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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

O Segredo de Espinosa. José Rodrigues dos Santos. «Sei lá. Olhou para o adulto que os acompanhava. Quem é aquele senhor, Pai? É o Uriel da Costa. Porque está toda a gente a olhar para ele?»

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Prólogo

«Os olhos castanho-escuros brilhantes do menino de oito anos estavam colados ao pano de seda vermelha e dourada que no hechal, o santuário da arca feito de madeira com duas portinholas, cobria os pergaminhos onde se inscrevia a Tora. Era como se HaShem, Ele próprio, o Nome, Deus bendito, omnipotente e omnipresente, Shaddai Todo-Poderoso, Adonai, Elohim ou qualquer outro dos Seus mil nomes, a1i estivesse à espera que O destapassem para que sobre todos lançasse o Seu olhar carregado de infinito. Misericórdia, justiça, fúria, compaixão, majestade, poder, amor, vida e morte. Ele era tudo o que havia. Tudo. O incomensurável.

O rebuliço próprio da sinagoga, entre os yehidim conhecida por esnoga, denunciava uma descontracção feita de conversas cruzadas e gargalhadas frequentes. Os correctores trocavam informações úteis para a sua actividade na bolsa, os comerciantes discutiam quando chegariam os últimos carregamentos de pau-brasil do Recife e de sal de Setúbal, e se haveria problemas com os espanhóis. Outros membros da congregação comentavam o descaramento dos tudescos em quererem vender nos seus talhos comida kosher aos portugueses, enquanto um punhado se ria com uma piada fresca que acabara de chegar de Lisboa ou de Sevilha. Os homens tinham panos brancos nos chapéus a cair-lhes sobre os ombros, os tallitot, e todos se sentavam nos seus lugares previamente marcados. Não havia nenhum que não tivesse nas mãos um Tanach, a Bíblia judaica; algumas em hebraico, a maioria em português.

O olhar do pequeno Bento desviou-se para a galeria onde se encontravam as mulheres, as cabeças cobertas por véus, muitas acompanhadas pelas filhas. Até dois anos antes tinha visto a mãe sempre ali sentada, silenciosa e atenta, a tossir ocasionalmente, mas justamente por causa dessa maldita tosse Ana Débora já não estava neste mundo. Em vez dela, viu duas meninas da sua idade sorrirem-lhe. Endireitou-se logo. Diziam-lhe por vezes que era um rapazinho de feições bonitas, o que pelos vistos atraía tantos sorrisos e olhares das meninas, mas, tímido como era, não sabia como lidar com tais atenções.

O burburinho parou bruscamente. De tão inusitado, o silêncio súbito arrancou Bento das suas deambulações pela esnoga. Os rostos de todos os congregantes voltaram-se em vagas sucessivas para a porta da rua e o menino, sentado na nave com a família, imitou-os.

Contra a luz pálida do Sol que jorrava sobre a entrada recortava-se o vulto de um homem de cabelos grisalhos revoltos, os ombros descaídos, imóvel e de cabeça baixa; dir-se-ia que tinha medo de entrar. Os olhares dos yehidim mantinham-se presos no recém-chegado, sem o convidarem mas também sem o rejeitarem; estavam simplesmente na expectativa de ver o que ele faria. Atrever-se-ia a avançar ou daria meia-volta e escapulir-se-ia?

Sentindo a súbita tensão que se instalara no santuário, Bento virou-se para o lado. Quem é?, os seus dois irmãos, Isaac um ano mais velho e Gabriel dois anos mais novo, encolheram os ombros com indiferença. Sei lá. Olhou para o adulto que os acompanhava. Quem é aquele senhor, Pai? É o Uriel da Costa. Porque está toda a gente a olhar para ele? Impacientando-se, o pai colou o indicador aos lábios. Chiu!

O pequeno calou-se e voltou a olhar para o recém-chegado. Ainda plantado no meio da entrada, Uriel da Costa respirou fundo, como se ganhasse coragem para fazer o que viera ali fazer. Recomeçou a caminhar, o corpo curvado pela derrota, os olhos intimidados no chão, internando-se na sinagoga pelo corredor central ladeado de congregantes que o observavam fixamente.

Chegou diante da bimah, a plataforma de madeira situada no centro do santuário onde habitualmente se faziam as leituras. Após uma nova hesitação, subiu-a com passos lentos e pesados, como um condenado a encaminhar-se para o cadafalso. A bimah estava deserta e os olhos de todos os yehidim encontravam-se centrados nele como se fosse o chacham de serviço. Voltando-se para a multidão, Uriel retirou do interior do casaco o papel que o chacham Saullevi Morteira, o rabino chefe, havia previamente redigido com as palavras adequadas para a ocasião. Desdobrou-o. As mãos tiritavam de nervosismo e o papel tremelicava sem cessar. Engoliu em seco ao pousar os olhos nas primeiras linhas do texto. Afinou a garganta». In José Rodrigues dos Santos, O Segredo de Espinosa, 2022, Grupo Planeta, 2023, ISBN 978-989-777-666-3.

 Cortesia de GrupoPlaneta/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Espinosa, Cultura, Conhecimento, O Saber,

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Codex 632. José Rodrigues dos Santos. «Afastou-se do quadro e aproximou-se da primeira fila. E terminou aqui, meus caros, o papel da pedra de Roseta. Aguardou que esta ideia assentasse. Foi um primeiro passo muito importante, é verdade, mas faltava ainda fazer muita coisa»

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Prologo

«Talvez fosse holandesa ou mesmo inglesa, mas a Tomás cheirava-lhe que ela viera da Alemanha, não seria do género alemã-cavalona nem alemã-vaca, mas antes alemã modelo, alta e resplandecente, uma verdadeira capa de revista. Ora, concluíram os cientistas ingleses, se as outras duas inscrições continham o mesmo édito, então não seria difícil decifrar os textos demótico e hieroglífico. Ah!, exclamou a aluna gordinha de óculos, a mesma vivaça que antes interrogara o professor. Então sempre foi a pedra de Roseta que forneceu a chave para decifrar os hieróglifos...

Calma, pediu Tomás, erguendo a mão direita. Calma. Fez uma pausa dramática. A pedra de Roseta tinha três problemas. Ergueu o polegar. Em primeiro lugar, estava danificada. O texto grego mantinha-se relativamente intacto, mas faltavam partes importantes do demótico e sobretudo do hieroglífico. Desapareceu metade das linhas do hieroglífico e as restantes catorze linhas encontravam-se deterioradas. Ergueu o indicador. Depois, havia o problema de os dois textos por decifrar estarem escritos em egípcio, uma língua que se presumia não ser falada há pelo menos oito séculos. Os cientistas conseguiam perceber quais eram os hieróglifos correspondentes a determinadas palavras gregas, mas desconheciam o seu som. Juntou o terceiro dedo. Finalmente, havia o problema de estar muito enraizada entre os eruditos a ideia de que os hieróglifos eram semagramas, cada símbolo continha ideias completas, e não fonogramas, onde um símbolo representa um som, a exemplo do que acontece no nosso alfabeto fonético.

Então como é que eles decifraram os hieróglifos? A primeira brecha no mistério dos hieróglifos foi aberta por um prodígio inglês chamado Thomas Young, um homem que, aos catorze anos, já tinha estudado grego, latim, italiano, hebraico, caldeu, siríaco, persa, árabe, etíope, turco e... uh... e... deixem-me cá ver... Chinamarquês?, arriscou o brincalhão da turma. Risada geral. Samaritano, lembrou-se Tomás.

Ah, então se sabia samaritano é por que era bom rapaz, insistiu o brincalhão, entusiasmado com o êxito das suas tiradas. Um bom samaritano. Novas gargalhadas. Vamos lá, vamos lá, disse o professor, que começava a ficar agastado com as piadinhas. Tomás sabia que todas as turmas tinham o seu palhaço, e este, pelos vistos, era o palhaço de serviço daquela turma. Bem, o Young levou para as férias de Verão, em 1814, uma cópia das três inscrições da pedra de Roseta. Pôs-se a estudá-las bem e houve uma coisa que lhe chamou a atenção. Tratava-se de um conjunto de hieróglifos rodeados por uma carteia, uma espécie de anel.

Presumiu que a carteia se destinava a sublinhar algo de grande importância. Ora, pelo texto em grego sabia que naquela zona se falava do faraó Ptolemeu, pelo que somou dois e dois e concluiu que a carteia assinalava o nome de Ptolemeu, era uma forma de importantizar o faraó. Foi nessa altura que ele deu um passo revolucionário. Em vez de partir do princípio de que aquela era uma escrita exclusivamente ideográfica, admitiu a hipótese de a palavra estar redigida foneticamente e pôs-se a fazer conjecturas sobre o som de cada hieróglifo dentro da carteia. O professor aproximou-se do quadro e desenhou um quadrado D. Partindo do princípio de que se encontrava ali assinalado o nome de Ptolemeu, presumiu que este símbolo, o primeiro da carteia, correspondia ao primeiro som do nome do faraó, o p. Desenhou ao lado uma metade de círculo com a base voltada para baixo C.

Depois, admitiu que este símbolo, o segundo da carteia, era um í. Fez a seguir um leão deitado de perfil _2^S> • Este leãozinho, achou ele que representava um /. Novo símbolo rabiscado no quadro branco, desta feita duas linhas horizontais paralelas unidas à esquerda <C~T. Aqui julgou ter encontrado um w. Agora duas facas lado a lado na vertical (1 (]. Estas facas seriam um z. Finalmente, um gancho de pé I . E este símbolo, um os. Rodou a cabeça e mirou a turma. Estão a ver? Apontou para os desenhos rabiscados no quadro e soletrou-os, acompanhando com o indicador. P, t, l, m, i, os. Ptlmios. Ptolemeu.

Voltou a encarar os alunos e sorriu com o ar de fascínio que descobriu naqueles rostos frescos. Sabemos hoje que, na maior parte dos casos, ele acertou nestes sons. Afastou-se do quadro e aproximou-se da primeira fila. E terminou aqui, meus caros, o papel da pedra de Roseta. Aguardou que esta ideia assentasse. Foi um primeiro passo muito importante, é verdade, mas faltava ainda fazer muita coisa. Tendo completado a primeira leitura de um hieróglifo, Thomas Young foi à procura de confirmações. Descobriu uma outra carteia no templo de Karnak, em Tebas, e deduziu tratar-se do nome de uma rainha ptolemaica, Berenika. Também aqui acertou nos sons». In José Rodrigues dos Santos, Codex 632, Gradiva, 2005, ISBN 978-989-616-072-2.

Cortesia de Gradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, Egipto, Conhecimento,

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Codex 632. José Rodrigues dos Santos. «Tomás concluiu tratar-se de uma estrangeira, era raro em Portugal aquele tipo de loiras tão clarinhas… Os cientistas franceses olharam para a pedra, identificaram caracteres gregos…»

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Prologo

«Como assim, professor?, adiantou uma estudante sentada à esquerda, uma gordinha baixa e de óculos, habitualmente das mais atentas e participativas. Tinha um ar prendado, devia ser católica. Então não foi a pedra de Roseta que forneceu a chave do significado dos hieróglifos? Tomás sorriu. A desvalorização da importância da pedra de Roseta, implícita no seu tom, produzira o efeito que desejava. Acordara a sala.

Sim, deu uma ajudinha. Mas houve muito mais do que isso. Uma nova aluna entrou na sala e o professor observou-a de relance, distraidamente. Como vocês sabem, durante séculos... Hesitou, retendo a atenção na recém-chegada. Uh... durante séculos... os hieróglifos... Era uma rapariga que nunca tinha visto. Os hieróglifos permaneceram... uh... eles permaneceram um grande mistério. A rapariga desconhecida foi sentar-se na última fila, isolada de todos e, por esta altura, observada por todos. Os... uh... hieróglifos mais antigos... Tinha um cabelo loiro aos canudos, brilhante e vivo, e um corpo voluptuoso. Pois... os primeiros hieróglifos remontam a... uh... três mil anos antes de Cristo. Tomás fez um esforço para se concentrar na matéria e obrigou-se a desviar o olhar da rapariga, percebeu que não lhe ficava bem permanecer embasbacado a observá-la e continuar a gaguejar.

Os... uh... hieróglifos permaneceram quase inalterados durante mais de três mil anos, até que, no final do século IV d. C, deixaram de ser usados. O seu uso e a sua leitura perderam-se subitamente, no espaço de apenas uma geração. E sabem porquê? A classe permaneceu em silêncio. Ninguém sabia. Os egípcios ficaram amnésicos?, gracejou um aluno, um dos raros rapazes que integravam a turma. Risinhos na sala, as raparigas achavam-lhe graça. Por causa da Igreja cristã, explicou o professor com um sorriso forçado. Os cristãos proibiram os egípcios de usarem os hieróglifos. Queriam cortar com o seu passado pagão, queriam obrigá-los a esquecerem Ísis, Osíris, Anúbis, Horus e toda aquela imensa corte de deuses. O corte foi de tal modo radical que o conhecimento da antiga escrita pura e simplesmente desapareceu. O professor fez um gesto rápido. Puf!, soprou. De um momento para o outro, nem uma única pessoa se tornou capaz de perceber o que os hieróglifos queriam dizer. A velha escrita egípcia passou à história enquanto o diabo esfrega um olho.

Tomás atreveu-se, agora que já tinha decorrido pelo menos um minuto, a mirar de fugida a recém-chegada. O interesse pelos hieróglifos manteve-se hibernado e só se reacendeu no final do século XVI, quando, por influência de um livro misterioso, intitulado Hypnerotomachia Poliphili, de Francesco Colonna, o papa Sisto V mandou colocar obeliscos egípcios nas esquinas das novas avenidas de Roma. Tomás achou-a uma deusa, embora de um género decerto diferente de Ísis. Os eruditos começaram a tentar decifrar aquela escrita, mas não percebiam nada, achavam estarem diante de semagramas, caracteres que representavam ideias completas.

Ela era mais do género das divindades nórdicas. Quando Napoleão invadiu o Egipto, mandou vir atrás de si uma equipa de historiadores e cientistas com a missão de cartografarem, registarem e medirem tudo o que encontrassem. Uma espécie de cortesã para animar os festins de Tor e Ódin. Essa equipa chegou ao Egipto em 1798 e, no ano seguinte, foi chamada pelos soldados estacionados no Fort Julien, no delta do Nilo, para ver uma coisa que eles encontraram na cidade de Roseta, ali nas proximidades. A loira tinha olhos de um azul--turquesa cristalino, a pele de um branco lácteo e irradiava uma beleza espampanante, daquelas particularmente apreciadas pelos homens e desprezadas pelas mulheres.

Os soldados tinham recebido a missão de demolirem uma parede, de modo a abrirem caminho para o forte que ocupavam, quando descobriram, inserida na parede, uma pedra com três tipos de inscrição. Tomás concluiu tratar-se de uma estrangeira, era raro em Portugal aquele tipo de loiras tão clarinhas. Os cientistas franceses olharam para a pedra, identificaram caracteres gregos, demóticos e hieróglifos, concluíram que se tratava do mesmo texto nas três línguas e aperceberam-se imediatamente da importância da descoberta. Seria alemã? O problema é que as tropas britânicas avançaram sobre o Egipto e derrotaram as francesas, e a pedra, que era suposto ser enviada para Paris, acabou por ser remetida para o Museu Britânico, em Londres. Podia ser italiana ou francesa, mas Tomás apostava num país nórdico. A tradução do grego revelou que a pedra continha um decreto da assembleia dos sacerdotes egípcios, registando os benefícios que o faraó Ptolemeu concedera ao povo do Egipto e as honras que, em troca, os sacerdotes endereçaram ao faraó». In José Rodrigues dos Santos, Codex 632, Gradiva, 2005, ISBN 978-989-616-072-2.

Cortesia de Gradiva/JDACT

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Vaticanum. José Rodrigues dos Santos «É o achado em torno do qual tenho andado às voltas desde que cheguei aqui a Roma. Julguei que estavas a trabalhar no túmulo de São Pedro...»

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«Um odor encharcado de mofo enchia o ar pesado, quente e húmido das catacumbas. Depois de ajeitar o capacete de operário que lhe protegia a cabeça, Tomás Noronha fez sinal à acompanhante para o seguir e virou a lanterna para a frente. O foco de luz, que até ali dançava nervosamente pelas paredes desgastadas pelo tempo, perdeu-se de repente num espaço mais vasto que sem aviso se abriu diante deles. O historiador estacou e examinou a nova divisória; dir-se-ia que haviam chegado a uma sala ou até a um pátio interior repleto de entulho. Brrr, que sítio sinistro!, gemeu Maria Flor atrás dele, quebrando o silêncio. Onde estamos?

Por baixo das Grotte Vecchie, identificou Tomás. As Grutas Velhas. Mais exactamente no muro sul. À medida que avançamos vamos recuando no tempo. Aqui é o Século III, ali ao fundo o Século II, depois o Século I. As vozes de ambos reverberavam no espaço fechado, amplificadas pela rede de clivi, ou pequenas ruas, e de túneis que furavam entre as paredes e janelas dos mausoléus que os cercavam. Nos tectos das catacumbas acumulavam-se gotas invisíveis que iam pingando a um ritmo cadenciado, soltando aqui e acolá pliques e ploques molhados que também ecoavam pelas ruínas; parecia que espectros assombravam as múltiplas criptas esquecidas sob o pó dos Séculos. Ainda falta muito?

Depois de atravessarem mais um clivus, o foco de luz da lanterna detectou uma estrutura inserida nos escombros diante da grande parede com reboco vermelho que se estendia do outro lado do espaço. Chegamos, disse ele. Entramos no Século I. Maria Flor varreu as ruínas com o olhar. O que é isto? O Campo P.

A luz percorreu uma coluna de oitenta centímetros de altura de mármore e depois uma parede perpendicular e terminou na peça de mármore que a coluna sustentava com dois nichos sobrepostos; assemelhava-se a um alpendre de pedra, mas, tratando-se de uma necrópole, só podia ser um mausoléu em forma de edícula. Uma das colunas evidentemente desaparecera, mas a outra sobrevivera.

Maria Flor apontou para a estrutura. É isto o Campo P? Não, indicou Tomás, ainda a analisar o mausoléu embutido na pedra. O Campo P é todo este espaço apertado onde agora penetramos e que está fechado ao público. A estrutura à nossa frente é aparentemente o troféu de Gaius. Quem? Gaius. O que é isso? O historiador avançou, atravessando o Campo P até chegar junto da estrutura; todo o espaço era rectangular, com uns sete metros de um lado ao outro, e estava coberto de pedras e túmulos rasos, evidentemente de pessoas mais modestas do que aquelas cujos restos repousavam nos mausoléus para a eternidade.

É o achado em torno do qual tenho andado às voltas desde que cheguei aqui a Roma. Julguei que estavas a trabalhar no túmulo de São Pedro... Tirando o saco dos utensílios arqueológicos que trazia às costas, Tomás depositou-o com cuidado diante da coluna, aos pés da pequena parede aí erguida. O troféu de Gaius é o túmulo de Pedro, querida. O Campo P é a designação arqueológica de Campo de Pedro.

Pouco convencida, ela analisou a coluna e esboçou uma expressão carregada de desconfiança. Isto é um túmulo? Sim, foi nesta zona que Pedro foi crucificado e os seus restos mortais sepultados. Estamos no túmulo de Shimon, o primeiro dos apóstolos, o pescador a quem Jesus disse que seria a pedra sobre a qual ergueria a sua Igreja. A palavra pedra está na origem do nome pelo qual Shimon, ou Simão, ficou eternamente conhecido. Pedro. Simão, a pedra, ou Pedro, o primeiro papa.

Como sabes isso? Como sei o quê?, devolveu ele em tom zombeteiro. Que Pedro era o pescador Simão que acompanhava Jesus e que mais tarde se tornou o primeiro papa? Não, palerma! Que é este o sítio onde São Pedro foi crucificado e sepultado. Como sabes isso?

Todas as fontes antigas, como Tertuliano em 195 e Eusébio em 325, atestam que Pedro era o bispo de Roma e foi crucificado durante as perseguições lançadas pelo imperador Nero contra os cristãos no ano 64. Um texto apócrifo intitulado Actos de Pedro esclarece que a crucificação foi feita de cabeça para baixo e pernas para o ar, versão que parece ser confirmada indirectamente no Evangelho de João e numa outra fonte citada por Eusébio. Maria Flor apontou com insistência para a estrutura enquadrada pela coluna». In José Rodrigues dos Santos, Vaticanum, 2016, Gradiva, ISBN 978-989-616-733-2.

Cortesia de Gradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Vaticano, Literatura, Conhecimento,

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «Desde o colapso financeiro que as contas do império ficaram a descoberto e o sultão precisa urgentemente de dinheiro. Ora, dinheiro já ele tem, observou a mulher com sarcasmo. E muito! Estás enganada»

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O Homem de Constantinopla

«Veron soergueu a sobrancelha, subitamente desconfiada; sabia tão bem como o marido que ninguém no palácio, a começar pelo seu amigo Salim Bey, oferecia nada desinteressadamente. Quanto quer ele? Cinco mil libras de ouro à cabeça e quinze por cento dos lucros. Fez-se silêncio no salão. Sentado no seu tapete de pele de cordeiro, Kaloust esforçava-se por permanecer invisível enquanto acompanhava a conversa; fascinava-o ouvir falar de negocies, mas tentava a todo o custo não se tornar notado, não o fossem mandar embora como aos criados.

Cinco mil libras de ouro é muito dinheiro, observou ela pausadamente. Onde as iremos arranjar? Vendemos as nossas propriedades em Kadi Keui, sugeriu Vahan. Temos mil libras de ouro, não temos? Essas propriedades hão-de render outras duas mil. Quanto às restantes duas mil, pedila-emos emprestadas aos bancos em Constantinopla. Encolheu os ombros, num gesto de impotência. Ficaremos depenados, claro, mas valerá a pena. O olhar de Veron desviou-se para a chama que ainda ardia na ponta do fio de algodão.

Não sei, hesitou. É muito dinheiro ... Mas não achas que é um bom negócio? A mulher estreitou as pálpebras enquanto ponderava o assunto. Aquela decisão era importante e antes de pronunciar o seu veredicto precisava de saber mais. Em que consiste o negócio exactamente?, quis ela saber, fazendo um gesto na direcção da lâmpada. Ficamos com o exclusivo da importação dessa geringonça? É isso? O marido soltou uma gargalhada Não das lâmpadas, corrigiu. Do querosene. Salim Bey oferece-nos o exclusivo da venda de querosene ao sultão.

Aliás, as cinco mil libras de ouro destinam-se às finanças pessoais do sultão. Salim Bey contenta-se com os quinze por cento do negócio. Veron manteve a expressão inquisitiva; ainda não tinha informação suficiente para tomar uma decisão segura. Mas afinal o que é isso do querosene?, perguntou. Onde se vai buscar essa coisa? O querosene é um derivado de um óleo que nasce nas pedras. Daí o seu nome, óleo das pedras. Pedra em grego é petra. Petra óleo. Agora até há uma expressão mais moderna, petróleo. Parece que foram descobertas grandes quantidades desse óleo na América.

E tu vais comprar o óleo à América? Claro! Se o negócio avançar, vou tornar-me o representante oficial do maior dos exportadores americanos, a Stand Oil, que ... Standard Oil, corrigiu o sogro. Pois, isso. Com o dedo debaixo da pálpebra direita acrescentou: E já ando de olho na Rússia também. Encontraram óleo das pedras bem perto daqui, em Baku. Indicou a chama tremeluzente. Isto é o futuro, mulher! Quando os candeeiros estiverem à venda, as pessoas vão deixar de usar velas de cera. Toda a gente vai querer estes candeeiros a óleo. No momento em que isso acontecer..., ficaremos ricos! Vacilou, tentando ler o pensamento de Veron pela expressão do seu olhar. Ou achas que não?

Os olhos da mulher não descolavam do candeeiro. De facto, como resistir à sedução de uma chama sem cheiro nem fumo? Cinco mil libras de ouro era uma verdadeira fortuna, estava realmente nos limites das suas capacidades financeiras ou até para lá deles. Os riscos pareciam-lhe enormes. Não lhes restaria um tostão e ficariam de tal modo endividados que poderiam ser arrastados para a bancarrota, contra a qual a sua prudência de mulher a alertava. Mas até um idiota perceberia as potencialidades comerciais encerradas naquela maravilhosa chama azulada.

Porquê nós? Porque nos oferecem o negócio a nós? Porque Salim Bey confia em mim. Veron inclinou a cabeça com uma expressão céptica muito sua, como se pedisse que a poupassem a conversa fiada. Vá, agora a sério. Porque estamos no sítio certo, corrigiu Vahan. Basta aliás olhar para o mapa. Temos negócios em Constantinopla, onde os Americanos podem descarregar o seu produto. E estamos em Trebizonda, que se encontra a dois passos de Batum e a meio caminho do óleo das pedras de Baku. Além disso, vamos dar-lhes a ganhar muito dinheiro. Desde o colapso financeiro que as contas do império ficaram a descoberto e o sultão precisa urgentemente de dinheiro. Ora, dinheiro já ele tem, observou a mulher com sarcasmo. E muito! Estás enganada». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, A Arte, 

terça-feira, 18 de abril de 2023

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «Fez um gesto em redor, como se indicasse a casa. Se temos tudo isto, também a Salim Bey o devemos, nunca é de mais lembrá-lo! O bakshish é a justa retribuição por tantos favores que lhe devemos!»

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O Homem de Constantinopla

«(…) Candeeiro? Óleo mineral?, balbuciou a mulher, papagueando as palavras novas. O que é isso? Vahan desatarraxou o objecto, separando o vidro da parte metálica. Já vos mostro, disse, expondo o interior da base metálica. Estão a ver este líquido aqui? A mulher e o filho inclinaram os rostos e espreitaram o líquido. Tratava-se de uma solução amarelada que libertava um cheiro forte e enjoativo, repugnante até. É isso o óleo mineral? Chamam-lhe querosene, explicou o marido. Olhem para este fio de algodão, estão a ver? Cai sobre o tanque, de modo a empapar-se de querosene. A extremidade fica cá em cima. Querem ver o que vai acontecer agora? O marido tirou o charuto da boca e colou a ponta incandescente ao fio branco. Uma chama azulada irrompeu na extremidade do fio e pôs-se a brilhar com vigor inusitado, bailando em silêncio como um farol longínquo, o que arrancou expressões de espanto e maravilha na sala. Oh!

Vahan pegou na estrutura de vidro e atarraxou-a à base metálica, reconstituindo o objecto original. Esta parte envidraçada serve para proteger a chama, explicou ao completar a tarefa. Ergueu o candeeiro como se ele fosse um troféu. Com esta invenção deixamos de precisar de velas de cera nesta casa, ouviram? Credo, homem! E o fumo? Fumo? Qual fumo? Esta lâmpada não liberta fumo nem cheiro, mulher. Além disso tem uma luz mais forte do que a das velas. Olhem para isto! Aproximou a lâmpada de um canto escuro da sala para fazer a demonstração. Estão a ver? Maravilha de luz, hem? É o progresso que chega a esta casa, minha gente! O progresso! A novidade a todos maravilhou, incluindo aos criados, que acorreram para testemunhar o advento do progresso anunciado pela chama azul que o funil envidraçado irradiava, como se a luz trémula encerrasse o oráculo de um futuro radioso.

O teu marido ainda não te contou tudo, disse Grigoris, quebrando o mutismo. Falta a grande novidade. Há mais?, admirou-se Veron, descolando enfim os olhos hipnotizados do lume ondulante. Trouxeram mais inventos de Constantinopla? O dono da casa fez um sinal aos criados e todos se retiraram ordeiramente. A grande novidade, revelou quando ficaram a sós, é um negócio que me propôs Salim Bey. Quem? O consultor do sultão? Esse mesmo, confirmou Vahan. Como sabes vou sempre almoçar com ele quando estou em Constantinopla. É um bom amigo, o Salim Bey. Pudera!, soltou Veron com uma ponta de veneno a apimentar-lhe a língua. Com todos os tapetes que já lhe ofereceste! E isto sem falar no bakshish! O homem deve estar rico à nossa custa!

E nós à dele!, corrigiu o marido, endurecendo a expressão do rosto e apimentando as palavras com a dose certa de rispidez. Não te esqueças, mulher, de que foi ele quem introduziu os nossos tapetes no palácio! A custa disso, a clientela centuplicou! Agora toda a gente quer a nossa mercadoria! Tornámo-nos abastecedores do palácio e essa é a melhor publicidade que existe por todo o império. Não devemos por isso cuspir na mão que nos alimenta. É verdade, admitiu a senhora da casa, que na verdade não se podia queixar dos benefícios conquistados à custa daquela amizade mutuamente interessada. Agora até o sultão pisa os nossos tapetes. E foi a conselho de Salim Bey, é bom não o esquecer, que o sultão me fez vali de Trebizonda e me entregou a colecta de impostos na Mesopotâmia.

Em troca de muito bakshish ... Não interessa! Fez um gesto em redor, como se indicasse a casa. Se temos tudo isto, também a Salim Bey o devemos, nunca é de mais lembrá-lo! O bakshish é a justa retribuição por tantos favores que lhe devemos! Veron baixou a cabeça. Tens razão. Uma vez a mulher disciplinada e a sua autoridade restabelecida, Vahan respirou fundo e readquiriu a compostura senhorial. Não era habitual tais assuntos serem discutidos com mulheres, mas ele já se acostumara a confiar no juízo de Veron naquelas situações. O diabo da mulher parecia que tinha um faro especial para os negócios e parvo seria ele se não lhe buscasse conselho. Pois o bom do Salim Bey veio oferecer-me o negócio do querosene, anunciou. Exclusivo para o palácio do sultão». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, A Arte,

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «Havia já algum tempo que não o via por casa. As viagens a Constantinopla tinham-se tornado frequentes na vida de Vahan Sarkisian e Kaloust habituara-se a observá-lo a partir para a capital com os carregamentos que lhes chegavam das caravanas…»

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O Homem de Constantinopla

«(…) O livro com a capa a ostentar o título Hayastan, ou Arménia, com a chancela do patriarcado e leitura recentemente tornada obrigatória na escola arménia de Trebizonda, estava aberto na página que relatava como o rei Tiridates 3º adoptou o cristianismo como religião oficial do país no ano sagrado de 301, o que fez da Arménia a primeira nação cristã do planeta, antes ainda da Etiópia e do Império Romano. A informação confirmava o que o pequeno Kaloust escutara ocasionalmente nas conversas entre adultos e na missa, mas não pôde naquele instante aprofundar o assunto porque o troar aterrorizador de uma voz familiar lhe interrompeu a leitura. Veron! Era o pai que entrava no salão. Obedecendo a uma ordem havia muito interiorizada, Kaloust levantou-se de um salto, juntou os calcanhares e fez uma vénia na direcção do chefe da família, como procedia sempre que ele aparecia na sua presença.

Havia já algum tempo que não o via por casa. As viagens a Constantinopla tinham-se tornado frequentes na vida de Vahan Sarkisian e Kaloust habituara-se a observá-lo a partir para a capital com os carregamentos que lhes chegavam das caravanas provenientes do Cáucaso e da Pérsia. Parece que os tapetes faziam grande sucesso em Constantinopla e que, à custa de ofertas de magníficos exemplares finamente trabalhados, o pai conseguira excelentes contactos no palácio, ao ponto de o sultão em pessoa, por proposta de um conselheiro, o ter nomeado vilayets da Trebizonda e colector de impostos nos vilayets da Mesopotâmia. Mais do que uma honra, esses cargos revelaram-se imensamente lucrativos, tendo reforçado os cofres da família à custa do muito bakshish com que era presenteado em troca dos favores mais ou menos legais que ia concedendo no decurso da sua destacada actividade pública.

Dessa vez Vahan regressava de uma viagem à capital e vinha acompanhado do avô Grigoris, ambos de fez vermelho e bengala e a fumarem charutos aromáticos. Os dois homens cruzaram o salão e instalaram-se nas cadeiras que no ano anterior tinham chegado expressamente de Veneza para mobilar a casa. Ao escutar a voz masculina a trovejar pela casa, a mãe acorreu à sala. Que se passa? Passa-se que o teu marido chegou, mulher!, urrou Vahan com uma gargalhada. E veio com o teu pai!

Vendo o seu próprio pai no salão, Veron estacou e fez, também ela, uma vénia. Senhor. Mas os dois homens não estavam para formalidades. Vinham num estado de grande excitação e depressa a família percebeu porquê. É que traziam novidades na forma de um estranho objecto com a parte baixa feita de metal e a de cima de vidro afunilado. Olha para isto!, exclamou Vahan enquanto exibia o engenho. Fazes ideia do que é? A mulher fixou o objecto com uma expressão intrigada. Um vaso? Os dois homens riram-se com gosto e o dono da casa voltou o objecto para o filho. E tu, Kaloust? Sabes o que é? O pequeno permanecia de pé, como uma sentinela, e sabia que só poderia falar quando o pai lho consentisse. O que sucedeu então. Observou a novidade com cuidado, esforçando-se por lhe descortinar a função. Queria brilhar diante do pai, mostrar-lhe que os seus conhecimentos iam muito para além do que lhe ensinavam na escola, embora não tivesse resposta para a pergunta. Dava a impressão de ser uma engenhoca qualquer, mas a verdade é que nunca vira nada de semelhante na sua curta vida pelo que teve dificuldade em identifica-la. Parece um ... um alambique. Nova gargalhada dos dois homens, ambos imensamente divertidos com o efeito do engenho que haviam trazido para casa.. É uma vela!, anunciou Vahan com orgulho. Serve para iluminar. Mulher e filho cravaram o olhar estupefacto no objecto, na dúvida sobre se o dono da casa lhes estaria a pregar uma partida ou a falar a sério. Uma vela?, admirou-se Veron com um esgar desconfiado. Onde está a cera? Não tem cera, retorquiu o marido. É uma vela moderna. Chamam-lhe candeeiro e é alimentado a óleo mineral». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

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quinta-feira, 16 de março de 2023

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «Nas semanas seguintes, a loja de Vahan no bazar de Constantinopla registou uma inusitada procura da parte de diplomatas e comerciantes ocidentais radicados na cidade…»

 

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O Homem de Constantinopla

«(…) As paredes da mansão cobriam-se de magníficas tapeçarias provenientes de Bucara, os mais finos e requintados de todos os exemplares orientais, e as salas exibiam vistosos tapetes persas de Shiraz e Isfahan. Pormenor de grande importância, eram todos de lã; naquela casa não havia lugar para os de algodão ou de pele de carneiro ou de camelo, considerados de pior qualidade. A excepção dizia respeito a um belíssimo tapete caucasiano de pele de cordeiro, de toque suave e doce, em cima do qual o pequeno Kaloust gostava de estudar. O requinte na escolha dos tapetes para aquela casa não espantava ninguém; afinal Vahan tinha começado a sua vida profissional justamente com uma pequena loja de tapetes no bazar de Trebizonda. O negócio prosperara ao ponto de lhe ter aberto as portas ao casamento com a sua prima Veron, a filha predilecta do tio Grigoris. Acontece que Grigoris mantinha correspondência assídua com os grandes bancos estrangeiros de Constantinopla, como o Banco Otomano, criado pelos Britânicos, e o Banco Imperial Otomano, que estava na mão dos Franceses, contactos que Vahan aproveitou para expandir o seu negócio para a longínqua capital.

Tapetes eram coisa que não faltava em Constantinopla, claro, mas Vahan apercebera-se de que havia um interessante nicho de mercado por explorar. Para o seu negócio em Trebizonda havia estabelecido contacto com fornecedores do Turquistão. Os tapetes dessa região do Cáucaso, fabricados com pura lã, eram muito populares na capital e na Europa, mas apenas na sua variante mervi. Ora Vahan recebia carregamentos de modelos jumud e tekké, raramente exportados e quase desconhecidos. Os seus exemplares eram verdadeiras obras de arte, todos de grande originalidade e requinte. O comerciante não ignorava que, tratando-se de novidades, constituíam um trunfo importante para o negócio já florescente; precisava apenas de o saber jogar com sabedoria.

Foi o que fez. A conselho da mulher, que nisso dos negócios não brincava, reuniu coragem e as suas economias e investiu numa loja que abriu no bazar de Constantinopla. Logo que o estabelecimento começou a funcionar, contactou os directores ingleses e franceses dos bancos com os quais o tio, agora sogro, fazia negócios. Reservou a sala de um dos mais requintados restaurantes arménios do bairro de Pera e ofereceu-lhes um almoço digno de sultões. Antecipadamente informado dos seus interesses de coleccionadores, coroou o repasto com ofertas das melhores tapeçarias jumud e tekké que adquirira no Turquistão. Os estrangeiros ficaram encantados e não calaram o assombro diante dos seus clientes ou dos amigos que encontravam nos cocktails das legações e a quem exibiam as novidades oriundas do Turquistão.

Nas semanas seguintes, a loja de Vahan no bazar de Constantinopla registou uma inusitada procura da parte de diplomatas e comerciantes ocidentais radicados na cidade, todos eles alertados pelos seus amigos dos bancos e interessados em adquirir um exemplar de tão original mercadoria. Claro que o movimento acabou por despertar a atenção do resto da clientela e, em alguns meses, a loja enchia-se também de turcos, intrigados com os tapetes que tanta curiosidade estavam a suscitar junto dos giavour, os infiéis.

Quando o seu Kaloust nasceu, em 1869, o tio-sogro abraçou Vahan e celebrou a ocasião com uma garrafa do valente conhaque arménio. Parabéns!, exultou Grigoris com a boca a tresandar a álcool. Fizeste fortuna e tornaste-te um dos homens mais ricos de Trebizonda! Este teu filho e meu neto trará grande glória à nossa família». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

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O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «O criado sentou-se sobre ele e pregou-lhe uma estalada de tal modo violenta que o director embateu com a nuca no chão. Chega! À ordem do patrão…»

 

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O Homem de Constantinopla

«(…) Abriu-a com brusquidão e invadiu o gabinete sem cerimónias, como se fosse ele o verdadeiro dono da instituição. Senhor Sarkisian!, exclamou o director com espanto, levantando os olhos dos papéis que rabiscava. Seja ... seja bem-vindo! O director era um homem magro e nervoso, com malares muito salientes e uma expressão mortiça no olhar gasto, que os óculos na ponta do nariz se esforçavam por reavivar. Estava sentado à secretária a tratar da correspondência para o patriarcado em Constantinopla. Surpreendido com a intromissão inesperada, suspendeu a caneta no ar. O senhor já viu a nota?, rugiu o intruso. Já viu a classificação do meu Kaloust? O director ergueu-se da cadeira, a atenção dividida entre o seu ilustre visitante e a criança que ele puxava pela orelha. O petiz parecia estar a ser punido, o que o deixou confuso. Mas ... mas ele teve uma nota excelente, senhor Sarkisian! Excelente! A sombra perturbada de uma dúvida súbita perpassou-lhe pelo olhar. Foi dezoito, não foi? Ele não teve dezoito? Teve, sim. O rosto do homem iluminou-se com um lampejo de alívio. Ah, bem me parecia!, bufou. Pois, foi óptimo! O olhar furibundo do seu interlocutor voltou a desconcertá-lo; manifestamente alguma coisa estava a escapar-lhe. Há ... há algum problema? O problema é o Shakhian ... ou melhor, o filho do Shakhian, rosnou Vahan. Esse miúdo teve dezanove! O meu teve dezoito! Isso significa que ele fez melhor do que o meu! Os lábios do director curvaram-se num sorriso conciliador. Oh, senhor Sarkisian!, exclamou enquanto abria as mãos num gesto para apaziguar o seu interlocutor. Por amor de Deus! Dezoito, dezanove ... o que interessa isso? São excelentes notas! Excelentes! O seu filho está de parabéns! Ele é um dos dois melhores alunos da escola! O senhor… o senhor devia estar orgulhoso dele! É o melhor a Francês, é o melhor a Aritmética! Esboçou uma ligeira careta. Está um pouco atrasado no Arménio por causa da gramática, é verdade, mas isso ... enfim, não me parece grave. Vahan Sarkisian olhou para o criado atrás dele e fez um gesto na direcção do director. Dá-lhe! O kahveci nem hesitou. Saltou da sombra do seu patrão e atirou-se ao director com o vigor de um cavalo de corrida, esmurrando-o na barriga e atirando-o ao chão. Senhor Sarkisian!, implorou o director com um gemido enquanto se encolhia aos pés da cadeira, no gesto reflexo de quem se protege. Por favor, senhor Sarkisian!

O criado sentou-se sobre ele e pregou-lhe uma estalada de tal modo violenta que o director embateu com a nuca no chão. Chega! À ordem do patrão, o kahveci levantou-se e recuou para a porta, deixando o director da escola estendido sobre a pedra fria, o cabelo desgrenhado e o rosto vermelho como uma malagueta do bazar, os óculos atirados para um canto do gabinete, a gola desfeita. Senhor Sarkisian, disse o homem, visivelmente atarantado, apalpando o chão em redor num esforço vão para localizar os óculos perdidos. O que foi que fiz? Vahan Sarkisian deu dois passos em frente e imobilizou-se diante do director, que não se atrevia a levantar-se sem receber a devida autorização. Fica o senhor avisado de que, no final do ano lectivo, o melhor aluno desta escola será o meu filho!, vociferou em tom ameaçador. E não quero classificações de favor, ouviu? Ele terá as melhores notas porque será mesmo o melhor. O melhor! Se o senhor achar que ele precisa de melhorar, fará o que considerar necessário para alcançar esse objectivo. Fiz-me entender?

O director balançou afirmativamente a cabeça sem se atrever sequer a erguer os olhos. Sim, senhor. Vahan manteve-se pregado ao chão. No final do ano quero que me entregue os testes do meu filho e do miúdo do Shakhian, disse. Irei verificar pessoalmente que as respostas do meu são as melhores. Ergueu o dedo, em gesto de aviso. Não se atreva a fazer batota! A advertência concluída, deu meia volta, voltou a pegar na orelha do filho e, puxando-a, abalou enfim do gabinete. A fama de Vahan Sarkisian era grande no millet arménio de Trebizonda, onde a etnia cristã se afirmava como dominante, e a sua casa gozava da merecida reputação de ser a residência mais rica e bem decorada de toda a cidade». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

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quinta-feira, 28 de abril de 2022

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «É a tua nota. Tiveste dezoito. O petiz venceu o medo do pai e espreitou a classificação. É..., é bom, não é? Com um movimento inesperado, Vahan esbofeteou o rosto do filho»

 

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«(…)

O Homem de Constantinopla

As gotas de chuva desenhavam sucessivos anéis em expansão no espelho sujo das poças de água enlameada, tombando em saraiva sobre as múltiplas crateras que o mau tempo escavara na rua de terra batida. Os habitantes de Trebizonda apressavam-se em busca de refúgio, saltitando de alpendre em alpendre num esconde-esconde aflito para se abrigarem do céu de chumbo que desabava em fúria aterradora. Deixem passar o rapaz mais esperto de Trebizonda!, troou uma voz numa ladainha cantarolada.

Deixem passar o filho do todo-poderoso senhor Sarkisian! O homem que assim trauteava cruzou a rua em passo de corrida, os pés descalços enlodados quase até ao joelho, uma criança minúscula montada sobre os ombros. O pequeno tinha a cabeça envolta num enorme lenço para se proteger da chuva; não se lhe via o rosto, nem tal era preciso. Mesmo que o criado não anunciasse o nome do pai do petiz, todos sabiam bem que aquele era o filho do senhor Vahan Sarkisian, o vendedor de tapetes que, ao que se dizia de ciência certa, fizera amigos na própria corte do sultão. Deixem passar o rapaz mais esperto de Trebizonda!, voltou o criado a gritar, como se aquela fosse a forma mais eficaz de abrir passagem na cortina de chuva e no lamaçal, entre os fiacres, as carroças, as mulas e os transeuntes fugidios que congestionavam a rua. Deixem passar o filho do todo-poderoso senhor Sarkisian!

O mar Negro, habitualmente tranquilo como um lago gigante, agitava-se ao lado da rua, parecia um monstro atormentado. O criado com a criança aos ombros ignorou a enorme massa de água escura que fustigava as rochas em fúria cega e ameaçava invadir a linha de costa e virou à direita, desaguando por fim no destino. Cruzou um portão, entrou a correr num pequeno edifício e só parou no átrio sombrio, no meio de uma pequena multidão de crianças e de alguns adultos que sacudiam ainda a água das roupas. Com um sopro de exaustão, pousou o pequeno corpo no chão; tirou-lhe o lenço da cabeça e inspeccionou-lhe o cabelo. Então, menino?, perguntou ao detectar uma madeixa molhada. Entraram aqui umas gotinhas? O pequerrucho assentiu com a cabeça. Molhei-me. O criado passou os dedos pela madeixa, penteando-a para trás e disfarçando o tufo húmido no meio do cabelo seco. Pronto, já está!, exclamou, como se tivesse miraculosamente resolvido o problema. Agora já pode ir para a aula, menino! Despache-se, porque senão... Uma mão gorda pousou abruptamente sobre o ombro do pequeno, interrompendo as derradeiras recomendações. Ele agora vem comigo, ordenou o vulto que se abeirara deles. E tu, kahveci, também! O kahveci, O homem do café, expressão porque era conhecido o criado, levantou os olhos e, num misto de surpresa e terror, reconheceu o corpo imponente e arredondado do patrão. Senhor!, exclamou, baixando de imediato a cabeça num gesto de submissão. Eu..., sim senhor! Vahan Sarkisian virou as costas e arrastou o filho até à parede onde se encontrava um painel coberto por folhas de papel. As páginas pregadas ao painel apresentavam listas de nomes garatujadas à mão em caracteres arménios com algarismos diante deles. Estás a ver este número aqui?, perguntou Vahan, indicando a linha com o seu indicador anafado. É a tua nota. Tiveste dezoito. O petiz venceu o medo do pai e espreitou a classificação. É..., é bom, não é? Com um movimento inesperado, Vahan esbofeteou o rosto do filho. Não foi a melhor nota!, vociferou, o rosto rubro de fúria súbita. Olha para aqui! Forçou o menino a voltar os olhos humedecidos para o painel com as classificações e apontou para uma outra linha. Estás a ver aqui o filho do Shakhian, o Setrak? Quanto é que ele teve? Dezanove! Dezanove, vês? E o pai dele..., o pai dele não passa de um reles comerciante de fruta! Fitou o pequeno com a expressão severa de um juiz na hora da sentença. Se o Setrak conseguiu, porque não conseguiste tu? Queres humilhar-me perante a cidade toda? Queres cobrir-me de vergonha? Com o rosto incendiado pelo efeito da bofetada e o queixo trémulo como num assomo febril, o menino baixou os olhos, pronto a libertar-se no pranto de quem se sente injustiçado, mas lutou contra as lágrimas que lhe marejavam as pálpebras e ergueu de novo o olhar para fixar teimosamente a atenção embaciada na linha indica da pelo pai. O Setrak tinha de facto conseguido dezanove valores, o que fazia dele o melhor aluno da escola. Era, na verdade, um adversário difícil de bater. Mas, que diabo, o seu dezoito não lhe parecia assim tão mau! Anda cá! Vahan Sarkisian puxou o filho pela orelha, fez sinal ao criado de que o seguisse e cruzou o pátio com passos determinados . Meteu pelo corredor e, chegando diante da porta do director da escola, nem sequer bateu». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

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O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «Cerrei os olhos e, num murmúrio, rezei em arménio. Quando acabei apercebi-me de que madame Duprés havia voltado ao quarto. Tinha os olhos vermelhos…»

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«(…) Pai?, sussurrei com a maior doçura de que fui capaz. Está a ouvir-me? Os olhos negros escorregaram na minha direcção e tive então a certeza de que se encontrava realmente desperto e me entendera. Encorajado, perguntei-lhe se se sentia bem. Tentou falar, ainda pronunciou uma sílaba, kr..., kri... , presumi que quisesse dizer o meu nome, mas tornava-se evidente que o esforço era demasiado penoso e, com um suspiro fatigado, desistiu. Disse-lhe que descansasse e não se preocupasse, ia correr tudo bem. Não sei se acreditou em mim ou se foi do cansaço, mas a verdade é que a seguir cerrou os olhos humedecidos e pareceu serenar. Dei um passo para o lado e deixei madame Duprés soprar-lhe umas palavras de ânimo a que ele voltou a não responder. A francesa ainda tentou persistir, mas de repente virou-se e fugiu dali com um gemido. Não era capaz de o ver naquele estado. Apercebi-me, talvez um minuto depois, de que ele reabrira os olhos e tentava de novo falar. Aproximei-me mais uma vez da cama, peguei-lhe na mão mortiça e fria e inclinei-me sobre ele, encostando o ouvido à boca trémula. Começou outra vez por balbuciar umas sílabas incompreensíveis, sons que não pareciam fazer sentido e que se soltavam nas pausas da respiração leve, mas inesperadamente saiu-lhe uma frase completa, na verdade uma pergunta lançada num só fôlego, como se ela reflectisse a essência da sua vida. O que é a beleza? Estas palavras enigmáticas suscitaram-me o maior dos espantos. O que é a beleza? O que raio quisera ele dizer com aquilo? Porque teria o meu pai gasto a sua escassa energia com uma irrelevância? Só podia ser o resultado de um delírio febril, o produto indesejado das elucubrações demenciais de um moribundo, pelo que ignorei a tão absurda pergunta e decidi questioná-lo sobre o seu estado. Quis saber se se encontrava bem, se desejava alguma coisa ou se podia fazer algo por ele, mas voltou a fechar as pálpebras e a deixar-me entregue à minha perplexidade. Enquanto reflectia naquela pergunta bizarra, senti-o remexer-se na cama. Imaginando que algo o incomodava, levantei prontamente o lençol para verificar se estava tudo bem. Foi nessa altura que ele alçou o braço debilitado e fez um gesto na direcção da cómoda. A seguir ouvi-o suspirar e o braço tombou, pendurado ao abandono na borda da cama. O doutor Fonseca abeirou-se dele e inspeccionou-lhe os olhos e a pulsação. Depois endireitou-se e, respirando fundo, encarou-me. Regressou ao coma, disse. Receio que o fim esteja iminente. Beijei o meu pai na fronte e depois afastei-me um passo.

Cerrei os olhos e, num murmúrio, rezei em arménio. Quando acabei apercebi-me de que madame Duprés havia voltado ao quarto. Tinha os olhos vermelhos, estivera de novo a morar. E contei-lhe o que se passara e perguntei-lhe o que haveria na cómoda de tão especial para merecer aquele último gesto dele. Os livros, disse ela. Queria decerto os livros. Quais livros? Um sorriso terno aflorou à face enrugada da velha senhora. Ele passou o último ano a escrever dois livros, não sabias? Contam a história dele. E a tua, já agora. A minha? Sim. Escreveu essa parte com base num diário teu que encontrou num baú. Riu-se com doçura. E sabes o que é curioso? Redigiu tudo na terceira pessoa, como se fosse alguém a contar a vossa história. Estava de tal modo entusiasmado que ainda rabiscou as últimas páginas do segundo volume na primeira vez que despertou do coma, vê lá! Desviei a atenção para a cómoda. Havia uma peça antiga de porcelana chinesa, um vaso com tulipas azuis e uma fotografia dele sentado à frente de uma estátua egípcia, provavelmente tirada em Lucsor, decerto no templo de Karnak. Onde estão esses livros? Madame Duprés chegou-se à cómoda e abriu a gaveta superior, de onde extraiu duas resmas de papel; eram, todas somadas, mais de mil folhas, um verdadeiro tijolo. Peguei nelas e folheei-as, impressionado com o volume; estavam dactilografadas e corrigidas a caneta com a letra inconfundível do meu pai. Percebi que teria muito para ler nos dias seguintes. Depois virei os maços compactos de papel e espreitei a primeira página da primeira resma, uma folha branca com uma única frase a cortá-la, evidentemente o título». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

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quarta-feira, 20 de outubro de 2021

José Rodrigues dos Santos. O Último Segredo. « voz da mãe lhe soou no aparelho no habitual queixume inquieto. Filho, quando volta para casa? Já faz tanto tempo... Mãe, já lhe disse que estou fora do país, explicou Tomás…»

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«(…) Levantou a cabeça e apreciou a lua cheia lá no alto, irradiando um halo prateado sobre a majestosa Coluna de Trajano. A noite era sem dúvida o momento que mais apreciava para trabalhar ali no centro de Roma; de dia o trânsito tornava tudo caótico. O clamor das buzinas e o ronco furioso das britadeiras revelavam-se absolutamente infernais. Consultou o relógio. Já era uma da manhã, mas estava determinado a aproveitar a pausa que o sono dos motoristas romanos lhe havia concedido durante a noite para adiantar o máximo de trabalho. Só sairia dali às seis da manhã, quando os carros começassem a atrapalhar o movimento das ruas e o concerto das buzinas e das britadeiras recomeçasse. Nessa altura iria dormir no seu pequeno hotel na Via del Corso. O telefone móvel  tocou  no bolso das calças, arrancando-lhe uma expressão inquisitiva. Àquela hora? Quem diabo lhe ligaria à uma da manhã? Verificou o visor do telemóvel  e, depois de identificar o autor da chamada, apertou o botão verde.

O que houve?

A voz da mãe lhe soou no aparelho no habitual queixume inquieto. Filho, quando volta para casa? Já faz tanto tempo... Mãe, já lhe disse que estou fora do país, explicou Tomás, enchendo-se de paciência; era a terceira vez que lhe dizia a mesma coisa nas últimas vinte e quatro horas. Mas volto na próxima semana, está bem? Vou visitá-la aí em Coimbra. Onde está, rapaz? Em Roma. Teve vontade de acrescentar que era a milésima vez que o repetia, mas conteve a irritação. Fique tranquila, logo que voltar a Portugal vou vê-la. Mas o que está fazendo em Roma? Limpando pedras, quis responder. E não estaria mentindo, considerou, lançando um olhar ressentido ao pincel. Vim ao serviço da Gulbenkian, acabou por esclarecer. A fundação está envolvida na restauração das ruínas do fórum e dos mercados de Trajano, aqui em Roma, e vim acompanhar os trabalhos. Mas desde quando é arqueólogo? Era uma boa pergunta! Apesar do Alzheimer que por vezes lhe nublava o discernimento, a mãe fizera uma pergunta bem certeira. Não sou. Acontece que o fórum  tem duas grandes bibliotecas e, sabe como é, quando se fala em livros antigos…

A conversa não durou  muito e, no instante em que desligou, Tomás sentiu-se incomodado por um sentimento de culpa por quase ter se irritado durante o telefonema. A mãe não tinha responsabilidade nenhuma pelos acessos de amnésia provocados pela doença. Umas vezes melhorava e outras piorava; ultimamente andava pior e fazia mil vezes as mesmas perguntas. Os seus lapsos de memória tornavam-se enervantes, mas teria de ter mais paciência. Pegou de novo o pincel, aproximou-o da pedra e voltou a escovar. Quando viu a nuvem libertar-se daquele pedaço de ruína pensou que, como um minerador, já deveria estar com os pulmões carregados do miserável pó marrom que se

entranhara por toda a parte. Da próxima vez traria uma máscara, como as dos cirurgiões. Ou talvez o melhor fosse escapar daquele trabalho e se dedicar aos relevos que decoravam a Coluna de Trajano. Levantou os olhos para o monumento. Sempre tivera curiosidade de observar as cenas da campanha na Dácia, gravadas na coluna e que apenas conhecia dos livros. Já que estava ali, porque não as estudar ao vivo e de perto? Escutou um burburinho atrás de si e virou a cabeça. Viu o responsável pelas obras de restauração, o professor Pontiverdi, falando alto com um homem engravatado e, com gestos espalhafactosos e uma voz estridente, mandá-lo ficar quieto. Depois aproximou-se de Tomás e esboçou um sorriso obsequioso. Professore Norona… Noronha, corrigiu Tomás, divertindo-se por ninguém conseguir acertar a pronúncia correcta do seu nome. Diz-se nhe, como em bagno. Ah, certo! Noronha! Isso!» In José Rodrigues dos Santos, O Último Segredo, 2011, Edições Gradiva, 2011, ISBN 978-989-616-446-1.

 Cortesia de EGradiva/JDACT

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domingo, 17 de outubro de 2021

O Último Segredo. José Rodrigues dos Santos. «Onde diabo se metera o empregado? Quem estaria fazendo os ruídos que ela escutara? Se era o empregado, porque não respondia? Signore!»

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«(…) O silêncio era absoluto. Patricia ainda considerou a possibilidade de permanecer sentada e prosseguir com a consulta do manuscrito, rodeada pelo ambiente denso daquele lugar opressor, mas a verdade é que os sons inesperados e o silêncio pesado que os envolvia a enervaram. Onde diabo se metera o empregado? Quem estaria fazendo os ruídos que ela escutara? Se era o empregado, porque não respondia? Signore! Mais uma vez, ninguém respondeu. Tomada por uma inquietude que não conseguia explicar, a historiadora ergueu-se com um movimento repentino, como se esperasse que a brusquidão afugentasse o próprio medo. Tinha de tirar aquilo a limpo. Além do mais, acrescentou para si mesma, era a última vez que aceitaria se trancar sozinha numa biblioteca à noite. Sob os contornos da penumbra, tudo lhe parecia sinistro e ameaçador. Ainda se tivesse o seu Manolo ao lado!... Deu uns passos e cruzou a porta, decidida a esclarecer o mistério do desaparecimento do empregado. Entrou na Sala Inventario Manoscritti, que se encontrava mergulhada na escuridão, e notou uma mancha branca a seus pés. Baixou o olhar para ver o que era. Tratava-se de uma simples folha de papel pousada no chão. Intrigada, ajoelhou-se e, sem pegar nela, inclinando-se como se a quisesse cheirar, estudou-a com uma expressão intrigada.

O que diabo é isso?, interrogou-se. Nesse instante percebeu um vulto sair da sombra e cair sobre ela. O coração disparou com o susto e Patricia quis gritar, mas uma enorme mão tapou-lhe a boca com força e tudo o que conseguiu fazer foi emitir um gemido de horror, rouco e abafado. Tentou fugir. Contudo, o desconhecido era pesado e impediu-lhe os movimentos. Virou a cabeça para tentar identificar o agressor. Não conseguiu encará-lo, mas notou confusamente algo cintilando no ar. No derradeiro instante compreendeu que se tratava de uma lâmina. Porém, não teve tempo de raciocinar sobre o que estava acontecendo porque sentiu uma dor lancinante rasgar-lhe o pescoço e o ar lhe faltou de imediato. Tentou gritar, mas não tinha ar. Agarrou o objecto frio que lhe furava o pescoço, num esforço desesperado para impedi-lo, mas ele era manejado com demasiada força e a energia começava a se esvair do seu corpo. Um líquido quente jorrou-lhe sobre o peito em golfadas e, no estertor da aflição, tomou consciência de que era o seu próprio sangue. Foi a última coisa em que pensou, porque de imediato a visão se encheu de luzes e depois de escuridão, como se um interruptor a tivesse desligado para sempre.

 


O pincel escovou a terra que ao longo dos séculos se acumulara sobre a pedra, entranhando-se nos poros mais minúsculos. Quando a nuvem de pó acastanhado se desvaneceu, Tomás Noronha aproximou os olhos verdes da pedra, como um míope, e inspeccionou o trabalho. Porra! Ainda havia terra para retirar. Suspirou fundo e passou as costas da mão pela testa, ganhando embalo para mais umas escovadelas. Aquele decididamente não era o tipo de tarefa que mais apreciava, mas resignou-se; sabia que na vida não se faz sempre aquilo de que se gosta. Antes de recomeçar, todavia, ofereceu a si mesmo um momento de repouso». In José Rodrigues dos Santos, O Último Segredo, 2011, Edições Gradiva, 2011, ISBN 978-989-616-446-1.

 Cortesia de EGradiva/JDACT

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