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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Psicólogo no 31. O Lamento do Violino. Gabriel Rolón. «Vim do aeroporto directamente para cá. Sinto saudade de minha cama e preciso descansar. Ou você pensa, que comigo nunca acontece nada e sempre estou bem? Nada disso»

jdact e wikipedia

«(…) Entregue ao prazer doloroso, Pablo deixava de ser o intelectual brilhante, o psicanalista agudo que sempre tinha a resposta adequada para cada pergunta e controle sobre todas as suas emoções. Nesse transe, era somente Pablo, um homem que gozava desesperadamente e ao qual só ela era capaz de fazer sentir dessa maneira. Mas, infelizmente, para Alejandra, ele também tinha o poder de descontrolá-la, de levá-la em um instante do prazer à angústia. Quem sabe não fosse outro o motivo pelo qual havia decidido deixar sua casa em Buenos Aires para instalar-se naquela pequena cidade a mais de mil quilómetros de tudo o que até este momento fora sua vida. Talvez fosse somente pela esperança de que cada um desses quilómetros a distanciasse de Pablo, da dor e da degradação de que ele era capaz de causar. Porque, de sua parte, ela também deixava de ser a mulher lúcida e sensível para converter-se em uma fêmea que se submetia totalmente a todos os seus caprichos. E gostava disso. Por isso, nessa noite, quando tudo se concluiu, ficou encolhida como um feto sobre a cama, chorando em silêncio. Porque já não haveria mais Pablo para ela. Sabia que iria sentir saudade de forma exagerada, contudo, sabia também que era impossível tentar o que quer que fosse, qualquer algo a mais. Já haviam se machucado demais. Alejandra não tinha como fazer mais nada para evitar e, imersa no jogo, também o havia ferido. Muito a seu pesar, ainda que por custo de sua inocência, de sua verdade. Estava arrependida, mas agora já era tarde. Por isso, ao partir, não quis acordá-lo. Vestiu-se em silêncio e apenas se atinou a olhá-lo antes de sair do quarto. Lá fora, um insistente chuvisco caía sobre Buenos Aires; relâmpagos iluminavam o céu. Lá dentro, um homem, seu homem, chorava nu e aflito sobre a cama. Quando saiu para a rua, o frio da noite bateu em seu rosto. A chuva fraca era contínua e gelada. Enfiou a chave dentro de um envelope com o nome dele, jogou-o na caixa de correio da entrada e se foi de sua vida para sempre. Faz um ano. O tempo é implacável.
Pablo olha para seu relógio. São nove da noite e, em geral, a essa hora se despede do último de seus pacientes. No entanto, acaba de ver uma pessoa na sala de espera. Olha para ela e sorri, cortês, antes de voltar a entrar em seu consultório. Helena, sua assistente, segue-o. Quem é?, pergunta Pablo. É a garota da qual falei hoje pela manhã. Você me disse para lhe dar um horário para uma consulta. Sim..., mas a esta hora? Ela disse que era urgente. Você já sabe como é..., disse Pablo. Sempre é urgente. Sim, mas ela estava muito angustiada, deu pena. E de mim, você não sente pena? Acabo de chegar de uma viagem de trabalho e hoje é um dia especialmente difícil, fez uma pausa quase imperceptível. Vim do aeroporto directamente para cá. Sinto saudade de minha cama e preciso descansar. Ou você pensa, que comigo nunca acontece nada e sempre estou bem? Nada disso. Se existe alguém que lhe conhece neste mundo, esse alguém sou eu. E mais, às vezes, acredito que você não precisa de uma assistente e que estou aqui porque o que na realidade precisa é ter alguém por perto que ame e cuide de você. Pablo deixa escapar um sorriso. Ah, não..., veja bem, o analista aqui sou eu. Silêncio. E então? O que eu faço com a garota? Se quiser, digo que me enganei ao agendar o horário e a transfiro para outro dia. Não, tudo bem, responde depois de um breve silêncio. Mande-a entrar e pode ir, já é tarde. Eu posso esperar até que a consulta acabe. Não, não tem importância. Além disso, eu sei bem o que é ter vontade de voltar para casa, disse com ironia. Mas, para isso, primeiro é preciso ter um lar para o qual regressar, não?, responde Helena ao mesmo tempo em que lhe dá um beijo. E você, desde que Alejandra foi embora..., interrompe a frase, faz um gesto de negativa com a cabeça e se retira.
Ele a vê partir e sorri. Se há alguém que pode lhe dizer qualquer coisa, é Helena. Porque Helena é muito mais que sua assistente. É sua amiga desde a época de escola no secundário. Muito antes que ele se convertesse em um renomado psicanalista. Desde aquela época, na qual o chamavam Loiro e não Doutor. O apelido de loiro nada tinha a ver com seu aspecto, Pablo era moreno, senão por seu sobrenome: Rouviot. Pablo se lembra de ter se apaixonado perdidamente por ela quando tinham quinze anos, mas Helena jamais pareceu corresponder e ele nunca lhe disse nada. Voltaram a se encontrar aos trinta e cinco, numa noite fresca de Abril. Ele já era psicólogo, e a publicação de seu primeiro livro havia gerado um grande alvoroço entre seus colegas. E foi justamente na saída de uma de suas conferências que aconteceu o reencontro. Pablo já estava saindo quando escutou uma voz que o chamava com aquele apelido que já quase esquecera. Loiro...» In Gabriel Rolón, O Lamento do Violino, 2010, Editora Planeta, tradução de Clene Salles, 2012, ISBN 978-857-665-967-9.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

segunda-feira, 2 de maio de 2016

O Lamento do Violino. Gabriel Rolón. «Ainda se recorda dos seus braços fortes, a sua palavra firme e afectuosa. Pablo sente saudade de um modo quase infantil, inexplicável e com sofrimento. Como sente saudade dela»

jdact e wikipedia

«O inferno dos vivos não é algo que está por vir; há um, que é aquele que já se vive aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não o sofrer. A primeira, para muitos, é fácil: aceitar o inferno e tornar-se parte dele até o ponto em que não é mais possível vê-lo, percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: buscar e saber reconhecer quem e o quê, em meio ao inferno, não é o inferno. E fazê-lo durar, e dar-lhe espaço». In Ítalo Calvino, As Cidades Invisíveis.

«Poucas coisas se parecem tanto com a morte como o silêncio, e ele bem sabe disso. E onde não há lugar para as palavras aparece o absurdo, o inabordável, o inacessível. O que é impossível de falar e que se perde numa obscuridade sem nome. Só uma dor muda e dilacerante se ergue como última barreira diante da loucura. Por isso o seu trabalho deixa-o apaixonado e o seduz. Cada paciente representa um novo labirinto e em cada história se desdobra uma angústia que clama por ser calada. E, num estranho paradoxo, a angústia só se silencia com palavras. A angústia. Sua companheira permanente, a que desde sempre exerce sobre ele uma atracção quase patológica. Como essas grelhas eléctricas de luzes azuis que nas antigas pizzarias atraíam os insectos em direcção à morte. É assim. A angústia fascina-o e cativa-o.
Talvez não tenha sido outra coisa que o tenha impulsionado para ser psicanalista mais do que tentar fazer algo por essa angústia que aos pacientes é intolerável e para ele, irresistível. O seu pai havia tido um começo de vida difícil, quase indesejável. Pablo ainda se recorda das noites em que ficavam a conversar a sós. Com os olhos assombrados, escutava como ele falava sobre uma infância carente e ameaçada, quase com ternura. Mas sabia que por detrás da aparente aventura de dormir na rua ou dos códigos do reformatório, escondia-se a angústia. Por isso, ficava hipnotizado escutando o relato. Imaginando o seu pai-menino tremendo de medo pelas noites, indefeso ante um destino injusto. Pablo não teria mais de oito ou nove anos quando, pela primeira vez, perguntou-se se alguém teria escutado essa dor que percorria o relato do seu pai e da qual nem sequer ele mesmo parecia dar-se conta. Ou, talvez, preferisse não se dar conta. Não é simples aceitar que nos deixaram abandonados, sozinhos. A solidão é, também, outra das máscaras da morte. Pablo sabe muito bem disso, porque também está só. E não é por acaso que pensa no seu pai justamente hoje. Necessita dele.
Faz exactamente um ano que não vê Alejandra, e a dor atravessa o corpo dele. Seu pai saberia o que lhe dizer, ou, pelo menos, como contê-lo. Desde a sua morte, Pablo não tem podido descansar para alentar-se em ninguém mais e hoje isso lhe custa muito. Quanto tempo faz que não permite que ninguém o abrace quando está mal, quanto tempo faz que não chora? O seu pai foi um homem de olhar franco e seguro, que sempre intuía os seus estados de ânimo e que se sentia no direito de questioná-lo, porque sabia que podia contê-lo. Ainda se recorda dos seus braços fortes, a sua palavra firme e afectuosa. Pablo sente saudade de um modo quase infantil, inexplicável e com sofrimento. Como sente saudade dela. Ela e o seu sorriso inocente, ela e a sua sexualidade violenta, ela e a sua maldita inteligência. Um dia, exactamente um ano atrás, Alejandra guardou as suas coisas, enfiou-se na sua cama e entregou-se de um modo desesperado. Ao terminar, caiu em lágrimas, abraçada a ele.
Quando Pablo despertou, já não estava ali. Mas eles não estavam no jogo do mistério, porque antes de partir deixou-lhe num papel sobre a mesa o endereço e o telefone. Ao lê-lo, Pablo percebeu que Alejandra iria embora da cidade. Pensou um momento, com a intenção de compreendê-la. O quanto a havia maltratado, para que ela decidisse deixar tudo o que havia construído até então, família, amigos e trabalho, apenas para ficar longe dele? Sabe que sim. Mesmo que custe reconhecer, não pode enganar-se. É consciente de que os dois se maltrataram muito. Ele com a sua tamanha sinceridade que fere, buscando levar tudo até o limite, forçando-a até que não pudesse mais, jogando perversamente com o domínio que exercia sobre ela. Alejandra, da sua parte, amou-o de uma maneira incondicional e doentia e cedeu aos perigosos jogos que ele propunha. Naquela última noite, Pablo olhou para os seus seios, o seu púbis, beijou e tocou cada parte de seu corpo como se quisesse guardá-la para sempre na memória da sua boca e de suas mãos. E ela se deixou olhar, deixou-se tocar, foi um pouco o seu brinquedo, deixou-o fazer a seu desejo e, como sempre, desfrutou com isso. Porque gozava ao ver a cabeça de Pablo entre as suas pernas enquanto a beijava ou ao sentir como se movia dentro dela ao mesmo tempo em que sua boca lhe mordia o pescoço de um modo quase animal. Mas o que mais desfrutava era olhá-lo no instante final, gemendo, com essa expressão que oscilava entre prazer e dor durante poucos segundos. Talvez, porque esse fora o único momento no qual podia vê-lo tal como era, sem disfarces, totalmente despojado de couraças e imagens inventadas». In Gabriel Rolón, O Lamento do Violino, 2010, Editora Planeta, tradução de Clene Salles, 2012, ISBN 978-857-665-967-9.

Cortesia de EPlaneta/JDACT