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sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A Carícia Essencial. Roberto Shinyashiki. «Já pensou o que seria de nós, se não tivéssemos permanentemente onde dormir, se a nossa casa mudasse de endereço todos os dias?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Cada vez mais gente ia à bruxa para adquirir unguentos e poções. Mas a bruxa não queria realmente que as pessoas morressem porque se isso ocorresse, deixariam de comprar poções e unguentos: inventou um novo plano. Todos ganhavam um saquinho que era muito parecido com o saquinho de Carinhos, porém era frio e continha Espinhos Frios. Os Espinhos Frios faziam as pessoas sentirem-se frias e espetadas, mas evitava que murchassem. Daí para frente, sempre que alguém dizia eu quero um Carinho Quente, aqueles que tinham medo de perder um suprimento, respondiam: não posso dar-lhe um Carinho Quente, mas, se você quiser, posso dar-lhe um Espinho Frio. A situação ficou muito complicada porque, desde a vinda da bruxa havia cada vez menos Carinhos Quentes para se achar e estes se tornaram valiosíssimos. Isto fez com que as pessoas tentassem de tudo para consegui-los. Antes da bruxa chegar as pessoas costumavam reunir-se em grupos de três, quatro, cinco sem se preocuparem com quem estava dando carinho para quem. Depois que a bruxa apareceu, as pessoas começaram a juntar-se aos pares, e a reservar todos os seus Carinhos Quentes exclusivamente para o parceiro. Quando se esqueciam e davam um Carinho Quente para outra pessoa, logo se sentiam culpadas. As pessoas que não conseguiam encontrar parceiros generosos precisavam trabalhar muito para obter dinheiro para comprá-los. Outras pessoas tornavam-se simpáticas e recebiam muitos Carinhos Quentes sem ter de retribuí-los. Então, passavam a vendê-los aos que precisavam deles para sobreviver. Outras pessoas, ainda, pegavam os Espinhos Frios, que eram ilimitados e de graça, cobriam-nos com cobertura branquinha e estufada, fazendo-os passar por Carinhos Quentes.
É importante termos consciência de que qualquer forma de estímulo leva o indivíduo a perceber-se vivo... Que serve como um factor de equilíbrio da pessoa, ainda que por vezes instável. Levine realizou uma série de experiências com ratos e chegou à conclusão de que qualquer estímulo, ainda que seja negativo, é melhor do que o abandono. O cientista separou-os em três grupos: o primeiro era colocado numa gaiola e submetido a choques eléctricos todos os dias, na mesma hora, por um certo tempo; e o segundo grupo também era colocado na gaiola de choques, todos os dias, à mesma hora, pelo mesmo período de tempo, mas não recebia os choques. O último grupo era deixado na gaiola permanentemente sem ser sequer manuseado. Para surpresa de Levine, não havia, no final da experiência, grande diferença no comportamento dos dois primeiros grupos, enquanto que o terceiro, que não recebia qualquer estímulo, comportou-se de forma bastante diferente. Quando colocados em ambientes estranhos, que lhes causavam tensões, os ratinhos do grupo que não recebia estímulos agacharam-se no canto da caixa, amedrontados e sem qualquer curiosidade para explorar; os que estavam habituados à tensão (choque eléctrico) no entanto, exploravam o ambiente, tanto quanto aqueles que não receberam choque. A estimulação positiva ou negativa, como nos mostra Levine, acelera o funcionamento do sistema glandular supra-renal, que desempenha um papel importantíssimo no comportamento dos animais adultos. Sem qualquer dúvida, os animais manipulados abrem os olhos mais cedo, sua coordenação motora é desenvolvida também mais cedo, o pelo do corpo cresce com mais rapidez e tendem a ser significativamente mais pesados quando desmamam. Apresentam, também, maior resistência a uma injecção de células de leucemia, por um tempo mais longo.
Fome sexual. O desejo sexual é também uma fome natural. É natural o desejo e esta vontade de concretizar esse desejo. que se manifesta. Simplesmente... Como um botão tende a formar uma rosa, como a vontade que se tem de agarrar e ser agarrado... É poder viver esse desejo... Assim como comer quando se tem fome... É tanto amor que se tem o desejo de estar dentro do outro, e ter o outro dentro de si, no mais profundo da entrega. Ter sexo como alimento, sem conflitos, como encontro amoroso, que seja muito mais que uma simples fome de estruturas. As estruturas são pontos de referência e os seres humanos necessitam ter as suas referências, ver o mundo de uma maneira estruturada, como por exemplo: a cama de uma certa forma, as suas cadeiras, o que vai fazer com o tempo, com sua vida. Já pensou o que seria de nós, se não tivéssemos permanentemente onde dormir, se a nossa casa mudasse de endereço todos os dias? Lembra-se da confusão que muitas vezes se dá quando alguém arruma os seus livros, a tal bagunça organizada? As estruturas levam as pessoas a terem as suas referências. É comum alguém dizer: eu sinto-me ansioso pois não sei o que nós somos; se amigos, amantes ou namorados... E quando as aquela coisa da paixão, da entrega...» In Roberto Shinyashiki, A Carícia Essencial, 1984, Editora Pergaminho, colecção Gente, 1995, ISBN 978-972-711-224-1.


Cortesia de EPergaminho/JDACT

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A Carícia Essencial. Roberto Shinyashiki. «Claude Steiner, com muita sabedoria e ternura, sintetiza muitas ideias sobre Carícias»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Se só fomos ignorados, só sabemos ignorar. Se fomos odiados, só sabemos odiar. Se fomos maltratados, só sabemos maltratar. Não há como fugir desta engrenagem de aço: ninguém é feliz sozinho. Ou o mundo melhora para todos ou ele acaba. Amar o próximo não é mais idealismo místico de alguns. Ou aprendemos a nos acariciar, ou liquidaremos com a nossa espécie. Ou aprendemos a nos tratar bem a nos acariciar, ou nos destruiremos. Carícias, a própria palavra é bonita. Carícias... Mãos deslizando lentas e leves sobre a superfície macia e sensível da pele.
Carícias... Olhar de encantamento descobrindo a divindade do outro meu, espelho! Carícias... Envolvência (quem não se envolve não se desenvolve...), ondulações, admiração, felicidade, alegria em nós, eu-e-ele, eu-e-outros. Energia poderosa na acção comum, na cooperação. na comunhão, na comoção. Só a União faz a Força, sinto muito, mas as verdades banais de todos os tempos são verdadeiras, e seria bom se a gente tentasse fazer o que elas sugerem, em vez de, críticos e cépticos e pessimistas, encolhermos os ombros e deixarmos que a espécie continue, cega, caminhando em velocidade uniformemente acelerada para o Buraco Negro da aniquilação. Nunca se pôde dizer, como hoje: ou nos salvamos, todos juntos, ou nos danamos, todos juntos.
Claude Steiner, com muita sabedoria e ternura, sintetiza muitas ideias sobre Carícias. Era uma vez, há muito tempo, um casal feliz, António e Maria, com dois filhos chamados João e Lúcia. Para entender a felicidade deles, é preciso retroceder àquele tempo. Cada pessoa, quando nascia, ganhava um saquinho de carinhos. Sempre que uma pessoa punha a mão no saquinho podia tirar um Carinho Quente. Os Carinhos Quentes faziam as pessoas sentirem-se quentes e aconchegantes, cheias de carinho. As pessoas que não recebiam Carinhos Quentes expunham-se ao perigo de pegar uma doença nas costas que as fazia murchar e morrer. Era fácil receber Carinhos Quentes. Sempre que alguém os queria, bastava pedi-los. Colocando-se a mão na sacolinha surgia um Carinho do tamanho da mão de uma criança. Ao vir à luz o Carinho se expandia e se transformava num grande Carinho Quente que podia ser colocado no ombro, na cabeça, no colo da pessoa. Então, misturava-se com a pele e a pessoa se sentia toda bem. As pessoas viviam pedindo Carinhos Quentes umas às outras e nunca havia problemas para consegui-los, pois eram dados de graça. Por isso todos eram felizes e cheios de carinhos, na maior parte do tempo.
Um dia uma bruxa má ficou zangada porque as pessoas, sendo felizes, não compravam as poções e unguentos que ela vendia. Por ser muito esperta, a bruxa inventou um plano muito malvado. Certa manhã, ela chegou perto de António enquanto Maria brincava com a filha e cochichou em seu ouvido: olha António, veja os carinhos que Maria está dando à Lúcia. Se ela continuar assim vai consumir todos os carinhos e não sobrará nenhum para você. António ficou admirado e perguntou: quer dizer então que não é sempre que existe um Carinho Quente na sacola? E a bruxa respondeu: eles podem-se acabar e você não os ganhará mais. Dizendo isso a bruxa foi embora, montada na vassoura, gargalhando muito. António ficou preocupado e começou a reparar cada vez que Maria dava um Carinho Quente para outra pessoa, pois temia perdê-los. Então começou a se queixar a Maria, de quem gostava muito, e António também parou de dar carinhos aos outros, reservando-os somente para ela. As crianças perceberam e passaram também a economizar carinhos, pois entenderam que era errado dá-los. Todos ficaram cada vez mais mesquinhos. As pessoas do lugar começaram a sentir-se menos quentes e acarinhados e algumas chegaram a morrer por falta de Carinhos Quentes». In Roberto Shinyashiki, A Carícia Essencial, 1984, Editora Pergaminho, colecção Gente, 1995, ISBN 978-972-711-224-1.

Cortesia de EPergaminho/JDACT

terça-feira, 11 de julho de 2017

A Carícia Essencial. Roberto Shinyashiki. «O que não se compreende é como há tanta maldade num mundo feito somente de gente que se considera tão boa. Deveras não se compreende»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Chega de viver entre o Medo e a Raiva! Se não aprendermos a viver de outro modo, poderemos acabar com a nossa espécie. É preciso começar a trocar carícias, a proporcionar prazer, a fazer com o outro todas as coisas boas que a gente tem vontade de fazer e não faz, porque não fica bem, mostrar bons sentimentos! No nosso mundo negociante e competitivo, mostrar amor é ... um mau negócio. O outro vai aproveitar, explorar, cobrar... Chega de negociar com sentimentos e sensações. Negócio é de coisas e de dinheiro, e pronto! Bendito Skinner, apesar de tudo! Ele mostrou por A mais B que só são estáveis os condicionamentos recompensados; aqueles baseados na dor precisam ser reforçados sempre, senão desaparecem. Vamos-nos reforçar positivamente. É o jeito, o único jeito, de começar um novo tipo de convívio social, uma nova estrutura, um mundo melhor.
Freud ajudou a atrapalhar mostrando o quanto nós escondemos de ruim; mas é fácil ver que nós escondemos também tudo o que é bom em nós, a ternura, o encantamento, o agrado em ver, em acariciar, em cooperar, a gentileza, a alegria, o romantismo, a poesia, sobretudo o brincar, com o outro. Tudo tem que ser sério, respeitável, comedido, fúnebre, chato, restritivo, contido... Há mais pontos sensíveis em nosso corpo do que estrelas num céu invernal. Desejo, latim de-si-derio; provém da raiz sid, da língua zenda, significando estrela como se vê em sideral, relativo às estrelas. Seguir o desejo é seguir a estrela, estar orientado, saber para onde se vai, conhecer a direcção... Gente é para brilhar diz mestre Caetano. Gente é, a maior maravilha, o maior playground e a mais complexa máquina neuro-mecânica do Universo Conhecido. Diz o psicanalista que todos nós sofremos de mania de grandeza, de omnipotência. A mim parece que sofremos todos de mania de pequenez.
Qual o homem que se assume em toda a sua grandeza natural? Quem sou eu, primo... Em vez de admirar, nós invejamos por não termos coragem de fazer o que a nossa estrela determina. O Medo, eis o inimigo. O medo principalmente do outro, que observa atentamente tudo o que fazemos, sempre pronto a criticar, a condenar, a pôr restrições, porque fazemos diferente dele. Só por isso. A nossa diferença diz para ele que a sua mesmidade não é necessária. Que ele também pode tentar ser livre, seguindo a sua estrela. Que a sua prisão não tem paredes de pedra, nem correntes de ferro. Como a de Branca de Neve, a sua prisão é de cristal, invisível… Só existe na sua cabeça. Mas a sua cabeça contém, é preciso que se diga, todos os outros, que de dentro dele o observam, criticam, cometem, às vezes até elogiam!
Porque vivemos fazendo isso uns com os outros, vigiando-nos e nos obrigando, todos contra todos, a ficarmos bonzinhos dentro das regrinhas do bem comportado, pequenos, pequenos. Sofremos de megalomania porque no palco social nos obrigamos a ser, todos; anões. Ai de quem se salienta, fazendo de repente o que lhe deu na cabeça. Fogueira para ele! Ou pensa que a fogueira só existiu na Idade Média? Nós nos obrigamos a ser, todos, pequenos, insignificantes, apesar do grego, melhor ainda. Oligotímicos, sentimentos pequenos, é o ideal... Quem é o iluminado? No seu tempo, é sempre um louco delirante que faz tudo diferente de todos. Ele sofre, principalmente, de um alto senso de dignidade humana, o que o torna insuportável para todos os próximos, que são indignos.
Ele sofre, depois, de uma completa cegueira em relação à realidade (convencional) que ele não respeita nem um pouco. Ama desbragadamente, o sem-vergonha. Comporta-se como se as pessoas merecessem confiança, como se todos fossem bons, como se toda criatura fosse amável, linda, admirável. Assim ele vai deixando um rasto de luz por onde quer que passe. Porque se encanta, porque se apaixona, porque abraça com calor e com amor, porque sorri e é feliz. Como pode esse louco? Como se pode estar, e viver!, sempre tão fora da realidade, que é sombria, ameaçadora; como ignorar que os outros, sempre os outros, são desconfiados, desonestos, mesquinhos, exploradores, prepotentes, fingidos, traiçoeiros, hipócritas... Ah! Os outros... (Fossem todos como eu, tão bem comportados, tão educados, tão finos de sentimentos...) O que não se compreende é como há tanta maldade num mundo feito somente de gente que se considera tão boa. Deveras não se compreende.
Menos ainda se compreende que de tantas famílias perfeitas, a família de cada um é sempre óptima, acabe acontecendo um mundo tão infernalmente péssimo. Ah! Os outros... Se eles não fossem tão maus, como seria bom... Proponho um tema para meditação profunda; é a lição mais fundamental de toda a Psicologia Dinâmica: só sabemos fazer o que foi feito connosco. Só conseguimos tratar bem aos demais se fomos bem tratados. Só sabemos tratar-nos bem se fomos bem tratados». In Roberto Shinyashiki, A Carícia Essencial, 1984, Editora Pergaminho, colecção Gente, 1995, ISBN 978-972-711-224-1.

Cortesia de EPergaminho/JDACT

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A Ciranda das Mulheres Sábias. Clarissa Estés. «… uma profunda e comovente homenagem à maturidade feminina, reverenciando as matriarcas, e a força dessas mulheres que souberam acumular sabedoria no decorrer de suas vidas. Em linguagem rica em metáforas, semelhante às antigas histórias contadas de mães para filhas e netas…»

Cortesia de wikipedia

«Ser jovem enquanto velha. Velha enquanto jovem»

A pequena casa na floresta
«Ah minha Criatura admirável... Seja bem-vinda... Entre, entre... Estou esperando por si... É, por você e pelo seu espírito! Fico feliz por ter conseguido encontrar o caminho... Venha, sente-se comigo um pouco. Pronto, vamos fazer uma pausa, deixando de lado todos os nossos inúmeros afazeres. Haverá tempo suficiente para todos eles mais tarde. Num dia distante, quando chegarmos às portas do paraíso, posso lhe garantir que ninguém nos vai perguntar se limpamos bem as ranhuras na calçada. O que é mais provável é que no portal do paraíso queiram saber com que intensidade escolhemos viver; não por quantas ninharias de grande importância nos deixamos dominar. Por isso vamos, por enquanto, permitir apenas que o pensamento tranquilo nos abençõe por um tempo antes que voltemos a falar sobre o velho realejo do mundo... Venha, experimente essa poltrona. Acho que é perfeita para o seu corpo querido. Pronto. Agora, respire bem fundo..., deixe os ombros caírem até ao ponto que lhes seja natural. Não é bom poder respirar esse ar puro? Respire fundo mais uma vez. Vamos... Eu espero... Viu? Está mais calma, mais presente agora. Preparei a lareira perfeita para nós. O fogo vai durar a noite inteira, suficiente para todas as nossas estórias dentro de estórias. Um momentinho só, enquanto termino de lavar a mesa com menta fresca. Pronto, vamos usar a louça bonita. Vamos beber o que estávamos reservando para uma ocasião especial. Sem dúvida, uma ocasião especial é qualquer ocasião à qual a alma esteja presente. Já percebeu? Reservar para outra hora é o jeito que o ego tem de dizer, rabugento, que não acredita que a alma mereça prazer no dia-a-dia. Mas ela merece, de verdade. A alma sem dúvida merece. Por isso vamos nos sentar um pouco, comadre, só nós duas..., e o espírito que se forma sempre que duas almas ou mais se reúnem com apreço mútuo, sempre que duas mulheres ou mais falam de assuntos que importam de verdade". Aqui, neste refúgio afastado, permite-se..., e espera-se que a alma diga o que pensa. Aqui a sua alma estará em boa companhia. Posso garantir-lhe que, ao contrário de muitas no mundo lá fora, aqui a sua alma está em segurança. Fique tranquila, comadre, sua alma está a salvo.
Talvez você tenha vindo à minha porta por estar interessada em viver de modo que a abençoe com a perspectiva de, como eu digo, ser jovem enquanto velha e velha enquanto jovem, o que significa estar plena de um belo conjunto de paradoxos mantidos em perfeito equilíbrio. Está lembrada? A palavra paradoxo significa uma ideia contrária à opinião de aceitação geral. E o que acontece com a grand mère, a maior das mulheres, a grande madre..., porque ela é uma sábia em preparação, que mantém unidas as grandes e totalmente úteis capacidades aparentemente ilógicas da psique profunda. Os atributos paradoxais do que é grande são principalmente ser sábia e ao mesmo tempo estar sempre à procura de novos conhecimentos; ser cheia de espontaneidade e confiável; ser loucamente criativa e obstinada; ser ousada e precavida; abrigar o tradicional e ser verdadeiramente original. Espero que entenda que todos esses atributos se aplicam a vós de modo geral e em detalhes, como algo em potencial, meio realizado ou já perfeitamente formado. Se você sente interesse por essas contradições divinas, sente interesse pelo arquétipo misterioso e irresistível da mulher sábia, do qual a avó é uma representação simbólica. O arquétipo da mulher sábia pertence a mulheres de todas as idades e manifesta-se sob formas e aspectos singulares na vida de cada mulher. Falar da imagem profunda da grande avó como um dos principais aspectos do arquétipo da mulher sábia não é falar de alguma idade cronológica ou de algum estágio na vida das mulheres. A grande perspicácia, a grande capacidade de premonição, a grande paz, expansividade, sensualidade, a grande criatividade, argúcia e coragem para o aprendiz, ou seja, ser sábia não chega de repente perfeitamente formada e se molda como uma capa sobre os ombros de uma mulher de determinada idade. A grande clareza e percepção, o grande amor que tem magnitude, o grande autoconhecimento que tem profundidade e amplitude, a expansão da aplicação refinada da sabedoria..., tudo isso é sempre uma obra em andamento, não importa quantos anos de vida a mulher tenha acumulado. Os fundamentos do que é grande, em oposição ao que é apenas comum, são conquistados no início da vida, no meio ou mais tarde..., muitas vezes mediante enormes fracassos, elevações do espírito, decisões equivocadas e recomeços impetuosos». In Clarissa Pinkola Estés, A Ciranda das Mulheres Sábias, tradução de Waldea Barcellos, Editora Rocco, 2007, ISBN 978-853-252-150-7.

Cortesia de ERocco/JDACT

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Nadja e a Anima de André Breton Surrealismo. Fabio Yabuschita. «Quando esteve no ‘Solar d’Ango’ para escrever “Nadja”, viu um pássaro morto cair no chão. No livro, é neste momento que ele anuncia a entrada em cena de Nadja, de forma simbólica, o trágico destino da personagem»

Cortesia de wikipedia

«(…) Estes factos, que no surrealismo são formas de desvelar o maravilhoso que subsiste no real, são condizentes com a ideia de sincronicidade, termo criado por Jung (1951/2007) para designar a ocorrência de eventos que se relacionam entre si de forma causal, sem o princípio da causalidade, porém, apresentando equivalência de significados. Inexplicável sob o ponto de vista lógico, a sincronicidade não depende da vontade consciente do indivíduo para ocorrer, nem pode ser provocada por uma acção deliberada. O que é preciso sim é uma sensibilidade, ou disposição interior, que nos permita percebê-la como um fenómeno de natureza inusitada e surpreendente, algo não muito diferente do maravilhamento provocado pelas petrificantes coincidências constatadas em Nadja. Nesse sentido, a deambulação pelas ruas, o espaço propício para as experiências surrealistas, seria uma forma de favorecer o acaso e o imprevisível, e, portanto, uma forma de se manter receptivo aos eventos sincronísticos. Além das coincidências e dos acasos objectivos, que ocorreram praticamente ao longo de todo o livro, há algumas passagens antecipando que algo maior estava a caminho de acontecer na vida de André Breton, ou seja, no campo da alma a terra já estava sendo preparada para receber a semente.
A atmosfera favorável para o encontro com o arquétipo da anima está indicada na passagem em que o autor discorre sobre o teatro, não por acaso o lugar privilegiado para dar corpo às fantasias e despertar na plateia sentimentos e reacções que de outra forma talvez não se manifestariam. Assim, ao discorrer sobre o Teatro Moderno, descrevendo as suas impressões sobre uma das suas salas, o autor evoca algumas lembranças que despertaram-lhe o desejo apaixonado de encontrar aquela que pode ser descrita como a Mulher da Floresta, o ser encantado comumente representado em lendas e contos de fada como uma pessoa bela e misteriosa, forma como também costuma aparecer nas fantasias masculinas. Sempre desejei incrivelmente encontrar à noite, num bosque, uma mulher bela e nua, ou antes, como tal desejo uma vez expresso perde seu significado, lamento incrivelmente não a haver encontrado. Não se trata, evidentemente, de uma pessoa qualquer, pois uma mulher que se apresente em tais condições só pode ser um espírito da natureza, uma entidade fantástica oriunda de outros mundos.
Como é alguém que se encontra no bosque, esse outro mundo é o inconsciente, pois ele também é representado em forma de bosques e florestas. O facto de ser à noite reforça a ideia de algo vindo do desconhecido. Para Breton, um encontro como este não seria delírio e poderia de facto acontecer. A mulher almejada por ele não estaria nos lugares comuns, e teria algo que a diferencia de todas as demais. Psicologicamente esta mulher, perigosamente sedutora, foi a projecção de alguma fantasia capaz de despertar os seus mais profundos desejos. Neste caso a projecção, uma das formas pelas quais a anima se manifesta, ocorreu numa figura da imaginação. Assim, a imagem de uma mulher nua no meio do bosque, despida de pudores e moral civilizadora, aponta para os aspectos instintivos da feminilidade, ou seja, à forma mais primitiva da anima, pela qual o autor já vinha sendo inconscientemente atraído.
Logo adiante Breton fala de uma peça que ele assistiu inúmeras vezes neste teatro, sentindo uma admiração especial pela atriz Blanche Derval, que na peça Les Détraquées representava uma personagem esculturalmente bela e perversa (anos mais tarde ele acrescentou em nota o seu arrependimento por não ter levado adiante a sua atracção passional pela actriz, que nunca mais vira). Este facto, que no livro está associado a uma coincidência envolvendo um antigo professor, que na peça auxiliou o autor a tecer o perfil psicológico das personagens, pode ser traduzido como uma disposição interna em se envolver afectivamente com alguém, neste caso uma actriz cujo papel ambivalente na peça despertou-lhe, por razões desconhecidas, uma atracção especial. Estes acontecimentos correspondem à primeira parte do livro, uma espécie de prólogo que apresenta em suas páginas iniciais um panorama do surrealismo até aquele momento, acrescidas de algumas reflexões e comentários sobre temas pertinentes ao movimento. A segunda parte, escrita em forma de diário, trata dos encontros com Nadja, que ocorreram ao longo de 10 dias, durante o mês de Outubro de 1926. A parte final, escrita quatro meses depois, traz novas reflexões do autor sobre esta sua experiência, que retrata um dos momentos mais inspirados e sublimes do surrealismo. Antes dos relatos, uma observação interessante que aproxima as experiências de Jung e André Breton a respeito do inconsciente. Quando esteve no Solar d’Ango para escrever Nadja, André Breton viu um pássaro morto cair no chão. No livro, é justamente neste momento que ele anuncia a entrada em cena de Nadja, antecipando, de forma simbólica, o trágico destino da personagem». In Fabio Massao Yabushita, Brasil, Wikipédia, 2012.

Cortesia de wikipédia/JDACT

Nadja e a Anima de André Breton. Surrealismo. Fabio Yabushita. «… o autor adverte-nos de que irá narrar episódios marcantes de sua vida, factos sobre os quais não teve controlo algum, sentindo-se diante dos mesmos como uma ‘testemunha assustada’…»

Cortesia de wikipedia

«Este artigo aborda o livro Nadja, de André Breton, um ícone do surrealismo, onde a personagem que lhe deu o título é interpretada como sendo a personificação da anima do seu autor. A anima, segundo a psicologia analítica, é o arquétipo do feminino no inconsciente do homem, e está relacionada aos aspectos irracionais e instintivos da psique, como a intuição e a emoção, sendo também a via de acesso para a sua interioridade. O encontro com ela permite o contacto com o inconsciente, algo de fundamental importância para o surrealismo, que o concebeu com um campo de inspiração a ser descoberto e explorado de forma profunda e irrestrita, como aconteceu em Nadja, personagem que encarnou não só o espírito do movimento surrealista, mas também a anima de André Breton. Nadja, livro de André Breton publicado em 1928, é considerado uma das principais obras do surrealismo, movimento de vanguarda que visava, através da exploração do inconsciente, dissolver as barreiras entre arte e vida, e assim promover a emancipação e liberdade do homem.
Considerado como um autêntico meio de conhecimento, o surrealismo foi um modo de pensar e viver voltado aos continentes até então inexplorados, como o sonho, a loucura, e tudo aquilo que fosse contrário ao cenário lógico. O livro, que atende às principais reivindicações do movimento, apresenta alguns recursos antiliterários inovadores, como o uso de ilustrações e fotografias, uma forma de privilegiar a subjectividade do olhar em detrimento da descrição meramente narrativa dos factos. As fotos, em sua maioria retratos de pessoas e lugares, conferem veracidade à história, conciliando assim fantasia e realidade, pois uma das propostas do surrealismo era justamente acabar com tais dicotomias, eliminando, por exemplo, as fronteiras entre realidade interior e exterior. Nesse sentido, Breton, em 2001, dizia acreditar na possibilidade de reunir estados aparentemente contraditórios, como sonho e realidade, em uma espécie de realidade absoluta, ou supra-realidade, que se manifestaria através do insólito e do maravilhoso.
Outra característica a ser destaca no livro foi a técnica chamada pelo autor de observação neuropsiquiátrica, onde tudo o que acontecia deveria ser detalhadamente relatado, sem preocupações com o estilo. Isso mostra que a sua escrita foi também uma experiência surrealista, ou seja, não se trata de um livro sobre o surrealismo, mas de um livro verdadeiramente surreal. Nele o autor relata seu breve romance com uma mulher misteriosa, chamada Nadja, que ele conheceu por acaso, caminhando pelas ruas de Paris. Esse ser errante e misterioso, dotado do mais elevado grau de liberdade, representa o espírito do surrealismo, cujo movimento ganhou forma nesta que é uma das mais inquietantes e enigmáticas personagens da literatura. Embora Nadja se apresente como a encarnação dos ideais surrealistas, principalmente em seus anseios de amor poesia e liberdade, ela também pode ser vista como a personificação da anima de André Breton.
A anima representa as tendências psicológicas femininas no homem. Está relacionada aos seus sentimentos e sensibilidade, conectando-o ao irracional, instintivo e intuitivo, tendo, portanto, a função de relação e conexão com o inconsciente. É através dela que o homem entra em contacto com sua interioridade, penetrando nos liames mais profundos da psique. O eros, considerado um princípio de ligação de natureza afectiva, é também um atributo da anima, que além de ligar o indivíduo ao mundo interior, tem a função de conectá-lo com as demais pessoas, formando laços afectivos de amor, amizade e fraternidade. Enquanto elemento feminino ela está relacionada à terra e à natureza, ao corpo e à matéria. Pode se manifestar de forma encantadora, como a deusa Afrodite, ou terrificante, como Lilith, a lua negra. Santa e meretriz, amável e perigosa, são termos comumente atribuídos à anima, que em suas mil faces é tanto a soror mystica dos alquimistas, quanto a bela dos contos de fadas. Incontáveis são os seus atributos, porém, assim como a alma, ela não pode ser definida, pois não se prende a nenhum conceito. O único meio de sabê-la, é vivê-la, estar em contacto e relacionar-se com ela, sentindo-a em todo seu encanto e fascinação.
Antes de descrever o seu encontro propriamente dito com Nadja, e os acontecimentos subsequentes, o autor adverte-nos de que irá narrar episódios marcantes de sua vida, factos sobre os quais não teve controlo algum, sentindo-se diante dos mesmos como uma testemunha assustada, à mercê daquilo que ele chamou de mundo proibido das aproximações repentinas e petrificantes coincidências». In Fabio Massao Yabushita, Brasil, Wikipédia, 2012.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Hipóteses sobre Jesus. Prefácio de Lúcio L. Radice. Vittorio Messori. «Ou Deus existe, ou não existe. Em qual destas duas hipóteses queres apostar? Em nehuma. A resposta certa é não apostar. Enganas-te. Não é coisa facultativa, é necessário tomar partido. Também tu estás comprometido»

jdact

Prefácio
«Vittorio Messori escreveu este belo livro para comunicar aos outros a sua lúcida e apaixonada convicção de que a mais razoável entre as hipóteses sobre Jesus é que o Nazareno seja o Cristo, o Filho de Deus. E, quando o terminou, foi pedir uma nota introdutiva a uma pessoa que, como o autor sabia perfeitamente, honra em Jesus de Nazaré apenas um grande, um sumo filho do homem. Uma contradição? Não o diria. Falaria antes de um sinal dos tempos.
O facto que para Messori a única resposta cabal à interrogação Jesus seja a da fé, que para ele não sejam convincentes nem a resposta histórico-crítica da divinização do profeta galileu, nem a mítica da criação dum homem à imagem dum deus de salvação, este facto não implica uma contraposição como inimigos daqueles que creem no Homem-Deus ou de aqueles que admiram apenas o homem que pregou e foi crucificado há dois mil anos. A contraposição, parece-me, é outra.

NOTA: Lúcio Lombardo Radice, catedrático de matemática na universidade de Roma, foi membro do Comité Central do Partido Comunista Italiano. Prémio Viareggio de ensaístíca, foi autor juntamente com Mário Gozzini de O diálogo à prova (1965), de Socialismo e Liberdade (1968) e, com Roger Garaudy e e Milan Machovec, entre outros, de Marxistas perante Jesus. Foi um dos iniciadores e mais constantes fautores do diálogo entre marxismo e cristianismo.

A contraposição está entre as doutrinas que submetem o homem e as fés que o tornam livre e responsável. A contraposição está entre o Deus Pantocrátor dos filósofos (e dos poderosos!) e o Filho de Deus-filho do homem, que vive em más companhias, morre de vergonhosa morte de escravo, não tem outra força senão a Palavra. O Deus do cristianismo, vivido e sentido como o vivem hoje milhões e milhões de homens e mulheres, e entre eles o autor deste livro, é um Deus que precisa do homem. É um Deus ético, um Deus de justiça, não uma abstracta Mente ordenadora da natureza e da história. No seu encarnar-se num homem está concentrada a grande ideia (que na verdade revoluciona a história) do homem que constrói ele mesmo a sua salvação e a sua eternidade.
Que se trate duma encarnação divina realmente acontecida num tempo, num lugar, num homem, como pensa Messori; ou que se trate, como eu tenho para mim, duma formidável ideia-força que emana duma excepcional figura de homem aparecida numa longínqua província do grande Império antigo já contagiado pela dissolução, não faz diferença radical. (Não digo que não faça diferença: não faz antagonismo, inimizade, irredutibilidade). Uma ética profundamente secular, laica, condição para a salvação não é a ideologia, é antes o comportamento, a práxis. São palavras do cristão, do crente Vittorio Messori, que, todavia, atribui tanta importância à pergunta-aposta de Blaise Pascal que a coloca como inscrição na abertura do seu livro.
A ideia pascaliana da aposta, parece-me na verdade a mais justa, a mais adequada. É inútil, creio, afadigar-se ainda na busca de provas da existência de Deus ou afadigar-se para ver se se pode provar que Deus não exista. Teísmo e ateísmo têm, estou convencido, carácter postulatório: ou de aposta, para dizer como Pascal. Este livro, belíssimo, repito-o, inteligente e sincero de Vittorio Messori, parece-me em definitivo uma confirmação, um controle notavelmente rigoroso da tese da aposta, do postulado. Parece-me que seja bom reconhecê-lo honestamente de ambas as partes. Da que me diz respeito, a parte daqueles que apostam no Não, subscrevo plenamente uma afirmação, de grande honestidade intelectual, feita por Palmiro Togliatti num seu famoso discurso sobre o destino do homem, em Bérgamo, na primavera de 1963: que o princípio, iluminístico e positivístico, da desmistificação científica, histórico-crítica da fé cristã deve ser corajosamente abandonado.
Tomei a liberdade de modificar uma palavra na citação (sem aspas) de Togliatti. Falei de fé cristã, quando Togliatti diz religião. O facto é (afirmo-o há muitos anos, como Messori atentamente recorda) que o cristianismo, admitindo que seja uma religião (de religar) é certamente urna religião peculiar, diversa de todas as outras, para as quais a previsão duma possível próxima extinção, feita por Messori ao final da sua investigação, é assaz sugestiva e racional. O cristianismo, de facto, é a única religião, ou melhor fé, do mundo de hoje que tem na seu centro o homem. Eis a razão profunda, creio eu, do encontro histórico entre revolucionários de inspiração histórico-materialista e revolucionários de inspiração cristã. Uns e outros apostam no homem. Que depois se trate do homem entendido como valor absoluto (o homem-Deus) ou do homem histórico, relativo, que apenas pode tender ao absoluto, pode ser importante. Mas não decisivo». In Lúcio Lombardo Radice

In Vittorio Messori, Ipotesi su Gesú, Società Editrice Internazionale, 1976, Hipóteses sobre Jesus, Prefácio de Lúcio Lombardo Radice, Gráfica Maiadouro, Maia, 1980.

Cortesia de Maiadouro/JDACT

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O Livro da Consciência. António Damásio. «É comum considerarmos erradamente o nosso grande cérebro e a nossa mente consciente como os promotores das atitudes, intenções e estratégias por trás da nossa sofisticada gestão de vida. E porque não haveria de ser assim? Trata-se de uma forma razoável e parcimoniosa de conceber a história…»

jdact e cortesia da wikipedia

Vontade natural
«Como podem estas atitudes e intenções, que normalmente associamos à mente humana consciente e que intuímos serem o resultado do funcionamento do grande cérebro humano, estar presentes a um nível tão básico? Mas o facto é que estão, seja qual for o nome que queiramos atribuir a essas características do comportamento da célula. Privada de conhecimento consciente, privada de acesso aos dispositivos de deliberação bizantinos presentes no nosso cérebro, a célula isolada revela uma atitude: quer viver por inteiro o tempo que lhe foi geneticamente atribuído. Por estranho que pareça, torna-se óbvio que esse querer, e tudo o que é necessário para o implementar, precedem o conhecimento explícito e a deliberação quanto às condições de vida, uma vez que a célula claramente não os possui. O núcleo e o citoplasma interagem e levam a cabo cálculos complexos destinados a manter a célula viva. Lidam com os problemas que a cada instante surgem a um ser vivo e adaptam a célula à situação, de forma a sobreviver. Reorganizam a posição e a distribuição das moléculas no seu interior, dependendo das condições ambientais, e alteram a forma dos subcomponentes, tais como os microtúbulos, numa exibição de precisão espantosa. Reagem a condições negativas e também às condições favoráveis. Como é óbvio, os componentes que levam a cabo essas adaptações foram colocados na sua posição pelo material genético da célula, de quem recebem ordens.
É comum considerarmos erradamente o nosso grande cérebro e a nossa mente consciente como os promotores das atitudes, intenções e estratégias por trás da nossa sofisticada gestão de vida. E porque não haveria de ser assim? Trata-se de uma forma razoável e parcimoniosa de conceber a história de tal progresso quando a observamos do topo da pirâmide e nas nossas circunstâncias presentes. Contudo, a verdade é que a mente consciente se limitou a tornar o conhecimento da gestão básica da vida conhecível.
As contribuições decisivas da mente consciente para a evolução vêm a ser introduzidas a um nível muito superior. Têm a ver com tomadas de decisão deliberativas e com criações culturais. Não estou, de todo, a menosprezar a importância desse nível elevado de gestão da vida. Com efeito, uma das principais ideias defende que a mente consciente humana deu um novo rumo à evolução precisamente por nos dotar de opções, por tornar possível uma regulação sociocultural relativamente flexível, bem para além da organização social complexa que os insectos, por exemplo, exibem de forma tão espectacular. Estou, isso sim, a inverter a sequência narrativa do relato tradicional sobre a consciência, fazendo com que o conhecimento oculto da gestão da vida preceda a experiência consciente de tal conhecimento. Estou igualmente a dizer que esse conhecimento oculto é bastante sofisticado e não deve ser tomado como primitivo. A sua complexidade é enorme e a inteligência nele implícita espantosa.


Não estou a menosprezar a consciência, mas estou, garantidamente, a acentuar a importância da gestão não-consciente da vida e a sugerir que ela constitui o esquema-base para as atitudes e intenções das mentes conscientes. Será que o nosso desejo consciente de viver, tão humano, a nossa vontade de prevalecer, teve início numa agregação silenciosa dos desejos rudimentares de todas as células do nosso corpo, uma voz colectiva libertada num canto de afirmação?» In António Damásio, O Livro da Consciência, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2010, ISBN 978-989-644-120-3.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Nadja. André Breton. «O meu conceito de “fantasma”, no que revela de convencional tanto no aspecto como na cega submissão a certas contingências de hora e de lugar, vale sobretudo para mim como imagem acabada de um tormento que pode ser eterno»


(1896-1966)
Tinchebray, Orne, França
jdact e cortesia de wikipedia

«Se já no desenvolvimento desta obra o acto de escrever, e mais ainda o de publicar qualquer espécie de livro, é relegado para o plano das vaidades, que pensar da complacência do seu autor ao pretender, tantos anos passados, melhorar-lhe um pouco a forma! Convém distinguir, entre o que se refere, bem ou mal-avindo nesta narrativa, ao teclado afectivo e só a ele se remete, o essencial, bem entendido e a parte relacionada com o dia-a-dia, tão impessoal quanto possível, articulando-se os pequenos acontecimentos uns nos outros de determinada maneira.Se a tentativa de retocar à distância a expressão de um estado emocional, à falta de poder revivê-la no presente, se salda inevitavelmente pela dissonância e pelo fracasso, talvez não deixe de ser razoável aspirar a um pouco mais de fluência e de pertinência nos termos.
De modo muito especial, é possível que um resultado assim se possa obter com Nadja, em virtude de um dos dois principais imperativos antiliterários a que esta obra obedece, condenada no Manifesto do Surrealismo, assim também o tom adoptado na narrativa toma por modelo o da observação clínica, sobretudo neuro-psiquiátrica, que tende a conservar os vestígios de tudo o que interrogatório e exame podem revelar, sem se embaraçar com miúdas questões estilísticas. Atenta a não alterar em nada o documento tomado ao vivo, se aplica, não só a Nadja, 'mas também a terceiras pessoas. O despojamento voluntário de um texto como este contribuiu sem dúvida, ao recuar o seu ponto de fuga além dos limites usuais, para a renovação da sua audiência.
Subjectividade e objectividade, no curso de uma vida humana, travam uma série de assaltos, dos quais a primeira depressa costuma sair muito maltratada.

Quem sou? Se excepcionalmente apelasse para um provérbio: com efeito, o sentido de tudo não poderia resumir-se em saber quem assombro? (Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és). Devo confessar que esta palavra me desorienta e tende a estabelecer entre mim e certos seres relações mais singulares, inevitáveis e perturbadoras do que em princípio supunha. É uma palavra que diz muito mais do que quer dizer, que me faz representar, vivo, o papel de fantasma, que alude, sem margem para dúvidas, ao que foi preciso que eu deixasse de ser a fim de ser quem sou. Tomada nesta acepção de um modo quase abusivo, sugere-me que as manifestações objectivas da minha existência, pelo menos as que assim considero, manifestações mais ou menos deliberadas, são tão-só o que transparece, nos limites desta vida, de uma actividade cujo campo verdadeiro me é totalmente desconhecido. O meu conceito de fantasma, no que revela de convencional tanto no aspecto como na cega submissão a certas contingências de hora e de lugar, vale sobretudo para mim como imagem acabada de um tormento que pode ser eterno.


É provável que a minha vida seja apenas uma imagem deste género, que esteja condenado a voltar atrás quando imagino explorar, a tentar conhecer o que deveria reconhecer sem esforço, a aprender uma parte irrisória daquilo que esqueci. Esta opinião a meu respeito só me parece falsa na medida em que me pressupõe a mim próprio e situa arbitrariamente num plano de anterioridade uma figura rematada do meu pensamento sem razão para se harmonizar com o tempo, uma figura que implica, nesse mesmo tempo, a ideia de qualquer perda irreparável, penitência ou queda cuja ausência de fundamento moral seria insusceptível de admitir, a meu ver, a mínima discussão. O importante é que as aptidões particulares que lentamente me vou descobrindo neste mundo nunca me distraiam de uma aptidão geral que me seria própria e não me é dada. Para além de toda a espécie de gostos que me conheço, de afinidades que me sinto, de seduções que me assaltam, de acontecimentos que me acontecem e só acontecem a mim, de muitos movimentos que me vejo executar, de emoções que sou o único a suportar, esforço-me, em relação aos outros homens, por saber em que consiste, ou em que se firma, a minha diferença. Não será na medida exacta em que consiga tomar consciência desta diferença que hei-de descobrir o que vim fazer a este mundo e qual a mensagem única de que sou portador, ao ponto de só a minha cabeça responder pelo seu destino?» In André Breton, Nadja, Editorial Estampa, colecção Novas Direcções, Lisboa, 1971.

Cortesia de Estampa/JDACT

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O Livro da Consciência. António Damásio. «Por mais simples que tivessem sido e continuem a ser, as células isoladas tinham o que parecia ser uma determinação decisiva e inabalável em permanecer vivas enquanto os genes no interior do seu núcleo microscópico assim o ordenassem»


jdact e cortesia da wikipedia

Vontade natural
«A grande diferença entre as células que se encontraram nos organismos multicelulares, ou metazoários, e as células isoladas têm de se bastar a si próprias, as células que constituem o nosso organismo vivem em sociedades extremamente diversas e complexas. Muitas das tarefas que as células dos organismos unicelulares têm de desempenhar sozinhas são atribuídas a tipos especializados de células nos organismos multicelulares. No entanto, a organização geral é comparável à atribuição distinta de papéis funcionais que cada célula individual incorpora na sua própria estrutura. Os organismos multicelulares são compostos por múltiplos organismos unicelulares organizados de forma colaborativa, algo que teve origem na combinação de organismos individuais ainda mais reduzidos. A economia de um organismo multicelular apresenta inúmeros sectores e as células que compõem cada um desses sectores colaboram entre si. Se tudo isto parece familiar e leva o leitor a pensar nas sociedades humanas, tem toda a razão. As semelhanças são espantosas.
A regência do sistema de um organismo multicelular é extremamente descentralizada, embora apresente centros de liderança com poderes avançados de análise e decisão, como, por exemplo, o sistema endócrino e, claro está, o cérebro. Mesmo assim, com raras excepções, rodas as células dos organismos multicelulares, incluindo o nosso, têm os mesmos componentes de um organismo unicelular:
  • membrana, citoesqueleto, citoplasma e núcleo, os glóbulos vermelhos, cuja breve vida de cento e vinte dias é dedicada ao transporte de hemoglobina, são a excepção, pois não possuem um núcleo.
Além disso, todas essas células apresentam um ciclo de vida semelhante, nascimento, desenvolvimento, envelhecimento, morte, ao de um organismo complexo. A vida de um organismo humano é composta por multitudes de vidas simultâneas e bem articuladas. Por mais simples que tivessem sido e continuem a ser, as células isoladas tinham o que parecia ser uma determinação decisiva e inabalável em permanecer vivas enquanto os genes no interior do seu núcleo microscópico assim o ordenassem. A regência da sua vida incluía uma insistência obstinada em existir e prevalecer até que alguns dos genes do núcleo suspendessem essa vontade de viver e permitissem que a célula morresse.
Sei que é difícil imaginar que os conceitos de ‘desejo’ e ‘vontade’ possam ser aplicáveis a uma célula única e isolada. Como podem estas atitudes e intenções, que normalmente associamos à mente humana consciente e que intuímos serem o resultado do funcionamento do grande cérebro humano, estar presentes a um nível tão básico? Mas o facto é que estão, seja qual for o nome que queiramos atribuir a essas características do comportamento da célula». In António Damásio, O Livro da Consciência, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2010, ISBN 978-989-644-120-3.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Considerações e Outros Textos. Agostinho da Silva. «Mudaram os assuntos e os estilos. Toda a gente se moldou a uma nova cadência e houve no mundo um zumbido diferente como de motor que acelera o andamento. Os que se deleitavam com a opulência da ‘Ásia’, pasmaram depois ante o agreste laconismo…»


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Retórica da Acção
«Não achas, caro Valério, que em face dos exemplos devemos modificar um pouco a ideia que tínhamos formado da retórica? Habituara-se o nosso espírito a olhá-la como a acumulação de frases bem ressoantes e balançadas, de períodos que todos se resolviam em música e larga sonoridade de palavras, de imagens que se ligavam ininterruptas e davam ao discurso aquele seu ar de fogo de artifício que prendia, subjugava a massa dos ouvintes. A oratória caracterizava-se ainda, depois de todas as críticas e de todas as troças, pelo romantismo das evocações e pelo gosto da ampla sintaxe; era-se tanto mais eloquente quanto mais se aproximavam os pensamentos da melancolia de Passos ou das indignações de Leal, quanto mais se assemelhava a forma ao talhe dos clássicos e se cometia a proeza de galgar uma página sem um ponto final. Seguia-se o exemplo que vinha de longe, aprendera-se com exactidão, embora com talento muitíssimo menor, aquela arte que Cícero ensinara de dizer sempre as mesmas coisas por diferentes maneiras, de fazer que uma única e pobre ideia se estendesse durante horas, sem uma circunstância, sem um aspecto, sem uma consequência que a pudessem renovar. O êxito de má literatura que daqui se colhia sobrelevava no ânimo de todos a inutilidade de tanta bela frase perante a prática. Nenhum problema encontrava a sua solução, não ficava melhor o país depois do suor do orador e dos aplausos do público. Após a festa nocturna em que o charco parecera por momentos incendiado de estrelas, espapava-se sob o mesmo silêncio de moleza a mesma lama infecunda.

O processo, no entanto, acabou por fatigar; sem que ninguém tivesse a coragem ou, porventura, a suficiente clareza de espírito para o dizer e reclamar outra vida, todos sentiam que a rodagem estava gasta. E bateram palmas quando se proclamou a queda da retórica, quando surgiram pessoas todas viradas à acção a quem o discurso importunava e tão exageradas, tão possuídas do seu fim que não distinguiam da eloquência de aparato o indispensável diálogo. Deixou-se de afirmar que o sonho e o arroubo eram vitais e passou-se ao tema de proceder e construir. O edifício da retórica que parecia tão seguro abateu-se num momento; sobre as ruínas outros homens se ergueram, claros, incisivos, duros nas expressões, ríspidos nos métodos, ansiosos de não perder tempo e que sem intervalo juravam a necessidade e o desejo de que todos agissem. Outros mesmos recusavam-se a falar, numa completa reacção, afastavam-se de tudo que se pudesse assemelhar aos ruídos e vãs disputas do foro, repeliam as grandes matinadas dos seus antecessores. Reinou a frase breve, com uma ordem de comando, o período curto e seco.
Mudaram os assuntos e os estilos. Toda a gente se moldou a uma nova cadência e houve no mundo um zumbido diferente como de motor que acelera o andamento. Os que se deleitavam com a opulência da Ásia, pasmaram depois ante o agreste laconismo. Simplesmente, como já compreendeste, caro Valério, continuaram a existir os dois imprescindíveis elementos do falar e do escutar; os que não oram exprimem-se por mímica, o que não é menos inútil. Poderíamos até constituir uma fábula sobre as idênticas rãs que por terem variado de tema ou emudecido à borda do paúl pretendem que os outros animais as tomem por castores; ao que se opõe a natureza». In Agostinho da Silva, Considerações e Outros Textos, Editorial Minerva, Alfinete 4, Assírio e Alvim, 1988.

Cortesia Assírio e Alvim/JDACT

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Considerações e Outros Temas. Agostinho da Silva. «… o objectivo que a humanidade por sua natureza há-de atingir, o que nos meteria, sem grandes possibilidades de saída, no estéril labirinto das causas finais; mas é a tal alvo que a vontade deve apontar os seus tiros»

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(continuação)

In Negotium
«A fadiga que esmaga um corpo depois de oito ou dez horas em frente de um volante ou de um dia inteiro na faina do campo é um crime contra o Jeová que nos criou à sua imagem, um sacrilégio contra a partícula de fogo eterno que palpita por favor dos deuses em cada um de nós. O trabalho não é virtude, nem honra; antes veria nele necessidade e condenação; é, como se sabe, consequência do pecado original. A reconquista do ‘Eden’ comportaria para o homem a libertação do trabalho, lavá-lo-ia dessa mancha de animal doméstico sob o jugo, havia de o restituir ao que é seu essencial carácter: o ser pensante. Não direi que é esse o objectivo que a humanidade por sua natureza há-de atingir, o que nos meteria, sem grandes possibilidades de saída, no estéril labirinto das causas finais; mas é a tal alvo que a vontade deve apontar os seus tiros; certamente o problema é enredado e confuso, porque (abandonado o sonho de idades de ouro e simplicidade frugal) a posse de ócio pressupõe uma perfeição de domínio sobre a natureza que se não poderá conseguir senão à custa do sacrifício de muitas gerações, como o ócio de Atenas se alcançou à custa do sacrifício dos escravos; a solução, porém, não se me afigura impossível se fizermos um esforço por escaparmos do ambiente de retórica que atira os jornalistas de todas as espécies contra a máquina e deixarmos de ver nela a inimiga que se tem de vencer, para a olharmos como a auxiliar imprescindível; se mais ainda, fecharmos os ouvidos às advertências e ameaças que de todos os lados fazem chover sobre nós os ditos homens de acção». In Agostinho da Silva, Considerações e Outros Textos, Editorial Minerva, Alfinete 4, Assírio e Alvim, 1988.

Cortesia Assírio e Alvim/JDACT

Considerações e Outros Temas. Agostinho da Silva. «… esse povo estranho era apaixonado da ideia, atropelava-se à eloquência dos sofistas, tinha a tribuna do ‘ágora’, a assembleia do povo como a pedra de toque dos condutores políticos; e mais os devem espantar, com aquele espanto que vem da ignorância…»


jdact

In Negotium
Há obras que tentam construir a imagem do mundo dos insectos e do mundo dos peixes, mostrando-nos como eles o vêm e utilizam. Igualmente seria interessante que se estudasse o mundo dos homens de acção, dos que foram talhados para se deleitar no fenómeno e se banhar de realismo em todos os sectores da vida; aquele que um dia o escrever não deverá deixar de incluir no volume um capítulo sobre a visão que têm da Grécia; a avaliar pelo que disse um dos grandes, extraordinariamente sábio e divinamente inspirado, sobre a República, que julgou ser a crónica de uma experiência comunista realizada na antiguidade, as relações pessoais entre os gregos e os homens de acção não parecem demasiado íntimas; em todo o caso seria proveitoso e pitoresco investigá-las.
Estou em crer que admiradores dos romanos das pontes e calçadas, o romano do ius é outra história, a sua atitude perante o grego é sobretudo uma atitude de desprezo: esse povo estranho era apaixonado da ideia, atropelava-se à eloquência dos sofistas, tinha a tribuna do ‘ágora’, a assembleia do povo como a pedra de toque dos condutores políticos; e mais os devem espantar, com aquele espanto que vem da ignorância e da incompreensão, a fecunda indolência, o nobilíssimo ócio em que os helenos se souberam manter; para os que apenas sonham com regulamentos, horários e automatismos semelhantes tal vida de caprichosa liberdade, de contemplação aristocrática, de largas discussões filosóficas, de obstinada recusa em ser escravo de tempo e de dinheiro, aparece decerto como um escândalo que o Senhor devia ter expungido da face da terra com imprecações e grande fogo de enxofre; outro escândalo ainda o surgirem na época actual homens que mantêm o mesmo ponto de vista, que sonham com o século em que seja possível, feito rapidamente, em parte mínima do dia, o trabalho material que houver a realizar, entregarmo-nos depois todos à divina ocupação de reflectir e discutir, de passar em revista as doutrinas dos sábios e os interesses da cidade, de inventar, destruir e recompor o mundo dos sentidos e o mais puro universo das ideias». In Agostinho da Silva, Considerações e Outros Textos, Editorial Minerva, Alfinete 4, Assírio e Alvim, 1988.

continua
Cortesia Assírio e Alvim/JDACT

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Considerações e Outros Temas. Agostinho da Silva. «… em Vasco da Gama apenas um sólido chefe, imaginar que lhe prepassou no cérebro a ideia de que, ao contrário do pensamento vulgar, os papéis se tinham de inverter e era perante ele e por ele que a história se justificaria no porvir; como a sua própria história algum dia se veria obrigada a comparecer perante o tribunal de outros homens»


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Justificação
«Vasco da Gama naturalmente não pensava em justificar-se perante a história, em, como se costuma dizer, ser digno dos seus antepassados. A força que lhe vinha de outros tempos circulava-lhe nas veias e nos nervos, não o envolvia como uma nuvem de retórica ou um recurso para mascarar dificuldades; servia para ver claro e não para turvar. Todo o seu empenho estaria em realizar, com seriedade e vontade, a missão de que a vida o tinha encarregado; assim, porventura, passado e futuro se lhe sumiam perante o olhar e havia à sua volta apenas um grande tempo presente que se tornava necessário satisfazer. Poder-se-ia, até, se não quisermos ver em Vasco da Gama apenas um sólido chefe, imaginar que lhe prepassou no cérebro a ideia de que, ao contrário do pensamento vulgar, os papéis se tinham de inverter e era perante ele e por ele que a história se justificaria no porvir; como a sua própria história algum dia se veria obrigada a comparecer perante o tribunal de outros homens; as pedras que se vão juntando numa abóbada continuam as outras, apoiam-se nelas, julgam-nas, classificam-lhes a solidez, para a seu turno serem classificadas e julgadas.
Não é de pôr logo de parte nem de se desprezar a justificação perante a história; convém, no entanto, que se faça uma troca de sinais e que passemos a querer ser grandes e generosos e nobres não por um padrão de passado, mas por um padrão de futuro. A nossa posição há-de-nos ser marcada não pelas honras mais ou menos indignas deles que tivermos prestado aos que nos antecederam, mas pelas facilidades do caminho que tivermos conseguido para os que vierem depois de nós.
Claro está que tal atitude implica mais fecundo trabalho e menos possibilidades oratórias; tem de se pôr acima de tudo o culto do bem moral; de adoptar perante os avós uma atitude que não seja explosiva, mas serenamente crítica; de considerar o esforço do passado o que se pôde fazer e não o que se devia ter feito; de proteger, como o máximo tesouro, a sensibilidade especial e delicada que vira o coração e a vontade a toda a brisa de novidade produtiva; de ter percebido a linha essencial que se torna necessário seguir e aborrecer as modas, as variações dos climas. Todas as dificuldades que se apontam e outras mais que acodem a todos os espíritos, fazem recuar muita gente e dão a nações inteiras o gosto de se voltar dos sucessores para os maiores; ainda talvez fosse proveitosa esta falta de coragem para a vida, se considerassem a história um problema e se o pretendessem resolver em termos de razão; em funções de entendimento puro é igual o valor da ‘História’ de Tucidides e da ‘Utopia’ de Moro.
Mal vai, porém, quando em todo o lugar surgem certezas; é o noivado com a morte. É preciso, pois, pio ‘Eneas’, que sejas grande por amor dos Cipiões e dos Emílios e não que meças a tua estatura pela dos Anquises curvados para o chão; é preciso, sobretudo, que nos campos Elísios não bocejem de ti os ilustres avós». In Agostinho da Silva, Considerações e Outros Textos, Editorial Minerva, Alfinete 4, Assírio e Alvim, 1988.

Cortesia Assírio e Alvim/JDACT

terça-feira, 3 de julho de 2012

Considerações e Outros Temas. Agostinho da Silva. «Constitui-lhe suficiente imperativo para que arrisque a tranquilidade e bordeje a própria morte o pensamento de que os espíritos nasceram para ser livres e que a liberdade se confunde, na sua forma mais perfeita, com a razão e a justiça, com o bem»


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Discurso da Serpente
«Porque te recusas, ó Eva, a provar do pomo que te ofereço? Que terror é esse que assim te detém, bruscamente, nas fronteiras da vida? Decerto a existência te corre feliz e doce, num calmo, fresco fluir como o do regato que te embala no sono; não há fera nos bosques nem ave no céu que secretamente não inveje a tua marcha de cadência e firmeza, o teu repouso de harmonia e de elegância; as mais rasteiras, humildes ervas desejariam possuir essa desperta curiosidade, esse agudo penetrar que te coloca, face ao mundo, como o ser que se destina a libertá-lo, a pouco e pouco o despojar de toda a grosseria e bruteza a que o condenou um deus de imperfeição; eu próprio te admiro, ó Eva, e confesso que me seria impossível ter-te criado mais bela e nobre do que és; mas, ante a obra, sei o que há de mal talhado; sou o génio que critica e melhora, que vai tornando cada dia mais certos os caminhos do sol e marcando às ondas do mar um mais rítmico encher; sou o que vem junto de ti para te revelar a ti mesma.
E há no meio de toda a felicidade, de toda a calma brilhante do jardim, um pesar que foi de início a névoa ligeira que se esvai à brisa da manhã, mas que depois cresceu, se engrossou e hoje te perturba as horas mais serenas. Tens o tormento de saber que alguém existe mais poderoso e mais sábio do que tu, que ante esse espírito imenso de inteligência e bondade pouco mais valerás do que uma gota das águas do regato; sentes-te dominada por ele, como a folha pelo vento que a impele; não vais onde queres, mas onde o outro o previu; deves à sua indulgência superior, ao seu amoroso desdém, toda a maravilha dos prados floridos e das noites marchetadas de estrelas; deu-te os caminhos por que podes passar e as leis que te não permite transgredir; há afinal uma barreira à tua volta, um limite às esperanças e desejos; tens um Senhor, ó Eva, e tanto basta para contrariar, para ferir o mais profundo anseio da tua alma.
Não afastes, pois, o meio que te pode conduzir à liberdade plena; começa hoje mesmo, pela simbólica maçã, a assimilar o mundo, vai-o observando instante a instante, encontrando nele as semelhanças divinas com a luz que te resplende no peito; dispõe das cores e dos sons, combina o que numas e noutras há de essência, vai para além da espessura dos troncos e do brincar alvo das espumas; que nada hoje por fim fora de ti senão como sonho que poderás sonhar quando quiseres, como um jogo que elevas ou derrubas à vontade; aprisiona o teu senhor e o conselheiro que em mim te surge na fina tarde com a lei que tiveres inventado e sê tu livre; subjuga depois a própria lei, concebe-a como figura do sonho ou como pedra do jogo; e então, ó Eva, te alargarás a todos os espaços e, batidos os deuses, serás Deus.


Temístio
É certamente admirável o homem que se opõe a todas as espécies de opressão, porque sente que só assim se conseguirá realizar a sua vida, só assim ela estará de acordo com o espírito do mundo; constitui-lhe suficiente imperativo para que arrisque a tranquilidade e bordeje a própria morte o pensamento de que os espíritos nasceram para ser livres e que a liberdade se confunde, na sua forma mais perfeita, com a razão e a justiça, com o bem; a existência passou a ser para ele o meio que um deus benevolente colocou ao seu dispor para conseguir, pelo que lhe toca, deixar uma centelha onde até aí apenas a treva se cerrava; é um esforço de indivíduo que reconheceu o caminho a seguir e que deliberadamente por ele marcha sem que o esmoreçam obstáculos ou o intimide a ameaça; afinal o poderíamos ver como a alma que busca, após uma luta de que a não interessam nem dificuldades nem extensão». In Agostinho da Silva, Considerações e Outros Textos, Editorial Minerva, Alfinete 4, Assírio e Alvim, 1988.

Cortesia A. e Alvim/JDACT