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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Termas de S. Pedro do Sul. A. Nazaré Oliveira. «No lado poente da planta, assinala o ..Camarote de […], mas, não obstante os pormenores a que desce, não diz quem era este dom Fernando. E nenhum dos autores que têm escrito sobre as Termas levanta este problema»

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O Hospital Real das Caldas de Lafões
«(…) A provedoria de Aires Almeyda Sousa foi longa, pois, em 1616, vinte anos depois da nomeação, era ainda provedor, como se lê no frontispício da Chronographia Medicinal das Caldas de Alafoens, que Pires Sylva dedica a Duarte d'Almeida Sousa, filho primogénito de Aires Almeyda. Nos Almeydas da Cavalaria continuou a administração, terminando com Gonçalo Almeyda Sousa Sá, a quem João V concedeu a mercê, em 1713. Passou a administração para os corregedores, como provedores ou contadores da Fazenda. O Corregedor era o inspector do Hospital e o Juiz do Couto era o sub-inspector.

Com a extinção do concelho de Lafões, o Banho foi integrado no então criado concelho de S. Pedro do Sul e a administração das Caldas passa para a Câmara deste concelho, por portaria de 12 de Novembro de 1839. Mais tarde, a propriedade do Estabelecimento das Caldas foi confirmada por Carta de Lei de 21 de Maio de 1878 e, novamente, por Alvará de 17 de Fevereiro de 1910. Com os dados de que dispomos, vejamos as características e modo de funcionamento do Hospital Real das Caldas de Lafões. Tinha características próprias que lhe advinham do facto de ser um hospital termal. De algum modo, Manuel I, ao criar este hospital, seguiu o exemplo da irmã, a rainha viúva dona Leonor, fundadora do Hospital das Caldas da Rainha, guardadas as devidas diferenças de proporção entre os dois hospitais. Sabe-se que vários hospitais do reino vieram a ter Regimentos inspirados no das Caldas da Rainha. É bem possível que, entre eles, se encontre o de Lafões, com maioria de razão por ser um hospital termal.
Já vimos que a carta de nomeação do primeiro provedor (1502), pelas obrigações que nela estavam consignadas, pode considerar-se o primeiro regimento para a administração do Hospital. No manuscrito da Biblioteca da Ajuda, o Desembargo do Paço, em 1592, limita-se a repetir as mesmas obrigações. Só um século depois, em 1696, com a publicação da … Chronographia Medicinal das Caldas de Alafoens…, temos notícia detalha da da orgânica do Hospital. O autor, médico das Caldas, descreve, até ao pormenor, o seu modo de funcionamento. Começa com a descrição da piscina onde o rei se banhou, pelo que ficou conhecida por .Piscina dom Afonso Henriques, . Dela fez a planta, que tem sido reproduzida por quantos têm abordado este tema.
E nós a reproduzimos também, acrescentando-lhe os pontos cardeais e confrontações, para melhor clarificação.
No lado poente da planta, assinala o ..Camarote de […], mas, não obstante os pormenores a que desce, não diz quem era este dom Fernando. E nenhum dos autores que têm escrito sobre as Termas levanta este problema. Não se trata do rei Fernando I. Não se conhece qualquer notícia de que lá tenha estado. Se tal tivesse acontecido, Pires Sylva não deixaria de o tratar por rei. Também não cremos que se trate de Fernando Pedro, aquele senhor de Lafões referido no foral de 1152. Se tal fosse, o autor da ...Chronographia…, não omitiria Pedro, já que, no texto, sempre o trata por Fernando Pedro, que, de resto, como vimos, já era morto quando veio o Rei. A designação de Camarote de dom Fernando, deve ser mais tardia. Poderia, talvez, referir-se ao 2.º duque de Viseu. É apenas uma hipótese. O próprio Sylva escreveu: por morte de dom Henrique, que succedeo aos 1460. Foi seruido o Senhor Affonso V dar o senhorio do Concelho, & Caldas de Alafoens a seu irmão o Serhor dom Fernartdo, Infante, e Condestavel de Portugal, e Mestre das Ordens de Christo, I Santiago.
A planta não assinala o antigo banho das mulheres, mas Sylva descreve-o. Seria, quasi subterraneo e a ele se passaria por uma porta, nas costas do banho dos homens e se desceria por uma escada de pedra. Janelas de grades que descobriam um e outro banho, ao tempo transformadas em portas, mostrão (?) que ouve nas casas, junto ao banho das mulheres, alguma casa particular, donde alguma Pessoa Real, por evitar a prolixidade das continencias, & cortesias uia, sem ser vista, o modo de tomar banhos…» In António Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul, Antigas Caldas de Lafões, Palimage Editores, Viseu, 2002, ISBN 972-857-538-6.

Cortesia de PalimageE/JDACT

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Termas de S. Pedro do Sul. A. Nazaré Oliveira. «... como a administraçaõ das Caldas he sem lucro algum, & ocupação grave, que divertia os Collegiaes do seu estudo, pediraõ a ElRey lhes désse em seu lugar a Capella de Álmoster…»

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O Hospital Real das Caldas de Lafões
«(…) Manuel d'Azevedo Almeyda era filho de Sebastião Rodrigues Azevedo e Isabel d'Almeyda, da Casa da Cavalaria, pelo que, com ele, a provedoria voltou à família dos Almeydas, após a breve interrupção, no tempo do Cardeal-Rei. Em 14 de Outubro de 1592, o Desembargo do Paço repete todas as obrigações dos administradores das Caldas, nomeadamente das quatro camas para os pobres; de sustentar à sua custa um Banheiro que tinha o cuidado de temperar as águas aos enfermos; de cada um dos 24 homens repartidos pelos 24 casais ter disponível uma cama, ao preço de dois reais por noite, para quem viesse aos banhos; um clérigo para dizer missa e todos os ornamentos necessários ao culto; pagar a lâmpada acesa onde estavam os enfermos; reparar o Hospital de todas as ruínas e danificações.
Aqui se fala em 24 casais, o que não condiz com os 22 do Tombo de João V. Como vimos, é na carta de mercê a Fernão Lopes d'Almeyda que se estipula aquela obrigação dos 24 homens privilegiados, ainda que não se refira o número de casais. Mas tudo parece indicar que os 24 homens correspondiam aos 24 casais que constituiriam o Reguengo do Hospital. A ser assim, há lacuna no Tombo de João V. Teriam escapado dois casais a quem o organizou. Posteriormente, Filipe II deu a administração ao Real Colégio de S. Paulo em Coimbra, o que levou a Câmara de Lafões a levantar embargo, com base no facto de a haver possuído no tempo do Cardeal-Rei. O Colégio venceu o litígio, em 1611. Mas, pouco tempo depois, renunciou, devido aos cuidados de tal administração, não compensados por lucro tão reduzido. Pires Sylva refere-o, nos seguintes termos: ... como a administraçaõ das Caldas he sem lucro algum, & ocupação grave, que divertia os Collegiaes do seu estudo, pediraõ a ElRey lhes désse em seu lugar a Capella de Álmoster, o que ElRey lhes concedeo liberalmente (…) ficou a administração devoluta aos Juizes de fóra do dito Concelho [de Lafões] , como Ouvidores da Villa, & Caldas do Banho, atè ao tempo em que o Senbor Rey Pedro II, fez mercè, & doaçaõ della a Ayres Almeyda Sousa, senhor da mesma casa da Cavallaria, & descendente dos possuidores do mesmo couto, & Villa do Banho.
Foi a mercê concedida por alvará de 4 de Janeiro de 1676, seguida de carta de doação de 28 de Fevereiro do mesmo ano. Nesta data, Pedro era ainda Príncipe Regente e não Rei, como afirmam Pires Sylva e todos quantos o repetem. De resto, como pode ler-se na carta, Pedro intitula-se Príncipe, ainda que como rei actuasse: … D. Pedro (…) Faço saber (...) que por parte de Áires Almeida Sousa Sá, Fidalgo da Minha Casa Me Foi apresentado um Alvará por mim assinado (...) Eu o Principe (...) Hei por bem fazer-lhe mercê (...) da Villa e Coito dos Banhos (...) sendo seu provedor como fazia até agora o Juiz de Fora do Concelbo de Lafões, como Ouvidor da dita Villa e Coito, e como foram os antepassados do Suplicante.
Sabe-se por uma escritura datada de 26 de Fevereiro de 1684 que, durante esta provedoria, foi o Hospital sujeito a obras de ampliação: … em a Quinta da Cavalaria, junto à vila de Vouzela, do concelho de Lafões, nas casas da dita Quinta, onde eu Tabelião fui, estando aí presentes Aires Almeida Sousa, Fidalgo da Casa de Sua Majestade, Senhor da Vila e Couto dos Banhos e Provedor do Hospital das Caldas e Vila dos ditos Banhos, (...) e bem assim Manuel Ferreira (...) e António Lourenço Novo, moradores no lugar de S. Miguel do Outeiro, do termo da cidade de Viseu (…) e logo por eles foi dito (…) que ele dito Aires Almeida Sousa mandara pôr a pregão as quatro casas que se vão a fazer no Hospital dos Banhos na forma dos apontamentos que estão nos autos de arrematação da dita obra, (...) ele dito Manuel Ferreira se obriga a fazer a dita obra (...) e dá-la feita e acabada até ao fim de Setembro o primeiro que vem deste presente ano (...) e em preço e quantia de Noventa e cinco mil réis que tanto consta do auto de arrematação em que foi arrematada esta obra de pedraria». In António Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul, Antigas Caldas de Lafões, Palimage Editores, Viseu, 2002, ISBN 972-857-538-6.

Cortesia de PalimageE/JDACT

domingo, 5 de outubro de 2014

Antigas Caldas de Lafões. Termas de S. Pedro do Sul. Nazaré Oliveira. «… o qual Capellão haverá d’ordenado dous mil reais em cada hum anno (…) a ter nos ditos banhos hum calis de prata e huma vestimenta e todos os mais ornamentos e cousas que forem necessarias para se dizer missa e serviço do altar…»

Planta do edifício do banho
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O Hospital Real das Caldas de Lafões
«(…) Braamcamp Freire diz que o cargo de provedor das Caldas de Lafões parece ter sido criado de novo, ou então que não estava provido, pois, na carta de nomeação, não se faz referência ao antecessor de Fernão Lopes d’Almeyda. Vamos pela primeira hipótese. O cargo de provedor das Caldas não devia existir antes, porque deve ter resultado da criação do Hospital e a carta de nome ação eÍa, ao mesmo tempo, o primeiro regimento para a sua administração. À morte de Fernão Lopes d’Almeyda, a administração das Caldas e provedoria do Hospital passou para seu filho Duarte d’Almeyda, nomeado por carta de 11 de Janeiro de 1514, confirmada por João III, em 18 de Novembro de 1527. Assinale-se que este Duarte d’Almeyda não é o Decepado. É confusão que algumas vezes se tem feito. Entre outros, Esteves Pereira diz que Manuel I deu a provedoria das Caldas a Duarte dAlmeida, o Decepado. É erro. Àquela data, o Decepado já não era vivo e este Duarte d’Almeida é outro, posterior e bem identificado.
Baptista Sousa publica o texto da carta, que diz ter copiado de um título existente no Cartório de Diogo d’Almeyda d'A’zevedo Vasconcelos, da vilade S. Pedro do Sul. Nesta carta se lê: Dom Manuel (…) confiando nós na bondade e descrição e conciencia de Duarte d’Almeyda Fidalgo de nossa Casa, (…) o damos daqui endiante por Provedor, e admenistrador das Caldas e Celleiro, e couzas que a ellas pertencem que estão em o Concelbo terra de llafoens, e pella guiza e maneira. que o hera e tinha o dito Fernão Lopes d’Almeyda seu Pay... Seguem-se, textualmente repetidas, as obrigações impostas na carta de 1502. Da leitura de Baptista Sousa e, posteriormente, de Eduardo Santos, que transcreve Sousa, poderia ficar a impressão de que tais obrigações foram estipuladas, pela primeira vez, a Duarte d’Almeyda, quando, na realidade, o foram, como é lógico, ao primeiro provedor. Por morte de Duarte d’Almeydà, o rei Sebastião I, em 17 de Dezembro de 1557, concedeu o cargo de Provedor e Administrador das Caldas ao físico-mor do reino, Sebastião Rodrigues Azevedo, em absencia de Gonçalo d’Almeyda, senhor da Casa da Cavalaria, diz Pires Sylva.
Acrescentemos que o novo provedor era casado com Isabel d’Almeyda, irmã. De Gonçalo. Esta relação de parentesco não tem sido apontada pelos autores que sobre as Termas têm escrito, com excepção de Braamcamp Freire. E é importante, porque, não fora o facto de Sebastião Rodrigues Azevedo ser casado com uma irmã de Gonçalo d’Almeyda, ficaria por explicar a presença do físico-mor do reino na administração das Caldas e poder-se-ia pensar que, com ele, a provedoria deixara de pertencer aos Almeydas da Cavalaria. Estipula a carta de mercê que o novo provedor ficava com todas as obrigações anteriores e mais outras, nomeadamente, … ter hum Capellão que diga missa nos ditos banhos todos os domingos, e hum dia na semana, havendo nella dia santo de goarda (…) o qual Capellão haverá d’ordenado dous mil reais em cada hum anno (…) a ter nos ditos banhos hum calis de prata e huma vestimenta e todos os mais ornamentos e cousas que forem necessarias para se dizer missa e serviço do altar (…) e a ter em cada huma das quatro camas daclaradas na dita carta hum colchão e dous lençoes (…) e asy sera mais obrigado a repairar a fonte da agoa dos ditos banhos e os canos por que vem a elles, e asy as cazas e todo o mais que for necessario (…) e dara azeite em abastança que alumie as ditas cazas enquanto nellas houver enfermos.
No reinado do cardeal Henrique, certamente devido ao período conturbado que se viveu, a administração das Caldas esteve a cargo da Câmara de Lafões. Mas por pouco tempo, talvez por isso Pires Sylva não refere o facto, pois, em 14 de Julho de 1583, Filipe I, a requerimento de Manuel d’Azevedo Almeyda, filho do anterior provedor concede-lhe a administração: … e por lhe fazer mercê Ey por bem e me praz de lha fazer do cargo de Provedor, e administrador do dito Hospital em sua vida e asy e da maneira, e com todos os encargos e obrigaçoens, poderes e jurisdição, que com elle tinha o dito seu Pay por cujo felecimento vagou…» In Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), 2002, Palimage Editores, Viseu, ISBN 972-8575-38-6.

Cortesia de Palimage/JDACT

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

António Nazaré Oliveira. Antigas Caldas de Lafões. Termas de S. Pedro do Sul: Parte VI. «Ficava o provedor com a obrigação de ter na casa onde se tomam os banhos quatro camas para quatro leitos que estão na dita casa, os quais terão cada um o seu almadraque, seu cabeçal, dois lençóis, uma manta, uma cobertura de burel, para os pobres que às Caldas vierem»

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O hospital real das Caldas de Lafões
«Diz Sylva que, depois da morte do 4.º Duque, D. João II não nomeou outro, ficando o senhorio devoluto à coroa e a Câmara do Concelho do Banho administrava as Caldas. Não é correcta a afirmação. Se a Câmara administrou as Caldas, foi transitoriamente, pois, à morte de D. Diogo, seu irmão D. Manuel recebeu o senhorio de Viseu e, na carta de D. João II, vem explicitamente assinalada a doação de Lafões a «dom manuel meu muyto prezado e amado primo duque de Beja». Onze anos depois, a morte prematura do Príncipe Perfeito fez do Duque de Beja o Rei D. Manuel I, que passou o senhorio das Caldas de Lafões para seu filho, o Infante D. Luís.
De particular interesse se revestiu a presença de D. Manuel em terras de Lafões, porque dela resultaram importantes benefícios para as Caldas. Não está provado que ele tenha vindo fazer uso das águas, embora se diga que veio tratar dos seus males herpéticos. Pires da Sylva diz apenas:
  • «…consta que o Senhor D. Manoel esteve em estes banhos; mas ainda da tradição de alguass pessoas velhas, que dizem viera, e se fechára com parede a porta por onde elle entrára. (...) Estando o Senhor Rey D. Manoel na Vílla de Vouzella, que dista da do Banho hum só quarto de legoa (...) bem se póde crer que vio estas Caldas de Alafoens, pois a maravilha da agua he grande, e a pressa d'ElRey não era muita».

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Tivesse ou não feito uso das águas, certo é que o Rei Venturoso soube compreender o seu grande valor e as necessidades da região e dotou a Vila do Banho com o Hospital Real das Caldas de Lafões, com património próprio para o seu sustento. A este respeito, escreve Pires da Sylva:
  • «... veyo o Senhor Rey D. Manoel, & vendo a falta que havia de hum Hospital, para nelle se recolherem, & curarem os pobres, mandou que se fizessem alguns aposentos, e forão os da varanda do patio, sobre cuja porta estão suas armas, & para que se reparassem estes banhos, dotou o Hospital com hum Reguengo, a que chama Seleiro, segundo o foral, que o dito Senhor mandou passar, e está na mão do Escrivão da Camara do Couto, & Villa do Banho, que pelos nossos tempos hum ano por outro vem a render quarenta mil reis, com os quaes se tem feito todas as mais casas, que se achão junlo ao banho, e os reparos, a, que chega tão limitada renda, e fora muito mais limitada, se o Senhor Rey D. Manoel não vira com seus olhos a necessidade do reparo de tão proveitosos banhos».
O foral, concedido por D. Manuel em 24 de Julho de 1575, regista os «casaaes Reguemgueiros que ha no dito Reguemgo das Caldas». São esses casais, ainda que alguns com nomes diferentes, como é natural pelo tempo decorrido, que vamos encontrar, mais tarde, no Tombo que D. João V mandou organizar e que transcrevemos de Baptista de Sousa:
  • “Patrimonio do Hospital do Banho, dado por El-Rei D. Manuel, como consta do Tombo, a que El-Rei D. João V mandou proceder em 1731, e se acabou em 1740”.

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Funcionava o Hospital nas casas do conjunto termal, que, vindo do tempo dos romanos, foi sofrendo alterações ao longo da Idade Média e D. Manuel mandava agora ampliar, com a construção de alguns aposentos. A sua criação representa uma profunda mudança na estrutura e modo de funcionamento das Caldas, a começar pelo uso das águas, que até então fora livre e passou a estar sob o controlo do Hospital. D. Manuel, recebido na Casa da Cavalaria, em Vouzela, concedeu a administração do Couto e Villa do Banho e a Provedoria do Hospital ao senhor da Casa, Fernão Lopes d'Almeyda, cujo filho, Duarte d'Almeyda, era monteiro-mor do Infante D. Luís. A mercê foi concedida em 4 de Novembro de 1502, com o consentimento do Infante, que tinha o senhorio das Caldas. 
«Ficava o provedor com a obrigação de ter na casa onde se tomam os banhos quatro camas para quatro leitos que estão na dita casa, os quais terão cada um o seu almadraque, seu cabeçal, dois lençóis, uma manta, uma cobertura de burel, para os pobres que às Caldas vierem. Ficou ainda obrigado a pôr lá na casa um homem por sua conta, encarregado de dar camas e de temperar a água para os que se quiserem banhar, e a quem o provedor dará pelo seu trabalho o salário que lhe parecer. Pelo mesmo documento, constituiu o rei o Couto do Banho, onde viviam vinte e quatro homens privilegiados, entrando neles alguns homiziados, se os lá houver, os quais todos gozarão do privilégio que D. Manuel havia dado às Caldas, e serão obrigados a ter cada um uma cama para agasalhar os que aos banhos forem, e por elas não levarão mais de dois reais por cada noite e cada pessoa que lá ficar. No caso de as pessoas que no lugar das Caldas vivam ao tempo não terem meios para suprir ao ordenado, então possa o provedor tirar esses homens e pôr outros no seu lugar nas requisitas condições. Ordena também que ponha lá, pão, vinho, palha e cevada para venderem aos que forem aos banhos pelo costume e estado da terra. Àqueles homens que o provedor tirar da terra, se porventura forem obrigados a algum reguengo do celeiro, os desobriga de todos os encargos, tanto a eles como a seus herdeiros, podendo ir dali para onde lhes aprouver. Aos homens que ficarem a viver na terra, manda o provedor lhes dê a cada um, um casal e mais não. Mais determina ao provedor que veja os tombos e escrituras, procure as terras que andam roubadas e lhes ponham marcos». In António Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), 2002, Palimage Editores, ISBN 972.8575-38-6.
 
Cortesia de Palimage/JDACT

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

António Nazaré Oliveira. Antigas Caldas de Lafões. Termas de S. Pedro do Sul: A Presença de D. Afonso Henriques. Parte V.: «E outras casas existiram, construídas ou melhoradas, para albergar gente de qualidade, especialmente durante as reuniões da Cúria Régia. Além da "Calçada do Paço", existiu também a “Praça do Paço”, designação que se manteve até tarde, pois, em 1889, num auto de arrematação lavrado na Câmara de S. Pedro do Sul…»

Entrada da piscina D. Afonso Henriques.
Desaparecida com o temporal de 1995.
Foto de Edgard Vasconcelos
Cortesia de palimage

A Presença de D. Afonso Henriques
«Se assim fosse, tudo levaria a crer que seriam restos da casa em que se hospedou o Rei. Desconhecemos se essa tradição tem algum fundamento, nem sabemos se tal data lá está ou algum dia lá esteve. E, se assim fosse, teria essa data algo a ver com a presença de D. Afonso Henriques? Que data seria essa?
A verdade é que existiu o Paço, construído ou não para albergar o Rei. O Paço podia até ser a casa que fora do falecido senhor de Lafões, D. Fernando Pedro, casa que poderá ter sofrido obras de adaptação, porventura ampliação, e que até podia ser a mesma que, cinco séculos mais tarde, Pires da Sylva designa por “Casa de D. Joseph”.

E outras casas existiram, construídas ou melhoradas, para albergar gente de qualidade, especialmente durante as reuniões da Cúria Régia. Além da «Calçada do Paço», existiu também a «Praça do Paço», designação que se manteve até tarde, pois, em 1889, num auto de arrematação, que mais adiante analisaremos detalhadamente, lavrado na Câmara de S. Pedro do Sul, fala-se na «antiga rua que da Capella da Senhora da Saude segue para a antiga praça do Paço». Seria, talvez, o Largo já parcialmente ocupado pelo Balneário cuja construção havia começado cinco anos antes e que haveria de tomar o nome de «Rainha D. Amélia».


Edifício do antigo balneário e hospital real das Caldas de Lafões.
Foto de Simão Almeida
Cortesia de palimage

Voltemos a D. Afonso Henriques. Ignoramos como se gerou a peregrina ideia de que o rei se alojou nas Casas da Comenda de Ansemil. É uma fantasia que começa a aparecer repetida, pelo menos em escritos de divulgação e propaganda turística. No número 7 do “Guia do Turismo de Habilação”, p.44, que integrou o “Expresso” de 3 de Julho de 1999, ao tratar-se da Quinta da Comenda, cometem-se dois erros graves, que importa corrigir. Ali se escreve taxativamente:
  • «Aqui [Casa da Comenda] se alojou o Rei D. Afonso Henriques quando se deslocou às Termas de S. Pedro do Sul para se tratar de uma fractura que sofreu numa perna durante a batalha de S. Mamede».
Primeiro erro: D. Afonso Henriques não fracturou a perna na batalha de S. Mamede, que foi em 1128. Era então um jovem de 19 anos e ainda nem era rei. O desastre foi em Badajoz, em 1169, quando o rei já era sexagenário.
Segundo erro: Não tem o mínimo fundamento documental, ou sequer de tradição, a afirmação de que D. Afonso Henriques se haja instalado na Casada Comenda, que, de resto, nada tinha da construção do séc. XVIII que chegou até nós.

A escassez de dados não nos permite conhecer todas as transformações que nas velhas Caldas de Lafões, se terão operado. Mais de oito séculos passados, imaginemos o que terá significado, para a localidade e para a região, a presença demorada do real enfermo, com os seus acompanhantes, toda a movimentação provocada pelas reuniões da Cúria Régia, largamente participadas, como já se viu. Tudo isto, forçosamente, haveria de repercutir na vida do Concelho do Banho e das velhas Caldas de Lafões, que irão alcançar maior desenvolvimento, não só pelas obras de beneficiação que receberam, como pela projecção que lhes iria dar a preferência do 1.º Rei de Portugal.

Cortesia de palimage

O Hospital Real das Caldas de Lafões
Depois de D. Afonso Henriques, o conjunto termal de Lafões vai continuar a ser, durante séculos, o principal centro assistencial da região. Cada vez mais, as suas águas são procuradas por nobres e plebeus, ricos e pobres, que ali buscam alívio para os seus males. Tem-se escrito que por lá terão passado D. Dinis, D. João I e sua mulher, o Duque de Lencastre, D. Duarte e sua mulher, o Infante D. Pedro, o Infante D. Henrique e os Duques de Viseu seus sucessores. Não sabemos se isto é certo quanto a todas estas personagens, mas no que respeita à família de Avis, dada a sua relação com Viseu e com Lafões, é muito natural que, pelo menos, alguns lá tenham estado, de simples visita ou em tratamentos. Com a doação do senhorio de vastos domínios no território da comarca da Beira, feita por D. João I ao Infante D. Henrique, em 1411, e a posterior criação do Ducado de Viseu (1415), o Banho passou a estar profundamente ligado aos príncipes de Avis. Os documentos são claros. Desde logo, no título e no texto da carta de 1411, Lafões é a primeira terra mencionada:
  • «... doaçam da terra e julgado de lafooes e do julgado e terra de besteiros ( ..) E doutras muytas villas julgados concelhos jnsertos nesta carta a jnfante dom amrique».
Pires da Sylva refere um livro velho, que dizia existente na Misericórdia de Vouzela, do qual consta uma escritura que termina:
  • «Joanne Anes Tabaliaõ do Infante D. Henrique em terra de Alafoens a escrevi. Villa do Banho na Casa da Rellaçom, estando ahi em Rellaçom Joanne Affonso, & Valentim Gonçalves, Juizes ordinários».
À morte do Infante D. Henrique, passou o senhorio do Banho aos Duques de Viseu seus sucessores. De imediato, a seu sobrinho D. Fernando, 2.º Duque, herdeiro dos seus bens e títulos. Deste, a seu filho D. João, 3.º Duque, que teve vida efémera e morreu sem descendência, passando o senhorio a seu irmão D. Diogo, o Duque conspirador que morreu apunhalado às mãos do rei». In António Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), 2002, Palimage Editores, ISBN 972.8575-38-6.

Com a amizade de MR
Cortesia de Palimage/JDACT

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Antigas Caldas de Lafões. Termas de S. Pedro do Sul: A Presença de D. Afonso Henriques. Parte IV. «Não é certo que o Rei tenha mandado construir um paço para sua habitação. Pires da Sylva não o diz, antes diz que o Rei se aposentou na casa que, ao seu tempo, dele, Pires da Sylva, era designada por «casa de D. Joseph», por nela residir, em tempo de banhos, D. José de Meneses, senhor do reguengo de Calvos. Mas, de facto, ainda hoje é conhecida por calçada do paço, a rua que passa nas traseiras da Pensão Avenida e chamam "paço" a uma casa ali existente»

Cortesia de palimage

Não são «estórias». É História rigorosamente documentada!

«Também o «Roteiro Arqueológico da Região de Turismo Dão Lafões», publicado em 1994, referindo-se às Termas, na página 141, diz que ali «teria estado» D. Afonso Henriques. A forma verbal usada é imprópria, porque parece pressupor alguma dúvida. O reparo aqui fica. Possa ele servir para que, em futura edição, se substitua «teria estado» por «esteve».
Ocorre perguntar onde se terão alojado o régio visitante e a sua comitiva e que obras terão sido feitas.
Já se viu que o Rei terá mandado reconstruir a gafaria e a albergaria. Segundo a tradição, teria, ainda, mandado construir uns «estaus» e, diz Oliveira Mascarenhas, «um largo cazarão de banhos com uma piscina unica onde, na mesma água, entravam 40 e mais pessoas a um tempo, affectadas de differentes enfermidades!».

Alguns dados fornecidos por Mascarenhas deixam dúvidas ou, como já vimos, são mesmo incorrectos. Sobre a piscina, escreve Pires da Sylva:
  • «Dado que os Romanos, ou antes delles os antigos Lusitanos fossem authores da fundação primeva, não deixamos de deve ao nosso primeiro Rey o Senhor D. Affonso Henriques, a do edifício, que hoje (1696) se vê nos banhos de Alafoens, e correria com a obra D. Fernando Pedro. Assim o testificão huns letreiros de letra Gotica, que em muitas pedras se achão, e todos vem a dizer, Affonso I, e Fernando Pedro (...) e alguns signaes de Cruz; o que tudo mostra ser a obra já de christãos, e dos sobreditos; e se a obra não mostra ser real em ficar por acabar, he, porq as guerras, em que então estava o novo Reyno, não davão lugar a se aperfeiçoar».
Piscina D. Afonso Henriques
Cortesia de palimage

Na realidade, esses sinais lá estão em vários lugares. Qualquer observador atento poderá descobri-los. Mas, ainda que admitíssemos que a piscina foi construída por D. Afonso Henriques, e não foi, a hipótese de tais sinais significarem Fernando Pedro não tem consistência, porquanto este Senhor de Lafões não aparece em qualquer dos documentos de 1169, porque, nessa data, já era morto. Também nada têm a ver esses sinais com um Pedro Fernandes, mordomo de D. Sancho, que aparece em diplomas lavrados no Banho, nomeadamente na carta de couto de Oliveira de Frades.

Baptista de Sousa analisou minuciosamente esses sinais, que encontrou também noutros locais, designadamente em pedras dos arcos da ponte. Reprodu-los e considera que não se trata de monogramas. De facto, dificilmente se poderiam considerar como tal. Seriam, antes, marcas usadas pelos lavrantes e de numeração das pedras. Depois de várias considerações, conclui:
  • «Não servem pois de fundamento, para se acreditar, que foi o nosso primeiro Rei o Fundador do Hospital; nem era de crer, que El-Rei no estado de precisão, em que se achava, esperasse que se fizesse hum edifício tal, para hir nelle pousar, havendo na parte do Reino, que elle possuia, mais Caldas, posto que menos energicas».

Cortesia de palimage 

Eduardo dos Santos, a este respeito, limita-se a repetir Sousa, mas conclui, a nosso ver, menos bem, que, «embora faltem provas a favor também as não há contra a opinião de ter sido D. Afonso Henriques quem começou o velho edifício». Esta opinião está hoje ultrapassada. Há provas de que não foi. Já vimos que a Arqueologia revela que o edifício termal é obra dos romanos e que a piscina que mais tarde tomou o nome do rei foi por eles construída, em substituição de uma outra desactivada, aquando das grandes alterações introduzidas nas Termas, no século I. posteriormente e ao longo dos séculos, novas remodelações foram feitas e, sendo natural que, para receber tão importante personagem, se tenham feito obras de beneficiação, certo é que a piscina onde o 1º Rei de Portugal tomou banhos vinha dos romanos.
Não é certo que o Rei tenha mandado construir um paço para sua habitação. Pires da Sylva não o diz, antes diz que o Rei se aposentou na casa que, ao seu tempo, dele, Pires da Sylva, era designada por «casa de D. Joseph», por nela residir, em tempo de banhos, D. José de Meneses, senhor do reguengo de Calvos.

Cortesia de palimage

Segundo outros, o Rei ter-se-ia hospedado em casa de D. Fernando Pedro, que, diz o foral do Banho, «governava toda a terra de Lafões». É bem possível que o Rei tenha ficado naquela casa, mas, a ter sido assim, há que fazer uma correcção ao que se tem escrito. Deverá, então dizer-se que ficou na casa que fora de D. Fernando Pedro, porque este, como vimos, já era morto em 1169 e, nesta data, no «comando» de Lafões, aparece um tal Sancho Nunes, como pode ver-se, na já citada carta de couto de oliveira de Frades. Tinham passado 17 anos, após a concessão do foral. Pelo facto de, ao longo do tempo, continuar a chamar-se «Calçada do Paço», a uma rua das Termas, conclui Mascarenhas que o Rei mandou construir um paço. Pouco vale a razão invocada. Bastava a circunstância de ter habitado uma qualquer casa para que lhe chamassem paço. De facto, ainda hoje é conhecida por calçada do paço, a rua que passa nas traseiras da Pensão Avenida e chamam «paço» a uma casa ali existente.
Mais nos dizem que a entrada dessa casa teria gravada uma data muito antiga, que, se não desapareceu, estará coberta pela caliça. Pretendem alguns relacionar essa data com a presença de D. Afonso Henriques». In Ana Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), 2002, Palimage Editores, ISBN 972.8575-38-6.


Com a amizade de MR.
Cortesia de Palimage/JDACT

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Antigas Caldas de Lafões.Termas de S. Pedro do Sul: A Presença de D. Afonso Henriques. Parte III. «Pinho Leal refere a vinda em 1175, ano em que, diz ele, quebrou a perna em Badajoz. É um claro erro, pois o desastre de Badajoz foi em 1169. O mais curioso é que Pinho Leal diz que, segundo Viterbo, o rei veio em 1169. É evidente que Viterbo é que está certo»

Cortesia de palimage

Com a devida vénia a Ana Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), 2002, Palimage Editores, ISBN 972.8575-38-6.
«Fosse ou não ali concebido tal plano, certo é que a Cúria Régia reuniu várias vezes em Lafões.Como se vê pelas datas dos documentos, a permanência do Rei no Banho foi demorada, pois, sendo certo que lá se encontrava em Setembro, em Outubro e continuava, pelo menos, a 13 de Novembro, se não houve interrupções, é legítimo concluir por uma presença contínua, num mínimo de dois meses. Problema que pode pôr-se é o de saber se terá voltado aos banhos. Já vimos que Pires da Sylva fala nos banhos da Primavera seguinte, mas nenhuma outra fonte ou documento o refere.
Pinho Leal refere a vinda em 1175, ano em que, diz ele, quebrou a perna em Badajoz. É um claro erro, pois o desastre de Badajoz foi em 1169. O mais curioso é que Pinho Leal diz que, segundo Viterbo, o rei veio em 1169. É evidente que Viterbo é que está certo. O erro de Pinho Leal ficou e alguns autores o têm repetido. Fá-lo, por exemplo, Correia de Azevedo, numa pretensa monografia sobre Lafões, que mais tem por objectivo louvar os vivos do que fazer história, amontoado de informações colhidas a esmo, não raro carente de rigor e sem um mínimo de estrutura e metodologia científica. Com a agravante de o autor afirmar que Pires da Sylva diz que D. Afonso Henriques frequentou o Banho em 1175, depois, de uma queda em Badajoz, quando a verdade é que o antigo médico das caldas (fins do séc. XVII) nunca disse tal coisa. In Ana Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), 2002.

Cortesia de palimage
Antes, cita documentos ali lavrados e correctamente datados pela Era de César, ainda que reportando-os a 1189 da Era de Cristo, o que, cremos, se deve a gralha tipográfica, pois deveria ser 1169. Mas nunca escreveu 1175. Na realidade, quem escreve o erro é, mais tarde, Pinho Leal.
Eduardo dos Santos, num primeiro trabalho diz, correctamente, que o Rei veio em 1169,mas acrescenta, com alguma confusão na citação dos documentos, que voltou em 1175. Verdade que, em publicação posterior do mesmo trabalho refundido, deu-se conta do lapso, suprime o ano de 1175 e aponta o facto com inteira correcção.
Em Suplemento do Diário de Notícias, Francisco Hipólito Raposo, num interessante artigo sobre o património histórico e artístico de S. Pedro do Sul, depois de afirmar que D. Afonso Henriques veio às Caldas por mais que uma vez, refere o ano de 1175. É o erro de Pinho Leal a repetir-se! Se assim tivesse acontecido, é natural que disso houvesse notícia. Dificilmente Pires da Sylva deixaria de o assinalar na sua «Chronographia Medicinal das Caldas de Alafoens», 1696, a mais antiga e completa publicação. A verdade é que não se conhece qualquer documento que o prove ou, sequer, o sugira.

Cortesia de palimage
Parece-nos, pois, errado dizer que o Rei voltou em 1175. Mas claramente errado é dizer que veio pela primeira vez naquela data e que, nesse ano, foi o desastre de Badajoz.
E, antes do desastre, terá D. Afonso Henriques utilizado as águas do Banho?
Partindo da afirmação de Duarte Galvão, na crónica de D. Afonso Henriques, de que o príncipe teria nascido aleijado das pernas, já se tem admitido que, naquelas águas, menino ainda, teria encontrado cura. Para além de tudo o que de fantasioso existe sobre a pretendida enfermidade do príncipe, não se conhece qualquer documento que deixe, sequer, supor a vinda de D. Afonso Henriques às Caldas de Lafões, antes do desastre de Badajoz. A única certeza que fica é, pois, a da sua presença em 1169.

Perante tantos testemunhos documentais, causa alguma estranheza que ainda se escreva, em artigo publicado na revista do Inatel «Tempo Livre», (n.º 115, Março 2001, p. 16): «As águas da Vila do Banho teriam curado, a acreditar nas estórias (sic) as mazelas da perna de D. Afonso Henriques».
Com a amizade de MR.
Cortesia de Palimage/JDACT

sábado, 16 de abril de 2011

Antigas Caldas de Lafões.Termas de S. Pedro do Sul: A Presença de D. Afonso Henriques. Parte II. «Nas Caldas de Lafões, reuniu várias vezes a Cúria Régia, com altos dignitários da corte e bispos. ...poder-se-á concluir que a cúria reunia já com assinalada regularidade, da maneira mais simples ou com toda a solenidade, em Lafões, quando foi lavrado este primeiro diploma»

Cortesia de palimagem

Com a devida vénia a Ana Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), 2002, Palimage Editores, ISBN 972.8575-38-6.
A Presença de D. Afonso Henriques
Nas Caldas, teve o Rei a visita de seus filhos e, provavelmente, a presença permanente da filha mais nova. Lê-se na carta de couto de Oliveira (Ulveira» de Frades: «Eu Afonso rei de Portugal, juntamente com meus filhos, isto é, rei D. Sancho e rainha D. Teresa na presença de testemunhas idóneas roboramos este documento com as próprias mãos e fazemos estes sinais». Seguem-se três cruzes e as assinaturas das testemunhas e confirmantes, entre os quais, as mais destacadas personalidades locais:
Sancho Nunes, governador de Lafões, Cerveira, que foi alcaide de Coimbra e fundador da Albergaria de Reigoso, Suarez Fernandes, juiz de Lafões, Mendes Pedro, arcediago e presbítero de S. Pedro do Sul, Suarez, presbítero de Várzea. Outros documentos referem a presença de D. Sancho, D.Urraca e D. Teresa, que padecia de «arrotos chocos». Só esta deve ter tido permanência demorada, talvez constante. D. Sancho tinha já responsabilidades governativas e D. Urraca estava casada com o rei Fernando II de Leão.

Cortesia de palimagem
Nas Caldas de Lafões, reuniu várias vezes a Cúria Régia, com altos dignitários da corte e bispos. No primeiro diploma que citámos, intervêm, para além dos filhos D. Sancho e D. Teresa, o arcebispo de Braga, D. João Peculiar, ligado a Lafões pela fundação do Mosteiro de S. Cristóvão, o bispo do Porto, D. Pedro, o bispo de Coimbra, D. Miguel, o bispo de Viseu, D. Gonçalo, o bispo de Lamego, D. Mendo, o alferes-mor Fernando Afonso, o vedor da casa do rei Conde Vasco, o vedor Pedro Fernandes e o alferes-mor Nuno Fernandes da casa de D. Sancho, o «tenente, da Estremadura», Soeiro Mendes.

Referindo-se a este documento, escreve o Professor António Cruz: «E porque nada menos de cinco prelados figuram também como intervenientes, poder-se-á concluir que a cúria reunia já com assinalada regularidade, da maneira mais simples ou com toda a solenidade, em Lafões, quando foi lavrado este primeiro diploma».

Cortesia de palimagem

E, na carta de couto de metade da vila de Midões, passada à Sé de Coimbra, no mês de Novembro, é ainda maior o número de testemunhas e confirmantes. Para além de todas as personalidades referidas no primeiro documento, estiveram ainda presentes: os bispos de Tui, de Lisboa, de Évora, o prior de Santa Cruz de Coimbra, o abade de Lorvão, os Mestres Alberto, Mido e Raimundo, etc.

Tudo isto nos dá uma ideia da importância de tais reuniões. «As mais qualificadas pessoas, fácil é deduzir, se congregavam em Lafões, no mês de Novembro de 1169; toda a cúria régia e, com ela, prelados diocesanos e de mosteiros, autoridades civis e militares, e três distinguidos com o título honorífico de magister, quando não, algum deles, mestre de verdade».

De facto, ali foram tomadas decisões de importância nacional, como é o caso da doação à Ordem do Templo da terça parte dos bens que viessem a ser conquistadas para além do Tejo, o que, na opinião autorizada de António Cruz, «permite intuir que el-rei, assistido pela sua cúria e quando fixado em Lafões, aí concebeu, plausivelmente, novo plano de acção, para que daí partisse nova cruzada». In Ana Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), 2002.
Com a amizade de MR.

Cortesia de Palimage/JDACT

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Antigas Caldas de Lafões.Termas de S. Pedro do Sul: A Presença de D. Afonso Henriques. «A vinda do monarca vai alterar a vida das velhas Caldas. Quando retirava da praça de Badajoz fracturou a perna direita, ao bater com ela no ferrolho de uma porta. Entre os físicos da época, crê-se que residente ou mesmo natural de Lafões, que teria aconselhado as águas...»

Cortesia de palimagem

Com a devida vénia a Ana Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), 2002, Palimage Editores, ISBN 972.8575-38-6.

A Presença de D. Afonso Henriques
«A partir do século XII, com a fundação da nacionalidade, as Caldas de Lafões afirmam-se como as mais importantes do Portugal nascente. As virtudes terapêuticas das suas águas são procuradas por nobres e plebeus.
A vinda de D. Afonso Henriques vai alterar por completo a vida das velhas Caldas. É sabido que o rei português, quando retirava da praça de Badajoz, atacado pelo genro, fracturou a perna direita ao bater com ela no ferrolho de uma porta. Ficou a sofrer da perna. Entre os físicos da época, teria aparecido um, crê-se que residente ou mesmo natural de Lafões, que teria aconselhado as águas. Dizem outros que o conselho teria vindo de D. Fernando Pedro, membro da Cúria Régia e senhor de Lafões. Hipótese de rejeitar, porque este nobre, à data, já era morto. Como quer que tenha sido, o primeiro rei, meses depois do desastre e ainda no mesmo ano (1169), veio às Caldas e, no dizer de Pires da Sylva, «com os banhos do Outono e primavera seguinte (?) ficou tão são, que ficou capaz de vencer muitas mais batalhas». Isto acrescentou o médico das Termas. Mas, a darmos crédito a Duarte Galvão, depois do desastre, o rei «nunqua mais quis, ou não pôde, talvez!, cavalgar en besta (…) andando em colo de homens, e outras oras em carros». Ambos terão exagerado. Parece que o rei não terá ficado tão são como diz Sylva, nem tão inválido como diz Galvão.

Cortesia de palimagem
Quanto aos banhos do Outono, não há a mínima dúvida. Atestam-no, as datas dos documentos ali lavrados. E não são poucos. Relativamente aos banhos da primavera seguinte, não há qualquer documento nem conhecemos outra fonte que ao refira, pelo que pomos muita reserva à afirmação de Pires da Silva, que, para muitos, erra num ano a data do cerco de Badajoz e faz mal a redução da Era de César à Era Cristã, a menos que se trate de erro tipográfico.
Em Setembro de 1169, o rei já estava em Lafões. Ali foram lavrados documentos que claramente o referem e mostram que, por mais que uma vez, ali se reuniu a Cúria Régia:
  • Escritura de doação de terras, em Fafe e Guimarães, a uma D. Sancha Pais, que termina: Facta carta apud Alafoen mense Septembrio Era Mª CCª VIIª.
  • Carta de doação à Ordem do Templo da terça parte dos bens que viessem a ser conquistados para além do Tejo, onde se lê: Facta scriptura mense Septembrio apud Alafoen Era Mª CCª VIIª.
No mês seguinte, o rei continuava nos banhos. Refere Viterbo que, no mês de Outubro, estando em Lafões, confirmou à Ordem do Templo a doação dos castelos de Cardiga e Tomar.

Cortesia de palimagem
E, em Novembro, a corte permanecia em Lafões. Novas reuniões da Cúria e novos documentos ali foram lavrados:
  • Uma doação feita à Sé de Zamora.
  • carta de couto, passada à Sé de Coimbra, de metade da vila de Midões, no concelho de Tábua, que termina: «Facta. est huius cauti firmitudo et confirmata apud Alafoe ldus Nouembris Era M.ª CC.ª VIIª».
  • carta de confirmação da doação e de couto de Oliveira de Frades a Santa Cruz de Coimbra, que diz: «Facta. est buius cauti firmitudo mense Nouembrio Era M.ª CC.ª VII.ª quando rex ueuit de Badalioz et iacebat infirmus in balneis de Alafoen», o que significa, em termos de data, «no mês de Novembro na era de 1207 quando o rei veio de Badajoz e estava enfermo nos banhos de Lafões».
Todos os documentos têm a data de 1207. Vem a propósito corrigir um erro cometido por Oliveira Mascarenhas, quando, ao citar este documento escreve: «Ha aqui um erro importantissimo, um visivel anachronismo a atender. Vê-se da escritura que D. Affonso Henriques estivera nas «Caldas de Lafões, em 1207, quando é certo, incontroverso, que este monarcha fallecera no anno de 1185»!
Não há qualquer erro. Quem errou foi Mascarenhas, que esqueceu, se é que não ignorava, que a data de 1207 se refere à Era de César, o que corresponde, precisamente, a 1169 da Era Cristã. E vai mais longe. Atribui as culpas àqueles que usam de «pouco cuidado e escrupulo na trasladação dos documentos». In Ana Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), 2002.

Com a amizade de MR
Cortesia de Palimage/JDACT

quarta-feira, 30 de março de 2011

Banho ou Caldas de Lafões: São Pedro do Sul. «A designação de Piscina de D. Afonso Henriques, assente em estruturas romanas preexistentes, relacionar-se-á com uma certa tradição secular, segundo a qual o monarca teria frequentado as termas pelas capacidades das suas águas. O interesse arqueológico pelo sítio teve sobretudo lugar a partir de meados dos anos cinquenta do século passado, por mão de Fernando Russell Cortez, que veio a ser director do Museu de Grão Vasco»

Fundo da piscina Afonsina
Cortesia de IGESPAR

«Mais conhecida por Banho, ou Caldas de Lafões, esta construção localiza-se no epicentro das actuais Termas de S. Pedro do Sul, cujas nascentes de água se situam na margem esquerda do rio Vouga.
Conhecido desde longa data, o sítio motivou especial interesse de estudiodos locais numa época em que tomavam maior feição e força no âmbito das análises históricas, artísticas e arqueológicas conduzidas um pouco por todo o território português, não poucas vezes patrocinadas por associações de índole local e/ou regional, à semelhança de todo um movimento registado no restante continente europeu desde, pelo menos, o dealbar do século XIX.

Não surpreende, por conseguinte, que aquele que poderá ser considerado como o primeiro grande estudo sobre o assunto viesse a lume ainda em finais da mesma centúria, por mão do escritor e periodista Joaquim Augusto de Oliveira Mascarenhas, numa época particularmente pontuada pela frequência termal, não apenas na sequência das mais recentes descobertas científicas no domínio da Medicina, como na esteira das práticas nobiliárquicas e da alta burguesia observadas além-fronteiras.


Cortesia de IGESPAR

Constituindo um dos complexos termais de origem romana mais bem conservados dos existentes no actual território nacional, as termas de S. Pedro do Sul, possivelmente correspondendo à romana Aquae Sulis, evocativa de Sulis, deusa da Cura relacionada com as fontes de água quente, ostentam uma monumentalidade compreensível à luz, tanto da qualidade das nascentes de águas sulfurosas e radioactivas (DIONÍSIO, Sant'Ana, 1984, p. 757), quanto da posição que deteria no sistema de rede viária.
  •  ... e se o sítio das termas não corresponde a um aglomerado urbano, este poderá ter sido o vizinho castro do Banho, distante escassas centenas de metros. (ALARCÃO, Jorge, 1990, p. 380).
Entretanto, a designação de Piscina de D. Afonso Henriques, assente em estruturas romanas preexistentes, relacionar-se-á com uma certa tradição secular, segundo a qual o monarca teria frequentado as termas pelas capacidades das suas águas, neste caso essenciais à cura do sofrimento que lhe causava a fractura sofrida após a retirada precipitada da malograda Batalha de Badajoz.


Cortesia de IGESPAR

A excelência termal revelou-se, em todo o caso, suficiente para que a estância fosse frequentada por outros soberanos portugueses, a exemplo de D. Manuel I, o Venturoso. Mas foi também o caso da Rainha D. Amélia, já em finais de oitocentos, razão pela qual as termas ficariam conhecidas por Caldas das Rainhas, pelo menos até 1910, ano da implantação da República (DIONÍSIO, Sant'Ana, Idem, p. 758).

O interesse arqueológico pelo sítio teve sobretudo lugar a partir de meados dos anos cinquenta do século passado, por mão de Fernando Russell Cortez, que veio a ser director do Museu de Grão Vasco, em Viseu. As escavações foram retomadas volvidas três décadas, decorrendo essencialmente ao longo da segunda metade dos anos oitenta.

As investigações então conduzidas determinaram que a piscina romana fora revestida a opus signinum, correspondendo, muito provavelmente, à zona de banhos frios, frigidarium, uma vez que parece encontrar-se destituída de vestígios da cobertura essencial no caso de se tratar da sala destinada à água tépida tepidarium, ou quente, caldarium. É possível, no entanto, que se tratasse do natatio, tanque de grandes dimensões tradicionalmente rasgado a céu aberto, cujas águas eram, neste caso, escoadas para o rio Vouga através do esgoto ainda visível na actualidade.

É um complexo termal romano composto por:
  • Tepidarium, 
  • Caldarium, 
  • Sudatorium, 
  • Laconicum (estufa seca), num conjunto de cinco piscinas.
(nota de JDACT)



Cortesia de IGESPAR

A análise dos aparelhos utilizados no levantamento dos alçados permite apontar o princípio do século I d. C. para um primeiro momento construtivo, e finais do século I/inícios do II para um segundo momento, dos quais se podem ainda observar elementos tão característicos desta tipologia arqueológica, como fustes, capitéis e lápides epigrafadas». In A Martins, IGESPAR.


Cortesia de IGESPAR/JDACT

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

António Correia de Oliveira: Grande poeta neogarrettista, foi um dos cantores do Saudosismo, juntamente com Teixeira de Pascoaes. Foi o primeiro português a ser nomeado para o Prémio Nobel em 1933

(1878-1960)
São Pedro do Sul
Cortesia de peregrinacultural.wordpress

O perfume
O que sou eu? – O Perfume,
Dizem os homens. – Serei.
Mas o que sou nem eu sei...
Sou uma sombra de lume!

Rasgo a aragem como um gume
De espada: Subi. Voei.
Onde passava, deixei
A essência que me resume.

Liberdade, eu me cativo:
Numa renda, um nada, eu vivo
Vida de Sonho e Verdade!
Passam os dias, e em vão!

– Eu sou a Recordação;
Sou mais, ainda: a Saudade.
António Correia de Oliveira, In «Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade»
Org. de José Fanha e José Jorge Letria, Lisboa, Terramar, 2002

A Preguiça
A Preguiça, inda de peito
Muito custou a criar!
Quase que morreu de fome,
Com preguiça de mamar.

Preguiça, já crescidinha,
Quando por seu pé andava,
Não era andar! mais par´cia
Que toda se espreguiçava…

Preguiça foi à lição:
Ler, escrever e contar?
Deixava a memória em casa,
Com preguiça de a levar!

Preguiça, foi confesar-se:
“Fez exame de consciência?”
“Não fiz, meu padre! mas faço-o
Amanhã … Tenha paciência.”

Preguiça aprendeu costura:
Mas, sempre que costurava,
Só para não pôr dedal,
Sempre os seus dedos picava.

A mãe ralhou à Preguiça
Porque se não penteara;
Torna-lhe ela: “Há quantos dias
É que a mãe não lava a cara?”

Preguiça, morta de sono,
Quase de sono morria:
Só por não fechar os olhos,
Quantas noites não dormia!

A Preguiça, muito a custo,
Fez a cama, e se deitou;
Para não mais a fazer,
Nunca mais se levantou.

A Preguiça abria a boca,
Coisa em que ela era mais certa:
Mas depois – p´ra não fechar -
Ficou sempre “Bôca-aberta”.

A Preguiça e o Desmazelo
Juntaram-se em casamento:
Levando os dois, em bom dote
Uma mancheia de vento.

Preguiça teve dois filhos:
Oh que santa geração!
A mais velha, Dona Fome;
O mais novo, Dom Ladrão.

Quando a Preguiça morrer;
Até o monte maninho,
Até fraguedos da serra
Darão rosas, pão, e vinho.
António Correia de Oliveira1879, de brasileirinho

Cortesia de miau

Cortesia de Escola EB 2 e 3, Esposende/Portal da Literatura/JDACT

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Mosteiro de S. Cristóvão de Lafões: Situado perto da Serra da Gralheira, entre Oliveira de Frades e S. Pedro do Sul. Um refúgio para quem deseje combinar descanso e requinte, no meio da Natureza

Cortesia de twenga

Passando a vila de Oliveira de Frades, e à medida que nos embrenhamos numa pequena estrada, a mancha florestal toma conta da paisagem. O serpentear do caminho que desce o vale só é quebrado por uma velha ponte, que nos obriga a atravessar calmamente o rio. Pouco depois, uma última subida faz-nos chegar ao nosso destino: o Convento de S. Cristóvão de Lafões.


Segundo os documentos históricos, o Couto de Valadares foi doado por D. Afonso Henriques ao mosteiro e a um dos seus primeiros abades, João Cerita. No entanto, pensa-se que os primeiros nomes relacionados com o local sejam os de Cristóvão João e de sua esposa, Maria Rabaldis, não se sabendo ao certo se foram responsáveis pela fundação do edifício ou apenas pelo seu restauro.
O Convento de São Cristóvão de Lafões ou Real Mosteiro de São Cristóvão de Lafões, fica situado num morro sobre a ribeira da Landeira, perto da Gralheira, no concelho de São Pedro do Sul e distrito de Viseu. A fundação deste convento, calcula-se que em 1123 pelos frades da regra dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, que aderiram logo em seguida à Ordem de São Bernardo ou Beneditinos. A fundação do mosteiro é anterior à fundação de Portugal, embora tenha sido totalmente reconstruído no século XVIII.
Foi o abade João Cerita que, juntando os eremitas que viviam isolados pelas encostas do Vouga  e com o apoio de D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, obteve licença para a sua construção.

Cortesia de geocaching
Alguns historiadores, são da opinião de que, o verdadeiro fundador do mosteiro foi João Peculiar e não João Cerita, atendendo a que João Peculiar era chamado, frequentemente, a desempenhar outras funções mais relevantes, ficou o mosteiro sob as ordens de João Cerita. Daí o seu nome estar associado à sua fundação.

Cortesia de snpcultura
Em 1163 o convento adere à ordem dos monjes cistercienses, como aconteceu a quase todos os mosteiros beneditinos. A sua igreja, depois de ter sofrido dois incêndios, foi reconstruída pela terceira vez em 1704, apresentando um plano octogonal.
Depois de «assistir» às lutas napoleónicas, foi encerrado em 30 de Maio de 1834, por ordem de Joaquim António de Aguiar que, por decreto, mandou fechar todos os conventos e casas religiosas, confiscando os seus bens para benefício do Estado. E assim teve início um longo período de degradação. Tudo foi vendido em hasta pública, à excepção dos objectos religiosos que foram entregues ao pároco local, e apesar dos proprietários sucessivos, o mosteiro nunca voltou a ser habitado e entrou progressivamente em ruína, ora destruído por incêndios, ora despojado de azulejos, pias de pedra, portadas e todo o seu travejamento de madeira.

Cortesia de somdagente
Actualmente este convento foi transformado em turismo de habitação, tendo para o efeito sido completamente recuperado, mas perdendo um pouco do seu aspecto secular. Encontra-se em vias de classificação pelo IPPAR.

«A natureza chama por si. Um dos maiores encantos deste mosteiro é a sua envolvente. Aqui a História está enquadrada por um imenso bosque de diferentes espécies arbóreas, com destaque para os carvalhos, que é um convite a caminhadas. Durante o Outono, os tons ocres dominam toda a paisagem, convidando-nos a um passeio junto à levada de água que corre mais abaixo, o local certo para ver todo o mosteiro de uma outra perspectiva». In Rotas e Destinos.

Cortesia de agenda

Cortesia de wikipédia/Rotas e Destinos/JDACT