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sábado, 9 de janeiro de 2016

O Hipopótamo de Deus. José Tolentino Mendonça. «Na história dramática de Caim e Abel é-nos dito que o projecto ético, o projecto fraterno, não é uma imposição do sangue, pois o próprio sangue se pode voltar contra o seu sangue»

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«Quando as perguntas que trazemos valem mais do que as respostas provisórias que encontramos»
  
A Leste do Paraíso
«(…) Em relação à história de Abel e Caim, o primeiro fratricídio, convém verificar a origem etimológica dos nomes dos personagens. Abel provém do hebraico hebel, que significa sopro ou vapor; Caim deriva de qenar, que quer dizer comprar. Abel é o nómada, o transumante, o pastor; Caim é o sedentário, o agricultor, o que compra e vende, o dono da terra. Nesta história, com uma evidente configuração etiológica, temos a memória de uma transição violenta entre as sociedades transumantes e as sociedades de tipo agrário. E temos, sobretudo, a narrativa da fraternidade descrita como um imperativo ético (mesmo que violável), e não simplesmente como um dado da natureza. Na história dramática de Caim e Abel é-nos dito que o projecto ético, o projecto fraterno, não é uma imposição do sangue, pois o próprio sangue se pode voltar contra o seu sangue. Os irmãos podem até matar-se. Mas a fraternidade é uma decisão e um projecto ao alcance do Homem. É curioso o diálogo que Deus tem com Caim, no capítulo 4 do Livro do Génesis: … ao fim de algum tempo, Caim apresentou ao Senhor uma oferta dos frutos da terra; por seu lado, Abel ofereceu primogénitos do seu rebanho e as suas gorduras; o Senhor olhou com agrado para Abel e para a sua oferta, mas não olhou com agrado para Caim nem para a sua oferta; Caim ficou muito irritado e o rosto transtornou-se. O Senhor disse a Caim: … porque estás zangado e de rosto abatido? Se procederes bem, certamente voltarás a erguer o rosto; se procederes mal, o pecado deitar-se-á à tua porta e andará a espreitar-te; cuidado, pois ele tem muita inclinação para ti, mas tu deves / podes (timshel) dominá-lo.
O belíssimo romance de John Steinbeck, A Leste do Paraíso, pega nesta palavra que l)eus dirige a Caim: … timshel, tu deves / podes. O final da primeira parte do romance desenvolve uma pesquisa talmúdica sobre o sentido desta expressão. O verbo hebraico timshel é traduzido, nas Bíblias mais correntes, por tu deves, mas John Steinbeck, partindo da argumentação rabínica, propõe que se leia tu podes. E desenvolve esta ideia em algumas páginas extraordinárias. Ao Homem em confronto com o Mal, transtornado a ponto de eliminar o seu próprio irmão, Deus não diz: vou retirar-te a liberdade, vou condicionar-te para que isso não mais aconteça. Antes afirma: tu podes vencer o Mal. O Mal aparece como um desafio e, quando se leem estes textos bíblicos, nomeadamente os das origens, percebemos que há complexidade. Não somos colocados perante uma moral codificada, mas no interior dinâmico de uma moral narrativa. O Bem e o Mal não são uma inevitabilidade, mas constituem decisões éticas. E perguntamo-nos: como pode o desgostado Caim não matar Abel, se lhe dedica uma inveja mortífera, se sente o despeito, se todos os seus direitos de filho mais velho acabam por ser relativizados por uma preferência aparentemente caprichosa de Deus? Tudo lhe dá razão, é verdade, mas a razão de Caim não constitui um direito de eliminar o irmão, porque Deus lhe diz uma palavra inesperada: tu podes (timshel) dominar o mal». In José Tolentino Mendonça, O Hipopótamo de Deus, Paulinas Editora, Prior O Hipopótamo de Deus. José Tolentino Mendonça. Prior Velho, 2013, ISBN 978-989-673-325-4.

Cortesia PEditoras/JDACT

domingo, 28 de dezembro de 2014

O Hipopótamo de Deus. José Tolentino Mendonça. «Porquê pretender a todo o custo uma solução para o Mal, se o Bem é igualmente uma pergunta, e uma pergunta mais funda, vasta e silenciosa? Olha de frente tudo o que é grande»

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«Quando as perguntas que trazemos valem mais do que as respostas provisórias que encontramos»

«Um dos passos mais belos da Bíblia tem a ver com um hipopótamo. E não é propriamente um divertimento teológico, pois surge numa obra que explora muito seriamente os limites da responsabilidade humana face à experiência devastadora do Mal. Falo do Livro de Job, claro. O que primeiro nos surge ali é o protesto de Job contra o Mal que se abate inexplicavelmente sobre a sua história, protesto que se estende até Deus, já que, afinal, Ele não isenta os justos das tribulações. Mas depois vem o momento em que Deus se propõe interrogá-lo. E nesse diálogo assombroso, desenvolve-se um raciocínio que não pode ser mais desconcertante. Job só consegue pensar nas suas dores e nos porquês com os quais, inutilmente, esgrima. Deus, porém, desafia-o a olhar de frente para... um hipopótamo. Vê o hipopótamo que criei como a ti... Levanta a sua cauda como um cedro; os tendões das suas coxas estão entrelaçados. Os seus ossos são como tubos de bronze, a sua estrutura é semelhante a pranchas de ferro. É a obra-prima de Deus..., ninguém se atreve a provocá-lo.
O método de Deus neste singular encontro com Job é abrir a medida do seu olhar, rasgá-lo imensamente a tudo o que é grande, a tudo o que não tem resposta, mostrando-lhe que se o Mal é um enigma que nos cala, o Bem é um mistério ainda maior. A maravilhosa obra do Criador também não tem resposta. Porquê pretender a todo o custo uma solução para o Mal, se o Bem é igualmente uma pergunta, e uma pergunta mais funda, vasta e silenciosa? Olha de frente tudo o que é grande, é o desafio que Deus faz a Job. E, perante isto, Job responde ao Senhor: Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora viram-te meus próprios olhos, por isso, retrato-me e faço penitência no pó e na cinza. Ele tinha apenas ouvido, mas agora viu, observou a ordem maravilhosa do Criador, fixou-se na sua grandeza, reparou de frente na imensidão. Job queria desvendar a dobra do Mal e esquecia-se que é o Bem o gigantesco segredo, o impensável desígnio da Graça que nos visita».
In José Tolentino Mendonça, O Hipopótamo de Deus, Paulinas Editora, Prior O Hipopótamo de Deus. José Tolentino Mendonça. Prior Velho, 2013, ISBN 978-989-673-325-4.

Cortesia PEditoras/JDACT

sábado, 8 de novembro de 2014

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «Conhecia como aos dedos da mão o estado a que tinham chegado a instrução e a cultura no Portugal do segundo quartel do século XX, um dos períodos de maior obscurantismo vividos pelo nosso povo. Conhecia-o…»

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Uma Constante - a Cultura
«(…) Está por escrever ainda a memória que nos dê conta do que foi em toda a sua extensão o percurso da acção cultural feito por Bento Caraça ao longo de trinta anos, desde aquele distante 24 de Agosto de 1919 em que integrou os primeiros corpos gerentes da Universidade Popular Portuguesa, nesse dia eleitos, até ao último alento de vida, a partir do qual foi interrompida para sempre a publicação da Biblioteca Cosmos. De todo esse imenso labor cultural (até hoje tão pouco investigado com o pormenor que tanto merece, apesar de mais de meio século já ter passado sobre a sua morte), queremos evocar aqui, embora de relance, as fases essenciais desse percurso. Mas antes devemos sublinhar que tal labor foi levado a cabo nas condições políticas, económicas, sociais e culturais mais adversas, num tempo em que o nosso país contava com mais de 52% de cidadãos maiores de 7 anos que não sabiam ler e a cultura, à boa maneira nazi-fascista, era tratada por quantos usurpavam o poder, do topo à base do aparelho do Estado, como um luxo e coisa mais que suspeita. Num tempo em que os produtores de cultura e aqueles que procuravam difundi-la erem tidos como perigosos agitadores, a quem era imperioso vigiar os passos. Bento Caraça foi um desses (perigosos agitadores) e um dos primeiros que pôs a nu a ignomínia que o analfabetismo representava para o nosso país. Fê-lo com elevação e desassombro na sessão do MUD realizada em 30 de Novembro de 1946, no salão d’A Voz do Operário: Procuremos, portanto, no censo da população, aqueles que possuem ao menos a instrução primária ou a frequentam ainda. Esses constituem apenas 19,5% da população maior de 7 anos. Um índice mais expressivo ainda nos é dado pelo estudo do grupo da população dos maiores de 20 anos. Num total de 4 milhões e 500 mil maiores de 20 anos há apenas 630 mil que possuem instrução primária completa, ou seja uma percentagem de l4%, o que nos dá a taxa de iletrados reais para a casa dos 36%.
Conhecia como aos dedos da mão o estado a que tinham chegado a instrução e a cultura no Portugal do segundo quartel do século XX, um dos períodos de maior obscurantismo vividos pelo nosso povo. Conhecia-o, além do mais, por ter feito parte das comissões oficiais já referidas atrás, nomeadamente daquela que em 1928 foi incumbida do estudo das medidas destinadas a extinguir o analfabetismo. Nada surpreende, pois, que tão insistentemente tenha proclamado a inadiabilidade de todos para viverem o seu partido em relação a este problema crucial, ser por uma viragem total no sentido do nosso apetrechamento cultural e técnico, ou ser pelo prolongamento do abismo de ignorância e obscurantismo em que se estava fazendo mergulhar o povo português. A acção cultural realizada por Bento Caraça foi intensa e multifacetada, mas talvez não seja limitativo dividi-la em três vectores principais, ainda que correndo o risco de deixar na sombra outras intervenções, ignoradas ou ainda mal conhecidas, entre as quais o projecto de uma revista, Litoral; a edição de um suplemento de O Diabo e ainda o lançamento de uma vasta colecção, Temas. São três esses vectores principais: a Universidade Popular Portuguesa, as várias conferências que proferiu ao longo dos anos e, por último, a Biblioteca Cosmos. Na Universidade Popular Portuguesa irá ter uma intervenção relevante, sobretudo a partir de Dezembro de 1928, momento em que assumiu as funções de presidente do Conselho Administrativo. Mas a sua chegada à Universidade Popular acontecera nove anos antes, em Agosto de 1919, quando foi eleito para os primeiros corpos gerentes da instituição. Muito jovem ainda, recém-chegado ao Instituto Superior de Comércio, Caraça subiu ao modesto 1.º andar da Rua Particular à Rua Almeida e Sousa (onde a universidade Popular tinha a sua sede), pela mão do seu antigo reitor do Liceu Pedro Nunes, A. J. Sá Oliveira e de A. A. Ferreira Macedo, professor do mesmo liceu. Vogal efectivo do Conselho Administrativo, pouco se conhece, no entanto, desta primeira passagem de Bento Caraça pela vida quotidiana da UPP, nem as tarefas que teria a seu cargo, nem tão-pouco as suas intervenções nas iniciativas por ela promovidas. Dessa época apenas nos ficou a notícia de uma conferência que aí fez em 1922, Comércio e Finânças, provavelmente aquela com que iniciou o seu percurso de conferencista. Infelizmente, dela restou somente o sumário, impresso em folha solta e encontrado no seu espólio». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa, 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Pensamentos. Reflexões. Agostinho da Silva. «As liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio…»

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Liberdade. A fé dos homens é ainda na liberdade
«(…) Estão vivos noventa por cento dos sábios com que contou a Humanidade desde o início da sua História, dispõem de meios que em outras épocas nem ousariam sonhar-se; as descobertas que se fazem, incluindo as que estão ligadas às viagens espaciais, contra as quais tanta gente está, exactamente como esteve contra as portuguesas o Velho de Os Lusíadas, permitiriam já hoje um paraíso de abundância e segurança sobre o mundo, se fosse tão fácil porem os homens o seu temperamento de acordo com a sua inteligência como lhes é fácil fazer obedecer à sua inteligência as forças adormecidas do universo físico; adormecidas no adormecimento em que a Bela esperava seu Príncipe; e caminhando para a mesma íntima fusão. Todas as esperanças nos são abertas; os avanços tecnológicos estão ao nosso dispor e para o único fim em que serão úteis, para nos darem tempo livre; talvez, durante alguns séculos ainda, tempo livre para criarmos matemática ou poesia ou pintura; depois, tempo livre já mais certo, que é o de vermos a matemática ou a poesia e a pintura como existindo no mundo à volta com mais plenitude do que em nossas equações, versos e quadros, dispensando a existência dos artistas, que terão sido apenas meios de comunicação da beleza para quem ainda não podia ver directamente; e afinal, na idade melhor, sendo nós próprios matemática, poesia e pintura, vivendo arte e ciência, e, por viver, as criando; este é o tempo livre que Deus tem: vive, e o mundo é; vive o mundo, e Ele é; o qual Deus nos quer à sua imagem e semelhança, como nós o temos querido à nossa; quando as duas vontades se encontrarem, e só então, haverá Paraíso». In Educação de Portugal

As liberdades essenciais
«As liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio, ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de espírito ou a liberdade de espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma coacção de governo, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos». In Doutrina Cristã.

In Agostinho da Silva, Citações e Pensamentos, O Homem não Nasceu para Trabalhar, Nasceu para Criar, Casa das Letras, Alfragide, 2009, ISBN 978-972-46-1922-4.

Cortesia de Casa das Letras/JDACT

domingo, 5 de outubro de 2014

Pensamentos. Reflexões. Agostinho da Silva. «… na palavra ou no silêncio, mesmo nos mais embrutecidos por qualquer lado das guerras, mesmo nos mais afastados de um pensar coerente, a ideia dominante é a de que querem viver suas vidas próprias na liberdade e na paz»

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O drama do intelectual
«(…) Suscita o seu aparecimento, morrerá contente se sentir galopar por cima e para além do seu corpo uma forte, decidida e esclarecida mocidade. Não abafa nos seus concidadãos o que eles têm de bom, desenvolve, carinhoso e enérgico, as ásperas virtudes, as rijas possibilidades que os lancem com passo de vitória no caminho do futuro. Quer na gratidão uma secura espartana, para que se não possa confundir com a adulação a Pisístrato. E o seu drama começa na altura em que nele buscam mais a autoridade do que a razão». In Diário de Alcestes

O verdadeiro intelectual
Não há nenhuma vida verdadeiramente intelectual em que a polémica não seja um acidente, um desnível entre o engenho e a cultura adquirida, por um lado, e, por outro, o meio ambiente; o pensador não é, por estrutura, polemista, embora não fuja ante a polémica, nem a considere inferior; o seu domínio é no campo da paz, não entre os instrumentos de guerra; quando a batalha se oferece sabe, como o filósofo antigo, marchar com a calma e a severa repressão dos instintos que o mundo inteiro, ante a sua profissão, tem o direito de exigir; o seu dever de cidadão impõe-lhe que tome, ao ecoar da voz bárbara, a lança que defende as oliveiras sagradas e os rítmicos templos. A sua linha, porém, o fio de cumeadas por que se alongam os seus passos melhores comportam apenas uma invenção superadora, um perpétuo oferecer aos seus amigos humanos de toda a descoberta possibilidade de um caminho mais belo e mais nobre.
Vê-se como um guia e um observador de horizontes que se estendam para além dos limites do mar e dos limites do céu; a sua missão é a de pôr ao alcance de todos o que novamente contemplaram os seus olhos e de os ajudar a percorrer a estrada que abriu ou desvendou; com toda a humildade, todo o carinho que provêm de ter medido a imensa distância que ainda o separa de Deus e de ter aprofundado a tristeza e a treva em que se debatem e se amesquinham seus irmãos; inteligência e caridade não andam longe uma da outra quando são ambas verdadeiras». In Considerações

Liberdade. A fé dos homens é ainda na liberdade
«Neste tempo em que estamos, outro nome para nós devem tomar a Beleza e o Amor que Deus é, e o nome que devemos fundir numa Trindade agora plenamente vista é o de liberdade. Apesar do sistema económico que não deixa que os homens aproveitem pleno e rápido o que o génio lhes inventa, embora seja o génio em grande parte incitado a fazê-lo pelo próprio sistema económico, ou pela concorrência em que ele se baseia; apesar de vermos num mundo tão cioso de seu cristianismo que se continua a queimar comida para que os preços não desçam, e isto mesmo num Mercado Comum Europeu de que tantos tão facilmente se enamoram; apesar de homens serem conservados no desemprego, com a fome ou a humilhação do socorro estatal, apenas porque tal convém ao lucro; apesar de que noutra metade do mundo a saída do subdesenvolvimento se esteja processando em regimes que não põem nos meios que empregam a concordância com os fins, isto é, que são repressivos quando têm por ideal a total abolição de autocracias; apesar de se estar caminhando, mesmo nos países que mais livres pareciam, para formas de repressão em que o homem se esmaga; apesar do pouquíssimo respeito que se demonstra pelos direitos do indivíduo ou das nações; apesar de toda a noite que afigura estar descendo sobre o mundo; a fé dos homens é ainda na liberdade, a pressão sobre a economia é ainda a da liberdade, a limitação aos governos, tão predispostos ao abuso, é ainda a da liberdade; e, na palavra ou no silêncio, mesmo nos mais embrutecidos por qualquer lado das guerras, mesmo nos mais afastados de um pensar coerente, a ideia dominante é a de que querem viver suas vidas próprias na liberdade e na paz». In Agostinho da Silva, Citações e Pensamentos, O Homem não Nasceu para Trabalhar, Nasceu para Criar, Casa das Letras, Alfragide, 2009, ISBN 978-972-46-1922-4.

Cortesia de Casa das Letras/JDACT

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Agostinho da Silva. Pensamentos. Reflexões. «… o saber é puramente exterior e muito mais fácil de adquirir do que em geral se supõe. O político que se apresenta com as minhas ideias políticas, o filósofo que se apresenta com as minhas ideias filosóficas (palavras de Alcestes), o pedagogo que se apresenta com as minhas ideias pedagógicas»

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O homem de ideias
«Não é lícito dizer que tem ideias aquele que as foi buscar a outro, que envergou um sistema já pronto, que não o construiu ele mesmo a pouco e pouco, à medida que se ia alargando e aprofundando a sua visão do mundo; para ter ideias é necessário um trabalho de autoformação, de modelação contínua da alma, uma assimilação que não cessa de tudo o que uma determinada personalidade encontra de assimilável no que a cerca, ou passado ou presente; a ideia surge da vida própria e não da vida dos outros; o homem que tem individualidade (é muito difícil ser indivíduo), ou a busca, pode inserir no seu pensamento fragmentos de pensamento alheio, mas apenas insere aqueles que, como algarismos num número, mudam de valor conforme a posição; inventa uma coluna vertebral que só a ele pertence e caracteriza, depois procura o que se lhe pode adaptar sem desarmonia nem contradição.
Faz como o caracol que se não instala na concha de outro caracol; fabrica-a e aumenta-a ao mesmo ritmo que se fabrica e aumenta o corpo que a enche; os eremitas são bichos traiçoeiros. Aprender ideias não tem valor senão quando nos serve para formar ideias; se apenas as queremos usar não merecemos nem a confiança nem a consideração de ninguém; o saber é puramente exterior e muito mais fácil de adquirir do que em geral se supõe. O político que se apresenta com as minhas ideias políticas, o filósofo que se apresenta com as minhas ideias filosóficas (palavras de Alcestes), o pedagogo que se apresenta com as minhas ideias pedagógicas, mas que reconheço não terem nem a minha política, nem a minha filosofia, nem a minha pedagogia, não têm, na verdade, as mesmas ideias; usam-nas somente; são como actores a quem tivesse emprestado os meus fatos e que jamais confundirei comigo; decerto não subirei ao palco para lhes entregar o meu país, ou a direcção da minha vida, ou a educação de um moço; posso ainda admirá-los se representarem bem: mas sei o significado primitivo de hipócrita». In Glossas

O drama do intelectual
«O intelectual, aquele que representa na Humanidade o que ela tem de realmente humano, gosta mais de quem dele se afasta do que de quem segue sem condições, disposto a transformar a doutrina que ouve numa ortodoxia opressora; como se sente diminuído nos ambientes de serralho, anseia pelo que lhe ofereça ocasião de jogo e se constitua adversário. O campo em frente da sua tenda está aberto a todos os campeões amigos de justar e quebrar lanças». In Agostinho da Silva, Citações e Pensamentos, O Homem não Nasceu para Trabalhar, Nasceu para Criar, Casa das Letras, Alfragide, 2009, ISBN 978-972-46-1922-4.

Cortesia de Casa das Letras/JDACT

domingo, 22 de dezembro de 2013

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «E nessa ponte de passagem chocam-se todas as correntes, coexistem todas as contradições, fazendo dela aparentemente uma feira de desvarios e, na realidade, um formidável laboratório de vida»

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«(…) Se nos recordarmos da afirmação tão firme por si feita um ano atrás, precisamente no dia 11 de Novembro de 1932 e no semanário Liberdade, de que nos momentos então vividos era a hora de falar claro e de cada um escolher a sua posição, sem esforço se verá que ele não só havia escolhido há muito o seu lugar na contenda, como também não perdera tempo a passar das palavras à acção. Certo de que a liberdade, a ciência e a cultura não sobrevivem nem se desenvolvem sob o império da guerra, corajosamente tomou o seu posto na barricada. O Globo surgiu num dos momentos mais dramáticos da História europeia e do nosso país, quando Hitler já chegara ao poder e tinha encenado a grande farsa do incêndio do Reichstag, acelerando a descida aos infernos, de que nos fala Bento Caraça. Na mesma altura, em Portugal, o fascismo salazarista consolidava o seu domínio, plebiscitava fraudulentamente uma nova constituição política e intensificava a repressão sobre o movimento operário e sindical, que a breve trecho iria destroçar com a promulgação do Estatuto do Trabalho Nacional e a fascização dos sindicatos.
É conhecido o texto publicado na última página do primeiro número do jornal, a sua declaração de princípios, a nosso ver saída da pena de Bento Caraça. O que até agora se ignorava é o texto intitulado Linha Geral, encontrado no espólio. Foi certamente o documento original definidor da linha de orientação aprovada pelo colectivo do jornal. Por razões que uma simples leitura torna óbvias, jamais foi divulgado, muito embora a declaração de princípios que foi publicada se tenha inspirado no texto Linha Geral, depois de o expurgar, claro está, das inconveniências que a censura veria com maus olhos e de lhe ter aprimorado a forma. Ao evocar-se a participação de Bento Caraça no amplo movimento internacional contra a guerra e o fascismo na Europa, não é possível deixar no esquecimento a conferência A Cultura Integral do IndivíduoProblema Central do Nosso Tempo, um dos marcos mais significativos do seu envolvimento nessa luta. Proferida em Maio de 1933, na Universidade Popular Portuguesa, a convite da novel União Cultural Mocidade Livre, a conferência antecedeu em alguns meses o lançamento do Globo, sendo proferida perante uma assistência predominantemente juvenil, perturbada mas ansiosa por compreender o curso inquietante dos acontecimentos políticos, económicos e sociais que sacudiam o mundo dos seus dias. Perante esses jovens, numa análise clara e objectiva, Bento Caraça traçou as linhas gerais da evolução do mundo ocidental nos últimos tempos, a matriz dos problemas e das inquietações então vividas, sublinhando que o que o mundo for amanhã, é o esforço de todos nós que o determinará. Há que resolver os problemas que estão postos à nossa geração. Para tal, era indispensável, antes de tudo, conhecer quais são esses problemas, quais as soluções que importa dar-lhes, saber donde vimos, onde estamos, para onde vamos. E mais adiante alertou: O que estamos actualmente vivendo e sofrendo não é apenas uma borbulhagem fugaz, destinada a passar como tantas coisas passam, sem deixar sinal; é, muito pelo contrário, uma época de transição, uma ponte de passagem entre aquilo que desaparece e o que vai surgir. E nessa ponte de passagem chocam-se todas as correntes, coexistem todas as contradições, fazendo dela aparentemente uma feira de desvarios e, na realidade, um formidável laboratório de vida.
A conferência, uma análise invulgarmente lúcida sobre os dias tormentosos da década de 30, representou para os jovens que então a escutaram uma mensagem de estímulo e de esperança. E não é muita ousadia admitir que essa mensagem permanece viva e actual, em muitas das suas páginas». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa, 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

sábado, 4 de maio de 2013

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «O aparecimento de o Globo outra coisa não foi senão o prosseguimento da caminhada que há muito vinha fazendo, uma nova arma que empunhou em defesa da cultura e da liberdade»

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«Caraça publicou no semanário Liberdade o artigo A Luta contra a Guerra, onde afirma a dado passo:
  • Existem, sem dúvida, núcleos apreciáveis de homens firmes, de homens de boa vontade, que, na luta contra a guerra, põem o melhor da sua inteligência e da sua actividade, o recente congresso de Amsterdam é disso uma prova bem patente mas, infelizmente, a maioria, a grande maioria dos intelectuais apresta-se para uma nova renegação do espírito. Mais adiante, a concluir o artigo, veio o aviso e a profissão de fé. Que todos se apercebam bem disto no momento que passa, a trincheira da luta pela humanidade é a trincheira da luta contra a guerra. É a hora de falar claro e de cada um escolher a sua posição. A minha está escolhida há muito tempo.
Uma outra das acções não clandestinas que empreendeu contra a guerra e contra o fascismo, que na Europa e em Portugal já iniciara o seu monstruoso percurso de alguns anos, foi certamente a publicação do Globo, o quinzenário de que foi co-director com José Rodrigues Miguéis. De vida efémera, o primeiro número veio a público em 11 de Novembro de 1933, tomando o lugar que o seu homónimo, o semanário O Globo, abandonara algum tempo atrás, suspensão motivada, ao que parece, por dificuldades económicas. Propriedade da Sociedade Cooperativa Editorial Globo, ainda em organização, o periódico tinha a sua sede em Lisboa, na Praça dos Restauradores. Indicava como redactor-principal M. Ramos Cunha e, como editor, um nome igualmente pouco conhecido por nós, M. Luiz Rodrigues. Projectado, à partida, para sair todas as semanas, tal propósito jamais foi concretizado, e o jornal acabou com o segundo número às mãos da censura.
Não terá sido fortuita a escolha do dia 11 de Novembro para a saída do primeiro número de o Globo, 11 de Novembro foi data da assinatura do Armistício da Primeira Guerra, e o seu aparecimento neste dia decerto quis sublinhar em público as preocupações maiores que norteavam o grupo do Globo, os perigos da guerra e do fascismo. De tal modo as duas questões avultavam entre as preocupações dos responsáveis do periódico que toda a primeira página do número inicial lhes foi consagrada, publicando o editorial Duas Datas, e um sugestivo desenho do artista Bernardo Marques. Neste desenho, um ilusionista bem adornado de medalhas com a cruz suástica e postado em frente a um cartaz anunciador do Circo Europa, faz voar de uma cartola duas solitárias pombas, enquanto com a outra mão exibe uma segunda cartola pejada de armas de guerra…
No editorial, que se admite ser do seu punho, Bento Caraça põe a nu a situação internacional existente, dominada pelos interesses imperialistas e pelos monopólios:
  • Vivemos, neste triste fim de 1933, as horas amargas de febre e de incerteza que precedem os grandes conflitos; prepara-se um novo grande crime contra a humanidade. Para que esse crime seja possível, são postos em acção todos os meios, corrida desenfreada aos armamentos, preparação do ambiente moral pela excitação dos antagonismos de raças, a mentira e o ódio postos ao serviço dos fabricantes de canhões.
O aparecimento de o Globo outra coisa não foi senão o prosseguimento da caminhada que há muito vinha fazendo, uma nova arma que empunhou em defesa da cultura e da liberdade». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa, 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «Intelectual lúcido e atento aos problemas do mundo e do país, profundamente fiel às suas origens, conhecia bem a grande tarefa que está posta, com toda a sua simplicidade crua, à nossa geração. Despertar»

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«Intentava, assim, levar de vencida um atraso de várias décadas e o tradicionalismo reinante, no Estado e no próprio corpo docente universitário. De todo esse labor, realizado de mãos dadas com outros matemáticos e investigadores, de Lisboa e do Porto, viriam a nascer, sucessivamente, diversas instituições, o Núcleo de Matemática, Física e Química (1935), o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia (1938) e, em seguida, a Sociedade Portuguesa de Matemática (1940). Igualmente, foram lançadas algumas publicações científicas, entre elas ocupando lugar de relevo a Gazeta de Matemática, surgida em 1940. Oito anos mais tarde, já gravemente doente, Bento Caraça ainda pôde impulsionar e colaborar no lançamento da Revista de Economia, encabeçada por um numeroso grupo de investigadores, muitos deles seus antigos discípulos.
A actuação inovadora do professor e do pedagogo, a actividade pioneira do cientista e, ainda mais, a lucidez e a determinação da intervenção política de Bento Caraça de há muito constituíam para Salazar e o seu regime um pesadelo de todas as horas. Por tudo isto, em Outubro de 1946, e sob o pretexto da assinatura e divulgação pública do documento O MUD perante a Admissão de Portugal na ONU, o ditador não teve pejo em demiti-lo, assim como a Mário Azevedo Gomes, de professor do seu Instituto, primeiro acto da monstruosa vaga de demissões que, em Junho do ano seguinte, iria decapitar a nossa Universidade de um grande número dos seus melhores quadros.

Em Luta Contra a Guerra e o Fascismo na Europa
As preocupações intelectuais de Bento Caraça não podiam, no entanto, ter por confins as salas de aula do edifício da Rua do Quelhas, nem tão-pouco se esgotavam nas acções de investigação levadas a cabo no âmbito do Movimento Matemático, do CEMAE e da Gazeta de Matemática ou nas tarefas de presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática. Intelectual lúcido e atento aos problemas do mundo e do país, profundamente fiel às suas origens, Bento Caraça conhecia bem a grande tarefa que está posta, com toda a sua simplicidade crua, à nossa geraçãodespertar a alma colectiva das massas. Sabia também, como afirmou mais adiante na mesma conferência, que precisamos para não trair a nossa missão, de nos forjarmos personalidades íntegras, de analisarmos o nosso tempo e de actuar como homens dele.
E sabia, igualmente, que as frentes de luta pela cultura, pelo ensino, pela ciência, não podem ser dissociadas das frentes de luta económica, social e política, todas se integrando na frente mais ampla e abrangente da luta pela transformação da sociedade. Os primeiros passos desta caminhada terão sido dados, talvez, à volta de 1928-29. Existe no seu espólio um testemunho de muito interesse, as duas cartas que dirigiu a F. Desphelippon, membro do conselho de administração do semanário Monde, de tendência marxista e dirigido pelo escritor comunista Henry Barbusse. Bento Caraça não era, e as duas cartas demonstram-no bem, um simples leitor e assinante do periódico. Com efeito, respondendo ao apelo do Monde, enuncia detalhadamente na primeira carta, de 18/9/1929, a sua opinião sobre as secções que o semanário deveria ter, quais os temas principais que deveria tratar regularmente, entre eles, sublinhando a necessidade de uma ou mais páginas de actualidade, uma página de vulgarização de doutrinas políticas e sociais e, por último, uma página de informação económica, política e social sobre a URSS.
Na segunda carta, de 16/10/1930, depois de ter anunciado a projectada criação de um núcleo de Amigos do Monde, Caraça traça um quadro esclarecedor das preocupações que em Portugal também existiam à face dos preparativos de uma nova guerra, assim como da necessidade igualmente sentida de organizar o movimento de massas que a ela se opusesse, um movimento que apenas esboçava os primeiros passos tímidos, como a carta deixa entrever:
  • Ao mesmo tempo gostaria de ter indicações sobre organizações como a Liga Anti-Imperialista, a Liga Internacional contra o serviço militar, que acaba de ser criada, etc. Aqui, a juventude radicaliza-se e há muita gente que desejaria realizar qualquer acção internacional, mas está desorientada, o divórcio entre os jovens e os velhos é completo; estes dormem sobre recordações antigas e aqueles despertam mas sem saber ao certo, creio eu, o que pretendem. O momento é único para uma acção séria e vós podeis ajudar-nos nessa obra.
Dois anos mais tarde, em Novembro de 1932, seguro e determinado, toma posição pública contra as ameaças de guerra que dia a dia se adensavam sobre a Europa. Admirador de Romain Rolland (dos seus ideais, da sua obra e dos seus apelos contra a guerra e contra o fascismo) e paladino das recomendações do Congresso Internacional contra a Guerra, organização pela Frente Mundial contra a Guerra e realizado em Amesterdão em Agosto de 1932, Caraça publicou no semanário Liberdade o artigo A Luta contra a Guerra». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa, 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «… labor no campo da investigação matemática, ao nível do impulso e do persistente esforço de criação de instituições e de instrumentos de trabalho científico para o desenvolvimento da ciência matemática em Portugal»

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«Não foi fácil o caminho que o trouxe do monte alentejano até à cátedra do Instituto Superior de Comércio (mais tarde Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, actualmente, Instituto Superior de Economia e Gestão). A morte da protectora, D. Jerónima, a proprietária da Herdade de Casa Branca, quando estava prestes a concluir o curso liceal, impuseram-lhe para sobreviver e prosseguir os estudos, no momento em que a mesada começou a rarear e depois se extinguiu por completo, o redobrar das explicações que dava. Foi no liceu, nas vésperas de completar dezasseis anos e quando frequentava o sexto ano do curso, que Bento Caraça terá escrito as suas primeiras prosas e alguns poemas, estes últimos destinados a uns cancioneiros que circulavam entre os alunos. Manuscritos, ao que parece, é o próprio Caraça que a eles faz referência, não encontrámos até agora qualquer rasto da sua existência, nem na biblioteca do Liceu de Pedro Nunes, nem no espólio de Bento Caraça. Encontrámos, isso sim, três textos dessa época, um, sem data, o poema o Fragmentos de Um Drama Inédito; o segundo, igualmente sem data, mas que é possível determinar ter sido escrito por volta de Fevereiro de 1917, Crítica sobre a novela Mariana; e, o último, um prefácio para a mesma novela, Mariana, escrito em 17/12/1918.
Os dois últimos textos comentam, numa escrita escorreita e de apurado sentido crítico, a referida novela, que fora escrita por Luís Ernâni Dias Amado, já nesse tempo amigo chegado de Caraça e seu condiscípulo. Concluído o curso liceal em 1918, com a média final de 19 valores, logo se matriculou no antigo Instituto Superior de Comércio. Seguro de si, fez questão de inscrever, resoluta e profeticamente, logo na primeira folha do seu caderno escolar: Hei-de ser o primeiro aluno do meu curso. Estava-se em 28 de Fevereiro de 1919, e Bento Caraça ainda não tinha completado dezoito anos de idade. Mas, como sempre foi um homem de palavra não tardou que, ainda nesse ano, em 1 de Novembro, fosse nomeado segundo assistente temporário do Instituto. Terminado o curso com elevadas classificações, cumprindo, assim, o que a si próprio prometera, logo foi nomeado, em 1924, primeiro assistente temporário, cargo que, três anos mais tarde, passou a definitivo. Foi acerca desta última nomeação e em seu abono que o professor catedrático Aureliano Lopes Mira Fernandes, matemático de grande nomeada e seu mestre, em carta dirigida ao Conselho Escolar do Instituto, teceu considerações que merece a pena reproduzir aqui, muito embora parcialmente:
  • O Senhor Bento Caraça exerceu as funções de segundo assistente das cadeiras de Matemática, desde o seu terceiro ano de aluno desta Escola, com tal proficiência, desvelo pedagógico e nítida compreensão da sua ingrata missão de aluno e mestre, que nunca ao de leve colidiram os seus deveres de camaradagem escolar com as suas obrigações docentes.
E logo adiante sublinhou:
  • Saber, aptidão docente, conhecimento claro das preferências mentais dos alunos e dos processos e incentivos com que mais facilmente se consegue da sua atenção e do seu esforço a assimilação da verdade; imperturbável serenidade e prudência no julgamento, sem desmandos de exigência, mas também sem complacentes tibiezas; inexcedível zelo e amor profundo à difícil e tantas vezes inglória profissão de ensinar; tais são, Senhor Presidente, as qualidades que fazem do Senhor Caraça um dos melhores instrumentos da dificultosa tarefa que a esta Escola incumbe na nobilitação e progresso do ensino superior em Portugal.
Foi longa a citação. Mas a verdade é que esta carta constitui, a nosso ver, o testemunho mais fiel e mais esclarecedor do que realmente foi, desde a primeira hora, a vida docente do matemático e pedagogo Bento de Jesus Caraça. O reconhecimento público das suas invulgares capacidades de professor, os seus méritos de pedagogo bem depressa o levaram à cátedra universitária, em Dezembro de 1929, com 28 anos. E levaram-no também, ainda antes de ser catedrático, a ter assento em três comissões nomeadas pelo Governo para, respectivamente, estudar as medidas tendentes a conseguir-se a extinção do analfabetismo, fazer inquérito preparatório da reforma do ensino secundário, definindo o seu questionário e elaborando as respectivas conclusões e, a última comissão, encarregada de elaborar um trabalho sobre as modificações a introduzir no ensino médio industrial e comercial.
Não menos assinalável foi o seu labor no campo da investigação matemática, talvez não propriamente no plano teórico, como apontam alguns dos seus pares, mas antes ao nível do impulso e do persistente esforço de criação de instituições e de instrumentos de trabalho científico indispensáveis para o desenvolvimento da ciência matemática em Portugal». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa, 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

sábado, 8 de dezembro de 2012

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «… o pequeno Bento vivesse o primeiro dos acontecimentos marcantes da sua vida, a chegada do primeiro livro, trazido pela mão de José Percheiro, um trabalhador migrante sem eira nem beira, em busca de trabalho»

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Semeador de Cultura e Cidadania
«Mas o que já é conhecido acerca da sua vida , da intervenção que teve em áreas essenciais da sociedade portuguesa do seu tempo, no ensino, na cultura, na vida cívica, permite avaliar a dimensão e a qualidade dessa intervenção, quanto ela foi determinante em tantos casos. Levada a cabo nas condições mais adversas, a sua obra pedagógica, cultural e cívica é certamente uma das mais fecundas de todas as que foram empreendidas no nosso país ao longo do século que findou.
Por tudo isto, é bem compreensível que de Bento Caraça se diga, com inteira justiça e servindo-nos das suas próprias palavras, que ele foi um daqueles intelectuais que se conservaram sempre fiéis à sua própria classe e aos seus ideais de emancipação humana e não desertaram ingressando no tampo contrário.

Do Monte Alentejano à Cátedra Universitária
Alentejano, de Vila Viçosa, filho de humildes camponeses alentejanos sem terra, Bento de Jesus Caraça nasceu a 18 de Abril de 1901, numa dependência modesta do Convento das Chagas, utilizada pela Casa de Bragança para alojamento dos seus serviçais. Dois meses mais tarde, seu pai foi contratado como feitor por Raul Albuquerque, proprietário da herdade de Casa Branca, na freguesia de Montoito.
Não foi muito longa a permanência no monte. Mas durou o tempo suficiente para que o pequeno Bento vivesse o primeiro dos acontecimentos marcantes da sua vida, a chegada do primeiro livro, trazido pela mão de José Percheiro, um trabalhador migrante sem eira nem beira, em busca de trabalho. Admitido para as lides da lavoira, por ali se conservou por algum tempo, até que um dia mostrou ao seu pequeno companheiro das escassas horas de folga um livro de leitura escolar que trazia no alforge.
Maravilhado, o pequeno Bento logo na primeira lição ficou conhecendo o abecedário e, pouco tempo depois, já lia correntemente todo o livro, deixando boquiaberto o improvisado mestre-escola. Camponês errante, José Percheiro bem depressa meteu pés ao caminho em demanda de outros lugares. Mas não o fez sem antes deixar nas mãos de Bento o livro maravilhoso e de, com insistência, aconselhar a mãe a não deixar de o mandar à escola, pois ele ‘não era uma criança como as outras’. Bento Caraça não terá perdido para sempre o rasto deste seu primeiro "mestre":
  • existe no seu espólio uma carta de José Percheiro (então hospitalizado e inválido), com a data de Dezembro de 1932 e enviada de Alcobaça, na qual alude e agradece o apoio que Bento Caraça lhe dava.
Surpreendida e fascinada com as invulgares capacidades intelectuais reveladas pelo filho do seu feitor, a mulher do proprietário, D. Jerónima, não tardou em sugerir a seus pais assumir o encargo do seu sustento e educação. Bento deixou, assim, aos cinco anos, o seu monte, passando a viver em Vila Viçosa, num quarto que D. Jerónima lhe destinou na sua casa. A partir deste momento e até à chegada ao Liceu Normal de Pedro Nunes, em Lisboa, não há outra memória do percurso feito por Bento Caraça, a não ser aquele testemunho em boa hora deixado pelo seu amigo e condiscípulo na escola primária de Vila Viçosa, António Lobo Vilela. Pouco conhecido e raramente citado, é, no entanto, um documento valioso que vem trazer luz sobre essa fase tão ignorada de Bento Caraça. Vale a pena recordá-lo:
  • Fui condiscípulo de Bento Caraça na escola primária cuja professora era minha prima, D. Ana da Silva Reis, senhora bondosa mas severa que, seguindo os preceitos da pedagogia da época, despertava as inteligências preguiçosas com ruidosas séries de palmatoadas, e deixava as pequeninas mãos inchadas e entorpecidas. O Bento Caraça, aluno excepcional, deve ter sido um dos raros discípulos de D. Ana que nunca experimentou a humilhação e a dureza da palmatória. Naquele tempo, a tabuada era recitada em coro, numa cantilena que acabava por ficar no ouvido de todos, mas, antes disso, era preciso que alguém a conhecesse já para dar as entradas: sete vezes oito, cinquenta e seis; sete vezes nove... O Caraça, com a sua voz suave e firme, era já, nessa época, um admirável chefe de naipe”.
Da passagem pelo Liceu de Sá da Bandeira, em Santarém, que frequentou durante três anos, apenas sobreviveu o certificado do júri de exame do terceiro ano». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa (1.38.010), 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «… cientista e pedagogo de renome internacional; fomentador e dirigente de instituições e periódicos científicos e culturais; conferencista e autor de ensaios inesquecíveis. … repartiu sabiamente e com quotidiano empenho, a sua vida, e tão breve ela foi»

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Semeador de Cultura e Cidadania
A figura de Bento de Jesus Caraça, o seu magistério universitário e a sua actividade científica, o seu labor cultural e a sua constante intervenção cívica e política, marcou profundamente a vida portuguesa contemporânea, desde os últimos anos da década de 20 até aos nossos dias.
Professor catedrático da Universidade Técnica de Lisboa, cientista e pedagogo de renome internacional; fomentador e dirigente de instituições e periódicos científicos e culturais; conferencista e autor de ensaios inesquecíveis; militante comunista e impulsionador de movimentos unitários de resistência ao fascismo, clandestinos e legais, por tudo isto repartiu, sabiamente e com quotidiano empenho, a sua vida, e tão breve ela foi.
Detentor de excepcionais qualidades intelectuais, possuidor de uma vasta e sólida cultura científica, histórica, filosófica e artística e, além disso, abnegado obreiro apetrechado com as ferramentas do materialismo dialéctico e do materialismo histórico, Bento Caraça repudiou com firmeza o isolamento na "torre de marfim" do sábio e do pensador. Por isto o vemos, desde muito cedo, na primeira linha daqueles que, correndo os mais graves riscos, pela acção clandestina ou pela luta a peito descoberto, fizeram frente à repressão e ao obscurantismo do Estado Novo.
Homem de diálogo e de consensos, sem esquecer jamais os princípios essenciais que o norteavam, teve sempre, pela vida adiante, a preocupação de agitar ideias, convicto como estava e fez questão de sublinhar, ao terminar a conferência A Escola Única, que agitar ideias, a despeito do que dizem certos escribas abafadores de cultura, agitar ideias é muito mais do que viver, porque é ajudar a construir a vida.
Foram anos tormentosos, os da primeira metade do século passado, e foi nesses anos que Bento Caraça viveu, sendo contemporâneo, portanto, no plano nacional, do derrube da monarquia e das esperanças nas promessas trazidas pela Primeira República, bem cedo perdidas; da vida perturbada desta e da chegada da ditadura militar, que a deitou por terra; do malogro das várias tentativas revolucionárias, em especial as de 1927 e 1931, contra essa mesma ditadura militar; da ascensão do Estado Novo e da formação e desenvolvimento do movimento antifascista em Portugal; da fascização dos sindicatos e da greve insurreccional de 1934, do anseio a breve trecho frustrado de derrubar o fascismo, logo que a Segunda Guerra Mundial terminou.
Do mesmo modo, foi contemporâneo, a nível internacional, da Primeira Guerra Mundial e da revolução socialista de Outubro; da devastadora crise económica mundial de finais dos anos 20 e começos da década de 30; da tomada do poder pelo fascismo e pelo nazismo em vários países europeus; da implantação da república em Espanha e das experiências exaltantes da Frente Popular, neste país e em França. Foi contemporâneo, ainda, da Guerra Civil espanhola e da Guerra Mundial de 1939-1945 e, por fim, da esperança renascida, com a vitória das forças democráticas do mundo sobre o nazi-fascismo.
Contemporâneo de tantos e de tais acontecimentos, dessa época de transição, uma ponte de passagem entre aquilo que desaparece e o que vai surgir (as palavras são suas), em nada surpreende, ao percorrermos as páginas da história portuguesa desses anos dolorosos mas de esperança, nelas encontrarmos a cada passo a presença moral e a presença física de Bento Caraça:
  • a sua abnegada intervenção nas grandes batalhas travadas pelo povo português ao longo dos anos contra o obscurantismo e pela cultura,
  • a sua participação na luta contra a guerra e o fascismo,
  • o seu empenho de todas as horas nos movimentos cívicos que pugnavam pela reconquista das liberdades.
Em suma:
  • a sua participação no despertar a alma colectiva das massas, que por demais sabia ser a grande tarefa que está posta, com toda a sua simplicidade crua, à nossas geração, como reconheceu perante os jovens da União Cultural Mocidade Livre que o escutavam na sede da Universidade Popular em 25 / 5 / 1933, durante a inesquecível conferência que aí realizou.
Ainda não surgiu a biografia de Bento Caraça tão ansiosamente esperada, o seu retrato em corpo inteiro. Mas o que já é conhecido acerca da sua vida , da intervenção que teve em áreas essenciais da sociedade portuguesa do seu tempo, no ensino, na cultura, na vida cívica, permite avaliar a dimensão e a qualidade dessa intervenção, quanto ela foi determinante em tantos casos». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa (1.38.010), 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Exposição Bibliográfica. BNP. José-Augusto França, 1949-2012. «A obra plural do historiador e crítico de arte, ensaísta, sociólogo, ficcionista, criador literário, também notabilizada pela sua vocação de emérito divulgador pedagógico, definiu-lhe um largo percurso de intervenção cultural e cívica»


Cortesia da bnp e jdact

Até ao pf dia 5 de Janeiro de 2013. Sala de Referência.

«No ano em que José-Augusto França completa as nove décadas de vida, a Biblioteca Nacional de Portugal honra-se em homenagear o autor que, desde a juventude e ao longo de toda a sua vida tem desenvolvido, nesta Instituição, grande parte de uma investigação internacionalmente reconhecida. A obra plural do historiador e crítico de arte, ensaísta, sociólogo, ficcionista, criador literário, também notabilizada pela sua vocação de emérito divulgador pedagógico, definiu-lhe um largo percurso de intervenção cultural e cívica que marcou várias gerações – nomeadamente as que puderam fruir do ensino universitário por ele ministrado a partir duma história de arte redimensionada pelas suas pesquisas, e lhe granjeou o reconhecimento pátrio e universal.
Razões para que esta mostra seja uma iniciativa que se associa à homenagem ao mesmo autor promovida pela Associação Portuguesa dos Historiadores da arte no IV Congresso de História da Arte Portuguesa e que decorrerá de 21 a 24 de Novembro na Fundação Calouste Gulbenkian. Com catálogo publicado em co-edição pela BNP e Imprensa Nacional Casa da Moeda, a mostra será complementada por um Encontro com o homenageado numa sessão que se realiza na BNP a 27 de Novembro, às 18h00, com a participação de Guilherme d’Oliveira Martins, Miguel Real e Ernesto Rodrigues.
No post-scriptum do catálogo, José-Augusto França exposição bibliográfica, 1949-2012 - pode ler-se pela mão de quem lhe deu origem:
  • “… De qualquer modo, acha o autor que noventa anos de idade e setenta e cinco de escrita continuada bastam-lhe para se retirar da vida pública assim preenchida, com mais várias práticas profissionalmente correlativas, em sua biografia. Aqui, a presente exposição bibliográfica, com o paralelo IVº Congresso Internacional da Associação Portuguesa de História da Arte marcam uma despedida que o autor muito sinceramente agradece. Sai ele, ao mesmo tempo, de Academias e outras instituições a que pertence e deixa práticas a que ainda se dá – mas voltará à Biblioteca Nacional para satisfazer curiosidades … Expõem-se aqui noventa títulos, número coincidente mas perfeitamente ocasional. Autor mediano que se considera, com admiração pelos que lhe estiveram acima, desde Fernão Lopes até hoje, ele acha que metade das obras terá valido a pena escrever, com o trabalho, o tempo e o esforço despendidos; e dez por cento delas terá valido e valerá a pena ler, pelo que de reflexão e informação inédita trazem ao leitor.”
In Biblioteca Nacional de Portugal, Exposição.


Cortesia da BNP/JDACT

domingo, 3 de abril de 2011

Ângelo de Sousa: O Artista Plástico. «Um dos maiores nomes da arte contemporânea. Apresentador do minimalismo em Portugal nos anos 60»

(1938-2011)
Lourenço Marques, Maputo, Moçambique
Cortesia de akademiacomunicamos

Ângelo César Cardoso de Sousa, um artista escultor, pintor, pedagogo e desenhador português. Conhecido por experimentar continuamente novas técnicas nas suas obras, foi visto como um estudioso da cor e da luz que explorou o minimalismo de uma forma radical.

Foi viver para a Invicta em 1955 matriculando-se na Escola de Belas-Artes, onde se licenciou em pintura com a nota máxima de 20 valores, o que o levou a fazer parte, com Armando Alves, Jorge Pinheiro e José Rodrigues, do grupo denominado «Os Quatro Vintes».


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Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e do British Council na State School of Art.
Cortesia de Akademia/JDACT

quinta-feira, 10 de junho de 2010

João de Deus: O método da Cartilha Maternal. Foi considerado o poeta do amor. Uma das figuras mais populares do último quartel do século XIX

(1830-1896)
São Bartolomeu de Messines
Cortesia da Casa Museu João de Deus
João de Deus de Nogueira Ramos, mais conhecido por João de Deus, foi um eminente poeta lírico, considerado à época o primeiro do seu tempo, e o proponente de um método de ensino da leitura, assente numa Cartilha Maternal por ele escrita, que teve grande aceitação popular, sendo ainda utilizado. Gozou de extraordinária popularidade, foi quase um culto, sendo ainda em vida objecto das mais variadas homenagens e, aquando da sua morte, sepultado no Panteão Nacional. Foi considerado o poeta do amor.

Cortesia de grandesnomeseducacao
João de Deus, o quarto de catorze irmãos, não lhe permitindo a situação sócio-económica da família aspirar a uma carreira universitária, estudou latim na sua terra natal e ingressou no Seminário de Coimbra, então o único caminho para prosseguir estudos aberto aos menos abonados. Em 1850, aos dezenove anos, não tendo vocação para a vida eclesiástica, ingressou na Universidade de Coimbra como estudante de Direito.
Preferindo as belas artes à ciência do Direito, envolvido na vida boémia coimbrã, teve na Universidade um percurso académico conturbado, com diversas interrupções e reprovações por faltas. Apenas se formou dez anos depois de ter ingressado, em 13 de Julho de 1859, e mesmo assim por instâncias e ameaças dos seus condiscípulos, entre os quais se incluía a melhor intelectualidade da época.
Logo no ano de ingresso na Universidade revelou o seus dotes líricos, escrevendo versos que circularam manuscritos no meio académico e com os quais obtinha modestos rendimentos que ajudavam na sua parca subsistência. De 1851 conhece-se o poema Pomba e a elegia Oração, a qual foi a sua primeira obra publicada, tendo saído a público na Revista Académica em 1855, tendo merecido imediata aclamação pública. Não tendo interesse pela advocacia, em 1862 aceita o convite para ir para Beja como redactor do periódico O Bejense, então o jornal de maior expansão no Alentejo. Neste período colaborou em diversos periódicos da imprensa regional do sul de Portugal. Permaneceu em Beja até 1864, regressando nesse ano à sua terra natal.

Cortesia de auladeliteraturaportuguesa
Em Lisboa levou uma vida de grandes privações. Passava o tempo nos cafés, em particular no Martinho da Arcada, em constantes tertúlias, sem nunca procurar encontrar uma forma estável de ganhar a vida. Para sobreviver recorria à realização de traduções, à escrita de sermões e hinos para cerimónias religiosas e a colaborações literárias várias. Com o casamento e a passagem pelas Cortes, reflectindo uma maior disponibilidade, inicia a publicação sistemática da sua obra poética e dramática. Logo nesse ano publica a colectânea Flores do campo, a que se segue uma pequena recolha de 14 poemas intitulada Ramo de flores (1869), considerada a sua melhor obra poética.
SÊDE DE AMOR

Vi-te uma vez e (novo
Extranho caso foi!)
Por entre tanto povo...
Tanta mulher... Suppõe

Que mãe estremecida
Via o seu filho andar
Sobre muralha erguida,
Onde o fizesse ir dar

Aquelle remoinho,
Aquella inquietação
D'um pobre innocentinho
Ainda sem razão!

E ora estendendo os braços...
Ora apertando as mãos...
Vendo-lhe o gesto, os passos,
Quantos esforços vãos,

O triste na cimalha
Faz por voltar atraz...
Sem vêr como lhe valha!
A vêr o que elle faz!

Pallida, exhausta, muda,
Os olhos uns tições,
Com que, a tremer, lhe estuda
As mesmas pulsações...

(Porque não é mais fundo
O mar no equador,
Nem é todo este mundo
Maior do que esse amor!

Mais vasto, largo e extenso
Todo esse céo tambem
Do que o amor immenso
D'um coração de mãe!)

Assim, n'essa agonia...
N'essa intima avidez...
É que entre os mais te eu ia
Seguindo d'essa vez!

Porque te adoro!... a ponto,
Que ainda hoje, crê!
Escuto e oiço e conto
Os grãos de arêa até,

Que tu, mulher! andando
Fazias estalar
Já mesmo longe e... quando
Deixei de te avistar!
João de Deus
As recolhas resultaram da selecção feita por José António Garcia Blanco entre os poemas publicados na imprensa periódica. São obras com laivos de ultra-romantismo, representativas da sua primeira fase de produção poética de João de Deus. Estes textos seriam depois reunidos e organizados por Teófilo Braga. A compilação dos seus textos líricos, satíricos e epigramáticos foi editada com o título de Campo de Flores (1893), e os textos de prosa com o título de Prosas (1898). Na colectânea Campo de Flores foi incluído o poema algo lascivo Cryptinas, o que na altura foi motivo de algum escândalo.

Cortesia de Casa Museu João de Deus
O poema Horácio e Lydia (1872), uma tradução da obra homónima de Pierre de Ronsard, demonstra a perícia de João de Deus na versificação e na manutenção do ritmo discursivo. Entretanto, em 1876, menos de um ano depois da morte de António Feliciano de Castilho e perante a descrença em que caíra o Método Português de Castilho, João de Deus envolveu-se nas campanhas de alfabetização, escrevendo a Cartilha Maternal, um novo método de ensino da leitura, que o haveria de distinguir como pedagogo. A Cartilha, num processo muito semelhante aos esforços que 25 anos antes António Feliciano de Castilho empreendera com o seu método, incorpora, para além daquela experiência, os trabalhos de Johann Heinrich Pestalozzi e Friedrich Wilhelm August Fröbel, dando-lhe um carácter menos infantilizante.
A obra foi recebida de forma encomiástica, sendo saudada como utilíssima e genial pelos principais intelectuais da época, entre os quais Alexandre Herculano e Adolfo Coelho.

Cortesia de Casa Museu João de Deus
Este método, relativamente inovador na época, foi dois anos depois, e por proposta do deputado Augusto Lemos Álvares Portugal Ribeiro, aprovado como o método nacional de aprendizagem da escrita da língua portuguesa. Graças a esta decisão, João de Deus teria a nomeação vitalícia de Comissário Geral da Leitura para essa forma de ensinar, com uma pensão anual de 900$000 réis. Para complementar o seu método, João de Deus publicou uma tradução adaptada da obra Des devoirs des enfants envers leurs parents, de Theodore-Henri Barraus, a que se seguiram múltiplos artigos de natureza pedagógica contento exortações e instruções dirigidas aos mestres que deveriam aplicar o método. A expansão do método da Cartilha Maternal foi seguida de um autêntico fenómeno de culto pela figura do poeta, tornando-o numa das figuras mais populares do último quartel do século XIX português. Nesse contexto foi organizada em 1895 uma grande homenagem nacional ao poeta, alegadamente iniciativa dos estudantes de Coimbra.

Na sequência da homenagem nacional, o Diário de Notícias, de 8 de Março de 1895, publicou o seguinte texto laudatório:
«João de Deus é uma das personificações mais belas do nosso carácter peninsular; vivo e indolente, devaneador e apaixonado, crente e sentimental. É uma flor do meio-dia, cheia de seiva e colorido, dos poetas e nunca ninguém sentiu entre nós mais ardente a sua imortalidade do que Bocage. Com que entusiasmo ele exclamava ao ver os seus versos elogiados na boca de Filinto: - Zoilos tremei; posteridade, és minha! Sob este ponto de vista, João de Deus é a antítese completa de Bocage. Este tinha a inspiração orgulhosa, cheia de fogo, rebentando quase num caudal de ironia e de sarcasmo. João de Deus tem a inspiração serena, espontânea, quase inconsciente. João de Deus é como a flor do campo, que rebenta formosa sem cultivo, velada apenas pela graça de Deus, o jardineiro supremo. As suas poesias são verdadeiras flores do campo, mas das mimosas, das encantadoras na sua singeleza, das que, guardadas num álbum, conservam perfeitamente a delicadeza da forma, o colorido transparente da corola, o aveludado do cálice, a disposição encantadora das pétalas».

Cortesia de foto-historia-cristina
Apesar da fama, o método da Cartilha Maternal tinha adversários e pouco depois da homenagem nacional, por iniciativa de Joaquim Pedro de Oliveira Martins, o Ministério do Reino decidiu mandar retirar das salas de aula os quadros da Cartilha. Pouco depois desta polémica decisão, João de Deus caiu doente com uma enfermidade cardíaca.
João de Deus morre aos 66 anos de idade. O seu túmulo está no Panteão Nacional.


Cortesia de wikipédia/Casa Museu João de Deus/Project Gutenberg/JDACT