membros do Capítulo Geral. E a irradiação que leva à reformulação dos textos, com intenção de vincar os dados fundamentais da unanimidade na caridade. As alterações que se vão suceder ao longo de um século (entre 1150 e 1240) levam alguns historiadores a falar de uma nova ordem cisterciense. Nesse período, o predomínio francês (51% em 1150) esbate-se ou perde-se (41% em 1200, 35% em 1240), Cister estagna, enquanto outras abadias ganham dinamismo. Apenas mais tarde, por 1280, o ramo feminino (cuja incorporação se dá em finais do séc. XII) adquire projecção, atingindo pelo menos 300 comunidades em 1300. Não obstante a interpretação tradicional de que os cistercienses teriam optado por lugares não apenas ermos, mas de horror e desolação, importará matizar a leitura do Exordium Cistercii com o reconhecimento de que o passo bíblico a que se recorre pressupõe sobretudo a manifestação da benevolência divina que conduz o seu povo a um local onde possa revelar-se-lhe sem interferências de outros; por outra parte, e independentemente de o autor do texto pretender assinalar o afastamento do mundo e a rudeza das condições escolhidas (que são lembradas ao noviço antes da sua profissão), importa assinalar que os locais são escolhidos com atenção e abandonados quando não oferecem condições de vida (as experiências de Molesme serviram, aliás, de aviso), de tal modo que nada parece ser deixado ao acaso.

Com a diferença de categorias monásticas, os conversos têm o seu lugar a partir de 1120; escoamento de necessidades emergentes de uma nova sociedade onde surgem as universidades e se instala uma economia monetária e mercantil; espiritualidade concordante com os valores da cavalaria medieval, desde o espírito de heroísmo numa ascese rigorosa ató à devoção mariana, sintomaticamente, invocando o exemplo de Cister, todas as abadias de fundação, e não de filiação, serão postas sob a invocação de Maria». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

domingo, 2 de junho de 2013

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «O equilíbrio das necessidades materiais da comunidade com as suas disponibilidades de tempo e de receitas obrigava a outras decisões de não pequenas consequências. (…) o ingresso dos leigos nas actividades do mosteiro tornava-os conversos, com os direitos dos monges, embora com dispensa de participação no coro e na “lectio”»

jdact

«(…) A situação não desagradava a Roberto, já que há indícios de que, por várias vezes, se terá mostrado apoiante de reformas: deve ter secundado os desejos dos monges de Vivicus, apesar da oposição de outros, que terão aproveitado a sua ausência para reclamar o regresso deles; era certamente por reconhecerem nele um guia espiritual de renovação que outros o haviam acompanhado no regresso de uma viagem à Flandres, dois dos que se incorporam no grupo que parte para Cister eram originários de Arras.

NOTA: Quatro monges de Molesme, entre os quais Alberico e Estêvão, fizerarm uma tentativa de reforma em Vivicus, mas foram obrigados a retirar por intervenção do bispo Roberto da Borgonha; os factos, referidos na Vita Roberti, não são claros, mas parece que a ida para o ermo foi realizado num momento em que o abade se encontrava ausente e os partidários de uma vida monástica mais rigorosa não aguentavam o ambiente de Molesme; o regresso foi imposto pelo bispo para evitar o escândalo que tal secessão representava para a abadia de Molesme e lembrar aos mais zelosos que nada se podia fazer sem o consentimento da autoridade eclesiástica, no caso, do bispo de Langres. Por dupla razão, os mesmos monges se dirigem dentro em pouco ao legado papal, o arcebispo de Lião, em momento favorável da passagem deste em visita à sua arquidiocese.
Da viagem à Flandres trouxe Estêvão um manuscrito precioso em que o calígrafo e iluminador Osberto representa os abades de Cister e de Saint Vaast ao lado da Virgem Maria, com o próprio Estêvão a fazer a oferenda de uma igreja. A oferta desse manuscrito, aliás, sela um pacto de fraternidade espiritual celebrado entre Arras e Cister.

Mas a iniciativa da partida não deve ter sido da responsabilidade de Roberto, pois as convicções não sofrem quebra quando Roberto, poucos meses decorridos, se vê forçado a regressar a Molesme, por intimação papal e sob reclamação dos monges daquele mosteiro, a que não devia faltar um líder capaz de exigir intervenções firmes da autoridade. Os destinos da nova abadia, oportunamente confirmada pela tomada de posse do abade, ficava nas mãos do antigo prior, Alberico, homem forte, homem dado às ciências divinas e conhecedor das experiências da vida, ardente em amor pela Regra e cheio de caridade pelos irmãos, como declara o Exordium Paruum. Fizera ele parte dos fundadores de Molesme, em 1075, depois certamente de uma vida de estudo e de piedade. Braço direito de Roberto, cabe-lhe levar por diante a reforma encetada; a ele pertence ter conseguido a aprovação papal para a iniciativa, no tempo de Pascoal II, ter-se libertado do pagamento de direitos senhoriais, e lançar a organização da vida cisterciense: o regresso à Regra implicava nada aceitar do que nela não estivesse consignado; rectificavam-se modos de vestir, regressava-se ao tecido natural e ao desenho mais simples da túnica singela, e de comer, desapareciam as carnes e as gorduras, como pobres, consagravam os monges a obrigação do trabalho pelas próprias mãos e não admitiam rendimentos de outra procedência, pelo que renunciavam a direitos sobre igrejas, fornos, moinhos, mas também a priorados e recolha de dízimas; por isso tornava-se necessário equilibrar os momentos de oração com os de trabalho e de leitura, pelo que o regresso a uma liturgia mais simples recuperava tempos destinados a outras ocupações; restaurava-se a obrigação do silêncio e da clausura estrita, nem os leigos podiam ultrapassar a porta do mosteiro nem o monge podia pernoitar fora dele.
O equilíbrio das necessidades materiais da comunidade com as suas disponibilidades de tempo e de receitas obrigava a outras decisões de não pequenas consequências: o emprego de assalariados convertia os servos em pessoas livres com trabalho fixo; o ingresso dos leigos nas actividades do mosteiro tornava-os conversos, com todos os direitos dos monges, embora com dispensa de participação no coro e na lectio.

Por morte de Alberico em 26 de Janeiro de 1108, é Estêvão Harding quem é escolhido, estando ele ausente, fazem notar as fontes, para ocupar o seu lugar. Erudito e homem de acção, pertence-lhe ter transposto para a Carta de caridade e unanimidade o que certamente se vinha organizando com Roberto e com Alberico, acrescentando-lhe ele uma experiência de longos anos, começada em Inglaterra e dilatada por contactos diversos. A ele se deve atribuir a organização do scriptoritum cisterciense onde fixava
os textos de uma reforma que se propunha ter instrumentos uniformes em todas as abadias. A ele pertence sobretudo ter planeado a difusão da reforma cisterciense, em movimento de expansão bem ao invés de quanto pretendia Molesme, ainda antes de o próprio Bernardo ter ingressado em Cister. La Ferté data do ano em que Bernardo chega ao mosteiro e por isso há que supô-la já planeada. A ele há que reconhecer a capacidade de conviver com gerações diversas, sem se molestar com o fervor eventualmente mais intempestivo de alguns mais radicais, no caso da iluminura, por exemplo, não esquece a lição do antigo mosteiro inglês, muito embora não estranhe as reacções de Bernardo na procura de uma simplicidade que dispensa o ornato excedentário, servindo certamente de moderador em diversas circunstâncias.
A decisão de fundar novas abadias e não priorados envolve uma perspectiva do múnus do abade que deve acompanhar os seus monges, com a assistência reclamada na Regra (a decisão papal de proibir a elevação a abadias as celas ou os priorados é de 1100 e pretende evitar a dispersão. Os cistercienses devem ter obtido autorização anteriormente a esta medida romana). Implica, por outra parte, a definição de relações entre abadias». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «A fundação de Molesrne, em 1097, não gozava. de plena autonomia, pois dependia em vários aspectos daquela, que mantinha o direito de intervenção na escolha do abade de entre os monges da abadia-mãe e a própria desclassificação para o estatuto de cela em caso de relaxamento monástico»

jdact

«(…) Novo Mosteiro chamam os primeiros documentos cistercienses à fundação que se implanta no coração da Borgonha, a alguns quilómetros de Dijon; novo porque se intentava a novidade de vida, pelo regresso à pureza da Regra, mediante uma pobreza fecunda, mãe soberana e inspiradora das virtudes monásticas. Cistelium evoca, ao tempo, não propriamente um lugar dos arredores de um antigo acampamento romano, cis-tertium, o terceiro marco, mas a rudeza do ambiente em que não havia senão mato, juncos, charcos de água e floresta (a forma Cistercium / Cistelium / Cistellum, e a correspondente românica Cistel remetia para este significado, mas não é inverosímil que possa derivar simplesmente de um antigo marco miliário, cis-tertium; Les cisterciens, in Les Ordres Religieux, Paris, 1979). Sobre essa imagem recai o desafio da transformação, através de uma intervenção que é modalidade de agir por sua conta, esperançados certamente na ajuda divina, mas dispostos igualmente a viver apenas do produto do próprio trabalho, sem recurso a outros expedientes, de favor e de domínio ou de dependência.
As opções são radicais e têm consequências que a nova comunidade monástica quer levar a bom termo. O local, por maninho que fosse, não era baldio e o senhor feudal conhecia bem os limites das suas propriedades. Amigo de Roberto, Eudes I, duque de Borgonha, que em tempos anteriores se mostrara magnânimo para com a comunidade de Molesme, embora noutras ocasiões se tivesse mostrado ávido de alargar os seus domínios e de ganhar riquezas fáceis, (conhecido é o episódio passado com Anselmo, arcebispo de Cantuária, quando atravessa o seu território, certo dia do ano de 1097; convencido de que encontra riqueza na sua bagagem, o duque ataca-o com as suas tropas, mas tem de se render à evidência de uma pobreza que o converte em protector do santo arcebispo que peregrina até Roma), agora, também a pedido do arcebispo de Lião, convence um seu vassalo, o visconde Renard de Beaune, a ceder aos monges o terreno necessário, em três actos que alargavam a concessão inicial, em troca de benefícios que o próprio duque se compromete a honrar, um rendimento anual de vinte soldos, escudos em ouro, e uma autorização para o visconde e seus filhos cultivarem vinha nos seus terrenos. Já então fica claro que os monges não pretendem aceitar nada que os coloque em dependência de outros ou lhes retire a liberdade interior de tudo decidir segundo o que considerarem melhor para a reforma que se propõem. Ela é um misto de eremitismo e de cenobitismo, pois, se é afastamento do mundo, é também comunitarismo vivido no recolhimento mais completo sob a direcção de um abade, que, como manda a Regra, assume a plenitude de funções no cuidar espiritual e materialmente dos seus monges.
Para preservarem a sua inteira disponibilidade de serviço divino e de separação com o mundo, vão os monges reclamando actos que incluem formas específicas de administração e de ocupação de locais: a forma de alódio (território não sujeito a direitos alheios) é o núcleo da primeira concessão que perfaz um perímetro destinado aos edifícios fundamentais e às explorações de subsistência; a segunda concessão envolve uma igreja, mas relativamente a ela o senhor tem de declarar que se trata de um local isento, porque pertence só a Deus, de tal forma que os monges tomam conta dela como se fossem os primeiros ocupantes; pela terceira concessão, o usufruto de uma parte do terreno fica adstrito a dois servidores e uma serva, mas estes ficam sujeitos ao visconde e não aos monges.
Mais do que esta liberdade frente a intervenções estranhas e a independência tanto de monges como de seus colaboradores, que terá consequências de monta nas próprias relações de trabalho, ressalta o significado jurídico da inclusão do abade de Molesme no primitivo grupo que partia para Cister. Se Roberto tivesse ficado em Molesme, a fundação teria ficado submetida à abadia-mãe, fosse como priorado, fosse a modo de Aulps. A fundação de Molesrne, em 1097, não gozava. de plena autonomia, pois dependia em vários aspectos daquela, que mantinha o direito de intervenção com o que isso implicava na escolha do abade de entre os monges da abadia-mãe e a própria desclassificação para o estatuto de cela em caso de relaxamento monástico. Isso teria sido uma solução falha; se a iniciativa queria triunfar, era necessário fundar uma abadia completamente sui iuris.
Tinha sido mérito do legado pontifício, a quem os monges tinham recorrido, decidir que o abade partisse com os interessados». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «A retirada para o eremus que uma bula pontifícia de Urbano II consagra algum tempo depois, em enquadramento que poderia parecer depreciativo, pois se trata de obrigar ao regresso de Roberto, a quem os monges de Molesme inicialmente haviam dado anuência…»

jdact

Cister. Os Documentos Primitivos ou a identidade de um Projecto Monástico
Introdução
«Quando, em 1098, alguns monges da abadia de Molesme, mosteiro situado nas fronteiras da Champanha e da Borgonha, fundado por um grupo de eremitas em 1075, tomam a iniciativa de deixar o seu mosteiro e partir para uma outra fundação não o fazem de ânimo leve. A própria data escolhida para tal efeito é plena de significado. Estava-se a 21 de Março, festa de S. Bento, que nesse ano coincidia com Domingo de Ramos. Celebrar a Páscoa longe do mosteiro a que se haviam acostumado e no qual haviam feito profissão de fidelidade à Regra de S. Bento e jurado estabilidade exigia não apenas uma ruptura, mas decisões espirituais profundas. A frente do grupo estava Roberto, abade de Molesme, monge de diversas experiências monásticas e habituado a acudir a quem solicitava o seu apoio espiritual. A decisão fora tomada de acordo com o legado pontifício, Hugo, arcebispo de Lião que, para o efeito, indagou dos reformadores as suas intenções. Tratava-se de optar por uma vida mais perfeita e sem molestar aqueles que na própria abadia de Molesme pretendiam continuar o género de vida a que se haviam acomodado.
Não constituía isso um acto impensado nem ele era invulgar nos tempos que corriam. A própria abadia de Molesme surgira de uma procura de renovação e o espírito do abade Roberto não podia deixar de inquietar-se com a quebra de fervor monástico. A saída, porém, exigia motivações e apoios, pois, não havia muito tempo, os monges que se tinham retirado para outro lugar, Vivicus, tinham sido obrigados a regressar à origem pelo bispo de Langres, devido a reclamação dos monges molismenses. No entanto, dois nomes desses monges são reconhecíveis, pois se trata de Alberico e de Estêvão Harding, e somos levados a pensar que os motivos eram bem profundos e sentidos.
As razões que esse novo grupo, agora de seis monges, Roberto, Alberico, Eudes, João, Estêvão, Letaldo e Pedro, apresenta ao arcebispo de Lião pareciam motivo mais que legítimo à luz da canonística do tempo. O argumento que passa para os documentos era o de que em Molesme se estava a viver a Regra de uma forma tíbia e negligente, tepide et negligenter, e eles pretendiam praticar essa mesma Regra de modo estrito. Se a interpretação de vida negligente não parecia bastar, pelo que a reinterpretação dos cronistas posteriores não hesita em dramatizar as tensões existentes, transformando-as em discussões que servem uma narrativa, o propositum era plenamente louvável e estava de acordo com tendências espirituais do tempo, em que a reforma era tanto mais desejada quanto nela pesavam factores de espiritualização contra a feudalização da vida monástica e de reacção contra a intrusão dos poderes civis dentro da Igreja e a sobreposição dos poderes temporais sobre os espirituais, nomeadamente na questão das investiduras reclamadas pelo imperador do Sacro Império.

NOTA: Veja-se o texto de Orderico Vital e o de Guilherme de Malmesbury; não se deixe de ter em conta que a Molesme acodem espíritos de grande exigência como Bruno, fundador da Cartuxa, e Estêvão Harding que conhece a prática beneditina de outras abadias, mas procura integrar a vida de ermita a que depois se dedicou. O próprio bispo de Troyes, Hugo II de Dampierre, quando um dia passa por Molesme tem de contentar-se com pão seco. Um dos grandes benfeitores do mosteiro foi Eucles I, duque da Borgonha, que depois apoiará também Cister. Antes de 1080, os hábitos de vida monástica de Molesme nada tinham a ver com as facilidades de Cluny. É possível que com os benefícios recebidos tivesse havido uma transferência insensível para os hábitos desta observância, com a aceitação de rendas, priorados, etc., prática que Roberto não terá conseguido evitar, pelo que se refugiou por algum tempo junto dos eremitas de Auch, ainda que a pretexto de os auxiliar na orientação monástica.

A retirada para o eremus que uma bula pontifícia de Urbano II consagra algum tempo depois, em enquadramento que poderia parecer depreciativo, pois se trata de obrigar ao regresso de Roberto, a quem os monges de Molesme inicialmente haviam dado anuência, mas a quem agora reclamam em apelo para o papa, argumentando com os prejuízos que tinham advindo para a comunidade monástica, tal retirada era, a um tempo, simbólica e real». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Lendas Medievais: O Codex Gigas. Segundo a lenda, o escriba foi um monge que quebrou os votos monásticos, sendo condenado a ser murado vivo. Para evitar esta severa sanção, prometeu a criação de um livro que glorificaria o mosteiro para sempre. Deste modo, incluiria todo o conhecimento humano

Cortesia de suite101

O Codex Gigas, que significa Livro Gigante, é considerado o maior manuscrito medieval existente no mundo. Foi criado no início do século XIII, presumivelmente no mosteiro beneditino de Podlažice na Boémia, actual República Checa. Está preservado na Biblioteca Nacional da Suécia, em Estocolmo. É também conhecido como a Bíblia do Diabo, devido a uma grande figura do diabo no seu interior e da lenda em torno da sua criação.
O códice tem capas em madeira, revestidas com couro e ornamentadas com motivos em metal. Com 92 cm de altura, 50 cm de largura e 22 cm de espessura, é o maior manuscrito medieval conhecido. Não se sabe quem o fez, nem se conhecem as razões de as páginas terem sido removidas, embora se pense que algumas delas pudessem conter as regras monásticas dos beneditinos. O códice pesa cerca de 75 kg e o velino nele usado foi elaborado a partir de pele de vitelo, ou pele de jumento, num total de 160 animais.

Cortesia de kb
O manuscrito contém figuras decoradas,  iluminuras, em vermelho, azul, amarelo, verde e dourado. As letras maiúsculas que iniciam os capítulos estão elaboradamente decoradas com motivos que, frequentemente, ocupam grande parte da página. O Codex, de acordo com os peritos, o livro terá levado mais de 20 anos a ser concluído.

Cortesia de artmagazin

A página 290 contém apenas uma figura original de um diabo, com cerca de 50 cm de altura. Algumas páginas antes desta, estão escritas sobre um velino escurecido e os caracteres são mais esbatidos que no resto do manuscrito. A razão para a diferença nas cores é que o velino, por ser feito a partir de peles animais, escurece quando exposto à luz. No decurso dos séculos, as páginas mais expostas acabaram por ter um aspecto mais escuro.

Cortesia de heliotropodeluzwordpress
Segundo a lenda, o escriba foi um monge que quebrou os votos monásticos e foi condenado a ser murado vivo. A fim de evitar esta severa sanção, ele prometeu a criação, em uma única noite, de um livro que glorificaria o mosteiro para sempre e que incluiria todo o conhecimento humano. Perto da meia-noite, ele teve a certeza que não conseguiria concluir esta tarefa sozinho e, por isso, fez uma oração especial, não dirigida a Deus, mas ao querubim banido Satanás, pedindo-lhe que o ajudasse a terminar o livro em troca da sua alma. O monge vendeu, assim, a sua alma ao diabo. O diabo concluiu o manuscrito do monge e foi acrescentada uma imagem do diabo como agradecimento pela sua ajuda.
Apesar desta lenda, o códice não foi proibido pela maldita Inquisição e foi analisado por muitos estudiosos ao longo dos tempos.

Cortesia de zaraxoxo

Cortesia da wikipédia/JDACT