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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Os Templários na Formação de Portugal. Paulo Loução. «Vencem as tropas dos barões portucalenses sob o comando do jovem infante, futuro rei dos portugueses, Afonso Henriques. Esta batalha marca simbolicamente o início de Portugal, “sendo considerada a primeira tarde portuguesa”»

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«As razões que levaram ao nascimento de Portugal, a nação europeia que mais cedo demarcou as suas fronteiras definitivas, têm sido estudadas minuciosamente por muitos autores. Chegou-se à conclusão clara de que Portugal não resulta de condições geográficas específicas, como uma ilha, por exemplo; nem é o renascer de uma etnia, pois é formado pela fusão de muitas. Desta forma, terá sido uma elite política que construiu a nação e só com os séculos se foi cristalizando o sentimento de ser português no povo. Dentro desta linha inclui-se o pensamento de José Mattoso. Assim sendo, temos de destacar o carácter da elite que formou o país dado que, após oito séculos, não tem um único foco desintegrador. Nesta elite, como é historicamente indiscutível, os cavaleiros do Templo tiveram uma enorme influência.
Uma coisa é certa: todas estas análises têm demonstrado um elevado grau de mistério na origem de Portugal. Este mistério mantém-se, pois não existe ainda hoje uma resposta satisfatória para que todos os restantes estados da Península (Castela, Aragão, Navarra ...) se tenham reunido, com o tempo, na federação da Espanha e Portugal tenha ficado de fora. Basta olhar para o mapa para nos apercebermos do mistério. Não é nossa intenção desvendar este mistério, mas somente dar um pequeno contributo para a percepção do mesmo.
A partir do século IX, época do conde Vímara Peres, vai-se desenvolvendo na zona entre o Douro e o Minho uma certa identidade, de tal forma que existem documentos pré-nacionais em que os portucalenses designam os habitantes da Galiza como estrangeiros. Por que razão esta identidade se foi formando, não se sabe. O conde Henrique, dois séculos após Vímara Peres, criaria um laço forte com os senhores da região. Após a sua morte, D. Teresa, ao aliar-se ao galego conde de Trava, corta com esse laço e cria o mal-estar nas forças vivas da região, que vão conseguir ter no infante Afonso o seu melhor aliado. Os dois blocos defrontam-se na célebre Batalha de S. Mamede, no dia 24 de Junho de 1128, dia de São João Baptista. Vencem as tropas dos barões portucalenses sob o comando do jovem infante, futuro rei dos portugueses, Afonso Henriques. Esta batalha marca simbolicamente o início de Portugal, sendo considerada a primeira tarde portuguesa. Havia no condado portucalense um forte desejo de independência, tanto em relação à Galiza, como face a Afonso VII de Castela. Este rei era muito mais poderoso que o pequeno condado, razão pela qual, anos antes, D. Teresa tinha sido obrigada a confirmar-lhe vassalagem. Segundo tudo indica, o governo de D. Teresa foi activo e empreendedor. Entre muitas outras medidas, acolheu os Templários por volta de 1125, doando-lhes primeiro a vila de Fonte Arcada (Penafiel) e depois o castelo de Soure, com ampla extensão territorial para defesa da fronteira sul do condado. Contudo, quando um povo sente dentro de si um forte apelo de independência e tem líderes capazes, que entregam a sua alma a essa missão, não se conforma enquanto não alcançar os seus desígnios. Foi o que aconteceu. D. Teresa foi ultrapassada pelos acontecimentos e o seu filho surgiu, como um raio, aos 17 anos, nesta antiga Terra de Santa Maria».


In Paulo Alexandre Loução, Os Templários na Formação de Portugal, Edições Esquilo, 9ª edição 2004, ISBN 972-97760-8-3.

continua
Cortesia de Esquilo/JDACT

domingo, 23 de dezembro de 2012

Os Templários na Formação de Portugal. Paulo Loução. «Portugal teve na sua origem uma forte relação com Borgonha, motivo suficiente para conhecermos as origens dos Borgonheses. Os burgundii-burgundiones-burgundos-burguinhões, ou borgonheses são um povo germânico oriundo da costa do báltico. Pouco se diferenciavam dos suevos, godos e vândalos…»


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(continuação)

«Afonso Henriques, anos depois da conquista de Lisboa aos mouros (1147), num claro gesto de cumplicidade para com a espiritualidade moçárabe do território português, manda trazeras relíquias de S. Vicente da zona de Sagres para a futura capital. Esta iniciativa deu origem à Igreja de S. Vicente, que logo se tornou um importante centro religioso. Hoje, por dentro da actual Igreja de S. Vicente de Fora, em Lisboa, pode-se ver as ruínas do templo primitivo. Segundo a tradição, o mestre do Templo, Gualdim Pais, pôde testemunhar as propriedades terapêuticas das relíquias do santo quando chegaram a Lisboa.
Conta a lenda que as relíquias vieram do Cabo de S. Vicente numa barca acompanhadas por dois corvos. Ainda hoje esta barca e os dois corvos, de clara simbologia hermética, são o motivo central do brasão da cidade de Lisboa. S. Vicente tornou-se desde então o protector da navegação e o seu culto foi muito importante durante o período dos Descobrimentos, mas antes da nacionalidade era bastante cultuado por moçárabes e até por mouros. Voltando à lenda, em 779 d. C. os restos mortais deste mártir terão vindo de Saragoça para o Promontório Sagrado (Sagres) e foram depositados na Igreja do Corvo.
  • "O árabe Edrisi elogia a cordura e os recursos dos guardiões do sítio a que iam muitos peregrinos, tanto cristãos como moiros. Dizia-se que corvos sem idade, lá sustentados em respeito de terem acompanhado e defendido da rapina o corpo do santo diácono, avisavam com tantos gritos quantos os romeiros chegados, o pessoal da Hospedaria. O Santuário atraiu naturalmente um mosteiro."
Após a invasão de Tarik (711), praticamente toda a Península fica sob o domínio dos mouros. Na zona montanhosa das Astúrias, no centro-norte, refugiam-se muitos cristãos que aí criam um centro de resistência. Sob o comando de Pelágio, aparentado com o último dos visigodos, começam a conquistar algum território e fundam o reino das Astúrias (737), mais tarde reino de Leão. Depois surgiriam os reinos de Castela, Navarra e Aragão, que foram conquistando território ao domínio islâmico.
Numa Europa feudal, fechada, inculta, adormecida e vitimada por guerras que se desencadeavam por tudo e por nada, surgem as Cruzadas e as grandes peregrinações no final do séc. XI. A denominada reconquista cristã na Península Ibérica beneficiou deste espírito de cruzada. Entretanto, em 910, o duque Guilherme da Aquitânia (França) funda a Abadia de Cluny, que daria origem à ordem religiosa mais importante do século XI. É uma renovação da Ordem de S. Bento, que tinha decaído, afrouxando muito a sua disciplina. Os abades de Cluny vestiam um hábito negro e, no século XI, estavam estabelecidos na Península, sendo um importante suporte cultural e religioso para estes reinos. Santo Hugo de Cluny, homem muito poderoso na época, vem ao reino de Leão e Castela encontrar-se com Afonso VI, que se autoproclamava imperador. Hugo de Cluny era da Borgonha e deve ter combinado com Afonso VI o casamento da sua filha D. Urraca com Raimundo, parente borgonhês do abade. Foram muitos os cavaleiros borgonheses que vieram para a Península, no sentido de colaborar no esforço de reconquista cristã com um espírito de cruzada. Um deles, como sabemos, foi Henrique, futuro conde portucalense. Enquanto Raimundo veio para casar com a filha de Afonso VI, o conde Henrique, seu primo, deslocou-se à Península para o ajudar nas lides contra os mouros, nas quais se mostrou um valoroso chefe militar. Provavelmente, devido a este facto e à sua alta nobreza, Afonso VI confia-lhe o condado portucalense, que reunia o próprio condado de Portucale, área entre sul do Douro e Braga, e o condado de Coimbra, área de Coimbra e Santarém e, para o interior, a Serra da Estrela. O conde borgonhês governou durante quinze anos (1097-1112) com seriedade e sageza política. Para além de bom militar, foi um bom administrador do território, estimulando centros de actividade comercial já existentes, como Portucale (Porto) e Guimarães. Atribuiu várias cartas de foral e de couto. Assegurou-se da colaboração e lealdade dos fidalgos portucalenses, fazendo com que a sua origem estrangeira não fosse uma barreira. Travou amizade com o poderoso Soeiro Mendes da Maia, representava as forças da terra, que, em vez de rival, se tornou o seu braço direito. Por tudo isso, ajusta-se bem a sua fama de patriarca de Portugal.
Portugal teve na sua origem uma forte relação com Borgonha, motivo suficiente para conhecermos as origens dos Borgonheses. Os burgundii-burgundiones-burgundos-burguinhões, ou borgonheses são um povo germânico oriundo da costa do báltico. Pouco se diferenciavam dos suevos, godos e vândalos com os quais coabitaram em espaço germânico de III a. C. a IV d. C. No século V migraram para junto do Reno. Foram expulsos pelos Hunos, radicando-se no Sul de França. Em guerras constantes com os francos, mantiveram a sua identidade. A Borgonha, na época da origem de Portugal, era um reino independente que não pertencia ao reino de França. Só no século XVII a França incorpora definitivamente a Borgonha. Antes, tanto estivera ligada ao império alemão como ao reino de França. Consideramos interessante a sua identidade germânica, com origens semelhantes às dos Suevos que reinaram durante dois séculos no espaço que, mais tarde, foi o do condado portucalense, donde emergiu o reino independente de Portugal». In Paulo Alexandre Loução, Os Templários na Formação de Portugal, Edições Esquilo, 9ª edição 2004, ISBN 972-97760-8-3.

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Cortesia de Esquilo/JDACT

sábado, 22 de dezembro de 2012

Os Templários na Formação de Portugal. Paulo Loução. «Jaime Cortesão não hesita em afirmar que “o moçárabe foi uma das traves mestras da nacionalidade” e vê nele um antecedente importante da vocação marítima dos portugueses. O mocárabe foi um cristão e um românico, que produziu, se deslocou, vestiu, divertiu e viveu à maneira dos árabes…»

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(continuação)

«No final do século VI, o rei Suevo, o visigótico e suas elites converteram-se ao catolicismo romano. Na origem destas conversões devem estar factores políticos, ou seja, o clero católico era mais organizado, tinha bibliotecas, sabia latim, etc. Todavia, da mesma maneira que muitos hispano-romanos continuaram católicos apesar da invasão dos povos bárbaros, que se converteram ao arianismo, também a adopção do catolicismo por parte das elites suevas e visigóticas não significa, de nenhuma forma, que o povo seguisse o mesmo caminho, pelo menos de coração. As crenças religiosas não se mudam por decreto. E é um facto que, no tempo da reconquista cristã, os abades de Cluny, que vieram para a península, tiveram como uma das missões acabar com as crenças heréticas dos moçárabes. Pelo menos no Ocidente peninsular, não conseguiram ter um êxito completo nesse objectivo.
Antes disso, em 711, deu-se a invasão muçulmana. O exército de 18.000 berberes, comandado por Tarik, entrava na Península. A expansão do mundo islâmico foi uma bênção para todos os cristãos que eram perseguidos pelo catolicismo, desde a Ásia Menor, passando por todo o Norte de África até à Península Ibérica. Os judeus peninsulares, que começam a ser ferozmente perseguidos a partir dos inícios do século VI por instigação do clero católico, também beneficiaram da invasão muçulmana. Infelizmente, só recentemente se tem começado a dar maior visibilidade histórica aos quatro, cinco séculos de dominação mourisca no território português. Como sabemos, a sua influência deixou marcas de maior relevo no sul do país. O seu nível cultural , civilizacional e tecnológico era muito superior ao do reino visigótico peninsular. No geral, não perseguiam os cristãos nem os judeus. Os capitães eram maometanos e, na época, muitos seguiam os preceitos corânicos:
  • não façais violência aos homens por causa da fé;
  • não discuteis com os judeus e cristãos se não em termos amigáveis e moderados.
Aliás, era-lhes favorável a existência de moçárabes (cristãos sob domínio islâmico) e judeus, dado que estes pagavam mais tributos ao governo. Desenvolveram uma civilização notável para a época, como ainda hoje o demonstram os seus monumentos em Córdova e Granada (Alhambra). Construíram ricas bibliotecas e desenvolveram centros de cultura, tendo demonstrado uma especial atracção pelo oculto. Os mouros eram profundamente versados em ciências ocultas e, em Toledo, Sevilha e Salamanca estiveram, numa certa época, as grandes escolas de magia [a magna ciência dos mistérios]. Os cabalistas desta última cidade eram hábeis em todas as ciências abstrusas, esotéricas; conheciam as virtudes das pedras preciosas e de outros minerais e extraíram da Alquimia os seus mais profundos segredos. Existiam também muitos mestres sufis. Estes, de certa forma, eram os gnósticos do islão pois conheciam em profundidade o esoterismo maometano e praticavam técnicas que levavam ao êxtase ou, como diria hoje a moderna psicologia, a estados modificados de consciência. Aderiu ao sufismo uma elite numerosa de homens inteligentes. Estes, tal como os Templários, eram profundamente tolerantes para com todas as formas exotéricas de religião. O sufi Muhyi'd-Din ibn'Arabi (século XIII) afirmou:
  • "O meu coração abriu-se a todas as formas: é uma pastagem para as gazelas, um claustro para monges cristãos, um templo de ídolos, a Caaba do peregrino, as tábuas da Tora e o livro do Corão. Pratico a religião do Amor; qualquer que seja a direcção em que as cabanas avançarem, a religião do Amor será sempre a minha religião e a minha fé."
Segundo o cronista da saga do rei Sigur, Lisboa tinha, no início do século XII, 200.000 habitantes, metade deles cristãos! Embora se deva aceitar este número com alguma reserva, Lisboa deveria ter uma magnitude espantos a para a época. Nenhuma cidade do condado portucalense deveria ter mais de 10% da população citada. Estima-se que Portucale (Porto) tivesse 3.000 habitantes. Através deste cronista, ficamos igualmente a conhecer a expressão da população moçárabe; 50% em Lisboa. Jaime Cortesão não hesita em afirmar que o moçárabe foi uma das traves mestras da nacionalidade e vê nele um antecedente importante da vocação marítima dos portugueses:
  • "O mocárabe foi um cristão e um românico, que produziu, se deslocou, vestiu, divertiu e, enfim, viveu à maneira dos árabes, mas conservou intacto o cerne e a essência do carácter. Feitas estas reservas, bem se pode afirmar que o moçarabismo representa uma fusão de culturas, sem abdicação do que há de medular na personalidade de origem (...) O rápido despertar do povo português para o seu género de vida típico, o comércio marítimo à distância, só pode explicar-se pela sua longa aprendizagem na escola árabe. O tráfico à distância, por terra e mar; foi de longa data o género de vida típico dos árabes. Vivendo em íntimo contacto com estes ou com berberes arabizados, os moçárabes partilham, em proporções peninsulares, daquela formação vital.”
In Paulo Alexandre Loução, Os Templários na Formação de Portugal, Edições Esquilo, 9ª edição 2004, ISBN 972-97760-8-3.


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Cortesia de Esquilo/JDACT

Os Templários na Formação de Portugal. Paulo Loução. «O rei suevo Remismundo converteu-se ao arianismo (alguns autores escrevem arrianismo), difundindo esta versão do cristianismo pelo seu povo. Esta corrente cristã teve origem em Ário, presbítero da Igreja de Alexandria no séc. IV. O Sul de Portugal esteve na posse do império romano do oriente, bizantino, de 554 a 621»


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«A astrologia, como ciência que estuda a ligação entre o homem e o Cosmos, era muito estudada, dando origem a um calendário litúrgico muito exacto, baseado no movimento dos astros. Fazendo votos para que esta religião mistérica, como lhe chamou o académico Moisés Espírito Santo, passe a ocupar o seu lugar merecido na história, divulgamos um excerto das Odes de Salomão, de influência essénia, que nas comunidades gnósticas o novel membro recitava na cerimónia de recepção. É provável que os Templários tenham conhecido este texto, dado que o mestre português Gualdim Pais se refere, num documento, à sua fé salomónica.

O Senhor está na minha cabeça como uma coroa
Não ficarei fora dele
Entrançada está em mim a coroa da Verdade
Que faz que as suas ramas floresçam
Não se parece com uma coroa seca que não floresce
Mas vive na minha fronte e floresce em mim
Os teus frutos são plenos e perfeitos
Cheios da tua Salvação

O meu coração foi podado e a sua flor brotou
Germinou nele a graça
Deu frutos para o Senhor
O altíssimo podou-me com o Espírito Santo
Descobriu as minhas entranhas diante dele
E encheu-me do seu amor
O corte que o Senhor me fez foi salvação para mim
A água que fala acercou-se dos meus lábios
Abundante fonte do Senhor
Bebi e embriaguei-me com a água da vida

Abandonei a loucura difundida pelo mundo
Despojei-me dela e arroiei-a de mim
O Senhor me renovou com a sua veste
Tomou posse de mim com a sua luz
Sou como uma terra que germina e prospera em frutos
O Senhor como um sol sobre a minha terra
Iluminou os meus olhos e cobriu-me o rosto de orvalho
Conduziu-me ao seu paraíso
Onde reside a abundância dos prazeres do Senhor

Contemplei árvores floridas e carregadas de frutos
A sua coroa nascia deles
Floresciam suas ramas e engrossavam seus frutos
As suas raízes surgiam de uma terra imortal
Um rio risonho as regava
E a terra da vida eterna em seu redor
Bem-aventurados os que estão plantados na sua terra
Crescem na germinação das suas árvores
E passam das trevas à luz (…)


A Formação de Portugal
As nações todas são mistérios cada uma é todo um mundo a sós.
Fernando Pessoa

A cada povo é proposto um ideal diferente de realização da humanidade.
Álvaro Ribeiro

Roma foi fundada no século VIII a.C. e caiu definitivamente, no Ocidente, cinco séculos depois do nascimento de Cristo. Durou doze séculos, oito dos quais como império. Não se desmoronou de um momento para o outro, mas foi decaindo durante vários séculos em longa e lenta agonia. A regressão cultural e civilizacional após a sua queda foi total e é nesse quadro que teremos de compreender a história europeia até ao século XII, altura em que aconteceu um forte renascimento cultural. No entanto, e apesar disso, o véu continuou. A superstição e a tacanhez mental que alienavam a sociedade europeia mantiveram-se. Este véu só seria rasgado com a Renascença, nos séculos XV-XVI, e, mesmo assim, não na totalidade.
No que diz respeito ao território português e recuando ao período da pré-formação de Portugal, é um facto que se deu um forte choque cultural entre os lusitanos e os povos da Galécia, e os romanos. Com a derrota de Sertório, venceu a facção romana mais agressiva, ficando os romanos definitivamente malvistos pelas populações autóctones e, sobretudo na Galécia, muitas zonas praticamente não foram romanizadas. Assim, de certa forma, a cultura castreja pré-romana persistiu, permanecendo ainda viva quando os suevos, invasores germânicos, se instalaram entre o Douro e o Minho e aí reinaram entre 411 e 585. Quando chegou, o rei dos suevos protegeu os seguidores de Prisciliano e o bispo ortodoxo romano, Idácio, foi aprisionado. Curiosamente, é este mesmo Idácio que nos fala de Ájax, gálata de nação, chegado no séc. V e missionário do cristianismo ariano. O rei suevo Remismundo converteu-se ao arianismo (alguns autores escrevem arrianismo), difundindo esta versão do cristianismo pelo seu povo. Esta corrente cristã teve origem em Ário, presbítero da Igreja de Alexandria no séc. IV. Sustentava que Jesus Cristo foi um ser criado e humano, inferior ao Deus-Pai, sendo, contudo, um grande mestre de sabedoria versado em todos os mistérios divinos. O cristianismo ariano teve um fortíssimo impacto nos chamados povos bárbaros e foi adoptado por alguns imperadores do Oriente. Os visigodos peninsulares também adoptaram, de início, esta versão cristã, que foi combatida sem tréguas pela hierarquia católica e obviamente classificada de heresia. Não se sabe muito acerca da doutrina dos arianistas, visto que a história foi escrita pelos vencedores. Quanto a nós, não nos parece que o arianismo tenha tido, neste território, tanto impacto como os eruditos priscilianistas, sendo até natural que os seus seguidores influenciassem o cristianismo ariano no Ocidente peninsular, continuando depois vivo através dos moçárabes.
Os visigodos, também de origem germânica, foram o povo invasor que governou mais área da Península Ibérica, durante mais tempo. Com a queda dos suevos, no século VI, governaram todo o espaço que hoje corresponde ao norte de Portugal, até à invasão árabe nos inícios do século VIII. O Sul de Portugal esteve na posse do império romano do oriente, bizantino, de 554 a 621 (datas possíveis), que entretanto invadira a Península Ibérica». In Paulo Alexandre Loução, Os Templários na Formação de Portugal, Edições Esquilo, 9ª edição 2004, ISBN 972-97760-8-3.

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Cortesia de Esquilo/JDACT

sábado, 17 de novembro de 2012

A Comenta Secreta. Que segredos guardam Afonso Henriques e o mestre templário Gualdim Pais? Maria João Pardal e Ezequiel Marinho. «Os dias eram cada vez mais curtos e sentia-se a humidade da chuva que caíra miudinha durante quase toda a tarde, deixando as estreitas ruas cheias de lama. Estava uma noite de lua cheia. Com o cair da penumbra, a comitiva real tinha-se instalado no Alcáçar»


jdact e cortesia de wikipedia

O Reencontro
«Abertas as portas da cidade formou-se o cortejo solene. À frente ia João Peculiar Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, amigo e conselheiro de Afonso Henriques, seguido do restante clero, com o estandarte da Cruz do Senhor. Compunham a comitiva real os que, estando com o rei, tinham sido escolhidos para o acompanhar; entre eles estava Fernão Afonso, de sete anos, filho primogénito do rei, nascido da união com D. Flâmula Gomes, viúva de Paio Soares, irmão de Pêro Pais, Alferes-mor do reino, antes de casar com a rainha Mafalda de Sabóia e Gualdim Pais, cavaleiro templário.
Celebrada a missa no terreiro da Alcáçova, o estandarte da cruz foi colocado no topo da mais alta torre da barbacã, para que, de toda a parte, fosse visto como símbolo do domínio da cidade. O rei passeou a pé pelas muralhas da cidadela. Renato, sempre junto de seu pai, Mestre de armas, seguiu com a comitiva. Durante o percurso, qual não é o espanto d'El-Rei Afonso Henriques ao verificar que alguns cruzados saciaram os apetites, saqueando o que foi possível, arrombando portas e entrando no interior das casas, destruindo roupas e utensílios, violando mulheres e tratando as virgens vergonhosamente, contra o juramento que antes haviam prestado junto da sua pessoa.
 - De quem foi mister este trabalho? - Perguntou Sua Majestade. Raimundo Moniz, o pai de Renato, chegou-se junto do rei e afirmou:
 - Senhor, contra o que vós determinastes e contra o direito divino e humano, os colonienses e os flamengos agiram desta forma, abandonaram a cidade e regressaram às suas terras. Afonso Henriques olhou consternado à sua volta, e verificou que os cruzados normandos e ingleses permaneciam firmes nos seus postos, conforme determinado, preferindo manter as mãos limpas. Tomou então a palavra e disse:
 - Aqueles que quiserem ficar podem fazê-lo extramuros, na encosta de Poente. Montai guarda aos celeiros desta praça-forte! – e continuou, logo estabelecendo a forma como a guarnição árabe deveria deixar o castelo.
Os dias eram cada vez mais curtos e sentia-se ainda a humidade da chuva que caíra miudinha durante quase toda a tarde, deixando as estreitas ruas cheias de lama até à altura dos tornozelos. Estava uma noite de lua cheia. Com o cair da penumbra, a comitiva real tinha-se instalado no Alcáçar (residência do governador muçulmano), tendo ficado na guarda da cidade uma guarnição de companheiros de armas chefiados por Raimundo Moniz.
No acampamento tudo estava silencioso. Distinguiam-se apenas os contornos das tendas de campanha, iluminadas pela luz ténue das candeias e os vultos das sentinelas que guardavam a tenda real, agora desabitada. Renato teve curiosidade de verificar a degradação da cidade. O seu dever a isso o obrigava, ajudar os mais fracos. Do alto do Monte da Graça observava o castelo que tinha por fundo o Tejo. A noite estava chuvosa, mas o céu achava-se limpo (?), iluminado pelo grande astro branco.
Cobriu-se com a capa que a mãe lhe oferecera antes de morrer e com o calor da sua respiração, tentou aquecer as mãos que lhe congelavam. Um suspiro brotou-lhe do pensamento, sentia saudades dela agora que estava sozinho com seu pai. Faltava-lhe a alegria daquele sorriso jovial, que conservava em memória no seu coração. Tinham já passado dois anos, e parecia ainda sentir o cheiro do pão quente acabado de cozinhar no forno a lenha e dos petiscos que inundavam a casa de satisfação... mas quis o destino que assim fosse... e contra isso ele nada podia fazer.
Entrou pela porta oriental e nas ruas da Al-hama (o topónimo Alfama é frequentemente atribuído à evolução do árabe Al-hama, que significa fonte termal, embora não haja consenso quanto à origem etimológica), viam-se aqueles a quem a sorte não sorriu; homens e mulheres pobres, velhos moribundos e algumas famílias desalojadas, buscando o consolo de uma noite aquecida. Alguns conseguiram salvar parte dos seus haveres, outros haviam perdido tudo e olhavam, desolados, as chamas que lhes consumiam as casas. Choros, tristezas e mágoas conjugavam-se num cenário de desespero.
Ao passar por uma rua junto à mesquita, onde estavam os feridos, doentes e mortos, ouviu um canto de lamento, em tom monocórdico, dentro de uma casa pequena situada junto à muralha. Atraído pelo som, aproximou-se da porta e reparou no umbral que tinha um desenho em forma de estrela, com seis pontas. Abriu a porta de madeira lentamente e viu uma família em volta de uma mesa, frente a uma lareira. O lume crepitante trouxe-lhe boas recordações. Podia ver um homem mais velho, a quem os rugas carregadas faziam transparecer algumas mágoas, mas também sabedoria. Junto dele reconheceu o jovem de pele clara e cabelo escuro, que tinha salvo das mãos do coloniense nesse mesmo dia. Entreolharam-se e num gesto automático, Renato fechou a porta lentamente procurando não fazer barulho.
Desceu a encosta mais um pouco e sentiu o calor da fonte de água quente nas alcaçarias. Aproximou-se, pôs as mãos na água e colocou-as, quentes, debaixo dos sovacos. Ouviu um barulho... os patrulheiros faziam a ronda. Acompanhou-os até ao acampamento e deitou-se.


Uns anos depois encontrava-se em Cintra com seu pai, que tinha passado ao serviço de Gualdim País, por recomendação d'El-Rei. Depois do cerco à vila de Cintra, os habitantes fizeram a entrega da cidade a Afonso Henriques, juntamente com a guarnição, sem derramamento de sangue». In Maria João Martins Pardal e Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta, Ésquilo, Lisboa, 2005, ISBN 972-8605-58-7.

continua
Cortesia de Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Paulo A. Loução. Os Templários na formação de Portugal: O Cristianismo Primitivo. «Em Dezembro de 1945, um camponês árabe encontrou uma jarra com treze livros de papiro encadernados a coiro, perto de Nag Hammadi, no Egipto. Estes livros escritos em copta datam do séc. IV a. C. (conclusão irrefutável obtida após análise científica) e contêm muitos dos chamados evangelhos e escritos apócrifos do cristianismo»

Cortesia de wikipedia

O Cristianismo Primitivo.
«No entanto, deve ser «cosmisado», ou seja, ordenado, impregnado pelas Ideias do Bom, do Belo e do Justo. Filosoficamente, o mal é a ausência do bem. Deus, sendo omnipresente, terá de impregnar toda a existência, incluindo as forças ligadas à matéria que, pelo seu próprio instinto, tudo fazem para impedir a ascensão da alma.
Em síntese, embora este mundo seja um reflexo pálido do mundo divino, quem nele está deve contribuir para o embelezar, harmonizar e tomá-lo mais justo e não, pura e simplesmente, desprezá-lo e considerá-lo obra do Diabo, caindo, desta forma, na chamada «Grande Heresia» mencionada no livro tibetano «A Voz do Silêncio», ou seja, a crença de que no universo algo possa estar separado, o que é contrário ao sentimento da grande fraternidade cósmica. Tudo está relacionado com tudo, e, como diz Hermes Trismegisto num dos princípios do «Kybalión»:

"Como é em cima, é em baixo;
como é em baixo, é em cima."


Cortesia de esquilo

Em Dezembro de 1945, um camponês árabe encontrou uma jarra com treze livros de papiro encadernados a coiro, perto de Nag Hammadi, no Egipto. Estes livros escritos em copta datam do séc. IV a. C. (conclusão irrefutável obtida após análise científica) e contêm muitos dos chamados evangelhos e escritos apócrifos do cristianismo. Segundo certos académicos, os textos originais que provocaram esta tradução copta não foram escritos depois de 150 d. C., mas sim antes.
Registe-se que «apócrifo» em grego significa secreto, oculto, esotérico. Estes textos revelam indubitavelmente uma outra leitura do cristianismo e estão a ser objecto de estudo por muitos investigadores universitários. A historiadora Elaine Pagels, doutorada pela Universidade de Harvard, divulga parte desses textos na sua obra «Os Evangelhos Gnósticos».
O professor gnóstico Téodoto da Ásia Menor (séc. II a. C.) afirma que gnóstico é alguém que veio a compreender:
  • «quem nós éramos, e aquilo que nos tornamos; onde estávamos (...) e para onde nos apressamos; quais as coisas de que estamos a ser libertados; o que é nascer e o que é renascer».
Vislumbramos aqui uma clara alusão à doutrina da reencarnação que, como atestou S. Jerónimo, foi durante muito tempo ensinada na Igreja. Só em 533 d. C. o Concílio de Constantinopla II promulgou que «todo aquele que defenda a mística ideia da preexistência da alma e a maravilhosa opinião do seu regresso, será excomungado [leia-se perseguido]». A necessidade desta lei canónica prova que muitos cristãos aceitavam e difundiam a doutrina da reencarnação.
Cortesia de esquilo

Outro mestre gnóstico, Monoimo, afirma:
  • «Abandonai a busca de Deus e da criação e demais questões de índole semelhante. Procurai tomando-vos a vós próprios como ponto de partida. Aprendei quem é que, dentro de vós, faz ser tudo quanto há e diz “Meu Deus, minha mente, meu pensamento, minha alma, meu corpo.” Aprendei as fontes da tristeza, da alegria, do amor, do ódio ( … ). Se investigardes cuidadosamente estas questões descobrireis Deus em vós próprios».
Na Índia podemos ler no Livro de Manu:
  • «Dentro de todos os deveres, o principal é adquirir o conhecimento da Alma Suprema [espírito]; esta é a primeira de todas as ciências pois só ela confere imortalidade ao homem».
O neoplatónico Jâmblico sustenta que
  • «(...) não é no conhecimento das coisas exteriores, mas na perfeição da alma interior que repousa o império do homem que aspira a ser mais do que homem». Uma máxima sufi diz: "Quem conhece a sua alma conhece o seu senhor".
Para penetrar um pouco no interior dos textos gnósticos temos de penetrar no ambiente da tradição esotérica e das escolas de mistérios da antiguidade clássica». In Paulo Alexandre Loução, Os Templários na Formação de Portugal, Ésquilo, 9ª edição, 2004, ISBN 972-97760-8-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 31 de julho de 2011

Paulo A. Loução. Os Templários na formação de Portugal: O Cristianismo Primitivo. «Um aspecto importante da “gnosis” é que este conhecimento inclui razão e sentimento, superando-os, ao contrário da fé cega nos dogmas que exclui a razão castrando o conhecimento intelectual do homem. A “gnosis” é o conhecimento dos mundos superiores pela visão da alma»

Templo de Philae
Cortesia de esquilo

O Cristianismo Primitivo.
«O Papa chegou mesmo a apresentar-se como imperador. Contudo, no mundo arbitrário e feudal da Idade Média, em que o direito era a força, o Vaticano, como sede do direito internacional, cumpriu, em muitos casos, um papel positivo. Houve Papas com bom senso e sabedoria. Porém, 1ogo a seguir sentavam-se fanáticos ou ambiciosos na cadeira de Pedro.
Vamos agora debruçar-nos sobre a vertente gnóstica do cristianismo, com a qual os Templários estão intimamente relacionados. «Gnosis» significa “conhecimento”, palavra que é mencionada várias vezes no Novo Testamento, por exemplo, em Lucas,XI,52:
  • «Ai de vós escribas! Apoderástes-vos da chave da gnosis. Vós mesmos não entrastes e impedistes os que queriam entrar».

Templo de Denderah
Cortesia de esquilo

Corresponde à «sophia» dos gregos e ao «gupta-vidyâ» dos hindus; e só pode ser alcançado através da iniciação nos “mistérios”, o que implica que uma escola gnóstica verdadeira tenha um conhecimento esotérico transmitido em cerimónias próprias para o efeito. Quando se fala de gnósticos, normalmente estamos a referir-nos aos discípulos de filósofos esclarecidos que viveram nos três primeiros séculos d.C., tais como: Valentino, Basflides, Marcion, Simão o Mago, etc.

Muitos padres da Igreja foram influenciados por eles e pelos filósofos da Escola Neoplatónica de Alexandria. Estes últimos também possuíam um conhecimento esotérico profundo. Para madame Blavatsky:
  • «os gnósticos partilhavam de muitas das ideias essénias; e os essénios já possuíam os seus mistérios “maiores” e “menores”, pelo menos dois séculos antes da nossa era. Eles eram os «ozarim» ou iniciados, os descendentes dos hierofantes egípcios, em cujo país haviam permanecido durante vários séculos, antes de terem sido convertidos ao monasticismo budista pelos missionários do rei Asoka, amalgamando-se depois aos cristãos primitivos».

Cortesia de wikipedia

Um aspecto importante da «gnosis» é que este conhecimento inclui razão e sentimento, superando-os, ao contrário da fé cega nos dogmas que exclui a razão castrando o conhecimento intelectual do homem. A «gnosis» é o conhecimento dos mundos superiores pela visão da alma. Este conhecimento liberta a alma que está prisioneira no seu cárcere físico. O gnosticismo nunca foi uma corrente unitária no campo doutrinal. Parte das seitas ou escolas gnósticas advogavam que o mundo físico é mau por natureza e o mundo espiritual, bom por natureza, constituindo o lugar natural da alma. Este ponto doutrinal de certos gnósticos não era compartilhado pelos neoplatónicos (nem o tinha sido antes por Platão), nem pelos Templários.
Parte dos cátaros parece ter partilhado dessa visão um tanto maniqueísta. Para Platão, como para os Templários, o mundo «Real» é o mundo das Ideias ou dos divinos arquétipos; e o mundo sensível carece de «Realidade» na medida em que tudo nele é efémero». In Paulo Alexandre Loução, Os Templários na Formação de Portugal, Ésquilo, 9ª edição, 2004, ISBN 972-97760-8-3.

NOTA:
O Egipto constituiu uma civilização fantástica que, ainda hoje, continua a assombrar os investigadores. Egipto, ou seja, AEGYPTUS, é uma palavra grega que significa «a misteriosa». Assim viam os gregos a velha «Terra de Khem» a pátria dos «Mistérios». Os templários estiveram em Alexandria.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Paulo A. Loução. Os Templários na formação de Portugal: O Cristianismo Primitivo. «Nada exerce tanta influência nas pessoas como o palavreado; quanto menos o entendem, mais o admiram... Os nossos padres e os nossos doutores disseram muitas vezes não o que pensavam, mas o que a necessidade e as circunstâncias os obrigaram a dizer»


Cortesia de wikipedia

O Cristianismo Primitivo.
«Mas a grande questão é que, nos nossos dias, desconhece-se quais terão sido os verdadeiros Evangelhos e quais os textos originais que vieram a incorporar o Novo Testamento. Como é do conhecimento geral, foi S. Jerónimo que compilou estes textos e os organizou na «Vulgata» por nós designada como Bíblia. Numa carta aos Bispos Chromatius e Heliodorus, fala de um Evangelho secreto de S. Mateus, «escrito em hebraico pelo próprio punho de S. Mateus». Segundo o mesmo S. Jerónimo, continha matérias que são mais para destruir (a igreja de Roma?) do que para edificar e era uma obra difícil (…) o próprio São Mateus, Apóstolo e Evangelista, não queria que fosse publicada abertamente. (….) era para ser usada pelos homens mais religiosos, iniciados. Este Evangelho, escrito em hebraico, infelizmente não chegou até nós porque exibia, evidentemente, diferenças de monta relativamente ao evangelho escrito em grego, hoje divulgado como genuíno.

«Recebi-o dos nazarenos, que o usavam em Beroea, na Síria, permissão para traduzi-lo», continua a afirmar S. Jerónimo, no fim do século IV. Os Nazarenos eram uma confraria iniciática, gnóstica, ligada ao cristianismo primitivo, um ramo dos Essênios, segundo madame Blavatsky.


Cortesia de wikipedia

S. Gregório de Nazianzeno escreveu as seguintes palavras ao seu amigo e confidente S. Jerónimo:
  • «Nada exerce tanta influência nas pessoas como o palavreado; quanto menos o entendem, mais o admiram... Os nossos padres e os nossos doutores disseram muitas vezes não o que pensavam, mas o que a necessidade e as circunstâncias os obrigaram a dizer».
No século IV havia uma grande diversidade de evangelhos. Realizou-se então o célebre Concílio de Niceia, no qual se definiu quais os evangelhos verdadeiros. Segundo Sabino, bispo de Heracleia «excepto Constantino, o imperador, e Eusébio Panfílio, esses bispos eram um conjunto de criaturas iletradas, simples, que não compreendiam coisa alguma»; e Papus, no seu Synodicom deste concílio, esclarece-nos como foram escolhidos os evangelhos verdadeiros: «colocámos promiscuamente todos os livros apresentados à escolha do concílio sobre a mesa da comunhão de uma igreja, os bispos pediram ao Senhor que os escritos inspirados fossem deixados sobre a mesa, ao passo que os espúrios ficassem sobre ela - e isso realmente aconteceu». O que não ficámos a saber é quem tinha a chave para entrar na câmara do concílio durante a noite. Estávamos na época dos concílios que analisavam se “a mulher tinha alma” (felizmente 'teve', por um voto, 'qual o tipo de carne angelical', 'qual o sexo dos anjos', e de muitas outras loucuras de um mundo imerso na superstição.


Cortesia de wikipedia

Constantino, o imperador que deu o primeiro grande passo para que a Igreja Cristã de Roma se tornasse a religião oficial do império, foi, como se sabe, um dos assassinos mais execráveis da história. Afogou a sua esposa em água fervente, massacrou o seu pequeno sobrinho, matou com as suas próprias mãos dois dos seus primos, assassinou o seu filho Crispus; tudo isto entre vários outros crimes, como afogar um velho monge num poço. Nenhum templo pagão aceitou purificá-lo, virando-se assim para os cristãos romanos que não deixaram de aproveitar esta oportunidade política. Tendo em conta estes factos e a pouca honestidade de Eusébio, a célebre visão de Cristo por Constantino merece-nos, historicamente, muito pouca credibilidade.

Sobretudo a partir desta época, a Igreja oficial do império foi aniquilando, pela injúria e pelas armas, todas as correntes cristãs que tivessem uma faceta gnóstica e pusessem em causa 'a fé única e verdadeira'. Este espírito de intolerância foi reafirmado de forma categórica no século XI através do «Dictatus Papae» (1075) que afirma, entre muitos outros itens do mesmo género, «que só a Igreja Romana foi fundada por Deus». Milhões de pessoas que não concordaram com esta asserção foram assassinadas pela Igreja Católica, nos séculos seguintes, entre os quais muitos Templários franceses. O grande problema é que a Igreja Católica, perdendo todo o contacto com o esoterismo cristão, desde muito cedo misturou religião (espiritualidade) com política (assuntos terrenos) utilizando muitas vezes, com interesses políticos imediatos, interpretações duvidosas das Escrituras». In Paulo Alexandre Loução, Os Templários na Formação de Portugal, Ésquilo, 9ª edição, 2004, ISBN 972-97760-8-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Paulo A. Loução. Os Templários na formação de Portugal: Um Pouco de História. «Ora, sabendo que os povos da Galécia romana, situava-se a norte do Douro, tinham evidentes raízes celtas é mais do que provável que muitos druidas tivessem vindo para estes lugares. Ainda hoje existem regiões no centro e norte do país com muitos carvalhos, que eram os templos dos druidas»

Cortesia de rochoso

Um Pouco de História.
«O passado não é mais do que a prefiguração do futuro, disse Mircea Eliade, e, na verdade, é impressionante como vislumbramos nos lusitanos algumas das características que marcam os portugueses actuais, como é o caso do seu espírito marcadamente individualista e da velha astúcia lusitana tão eficiente contra os romanos e que se reflecte, hoje em dia, no tão característico «espírito de desenrasca» do português. As tribos lusitanas viviam independentes entre si, embora mantendo uma certa identidade cultural comum e aliando-se quando havia perigo, tal como aconteceu na época da invasão romana, no século II a. C.. Sobre os lusitanos, afirmou Júlio César:
  • «existe um povo nos confins da Ibéria que não se governa nem se deixa governar». Foi realmente um escolho muito complicado para as «invencíveis» legiões romanas.
Após a traição de Galba que chacina 9 000 lusitanos e vende 20 000 como escravos na Gália, estes organizam-se em torno de Viriato que, graças ao seu génio militar, se assume como caudilho incontestado, aplicando sucessivos revezes às hostes romanas comandadas por Galba, Luculo, Vetílio, Pláncio, Fábio, Serviliano e Cipião. Só através da traição Viriato foi eliminado. As vitórias dos lusitanos sobre o melhor exército do mundo de então, sobre as tropas que tinham vencido o temível Aníbal de Cartago, foram absolutamente impressionantes.

Cortesia de esquilo

Pelo menos desde essa época até hoje, os lusitanos e, posteriormente, os portugueses, foram sempre excelentes na arte da guerra, só necessitando para a sua glória de líderes à altura (acontece o mesmo fenómeno no campo político). No século passado, frente às tropas napoleónicas, isto ficou claramente demonstrado (as cartas de Wellington são disso um testemunho valioso). O português gosta da paz, não deseja a guerra, mas quando esta lhe é imposta pelas circunstâncias, adquire uma força quase mágica em combate. Este foi, com certeza, um dos factores que criou um clima tão favorável à presença dos cavaleiros do Templo (verdadeira tropa de elite) em Portugal.
Ainda em relação aos romanos, existe um fenómeno que tem passado despercebido. Quando Júlio César invadiu a Gália, lançou uma perseguição feroz aos druidas por razões políticas. Os druidas, embora anteriores, foram os sacerdotes e os sábios dos celtas. Possuíam o conhecimento secreto das ciências esotéricas. Da mesma maneira que, na Idade Média, Portugal serviu de refúgio para os Templários (quando extintos), judeus, cristãos heterodoxos... este mesmo território poderá ter sido também o refúgio de druidas - isto, claro, sem negar que a grande maioria se terá refugiado nas Ilhas Britânicas.

Cortesia de esquilo

Ora, sabendo que os povos da Galécia romana, situava-se a norte do Douro, tinham evidentes raízes celtas é mais do que provável que muitos druidas tivessem vindo para estes lugares. Ainda hoje existem regiões no centro e norte do país com muitos carvalhos, que eram os templos dos druidas.
Tanto os celtas como os lusitanos foram povos muito religiosos:
  • acreditavam convictamente na imortalidade da alma, no além e nos poderes da Magia (Magna ciência). Eram panteístas, adoravam o Sol, que sempre foi considerado o símbolo mais perfeito do espírito para a generalidade dos povos antigos, os bosques, a Terra e, em geral, todas as forças e fenómenos da Natureza. Tinham os seus deuses, dos quais destacamos Endovélico e Ategina (desta existe um ex-voto de bronze em Évora).
Noutra perspectiva, podemos ver no caldeirão do deus Dagda dos celtas um simbolismo semelhante ao do Graal. Aliás, toda a lenda dos cavaleiros da Távola Redonda e do Graal tem um indiscutível substrato celta». In Paulo Alexandre Loução, Os Templários na Formação de Portugal, Ésquilo, 9ª edição, 2004, ISBN 972-97760-8-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Paulo A. Loução. Os Templários na formação de Portugal: O Cristianismo Primitivo. «As investigações efectuadas nos últimos dois séculos sobre o cristianismo primitivo revelam-nos um autêntico labirinto onde se esconde a mensagem original de Cristo. Foram catalogadas várias centenas de seitas cristãs autónomas»

Cortesia de jeocaz
O Cristianismo Primitivo
«A compreensão, do que é hoje em dia possível, do fervilhar de correntes e seitas cristãs dos primeiros tempos do cristianismo, é importante para captar o forte impulso espiritual que esteve na origem de Portugal e para penetrar no fenómeno dos Templários.
A investigação no campo das ciências humanas, para ser válida, tem de estar acima de qualquer credo ou influência política, para que não haja qualquer tipo de freios ou resistência psíquica. Tem de partir do velho princípio socrático «só sei que nada sei». Todavia, queremos deixar bem claro que analisamos as questões religiosas numa perspectiva de filosofia da história e de antropologia religiosa. Procuramos a verdade, não a detemos, pelo que, obviamente, respeitamos o credo do leitor, seja ele qual for. A vivência do sagrado, despoluída de elementos estranhos, merece sempre o maior respeito.
Asseguramos que as nossas fontes são de autores da máxima seriedade, tanto no que respeita à tradição esotérica como relativamente à história das religiões. No entanto, não podemos deixar de mencionar que só desde há muito pouco tempo os círculos universitários começaram a estudar o pluralismo doutrinal existente nos primeiros séculos do cristianismo.

Cortesia de rochoso

Por essa e outras razões, sem dúvida que o que desconhecemos acerca do cristianismo primitivo é muito mais lato do que aquilo que conhecemos. Segundo a tradição esotérica, Jesus, ainda muito novo, teria sido instruído no conhecimento das Escrituras hebraicas. Rapidamente veio ao de cima a sua natureza espiritual muito desenvolvida, pelo que os seus pais decidiram consagrá-lo à vida religiosa e ascética. Aos 19 anos, entrou para a confraria iniciática dos essénios e mais tarde foi iniciado nos mais altos mistérios do Egipto. Santo Agostinho refere que, na sua época, se falava nesta estadia de Jesus no Egipto. Aos 29 anos, este homem de pureza sobre-humana, tendo já atingindo a iluminação, coloca-se à disposição do 'Senhor' para uma missão na Terra (podemos relacionar este acontecimento com Sidarta Gautama, que atingindo a iluminação junto à árvore de Bô, passou a ser o Buda e renunciou ao Nirvana para ajudar a humanidade). Nas tradições dos Evangelhos, Jesus passa a ser o Cristo quando «o céu abriu-se, e Jesus viu o Espírito de Deus descer como pomba e poisar sobre Ele».
Na obra hindu, o Bhagava-Guita, Krisna, diz a Arjuna:
  • «Sempre que o mal parece que vai triunfar; Eu surjo».
Esta frase leva-nos à teoria oriental dos avatares (mensageiros divinos). Segundo esta, de dois em dois mil anos, em cada civilização, manifestar-se-ia uma entidade espiritual, de um estado evolutivo superior ao dos homens, a fim de lhes lembrar (provocar reminiscências) a sua meta arquetípica. Assim, Buda (para o Oriente) e Cristo (para o Ocidente), seriam avatares.
Cortesia de arteoriginaldeanaproque

É um facto que o ensinamento de ambos tem muito em comum. Krisna também teria sido um avatar, anterior a Buda. Uma das características destes avatares, fundadores de religiões, é que a sua mensagem só começa a ter efectiva repercussão na vida dos povos vários séculos depois da sua existência histórica. Deixam uma semente que, posteriormente, será regada.
As investigações efectuadas nos últimos dois séculos sobre o cristianismo primitivo revelam-nos um autêntico labirinto onde se esconde a mensagem original de Cristo. Foram catalogadas várias centenas de seitas cristãs autónomas. Para além disso, muitos documentos foram forjados, podendo aqui citar-se Eusébio como um dos maiores falsificadores da história.
Por outro lado, a censura à liberdade de investigação existiu praticamente até aos nossos, dias. O Concílio Ecuménico de 1870 afirma:
  • «Que haja Anátema (..) para aquele que disser que as ciências humanas deveriam ser. seguidas com tal espírito de liberdade que seria permitido tomar as suas asserções como verdadeiras, mesmo quando opostas às doutrinas reveladas».
Em 1893, o papa Leão XIII reitera na sua encíclica «Providentissimus», que «os livros canónicos, na sua totalidade, foram ditados pelo Espírito Santo, que não comete o mínimo erro». Em 1998, João Paulo II insiste num documento muito duro, na carta apostólica Ad Tuendam Fidem, que. «Deve-se acolher firmemente tudo o que é proposto em definitivo pelo magistério da Igreja acerca da fé e dos costumes (…) Aquele que nega uma verdade que por fé divina ou católica deve acreditar ou «a põe em dúvida» (…) não se retractar, seja punido como herege ou como apóstata com excomunhão maior (...). Mas a grande questão é que, nos nossos dias, desconhece-se quais terão sido os verdadeiros Evangelhos e quais os textos originais que vieram a incorporar o Novo Testamento». In Paulo Alexandre Loução, Os Templários na Formação de Portugal, Ésquilo, 9ª edição, 2004, ISBN 972-97760-8-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 12 de junho de 2011

Quinta da Regaleira. Sintra: «A partir de um trabalho erudito de equivalências e analogias, aceita-se que o universo nos engloba e nos interpela num só movimento existencial. A cruz templária no fundo do poço iniciático, a cruz da Ordem de Cristo no pavimento da Capela, bem como todas as outras cruzes dispostas na Capela, testemunham a influência do templarismo no ideário sincrético de Carvalho Monteiro»


Cortesia de atracoessintra

«Situada em pleno Centro Histórico de Sintra, classificado Património Mundial pela UNESCO, a Quinta da Regaleira é um lugar com espírito próprio. Edificado nos primórdios do Século XX, ao sabor do ideário romântico, este fascinante conjunto de construções, nascendo abruptadamente no meio da floresta luxuriante, é o resultado da concretização dos sonhos mito-mágicos do seu proprietário, António Augusto Carvalho Monteiro (1848-1920), aliados ao talento do arquitecto-cenógrafo italiano Luigi Manini (1848-1936). A imaginação destas duas personalidades invulgares concebeu, por um lado, o somatório revivalista das mais variadas correntes artísticas - com particular destaque para o gótico, o manuelino e a renascença - e, por outro, a glorificação da história nacional influenciada pelas tradições míticas e esotéricas.
A Quinta da Regaleira é um lugar para se sentir. Não basta contar-lhe a memória, a paisagem, os mistérios. Torna-se necessário conhecê-la, contemplar a cenografia dos jardins e das edificações, admirar o Palácio dos Milhões, verdadeira mansão filosofal de inspiração alquímica, percorrer o parque exótico, sentir a espiritualidade cristã na Capela da Santíssima Trindade, que nos permite descermos à cripta onde se recorda com emoção o simbolismo e a presença do além. Há ainda um fabuloso conjunto de torreões que nos oferecem paisagens deslumbrantes, recantos estranhos feitos de lenda e saudade, vivendas apalaçadas de gosto requintado, terraços dispostos para apreciação do mundo celeste. A culminar a visita à Quinta da Regaleira, há que invocar a aventura dos cavaleiros Templários, ou os ideais dos mestres da maçonaria, para descer ao monumental poço iniciático por uma imensa escadaria em espiral. E, lá no fundo com os pés assentes numa estrela de oito pontas, é como se estivéssemos imerses no ventre da Terra-Mãe. Depois, só nos resta atravessar as trevas das grutas labirínticas, até ganharmos a luz, reflectida em lagos surpreendentes». In CM de Sintra.


Cortesia de atracoessintra

«A documentação histórica relativa à Quinta da Regaleira é escassa para os tempos anteriores à sua compra por Carvalho Monteiro. Sabe-se que, em 1697, José Leite era o proprietário de uma vasta propriedade nos arredores da vila de Sintra, que hoje integra a Quinta. Francisco Albertino Guimarães de Castro comprou a propriedade (conhecida como Quinta da Torre ou do Castro em 1715), em hasta pública, canalizou a água da serra a fim de alimentar uma fonte aí existente. Em 1830, na posse de Manuel Bernardo, a Quinta toma a actual designação. Em 1840, a Quinta da Regaleira é adquirida pela filha de uma negociante do Porto, de apelido Allen, que mais tarde foi agraciada com o título de Baronesa da Regaleira. Data deste período a construção de uma casa de campo que é visível em algumas representações iconográficas de finais do século XIX. A história da Regaleira actual principia em 1892, ano em que os barões da Regaleira vendem a propriedade ao Dr. António Augusto Carvalho Monteiro por 25 contos de réis. A maior parte da construção actual da quinta teve início em 1904 e estava terminada em 1910.
A quinta foi vendida a Waldemar d'Orey em 1942 que, sem ter desvirtuado o que tinha sido concebido, procedeu a grandes obras de modo a acolher a sua grande família e profundíssimas obras de restauro, já que a casinha não era cuidada há muito. Em 1987 a Quinta da Regaleira é adquirida pela empresa japonesa Aoki Corporation e deixa de servir como habitação, sendo entregue ao cuidado de caseiros e permanece fechada ao público.

Cortesia de wikipedia 

Em 1997, a Câmara Municipal de Sintra adquire este valioso património, iniciando pouco depois um exaustivo trabalho de recuperação do património edificado e dos jardins. Actualmente, a Quinta da Regaleira está aberta ao público e é anfitriã de diversas actividades culturais.

Chama-se esotérico a um conhecimento oculto, seja doutrina ou técnica de expressão simbólica, reservado aos iniciados. O esoterismo é, pois, o conjunto de práticas e de ensinamentos esotéricos, no contexto de uma tradição multifacetada que abrange diferentes épocas, lugares e culturas. A Alquimia, a Maçonaria e os Templários, por exemplo, incorporam teorias, rituais e procedimentos herméticos que se integram no âmbito do esoterismo:
  • Na tipologia do misticismo judaico, firmado na procura de Deus e na experiência da divindade, o esoterismo baseia-se, fundamentalmente, na lei das correspondências, que visa encontrar, através do recurso à analogia, relações simbólicas entre o divino e o terreno, entre o transcendente e o imanente, entre o visível e o invisível, entre o homem e o universo:. A passagem de uma a outra dimensão opera-se em cerimónias de iniciação, por meio de encenações e rituais de carácter mágico, nos quais o neófito recebe o segredo da transmutação, aceita a filiação no grupo de companheiros e acede a um nível espiritual superior.
A Franco-Maçonaria antiga, dita operativa, deriva das confrarias, das corporações, dos agrupamentos profissionais de pedreiros livres e dos construtores das catedrais medievais. À defesa dos interesses profissionais, juntavam os franco-maçons, preocupações de carácter filantrópico, moral e religioso. Os grupos maçónicos, organizados em sociedades secretas e reunindo em lojas, foram perdendo o carácter exclusivamente operativo e começaram a aceitar membros estranhos à profissão mas que perfilhavam os mesmos ideais iniciáticos.
O declínio das confrarias origina, por filiação directa, o aparecimento em 1717, em Inglaterra, da Maçonaria moderna, dita especulativa, uma vez que já não existe ligação à prática do oficio de construção, tendo utensílios como o esquadro e o compasso adquirido um valor eminentemente simbólico.

Cortesia de wikipedia 

A Maçonaria provocou, praticamente desde o início, a oposição da Igreja Católica, embora muitos dos ensinamentos maçónicos, de inspiração cristã, preconizem a crença nas virtudes da caridade, na imortalidade da alma e na existência de um princípio espiritual superior denominado Grande Arquitecto do Universo:. Grande parte da simbologia maçónica, sobretudo a dos altos graus, inspira-se em correntes esotéricas tais como a alquimia, o templarismo e o rosacrucianismo, inscritas em diversos locais da Regaleira. A alquimia tem por objectivo a transmutação real ou simbólica dos metais em ouro e por fim último a salvação da alma:. As operações alquímicas são realizadas num Atanor, ou seja, num forno alquímico de combustão lenta, com um cadinho e um balão nos quais se pretende espiritualizar a matéria e materializar o espírito:. Este propósito essencial da Alquimia operativa, executada em laboratório, é a obtenção da Pedra Filosofal, simbiose entre matéria e espírito, da qual poderia resultar, segundo os alquimistas, além da transmutação dos metais em ouro, a realização de um dos desejos ancestrais da humanidade: o elixir da longa vida, capaz de proporcionar saúde e eterna juventude. Neste sentido, há quem considere a procura alquímica como uma metáfora da condição humana. A Alquimia assumiu, depois do século XVIII, um carácter manifestamente religioso, dedicando-se sobretudo ao estudo das relações espirituais e energéticas entre o homem (microcosmo) e o universo (macrocosmo). A partir de um trabalho erudito de equivalências e analogias, aceita-se que o universo nos engloba e nos interpela num só movimento existencial - ele é ao mesmo tempo transcendência (Outro) e nós próprios.

Parece evidente que a concepção religiosa do mundo que preside à Regaleira assenta no Cristianismo, mas num Cristianismo escatológico, que tem a ver com o fim dos tempos. Quer recorramos à lição da escatologia cósmica, que prenuncia o fim do universo e da humanidade, quer nos atenhamos à escatologia individual, que assenta na crença da sobrevivência da alma depois da morte, é a mesma ideia obsessiva que encontramos:. É também um Cristianismo gnóstico, apoiado em discursos míticos e em conhecimentos sagrados que prometem a salvação dos fiéis e o retorno dos espíritos:. É, enfim, um Cristianismo imbuído de ideais neotemplários, associados ao Culto do Espírito Santo, que encontramos na tradição mítica portuguesa.

Os templários foram monges-soldados, cuja ordem militar, fundada no período das Cruzadas em 1119, visava proteger os lugares santos da Palestina contra o perigo dos infiéis. Os votos de pobreza e castidade não impediram os Cavaleiros da Milícia do Templo de enriquecer e de desempenhar um importante papel económico e político, tanto no Oriente como na Europa, a ponto de criarem poderosos inimigos, como o rei Filipe IV de França e o Papa Clemente V, que levaram à perseguição e à extinção da ordem em 1314, sob acusações, porventura falsas, de blasfémia e imoralidade. Em 1317, D. Dinis de Portugal afectou os bens dos templários à Ordem de Cristo, que muitos aceitaram como sua sucessora.
Desaparecidos os templários não desapareceu o templarismo, cujo espírito, resumido na defesa dos lugares sagrados e na luta contra o mal, renasceu em várias correntes e organizações iniciáticas como sendo a afirmação simbólica da sobrevivência da Ordem do Templo. A cruz templária no fundo do poço iniciático, a cruz da Ordem de Cristo no pavimento da Capela, bem como todas as outras cruzes dispostas na Capela, testemunham a influência do templarismo no ideário sincrético de Carvalho Monteiro.

Cortesia de wikipedia 

Há ainda, na Regaleira, referências rosacrucianas, em alusão à corrente esotérica iniciada no século XVII, de tendência cristã, utilizando os símbolos conjuntos da rosa e da cruz. O movimento Rosa-Cruz propunha reformas sociais e religiosas, exaltava a humildade, a justiça, a verdade e a castidade, apelando à cura de todas as doenças do corpo e da alma. Tornou-se também grau maçónico de várias Ordens e, ainda hoje, existem algumas escolas esotéricas e sociedades secretas que pretendem assumir-se como reaparições da Ordem Rosa-Cruz». In Wikipédia.

Cortesia da CM de Sintra e Wikipédia/JDACT