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terça-feira, 27 de junho de 2017

O Viajante do Infinito. Patrick Girard. «Tu, filho de um rústico de Moconesi, eis-te agora dono das quatro paredes onde irás viver a partir deste momento»

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Assassínio à porta dell’Olivella
«(…) Bartolomeo Costapelli, um cardador, não parava de vituperar os geegos: foi um justo castigo para esses cães heréticos, que se recusam a reconhecer a autoridade do papa. O irmão António, o guarda-portão de San Stefano, disse-me com a voz trémula de indignação que um dos chefes deles ousara afirmar: mais vale o turbante dos turcos do que a mitra dos latinos. Não entendi nada, mas aquilo devia ser muito grave, a julgar pela cólera dele. Que Nosso Senhor Jesus Cristo e a Sua Santíssima Mãe nos livrem para sempre dessa corja! Segundo Anna, uma criada, o viajante interrompera Costapelli com grosseria: que cristão és tu, pobre idiota, a maldizer esses gregos para quem trabalhas. Pelas tuas mãos, calculo que sejas tecelão. O que vais fazer quando tu e os teus deixarem de receber as nozes-de-galha de que vos servis para tingirdes de negro as vossas malditas lãs? São tão ásperas que só os pobres de Salerno ou de Nápoles aceitam comprá-las. Quando o estômago te gritar de fome, suplicarás a Deus para que o turco se mostre tão condescendente como os gregos. Estarás até pronto a abraçar a fé deles, desde que continuem a dispensar-te essas famosas nozes.
Ninguém se lembrava de quem desembainhara então uma faca para fazer o homem engolir semelhante blasfémia. Na penumbra, cintilara uma lâmina. O viajante esvaíra-se em sangue nos braços do companheiro, enquanto os clientes da taberna fugiam, abandonando os seus copos acabados de servir. Anos mais tarde, Domenico lembrava-se amargamente dos aborrecimentos que lhe tinha valido aquela rixa. Quando os archeiros vieram recolher o cadáver, ele ouvira um deles reprimir uma blasfémia ao analisar os documentos encontrados no homem. Algumas horas mais tarde, já ele tinha sido levado para casa do doge. O defunto falou contigo? Não, senhor. Eu estava a guardar a Porta dell’Olivella como dita o cargo que me confiou o vosso nobre pai. E que eu te retiro. Não protestes. Há muito que aguardo a oportunidade de me vingar da humilhação pela qual um dia me fizeste passar ao me recusares a entrada na cidade.
Agi de acordo com as ordens do vosso pai, o ilustre Gianni Fregoso. Ordens essas que tiveste, aliás, o grande cuidado de manter quando lhe sucedeste. Pouco importa. A tua taberna é um lugar de vício e perdição. As tuas criadas vendem os seus corpos. O prior de San Stefano queixou-se disso por diversas vezes. Até agora, aceitara fechar os olhos perante esse escândalo, mas não voltarei a tolerar que a protecção de uma das portas da cidade seja confiada a um vulgar rufião. Mas isso é condenar-me à ruína! Pierino Fregoso avaliou-o com um ar ao mesmo tempo altivo e vagamente inquieto: tens a certeza absoluta de que a vítima não disse a ninguém quem era? Foi o que a Anna me jurou. A pobre rapariga estava toda perturbada por ter assistido a um assassínio. O homem contentou-se em dizer as infelizes palavras que conheces, sem dúvida, sob influência do vinho que tanto bebeu.
Bem quero acreditar em ti. Fica sabendo que nunca ninguém deve saber o que se passou ontem na tua taberna. O assassino e os seus cúmplices não estão prestes a vangloriar-se do seu acto. Não querem ficar a espernear na ponta de uma corda. Tenho dúvidas quanto a isso, e aí está a tua sorte. Para evitar o falatório, tenho de encontrar uma razão plausível para a cessação das tuas funções como guarda da Porta dell’Olivella. A partir desta noite, a cidade ficará a saber que, pelos teus distintos méritos, te confiei a gestão das terras que possuo em Savona, onde irás instalar-te sem delongas. Sossega que serão apenas alguns pomares e arpentes de vinha que te deixarão tempo livre para te dedicares às outras tuas ocupações. Graças à minha bondade, eis-te proprietário de uma loja e de uma casa contígua à Igreja de San Giulano, onde irás fazer as tuas orações. Filippo Masetta, o meu tabelião, já redigiu uma escritura de venda fictícia, porque de ti não exijo nenhum outro pagamento além do teu silêncio. Não me agradeças, porque este presente fica-me mais barato do que o dinheiro que perderia se este assunto viesse a lume. Levaria tempo demasiado a explicar-te. Dou-te mesmo como bónus António, o escravo do morto, um mouro bastante robusto a julgar pelo que dizem os meus archeiros, que tiveram alguma dificuldade em lhe deitar a mão. Faz as coisas de modo a que ninguém saiba quem ele é, nem onde se encontra. Como vês, o teu desvalimento é, porém, brando. Tu, filho de um rústico de Moconesi, eis-te agora dono das quatro paredes onde irás viver a partir deste momento. É mais do que qualquer um dos teus filhos conseguirá ter no final de uma vida de trabalho árduo. Desaparece da minha vista antes que comece a arrepender-me da minha generosidade». In Patrick Girard, Cristóvão Colombo, O Viajante do Infinito, 2011, Editorial Presença, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-235-138-6.

Cortesia de EPresença/JDACT

O Viajante do Infinito. Patrick Girard. «Cansada de tais desvelos, a arraia-miúda exigira que se reparasse a antiga cintura da muralha, erigida uns séculos antes»

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Assassínio à porta dell’Olivella
«Ainda era dia claro, porém, todos se apressavam para chegar a tempo. Quando o mestre Domenico Colomb estava de serviço, como naquela semana, não mostrava compaixão alguma para com os retardatários. Mal o gradeado de ferro era descido, não abria a porta a mais ninguém, sob que pretexto fosse, mantendo-se insensível às súplicas de uns e às lisonjas de outros. Os hortelãos do Bisagno ainda se recordavam da contrariedade que acontecera a Pierino Fregoso, uns anos antes de suceder ao seu pai como doge. Atrasara-se junto a uma lavadeira de peito generoso e, ao chegar com os amigos às portas da cidade, vira-lhe ser recusada a entrada. Bem que se enfurecera, blasfemara, ameaçara, mas nada abalara a determinação do cérbero da muralha, como ele o apelidara com soberba. Nem que fosse um dos Reis Magos, ou Nosso Senhor Jesus Cristo em carne e osso, teria direito a um tratamento de deferência.
Deste modo, vira-se na obrigação de passar a noite com os companheiros na Hospedaria da Loba Zarolha, propriedade de Domenico, que se situava fora da cintura da muralha, a esvaziarem copos de vinho uns atrás dos outros. No Verão, como no Inverno, mal o Sol começava a descer no horizonte, a cidade encerrava-se atrás das suas muralhas. Tinham sido edificadas para a proteger dos ataques de surpresa dos salteadores a soldo dos fidalgos de Lavagna. Estas autênticas feras não hesitavam em surpreender os viajantes e os peregrinos que se aproximavam da cidade e desatendiam a vigilância. Por diversas ocasiões, tinham seguido a sua presa até junto do portão do Convento de San Stefano, enquanto os nobres se fechavam nas torres altas e ameadas que tinham mandado erigir mesmo no centro de Génova.
Cansada de tais desvelos, a arraia-miúda exigira que se reparasse a antiga cintura da muralha, erigida uns séculos antes, e cuja vigilância dos portões fora confiada a homens provenientes do seu seio. A medida dera os seus frutos. Os Fieschi, que outrora haviam semeado o terror, tinham descido do seu covil montanhoso para virem instalar-se na cidade. Tinham posto fim às pilhagens por considerarem isso mais rentável e para aproveitarem a prosperidade do porto. A paz voltara, mas os velhos hábitos mantinham-se. Mal a noite caía, o medo brocava o coração dos homens. Os campos vizinhos tornavam-se para eles o palco de estranhos acontecimentos. Feiticeiros e bruxas aproveitavam a escuridão para realizarem as suas reuniões nocturnas, ao mesmo tempo que os lobos esfomeados vagueavam em busca de alimento. Há poucas semanas ainda, nas margens escarpadas do Bisagno, tinham sido encontrados os cadáveres de dois pastores retalhados pelas terríveis mandíbulas dos carnívoros, tendo então sido enterrados à pressa. Domenico ainda se lembrava do grito rouco da mãe deles quando os corpos foram descidos para a sepultura cavada à pressa: um pranto dilacerante, inumano, que parecia ecoar os bramidos dos animais selvagens.
Era para se proteger que, todas as noites, a cidade se enclausurava e confiava a sua guarda aos archeiros de atalaia que velavam para que ninguém entrasse nem saísse da cintura da muralha. Bem seguros, os habitantes entregavam-se às suas ocupações habituais. As mulheres afadigavam-se em frente aos fogões. Os homens iam para a taberna mais próxima comentar as últimas novidades, como a chegada de uma carraca proveniente de Quios ou de Caifa ou a próxima venda de um lote de escravos comprados em Constantinopla. Longe do olhar dos pais, cortejos de crianças travessas desciam as ruelas em declive a surripiarem aqui e ali um fruto ou a deitarem ao chão bancas de mercadorias.
Eram tantas as cenas que ali tinham lugar que ninguém veria, pelo menos naquela noite, os dois soldados de cavalaria abrirem caminho na penumbra, a pouca distância da cidade. Um deles não era seguramente um desconhecido. Como se soubesse que lhe iam recusar a abertura da porta, instintivamente, dirigira-se para a Hospedaria da Loba Zarolha, confiando a sua montada a um gaiato para que a levasse para a estrebaria. Com o seu companheiro de rosto dissimulado por um capuz, entrou na grande sala pouco iluminada por velas de sebo de má qualidade, onde as criadas repeliam aos risinhos os avanços dos clientes habituais, pobres joões-ninguéns que ali tinham ido em busca de um pouco de calor e consolo depois de um dia de trabalho penoso.
Os dois homens tinham-se sentado em silêncio num canto próximo da lareira. O mais velho atirara algumas moedas para cima da mesa e pedira vinho, pão e queijo. Beberam e comeram sem prestar atenção aos que estavam mais próximo. Ao serão, bem mais tarde, o mais velho intrometera-se nas conversas. Todos comentavam a novidade trazida nessa mesma manhã pelos marujos sobre a queda de Constantinopla às mãos dos turcos». In Patrick Girard, Cristóvão Colombo, O Viajante do Infinito, 2011, Editorial Presença, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-235-138-6.

Cortesia de EPresença/JDACT

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A Conspiração Colombo. Steve Berry. «Uma janela aberta permitia que algum ar fresco entrasse, mas o suor brotava em sua testa, e as costas de sua camisa estavam molhadas contra o colchão»

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Presente
«(…) Alle Becket estava deitada na cama, com braços e pés amarrados nas grades. Um pedaço de fita adesiva cobrindo a boca, o que a obrigava a respirar rapidamente pelo nariz. O pequeno quarto estava escuro, e isso a deixava nervosa. Acalme-se, disse para si mesma. Os pensamentos voltados para seu pai. Thomas Peter Sagan. Seus sobrenomes eram diferentes graças a um casamento que tivera três anos antes, logo depois que seu avô, Abiram, morrera. Fora uma péssima ideia em todos os sentidos, principalmente porque seu marido achou que um anel no dedo significava que teria carta branca para usar os cartões de crédito dela. O casamento durou três meses. O divórcio, mais um. Pagar todas as contas levou dois anos. Mas ela conseguira. Sua mãe lhe ensinara que dever aos outros não era uma boa coisa. Gostava de pensar que ela lhe ensinara a ter carácter. Só Deus sabe que isso não veio de seu pai. Suas lembranças dele eram péssimas. Tinha 25 anos e não se lembrava de nenhuma vez que ele tivesse dito que a amava. Por que você se casou com ele? Nós éramos jovens, Alle. Estávamos apaixonados e tivemos tantos anos bons. Era uma vida segura. Só depois do próprio casamento ela compreendeu o valor da segurança. Desordem completa era uma descrição melhor para sua breve união. A única coisa que levou do casamento foi o sobrenome, porque qualquer coisa era melhor do que Sagan. Só escutar esse nome já embrulhava o seu estômago. Se fosse para se lembrar de fracassos, que pelo menos fossem de um ex-marido que em determinado momento, principalmente durante aqueles seis dias em Turcas e Caicos, proporcionou-lhe lembranças inesquecíveis. Testou as cordas que prendiam os seus braços. Seus músculos doíam. Ela se contorceu um pouco e se endireitou. Uma janela aberta permitia que algum ar fresco entrasse, mas o suor brotava em sua testa, e as costas de sua camisa estavam molhadas contra o colchão. Os poucos cheiros presentes não eram agradáveis, e ela imaginava quem mais se tinha deitado ali antes dela. Não gostava da sensação de impotência que aquela situação lhe trazia. Então, forçou-se a pensar na mãe, uma mulher amorosa que a mimou e fez tudo para que conseguisse as notas necessárias para entrar na Universidade de Brown e se formasse. História era uma paixão antiga, principalmente a América pós-Colombo, a época entre 1492 e 1800, quando a Europa impeliu o Velho Mundo ao Novo. Sua mãe também tivera sucesso pessoal, recuperando-se do sofrimento do divórcio e encontrando um novo marido. Ele era cirurgião ortopédico; um homem carinhoso que cuidou das duas, o oposto de seu pai. Aquele casamento tinha sido bem-sucedido. Mas, dois anos atrás, um motorista negligente, com a carta suspensa, atravessou o sinal vermelho e acabou com a vida de sua mãe. Sentia uma saudade terrível dela. O funeral permanecia vivo em sua mente, graças à chegada inesperada de seu pai. Saia. Ela não ia querer você aqui, dissera ela num tom de voz alto o suficiente para todos escutarem. Eu vim me despedir. Você fez isso muito tempo atrás, quando virou as costas para nós. Você não faz ideia do que eu fiz. Só se tem uma chance de criar um filho. De ser marido. De ser pai. Você perdeu a sua. Saia. Ela se lembrava do rosto dele. A expressão indiferente que revelava pouco do que havia por baixo. Quando era mais nova, sempre se perguntara em que ele estava pensando. Agora não se perguntava mais. Que importância tinha? Puxou as cordas de novo. Na verdade, tinha muita importância». In Steve Berry, A Conspiração Colombo, 2012, Maria B. Medina, Editora Record, 2014, ISBN 978-850-140-380-3.

Cortesia de ERecord/JDACT

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A Conspiração Colombo. Steve Berry. «Mas ele aceitara o conselho. E se perguntou: como explicar um suicídio? Isso é, por definição, um acto irracional. Na melhor das hipóteses, alguém o enterraria»

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Presente
«(…) Morbidamente adequado. Grossas camadas de poeira e cheiro de mofo faziam com que se lembrasse de que a casa estava vazia havia três anos. Ele continuara pagando as contas e os impostos e mandava cortar a relva de vez em quando só para os vizinhos não reclamarem. Mais cedo, ele notara que a grande amoreira na frente da casa precisava ser podada e a cerca pintada. Odiava este lugar. Fantasmas demais. Perambulou pelos cómodos, lembrando-se de dias mais felizes. Na cozinha, ainda podia ver os potes de geleia que sua mãe alinhava no peitoril da janela. A lembrança trouxe uma rara onda de alegria que rapidamente se apagou. Deveria escrever um bilhete e se explicar, culpar alguém ou alguma coisa. Mas para quem? Ou o quê? Ninguém acreditaria nele se contasse a verdade. Infelizmente, assim como oito anos atrás, não havia ninguém para culpar a não ser a si mesmo. Será que alguém se importaria com sua morte? Certamente, não a sua filha. Tom não falava com ela havia dois anos. Sua agente literária? Talvez. Ela ganhara muito dinheiro com os livros que ele escrevera para outras pessoas como ghost writer. Fora um choque descobrir quantos escritores de ficção e best-sellers mal sabiam escrever uma palavra. O que um crítico dissera na época de sua derrocada? Jornalista Sagan parece ter uma carreira promissora como escritor de ficção. Idiota. Mas ele aceitara o conselho. E se perguntou: como explicar um suicídio? Isso é, por definição, um acto irracional. Na melhor das hipóteses, alguém o enterraria. Tinha muito dinheiro no banco. Mais do que suficiente para um funeral digno. Como seria estar morto? A pessoa fica consciente? Consegue escutar? Ver? Sentir cheiros? Ou é simplesmente uma escuridão eterna? Nenhum pensamento. Nenhum sentimento. Nada.
Caminhou de volta para a frente da casa. Era um lindo dia de Março; o sol de meio-dia estava alto no céu. A Flórida fora realmente abençoada com um clima maravilhoso. Como a Califórnia, onde ele morara antes de ser demitido, mas sem os terremotos. Sentiria falta do calor do sol em um agradável dia de verão. Parou sob a limiar da porta e olhou para a saleta. Era assim que sua mãe chamava o cómodo. Era onde seus pais se reuniam no Sabá. Onde Abiram lia a Torá. O lugar onde Yom Kippur e dias sagrados eram comemorados. Lembrava-se da menorá de peltre acesa na mesa ao fundo. Seus pais foram judeus devotos. Depois de seu bar mitzvah, ele também estudou a Torá, de pé diante da janela dividida em 12 vidros, com cortinas de tecido damasco que sua mãe levara meses para costurar. Ela era muitohabilidosa com as mãos, uma mulher adorável, amada por todos. Ele sentia saudades. Ela morrera seis anos antes de Abiram, que estava morto havia três. Era hora de acabar com aquilo. Fitou a arma, uma pistola comprada alguns meses antes em uma exposição em Orlando, e sentou-se no sofá. Nuvens de poeira levantaram e se assentaram. Lembrou-se da lição de Abiram sobre meninos e meninas, pois o pai se sentara no mesmo lugar. Quantos anos ele tinha, 12? Trinta e oito anos atrás. Mas parecia semana passada. Como sempre, as explicações foram grosseiras e concisas. Você entendeu?, perguntara Abiram. É importante que você entenda. Eu não gosto de meninas. Mas vai gostar. Então, não se esqueça do que eu disse. Mulheres. Outro fracasso. Tivera poucos mas preciosos relacionamentos quando mais jovem, casando-se com Michele, a primeira garota a mostrar sério interesse por ele. Mas o casamento acabou depois que foi demitido e não houve outras mulheres. Michele deixara marcas. Talvez eu a encontre logo também, murmurou ele. Sua ex-mulher morrera dois anos antes em um acidente de carro. Foi a última vez que falou com a filha. Suas palavras foram ditas em alto e bom som: saia. Ela não ia querer você aqui. E ele obedeceu, deixando o funeral. Olhou de novo para a arma, colocando o dedo no gatilho. Preparou-se, prendeu a respiração e levou o cano à têmpora. Era canhoto, como quase todos os Sagan. Seu tio, ex-jogador profissional de beisebol, dissera-lhe quando ainda era criança que se ele aprendesse a arremessar uma bola de basebol ganharia uma fortuna nas ligas principais. Canhotos habilidosos eram uma raridade. Mas ele também fracassara nos desportos. Colocou o cano da arma na têmpora. O metal tocou sua pele. Fechou os olhos e colocou o dedo no gatilho, imaginando como seria seu obituário. Terça-feira, 5 de Narço, ex-repórter investigativo Tom Sagan tirou a própria vida na casa de seus pais em Mount Dora, Flórida. Um pouco mais de pressão e...
Toc. Toc. Toc. Abriu os olhos. Um homem estava diante da janela da frente, perto o suficiente dos vidros para Tom ver seu rosto, mais velho do que ele próprio, barbeado, distinto, e sua mão direita. Que segurava uma fotografia, encostada no vidro. Concentrou-se na imagem de uma jovem deitada, com braços e pernas estendidos. Como se estivessem amarrados. Ele conhecia o rosto. Sua filha. Alle». In Steve Berry, A Conspiração Colombo, 2012, Maria B. Medina, Editora Record, 2014, ISBN 978-850-140-380-3.

Cortesia de ERecord/JDACT

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A Conspiração Colombo. Steve Berry. «… forte como um leão para cumprir a vontade de seu Pai que está no Céu. Sábias palavras. Venham, disse ele para os outros. Rezemos para que o segredo deste dia permaneça escondido por muito tempo»

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1504. Jamaica
«(…) De Torres já tinha lhe dito que não arriscaria ser descoberto por nenhum examinador espanhol. Ele não voltaria para a Europa. Sua intenção era se estabelecer em Cuba, uma ilha muito maior ao norte. Os outros dois homens, com espadas em punho, mais jovens e ávidos, também já haviam decidido permanecer. Colombo deveria ficar também, mas seu lugar não era aqui, embora desejasse que as coisas fossem diferentes. Ele baixou o olhar. Os ingleses e os holandeses me chamam de Colombus. Os franceses, Columb. Os portugueses, Colom. Espanhóis me conhecem como Colón. Mas nenhum desses é meu nome verdadeiro. Infelizmente, você nunca irá conhecê-lo e não fará nenhum relatório para seus chefes na Espanha. Após um gesto, De Torres enfiou a espada no peito do homem. O prisioneiro nem teve tempo de reagir. A lâmina foi retirada, emitindo um som nojento, e o corpo ajoelhado caiu para a frente, batendo com o rosto no chão. Uma crescente poça de sangue manchou a terra. Ele cuspiu no corpo, assim como os outros. Esperava que esse fosse o último homem que veria morrer. Estava cansado de matar. Como logo voltaria para seu navio e deixaria esta terra para sempre, não haveria repercussões com o cacique pelas seis mortes. Outros pagariam esse preço, mas isso não era da sua conta. Todos eles eram seus inimigos, aos quais ele não desejava nada além de sofrimento. Ele se virou e finalmente analisou o lugar onde estava, encontrando cada detalhe que fora descrito. Sabe, almirante, disse De Torres, é como se o próprio Deus tivesse nos guiado até aqui. Seu velho amigo estava certo. Parecia mesmo. Seja corajoso como um leopardo, leve como uma águia, rápido como uma gazela e forte como um leão para cumprir a vontade de seu Pai que está no Céu. Sábias palavras. Venham, disse ele para os outros. Rezemos para que o segredo deste dia permaneça escondido por muito tempo.

Presente
Tom Sagan segurou a arma. Vinha pensando neste momento havia um ano, debatendo os prós e os contras e finalmente decidindo que um pró superava todos os contras. Simplesmente não queria mais viver. Tinha trabalhado como repórter do Los Angeles Times, recebendo um sólido salário anual de seis dígitos, com seu nome presente em muitas matérias de primeira página, uma após a outra. Trabalhara por todo o mundo: Sarajevo, Pequim, Johanesburgo, Belgrado e Moscovo. Mas o Médio Oriente se tornou sua especialidade, um lugar que ele passara a conhecer intimamente, onde sua reputação tinha sido criada. Seus arquivos confidenciais estiveram recheados de fontes dispostas a ajudá-lo, pessoas que sabiam que ele as protegeria a todo custo. Ele provara isso quando passou 11 dias em uma prisão em Washington por não revelar sua fonte em uma matéria sobre um deputado corrupto da Pensilvânia. Esse homem foi preso. Tom recebeu sua terceira indicação ao Pulitzer. Havia 21 categorias premiadas, uma delas destinada a reportagem investigativa notável feita por um indivíduo ou equipe, publicada como uma única matéria de jornal ou uma série. Os vencedores ganhavam um certificado, dez mil dólares e a honra de acrescentar quatro palavras preciosas aos seus nomes: vencedor do prémio Pulitzer. Ele ganhara um. Mas eles o tomaram. O que parecia ser a história de sua vida. Tudo tinha sido tirado dele. Sua carreira, sua reputação, sua credibilidade, até seu autorrespeito. No final, ele se tornou um fracassado como filho, pai, marido, repórter e amigo. Algumas semanas atrás, fizera um gráfico em forma de espiral em um bloco, identificando que tudo isso começou quando tinha 25 anos, recém-saído da Universidade da Flórida, entre os três melhores alunos da turma, com um diploma de jornalismo nas mãos. Então, seu pai lhe renegou. Abiram Sagan fora implacável. Todos fazemos escolhas. Boas. Ruins. Indiferentes. Você já é adulto, Tom, e fez a sua. Agora tenho de fazer a minha. E ele fez. Naquele mesmo bloco, Tom anotou os altos e baixos. Alguns como editor do jornal de seu colégio durante o ensino médio e como repórter do campus na faculdade. A maioria mais tarde. Sua ascensão de assistente para a equipe de reportagem, para correspondente internacional sénior. Os prémios. Os elogios. O respeito de seus colegas. Como um observador descrevera seu estilo? Reportagem abrangente e ousada conduzida com visão e risco. Depois, seu divórcio. O afastamento de sua única filha. Decisões de investimentos ruins. Decisões de vida piores ainda. Finalmente, sua demissão. Oito anos atrás. E a vida aparentemente vazia desde então. A maioria de seus amigos tinha desaparecido. Mas isso era tanto culpa sua quanto deles. Conforme sua depressão foi se intensificando, ele se fechou. Era surpreendente não ter buscado o álcool nem as drogas, mas isso nunca lhe atraiu. Autopiedade era sua droga. Olhou para o interior da casa. Ele decidira morrer ali, na casa de seus pais». In Steve Berry, A Conspiração Colombo, 2012, Maria B. Medina, Editora Record, 2014, ISBN 978-850-140-380-3.

Cortesia de ERecord/JDACT

sábado, 2 de julho de 2016

A Conspiração Colombo. Steve Berry. «Quem é você para ordenar alguma coisa?, respondeu o espião. Você não é um homem de Cristo. Colombo absorveu o insulto com a paciência que uma vida difícil lhe dera…»

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1504. Jamaica
«(…) Ele sabia que esta seria sua última vez no Novo Mundo. Tinha 51 anos e conseguira reunir um número surpreendente de inimigos. Sua experiência no ano anterior era prova de que esta quarta viagem estava amaldiçoada desde o começo. Primeiro, explorara a costa do que passara a acreditar ser um continente, cujo litoral infinito se estendia de norte a sul até onde ele navegou. Após concluir essa patrulha, esperara desembarcar em Cuba ou Hispaniola, mas seus navios corroídos por vermes só conseguiram chegar até à Jamaica, onde ele os ancorou e aguardou um resgate. Que não chegou. O governador de Hispaniola, um inimigo jurado, resolveu abandonar Colombo e seus 113 homens à morte. Mas ela não chegou. Em vez disso, algumas almas corajosas remaram em uma canoa até Hispaniola e trouxeram um navio. Sim, ele realmente tinha muitos inimigos. Eles negaram todos os direitos que Colombo um dia tivera segundo as Capitulações. Ele conseguira manter seu status de nobre e o título de
Almirante do Oceano, mas isso não significava nada. Os colonos de Hispaniola se revoltaram e o forçaram a assinar um acordo humilhante. Há quatro terríveis anos, ele foi levado de volta para a Espanha, acorrentado e ameaçado de ser julgado e preso. Mas o rei e a rainha lhe concederam um inesperado indulto e lhe deram fundos e permissão para a quarta viagem. Ele se questionara sobre a motivação deles. Isabel parecia sincera. Ela tinha uma alma aventureira. Mas o rei era outro assunto. Fernando nunca gostara dele, dizendo abertamente que a viagem a oeste lhe parecia uma estupidez. Claro, isso foi antes de Colombo ser bem-sucedido. Agora, Fernando só queria ouro e prata. Putos. Mentirosos. Todos eles. Acenou para que abaixassem as arcas. Seus três homens ajudaram, pois eram pesadas. Chegámos, gritou ele em espanhol. Seus acompanhantes sabiam o que fazer. Espadas foram empunhadas e os nativos, rapidamente cortados em pedaços. Dois gemeram no chão, mas foram silenciados com floretes enfiados no peito. Essas mortes não significavam nada para Colombo; eles não eram dignos de respirar o mesmo ar que os europeus. Pequenos, de pele marrom, nus como no dia em que nasceram, não possuíam linguagem escrita nem crenças fervorosas. Moravam em aldeias no litoral e, pelo que percebera, apenas cultivavam algumas plantas. Eram liderados por um homem chamado cacique, com quem Colombo fizera amizade durante o ano em que ficara abandonado. Foi o cacique quem lhe ofereceu seis homens ontem, quando ele ancorou para sua jornada final no litoral norte. Uma caminhada simples até as montanhas, dissera ele para o cacique. Só alguns dias. Ele conhecia o suficiente da língua aruaque para fazer o pedido. O cacique demonstrou que tinha entendido e concordou, apontando para seis homens que carregariam as arcas. Ele fizera uma reverência em agradecimento e oferecera vários guizos como presentes. Graças a Deus trouxera muitos. Na Europa, eles eram amarrados às garras de pássaros treinados. Sem valor. Aqui, eram uma moeda valiosa. O cacique aceitou o pagamento e fez uma reverência também. Já negociara com esse líder outras duas vezes. Tinham criado uma amizade. Um acordo do qual ele se beneficiava totalmente. Quando visitaram a ilha pela primeira vez em 1494, fazendo uma paragem de um dia para vedar vazamentos em seu barco e repor o depósito de água, seus homens notaram pequenas partículas de ouro nas águas claras dos rios. Ao questionar o cacique, Colombo ficou sabendo de um lugar em que os grãos de ouro eram ainda maiores, alguns com o tamanho de feijões. O lugar onde ele estava agora. Mas, diferente da monarquia espanhola fraudulenta, o ouro não o interessava.
Seu objectivo era maior. Fixou o olhar em De Torres e seu amigo soube o que viria a seguir. Com a espada na mão, De Torres apontou a lâmina para um dos três espanhóis, um homem baixo e robusto, com cara de urso. De joelhos, ordenou De Torres enquanto tirava a arma do homem. Dois outros homens da tripulação levantaram suas espadas em apoio. O prisioneiro se ajoelhou. Colombo o encarou. Você acha que sou estúpido? Almirante... Ele levantou a mão pedindo silêncio. Quatro anos atrás, eles me levaram de volta para a Espanha, acorrentado, e me tiraram tudo que era meu por direito. Então, de repente, me devolveram tudo. Ele fez uma pausa. Com apenas algumas palavras, o rei e a rainha me perdoaram por tudo que eu supostamente fiz. Eles acham que sou ignorante? Ele hesitou de novo. Acham. E esse é o maior de todos os insultos. Durante anos, implorei que financiassem a minha viagem pelo oceano. Por anos, recusaram. Porém, com apenas uma carta para a coroa, recebi os fundos para esta quarta viagem. Um simples pedido, e tudo foi atendido. Foi quando percebi que alguma coisa estava errada. Espadas continuavam em punho. Não havia para onde o prisioneiro fugir. Você é um espião, disse Colombo. Enviado para reportar o que faço. Olhar para esse tolo o deixava enojado. O homem representava toda a traição e as tristezas pelas quais ele fora forçado a passar nas mãos dos espanhóis mentirosos. Conte-me o que os seus patrões querem saber, mandou Colombo. O homem permaneceu em silêncio. Diga-me. Estou mandando. O tom de voz se elevou. Eu lhe ordeno.
Quem é você para ordenar alguma coisa?, respondeu o espião. Você não é um homem de Cristo. Colombo absorveu o insulto com a paciência que uma vida difícil lhe dera, mas viu que seus compatriotas não eram tão compreensivos. Apontou para eles. Estes homens também não são de Cristo. O prisioneiro cuspiu no chão. Sua missão era reportar tudo que acontecesse na viagem? Essas arcas que estão aqui connosco eram o objectivo deles? Ou eles estão simplesmente atrás de ouro? Você não tem sido leal. Colombo deu uma gargalhada. Eu não tenho sido leal? A Santa Igreja garantirá sua condenação eterna no fogo do inferno. Então, ele percebeu. Esse agente pertencia à Inquisição (maldita). O maior de todos os inimigos. Uma chama de auto-preservação cresceu dentro dele. Percebeu a preocupação nos olhos do amigo De Torres. Sabia desse problema desde que partiram da Espanha, dois anos atrás. Mas havia mais olhos e ouvidos? A Inquisição (maldita) queimara centenas de pessoas. Ele odiava tudo que ela representava. O que ele estava fazendo ali fora planeado exclusivamente para conter esse mal». In Steve Berry, A Conspiração Colombo, 2012, Maria B. Medina, Editora Record, 2014, ISBN 978-850-140-380-3. 

Cortesia de ERecord/JDACT

quinta-feira, 28 de abril de 2016

A Conspiração Colombo. Steve Berry. «Nenhum verme se infiltrara, como acontecera com o casco de seu navio no ano anterior. Um ano que ele passara abandonado nesta ilha. Mas o seu cativeiro tinha chegado ao fim»


jdact e wikipedia 
«Há quinhentos anos, os historiadores fazem uma pergunta: quem foi Cristóvão Colombo? A resposta é simplesmente outra pergunta: quem quer que ele seja?» In Observador anónimo 
Jamaica 1504
«Cristóvão Colombo percebeu que o momento decisivo estava próximo. O seu destacamento avançava penosamente para o sul, atravessando a densa floresta desta terra tropical havia três dias, ganhando cada vez mais altitude. De todas as ilhas que descobrira desde a primeira terra avistada, em Outubro de 1492, esta era a mais bela. Uma planície estreita margeava sua costa rochosa. Montanhas formavam uma espinha encoberta, subindo gradualmente desde o oeste e culminando na tortuosa cadeia de picos que agora a cercavam. A terra era quase toda formada por calcário poroso coberto por um fértil solo vermelho. Uma incrível variedade de plantas florescia por baixo da grossa protecção da antiga floresta, todas nutridas por constantes ventos húmidos. Os nativos que viviam ali chamavam o lugar de Xaymaca, que, Colombo descobrira, significava terra dos mananciais, o nome fazia sentido, uma vez que havia água abundante em todos os lugares. Mas, como em espanhol o X é substituído pelo J, ele passara a chamar o lugar de Jamaica. Almirante. Ele parou e virou-se para encarar um de seus homens. Não está longe, disse De Torres, apontando para a frente. Montanha abaixo até aquela área plana, passando depois pela clareira. Luís navegara com ele nas três viagens anteriores, incluindo a de 1492, quando desembarcaram pela primeira vez. Eles entendiam-se e confiavam um no outro. Colombo não podia dizer o mesmo dos seis nativos que transportavam as arcas. Eles eram bárbaros. Apontou para dois, que carregavam uma das menores arcas, e fez um sinal para que tomassem cuidado. Estava surpreso por, depois de dois anos, a madeira ainda estar intacta. Nenhum verme se infiltrara, como acontecera com o casco de seu navio no ano anterior. Um ano que ele passara abandonado nesta ilha. Mas o seu cativeiro tinha chegado ao fim. Você escolheu bem, disse ele para De Torres em espanhol. Nenhum dos nativos sabia falar a língua. Outros três espanhóis os acompanhavam, todos escolhidos a dedo. Os nativos tinham sido recrutados e subornados com a promessa de mais guizos, bugiganga cujo som parecia fasciná-los, caso carregassem três arcas para as montanhas. Eles tinham começado ao amanhecer, numa clareira na floresta adjacente ao litoral norte, um rio próximo que jogava água gelada e cristalina montanha abaixo, formando várias piscinas e, finalmente, dando um último mergulho prateado até ao mar. O zumbido constante de insectos e o canto dos pássaros estavam mais altos, atingindo um crescendo ruidoso. Carregar as arcas montanha acima exigia esforço, e todos eles estavam ofegantes, com as roupas suadas agarradas à pele e sujidade cobria os seus rostos. Agora, desciam para o exuberante vale. Pela primeira vez em muito tempo, Colombo sentia-se rejuvenescido. Amava esta terra. Ele liderara a primeira viagem em 1492, indo contra os conselhos de pessoas consideradas cultas. Oitenta e sete homens acreditaram no seu sonho e aventuraram-se no desconhecido. Durante décadas, ele esforçara-se para conseguir que financiassem a sua viagem, primeiro com os portugueses, depois com os espanhóis. As Capitulações de Santa Fé, que assinou junto à coroa espanhola, prometeram a ele status de nobre, dez por cento de todas as riquezas e controle dos mares que descobrisse. Um excelente negócio no papel, mas Fernando e Isabel não cumpriram a sua parte. Nos últimos 12 anos, depois que ele provou a existência do que todos estavam chamando de Novo Mundo, navios espanhóis navegaram para o oeste, um atrás do outro, e nenhum deles com sua permissão como Almirante do Oceano. Mentirosos. Todos eles. Ali, disse De Torres. Colombo parou a sua descida e olhou entre as árvores com milhares de flores vermelhas, que os nativos chamavam de Chama da Floresta. Localizou uma piscina clara, lisa como vidro, e o gorgolejo de mais água em movimento. A sua primeira viagem à Jamaica fora em Maio de 1494, na sua segunda incursão, quando descobriu que o litoral norte era habitado pelos mesmos nativos encontrados nas ilhas próximas, só que ali eram mais hostis. Talvez a proximidade com os caraíbas, que viviam em Porto Rico, a leste, fosse o motivo de sua agressividade. Os caraíbas eram canibais ferozes que só entendiam a língua da força. Com base na sua aprendizagem, Colombo despachara cães de caça e arqueiros para iniciarem a conversa com os jamaicanos, matando alguns e maltratando outros, até que estivessem dispostos a agradá-lo. Ele parou o avanço da caravana. De Torres aproximou-se e sussurrou: é aqui. O lugar». In Steve Berry, A Conspiração Colombo, 2012, Maria B. Medina, Editora Record, 2014, ISBN 978-850-140-380-3. 
Cortesia de ERecord/JDACT

sábado, 17 de outubro de 2015

Cristóvão Colombo na Madeira. Rebecca Katz. «Pedro Ledesma, que na quarta viagem de 1502 se amotinou, e anos depois, subornado pelos Pinzon, disse muitas mentiras contra o Almirante nas Inquirições que se abriram e negou terminantemente que o navegador tivesse descoberto terra firme»

Cortesia de wikipedia

«(…) Segundo Fernando, Colombo conheceu a sua esposa, dona Felipa Moniz, em Lisboa, quando assistia a missa na capela do Convento de Santos, da Ordem de Santiago. Ela era filha de Bartolomeu Perestrelo, o primeiro capitão e donatário da ilha de Porto Santo, e de dona Isabel Moniz, sua segunda esposa. Perestrelo, filho de uma família nobre de Piacenza que tinha emigrado para Lisboa no século XIV, acompanhou a segunda expedição de colonizadores a Porto Santo e Madeira em 1425. Recebeu a capitania hereditária da ilha mais pequena do infante Henrique e morreu lá ao redor de 1457. O pai de dona Isabel, Gil Ayres Moniz, pertencia a uma das mais velhas famílias do Algarve e tinha lutado junto com o Infante Henrique em Ceuta em 1415. Também a sogra de Colombo era aparentada com o condestável Nuno Alvares Pereira e por conseguinte, com a casa real, ou seja com a maior nobreza do reino.
Depois da morte do esposo, dona Isabel vendeu os seus direitos na capitania de Porto Santo a Pedro Correia Cunha, marido de uma das suas enteadas, e voltou a Lisboa. Alguns anos depois, o seu próprio filho Bartolomeu foi reconduzido na posse da capitania de Porto Santo quando chegou a sua maioridade em 1473. Isso deixou a mãe com pouco dinheiro para a sua manutenção e a das suas filhas. Como se explica o casamento da aristocrática dona Felipa com o filho de um humilde tecelão? Dizem alguns investigadores que sua mãe, que mal podia manter-se, devia ter ficado feliz de vê-la casada, poupando assim as despesas do convento. Este convento, estava desde a sua origem destinado a asilo das famílias dos cavaleiros de Santiago. O mestre da Ordem fora amo de Bartolomeu Perestrelo. Como Cristóvão chegou a corteja-la não sabemos. Seu filho, o biógrafo, só diz que como ele se portou muito honradamente e era um homem de uma presenca muito fina e tão honesto que dona Felipa teve tanta conversa e amizade com ele, que consentiu ser sua esposa. Ignoramos a data e lugar do casamento mas como parece que o filho que teve com dona Felipa nasceu em 1480, podemos supor que Cristóvão e Felipa se casaram nos fins de 1479.
Na referida biografia do seu pai, Fernando Colombo escreve que o casamento teve lugar em Lisboa, mas que o jovem casal partiu imediatamente para Porto Santo. Isso é duvidoso por vários motivos. E quanto aos muitos tomos da biografia de Colombo escrita por Bartolome de las Casas, diz-se que o bispo copiou muito do manuscrito de Fernando. Quando escreve no Livro I, capitulo 130, que Colombo residiu na Madeira depois do casamento, é muito provável que essa informação lhe tivesse vindo do manuscrito de Fernando que teve a mão. E apesar de que esses dois biógrafos eram íntimos de Cristóvão Colombo, suas biografias não inspiram muita confiança. Fernando Colombo, que não era o fruto desse casamento, também nos informa que Colombo residiu por algum tempo com sua sogra em Porto Santo, e que ela, vendo quanto Colombo se interessava pelo mar, lhe contou muitas historietas que ouviu ao seu marido. Disse que lhe contou como Bartolomeu tinha arruinado Porto Santo por muitos anos, por ter levado a ilha a sua chegada, uma coelha com sua ninhada. Os coelhos cresceram tão rapidamente que dentro de um ano cobriram toda a ilha e comeram lá tudo o que fosse verdura.
Os colonizadores foram portanto forçados a transferir-se para a ilha da Madeira e assim a colonização de Porto Santo foi retardada ate que o equilíbrio da natureza foi restabelecido. Posto que o almirante gostou tanto de ouvir estas historietas e outras das viagens feitas naquela época, segundo escreve Fernando, dona Isabel lhe deu os papeis e mapas deixados pelo seu falecido marido, do que o almirante se apaixonou, e se informou assim de outras viagens e navegações que os portugueses faziam. Nem o menor indício nos foi legado da disposição ou aparência física da única mulher de Colombo, e dona Felipa fica sendo uma figura tão obscura como a da mãe do descobridor. Nem sabemos quando morreu, só que foi antes que Colombo partisse de Portugal para Espanha em 1485, e que está sepultada no mosteiro do Carmo em Lisboa. Isso sabemos pelo testamento do seu filho Diogo que se refere a el cuerpo de dona Felipa Moniz, su legitima mujer (do almirante) que esta en el monasterio del Carmen, en Lisboa. O terceiro contacto de Colombo com a Madeira ocorreu durante a sua terceira viagem a América em 1498. Naquele ano, a Espanha estava em guerra com a Franca, e dizia-se que uma frota francesa estava perto do Cabo de são Vicente, esperando a flotilha colombina de seis barcos. O Almirante navegou para o sul, passando perto da costa africana, em vez de seguir um curso directo para Porto Santo, o seu primeiro objectivo. Depois de oito dias, a frota chegou a Porto Santo, em 7 de Junho de 1498, após ter navegado pelo menos 650 milhas. Ai Colombo decidiu meter a bordo lenha, água, e provisões, e ouvir missa. Infelizmente, os habitantes confundiram a frota de Colombo com a dos corsários franceses e fugiram para os montes com o seu gado. Como não encontrou gente em Porto Santo, Colombo fez-se à vela naquela mesma noite para a Madeira. O Funchal não é a mais que 40 milhas de Porto Santo mas parece que a frota teve alguma dificuldade porque foi só a 10 de Junho, ou seja três dias depois, que o almirante surgiu no porto do Funchal. Esta informação se encontra no livro de Las Casas onde diz textualmente que En la villa lhe fue hecho muy buen recibimiento y mucha fiesta, por ser alli muy conocido, que fue vecino de ella en algun tiempo.
Este é, por enquanto, o único documento histórico da estada de Cristóvão Colombo em Porto Santo, embora só de passagem, e de mais uma visita, a mais prolongada, apenas por seis dias, a Madeira, portanto sem longas nem demorada residência. Também a Madeira contribuiu tanto para a alegria do Almirante como para a sua tristeza porque foi de ali que Colombo levou um piloto para um dos seus barcos, um sevilhano chamado Pedro Ledesma, que se portou bastante bem na terceira viagem de 1498 mas que na quarta viagem de 1502 se amotinou, e anos depois, subornado pelos Pinzon, disse muitas mentiras contra o Almirante nas Inquirições que se abriram e negou terminantemente que o navegador tivesse descoberto terra firme. Isso foi tudo o que eu pude encontrar sobre a permanência de Cristóvão Colombo no arquipélago da Madeira. Também soube que em 1953 a população da Madeira honrou a memória de Cristóvão Colombo erigindo-lhe uma estátua numa das praças principais perto do mar. Isso não admira porque há estátuas de Colombo em todas as partes do mundo ocidental. Não sei se há uma estátua de Colombo em Portugal continental. Duvido muito. De todas as maneiras, espero que os madeirenses não me condenem por ter destruído alguns dos seus mitos mais venerados». Trabalho apresentado ao Colóquio sobre os Descobrimentos e a Literatura de Viagens, 2 – 4 Novembro 1988, nas instalações da Fundação Gulbenkian, em Lisboa.
In Rebecca Katz, Christopher Columbus and the Portuguese, 1476-1498, Greenwood Press, USA, 1993, ISBN 0313288674, Cristóvão Colombo na Madeira, muweb.millersville.edu/columbus/data/spc/CATZ-03P.SPK, Paulo Campos, Arquivo Histórico, Madeira, 2009.

Cortesia de PCampos/JDACT

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Conferências Públicas. 1891. Pereira da Silva. «… linhas escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na pagina branca de um breviário, que existe ainda na bibliotheca Corsini de Roma»

jdact

NOTA: De acordo com o original

Segunda Conferencia. 31 de maio de 1891
(…) Suspendemos a primeira conferencia effectuada á respeito de Christovam Colombo e do descobrimento da America, ao referir o despeito que assaltara á aquelle famoso navegante quando soube que fora recusado por João II seu projecto de viagem directa ás índias pelo Atlântico, seguindo rumo de Oeste. Disse-vos já que partira de Portugal e dirigira-se para Génova. Amargurava-se porque desde o principio do século era Portugal a única nação da Europa, que se entregava á empreza audaz de descobrimentos de terras novas e desconhecidas; e pois lhe parecia difficil encontrar, outra que ousasse devassar e curvar os mares e arrancar de seu seio continentes ignorados. Não era alli que se apuravam então os conhecimentos geographicos, que se desfaziam tradições e legendas pavorosas do mar tormentoso da Africa, em que a edade média acreditava; que mostrara emfim que era fabula a existência de monstros marinhos recontados por Endrisi, de estreitas luzentes, por Rogério Bacon, do cahos impenetrável nas proximidades da linha segundo Albi, de basiliscos descriptos por Averrhoes, de gigantes, serêas com rabos, pigmêos com olhos nos hombros e de mil outras ficções extravagantes, devidas á imaginação dos Árabes, que assim pintando o Atlântico affastavam os espíritos de ousadias de affrontal-o?
Chegado a Génova, convencido sempre Colombo da exequibilidade de seus planos marítimos, tratou de obter do governo da republica meios para executal-os, e navios para emprehender a viagem projectada em seu espirito, affiançando ao estado grandiosas vantagens e glorias immarcessiveis. Decorria então o anno de 1486, e portanto quando já bastantes progressos e adiantamentos haviam os portuguezes conseguido, quer na arte de navegar, quer no emprego á bordo do astrolábio e do quadrante, que, no reinado de João II, juntos á agulha, única empregada no tempo de Henrique de Vizeu (infante), facilitavam agora as emprezas de atirar-se aos mares, abandonar as costas terrestres, podendo-se já, em grandes distancias, reconhecer e tomar as alturas e ficar-se certo da posição maritima. Com razão escolhia Colombo a Génova por ser sua pátria, no intuito de dar-lhe as honras do descobrimento das Indias, que convinha effectuar-se quanto antes pois que os portuguezes prosseguiam na sua rota, e com suas diligencias mais tarde ou cedo encontrariam o Indostão e as Indias próximas ao Mar Vermelho e ao golfo Pérsico.
Génova, porém, estava decadente, bem como Veneza, e todas as demais republicas marítimas da Itália, que tanto poderio e commercio haviam exercido na edade média, aproveitando-se da fraqueza do império grego de Constantinopla. Trancavam-lhes agora as relações mercantis os Turcos, senhores do mar Negro, do Bosphoro, e da Syria. Génova não se achava habilitada, portanto, para assentir-lhe ás propostas. Dissemos que Génova era sua pátria. Foi elle sempre em sua vida considerado Genovez quer em Portugal quer depois em Hespanha. Todos os escriptores coevos o affirmavam. Depois de morto, porém, como adquirira e legara um nome glorioso e immortal, diversos povos, em escriptos a respeito, tentaram chamal-o seu compatriota: até o Diccionario Larousse o faz nascer na Sabóia! Para esclarecer a questão de um modo terminante, e provar-se claramente que em Génova e dentro da cidade nascera, e de familia pobre alli residente, publicou-se em Hespanha, no século actual (século XIX), seu testamento datado de 1498, e bem assim os processos que contra a coroa hespanhola e contra seus herdeiros hespanhoes haviam promovido vários fidalgos e famílias italianas, que pretendiam ser reconhecidos seus parentes e herdeiros em falta de linha directa; publicaram-se egualmente em Génova, nos nossos dias, umas linhas escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na pagina branca de um breviário, que existe ainda na bibliotheca Corsini de Roma». In J. M. Pereira da Silva, Conferências Públicas, propriedade do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro e Academia Real de Sciencias de Lisboa, Brazil, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, Library University of California, 1892.

Cortesia de IHGB/ARC de Lisboa/JDACT

Conferências Públicas. 1891. Pereira da Silva. «Convocou João II a conselho seus mais reputados sábios. Entre elles figuravam dous judeus, mestre José e mestre Rodrigo, famosos cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a Africa»

jdact

NOTA: De acordo com o original

Primeira Gonferencia. 17 de maio de 1891
«(…) Para que esta theoria fosse, porém, admittida precisava-se ainda que no século XVI os trabalhos de Galileu a demonstrassem cabalmente. Prevalecia no século XV unicamente, e para os sábios só, o principio da redondeza do globo, formado de terra e aguas, e coberto por uma atmosphera, onde dominava a lei da gravitação, que arrastava ao centro todo e qualquer peso. Christovam Colombo convenceu-se desta theoria, que com o andar dos tempos cada vez se lhe arraigou mais no espirito. Com a leitura dos livros então existentes e dos mappas, bem que confusos e repletos de muitas falsidades e inexactidões, percebeu que se podia ir ás índias directamente, seguindo da Europa para Oeste, e que este caminho era mais certo, curto e commodo que o de dobrar o Cabo das Tormentas, baptisado com o nome de Boa Esperança, por João II, na ponta sul da Africa. Não tinha Marco Paulo (Polo?) collocado o Cathay ou China na costa, e bem assim as ilhas de Cypango ou Japão, de que fallara um século antes? Não ficavam assim esses paizes fronteiros á Europa e á Africa Occidental?
As cartas e mappas de então apresentavam a Ásia como mais extensa para o lado da Europa, e o globo menor do que é na realidade. Os árabes, entendidos mestres de geographia e astronomia, adoptavam estas theorias erradas. Elias, todavia, mais animavam, excitavam e firmavam a idéa de Colombo, que calculava não exceder a distancia do Atlântico de duas a três mil milhas marítimas; tendo, além disto, ouvido em suas viagens aos Açores, á Madeira e ás Costas Africanas, contarem marinheiros e pilotos, que as vezes se encontravam madeiras e arvores lavradas, que na Europa não existiam; e que nos Açores haviam apparecido naufragados, cadáveres de dous homens de organisação physica diversa da Europa, cada vez mais robustecia-se seu intento de procurar as índias, atravessando o Atlântico e seguindo para o Occidente.
Não era Colombo como navegante superior a alguns pilotos que desde o infante Henrique trilhavam arrojadamente os mares e commettiam grandes e façanhosas emprezas; não sobrepujava a um Gil Eannes e nem a um Bartholomeu Dias, quer na intrepidez, e quer na firmeza e tenacidade de animo. Como sábio, não excedia também nem a Jayme de Malhorca, nem a Behaim, geographos eminentes da época e empregados em Portugal, e menos ainda ao Infante Henrique, cujos conhecimentos mathematicos conseguiram-lhe justa nomeada no mundo, e proporcionaram-lhe a felicidade de executar e fazer executar sublimes emprehendimentos. Atirava-se, porém, Colombo á emprezas com uma certa allucinação, proveniente de profundíssima convicção. Imaginava-as por si espontaneamente e fazia-se seu próprio executor. É nisto que fundava a superioridade sobre seus contemporâneos. Propoz-se então Colombo a João II para emprehender uma viagem directamente ás índias sem que torneasse a Africa. Para que pensar em dobrar o Cabo da Boa Esperança? Não estavam alli defronte de Portugal as índias com a China e o Japão? Mais depressa e menos perigosamente se não chegaria lá?
Convocou João II a conselho seus mais reputados sábios. Entre elles figuravam dous judeus, mestre José e mestre Rodrigo, famosos cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a Africa, e se navegaria seguro para as índias, e que assim continuasse El-Rei nos seus planos anteriores ; que si não era sonho de Colombo a viagem directa ao Oeste, por desconhecida se não devia tentar, parecendo fructo da imaginação mais que da sciencia humana. Indeferiu João II, portanto, a proposta de Colombo, que queria navios tripolados e garantias de honras e lucros para o caso de sahir-se bem da empreza. Desesperado e já então viuvo porque lhe fallecera a mulher portugueza, abandonou Colombo a terra, á que servia. No correr do anno de 1485 ou já em 1486 seguiu viagem para Génova». In J. M. Pereira da Silva, Conferências Públicas, propriedade do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro e Academia Real de Sciencias de Lisboa, Brazil, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, Library University of California, 1892.

Cortesia de IHGB/ARC de Lisboa/JDACT

Conferências Públicas. 1891. Pereira da Silva. «… a ideia de que o mundo terrestre formava uma esfera ou globo. Copérnico, já como que também adivinhara, que, em torno do sol fixo, é que gyravam a terra e os demais planetas»

jdact

NOTA: De acordo com o original

Primeira Gonferencia. 17 de maio de 1891
«(…) Ao cessar a primeira metade do século XV três acontecimentos verificaram-se, no entanto, na Europa: 1.º Constantinopla, a capital do império grego christão, successora de Roma, cahira em poder dos turcos, que, derrotando os Árabes, se tinham apoderado de toda a Ásia Menor, e dahi passado para Europa, onde fundaram novo império, que à pouco e pouco avassallou a Grécia, a Bulgária, a Roumania, a Servia e os estados do Danúbio, e começou a ameaçar a Allemanha pela Hungria; 2.º Descobrira-se em Mayença a arte de imprimir, e os livros tenderam logo á baratear, as luzes á derramarem-se, e a civilisação á crescer; 3.° Hespanha esforçava-se por unificar-se, reunindo em um só reino Navarra, Aragão, Catalunha, Castellas, Galliza, Leão e Bascos; e França alcançara emfim expellir os inglezes do seu território, e procurava alargar-se até o Mediterrâneo, e assenhorear-se da Borgonha e da Provença.
A esses trabalhos entregavam-se as nações europeas, emquanto que Portugal cuidava de navegações. Agora, mais que nunca, precisava-se de abrir caminho para as Indias pela Africa, porque os portos da Ásia Menor, do mar Negro e de Constantinopla, submettidos e acurvados pelos turcos de Mahomet, feixavam as communicações, restando apenas o Egypto que se conservara independente do jugo quer do Árabe já decahido e escravisado, quer do Turco, que sobre todos os mussulmanos se erguera, e apregoava-se o primeiro dos povos de crença Mahometana.
Affonso V de Portugal foi de novo guerrear na Mauritânia, subjugou Alzira, Alcácer e Tanger. Por sua morte, o rei João II preferiu continuar as excursões marítimas de seu finado tio infante Henrique e approximar-se da Ásia, dobrada a costa Africana: digno successor pela grandeza idêntica do pensamento, e mais poderoso porque era rei, e agora entrava a Coroa nas emprezas com força própria e sob direcção governativa. Foi nesse tempo que chegou á Portugal Christovam Colombo, pelo anno de 1470, aventureiro audacioso, temerário, instruído em mathematicas e cosmographia, e ancioso de tomar parte nas emprezas portuguezas, em que já se empregavam muitos compatriotas seus, e de outras nações europeas. Chamava Portugal e attrahia á si quantos aventureiros arrojados desejavam navegar e descobrir terras, porque era Portugal a única nação que se devotava á tão profícuo serviço.
Abrira, portanto, Portugal as portas que escondiam os continentes, rasgara caminhos no seio dos mares, desenvolvia e aperfeiçoava as sciencias cosmographicas, geographicas, astronómicas, melhorava instrumentos de navegação, tornara-se o precursor de todo o movimento progressivo, que seguiu o universo durante o século XV. Christovam Colombo teria então 35 annos, e sua vida, antes desta época, não está ainda hoje conhecida. Os autores que lhe escreveram a biographia, muitos foram elles, tanto hespanhoes como italianos e de outras nações, divergem, contradizem-se, por forma que ao certo se não alcança a realidade. Patenteava Christovam Colombo grandes talentos e muitos conhecimentos mathematicos, geographicos e cosmographicos; escrevia mapas e cartas, e tratou de empregar-se logo na marinha portugueza, casando-se com a filha de um Perestelo, navegante habilissimo, gratificado pela Coroa com a donatária da ilha do Porto Santo. Foi com elle que aprendeu, estudou os roteiros, recebeu lições, e delle herdou escriptos e mapas importantes a respeito de navegações marítimas. Colombo relacionou-se também com todos os marinheiros e pilotos que serviam em Portugal, fez com elles viagens diversas á Africa e aos Açores, e fixara residência ordinária na ilha da Madeira.
Dedicado ao estudo náutico, pesquizador de todos os factos que se passavam, engenhou logo empreza que lhe desse renome. Era ambiciosissimo de gloria e, pois, cuidou de desenvolver a sua actividade, para o fim de adquiril-a. Nessa época era abraçada por muitos sábios e cosmographos a ideia de que o mundo terrestre formava uma esfera ou globo. Copérnico, já como que também adivinhara, que, em torno do sol fixo, é que gyravam a terra e os demais planetas». In J. M. Pereira da Silva, Conferências Públicas, propriedade do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro e Academia Real de Sciencias de Lisboa, Brazil, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, Library University of California, 1892.

Cortesia de IHGB/ARC de Lisboa/JDACT

Conferências Públicas. 1891. Pereira da Silva. «Não se penetrara já na zona tórrida, e não se descobrira que ella era habitável? Falleceu, no correr de 1460, o infante Henrique, já nos fins de sua vida endeosado…»

jdact

NOTA: De acordo com o original

Primeira Gonferencia. 17 de maio de 1891
«(…) Deixemos de parte as fabulas de Platão e Aristóteles quanto ás ilhas da Atlântida e Antilhas, posto que os mappas de 1400 as mencionem ainda: como é curiosa a legenda da ilha das sete cidades, onde se recolheram sete bispos, que calçava de ouro as ruas, possuia palácios de mármore, asylara o ultimo rei godo-hespanhol Rodrigo, e dera eterna felicidade á Ennoch e Elias recolhidos á seu seio! Como encanta, a lenda de que a ilha de S. Brandão fora visitada por um abhade escossez Barandon, acompanhado por São Maló, que resuscitou um gigante já enterrado, baptisou-o e annunciou-lhe a felicidade na outra vida? Sabeis o que resultou? O gigante, depois de quinze dias, quiz por força morrer e morreu de novo para alcançar a bemavenlurança no Céo! Certo é que esta ilha figurava em todos os mapas dos séculos XV e XVI, nos próprios traçados ao depois por Colombo, e no globo attribuido á Behaim. Certo é ainda que no XVII e XVIII foi mandada procurar por navios hespanhóes, por ordem do seu governo, porque arrastados por illusões ópticas os habitantes dos Açores teimavam em que era vista, bem perto delles, em certas épocas do anno.
Resolveu-se o infante Henrique a iniciar os descobrimentos, seguindo a costa Africana, no intuito de apoderar-se della. Custou-lhe espantosamente. Seu pai animava-o, mas nao tinha dinheiro. Empregou o principe a renda do ducado e a do mestrado de Christo que administrava (e os dinheiros dos templários?). Marinheiros, pilotos, ninguém queria arriscar-se a ir além do Cabo Non, porque se espalhava que dahi em diante começava o mar tenebroso e as tradições que corriam aterrorisavam a todos. Com o emprego de inauditos esforços conseguiu o infante que Zarco e Tristão Dias, em 1418, alongando-se pelo oceano, descobrissem as ilhas do Porto Santo e Madeira, e em 1431 Gonçalo Velho as dos Açores. Nada disso o adeantava todavia. O que elle procurava era a Africa, era o que havia além do Cabo Non. D’ahi fugiam-lhe os mareantes, ahi não se atreviam á ir os pilotos. Morrendo em 1433 o rei João I, obteve do filho Henrique que o novo rei, Duarte I, mandasse expedição guerreira á Mauritânia, tendo-o e a seu irmão infante Fernando á frente; explore-se a Africa por terra, já que o mar está assustando!
Infeliz empreza! Os Portuguezes foram em Tanger derrotados. O infante Fernando cahiu prisioneiro e morreu no meio de tormentos em Fez. O irmão Henrique volveu para o seu promontório de Sagres (?) em 1437. Não desanimado perseverou nas lutas com o oceano, cujos segredos anciava descobrir. Mais lhe firmava no espirito os propósitos de percorrer a costa Africana a ideia de encontrar o caminho para as índias, e collocal-as em directa communicação com Portugal. Não diziam os mappas que a costa Africana parava aos 10 gráos? Não o incitava a leitura de Marco Paulo (não será Polo?) na descripção da Tartaria, Cypango e Cathay? Não havia chegado ao Indostão Alexandre com os seus Gregos, á Arménia os Romanos, á Jerusalém os Cruzados? Já que não podia ir por terra, combatendo Mouros, ou correndo a costa septentrional da Africa, por Argel, Tunis, Tripoli e Egypto, não era indispensável proseguir em expedições marítimas? Não estaria reservado a Portugal e a elle o papel glorioso de iniciar e executar emprezas que espantassem o mundo?
O povo murmurava, a nobreza zombava, era um louco na opinião de muitos, como são sempre considerados os génios que se adiantam além do seu século. Que lhe importava! Idèas firmadas em fundas convicções não se desfazem sinão diante de realidades demonstradas. Obteve que Gil Eannes chegasse ao Gabo Bojador, dobrasse-o, reconhecesse-o e voltasse a dar-lhe a boa nova; não era ainda o fim do mundo, mas ninguém lá fora, salvo mouro ou árabe, e por terra. Após o Gabo Bojador, descobriu Nuno Tristão, em 1443, o Cabo Branco, e em 1449, Cadamosto, o Cabo Verde e o Senegal, onde encontrou marfim, ouro e hordas de pretos, que conduziu para os Algarves, começando então o trafico de escravos Africanos na Europa. Dous papas mandam bullas de concessão de todas as terras além do Cabo Bojador, elogiando e preconisando de heroe o príncipe. Os Pontífices Romanos reputavarn-se então autorizados para distribuírem reinos e coroas.
Quantos erros geographicos se emendaram desde logo nos mappas? Quantos prejuízos populares se desfizeram? Chegara-se no entanto ao gráo 20 e não apparecia o mar tenebroso cuja fama enchia á todos de pavor. Continuar, continuar, e o caminho das Indias ahi estava próximo e certo, não tardaria a Africa em terminar, e dobrada que fosse se chegaria ao reino do Preste-João, de quem tanto se fallava de outiva; avistar-se-hiam as terras das pérolas, dos brilhantes, dos perfumes, dos tapetes, dos damascos, da pimenta, do cravo, das riquezas consideradas as maiores do mundo. Não se penetrara já na zona tórrida, e não se descobrira que ella era habitável? Falleceu, infelizmente, no correr de 1460, o infante Henrique, já nos fins de sua vida glorificado, endeosado pelos seus e admirado na Europa por causa das noticias das terras que tinha descortinado, e que se foram espalhando, apezar das difficuldades de communicações internacionaes naquella época». In J. M. Pereira da Silva, Conferências Públicas, propriedade do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro e Academia Real de Sciencias de Lisboa, Brazil, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, Library University of California, 1892.

Cortesia de IHGB/ARC de Lisboa/JDACT

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Conferências Públicas. 1891. Rio de Janeiro. Christovam Colombo e o Descobrimento da América. Pereira da Silva. «É mister penetrar nestas miudezas para se compreender a temeridade dos Portuguezes ao coalhar os mares com navegantes e descobridores de terras: hoje a navegação é fácil…»

Cortesia de wikipedia e jdact

NOTA: De acordo com o original

Primeira Gonferencia. 17 de maio de 1891
«(…) Quasi que não passava a navegação de costeira; fugia-se aos altos mares; apenas a bússola introduzida pelos Árabes servia de instrumento náutico; consistiam os navios em náos, de cerca de 200 ou mais toneladas, para carregamentos de mercadorias particulares; em galés de guerra com tombadilhos á popa e proa, espigões de ferro na proa, vãos no centro para 40 a 50 romeiros, dous ou tres mastros para pequenas velas; em galeotas que se armavam também em guerra, mais pequenas; em caravellas e fustas, sem convez, e as maiores de cem toneladas, e ninguém ousava praticar viagens sinão com a terra sempre á vista. Os Venezianos, Genovezes, Pizanos, e Catalães iam buscar as mercancias indiàticas ao Egypto, á Syria, á Constantinopla, ao mar Negro, onde ellas chegavam em caravanas, provenientes pelo golpho Pérsico e pelo mar Vermelho; percorriam o Mediterrâneo, dobravam as costas de Portugal e Hespanha, dirigiam-se á França, Inglaterra, Allemanha e até á Moscovia. Os Normandos, Bretões e Flamengos seguiam do norte para o sul encostados tambem e sempre á terra, e penetravam no Mediterraneo. Os Arabes conheciam únicos a navegação do Indostão e da Africa oriental, onde largamente traficavam, trazendo do Egypto para a Mauritania os géneros de que careciam.
É mister penetrar nestas miudezas para se compreender a temeridade dos Portuguezes ao coalhar os mares com navegantes e descobridores de terras: hoje a navegação é facil, grandes os navios, movidos até pelo vapor, machinismos o construcções admiráveis, instrumentos náuticos perfeitos, conhecidos os caminhos talhados nos oceanos, e manifestas as posições dos astros: então eram tudo trevas, difficuldades, perigos, terrores.
Que fim tinham levado as ilhas da Atlantida e das Antilhas, de que fallaram Platão e Aristóteles? As terras que os Phenicios diziam ter conhecido, e que denominavam afortunadas? Onde estavam as ilhas das sete cidades e de S. Barandon, que se inscreviam nas cartas geographicas da época, confusa e diferentemente? Por que se não chegaria ao mar tenebroso, como se intitulava o Atlantico próximo ao equador, ás zonas torridas, que se pintavam inaccessiveis e inhabitaveis? Por que se não dobraria a Africa, que se pensava acabar á 10 gráos de latitude Norte, correndo então para o oriente á ajuntar-se ás Indias, conforme os dizeres dos Arabes, que de Marrocos por terra chegavam até quasi o Senegal?
Todas estas questões se propunham e ventilavam-se no areopago fundado em Sagres pelo infante Henrique de Vizeu. Plinio, Ptolomêo, Strabo, o Veneziano Marco Paulo (?), os Arabes Endrisi e Averrohes, eram os oraculos pelos seus livros; Jaime Malhorca e Vasseca os desenhadores mais habilitados de cartas geographicas. Convém aqui summariar as lendas que a respeito se espalhavam, e que, acreditadas não só pelo vulgo, como pelos espirites cultos e sabios da epoca, espalhavam terrores de approximar-se ao sul da Mauritania». In J. M. Pereira da Silva, Conferências Públicas, propriedade do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro e Academia Real de Sciencias de Lisboa, Brazil, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, Library University of California, 1892.

Cortesia de IHGB/ARC de Lisboa/JDACT