sexta-feira, 20 de maio de 2022

Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «A conquista significou, pois, um corte. O poder estabelecido foi derrubado e em parte destruído, milhares de prisioneiros foram arrastados até ao Oriente e uma parte substancial da terra mudou de mãos»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Civilização Islâmica e o Gharb al-Ândalus

«(…) No século XI, Ibn Hazm escreve a Epístola sobre a excelência de Al-Andalus. Nesse escrito passa em revista a história literária do Islão peninsular e conclui afirmando a sua superioridade cultural sobre a Pérsia, o Iémen, a Síria e outros países orientais. Na primeira metade do século XII, o santareno Ibn Bassam na sua Daquira ou Tesouro exalta a superioridade dos poetas e literatos de Hespanha sobre os poetas do Oriente. Por sua vez, Al-Saqundi, já durante o domínio almóada, escreve o Elogio do Islão Espanhol onde reivindica, pela excelência das suas cidades e sábios, a superioridade do Andaluz sobre os povos berberes. Há que dar algum desconto ao elogio em boca própria. Com o triunfo da Reconquista, o Andaluz surge depois aos olhos dos exilados como o paraíso perdido. Ibn Said fala nas cidades, nos campos cultivados, nas casas, entre as árvores verdes, continuamente caiadas de branco, por dentro e por fora. No decurso das minhas viagens, não vi país que se possa comparar ao Andaluz quer na beleza, fertilidade, abundância de água, quer na exuberância da vegetação, com excepção dos arredores de Fez ou de Damasco, na Síria. E prossegue: O Andaluz tem sido comparado por muitos autores ao paraíso terreal. Portugal nasce como entidade política quando no Islão peninsular as ciências medievais e a filosofia atingiam um brilho assinalável. Muitos quadros fugiram mas as cidades e os campos com boa parte da sua população ficaram. A sua história, antes e depois, é também a nossa história.

Orgulhamo-nos quando da terra salta um esqueleto de criança datável de 27 a 30 000 anos e integramo-lo no nosso património. O mesmo deve acontecer com os homens e mulheres que habitaram e adubaram com os corpos o nosso solo, muçulmanos, cristãos e judeus, e que enriqueceram o nosso património e o da Humanidade.

A Formação da Sociedade de al-Ândaluz

A construção da civilização islâmica na península conheceu um percurso lento e contraditório. Como em todas as conquistas, vencedor e vencidos influenciaram-se mutuamente. Por outro lado, não podemos perder de vista que o espaço dos ibéricos e dos invasores fora profundamente marcado pela matriz das civilizações mediterrânicas. Segundo Ibn Mozain de Silves, que viveu no século XI, em texto conservado por historiadores posteriores, conquistada a Espanha, Musa ibn Nusayr dividiu o território entre os militares que vieram à conquista, isto é, entre as tribos que nela participaram tal como distribuira os cativos e os bens móveis. Das terras conquistadas deduziu o quinto para o Tesouro Público e dos cativos escolheu cem mil dos melhores e mais jovens para os enviar ao califa al-Wualid Abd al-Malik. Nas terras do norte deixou os cristãos com a sua religião e os seus usos mediante o pagamento de um tributo. A conquista significou, pois, um corte. O poder estabelecido foi derrubado e em parte destruído, milhares de prisioneiros foram arrastados até ao Oriente e uma parte substancial da terra mudou de mãos. Mesmo os filhos do rei godo Vitiza, que, segundo parece, se bandearam pelos invasores, tiveram de partilhar as terras. Alguns autores menosprezaram o número dos recém-chegados. No entanto, os relatos muçulmanos falam em 30 mil árabes e principalmente berberes. A estes há que juntar os 400 árabes de Ifriqiya que acompanharam al-Hurr ibn Abd al-Rahman, os árabes do governador al-Samh ibn Malik al-Khawlani, os 7 000 sírios das tropas de Baly e os militares da hoste do governador Abu l-Khatar al-Husam ibn Dirar al-Kalbi». In António Borges Coelho, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

JDACT, Algarve, António Borges Coelho, Conhecimentos, História, 

As Meninas Escondidas de Cabul. Jenny Nordberg. « Agora estamos sentadas no sofá de bordados dourados, onde as gémeas montaram um serviço de chá, consistindo em canecas de vidro e garrafa térmica de pressão numa bandeja prateada»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

 A Mãe Rebelde

«(…) Nosso irmão é na verdade uma menina. Uma das gémeas, de ar ansioso, faz um sinal com a cabeça assentindo a essas palavras. Então ela se vira para a irmã. Concorda. Sim, é verdade. Ela pode confirmar. São duas meninas idênticas, de dez anos de idade, com cabelos pretos, olhos vivazes e algumas pequenas sardas. Um pouco antes, estávamos dançando ao som do meu iPod, no modo shuffle, enquanto esperávamos a mãe delas desligar o telefone na outra sala. Passávamos o telefone de ouvido de uma para outra, mostrando nossos melhores passos. Eu não conseguia acompanhar o requebrado delas, mas alguns de meus mais inspirados acompanhamentos vocais ganharam entusiástica aprovação. De facto era boa a ressonância dada pelas paredes de cimento gelado do apartamento, no labirinto construído pelos soviéticos que abriga uma parte da pequena classe média de Cabul.

Agora estamos sentadas no sofá de bordados dourados, onde as gémeas montaram um serviço de chá, consistindo em canecas de vidro e garrafa térmica de pressão numa bandeja prateada. O mehman khana é o aposento mais luxuoso num lar afegão, que mostra a abastança e os bons costumes dos donos. Há fitas com versículos do Alcorão e flores de tecido cor de pêssego numa mesa de canto, com uma rachadura remendada com fita adesiva. As gémeas, sentadas no sofá sobre as pernas simetricamente dobradas, ficam um pouco ofendidas com minha indiferença àquela grande revelação. A gémea número dois se inclina para a frente: É verdade. Ele é nossa irmãzinha. Sorrio e concordo de novo com a cabeça. Certo. Claro. Um retrato emoldurado numa mesinha lateral mostra o irmão posando de gravata e um pulôver de decote em V, junto com o pai de bigode abrindo um largo sorriso. É a única foto exposta na sala. As irmãs mais velhas falam um inglês meio trôpego, mas entusiasmado, extraído dos manuais de escola e da televisão por satélite embutida no balcão. Talvez tenhamos aqui uma barreira de linguagem.

Certo, digo, querendo ser simpática. Entendo. Irmã de vocês. Mas me conte, Benafsha, qual é sua cor favorita? Ela vacila entre vermelho e roxo e depois passa a pergunta para a irmã, que também dedica uma séria reflexão ao tema. As gêmeas, ambas de cardigãs alaranjados e calças verdes, parecem agir em plena sincronia na maioria das coisas. Suas cabeças ficam balançando, cheias de elastiquinhos de cabelo brilhantes, e só quando uma fala é que a chuquinha da outra fica imóvel por alguns segundos. Esses instantes são a chance para um novato conseguir diferenciá-las: o segredo é uma marquinha de nascença na bochecha de Beheshta. Benafsha significa flor e Beheshta significa paraíso. Beheshta sugere nosso próximo tema: Quando crescer, quero ser professora. Quando chega a vez de cada uma delas fazer uma pergunta, as duas querem saber a mesma coisa: sou casada? Elas ficam espantadas com a minha resposta, pois, como ressaltam, sou muito velha. Sou até alguns anos mais velha que a mãe delas, que, aos 33 anos de idade, é esposa e mãe de quatro filhos. As gémeas têm mais uma irmã, além do irmãozinho. Digo que a mãe delas também está no parlamento. Então ela é muitas coisas que eu não sou. Parecem gostar desse quadro. De repente, o irmão aparece à porta». In Jenny Nordberg, As Meninas Escondidas de Cabul, 2009, ONG Afghan Women’s Writing Project, 2010, Masha Hamilton, Companhia das Letras, ISBN 978-853-592-696-5.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

JDACT, Jenny Nordberg, Literatura,

As Meninas Escondidas de Cabul Jenny Nordberg. «Azita nota meu silêncio e logo começa a me tranquilizar. Em breve as coisas vão melhorar. Tem certeza. Não há motivo para preocupação»

Cortesia de wikipedia e jdact

Prólogo

«A transição começa aqui. Tiro o lenço de cabeça preto e guardo na mochila. Continuo com o cabelo preso num coque atrás da nuca. Logo estaremos no ar. Endireito as costas e me sento um pouco mais aprumada, deixando que meu corpo ocupe um espaço maior. Não penso na guerra. Penso num sorvete em Dubai. Lotamos as cadeiras pequenas, revestidas de vinil, na sala de embarque do Aeroporto Internacional de Cabul. Meu visto expira daqui a poucas horas. Um grupo especialmente festivo de expatriados britânicos comemora, pela primeira vez em meses, o final do período que viveram atrás de arames farpados e sob vigilância armada. Três agentes humanitárias de jeans e camiseta justa conversam animadas sobre um balneário. Uma malha preta escorregou do ombro de uma delas, deixando à mostra uma parte da pele já bronzeada. Olho aquela exposição física tão pouco habitual para mim. Nos últimos meses, mal tenho visto meu próprio corpo. Estamos no Verão de 2011, e faz mais de um ano que está em curso o êxodo de estrangeiros saindo de Cabul. Apesar de um impulso final, o Afeganistão parece um caso perdido para muitos integrantes das forças armadas e das organizações humanitárias internacionais. Desde que o presidente Obama anunciou que os soldados americanos começariam a se retirar do Afeganistão em 2014, a caravana internacional tem-se apressado em partir. O aeroporto de Cabul é a primeira paragem na rota da liberdade para aqueles consultores, empreiteiros e diplomatas confinados, entediados e quase levados à loucura. Os negociantes da paz e do desenvolvimento internacional procuram novas colocações, onde alguma experiência com a construção da nação ou com a redução da miséria ainda não tenha desandado. Já começam a relembrar os primeiros tempos promissores, quase dez anos atrás, quando o Talibã acabava de ser derrotado e tudo parecia possível. Quando o Afeganistão ia ser renovado e remodelado como uma democracia laica de tipo ocidental.

A luz da tarde inunda a pista do aeroporto. Consigo pegar sinal para o telemóvel ao lado de uma janela e ligo outra vez para o número de Azita. Um estalido, e temos conexão. Ela está atordoada depois de uma reunião com o procurador-geral e algumas outras autoridades. A imprensa também estava lá. Como política, é assim que Azita se sente à vontade. Posso vê-la sorrir enquanto descreve a cena: Me arrumei com elegância. E fui diplomática. Todos tiraram meu retrato. A BBC, a Voz da América e a Tolo TV. Estava com o lenço turquesa, aquele que você viu outro dia. Sabe qual é. E o casaco preto. Faz uma pausa. E maquiagem. Muita maquiagem. Respiro fundo. Sou a jornalista. Ela é o assunto. A regra é não mostrar emoções.

Azita nota meu silêncio e logo começa a me tranquilizar. Em breve as coisas vão melhorar. Tem certeza. Não há motivo para preocupação. Anunciam meu voo. Tenho de ir. Dizemos as coisas de sempre. É só um tchau. Não um adeus. Isso. A gente se vê logo.  Enquanto me levanto, comprimida junto à janela para não perder o sinal, fico fantasiando uma volta. Podia ser a cena final de um filme. Aquele momento de impulso correndo pelo aeroporto para acabar de acertar tudo. Para terminar bem. E se eu passar mais uma tarde no escritório do coronel Hotak, ouvindo um sermão por causa do visto vencido? Um pouco de chá, um carimbo no passaporte e ele me liberta. Enquanto repasso mentalmente a cena, sei que nunca farei isso. E no que isso, meu acto final, resultaria? Entraria correndo na casa de Azita ladeada por soldados americanos? Pela Comissão dos Direitos Humanos do Afeganistão? Ou iria sozinha, com meu canivete e minhas habilidades de negociadora, impelida pela raiva e pela convicção de que basta mais um pequeno esforço para consertar o mundo? Ao passar pelo portão de embarque, as imagens desaparecem. Como sempre. Sigo os outros e, mais uma vez, faço o que todos nós fazemos. Entro no avião e vou embora». In Jenny Nordberg, As Meninas Escondidas de Cabul, 2009, ONG Afghan Women’s Writing Project, 2010, Masha Hamilton, Companhia das Letras, ISBN 978-853-592-696-5.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

JDACT, Jenny Nordberg, Literatura, 

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Também não ficou esclarecido. E começou a ponderar refugiar-se em Castela, como sucedera com seus irmãos, filhos de Inês de Castro. Acabou por permanecer no reino»

jdact

O Bastardo do rei Bravo

«(…) Andou algum tempo fugido. Mas, regressado à corte, percebeu que o prometido casamento com dona Beatriz nunca se realizaria. E, por isso, dom João de Castro decidiu acolher-se à protecção do rei de Castela, ao serviço do qual travará a terceira guerra fernandina (1381-1382), cercando Trancoso, tentando atacar Lisboa por mar, sitiando Elvas e Almeida. Em Castela também casará, entre 1379 e 1380, com dona Constança, senhora de Alba de Tormes, filha ilegítima do rei Henrique II. E em Castela encontrará seus irmãos, dom Dinis e dona Beatriz. Esta tinha-se casado, em Março de 1373, com dom Sancho, conde de Albuquerque e Haro, filho bastardo do rei Afonso XI de Castela, que o teve de Leonor de Guzman.

Dom Dinis, por seu turno, residia em Castela desde que se recusara a beijar a mão de dona Leonor Teles, mostrando assim a displicência e dissabor que lhe causava o casamento do rei Formoso. Este estivera para o matar, o que o obrigou a andar escondido e, depois, a refugiar-se no reino vizinho, onde, muitos anos mais tarde, o rei Henrique II lhe dará por mulher uma outra das suas filhas bastardas, dona Joana, havida de Joana, senhora de Cifuentes.

A devoção de dom João de Castro ao rei de Castela e os serviços que lhe prestou não evitaram que, após a morte de dom Fernando, em 1383, o monarca, casado com a herdeira do rei Formoso, o mandasse prender no castelo de Almonacid. Nada que deva surpreender ou indignar: o filho de Inês de Castro era, para muitos portugueses, o legítimo herdeiro da coroa que o rei de Castela sustentava pertencer, pelas leis e pelos tratados, à rainha D. Beatriz, sua mulher. Entre os portugueses que desejavam ver coroado o infante dom João de Castro, contava-se então o Mestre de Avis, cujas relações com a rainha Aleivosa e seu amante, o conde de Ourém, João Fernandes Andeiro, estavam longe de ser pacíficas. Ainda em vida do rei dom Fernando, seu meio-irmão, o filho de Teresa Lourenço fora maltratado, sendo acusado de correspondência com o rei de Castela. Preso no castelo de Évora, o Mestre de Avis encomendou-se a Cristo e fez promessa de ir ao Santo Sepulcro, em Jerusalém, se saísse vivo da sua prisão. Acabou por ser libertado por dona Leonor Teles, a cujos pés se ajoelhou, pedindo para ser esclarecido sobre os motivos da sua detenção. Não obtendo nenhum esclarecimento da rainha, foi ao Vimeiro, onde estava dom Fernando, doente, para pedir ao meio-irmão que lhe explicasse porque fora preso. Também não ficou esclarecido. E começou a ponderar refugiar-se em Castela, como sucedera com seus irmãos, filhos de Inês de Castro. Acabou por permanecer no reino.

Em Maio de 1383, acompanhou a infanta dona Beatriz, sua sobrinha, a Badajoz, onde a princesa uniu os seus destinos aos do rei de Castela. Em Outubro, perdeu seu irmão mais velho e viu dona Leonor proclamar-se, pela graça de Deus, Rainha, Governadora e Regedora dos Reinos de Portugal e do Algarve, enquanto o rei de Castela reclamava a aclamação de sua mulher como rainha de Portugal. O povo de Lisboa revoltou-se. E, a 6 de Dezembro, o Mestre de Avis foi ao paço matar o conde Andeiro, assumindo a chefia da revolta popular. Proclamado Defensor e Regedor do Reino, tratou com dom Nuno Álvares Pereira de fazer frente ao invasor, que conseguiu derrotar. A peste que grassou nos arraiais castelhanos e chegou a tocar dona Beatriz deu uma preciosa ajuda ao levantar do cerco castelhano. E, quando o rei de Castela partiu, o Mestre de Avis foi venerado como o Messias de Lisboa. Não tardaria a ser aclamado rei de Portugal». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos,  Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento,  

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Mas, tendo-se apaixonado por Maria Teles, irmã de Leonor e, portanto, cunhada de dom Fernando, casou com ela às ocultas. Este casamento deixou preocupada a Aleivosa, cognome que o povo dera a Leonor Teles»

jdact

O Bastardo do rei Bravo

«(…) Por essa altura, dom Pedro concedeu umas casas na mouraria de Avis à mãe de dom João, que se chamava Teresa Lourenço e, dizem Fernão Lopes e Rui Pina, entre muitos outros, seria natural da Galiza, de onde veio para Lisboa como dama da infanta dona Constança. Mas frei Manuel Santos, na Monarquia Lusitana, garante que dona Teresa pertencia a uma família minhota, a dos Almeidas, e era parente do mestre de Cristo. Por seu turno, António Caetano Sousa limita-se a assegurar na sua História Genealógica que ninguém duvida da nobreza desta dama. Outros autores dizem outras coisas ainda. Por isso, não se pode afirmar, sem margem para dúvidas, quem realmente era a mãe de dom João I. A questão continua em aberto e muito provavelmente não será nunca esclarecida. Pouco ou nada se sabe das primeiras duas décadas da vida de dom João, conhecendo-se, no entanto, os seus amores com Inês Pires, que era, segundo Soares Silva, filha de Pêro Esteves e Leonor Anes, pessoas de conhecida nobreza. Entre 1370 e 1380 dar-lhe-á dois filhos, como mais adiante se verá melhor.

Não parece que dom João tenha frequentado a corte de seu pai, que, falecido em 1367, quando o bastardo tinha dez anos, não o contemplou no seu testamento. Mas, na corte de seu irmão, o formoso dom Fernando, teve assídua presença, que não era, aliás, muito apreciada pela rainha Leonor Teles, talvez porque o filho de Teresa Lourenço era dos melhores amigos do filho de Inês de Castro que tinha o mesmo nome que ele. Este dom João, doravante designado por dom João de Castro, tinha cinco anos mais do que o outro, porque nascera, provavelmente em Bragança, pelo ano de 1352. Era, na descrição de Fernão Lopes, homem bem composto em parecer e feições, e comprido de boas manhas. Nas Cortes de Évora de 1361, dom Fernando fez-lhe doação de muitas terras, um pouco por todo o país: Porto de Mós, Seia, Lafões, Oliveira do Bairro, etc. E, durante a primeira guerra fernandina com Castela, nomeou-o fronteiro-mor entre o Tejo e o Guadiana. Na segunda, dom João de Castro acompanhou dom Fernando quando este se encontrou com o rei de Castela. Participou nas Cortes de Leiria, em Novembro de 1376, e foi considerado por Fernão Lopes o maior do reino.

Mas, tendo-se apaixonado por Maria Teles, irmã de Leonor e, portanto, cunhada de dom Fernando, casou com ela às ocultas. Este casamento deixou preocupada a Aleivosa, cognome que o povo dera a Leonor Teles: Dom João de Castro gozava de grande prestígio na corte e no reino, era amado dos povos e dos fidalgos, como escreveu Fernão Lopes. Podia por isso constituir uma ameaça a que dona Beatriz, a única filha de dom Fernando e dona Leonor, sucedesse a seu pai no trono. Para melhor garantir as hipóteses da infanta, Leonor Teles prometeu então a dom João casá-la com ele. Era, porém, necessário remover de cena dona Maria Teles, o que o próprio dom João se encarregou de fazer. Acusando-a de me poerdes as cornas dormindo com outrem, assassinou-a barbaramente, enquanto o filho de ambos dormia na câmara contígua à da mãe, quando ela foi assassinada. Foi isto, segundo parece, em Novembro de 1379». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos,  Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento, 

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. « O que torna as coisas ainda mais confusas e complicadas, fazendo pender sobre o rei Cruel a suspeita de bigamia ou, mesmo, de trigamia. Se nunca foi anulado o casamento de dom Pedro com dona Branca …»

 

jdact

O Bastardo do rei Bravo

«(…) Há, no entanto, quem não tenha dúvidas de que dom Pedro casou efectivamente com Inês de Castro, sustentando, porém, que este matrimónio se realizou antes do casamento com dona Constança Manuel. É essa nomeadamente a opinião de Agustina Bessa-Luís, que assegurou ter o matrimónio sido celebrado em 1335. O que torna as coisas ainda mais confusas e complicadas, fazendo pender sobre o rei Cruel a suspeita de bigamia ou, mesmo, de trigamia. Se nunca foi anulado o casamento de dom Pedro com dona Branca (que só faleceu em 1375), então os casamentos com dona Constança e com dona Inês não foram válidos, e os filhos deles nascidos são todos ilegítimos. Se, por outro lado, dom Pedro, tendo repudiado dona Branca com justa causa, casou com dona Inês antes de casar com dona Constança, então dom Fernando foi, antes de dom João I (também filho de dom Pedro!), o primeiro bastardo a sentar-se no trono de Portugal.

Finalmente, se o casamento de dom Pedro com dona Inês nunca existiu, então os três filhos nascidos dessa união, dona Beatriz, dom João e dom Dinis, foram ilegítimos. E, se apenas existiu a partir da data em que dom Pedro afirmou tê-lo celebrado, então só por esse casamento foram legitimados os filhos da mísera e mesquinha, que era, também ela, uma bastarda.

De facto, Inês de Castro foi o fruto dos amores de seu pai, dom Pedro Fernandes Castro, o da Guerra, com dona Aldonça Lourenço de Valadares, que não era sua legítima esposa. E quem a criou foi dona Teresa Martins, mulher de Afonso Sanches, o bastardo querido do rei dom Dinis, que dom Afonso IV execrava, o que pode ter contribuído para que o rei Bravo não a apreciasse como nora... Dê-se, porém, de barato que tudo se passou como dom Pedro disse que se tinha passado. Ou seja: que não casou, ou casou mas não consumou o casamento, com dona Branca de Castela, em 1325; que casou depois, em 1339, com dona Constança Manuel; e que, tendo enviuvado, casou, finalmente, em 1350 (ou em 1354), com dona Inês de Castro.

Do seu primeiro casamento não teve evidentemente filhos. Do segundo, nasceram três: (1) dom Luís, o afilhado de Inês de Castro, que morreu ao nascer, em 1340; (2) dona Maria, que casou com Fernando de Aragão, marquês de Tortosa; e (3) dom Fernando, que foi rei de Portugal. E do terceiro, mas antes de ele ter sido celebrado, nasceram outros quatro filhos: (1) dom Afonso, que morreu pouco depois de nascer; (2) dom João; (3) dom Dinis; e (4) dona Beatriz, todos legitimados pelo suposto matrimónio de seus pais. Além destes filhos, que serão legítimos ou não, conforme a posição que se adopte quanto aos casamentos de dom Pedro com dona Constança Manuel e com dona Inês de Castro, o rei Cruel foi pai do mais famoso dos bastardos reais, dom João, o de Boa Memória, que as cortes elegeram para suceder a seu meio-irmão dom Fernando, o Formoso. E, segundo a História Genealógica, terá tido ainda uma filha bastarda, de nome desconhecido, que se criou no Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra, e a quem o monarca deixou cinco mil libras para casamento. Mas dela não há mais novas nem mandados.

Dom João I foi o último dos filhos de dom Pedro I. Nascido por 1357, foi entregue aos cuidados de Lourenço Martins, honrado cidadão de Lisboa, que morava junto à Sé, sendo depois confiado aos cuidados do mestre de Cristo, dom Nuno Freire Andrade. Mas, tendo falecido frei Martim (ou Martinho) Avelar, mestre da Ordem de Avis, em 1362, foi dom João ocupar o seu lugar. O rei seu pai, muito ledo, armou-o cavaleiro, beijou-o e abençoou-o. O bastardo teria então sete anos e era, segundo Oliveira Martins, rapaz manhoso, atrevido, audaz sim, mas nunca temerário». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos,  Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento,

terça-feira, 17 de maio de 2022

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Porém, em ambos os casos, segundo esse mesmo direito, o matrimónio tornar-se-ia indissolúvel quando consumado por união carnal entre os esposos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

Alianças Políticas na Península Ibérica nos Séculos XIII – XIV

«(…) O direito canónico vigente em Portugal durante o período em que este trabalho se insere, reservava como elemento essencial para a concretização de uma aliança matrimonial, a decisão final aos próprios cônjuges de se aceitarem por marido e mulher e partilharem uma vida comum. Tal disposição poderia ser expressa por palavras de presente, arranjo que efectivava o compromisso prontamente ou por palavras de futuro, que constituía exclusivamente uma promessa de casamento (noivado) e implicava um compromisso com direitos e deveres entre os envolvidos, no entanto ele só seria efectivado quando o casal concretizasse os acordos por meio das palavras de presente. Porém, em ambos os casos, segundo esse mesmo direito, o matrimónio tornar-se-ia indissolúvel quando consumado por união carnal entre os esposos.

A segunda situação, palavras de futuro, foi muito comum entre os reinos peninsulares. Por meio dessa prática, reis e rainhas serviram-se muitas vezes de seus filhos, ainda impúberes, para realizar alianças matrimoniais como uma prerrogativa de materialização de acordos políticos. Neste sentido, as alianças matrimoniais realizadas entre as monarquias da Península Ibérica durante a Idade Média eram acontecimentos que ultrapassavam as solenidades jurídicas e religiosas e compunham, além de uma liturgia, uma questão política. Na configuração de uma nova família, essa ocorrência ganhava mais importância ainda quando duas casas reinantes procuravam concretizar novos acordos de cooperação económica e militar, demarcar novos espaços territoriais, modificar suas alianças políticas, reatar a paz ou iniciar longas crises com a Igreja de Roma, entre outras possibilidades.

No centro das negociações dessas alianças, não eram consideradas a vontade e a liberdade de decisão dos futuros esposos, mas sim as disposições traçadas pelas duas casas régias com o apoio das mais ilustres famílias nobiliárias que também viam nelas um acontecimento ideal para alcançar vantagens económicas e políticas. Nesse sentido, esses acordos possibilitavam igualmente a formação de uma rede de relações amistosas entre os reinos, que afectavam todo o corpo social ao possibilitar a criação de núcleos familiares que traduziam a constituição de uma organização de parentesco que alterava o panorama social e político de toda a comunidade.

De Infanta Aragonesa a Rainha a Rainha de Portugal

Não existe unanimidade entre os pesquisadores em apontar com exactidão o dia, o mês ou mesmo o ano do nascimento da infanta Isabel de Aragão. António Silva Pinto afirma que ela nasceu a 11 de Fevereiro de 1270, data também admitida por Cruz Coelho. Vitorino Nemésio assegura que ela deve ter nascido entre o Inverno de 1269 e 1270. António Nogueira Gonçalves, por sua vez, declara que dona Isabel, da casa de real de Aragão, nasceu no ano de 1270, provavelmente a 11 de Novembro». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel, 

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Outro autor que também estudou a vida da rainha foi Fernando Félix Lopes. Por meio de uma série de artigos publicados entre as décadas de 50 e 60 do século passado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

«(…) Outro autor que também estudou a vida da rainha foi Fernando Félix Lopes. Por meio de uma série de artigos publicados entre as décadas de 50 e 60 do século passado, esse autor dedicou-se especialmente aos conflitos entre dom Dinis e o irmão, e dom Dinis e o filho, e a algumas actividades religiosas e políticas da rainha entre outras. Pode-se destacar, ainda, o livro de Mário Domingues, D. Dinis e Santa Isabel, evocação histórica, publicado em 1963. Inspirado por uma leitura marxista, essa obra procura exaltar as realizações de dom Dinis, pois, segundo ele, a lenda em torno da vida da rainha Santa Isabel havia obscurecido a importância do papel político do monarca português: A lenda é demasiada injusta para com o soberano. No transparente intuito de valorizar a santa, tratou de amesquinhar um homem que, no decurso de toda a sua vida, não deu senão provas inequívocas de generosidade e carinho pelas classes desprotegidas. No entanto, com a publicação, em 1987, da obra da historiadora espanhola, Ângela Muñoz Fernández, já é possível conhecer alguns aspectos da vida da rainha Isabel analisados sob o enfoque das contribuições de uma historiografia actualizada e crítica. Neste estudo, a medievalista espanhola analisou diversas composições literárias sobre a rainha Isabel, como exemplo de modelos ético-normativos que a Igreja medieval projectou sobre a figura da mulher. O objectivo deste estudo é realizar uma investigação da figura da rainha Isabel enfocando a sua actuação política e religiosa e não dos milagres que realizou após a morte sobre os quais há farta bibliografia. Nele, a finalidade principal é uma reflexão sobre o papel e a actuação da rainha Isabel nas estratégias políticas da Península Ibérica, no final do século XIII e na primeira metade do século XIV, mais precisamente entre 1280, data provável dos primeiros contatos entre Portugal e Aragão para ajustarem o seu casamento com dom Dinis, e 1336, data da sua morte.

Para tal tarefa, foram selecionadas, além do já citado texto anônimo do século XIV: Livro que fala da boa vida que fez a Raynha de Portugal, D. Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte, as Crónicas dos sete primeiros reis de Portugal, as Crónicas de los Reys de Castilla. Além dessas fontes, foram selecionados também testamentos, doações e cartas de autoridades civis e eclesiásticas, publicadas como apêndice documental em diversos estudos sobre o período e, principalmente, um corpus documental composto por correspondências que a rainha Isabel manteve com muitas autoridades da época. Demarcando a temporalidade específica e delimitando as fontes, no primeiro capitulo realizou-se um estudo sobre a importância das alianças matrimoniais como expediente utilizado pelos reinos Ibéricos na tentativa de estabelecer profícuos acordos políticos, principalmente, do significado do casamento da infanta Isabel com dom Dinis para estabelecer uma aliança política entre aqueles reinos. Entendendo a casa régia enquanto um espaço político e cultural que sustentava a sociedade política daquele período, no segundo capítulo foram examinadas as actuações políticas da rainha nos diversos assuntos internos do reino português, mais precisamente seu envolvimento nas divergências entre o marido e o irmão e entre o marido e o Infante herdeiro, Afonso, futuro rei dom Afonso IV, bem como seu empenho na administração de seus bens, nomeação de fiéis servidores e na intervenção directa nas negociações dos casamentos dos filhos bastardos de dom Dinis. No segundo capítulo, também foi feita uma reflexão sobre as acções da rainha, situando-a no seu próprio contexto histórico, ou seja, uma rainha que adicionava aos códigos legislativos da época, os exercícios religiosos franciscanos como forma de governar e conduzir os assuntos internos do reino. No terceiro capítulo, investigou-se a participação da rainha Isabel no envolvimento do reino português diante dos conflitos e dos acordos com o reino de Castela e de Aragão, sobretudo sua participação nas mediações diplomáticas que envolveram os reinos de Portugal, Aragão e Castela. No quarto capítulo, foram discutidas as acções da rainha Isabel depois da morte de dom Dinis, em 1325, dando ênfase à sua actuação política na busca de soluções para os novos conflitos externos envolvendo seu filho, dom Afonso IV, rei de Portugal, seu neto, Alfonso XI, rei de Castela, e seu sobrinho, Alfonso IV, rei de Aragão e ao significado político das aspirações tomadas pela rainha deixadas nas suas declarações testamentárias». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

 JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel,

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «… discutiu o desenvolvimento e as implicações político-religiosas do culto à rainha depois do depósito do seu cadáver no mosteiro de Santa Clara de Coimbra»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

 Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

«(…) A actuação das autoridades religiosas e eclesiásticas para oficializar o culto da rainha deu-se em diferentes datas: em Abril de 1516, ela foi beatificada pelo Papa Leão X; em 1556, o Papa Paulo IV ampliou o culto da rainha a todo o território português; em 1560, foi criada, em Coimbra, a Confraria da Rainha Isabel; em 1612, seu túmulo foi aberto pela primeira vez; em 1625, o Papa Urbano VIII declarou-a Santa; Rei Felipe IV, também denominado III pelos portugueses, elegeu-a Protectora do Reino; em 1677, o corpo da Rainha Santa foi transferido provisoriamente para a capela do novo mosteiro de Santa Clara, no Monte da Esperança; em 1687, o corpo da Rainha Santa foi transferido, com grande solenidade, da capela provisória para o novo convento; em 1691, a Santa foi transferida para o coro alto da Igreja; em 1747, foi publicada a bula áurea da canonização pelo Papa Bento XIV e, em 1755, a Câmara Municipal de Coimbra elegeu a rainha Santa Isabel como Padroeira da Cidade. É importante observar ainda que, o empenho das autoridades constituídas, para canonizar a rainha, contribuiu para a recolha e a preservação de muitos relatos sobre a sua vida, o que colaborou também para a revitalização e a actualização do seu mito e da sua lenda.

Se por um lado, tanto o texto do século XIV, quanto os textos dos séculos XVI e os subsequentes foram importantes para perpectuar os contornos sobre-humanos da rainha, por outro, eles contribuíram, para elevar e transformar os gestos ordinários característicos de uma mulher que pertencia à realeza e que cumpria as funções políticas do seu tempo, em gestos de uma rainha santificada ainda em vida, o que não corresponde ao período em que a rainha viveu. Nesse sentido, esses autores, ao escreverem, pintarem ou esculpirem obras sobre os feitos da rainha Isabel, potencializaram sua vida com eventos extraordinários e essencialmente sagrados, combinando suas realizações políticas em vida com sua lenda e seu mito, ambos construídos posteriormente ao seu falecimento.

Em relação a esse aspecto, as referências sobre Santa Isabel são exemplares, uma vez que, segundo os cronistas e hagiógrafos, depois do casamento, a rainha viveu entre as intrigas da corte, o ciúme das damas, as rivalidades amorosas, as acusações de adultérios que recaíam sobre sua pessoa e a do rei e, principalmente, entre sua fé e suas orações como único meio para solucionar as conturbações políticas porque passava o reino português naquela época. Essas imagens atribuídas à rainha serviram para reforçar ainda mais sua importância como modelo de mulher perfeita, contribuindo para que ela ficasse conhecida pelo povo português, entre outros atributos, como um exemplo de esposa dedicada, de mãe perfeita e uma autêntica heroína, apenas feita de amor, de perdão, de paz e de santidade. Essas imagens ganhariam novos contornos com a morte de dom Dinis, em 7 de Janeiro de 1325. Segundo os cronistas, foi durante esse período de 11 anos em estado de viuvez que a rainha Isabel desempenhou fielmente todas as acções de uma verdadeira santa, ao se recolher no mosteiro de Santa Clara e viver uma verdadeira vida franciscana, empregando todo seu tempo a serviço dos necessitados e dedicando-se aos exercícios de compaixão e de mortificações.

Porém, as referências em relação à vida da rainha e à evolução do seu culto não estão cingidas apenas ao conhecimento da hagiografia. Numa tentativa de superar essa visão, alguns estudos propuseram novas reflexões sobre essa personagem. O exemplo mais clássico é o livro de António Vasconcelos Dona Isabel de Aragão, a Rainha Santa. Publicado em dois volumes e em edição facsimilada, nos anos de 1891 e 1894, essa obra foi pioneira na tentativa de realizar uma leitura isenta do culto à rainha Santa Isabel. Nela, o autor confessaria que não seria seguro remontar seu estudo ao tempo em que ela viveu e, assim começaria por indagar sobre as primeiras manifestações culturais do espírito religioso do povo dirigidas à dona Isabel de Aragão logo após a sua morte. Foi, portanto, a partir dessa premissa que António Vasconcelos desenvolveu sua pesquisa, ou seja, discutiu o desenvolvimento e as implicações político-religiosas do culto à rainha depois do depósito do seu cadáver no mosteiro de Santa Clara de Coimbra. Uma das primeiras obras que tem por objectivo realizar uma leitura do papel político da rainha Isabel foi realizada por Maria Teresa Lobo Ávila em 1923. Apresentada como tese de licenciatura à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, esse estudo, apesar de a autora destacar alguns episódios da participação da Rainha nos assuntos políticos do reino, carecem, porém, de uma reflexão crítica sobre o significado das acções políticas e religiosas da rainha Isabel». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel,

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Apoiando-se num corpus documental de fontes primárias e secundárias formado por cartas, crónicas, bulas e testamentos reproduzidos em edições modernas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

«Apoiando-se num corpus documental de fontes primárias e secundárias formado por cartas, crónicas, bulas e testamentos reproduzidos em edições modernas e em edições originais localizadas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, e nas Bibliotecas da Universidade de Coimbra, esta tese discute a participação da Rainha Isabel de Portugal (1270-1336) nas estratégias políticas da Península Ibérica na Baixa Idade Média. A Rainha Isabel, filha do Rei Pedro III de Aragão (1285-1291), ao se casar com o Rei Português dom Dinis (1279-1325), no ano de 1282, iniciou uma importante acção diplomática como mediadora nas divergências entre o Rei português, cujo anseio era uma política de centralização da monarquia contra parte da nobreza. Esta defendia os privilégios senhoriais e era representado por dom Afonso, irmão de dom Dinis e, depois, pelo filho e futuro Rei de Portugal dom Afonso IV (1325-1357). A Rainha também se notabilizou pelas acções diplomáticas que realizou com reis e rainhas de Castela e Aragão sempre com o objectivo de promover os acordos de paz como uma alternativa aos enfrentamentos bélicos, principalmente por meio da realização de alianças matrimoniais dos filhos e dos netos entre essas mesmas casas régias. Consciente da importância do seu papel, a Rainha manteve uma intensa correspondência por meio de cartas e mensageiros de sua confiança com os reinos peninsulares e autoridades eclesiásticas. Também, como uma personalidade franciscana da Baixa Idade Média, actuou intensamente nos projectos sócio-religiosos ao promover a distribuição de esmolas e construção de albergues, orfanatos, hospitais e casas para abrigar religiosos. Como viúva, dividiu as suas acções entre o exercício religioso e a diplomacia para solucionar as divergências políticas entre Portugal, Castela e Aragão». In Resumo

«A vida da rainha Isabel, esposa do rei de Portugal dom Dinis (1279-1325) pode ser conhecida por meio de uma vasta literatura construída ao longo de muitos séculos. No entanto, grande parte dessa literatura pertence ao género hagiográfico e, como é próprio desse género literário, as acções dessa rainha, resignação diante das aventuras extraconjugais do marido, acolhimento afectuoso dos filhos bastardos do rei, atos de benevolência para com os pobres, empenho filantrópico na construção de albergues e de hospitais para leigos e religiosos, interferência providencial para estabelecer concórdias nas divergências internas do reino e nas conturbadas e delicadas relações políticas dos reinos ibéricos, entre outras, são rememoradas como atributos de uma rainha extraordinária que, muitas vezes, solucionou parte deles por meio de diversos milagres. Tais referências hagiográficas que recordam os feitos da rainha não ficaram circunscritas apenas aos relatos literários ou religiosos, pois a repercussão em torno de seus actos miraculosos alimentou também outras manifestações culturais, como a pintura e a escultura, contribuindo, para que sua imagem de santidade sobrevivesse como representação plástica na memória cristã do povo português até aos dias de hoje.

Uma das primeiras obras literárias que difundiu a figura da rainha como um ser excepcional e que, de certa maneira, continua exercendo forte influência como paradigma da santidade de Isabel é a obra intitulada Livro que fala da boa vida que fez a Raynha de Portugal, Dona Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte. De autor desconhecido, esse texto, do século XIV, escrito provavelmente em seguida à morte da rainha, mostra, além das actividades da Santa nos assuntos políticos e religiosos, a posição por ela ocupada no reino português, os momentos finais da sua vida, a jornada dramática do seu corpo de Estremoz para o Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra e, sobretudo, seus milagres. Trata-se, portanto, de um texto que fundou uma tradição literária sobre a vida da rainha Isabel ao ressaltar e perpetuar imagens supra-humanas. Inspirados principalmente nos relatos do texto hagiográfico do século XIV, diferentes autores dos séculos XVI e XVII retomaram, reproduziram e difundiram outras versões sobre a história de vida da rainha. Essa ocorrência não é mera casualidade, principalmente se se considerar que essas obras literárias foram elaboradas no contexto em que os poderes político e eclesiástico da época envidaram as primeiras iniciativas para concretizar a canonização da rainha Isabel». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

 Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel,

Contos do Antigo Testamento. Deana Barroqueiro. «A caravana era numerosa e deslocava-se lentamente para Ocidente, deixando a idade para trás e seguindo pelos caminhos familiares das antigas pastagens…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

 Os Cuidados de Abraão

«(…) E o sonho repete-se?, interrompeu o sacerdote. Muitas vezes, mais nos últimos tempos: E é sempre o mesmo? Com pequenas diferenças. O vidente meditou longamente e disse: Também no teu sonho o oráculo fala claro pela voz do deus que se denomina a si mesmo El-Chadai, o Altíssimo. O arco-íris é a ponte entre o céu e a terra, assim tu és o mediador entre El-Chadai e a tua tribo. Vais fazer uma grande viagem, não só pelo mundo mas também dentro de ti mesmo, porque a montanha é símbolo de purificação e aperfeiçoamento. O rebanho representa os teus seguidores ou todos os nascidos da tua semente, pois o cajado que o menino te entrega e aponta para Ocidente confere-te a autoridade e a dignidade de um chefe, confirmadas pela águia que indicia riqueza e poder. Curvando-se diante do suplicante, o sacerdote acrescentou com humildade: Abraão, foste abençoado pelos deuses. Vai e cumpre o teu destino! Não sejas negligente nos cuidados com a tua casa, recomendou Tare a Sarai, na despedida. - Rogarei aos deuses que te ajudem para em breve me dares um neto. Envia-me notícias por viajantes ou comerciantes que venham para Harran. Sarai prometeu fazê-lo. Então Tare dirigiu-se ao filho: A tua vida vai ser a de um pastor nómade, errando pelo mundo. Não pretendo pôr em dúvida a sabedoria dos videntes, mas nunca ninguém ouviu falar do deus El-Chadai que quer ser adorado como único e verdadeiro! Esperemos que essa ideia blasfema não faça cair sobre a tua cabeça a ira e o castigo de todos os outros deuses. Abraão não respondeu, a fim de evitar nova disputa no momento da despedida e o pai prosseguiu com as suas queixas: Preferia que Lot ficasse a viver comigo, mas não quero desobedecer aos oráculos do Zigurate e ser amaldiçoado. Se o menino do sonho é Lot, como tu dizes, e quer ir contigo, não serei eu a impedi-lo. Ide, com a minha bênção! Abraão abandonou finalmente a casa paterna, levando consigo Sarai, o sobrinho Lot, alguns parentes e amigos, assim como todos os bens que possuía e os escravos por ele adquiridos em Harran.

A caravana era numerosa e deslocava-se lentamente para Ocidente, deixando a idade para trás e seguindo pelos caminhos familiares das antigas pastagens, adiando o medo do desconhecido e de um futuro incerto. Ao anoitecer, depois de armarem as tendas do acampamento, comeram junto das fogueiras, beberam o sumo das suas uvas, mas ninguém cantou, pois todos traziam um peso no coração pela mágoa e a saudade daquilo que deixavam (e tão cedo não voltariam a ver) em troca de uma vaga promessa de um futuro melhor. Sobre as peles de carneiro que lhes serviam de leito, no espaço exíguo da tenda, Sarai exibia a sua esplêndida nudez aos olhos do marido, abrindo o corpo como um fruto suculento ao toque dos seus dedos. E Abraão sentia na curva dos seios, na concavidade macia do ventre, o arrepio da pele de Sarai sob a sua mão, respondendo com um desejo igual ao seu desejo, crescendo dentro dele como o pulsar desordenado de um coração. Beijou-lhe a pele dourada, prendendo entre os lábios os mamilos rosados, até os sentir endurecer e inchar sob a língua e vibrar de anseio como o seu próprio ventre. Quando finalmente se fundiu no corpo da mulher, vergando-a com o seu peso e a sua fúria, Sarai gritou, gemeu e suspirou, libertando sem pejo os sons de prazer que há longos anos sufocava na garganta. Durante muito tempo Abraão guiou a tribo através de terras inóspitas, por vezes desérticas, montando e desmontando as tendas do acampamento, atardando-se um pouco mais nos melhores terrenos para apascentar o gado, sem que El-Chadai lhe mostrasse por qualquer sinal a terra prometida. As promessas do deus tardavam em cumprir-se, as murmurações de descontentamento dos familiares, amigos e servos aumentavam de tom e chegavam-lhe aos ouvidos. Sarai, que andava sempre de mau humor e cansada, continuava estéril e, por fim, também ele começou a deixar-se invadir pelo desânimo e a pensar se o sonho profético não teria sido obra de qualquer demónio malévolo para o fazer cair num terrível logro.

Por isso, quando avistou as férteis terras de Canaã quase duvidou do que os seus olhos viam e cobiçou-as como jamais havia desejado uma coisa na sua vida. Animou a tribo a seguir até ao lugar dos carvalhos de More, perto da cidade de Siquém, na amena planície situada entre os montes de Ebal e Garizim. Vendo a beleza do lugar, Abraão sentiu mais do que ouviu a voz do seu Deus dizer-lhe: Darei esta terra à tua descendência e vendo como a sua gente estava exausta, a ponto de se revoltar, recusando-se a ir mais longe, disse-lhes: Rejubilai! Esta é a terra prometida por El-Chadai. Ergamos aqui um altar ao Todo-Poderoso, pois Ele nos concedeu esta terra. Todos rejubilaram e um altar foi erguido em honra do Deus único de Abraão. Nessa noite, no acampamento, depois de montarem as tendas, sacrificaram oito borregos a El-Chadai, cantaram e dançaram como há muito tempo não faziam, aspergindo-se com o sangue do holocausto e o vinho, reanimando o prazer dos sentidos nos cultos ancestrais». In Deana Barroqueiro, Contos Eróticos do Antigo Testamento, 2003, Planeta Editora, 2018, ISBN 978-989-777-143-9.

Cortesia de PanetaE/JDACT

JDACT, Deana Barroqueiro, Religião, Literatura,

domingo, 15 de maio de 2022

Deana Barroqueiro. Contos do Antigo Testamento. «Os augúrios são-te favoráveis. As volutas dos intestinos formam uma corda com poucos nós, indicando uma longa estrada que vais percorrer sem grandes obstáculos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Cuidados de Abraão

«(…) A litania terminou antes do corpo do carneiro parar de tremer, no estertor da morte e a faca de Adda-Kalla rasgou-lhe o ventre, expondo as entranhas fumegantes ao olhar sabedor do vidente Lugal-apindu que as examinou em busca de indícios e falou sem olhar para Abraão: Os augúrios são-te favoráveis. As volutas dos intestinos formam uma corda com poucos nós, indicando uma longa estrada que vais percorrer sem grandes obstáculos. Enfiou as mãos por entre as vísceras, fez os intestinos desenrolarem-se para dentro de uma bacia e prosseguiu a sua leitura dos sinais ocultos: A tua vida será extraordinariamente longa e continuará por gerações sem conta, mas o teu destino não se cumprirá em Harran. Tare soltou uma exclamação e Abraão dominou-se a muito custo para não fazer o mesmo. Olhou o rosto de Sarai, mas a mulher manteve-se impassível, embora atenta à cerimónia. Lugal-apindu remexeu nas entranhas do carneiro, extraiu o fígado, abriu-o, examinou-o atentamente e, quando falou, havia surpresa na sua voz: O fígado deste animal sacrificado em holocausto representa o mundo onde vives, mas a teia das suas linhas é emaranhada como um labirinto e o saco do fel está fora do lugar! Grande poder comanda um oráculo assim tão estranho, capaz de obscurecer a minha visão. Ginil-Marduk trouxe-lhe o modelo em barro de um fígado marcado com linhas divisórias e anotações para guiar a interpretação dos sinais obscuros. O adivinho comparou cuidadosamente os dois e concluiu: Posso dizer-te, no entanto, que estes augúrios confirmam a tua errância pelo mundo, mas não andarás só, serás seguido por muitos e terás riquezas e poder. E tudo quanto vejo. O silêncio pesou entre os assistentes, depois de ouvido este oráculo auspicioso, mas ao mesmo tempo misterioso e assustador e Abraão leu no rosto de Sarai a surpresa maravilhada de quem vem em busca de uma dádiva e recebe mais do que o seu quinhão. Lugal-apindu falou novamente: Os deuses criaram os sonhos para indicar o caminho aos homens quando eles não podem ver o futuro. Conta-nos o teu sonho para que o interpretemos. Durante a semana anterior à consulta aos videntes, Abraão pensara demoradamente no sonho e ensaiara o seu discurso com a ajuda de Sarai, escolhendo bem as palavras para o poder descrever no templo com todos os pormenores, a fim de que nada daquilo que pudesse ter significado fosse esquecido. Assim, cerrou os olhos e falou com voz segura: Vejo-me com o meu rebanho num campo a perder de vista, mas não conheço o lugar. Há um arco-íris no céu, cujo extremo toca numa montanha a Ocidente e uma águia atravessa-o num voo majestoso. Uma criança vem ter comigo e aponta com um cajado a montanha ao longe. Ouço uma voz que me diz: Eu sou El-Chadai, o Todo-Poderoso, e falo-te para que Me conheças. Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei nascer de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E todas as famílias da terra serão em ti abençoadas. Depois, o menino entrega-me o cajado e eu desperto do meu sonho». In Deana Barroqueiro, Contos Eróticos do Antigo Testamento, 2003, Planeta Editora, 2018, ISBN 978-989-777-143-9.

Cortesia de PanetaE/JDACT

JDACT, Deana Barroqueiro, Religião, Literatura,

Deana Barroqueiro. Contos do Antigo Testamento. «Os músicos silenciaram os instrumentos e os sacerdotes acercaram-se da ara do sacrifício. Lugal-apindu, o adivinho, tomou a cabeça do animal pelos cornos, puxando-a para trás...»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Cuidados de Abraão

«(…) Sentiu o desejo invadi-lo como uma onda, o coração bater acelerado e o sangue pulsar nas veias, quente como fogo, trazendo finalmente a vida e a seiva a um corpo há muito adormecido. Tomou Sarai com a força dos primeiros tempos, quando recebera no leito a virgem quase criança que o pai lhe entregara e o deslumbrara com sua beleza. Para seu espanto, ao penetrar o corpo da mulher sentiu a mesma resistência, como se o véu da virgindade se tivesse de novo cerrado e quando Sarai o recebeu dentro de si, gemendo e suspirando com a mesma intensidade da noite dos esponsais, Abraão deixou seu corpo abrir-se como um dique ao impulso das sensações e escondeu o rosto nos seios da mulher sufocando um grito de agonia. O zigurate erguia-se no meio da cidade, sobre uma enorme plataforma, com uma elevação de cerca de quatro metros, formando um átrio ou praça, com vários templos secundários e outros edifícios. Atravessando o átrio, chegava-se a uma nova plataforma, ainda mais elevada, sustentando a torre sagrada, com mais de cem metros de altura e dividida em três andares. Os dois primeiros, de forma quadrada, rasgavam-se em terraços abertos, plantados de árvores e flores que lhes davam o aspecto de jardins suspensos, de belíssimo efeito. Três lances de escadas de oitenta degraus convergiam do térreo para a porta monumental do primeiro andar e continuavam até ao último, onde se erguia o pequeno templo e por elas desfilavam as procissões de sacerdotes e sacerdotisas, nos seus trajes coloridos de festa, carregados de ofertas que iam depositar no altar do deus tutelar. Na Casa do Segredo, as ervas de cheiro ardiam nos incensários e, diante da família de Tare e de outros fiéis, os sacerdotes davam início às cerimônias do sacrifício do carneiro, entregue por Sarai no dia anterior, para lerem nas suas entranhas os augúrios do deus. O animal, de cornos untados com óleos sagrados, jazia amarrado sobre a ara, balindo de medo. Ao som das harpas, dos tamboris e das flautas dos músicos do Zigurate, os três sacerdotes depuseram no altar as oblações trazidas por Sarai e fizeram as libações aos deuses. Em seguida, ajoelharam-se diante do altar e, virando as cabeças para trás de si, lançaram um esconjuro contra os demónios e espíritos maléficos, para não prejudicarem a cerimónia com sua presença funesta. Liam em tabuinhas de argila o texto gravado na graciosa escrita cuneiforme do Templo, como uma cantilena alternada, terminando num coro a três vozes: Esconjuração: Demónios assassinos, bruxos enganadores que sujais o céu, a terra e as águas, que vos ergueis como o vento para matar os homens no deserto e secar o ventre das mulheres, Marduk, Senhor do Céu e da Terra, vos há-de perseguir com castigos terríveis para vos fazer sofrer como vós nos fazeis sofrer! Glória a Marduk, protetor dos homens!

Os músicos silenciaram os instrumentos e os sacerdotes acercaram-se da ara do sacrifício. Lugal-apindu, o adivinho, tomou a cabeça do animal pelos cornos, puxando-a para trás e expondo-lhe o pescoço revestido de sedoso pêlo branco, Ginil-Marduk, o esconjurador, segurou o vaso para recolher o sangue e Adda-Kalla, o purificador, cortou-lhe a garganta com a faca ritual. Enquanto o sangue corria, os sacerdotes prostraram-se diante da imagem do deus e iniciaram um salmo laudatório do suplicante, de modo a justificar o favor e as benesses que Marduk lhe iria conceder: Nunca Abraão ofendeu os deuses, ou foi acusado de mentir. Jamais desprezou pai e mãe ou semeou a discórdia entre pai e filho, entre o irmão e seu irmão. Marduk, concede-lhe o teu favor! Nunca Abraão vendeu animais doentes ou roubou no peso da sua carne, nem disse não em vez de sim, nem sim em vez de não. Marduk, concede-lhe o teu favor! Nunca Abraão entrou de má fé na casa do seu vizinho, não roubou nem fez correr o sangue do seu vizinho, jamais desejou a mulher do seu vizinho. Marduk, concede-lhe o teu favor! Abraão é um homem justo e piedoso Merecedor da protecção divina. Marduk, indica-lhe o caminho!» In Deana Barroqueiro, Contos Eróticos do Antigo Testamento, 2003, Planeta Editora, 2018, ISBN 978-989-777-143-9.

 Cortesia de PanetaE/JDACT

 JDACT, Deana Barroqueiro, Religião, Literatura,

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Os painéis revestem a totalidade dos panos murários, envoltos por cercaduras rectilíneas decoradas por enrolamentos de acantos…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

 Os azulejos com representações de obras de misericórdia

«(…) A igreja da Misericórdia de Olivença exibe um conjunto de representações azulejares de obras de misericórdia corporais, com evidentes diferenças de tratamento entre os painéis do sub-coro / nave e da capela-mor. Estas diferenças manifestam-se, também, ao nível iconográfico, pois há temas que se repetem nos dois espaços, indiciando a possibilidade de se estar perante programas distintos, concebidos de forma independente. No sub-coro e nave foram seleccionadas apenas quatro obras, curar os enfermos, dar de comer aos famintos, cobrir os nus e dar de beber aos que têm sede. Na capela-mor, surgem seis obras, com maior ênfase para curar os enfermos, cobrir os nus, dar de comer aos famintos e enterrar os mortos.

Em cartelas inferiores figura dar de beber aos que têm sede e dar pousada aos peregrinos e pobres. A questão dos presos e cativos ficou excluída deste programa.

Os painéis do sub-coro e nave

Os painéis revestem a totalidade dos panos murários, envoltos por cercaduras rectilíneas decoradas por enrolamentos de acantos. Na zona inferior dos painéis do sub-coro, as mísulas nas extremidades, enquadram as cartelas ladeadas por anjos, com a referência bíblica à cena representada. Na nave, as mesmas mísulas definem zonas intermédias onde figuram pelicanos, sendo a tarja inferior da cercadura interrompida por dois anjos e uma cartela com a citação bíblica, em latim. Assim, não há uma identificação directa da obra de misericórdia que figura em cada um dos painéis, mas a alusão à passagem bíblica que a inspirou contribui para tornar mais evidente o sentido da representação. Note-se a preferência clara pelas referências ao Antigo Testamento.

A disposição na igreja deste conjunto de obras parece não obedecer a critérios conhecidos, facto agravado pela inexistência de qualquer indicação sobre o seu número ou enunciado. Em todo o caso, e tomando a preposição dos textos que inspiraram outros programas do género, observa-se que a primeira obra seria a da nave do lado do Evangelho, evoluindo no sentido dos ponteiros do relógio para terminar no sub-coro, do mesmo lado. Por outro lado, existem enunciados em que a primeira obra é curar os enfermos, seguindo a mesma ordem de Olivença, também no sentido dos ponteiros do relógio, começando no sub-coro do lado do Evangelho mas saltando os cativos para dar lugar aos nus. O único texto inventariado que respeita uma leitura circular, com início no sub-coro do lado do Evangelho e término do lado oposto, é a obra de Jerónimo Ripalda, Doctrina Christiana com una exposición breve, escrita em 1591. Enfim, como se verá no final deste texto, a opção que parece ganhar mais força e consistência é a que privilegia a complementaridade entre ambos os panos murários do sub-coro e da nave, mas também do coro alto.

A primeira representação do sub-coro refere-se a curar os enfermos, e tem como mote a cura do paralítico na piscina de Betzatá. A cartela transcreve a passagem do Evangelho de São João, indicando tratar-se do versículo 7 do capítulo 5, embora, na verdade, a citação corresponda ao versículo 6: VIS SANUS FIERE Joan. Cap. 5º v 727 / Jesus, ao vê-lo prostrado e sabendo que já levava muito tempo assim, disse-lhe: Queres ficar são? O painel consegue uma síntese de grande interesse da versão de São João, ilustrando boa parte dos pormenores relatados, que diferem dos textos dos restantes três evangelistas.

A piscina de Betzatá ou Betesdá (Casa da Misericórdia) era um local frequentado por enfermos e aleijados que aí permaneciam na esperança de um milagre: um anjo deveria, de tanto em tanto tempo, agitar a água e o que submergisse primeiro ficaria curado. Estava longe de ser uma tarefa fácil para quem tinha dificuldade de locomoção, sendo sempre ultrapassados pelos mais ágeis, razão pela qual Jesus interveio a favor de um paralítico. A piscina pode estar associada, simultaneamente, ao Baptismo e à ideia de purificação pela água, do nascer de novo, neste caso para uma vida sem problemas físicos mas também espirituais: Não peques mais, para que não te suceda coisa pior (Jo 5, 14). Este episódio marca, ainda, o início da perseguição dos Judeus a Jesus, pois Este curou o paralítico a um sábado, o que era contra a lei». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento,