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sábado, 26 de março de 2011

A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino. Jaime Cortesão: «...o infante teve a seu serviço um navegador pertencente a uma família de cartógrafos genoveses; e o «Mestre Pedro, pintor do Infante» designação, num documento de 1440, seja um cartógrafo estrangeiro, dado que no século XV se apelidavam os desenhadores de cartas»

Cortesia de dicionáriodehistóriadeportugal 

A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino.
Jaime Cortesão

«Na extremidade sul junto da costa de África, e imediatamente abaixo das Canárias, uma legenda refere a viagem de Ferrer, em 1346, à busca do rio do Ouro. Próximo, e já no continente, junto da designação geográfica Gineua, em grandes caracteres, outra legenda elucida sobre o reino dos Mandingas, o seu imperador Mussa Mali e o comércio e grande abundância de ouro que há nas suas terras. Com efeito, o Sudão e o Saará eram nessa época o centro dum intenso tráfico do ouro, que as caravanas de muçulmanos transportavam aos portos mais importantes do Norte de África, desde Ceuta a Alexandria.

Cortesia de portuguesalivrariaultramarina 
Precisamente sobre o meridiano que passaria por aquela cidade, vê-se uma passagem na cordilheira do Atlas com esta preciosa indicação da estrada comercial de Ceuta até às regiões produtoras do ouro:
  • «Por aqui passam os mercadores que entram em terras de negros de Gineua, o qual passo se chama vale de Dahra».
Segundo Charles de la Ronciére, que estudou com particular atenção a parte do atlas relativa à África, nele figuram as mais importantes estradas comerciais do Saará e que daqui levavam ao Sudão e ao vale do Níger. Na parte oriental do continente, outra legenda refere e situa na Abissínia o famoso reino do Preste João.

jdact
Se a isto acrescentarmos indicações práticas sobre os mares no Atlântico, o regimento para conhecer a hora pela estrela polar, as principais noções sobre o sistema de Ptolomeu, sem omitir a avaliação da circunferência terrestre segundo o geógrafo alexandrino e ainda a representação dum astrólogo medindo a altura do sol com o astrolábio, teremos dado uma ideia, ainda que incompleta, da soma dos conhecimentos e sugestões fecundíssimas que a cultura geográfica dos Cresques representava para o infante D. Henrique.

Vimos, não obstante, que o infante teve a seu serviço um navegador pertencente a uma família de cartógrafos genoveses; e presumimos que o «Mestre Pedro, pintor do Infante» designação com a qual figura, em 1440, num documento, seja igualmente um cartógrafo estrangeiro, dado que por essa forma se apelidavam no século XV os desenhadores de cartas». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, 1965.

Cortesia da Portugália Editora/JDACT

terça-feira, 15 de março de 2011

A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino. Jaime Cortesão: «Das crónicas e documentos sabemos que teve a seu serviço, além de muitos judeus, numerosos genoveses, venezianos, flamengos, alemães, castelhanos... identificando sem sombra de dúvida Jaime de Maiorca com Jaffuda, filho de Abraham Cresques, o cartógrafo de Maiorca, autor do célebre Atlas de 1375-77»

Cortesia de domquixote 

«Que ele próprio fosse homem de estudo se depreende das palavras de Azurara. Noites a fio sem dormir, passava a trabalhar e tudo nos leva a crer que maiormente se dedicou aos estudos de astronomia e geografia. Azurara e Cadamosto, que viveram na sua intimidade, concordam em afirmar os seus grandes estudos e competência, e mais designadamente «acerca dos movimentos dos corpos celestiais». Do aeu interesse pelos estudos astronómicos se infere também, pelo grande número de físicos, quase todos judeus, que teve ao seu serviço. Com efeito, naquela época, a ciência médica e astronómica, melhor diríamos, astrológica, coincidiam por via de regra, nos mesmos indivíduos. Só assim se explica que entre 1440 e 1450 os documentos mencionem uns 5 físicos do Infante. Temos poe certo que esta junta astronómica coincide com a elaboração das primeiras regras de astronomia náutica em Portugal.

Cortesia de portugaliaeditora 
Dos seus estudos de geografia implicitamente se conclui pelas referências de Azurara, de Diogo Gomes e ainda dos cronistas posteriores. E indício igual podemos tirar da origem e qualidade de muitos dos colaboradores estrangeiros, que chamou para seu lado. Azurara afirma:
  • Sua casa foi um geral acolhimento de todolos bons do reino e muito mais dos estrangeiros... que comunalmente se achavão em sua presença desvairadas nações de gentes, tão afastadas do nosso huso que quasi todos o haviam por maravilha...
Das crónicas e documentos sabemos que teve a seu serviço, além de muitos judeus, numerosos genoveses, venezianos, flamengos, alemães, castelhanos, ingleses, franceses, um dinamarquês, moiros, canários, abissínios e índios.
Dentre esses estrangeiros alguns convém assinalar:
  • Jaime de Maiorca, mestre cartógrafo da escola então nomeada;
  • António da Nole, duma família de cartógrafos genoveses émulos dos malhorquinos;
  • Cadamosto e Patrício de Conti, um navegador, outro cônsul de Veneza, o grande empório do comércio das especiarias;
  • Valarte, vassalo do rei da Noruega, país que monopolizava o comércio com a Islândia e a Gronelândia;
  • Um mercador de Orão, cidade que mantinha um tráfico directo com os grandes portos comerciais do Índico, como Calecut e Malaca;
  • Abissínios do reino do Preste João e índios.
Deste enumerado, ainda que sumário, é fácil supor a vastidão dos conhecimentos e do horizonte geográfico pelo Infante abrangidos.

Cortesia de dicionáriodehistóriadeportugal 
Sobre um desses nomes vale a pena determo-nos tão eloquentes são os ensinamentos que a sua obra nos oferece. Não restam dúvidas sobre a identidade de Jaime de Maiorca. Uma notável monografia de Gonçalo de Reparaz, Filho, publicada na Biblos, revista da Faculdade de Letras de Coimbra, terminou com a debatida questão, identificando sem sombra de dúvida Jaime de Maiorca com Jaffuda, filho de Abraham Cresques, o cartógrafo de Maiorca, autor do célebre Atlas de 1375-77, que se guarda na Biblioteca de Paris.
Esse Atlas, obra tanto de arte como de ciência, constitui só por si a mais elequente das ilustrações ao desígnio do Infante D. Henrique. Pintado em pergaminho fino colado sobre 7 tábuas, longas e deslumbrantes de cor, representa as terras a esse tempo conhecidas e constitui uma espécie de políptico do Mundo. Essa representação vai desde as ilhas Órcades, a Noruega, a Rússia e a Sibéria, ao Norte, até além do Cabo Bojador e ao ocano Índico, ao Sul; e desde os Açores, a Madeira e as Canárias, a Ocidente, até a cidade de Cambalec (Pequim), no Extremo Oriente.
Por toda a parte, nos 3 continentes, se lêem legendas, cujo conjunto constitui um pequeno mas precioso compêndio de notícias de geografia física, comercial e política». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, 1965.

Cortesia da Portugália Editora/JDACT