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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Poesia. Fernando Namora. «Hoje o dia... (a pena caiu-me das mãos) Acabou-se o poema no papel. Cá por dentro continua...»

Cortesia de wikipedia e jdact

Poema da Utopia
«A noite caiu sem manchas e sem culpa.

Os homens tiraram as máscaras de bons actores.

Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.

No alto, a utópica lua, vela comigo
e sonha inutilmente com a verdade das coisas.

- Noite! Deixa-nos também dormir...»


Um Poema Que Se Perdeu
«Hoje o dia é um dia chuvoso e triste
amortalhado
Naquela monotonia doente dos grandes dias.

Hoje o dia...
(a pena caiu-me das mãos)

Acabou-se o poema no papel.
Cá por dentro
Continua...

Oh! Este marulhar das almas no silêncio!»

Poemas de Fernando Namora, in Relevos'

Cortesia de OCitador/JDACT

terça-feira, 13 de março de 2018

Poesia. Fernando Namora. «Amanhã, terás os mestres, as aulas, os amigos e os livros e o espectáculo da morgue morando durante dias nos teus sentidos gorados»

Cortesia de wikipedia e jdact

A mais bela noite do mundo
«Hoje será o fim!

Hoje
 nem este falso silêncio
dos meus gestos malogrados
debruçando-se
sobre os meus ombros nus
e esmagados!

Nem o luar, plano baço de cenário velho,
escutando
a minha prisão de viver
a lição que me ditavam:
 menino! Acende uma vela na tua vida,
que o sol, a luz e o ar
são perfumes de pecado.
Tem braços longos e tentadores, o dia!

Menino! Recolhe-te na sombra do meu regaço
que teus pés
são feitos de barro e cansaço!

(Era esta a voz do papão
pintado de belo
na máscara de papelão).

Eram inúteis e magoadas as noites da minha rua…
Noites de lua
que lembravam as grilhetas
da minha vida parada.

Amanhã,
terás os mestres, as aulas, os amigos e os livros
e o espectáculo da morgue
morando durante dias
nos teus sentidos gorados.

(…)

Hoje,
será o fim!

Hoje,
nem a sombra do que há-de vir,
nem os mestres, nem os amigos, nem os livros,
nem a fragilidade dos meus pés
feitos de barro e cansaço!
Todas as minhas revoltas domadas,
todos os meus gestos em meio
e as minhas palavras sufocadas
terão a sua hora de viver e amar!

Hoje,
nem o cadáver a sorrir na morgue,
nem as mãos que ficaram angustiosas,
arrepiadas
no seu medo de findar!

Hoje,
será a mais bela noite do mundo!»

Poema de Fernando Namora, in “Mar de Sargaços

Cortesia de Portal da Literatura/JDACT

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A Bela Poesia: Alves Redol. Vergílio Ferreira. Fernando Namora. «Não m'importo ser soldado, contando que o batalhão..., de me estar tudo a contento, em todo o meu pensamento... Homem, até o barro tem poesia! Olha as coisas com humildade»

Cortesia de fabiomozart

Quadras
Se me vires de pau e manta,
não cuides que sou pastor:
sou da vila de Samora,
das Lezirias guardador.
(Samora Correia)

Não m'importo ser soldado,
contando que o batalhão
traga sempre na bandeira
bordado o teu coração.
(Benavente)

O meu amor disse à mãe
que me havia de deixar.
Agora deixo-o eu;
tome lá, vá-se gabar!
(Samora Correia)
Alves Redol
 
Que Há para Lá do Sonhar?
Céu baixo, grosso, cinzento
e uma luz vaga pelo ar
chama-me ao gosto de estar
reduzido ao fermento
do que em mim a levedar
é este estranho tormento
de me estar tudo a contento,
em todo o meu pensamento
ser pensar a dormitar.

Mas que há para lá do sonhar?
Vergílio Ferreira
 
Coisas, Pequenas Coisas
Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.
Fernando Namora

JDACT

sábado, 14 de agosto de 2010

Fernando Namora: Um cidadão dotado de uma profunda capacidade de análise psicológica, a que se ligou uma linguagem de grande carga poética

Casa Museu
Cortesia de orfeaodecondeixawordpress

Ó Noite, Coalhada nas Formas de um Corpo de Mulher
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
vago e belo e voluptuoso,
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos e quedos.
Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
deixai que os caminhos da noite,
cegos e rectos como o destino,
suspensos como uma nuvem,
sejam os caminhos dos poetas
que lhes decoraram o nome.
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
Esconde a vida no seio de uma estrela
e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.
Fernando Namora, in «Mar de Sargaços»

Coisas, Pequenas Coisas
Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.
Fernando Namora, in «Mar de Sargaços»

JDACT

domingo, 13 de junho de 2010

Monsanto: Uma das mais belas terras da Beira, celebrizada pelo escritor Fernando Namora, que ali viveu e exerceu medicina durante alguns anos

Cortesia de radiomonsanto 

Localizada no concelho de Idanha-a-Nova, Monsanto é uma imponente povoação esculpida no granito agreste de um promontório de pedra que domina toda a planície circundante.A óptima localização geográfica do lugar, tornou aquele Monte Santo refúgio privilegiado para os mais primitivos povos.
Apesar do levantamento arqueológico da sua proto-história ser manifestamente insuficiente para poder traçar com precisão um quadro histórico da sua fundação, será legítimo afirmar que naquele aglomerado de pedra se encontram vestígios de uma ocupação anterior ao Neolítico. A condição de fortaleza natural e os fragmentos de machados neolíticos encontrados no morro fazem supôr que Monsanto tenha sido um castro pré-Romano.
A proximidade da antiga Egitânia (Idanha-a-Velha) e da estrada que ligava Mérida a Compostela e os inúmeros vestígios da ocupação Romana ( cerâmica, moedas, joalharia e inscrições funerárias) são sinais claros de que o Monte Santo terá acolhido romanos, naquilo que deveria ser um «oppidum». Aos Romanos sucederam-se os Godos e os Árabes que ali deixaram marcas indeléveis da sua passagem. Ainda hoje , muito do repositório etnográfico e antropológico desses povos sobrevive com as gentes da terra. Exemplo disso, é a festa de Santa Cruz no dia 3 de Maio. Romaria profundamente marcada por rituais pagãos, posteriormente cristianizados.
Subjacente à festa está a lenda dos sitiantes. Assim, e segundo a tradição, há muitos séculos atrás, Monsanto estaria cercada por um exército mouro ou castelhano. O cerco durou sete anos, durante os quais a aldeia foi esgotando os mantimentos até sobrar apenas um vitelo e um alqueire de trigo. A tragédia parecia eminente. Foi então que uma anciã da aldeia arquitectou um plano genial. Depois de alimentar o vitelo com o último alqueire de trigo, foi arremessado pelo penhasco, caindo no meio do acampamento sitiante.

Cortesia de radiomonsanto
Os guerreiros vendo que os aldeões se davam ao luxo de atirar uma vaca bem nutrida para o «quintal», julgaram que Monsanto estaria sob a protecção de uma estranha força divina. Isso era motivo mais que suficiente para embalarem a trouxa e se porem a milhas. Foi assim que a argúcia de uma «velhota» Monsantina derrotou as tropas sitiantes. Este episódio terá ocorrido num dia 3 de Maio e é nesse dia que se comemora todos os anos a Festa de Santa Cruz ou do Castelo.
A proliferação de lendas e tradições mouras, onde se destaca o adufe (instrumento musical tradicional que apenas deve ser tocado pelas mulheres) sobrevivem como testemunho evidente de uma presença marcante dos povos árabes nesta região. A construção da fortaleza de Monsanto, edifício profundamente ligado à história da povoação, perde-se na penumbra dos séculos. Alguns investigadores sustentam a tese da origem Suevo-Visigótica da fortaleza, mas em rigor, só a partir da fundação da Monarquia portuguesa se definem contornos cronológicos precisos. Depois de ter concluído a Reconquista da região aos mouros, D. Afonso Henriques terá reconhecido o valor estratégico-militar da fortaleza. Por isso o Rei decidiu mandar reconstruir a fortaleza e repovoar Monsanto atribuindo-lhe grandes regalias pelo foral de 1174, mais tarde confirmado por D. Sancho I (1190) e por D. Afonso II (1217). Ainda antes de atribuir o primeiro foral, D. Afonso Henriques tinha doado a inexpugnável fortaleza a D. Gualdim Pais, Grão-Mestre da Ordem dos Templários. A importância estratégica de Monsanto como bastião defensivo foi crescendo com o correr dos séculos. A fortaleza servia de posto de sentinela avançado de onde se permitiam avistar, com antecedência, incursões hostis no território português. Em 1510, D. Manuel eleva a povoação a vila, honrando-a com o beneplácito de poder usar no seu escudo a esfera armilar. A inexpugnabilidade da fortaleza é definitivamente comprovada com as duas últimas tentativas de ocupação por exércitos invasores. A primeira por D. Luís de Haro (ministro de Filipe IV) em 1658, e a segunda pelo Duque de Berwick em 1704. O falhanço desses audazes invasores terão dissuadido tentativas semelhantes. A partir daí a fortaleza foi perdendo a sua importância militar.
No princípio do século XIX uma violenta explosão no paiol de pólvora do castelo provoca a destruição parcial da fortaleza e das muralhas. Mais tarde a última guarnição militar abandona a vila, colocando uma pedra lapidar numa heróica história de coragem e defesa intrépida da fronteira portuguesa. Era o fim de um glorioso período na vida de Monsanto. A vila entretanto foi-se expandindo para lá das muralhas, formando a actual freguesia de S. Salvador, a meia encosta do cabeço de Monsanto.
Cortesia de radiomonsanto
Durante séculos, Monsanto foi sendo minuciosamente esculpida num vasto cabeço rochoso. O génio humano temperado com a devida tenacidade foi dando forma a altares, sepulturas e casas. O que resultou num todo arquitectónico harmonioso e coerente a que não se pode ficar indiferente. Se Zeus e o seu séquito de deuses gregos fossem despojados do Olimpo, decerto que não desdenhariam uma morada como Monsanto. Um verdadeiro Olimpo à moda da Beira.

Cortesia de radiomonsanto 
As casas típicas de Monsanto «habitam» paredes meias com a rocha granítica que as protege. Vaguear pelas ruelas sinuosas, descobrir os recantos solarengos e debruçar o olhar pela majestosa paisagem, são motivos mais do que suficientes para o visitante se perder na descoberta da terra e do seu povo, envelhecido e sereno. Para além do próprio conjunto urbano e do castelo, Monsanto contém ainda variados elementos patrimoniais merecedores de visita atenta. Dentro das muralhas, as capelas de S. João e de Santa Maria. A primeira foi presumivelmente construída no século XII e ostenta ainda um portal românico, e voltado a norte, uma arcada ogival.

Cortesia de radiomonsanto 
No entanto, a mais importante capela de Monsanto é a de S. Miguel. Edifício românico ( ou o que resta dela) , situa-se entre o castelo e a torre medieval de vigia. Erguida sobre um altar de culto a Marte, a capela constituí indício claro da existência de uma primitiva povoação. Apesar do estado latente de ruína ainda se podem apreciar a notável porta axial de arco de volta perfeita e os capitéis decorados. Junto à porta da povoação encontra-se a capela de Santo António (sé. XVI), com portal de quatro arquivoltas ladeado por dois bastões ornamentados com a flor de lis. Quanto a casas senhoriais, o Solar do Marquês da Graciosa é o mais importante, nele se encontrando instalado o Posto de Turismo. Construído no século XVIII pertenceu à família Geraldes de Andrade, senhores de Medelim e alcaide-mor de Monsanto.

Cortesia de radiomonsanto
Por fim, o ex-libris de Monsanto. A imponente fortaleza medieval, com vários recintos, portas e escadarias. No interior das muralhas destacam-se a capela de Nossa Senhora do Castelo, a porta falsa e a Torre de Menagem. O castelo foi classificado monumento nacional em 1948. Monsanto continua a ser uma das mais belas terras da Beira, celebrizada pelo escritor Fernando Namora, que ali viveu e exerceu medicina durante alguns anos. «Retalhos da vida de um médico» ou «Nave de Pedra» são algumas das obras profundamente marcadas pela experiência Monsantina do escritor.

Cortesia de radiomonsanto
Ao visitar Monsanto o turista será decerto assaltado pela mesma dúvida de Cardoso Marta, quando escrevia: «Nunca se sabe em Monsanto, que as águias roçam com a asa, se a casa nasce da rocha,
se a rocha nasce da casa».






Cortesia de radiomonsanto
Cortesia de radiomonsanto/JDACT

quarta-feira, 31 de março de 2010

Fernando Namora: Uma obra literária invejável!

(1919-1989)
Fernando Gonçalves Namora foi um notável  escritor português.
Licenciou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra, carreira que exerceu na sua terra natal e nas regiões da Beira Baixa e Alentejo.
O seu volume de estreia foi Relevos (1938), livro de poesia onde se notam as influências do grupo da Presença. No mesmo ano, publicou o romance As Sete Partidas do Mundo, galardoado com o Prémio Almeida Garrett, onde se começa a esboçar o seu encontro com o neo-realismo, ainda mais patente três anos depois com a poesia de Terra no Novo Cancioneiro.
A sua obra evoluiu no sentido do amadurecimento estético do neo-realismo, o que o levou a um caminho mais pessoal. Não desdenhando a análise social, os seus textos foram cada vez mais marcados por aspectos de picaresco, observações naturalistas e algum existencialismo. Fernando Namora foi um escritor dotado de uma profunda capacidade de análise psicológica, a que se ligou uma linguagem de grande carga poética. Escreveu, para além de obras de poesia e romances, contos, memórias e impressões de viagem.

Entre os títulos que publicou encontram-se os volumes de prosa Fogo na Noite Escura (1943), Casa da Malta (1945), As Minas de S. Francisco (1946), Retalhos da Vida de um Médico (1949 e 1963), A Noite e a Madrugada (1950), O Trigo e o Joio (1954), O Homem Disfarçado (1957), Cidade Solitária (1959), Domingo à Tarde (1961, Prémio José Lins do Rego), Os Clandestinos (1972) e Rio Triste (1982).
Publicou em poesia Mar de Sargaços (1940) e Marketing (1969). A sua produção poética conheceu uma antologia datada de 1959, intitulada As Frias Madrugadas.
Escreveu volumes de memórias, anotações de viagem e crítica, como Diálogo em Setembro (1966), Um Sino na Montanha (1970), Os Adoradores do Sol (1972), Estamos no Vento (1974), A Nave de Pedra (1975), Cavalgada Cinzenta (1977) e Sentados na Relva (1986).
Uma obra literária invejável!

Alguns estudiosos dividem a sua obra, se bem que seja uma sistematização que peca pelo simplismo, em três momentos diferentes na criação romanesca: 
Ciclo rural, composto de obras como A Noite e a Madrugada e O Trigo e o Joio;
Ciclo urbano, fruto da mudança do médico do meio rural para o citadino, marcado pelos romances O Homem Disfarçado e Domingo à Tarde;
Os cadernos de um escritor, influenciados pelas viagens do autor a outros países, como a poesia de Marketing e as reflexões de Jornal sem Data.
O romance Domingo à Tarde foi adaptado ao cinema em 1966 por António de Macedo e o livro Retalhos da Vida de um Médico foi adaptado ao cinema por Jorge Brum do Canto, 1962.
As paisagens e algumas pessoas que conheceu nas nossas serras marcaram-no para toda a vida, como pessoa e como escritor. Em muita da sua prosa e versos, personagens e cenários são os mesmos que os seus olhos jovens observaram e aprenderam a conhecer e a admirar.
Quem conhece a região e lê as suas obras, depara, a par e passo com cenários conhecidos, com diálogos que parece que também já aconteceram connosco, com personagens que todos nós algum dia conhecemos.
Morreu aos 69 anos.
A Utopia
A noite caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.

No alto, a utópica Lua vela comigo
E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! Se o espectáculo findou
Deixa-nos também dormir.
Fernando Namora

kaliynka/JDACT