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segunda-feira, 2 de março de 2015

Leonor Teles. Uma Mulher de Poder? Isabel Maria Campos. «Fundou o castelo de Albuquerque, por volta do ano de 1218, e casou, em segundas núpcias, com dona Teresa Sanches, filha bastarda do rei Sancho I, de Portugal. Foi executor testamentário de Afonso VIII de Castela e morreu, em 1230»

Cortesia de wikipedia

«(…)
A linhagem dos Teles Meneses e co-relações
Pretendemos traçar um enquadramento genérico da linhagem dos Teles Meneses e de outras famílias relacionadas, de onde era oriunda a rainha dona Leonor Teles, de forma a melhor percebermos o seu berço e, eventualmente, a natureza de certas opções políticas tomadas. A apresentação destas informações tem uma configuração um pouco esquemática relativamente aos demais capítulos do nosso trabalho, por considerarmos ser, assim, mais evidente a percepção das redes e linhas familiares tecidas. A linhagem dos Teles Meneses tem raízes em Castela e está ligada aos primórdios do reino de Portugal. Quando o rei Afonso VI de Castela deu o condado Portucalense ao cruzado Henrique Borgonha, era governador dessa terra, Soeiro Mendes Maia, o bom, avô materno de Tello Pérez Meneses. Este último foi o primeiro senhor Meneses. A partir dele, a família dos Teles Meneses pode ser dividida em quatro grupos: Meneses-Molina; Meneses-Albuquerque; Meneses-filhos de Gonçalo Eanes Raposo (vários, em Portugal); Meneses, filhos de Gonçalo Eanes Raposo-Teles Meneses em Portugal. 1º senhor Meneses, Tello Pérez Meneses, quinto avô da rainha dona Leonor Teles de Portugal, foi rico-homem e grande valido do rei Afonso VIII de Castela. Recebeu o senhorio de Meneses, em 1179; sucede-lhe o filho primogénito: 2º senhor Meneses, Afonso Télez, quarto avô da rainha dona Leonor Teles de Portugal. Foi um rico homem, possuidor de diversos senhorios como Meneses, Montealegre, Valladolid, Madrid, etc. Teve dois casamentos. Fundou o castelo de Albuquerque, por volta do ano de 1218, e casou, em segundas núpcias, com dona Teresa Sanches, filha bastarda do rei Sancho I, de Portugal. Foi executor testamentário de Afonso VIII de Castela e morreu, em 1230. Sucede-lhe o seu filho segundo, dado que o primogénito falecera: 2º senhor de Albuquerque, João Afonso (I), segundo filho do dito casal, é trisavô da rainha dona Leonor Teles de Portugal. Inicia-se com ele o tronco Meneses-Albuquerque. Serviu o rei Afonso III de Portugal, seu primo co-irmão, no cargo de alferes-mor. Em 1255, passa para a corte de Afonso X de Castela. Em 1268, morre, deixando dois filhos: Rodrigo Eanes e Gonçalo Eanes Raposo.

Descendência de Rodrigo Anes
3º senhor de Albuquerque, Rodrigo Anes, o primogénito, foi rico homem de Castela; casou com dona Teresa Martins, filha de Martim Gil Soverosa que era valido do rei Sancho II de Portugal. Sucede-lhe o único filho do casal: 4º senhor de Albuquerque, João Afonso (II). Ao serviço de Castela, revolta-se contra o rei Sancho IV, mas consegue que a sua vida seja poupada, graças à intervenção da sua prima, a rainha dona Maria de Molina, mulher do dito monarca. Porém, acaba por se tornar vassalo do rei Dinis de Portugal, servindo como mediador português, nas pazes com Castela, que levaram à assinatura do Tratado de Alcanices, em 1297. Para o premiar pelos serviços prestados, no ano seguinte, o monarca Dinis deu-lhe a vila de Barcelos com o seu termo e fez dele o primeiro onde português: Até ali os condes, que existiram, eram temporários e governadores de territórios, que pela sua extensão constituíam condados e a cujo governo era inerente o título; ao passo que este, o de João Afonso, foi vitalício e com o título recebeu o senhorio. Assim o diz a carta: …E por que o fiz Conde. doulhe a minha vila de Barcelos com seu termho. que el a aja en todolos dias de sa vida…
O conde, que casara com dona Teresa Sanches, filha bastarda do rei Sancho IV de Castela, morreu em 1304, deixando duas filhas deste matrimónio; Violante Sanches e Teresa Martins.
5ª senhora de Albuquerque, Teresa Martins. Casou com Afonso Sanches, filho bastardo e mordomo-mor do rei Dinis. O casal fundou o mosteiro de Vila do Conde e teve um filho, João Afonso Albuquerque, o de Ataúde. Este vive a maior parte da vida, em Castela e casa com dona Isabel Teles Molina, sua prima. O casal tem um filho, que morre sem descendência.

Descendência de Gonçalo Anes Raposo
Gonçalo Anes Raposo, Bisavô da Rainha D. Leonor Teles, de Portugal. Rico homem de Castela. Não herdou Albuquerque e casou com dona Urraca Fernandes Lima. O filho do casal, Afonso Martins Telo, é o único a continuar a geração masculina dos Meneses. Afonso Martins Telo, avô da rainha dona Leonor Teles de Portugal. Rico homem de Castela e, depois, de Portugal. Foi alcaide de Marvão, seguiu o infante Afonso (futuro Afonso IV) nas lutas contra o pai deste, o rei Dinis. Tornou-se, mais tarde, mordomo-mor do rei Afonso IV de Portugal. Casou com dona Berengela Lourenço Valadares. Deste matrimónio nasceram Martim Afonso Telo, o primogénito; João Afonso Telo, o secundogénito, e dona Maria Afonso. Detenhamo-nos nos dois varões». In Isabel Maria Garcia Pina N. Baleiras S. Campos, Leonor Teles, uma Mulher de Poder? Mestrado em História Medieval de Portugal, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2008.

Cortesia da BNL/JDACT

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Leonor Teles. Uma Mulher de Poder? Isabel Maria Campos. «Terá a rainha tido tanto poder como Fernão Lopes aponta? Terá o governo do rei sido conduzido segundo a vontade e as ambições de Leonor? Ou será que o casal tinha um projecto comum no governo e na vida, que os fazia companheiros e coadjuvantes um do outro?»

Cortesia de wikipedia e jdact

Resumo:
«Estudar o papel político da rainha dona Leonor Teles, mulher do rei Fernando I de Portugal, foi o objectivo deste trabalho. Avaliar a veracidade do retrato que Fernão Lopes construiu, da rainha, nas suas crónicas, foi o desafio que espoletou a pesquisa. O confronto dos seus escritos com a chancelaria activa e passiva do rei Fernando e com outras crónicas (como as de Pero Lopez Ayala, de Jean Foissart, de Jerónimo Zurara e a Crónica do Condestável ) representou a metodologia pela qual optámos. Apesar do número de doações dadas aos familiares, amigos e criados da rainha ser 150, num total de 1691 actos de chancelaria, ou seja, 8,87%, Leonor Teles influenciou o governo do marido, nos domínios da graça régia, da diplomacia internacional e da sucessão do Reino, como provam as várias mercês que o rei emitiu, em conjunto, com a rainha e, às vezes também com a infanta, dona Beatriz, e a participação de Leonor nos tratados de casamento da filha com Castela. Esta presença deve ser compreendida tendo em conta, não só o perfil psicológico e emocional do casal, mas, também, a noção de governo conjunto que o rei defendeu dever ter com a rainha, por ele achar que ela tinha direito a uma parte desse regimento. O monarca, porém, não abandonou as prerrogativas de rei absoluto, pois, mesmo nas terras da rainha não se coibiu de interferir, apesar dos amplos poderes e liberdades que a carta de arras atribuía a Leonor. A comparação das chancelarias da Rainha, enquanto Consorte e, depois enquanto Regente revelou, que, nesta última e ao contrário da anterior, os privilégios atribuídos foram parcos e precários e que os agraciados passaram a ser os estratos mais baixos da nobreza, do clero e a burguesia. Leonor Teles morreu, provavelmente entre 1390 e 1405/6, em Valladolid. Segundo Antolínez de Burgos, um historiador seiscentista desta cidade, a sepultura da rainha foi encontrada no claustro do Mosteiro de La Merced de Valladolid, em 1626,
quando aí se procediam a obras de restauração».

Introdução
«O objectivo da nossa tese é a busca do papel político da rainha dona Leonor Teles. Esta investigação vem na continuidade de uma biografia que elaborámos desta rainha, a partir das crónicas de Fernão Lopes, no Seminário de História Económica e Social. No final desta dissertação, incluímos, também, os resultados da investigação que fizemos à vida de dona Leonor Teles, em Castela, durante o exílio. O ponto de partida deste trabalho foi testar a veracidade das palavras de Fernão Lopes, relativamente ao arquétipo que ele construiu para a rainha. O cronista apresenta-a como uma mulher inteligente, manipuladora, intriguista, ambiciosa, entre outros atributos que se prendem com a sua beleza física e o seu comportamento adúltero. Estes dois últimos factores não constituíram objecto de análise nesta investigação, na medida em que não os considerámos relevantes e passíveis de comprovação, embora os referenciemos, sempre que nos pareçam oportunos. Deste modo, o objecto do nosso estudo centrou-se na indagação sobre o lugar e o peso político que dona Leonor Teles terá, porventura, ocupado no reinado de Fernando I e durante a sua regência. Terá a rainha tido tanto poder como Fernão Lopes aponta? Terá o governo do rei sido conduzido segundo a vontade e as ambições de Leonor? Ou será que o casal tinha um projecto comum no governo e na vida, que os fazia companheiros e coadjuvantes um do outro? Será que a clientela da rainha, constituída pelos seus familiares, parentes e amigos, de facto, existiu e teve a relevância política e social que Fernão Lopes sugere? Para tentar responder a estas questões, começámos por fazer, a partir das crónicas de Fernão Lopes sobre Fernando I e João I. Um levantamento das terras que Fernando deu à rainha, na carta de arras e em doações posteriores, e, também, dos nomes que constituíram a sua dita clientela. Obtidas estas listagens, partimos para o estudo da Chancelaria de D. Fernando, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. O objectivo foi confrontar as duas fontes: pesquisar na mencionada chancelaria as referências retiradas do cronista e avaliar, na medida do que nos foi possível, o impacto político que estas tiveram no governo do reino, nos períodos acima indicados. Paralelamente a este trabalho, fomos consultando e comparando as informações de Fernão Lopes com outros cronistas como: Pedro Lopez Ayala, Jean Froissat, Jerónimo Zurita (Anales de la Corona de Aragon), Duarte Nunes Leão e o texto anónimo Crónica do Condestável de Portugal D. Nuno Álvares Pereira. Constituíram, igualmente, objecto de análise a Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal; a Crónica de D. Pedro, de Fernão Lopes; os três tratados de casamento da Infanta dona Beatriz com os Infantes Fradarique, Enrique e com o rei de Castela, Juan I, assim como o Testamento do rei D. Fernando, publicados por Salvador Dias Arnaut, na sua Dissertação de Doutoramento, A Crise Nacional dos Fins do século XIV, I, A sucessão de D. Fernando; os Livros de Linhagem do conde Pedro; as Cortes Portuguesas, Reinado de D. Fernando (1367-1383); o Livro da Noa; alguma legislação publicada nas Ordenações Afonsinas e nas Ordenações Manuelinas; El Memorial Portugues de 1494; a Monarchia Lusitana, parte VIII, de frei Manuel Santos; História Genealógica da Casa Real Portuguesa de António Caetano Sousa, entre outras fontes.
Para o estudo da chancelaria da rainha, enquanto Consorte e, depois, como Regente, procedemos à leitura e análise dos seus diplomas que encontrámos: na Chancelaria de D. Fernando; na Colecção Especial, caixa 72, maço 19; no Mosteiro de Santos-o-Novo; no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra; bem como outros documentos de dona Leonor Teles (e, também, de Fernando, somente, e dos dois, em conjunto) transcritos e publicados por João António Mendes Neves, na sua Dissertação de Mestrado, A Formosa Chancelaria. Para retirarmos algumas dúvidas e fazermos algumas comparações relativamente ao estatuto que dona Leonor Teles teve, no enquadramento das rainhas da primeira dinastia, indagámos o Livro 3 da Chancelaria de D. Dinis; documentos avulsos, nas Gavetas 17 e 18 na Colecção Especial da Torre do Tombo; a Concordata entre El rey D. Affonoso IV e o Inffante D. Pedroseu filho herdeiro sobre a discordia que havia entre elles pella morte de Donna Ignes […]. Por fim com o objectivo de, ainda, encontrar referências à rainha, pesquisámos o Livro 1 da Chancelaria de D. João I, onde constatámos as várias doações feitas pelo Mestre de Avis e, depois já, como rei João I, aos seus apoiantes, dos bens de dona Leonor Teles e dos seus partidários». In Isabel Maria Garcia Pina N. Baleiras S. Campos, Leonor Teles, uma Mulher de Poder? Mestrado em História Medieval de Portugal, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2008.

Cortesia da BNL/JDACT

quarta-feira, 16 de março de 2011

O Tratado de Salvaterra. Parte I. Uma época de dificuldades: «No plano europeu, nunca é de mais lembrar que grande parte do continente se encontrava envolvido num vasto conflito - a Guerra dos Cem Anos – que conduzia a que os vários estados interviessem nos conflitos locais e regionais»

Cortesia de eb23cmdtconceicaosilva 

Um olhar sobre um mundo em mudança
«Quem acompanhar de perto a evolução do reinado de D. Fernando, facilmente integra o acordo de Salvaterra no interminável processo dos confrontos luso-castelhanos em que o reinado do rei Formoso foi fértil.
Todavia, deste modo, não será possível abarcar o pleno sentido de todos esses acontecimentos que se desenrolam durante os anos de 1382 e 1383. De facto, são variados os olhares que sobre eles podem ser lançados e que importa aqui resumir.

No plano europeu, nunca é de mais lembrar que grande parte do continente se encontrava envolvido num vasto conflito - a Guerra dos Cem Anos – que conduzia a que os vários estados interviessem nos conflitos locais e regionais. Tudo dependia da análise que faziam da situação e das vantagens que poderiam tirar. É também nesta perspectiva que deve ser compreendida o apoio que os ingleses dispensavam à Coroa portuguesa.

Cortesia de xtimeline  
A magnitude deste conflito atingirá, como se sabe, a própria Igreja. Desde 1378, ano do morte de Gregório XI, uma das principais razões que fazia diferentes reinos jurarem obediência o Urbano VI, estabelecido em Roma, ou a Clemente VII, sediado em Avínhão, dependia do apoio que dispensavam, respectivamente a ingleses ou a franceses.
O apoio inglês a Portugal ganhou especial dimensão quando o Duque de Lencastre genro de D. Pedro de Castela, se envolveu em luta contra os Trastâmara e a que, sucessivamente o tratado de Tagilde de 1372 e o acordo de Westminster de Junho do ano seguinte deram corpo. Na Terceira das guerras fernandinas ficou mesmo assente o casamento da filha do rei de Portugal, D. Beatriz com o filho do Conde Cambridge, acordo ratificado em Maio de 1381.

Outro plano de análise relaciona-se com a situação da Península Ibérica. Se não era novidade a tendência dos reis portugueses e castelhanos para olharem as Coroas peninsulares com alguma «cobiça», só era relativamente novo o desenho dos equilíbrios que se iam gerando.

Cortesia de apenassonho
Assim, se tradicionalmente a política peninsular portuguesa se tinha desenvolvido através da busca de equilíbrios globais no interior da Hispânia, em que as ligações a Aragão desempenhavam um papel primordial, na segunda metade do século XIV foi-se esboçando uma tendência para garantir a segurança do reino fora da península, por uma ligação preferencial com a Inglaterra. Essa aliança foi sendo cada vez mais reforçada ao longo do reinado de D. Fernando, mas tinha no interior do país os seus adversários, cujo campo era ajudado pelas depradações que os ingleses faziam pelo país.

Um outro ponto da conflitualidade luso-castelhano desenvolvia-se pela competição comercial entre os dois reinos, a qual tinha no Atlântico um dos locais privilegiados desse confronto. Aí era visível a concorrência aos mercados do Norte entre Portugal e particularmente a região da Cantábria. É verdade que durante esta época se ia esboçando uma outra alternativa para Portugal – o Mediterrâneo - onde Castela, aliás, tinha uma presença que não era de desprezar». In Filipe Themudo Barata, O Concelho de Salvaterra de Magos da Pré História ao século XVIII, CMSalvaterra de Magos.
Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A Crise 1383-1385: Foi um período de «guerra civil e anarquia» da História de Portugal, conhecido como «Interregno», uma vez que não existia rei no poder. A crise começou com a morte do rei D. Fernando sem herdeiros masculinos

Cortesia de prof2000
A Crise de 1383-1385 foi um período de guerra civil e anarquia da História de Portugal, também conhecido como Interregno, uma vez que não existia rei no poder. A crise começou com a morte do rei Fernando de Portugal sem herdeiros masculinos.
Apesar de as Cortes de Coimbra terem escolhido, em 1385, um novo rei, João I de Portugal, o rei João I de Castela não desistiu de tentar conquistar um novo reino para si e invadiu Portugal. O exército castelhano era muito mais numeroso mas, mesmo assim, foi derrotado na batalha de Aljubarrota. Os exércitos portugueses foram comandados, mais uma vez, por Nuno Álvares Pereira, nomeado por João I de Portugal Condestável do Reino.

Cortesia de culturaestrangeira
Em 1383, o Rei Fernando de Portugal estava a morrer. Do seu casamento com Leonor Teles de Menezes apenas uma rapariga, a Infanta Beatriz, havia sobrevivido à infância. O seu casamento era por isso uma questão muito importante para o futuro do reino. Ao sabor das vicissitudes do pai nas suas guerras com Castela, a Infanta foi sucessivamente prometida em casamento a dois príncipes castelhanos, a um inglês e, de novo, a um castelhano, Fernando, filho segundo de João I de Castela. O casamento de Beatriz acabou por ser decidido, a proposta de seu pai, pelo tratado antenupcial de Salvaterra de Magos, negociado em Março de 1383 e posterior, portanto, ao tratado de paz de Elvas que terminou a terceira guerra do rei Fernando contra Castela em Agosto de 1382. Pelas disposições daquele tratado de Salvaterra, o rei João I de Castela (Juan I, daqui em diante) casar-se-ia com Beatriz e o filho varão que nascesse desse casamento herdaria o reino de Portugal, se entretanto Fernando I morresse sem herdeiros. O casamento foi celebrado em Maio de 1383, mas era uma solução mal vista pela maioria dos portugueses, uma vez que poderia implicar, caso Beatriz falecesse antes de seu marido e sem filhos, a união dinástica de Portugal e Castela e a consequente perda da independência.
Cortesia de warwick
Muitas personalidades quer da nobreza, quer da classe de mercadores e comerciantes estavam contra esta opção, mas não se encontravam unidos quanto à escolha alternativa.  Dois candidatos emergiram, ambos meios-irmãos bastardos do rei moribundo:
  • João, filho do Rei Pedro I de Portugal e Inês de Castro, a viver então exilado em Castela e que logo após a morte de Fernando I ali foi preso;
  • João, Grão-Mestre de Avis, outro bastardo de Pedro I (filho de Teresa Lourenço, provavelmente aia de Inês de Castro), menos popular no reino, ao início da Crise, que o seu meio-irmão João.
A 22 de Outubro de 1383, Fernando de Portugal morre. De acordo com o contrato de casamento de Beatriz e Juan I de Castela, a regência do reino é entregue a Leonor Teles de Menezes, agora rainha viúva. A partir de então, as hipóteses de resolver o conflito de forma diplomática esgotaram-se rapidamente e a facção independentista tomou medidas mais drásticas, iniciando-se a Crise de 1383-1385.

Cortesia de carvalhaisdelavos
Entre o fim de 1384, princípio de 1385, Nuno Álvares Pereira subjugou a maioria das cidades portuguesas que haviam declarado apoio à princesa Beatriz e ao marido Juan I de Castela. Durante a Páscoa, chegaram a Portugal as tropas inglesas enviadas em resposta ao pedido de ajuda feito por João de Aviz. Apesar de não serem um grande contingente, contavam-se à volta de 600 homens, eram tropas na sua maioria veteranas da Guerra dos Cem Anos, bem treinados nas tácticas de sucesso da infantaria inglesa. Entre o contingente inglês, encontrava-se uma divisão de archeiros, que haviam provado o seu valor contra cargas de cavalaria.

Com tudo a jogar a seu favor, João de Aviz organizou uma reunião das Cortes em Coimbra, juntando todas as figuras importantes do reino. É aí que, a 6 de Abril, foi aclamado João I, Rei de Portugal, primeiro da Dinastia de Aviz, num claro acto de guerra contra as pretensões castelhanas. Num dos seus primeiros éditos reais, João I nomeia Nuno Álvares Pereira Condestável de Portugal e protector do reino. Pouco depois, rei e general partem para o Norte, para acabar com os últimos focos de apoio a Castela.

Cortesia de forum.trasosmontes
Em Castela, Juan I não hesita em responder ao desafio, enviando, pouco depois da aclamação de Coimbra, uma expedição punitiva a Portugal. O resultado é a batalha de Trancoso em Maio, onde as tropas de João I obtêm uma importante vitória. Com esta derrota, o rei de Castela percebe por fim que necessita de um enorme exército para pôr fim àquilo que considera uma rebelião. Na segunda semana de Junho, a maioria do exército de Castela, comandado pelo rei em pessoa, acompanhado por um contingente de cavalaria francesa, entra em Portugal pelo Norte. Desta vez, o poder dos números estava do lado de Castela: Juan I de Castela contava com cerca de 30000 homens, para os apenas 6000 à disposição de João I de Portugal. A coluna dirige-se imediatamente para Sul, na direção de Lisboa e Santarém, as principais cidades do reino.

Cortesia de trekearth
Entretanto, João I e o Condestável encontravam-se perto de Tomar. Depois de alguma discussão, conclui-se que os castelhanos não podem levantar novo cerco a Lisboa, incapaz de resistir a nova provação. João I decide interceptar o inimigo nas imediações de Leiria, perto da vila de Aljubarrota. A 14 de Agosto, o exército castelhano, bastante lento dado o seu enorme contingente, encontra finalmente as tropas portuguesas, reforçadas com o destacamento inglês. O resultado deste encontro será a Batalha de Aljubarrota, travada ao estilo das batalhas de Crecy e Azincourt, onde a táctica usada permitia a pequenos exércitos resistir a grandes contingentes e cargas de cavalaria. O uso de archeiros nos flancos e de armadilhas para impedir a progressão dos cavalos, localizadas em frente à infantaria, constituem os principais elementos. O exército castelhano não foi só derrotado, foi totalmente aniquilado. As perdas da batalha de Aljubarrota foram de tal forma graves que impediram Juan I de Castela de tentar nova invasão nos anos seguintes.

Com esta vitória, João I foi reconhecido como rei de Portugal, pondo um fim ao Interinregno e à anarquia da Crise de 1383-1385. O reconhecimento de Castela chegaria apenas em 1411 com a assinatura do tratado de Ayllón-Segovia. A aliança Luso-Inglesa seria renovada em 1386 no Tratado de Windsor e fortalecida com o casamento de João I com Filipa de Lencastre (filha de João de Gaunt). O Tratado, que, ainda em vigor, vem a ser a mais antiga aliança do mundo, estabeleceu um pacto de mútua ajuda entre Inglaterra e Portugal.

Cronologia
1383
  • Abril, a princesa Beatriz de Portugal (filha única do rei Fernando) casa com o rei Juan I de Castela;
  • 22 de Outubro, O rei Fernando morre: a rainha viúva Leonor torna-se regente em nome de Beatriz e João de Castela;
  • Começa a resistência, liderada por João, Grão-Mestre de Aviz: vários castelos são ocupados.
1384 
  • Janeiro, João I de Castela invade Portugal;
  • Abril, os portugueses ganham a batalha dos Atoleiros;
  • Maio, começa o cerco de Lisboa; é enviada uma embaixada a Inglaterra;
  • Julho, uma frota portuguesa rompe o cerco de Lisboa, embora com pesadas derrotas;
  • 3 de Setembro, João I de Castela, retira-se para o seu reino;
  • Inverno, Nuno Álvares Pereira e João de Aviz subjugam cidades a favor de Castela.
1385
  • Páscoa, chegada dos aliados ingleses;
  • 6 de Abril, João de Aviz é aclamado rei nas cortes de Coimbra;
  • Junho, João I de Castela invade Portugal com toda a força, depois da derrota de uma expedição punitiva na batalha de Trancoso;
  • 14 de Agosto – Batalha de Aljubarrota, vitória definitiva de Portugal.
Complemento:
«D. Fernando estava envolvido em várias guerras com Castela, por se julgar com direito ao trono. No entanto, após algumas tentativas (1369 e 1381), assina em 1383 em Salvaterra de Magos um tratado de paz, que implicava o casamento de D. João I de Castela, com a sua única filha D. Beatriz. Neste tratado constavam ainda determinadas disposições respeitantes ao sucessor do trono de Portugal, para que a independência não fosse posta em causa. A crise deflagrou nesse mesmo ano com a morte de D. Fernando. O tratado de casamento previa que, enquanto D. Beatriz não tivesse um filho varão maior de 14 anos, a regência seria exercida pela rainha viúva, D. Leonor Teles. Aliados a esta situação surgiram outros problemas como a grave crise agrícola causada pelas más condições atmosféricas que deixava senhores e camponeses descontentes, a guerra e a peste.

Cortesia de juniorte
A rainha viúva tinha como conselheiro e amante o Conde Andeiro, situação que causou grande agitação entre os populares. Para impedir a perda de Independência que se adivinhava, Álvaro Pais planeia uma conspiração para matar o Conde Andeiro e para tal pede a participação do Mestre de Aviz. Após a morte do conde, D. Leonor Teles foi obrigada a sair da cidade e pede ajuda aos reis de Castela.
Temendo a invasão, o povo de Lisboa reconhece o Mestre como Regedor e Defensor do Reino e a burguesia apoia-o financeiramente de modo a suportar as despesas de guerra.
Esta situação divide o país:
  • de um lado o povo, a burguesia, uma parte da nobreza e do clero apoiam o Mestre de Avis pois temiam a perda de independência;
  • do outro, grande parte da nobreza e do clero que receando perder os privilégios não aceitavam o Mestre de Avis por ser filho ilegítimo de D. Pedro I.
Perante esta situação, a reacção do rei de Castela, que queria fazer valer os seus direitos não se fez esperar, ao decidir invadir Portugal e ocupando a cidade de Santarém. No Alentejo, a 6 de Abril de 1384, D. Nuno Álvares Pereira, venceu os castelhanos, utilizando a famosa táctica do quadrado, naquela que ficou conhecida como a Batalha dos Atoleiros.
O rei castelhano avançou e cercou a cidade de Lisboa, em 29 de Maio de 1384. No entanto, o povo não se rendeu e o cerco foi levantado, em 3 de Setembro do mesmo ano, quando D. Beatriz contraiu a peste que já atingia também os soldados. Após o regresso, D. João de Castela preparou um poderosíssimo exército para uma nova investida.
Cortesia de forum-numismatica
Perante esta situação, as cortes reuniram-se em Coimbra, onde se distinguiu o Doutor João das Regras, conhecido legista que provou, através dos seus discursos, que de todos os candidatos ao trono, eram por igual filhos ilegítimos. Assim sendo, competia aos representantes nacionais a escolha do rei, o qual devia ser o Mestre de Avis, pelas notáveis qualidades que tinha revelado. Este foi aclamado D. João I, Rei de Portugal. Ao tomar conhecimento desta decisão, o rei de Castela invadiu de novo Portugal. A 14 de Agosto de 1385, as tropas portuguesas novamente lideradas por D. Nuno Álvares Pereira, derrotam os castelhanos na batalha de Aljubarrota.
Finalmente, para garantir a independência e reforçar o poder de D. João I, os apoiantes do Mestre foram recompensados, ganhando a burguesia grande influência na vida política. A nobreza que apoiou D. Beatriz foi obrigada a fugir para Castela. Finalmente, assina-se um tratado de amizade com a Inglaterra onde os dois países prometiam ajudar-se mutuamente. Este acordo foi reforçado com o casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre. Para concluir, será importante assinalar a paz com Castela que foi conseguida em 1411». In História de Portugal.


Cortesia de História de Portugal/wikipédia/JDACT