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terça-feira, 27 de outubro de 2020

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «E eu não podia vingar-me, mas agora chegou minha vez. Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé»

Cortesia de wikipedia e jdact

Um jornalista levado dos diabos

«Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar».

Carta I

«(…) A geração é de covardes e cada ano que passa está mais corrupto o mundo. Ah, não ter eu muito que dar a este pequeno miserável que me bate agora à porta, para que ele me chame o mais vil que o sol cobre, o mais canalha de todos, o mais indigno, o mais bandido! Ele não se engana. Lá tem o seu raciocínio que não falha nunca. Dei-lhe tudo o que tinha e todavia vai a resmungar baixinho que um dia, um dia que virá cedo, me virá bater à porta com uma coronha e me há de fuzilar a mim, o maior dos patifes que o socorri.

Vai-se embora a pensar que se fosse rico, havia de azorragar toda essa ralé que pede esmola e toda aquela que dá tudo o que tem. E cisma em ser um dia o maior dos Neros que o mundo tem visto; em ter um chicote com que possa de uma só vez azorragar a Terra, ele, cujo corpo deveria ser balançado no candeeiro ali defronte.

De trinta mendigos a quem dei esmola hão-de nascer noventa patifes para me apedrejar. Abençoada esmola! Mas explica-se. É que a minha esmola, esmola-humana, fecunda lá dentro todo o meu cinismo e toda a minha canalhice. Deste-me esmola? Muito bem, odeio-te. Odeio-te porque não posso também dar esmola e porque me curvei a ti. Toda a vida tu me fizeste bem, socorreste-me, agasalhaste-me. Um dia, eu mau como sou, estou por cima. Então eu havia de perder a ocasião de me vingar de tudo o que tu me fizeste? Chegou o meu dia. Agora, meu velho, eu sou maior, ouves? Eu dobrei-me e tu socorreste-me, mas eu dobrei-me. Eu era um faminto e tu sentaste-me à tua mesa, mas eu dobrei-me. Tive fome tu encheste-me, tive frio tu agasalhaste-me. Irritante Tu, sempre Tu.

E eu não podia vingar-me, mas agora chegou minha vez. Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé. Logo no primeiro dia em que não temam desconjuntar a bota quando o fizerem, percebes?

Escutaste? Vem, se te sentes com forças. Demais és pobre. Então para ti a vida é tudo isto e tudo o mais que tu tiveres coragem de inventar. O pobre será odioso até ao seu parente mais chegado (Provérbios), que não merece carinhos quem não tem para caldo (Silva Pinto), ouves? Tu virás e triunfarás. Tu serás mau e cínico e traidor. A Vida? Seria loucura, na verdade, conservarmos alguns sentimentos compassivos quando vivemos em semelhantes cavernas. A Vida é uma canalhice, uma farsa, uma luta brutal , como diz Tourgueneff». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

JDACT, Albino Forjaz Sampaio, Cartas, Crónicas, A Arte,

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «Relicários, cultos, milagres, o céu, bênçãos, mitras, báculos, tudo isto está em leilão. Quem oferece? Quem dá mais? Às vezes as religiões pregoam…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta IV
«(…) A cidade, como a vida, é ignóbil. Ali, tudo se vende.
Quando custa uma virgindade? A glória? A fama? Um beijo? Uma alma? Um jantar? Um enterro? Quem é senhor do mundo, senhor da cidade, senhor da aldeia, senhor do campo? O dinheiro. É ele que faz cantar às almas as óperas da torpeza e do interesse. É essa lama bendita com que se compra o céu. Para o alcançar todos os dias o sol vê crimes inauditos e a humanidade se afadiga e sua e chora. Não há crenças, nem escrúpulos, nem religiões. É aquela luta brutal da tela de Rochegrosse. A honra? A honra é uma fórmula, É pagar uma letra no seu prazo com dinheiro que se ganhou a traficar escravos; é ser torpe sem que ninguém o diga; é roubar sem que o roubado acuse. Há mulheres sem honra que todos cortejam, virgindades imaculadas que todos desprezam. Religiões? A religião é uma comédia cuja representação já dura há séculos. Fez sucesso! É uma coisa fútil e extravagante que se parece com as histórias dos gnomos e das princesas encantadas. Quem a não tem, compra-a. Para que servem os padres senão para venderem Deus por grosso e a retalho (Zola).
Relicários, cultos, milagres, o céu, bênçãos, mitras, báculos, tudo isto está em leilão. Quem oferece? Quem dá mais? Às vezes as religiões pregoam entre os homens o Bem, a Paz e a Igualdade. Mentira, tudo mentira! Olhando bem a vida lá está sempre no fundo a sua face austera e verdadeira, uma Saint-Barthélemy. Que tragédia risível, grotesca, bizzara medonha, sofrida, desesperada e lancinante não é o mundo? A vida? A cidade? Lá em baixo nas vielas sujas ou no boulevard caro, a luz do gás, que baila a dança de S. Vito, pões lívida a carne, lívida a alma, lívido o sentimento. Há lá ruas inteiras de toleradas, ruas de loiras perfumadas de falas tão lânguidas como fúcsias, de morenas de beijos tão doces como medronhos, de ruivas de cabelos tão fulvos como o poente. São as filhas dos operários que espancam as mulheres quando chega à noite a casa, perdidos de bêbados; são as filhas dum ventre que não tinha nome e cujo pai é toda a gente; são aquelas que tendo vendido tudo se vendem afinal; são a legião enorme e interminável das nascidas não se sabe como, paridas não se sabe aonde, as filhas das ervas, filhas da rua.
Nos bancos sombrios do square há vultos enigmáticos, suspeitos, órfãos cujas almas são os íman da desgraça de todo o mundo, e à esquina das ruas pedem esmola velhos patriarcas como castanheiros centenários, filhas que fugiram aos pais pelos amantes que as abandonaram, pais que os filhos expulsaram de casa, mulheres que outrora foram belas e faladas. Embuçada num portal uma criaturinha esguia e franzina como uma santa, silenciosa, estende a quem passa a mão afilada e transparente e todos se afastam com o rancor, enquanto ela lá continua, no olhar a nostalgia das que passam os dias a tossir. Há carnes nuas que o frio corta e a nortada arroxeia a par de equipagens arrogantes mais brunidas que a água cristalina; vestes roçagantes e sumptuosas, arminhos e púrpuras, crachás e andrajos. Passeiam na mesma rua a majestade e o andrógino, a bêbada e a duquesa, e encontram-se muitas vezes no mesmo olhar os olhos que são alvoradas e os que são crateras sempre em perpétuas erupções de lágrimas. E na sombra, há criaturas emagrecidas pelas privações, recantos sinistros de infâmia onde a luz debuxa, às vezes, a traços esguios e esqueléticos, uma caricatura que em lugar de fazer rir faz arrepiar; há gestos de revolta, meio esboçados, repelentes, grotesco, divinos; punhos erguidos, caras crispadas, criaturas capazes de agatanhar os pais e lhes arrancar os olhos para castigo de as ter feito vir ao mundo.
E pensa a gente se foi só para todo este lodo, toda esta amargura, que sofreram todas as mulheres as dores do parto. Bizarramente, ao longe, silenciosa e erma como um túmulo, esgarça-se a brancura duma casita abandonada, e mais distante, na solidão duma encosta verde, umas árvores, com o seu reumatismo eterno, descarnadas, com seus troncos como aranhas monstruosas são tristes como a noite e como a desolação. O sol agoniza e a sombra que desce lentamente amortalha a terra com os seu manto funerário. Depois surge no céu a lua, muito grande, branca como a face duma defunta ou ensanguentada como a cabeça dos guilhotinados. Então por toda a terra se eleva o choro das ribeiras soluçantes, o ciclo longo das folhas que se abraçam, enquanto distante um ou outro galo perdido solta o seu grito de alarme como o das sentinelas à volta das prisões. E eu, debruçado sobre a cidade, escuto o seu respirar e sinto elevar-se da treva densa que abraça o mundo, num surdo formilhar, o arfar de mil opressos peitos que mal respiram e que semelham o ralo estertoroso de mil agonizantes». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, Editora Guerra e Paz, 2011, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/JDACT

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «As próprias coisas mudas, a lama, o pão e o vinho, a pedra da calçada, a labareda e a gota de água, o verme e a planta a têm»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta IV
«(…) A vida é dos de coração gelado e hirto. Amanhã é tarde, depois é impossível. Tudo na vida é transitório. Tudo passa, tudo esquece. A criança será homem, o lacaio será senhor, o arbusto será árvore, o ontem será hoje, o bom será mau. Ai dos que param, ai dos vencidos! Aquela cena é bem a Vida, esta luta brutal e torturada que começa quando o sol se ergue loiro e triunfante para só terminar às horas em que tudo parece desolado e morto.
O crepúsculo cai suavemente. Ao longe a casaria branca de uma cidade adivinha-se. E as altas chaminés das fábricas atiram para os astros o seu fumo apodrecido e gasto como um hálito maldito e desolador.
A minha casa deita sobre a cidade e sobre o mar. Lá em baixo ficam os seus hospitais, as suas prisões, as suas morgues, os seus cemitérios, igrejas, calabouços, penitenciárias, hospedarias e albergues, docas, oficinas e quartéis. Seus bairros magníficos e seus bairros pobres. Lá moram os que se embebedam e os que esmolam, os que têm dinheiro, os que não têm trabalho e os que se portam mal. Os telhados amontoam-se e o sol, que agoniza para lá da barra, põe grandes retalhos de ouro fulvo no agrupamento regular e caprichoso dos edifícios e moradias, afogueando o horizonte num clarão de aurora. Balança-se no ar pesadamente uma fumarada espessa como um nevoeiro, feita de mil suores, mil respirações, mil hálitos diferentes, desde o hálito do bispo ao do bêbado, do órfão ao do mendigo, do cocheiro ao do sacerdote. E como o fumo, paira no ar o Babel dos ruídos, um rumor confuso feito do ralo das agonias ao estrupido das pragas, do das cantigas ao das disputas. O ruído das máquinas que rangem, chaminés que resfolgam, peitos que respiram, olhos que choram, gargantas que soluçam, corpos que tombam.
O desabrochar das violetas nos canteiros e das rosas nas jarras dos salões, subtil como um aroma, mistura-se com o ruído tamborilado e convulso, como um rufo de pandeiro, das carpideiras de enterro. Os gritos e as pragas dos vencidos baralham-se com as exclamações de triunfo dos vencedores. E quantas cidades tem o mundo? As cidades quantas almas? As almas quantas tragédias? Toda a gente tem em si a sua tragédia. As próprias coisas mudas, a lama, o pão e o vinho, a pedra da calçada, a labareda e a gota de água, o verme e a planta a têm.
Pensaste alguma vez na tragédia de uma cama de hospedaria, na das enxergas dos hospitais, na de uma ladra, de uma mortalha ou de uma camisa de rendas? Na tragédia das bandeiras esfuracadas de mil batalhas, na dos afogados no alto mar, na dos violinos, na de um náufrago da Medusa ou na da princesa de Lamballe? Tudo é tragédia desde a tragédia do parto à tragédia do estertor. Quem poderá saber a que há na flauta de um pastor e no leito de uma rainha? A tragédia que houve na alma de Vaillant o anarquista, e na de Tintoreto o pintor? A de Alexandre o grande e a de Sócrates o estóico? Na alma de Jesus e na alma de Marat? Quem sabe o que vai na alma dos clowns e na dos pescadores? Na dos loucos e na dos maus?
A tumba dos pobres, o carro celular, a vala, a serapilheira, o caixão, as costureiras, os vagabundos, as cigarreiras, os emigrantes, os degredados, os cavadores, os homens de génio, as que têm leite nos peitos, as que arrastam um coração sem amor, os ninhos abandonados, tudo, de tudo isto quem sabe a sua tragédia? E a tragédia das que têm livro as quais a polícia rouba e o amigo espanca? Hamlet cismou na tragédia da caveira. Quem cismará agora na cidade? O corpo de uma cortesã tem a mesma tragédia do que um prato de hotel ou um copo de botequim. Por todos servido, por todos usado, o prato e o copo quando se partem o seu destino é o lixo. A mulher quando envelhece e morre, o seu destino é a vala. Não serão pois, copo, prato e mulher inteiramente iguais? Algumas vezes a tragédia é caricata, é pândega, dá vontade de rir. Mas nunca ninguém riu da que consigo arrasta». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

sábado, 22 de abril de 2017

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «Aquele monte é a Ambição de subir de que fala António Vieira. Atrás, pela riba acima, numa escalada vertiginosa, aparece uma maré cheia de cabeças»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta III
«(…) Isto ainda não é tudo. Há tragédias misteriosas, mortes ignoradas, casos frustes, que, se forem-se desvendar, aterrorizariam um comissário de polícia. A mulher é o crime. É mentirosa, é cínica. Mente por vaidade, crucifica por prazer. São os seus encantos, a carne palpitante, os cabelos, os beijos, os gozos que amolecem a energia, a espinha, a cabeça, o orgulho e o dinheiro. É aquela chaga original, a vergonhosa ferida sempre aberta que sangra e que cheira mal... (d’Annunzio).
Há homens orgulhosos que pedem de joelhos perdão às mulheres. Mulheres orgulhosas que sofrem em silêncio as pancadas dos maridos, dos irmãos, dos amantes. E como o amor tudo transfigura, das rameiras faz santas, dos feios faz belos e arma em fortes os fracos; livra-te pois do Amor para que não sejas desgraçado. Lembra-te sempre de que ele é a pior e a mais enganosa das realidades, a mais disfarçada das ciladas.
Ai de ti se nele acreditares! Quem ama morre, quem ama avilta-se tão baixo que a própria lama tem ainda que descer muito para lá chegar.

Carta IV
Há uma tela de Rochegrosse intitulada Agoisse humaine. É um quadro que representa a vida. No primeiro plano muitas criaturas erguem o braço para chegar mais alto. Homens de casaca tão correctos como se fossem para um baile. Há mulheres decotadas vestidas em rigor. Homens condecorados e homens banais, velhos e moços, misturam-se e empurram-se, disputando-se numa agonia pavorosa, num combate sem nome.
Aquele monte é a Ambição de subir de que fala António Vieira. Atrás, pela riba acima, numa escalada vertiginosa, aparece uma maré cheia de cabeças ululantes, estranguladas pela ambição, correndo, empurrando-se, pisando os que ficam, agarrando-se de pés e mãos, como se após viessem também correndo numa perseguição fantástica, as ondas de um novo dilúvio.
Todos daquela multidão ávida querem ser os primeiros. O lugar é disputado a soco, a murro, a dente. O caminho que na vida leva ao triunfo é uma cena medonha que mais parece a fuga de uma derrota. Todas aquelas cabeças têm o ricto de um Tântalo supremo. São gastas, cansadas, lívidas. Os rostos são pálidos, suados, cor de terra, um não sei quê de loucura e de pesadelo; os olhos brilhantes, emoldurados no bistre das insónias e dos tormentos, as mãos crispadas, rapaces, em foice, os vultos rembrandtescos. São ferozes e são cruéis.
A tela é violenta e verdadeira. A vida é aquilo, assim enérgica, sinistra, brutal. Não há trégua, não há descanso. Cada um vigia sempre o seu vizinho, espreita se ele cai, e tripudia, espreita se ele sobe, e inveja-o. Há um homem de peitilho engomado e cabelo colado sobre as frontes que, sentado, morto, segura na mão inerte e suicida a coronha de um revólver.
Um grande homem brutal, de camisola, pulou, destruiu o último tapume, frágil afinal como uma convenção, e continua avançando sempre. Toda aquela populaça, todas aquelas criaturas cuidam só em subir. A certa altura a Morte fixa-se com suas pupilas de aço, hipnotizantes, e elas caem, rolam, afundam-se lá em baixo, onde as espera uma cova aberta, algumas sem terem chegado, outras que pararam finalmente, levando nos olhos um pavor incerto, qualquer coisa de espantoso e indescritível que faz parar o sangue nas artérias.
Para cada um que tomba avançam mil. Trava-se um combate em que o mais cruel, o mais forte, o mais canalha, é que triunfa. Nada de piedade nem de compaixão. Se não esmagares serás esmagado. Não há tempo de olhar, nem de pensar sequer. Avançar seja como for, custe o que custar». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

domingo, 26 de março de 2017

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «No Amor, como na Vida, de quem é o triunfo? Dos fortes, dos que mentem, dos que batem, dos que falseiam»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta III
«(…) É o Desejo que irmana a concubina da mulher honesta, o pobre do rico, o bom do mau. Acaso a alcova de uma honesta não tem visto bastantes prostituições? Há rameiras que são mais sóbrias e mais recatadas ao entregar-se do que a mais honesta das mulheres. Cada criatura tem latente em si uma Sodoma. Todos nós somos iguais. Filhos da Luxúria, escravos do Gozo, servos do Interesse. Iguais no nascimento e iguais na morte. Um fidalgo nasceu tão desastradamente como um moço de restaurant. Ninguém diferenciará na morte um cardeal do seu criado, um cabeleireiro de um palhaço, uma florista de uma arquiduquesa. Não somos acaso todos irmãos, ó meu irmão canalha? Da mulher do salão à mulher do esgoto há uma só diferença: a cama. A da primeira terá uma coroa bordada no travesseiro. A da segunda será a cama de uma hospedaria onde todos passaram, dormiram, que de todos foi usada. A primeira terá meias da Escócia, mitenes de Suède, perfumes de Circássia. A segunda nem às vezes terá meias, terá as mãos calejadas e grosseiras e cheirará a arrotos e suores. O amor da primeira é uma coisa leve como um Watteau, delicado como uma porcelana cara, magnífico como uma renda antiga. O amor da segunda é uma mancha, brutal como um soco ou um borrão. Não é verdade que uma rameira se entrega a um ladrão e uma açafata a um príncipe? Mas há marquesas que prostituem os cocheiros, condessas que levam murros do criado, servilhetas que são as baronesas dos barões. Pensa bem. Não há crime nenhum que não tenha saído de um ventre de mulher, nem que uma cova não contenha. Uma mulher? Mas o que é uma mulher? A mulher é o gozo. Tira-lhe a formosura e o que te fica? Nada.
Mulheres honradas? Nem a tua mãe! (?) Tu sabes quantos adultérios praticou a tua mãe para com teu pai! Nenhum. O que nunca, nunca tu me poderás dizer é quantos ela pensaria em praticar. Para seres feliz no Amor precisas de ser como na Vida: egoísta, seco e mau. Se não fores infame serás imbecil. Se fores romântico, sonhador e amoroso, elas inventarão para crucificar a tua paixão mil laços traiçoeiros, mil enganos, mil atrocidades. Se estimares a tua mulher serás atraiçoado por ela, como se estimares a tua mãe ela te difamará. Sê orgulhoso? Uma mulher? Há tantas mulheres por esse mundo! Um amor? Tantos amores virão substituir este. As mulheres ou se castigam ou se desprezam. E se desprezares a tua amante, ela inventará carícias mil para te apaixonar, te agradar, te satisfazer. A sua boca ardente carregada de beijos como uma árvore carregadinha de flor, tatuará no teu corpo uma legenda extraordinária de dedicações e de carícias. Sê pois canalha com as mulheres (??), que elas gostam dos infinitamente canalhas. Eis o dilema: beijava os pés à minha mulher e ela atraiçoava-me, bato-lhe e ela adora-me.
No Amor, como na Vida, de quem é o triunfo? Dos fortes, dos que mentem, dos que batem, dos que falseiam. Se queres ser feliz sê, como eu, brutal na posse, canibal na ambição, sem uma aresta de apego a uma alma, pisando sempre, avançando sempre, crânio de sílex na energia, coração de sílex nas dedicações e nas torpezas. O Amor faz tantos crimes como a guerra. Foi por amor que a minha vizinha fronteira despedaçou do quarto andar o corpo na calçada. Que este homem se deitou nos rails à passagem do comboio. Que aquela costureira tomou fósforos e está no hospital. Que estoutra se meteu a freira. Que esta afivelou à rival uma máscara de vitríolo que o tempo não apagará. Foi por amor que este homem roubou a casa onde estava empregado e se matou quando lhe bateu à porta a polícia; que este outro, que tu não conheces, vem ter comigo pedindo-me dinheiro para mandar um ramo à sua actriz, que o despreza, oferecendo-se-me em troca para matar um homem se preciso for; que este mancebo que passava todos os dias na minha rua, pensativo e tristonho, apareceu um belo dia enforcado no seu quarto; que aquele delirou de amor e acabou morto de frio numa rua. Que este homem se arruinou ao jogo para dar à amante; que este matou e foi degredado; que este roubou, entisicou, está na cadeia ou no hospital». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

sábado, 25 de março de 2017

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «O Desejo é o Waterloo de homens e mulheres. A mulher que nunca se entregou cisma em entregar-se. A que se entregou cisma em entregar-se novamente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta III
«(…) A mulher leva ao degredo, ao crime, à morte, à desonra. Há homens que se matam por elas, que se arruínam, que enlouquecem. Dalila atraiçoou Sansão, Margarida perdeu o velho Fausto. Foi ela que inventou o ciúme para nos roer, os braços para nos prender, o dinheiro para se vender. Escuta! Se queres ser amado por tua mulher dá-lhe com um chicote. As mulheres precisam de ser espancadas para amarem alguém. Há nisto um fundo de verdade. A pancada é sempre mais sincera do que o beijo. Mas para que amar? Para que bater? Todo o amor acabará na morte. O amor é dos romances. Lá é que viveram Romeu e Julieta, o apaixonado Rafael, Paulo e Virgínia. Trasladar o romance para a vida é uma loucura inconcebível. Enquanto o pobre don Quixote quebrava lanças e corria mundo pela sua Dulcinéia, esta aquecia a cama todas as noites a algum cavaleiro menos andante e mais positivo. Uma mulher ama por egoísmo, e só gostará de enquanto tu fores para ela o máximo ponto onde ela pode pousar os olhos.
Se acaso a minha amante, essa criatura que tem para cada minha pancada uma carícia, encontrasse outro que fosse maior do que eu na sua retina psicológica, eu seria preterido sem dó nem piedade. Todas as mulheres são sensuais e perversas. Toda a mulher se esquece. Se tu desses a vida por uma mulher ela segredaria às amigas que tu nunca passaste de um tolo que morreu por ela. E o teu nome andaria em triunfo nos seus lábios, como o couro cabeludo de um inimigo na mão de um pele vermelha. Dias depois tu serias esquecido e já outros braços teriam imprimido no seu corpo o vergão dos abraços. Quer ela fosse actriz ou freira, ladra ou imperatriz. Uma mulher é capaz de tudo. Não esqueças nunca. Algumas vezes, o grande manto do heroísmo não serve senão para esconder uma meia dúzia de amantes, conforme d’ Annunzio.
A mulher é um misto confuso, um amálgama singular de lama e de desejos, de sujidades e incensos, polvilhado de ouro. O que és tu em amor? Um Falstaff pandilha. Tua mulher o que é? Uma honrada Messalina. Antes de tu a conheceres e a arrendares de corpo e alma, tinha ela olhado aquele militar que além passa presumido; este estudantinho loiro; aquele caixeirola imberbe; os dentes brancos deste, a cabeleira daquele, os pardessus e as botas daqueloutro. A sua alma fora uma hospedaria. Todos lhe convinham. Foste tu afinal o que ficaste. Nunca pensaste em que tua mulher cismasse em quem seria que a desflora… se não fosses tu? Quem seria? Que abraços o outro lhe não daria? Com que beijos loucos ele contaria as rugas do seu corpo? Todas as casadas ou são Terezas Raquim ou se chamam Bovarys. Todas elas traem o marido com o seu Rodolfo e o seu Leon como na Bovary, de Flaubert. Estes ainda por seu turno as atraiçoam e são atraiçoados. Pergunta a tua mulher se alguma vez que ela precisou de recorrer ao amante não teve, ainda como na Bovary, somente um riso ou uma recusa como resposta?
O Desejo é o Waterloo de homens e mulheres. A mulher que nunca se entregou cisma em entregar-se. A que se entregou cisma em entregar-se novamente. Toda a carne tem cegueiras de desejos a que ninguém pode resistir. É o Desejo que fustiga com suas unhas deliciosas a alma dos eremitas e faz pela calada dos claustros mortos, na paz silenciosa das celas sonolentas, ciliciarem-se mutuamente com seus corpos em brasa as irmãs da caridade. O Desejo é tudo. Irmão do Ouro tem com ele a sua genealogia do crime. O que quero eu da minha amante? O seu corpo nervoso que se estorce e se agita ante os meus braços e onde há tempestades de delírios, catadupas de beijos, explosões de luxúrias com arrancos de crucificada. Se ele, esse corpo que eu adoro e beijo, apodrecesse de repente, florisse todo numa chaga aberta eu desprezá-la-ia. E seria para como o corpo dessas cortesãs da plebe, noivas de toda a gente, que todos possuíram ou podem possuir e no qual eu teria asco de tocar. Assim como na vida não há senão interesses, no amor não há senão desejos». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «Isto é impossível. Onde encontraste tu uma mulher que amasse alguém? Inútil. Procurarias em vão…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta III
«(…) Lembras-te de quando eu te dizia que a Vida era má, tu responderes que ainda havia o Amor? Convicto ainda sonhavas a vida grande, auroreal, sadia, junto de uma mulher que fosse o corpo do teu corpo, a alma da tua alma e para quem tu fosses sempre o insaciável dos seus encantos, das suas frases, dos seus beijos. A cada desilusão que te desse a vida tu te refugiarias nesse, turris eburnea tão alta e forte que poderia olhar as estrelas frente a frente, e que nem a morte ousaria derrubar. Ela, a Eleita, te daria então um encanto novo para cada desengano, para cada desânimo te daria coragem na Bíblia nervosa e quente dos seus braços, no anseio louco e perfumado do seu corpo. Seria a Santa do teu altar, a luz que iluminaria a tua vida inteira. Tu contar-lhe-ias os teus cansaços e ela te daria o seu colo para descansares. E tu serias bom, altivo e amante. Serias forte para a defender, criança para adorares. Terias a cada frase dos seus lábios o coração em festa. Os teus beijos seriam abençoados, e ela, a Santa, seria bendita entre as mulheres. Quando tu tivesses sede ela te diria abrindo as veias: bebe . Quando tu tivesses fome ela uniria à tua a sua boca e te alimentaria com o seu hálito caricioso e quente. Viveria só para ti sem egoísmos nem vaidades. E os seus filhos seriam belos como mulheres e fortes como Deuses.
Isto é impossível. Onde encontraste tu uma mulher que amasse alguém? Inútil. Procurarias em vão. Uma mulher é um objecto que se usa e se põe de parte ao fim de uma hora, de um dia, de uma semana, de uma quinzena, de um ano quando muito. A fidelidade aborrece. Mas há acaso alguma mulher fiel? Em que pensam elas? No interesse. Todas se vendem. Umas compram-se por amor, como outras se compram por dinheiro. Varia muito o preço por que uma mulher se entrega: uma moeda de prata ou um colar de pérolas, uma nota de banco ou um adereço, uma ceia, um reino, um capricho, um cigarro. Eu já tenho comprado mulheres por um cigarro. E o que é o amor? Uma triaga deliciosa, não é verdade? A mais podre das ilusões.
A mulher é sempre uma criatura vaidosa e interesseira, balofa e irritante, como os homens são e serão sempre cínicos, canalhas e traidores. É a maior das egoístas do género humano. Seus lábios são uma ânfora maldita que tem no fundo a mentira. Eles derramam o crime, a covardia, a perfídia. Seus ventres são sementeiras de dores, como diz Eugénio Castro. Mas porque gosto eu tanto delas? Toda a vida me acorrentaram à cadeia de beijos dos seus braços. Assassinaram-me a energia. Tornaram-me à força de desgostos e de irritações, eu que era uma criatura de pequeninas carícias, de mil afectos pequeninos, de pequenas coisas amorosas, embotado e seco como as plantas que morrem à míngua de água. Amei rude e loucamente, com fé, com ardor. Fui desamado sempre, escarnecido, pisado.
Quando eu amava, rouco de dizer o meu amor, não encontrava um único coração que se me abrisse. E então, conheci más todas as mulheres. Mas como hão de elas amar-me se eu lhes não posso dar ouro? Que tenho eu para lhes dar? O coração? E para que serve o coração? Acaso isso já serviu a alguém? Não encontrei nunca uma mulher que não roçasse a espinha pela minha bolsa, como os gatos quando ronronam aos pés do dono. E todo aquele meu passado amor, toda essa afeição foi como um charuto caro que alguém esqueceu aceso. Hoje não amo nem creio, como Schopenhauer. Não é porém despeito tudo isto. Eu continuo a cair nos braços das minhas amantes, mas julgando-as o pior possível. Quem ama morre. Chi no stima vien stimato, diz o provérbio italiano. Por isso despreza os homens como desprezas as mulheres. Ai se acreditas! A mentira no amor é tudo. Quanta mentira não há num beijo? Quanto veneno? Quanta traição? Um beijo envenena sempre. Alguns há que envenenam a vida inteira». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «Cada homem dissimula em si um trágico carnaval. Murger disse algures que a Vida era uma máscara de forçados. E se pudesses fazer cair a máscara que cada um afivela recuarias de terror»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta II
«(…) A Vida é feita de lodo e os homens do pó do crime. Tudo é lama e toda a lama é igual. A que salpica uma toilette de seda e a que traça constelações nos trapos das mendigas. As almas são de lama, as rosas são de lama, os lírios são de lama, como as estrelas, como as hóstias, como os mortos, como os vivos. Há a lama vestida de pérolas e a vestida de escrófulas, a lama toucada de sedas e cetins e a vestida de crostas e farrapos. Mas é tudo a mesma impureza, tudo a mesma podridão. Tão impuras são as vestes de Messalina como a escova de dentes de Gautier, as ligas de Agripina como a cama de Rigolbeche, e tudo isto como o manto da Imaculada Conceição. A diferença que vai daquele bandalho, que passa de chapéu alto, àquele malandro, que pisca os olhos e pede esmola, não é nenhuma. Pura convenção. Se tu fosses buscar uma rameira de hospital e a toucasses de sedas ela arranjaria coorte. Viriam a seus pés os famintos, as rascoas, os interesseiros, os honrados, os banqueiros, o mundo todo. Que me importa que a imagem desta libra seja a de uma rainha ou a de uma prostituta se com ela eu posso compra-las ambas? Tudo é dor. A dor é igual. Senti-la maior ou menor é diferença dos nervos que a sentem, como a grandeza dos que a vêem. A dor é egoísta como o mundo. A dor da mãe que perdeu o filho é egoísta. São os lamentos pela felicidade que perdeu. Como a da águia a quem roubaram os ovos, como a do avaro a quem roubaram um dobrão, como a da Virgem a quem roubaram Jesus. Tu já leste Os Homens do Mar, de Vítor Hugo? Recordas-te da pieuvre? A dor é a pieuvre. Enlaça os corpos, as almas, suga-as, bebe-as em vida. A alguns deixa apenas o esqueleto.
A águia que rói os fígados a Prometeu não é outra senão a Dor. Bendita seja a Dor que tiraniza e leva ao crime. Tudo é mentira, tudo ilusão. Quem sabe lá quanta podridão levedou para dar uma rosa, para abrir um malmequer, e para florir uma chaga? Que as chagas o que são senão rubras e esquisitas flores? Abre um crânio e vê se distingues a alma de Dante da alma de Caim, a de Inocêncio III da do galego da esquina. Quem distinguirá lá em baixo no ventre da terra a carne de Impéria da carne de Chénier, a ossada de Gilbert da ossada de Ravachol? O rosto que ri não é o mesmo que chora? A boca que canta e ri não é a mesma que ameaça e insulta, que suspira, que geme e que reza? Os olhos que vêem Deus e o Diabo? As almas não servem a ambos, atraiçoando ambos? Vê quanto pus encerra esta palavra: Amor! Tu crês no Amor? Na Amizade? No teu semelhante? É preferível ver um cano de esgoto em toda a sua porcaria a uma alma em toda a sua intimidade. Há almas cuja treva é maior que a noite, consciências cuja lama é maior que a de todos os pântanos da terra.
Cada homem dissimula em si um trágico carnaval. Murger disse algures que a Vida era uma máscara de forçados. E se pudesses fazer cair a máscara que cada um afivela recuarias de terror. À face da terra o homem não tem feito senão mal. Foi ele quem inventou os tronos e os altares, que fez a Verdade e a Mentira. Que inventou o canalha que governa e o que sofre a sua até morrer, que inventou a guilhotina e a glória, o deboche e o dinheiro. Sobre cada ventre pesa uma maldição, sobre cada berço pesa uma agonia. Há mães que à hora da morte amaldiçoam a sua obra. Benditos os que amaldiçoam. O ventre das mães é o embrião do crime. Barregãs que o desejo ensandeceu deviam ser rompidas pelo ventre como o Senhor prometeu às emprenhadas dos povos pecadores. Que maldito seja o ventre de todas as mães. Filhos fecundados em plena bebedeira, que bateis nas mães, que cuspis em Deus, que quebrais os santos e rasgais as páginas balofas dos missais, vede se na morte não sois iguais aos justos, se todos não são iguais na morte. Benditos sejam os matricidas, benditos sejam os homicidas, os perversos, os malditos. Bendito seja Orestes que violou a mãe, Amon que desflorou a irmã, Myrra que teve incesto com o pai. Benditas sejam as mães que matam os filhos, o irmão que mata o irmão, o canalha que mata o canalha.
Benditos os que matam porque eles semeiam a felicidade. Há caveiras que riem bêbadas de riso, outras que cerram os dentes de uma grande raiva. Nunca reparaste? Enchi-te de desolação e abandono. Que eu exagero? Mas isto ainda é pouco. A torpeza da vida não caberia em mil volumes como este. Que eu exagero?! Que eu exagero?! Patife, tu bem sabes que eu digo a verdade. Já viste quanto cómico há na vida trágica e quanto trágico há na vida cómica? Há risos que são mais tristes que a tocha de um gato pingado, lágrimas que por mais que se queira fazem sempre soltar gargalhadas. As lágrimas choradas e que a terra tem bebido há 6.000 anos que o mundo é mundo davam um novo dilúvio capaz de afogar o mundo todo. A luz do sol tem visto mais podridões que o mármore de uma casa de autópsias. O que é a vida? Não sei. Eu tenho visto nela muita torpeza e muita lama. Sê mau, ouves? Sê mau. Tens que ser mau que a terra vive do mal. Às vezes sinto-me fatigado de só o ter sido mediocremente. Ah, eu nunca poderei vir a ser um Nero! E Nero que incendiou Roma não é bem maior do que São Francisco de Assis? Incendiar uma cidade é bom, mas incendiar o mundo? Incendiar o mundo, ó gentes? Que grande obra para um caricaturista! A lama a não querer morrer, a fugir do braseiro...» In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «É o panteão ignorado dessa carne infame que o homem chicoteou com beijos. E não sei, como de cada um, assim amassado em lágrimas, não floriu uma chaga…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta II
«(…) E o gozo, o gozo brutal, o gozo Deus, fere-me a retina, fricciona-me a epiderme, abraça-me, deslumbra-me e puxa-me para si com seus pulsos de aço como uma amante no cio. O vício tem recantos como uma cidade à noite. A quantos já teria pertencido aquilo? Quem seriam? Tateio. A carne, esta coisa brutal cheia de veias, de nervos, tendões, glândulas e ossos, cheia de instintos e misérias; a carne que sua e cheira mal; que se desforma, se infecta, se ulcera, se cobre de gelhas, de pústulas, verrugas e pêlos (d’ Annunzio), é mole, viscosa, flácida. Parece moída. Quantos a terão beijado? Quantos a terão acariciado? Quantos lhe terão batido, quantos? O pobre corpo nu corre a roda toda como um copo numa adega, amarrota-se, enlameia-se. Toca-me a vez: os mesmos abraços que dei à minha noiva, os mesmos beijos que dei à minha mãe dou-os agora a esta. Isto é lógico. Vender o corpo é melhor do que vender a alma, mas vender a alma e o corpo como seria bom! Mulheres honradas? Ah, tu crês em mulheres honradas e homens bons? És parvo. Todo o homem atraiçoa e toda a mulher falseia. Todos mentem. Mentira é o céu, o inferno é mentira. É mentira Deus, é mentira o Bem, o Amor e a humanidade. Em que acredito eu? No crime e no dinheiro. O crime é Deus, o dinheiro é Deus, e de ambos o dinheiro é maior. É por dinheiro que se compram almas, por dinheiro é que as mulheres se vendem. Quantas almas não conterá um saco de dobrões, quantas? A quantos corpos não poderia ele despir? Por dinheiro tudo se compra. As bençãos das santas e o crânio dos heróis, a camisa de dormir da tua noiva e o rosário do teu confessor. Ciganas, saltimbancos e mendigos, fidalgos e aguardente, trapeiros e sacerdotes, coveiros e apóstolos, santos e famintos, sultanas e cadelas, bobos e cortesãs, escravos e libertos, tudo isto é da sua coorte. O próprio Deus, o próprio céu rende-se, quando se lhe mostra um punhado de ouro. E como o dinheiro ri! Tu nunca ouviste o dinheiro rir? Despeja um saco de ouro e ouvirás uma gargalhada. O som do ouro que se choca é o seu riso, e esse riso a quantos não despedaça a alma?!
Quero que mates o teu irmão, que dispas a tua irmã na praça pública, que esbofeteies a tua mãe. Chego-me a ti e digo-te: ouro, terás muito ouro, um grande deboche de ouro se o fizeres. E tu não resistirás, eu sei-o. Uma prostituta não é ninguém. aquela que se dá aos marujos e aos ladrões, à noite, nos recantos, levando-lhes a sua carne para que se saciem, vale tanto como a que se dá ao ministro, e a que é cortesã do papa. A vida das primeiras é mais suada. Como elas devem odiar as mães. Pobres mulheres? É uma vida como qualquer outra. A da esfregadeira, a da mulher a dias, a da amortalhadeira não pesa mais, não custa mais? Aquilo rende, aquilo ainda dá muito dinheiro. Porque não trabalham? É boa! Então quem me havia de aturar a mim, a ti, a todo o mundo, a todos os canalhas? Quem, não me dirás? Tua irmã? Tua mãe? O crime é um negócio, a Vida uma escravatura. A alma é escrava do crime, a carne é escrava do gozo. Morrem? Que temos nós com isso? Todos nós temos que morrer. Quem se lembra de uma prostituta que morre? Os corpos perdem-se na terra e no esquecimento como as blasfémias se perdem no ar. A Vida é uma grande cama onde existe sempre a plena orgia da carne. Lá passam as noites uma rameira abraçada a um poeta, um bêbado no peito de uma marquesa que empobreceu. É o panteão ignorado dessa carne infame que o homem chicoteou com beijos. E não sei, como de cada um, assim amassado em lágrimas, não floriu uma chaga, tanta peçonha e amargura eles continham. É a sarjeta onde se escoa a lama da Vida, para onde a terra baba a nata da podridão». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

quarta-feira, 9 de março de 2016

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «Quanto império, quanta vontade não é precisa para no meio de uma carícia não cuspirem à cara de um canalha. Filhinho, filhinho..., e aquele pedaço de belo lixo rebusca frases»

Cortesia de wikipedia e jdact

Um jornalista levado dos diabos
«Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar».

Carta I
«(…) A geração é de covardes e cada ano que passa está mais corrupto o mundo. Ah, não ter eu muito que dar a este pequeno miserável que me bate agora à porta, para que ele me chame o mais vil que o sol cobre, o mais canalha de todos, o mais indigno, o mais bandido! Ele não se engana. Lá tem o seu raciocínio que não falha nunca. Dei-lhe tudo o que tinha e todavia vai a resmungar baixinho que um dia, um dia que virá cedo, me virá bater à porta com uma coronha e me há de fuzilar a mim, o maior dos patifes que o socorri. Vai-se embora a pensar que se fosse rico, havia de azorragar toda essa ralé que pede esmola e toda aquela que dá tudo o que tem. E cisma em ser um dia o maior dos Neros que o mundo tem visto; em ter um chicote com que possa de uma só vez azorragar a Terra, ele, cujo corpo deveria ser balançado no candeeiro ali defronte. De trinta mendigos a quem dei esmola hão de nascer noventa patifes para me apedrejar. Abençoada esmola! Mas explica-se. É que a minha esmola, esmola humana, fecunda lá dentro todo o meu cinismo e toda a minha canalhice. Deste-me esmola? Muito bem, odeio-te. Odeio-te porque não posso também dar esmola e porque me curvei a ti. Toda a vida tu me fizeste bem, socorreste-me, agasalhaste-me. Um dia eu mau como sou estou por cima. Então eu havia de perder a ocasião de me vingar de tudo o que tu me fizeste? Chegou o meu dia. Agora, meu velho, eu sou maior, ouves? Eu dobrei-me e tu socorreste-me, mas eu dobrei-me. Eu era um faminto e tu sentaste-me à tua mesa, mas eu dobrei-me. Tive fome tu encheste-me, tive frio tu agasalhaste-me. Irritante Tu, sempre Tu. E eu não podia vingar-me, mas agora chegou a minha vez. Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé. Logo no primeiro dia em que não temam desconjuntar a bota quando o fizerem, percebes? Escutaste? Vem, se te sentes com forças. Demais és pobre. Então para ti a vida é tudo isto e tudo o mais que tu tiveres coragem de inventar. O pobre será odioso até ao seu parente mais chegado, que não merece carinhos quem não tem para caldo, ouves? Tu virás e triunfarás. Tu serás mau e cínico e traidor. A Vida? Seria loucura, na verdade, conservarmos alguns sentimentos compassivos quando vivemos em semelhantes cavernas. A Vida é uma canalhice, uma farsa, uma luta brutal, como diz Tourgueneff.

Carta II
Foi em Dostoiewsky que eu encontrei um dia esta frase: no fundo de cada um dos nossos contemporâneos residem latentes os instintos de um carrasco! Não tens tu encontrado, ó caricato, nas tuas horas de angústia, somente semblantes frios, corações empedernidos e ouvidos cerrados? Quantas vezes perguntaste onde estavam a Bondade humana, a Justiça humana? Quem te respondeu? Inútil pergunta. Ninguém. Deus? Onde estava Deus? Deus não é deste mundo! E cada dia que passa me convenço mais que nele só canalhas existem. Quem sou eu? Um canalha. Quem és tu? Um canalha. Todos nós disfarçamos os piores instintos. Inútil mascarada, se todos nos conhecemos bem. Tenho ouvido mais juras sem fé do que de minutos tem um século. Tenho visto mais traições, mais egoísmos e mais crimes que de mortos tem a eternidade ou de beijos tem levado o corpo de uma prostituta que envelheceu no ofício. Filhas do homem, mães do homem, foi para ele que todas essas mulheres se prostituíram; que elas dançam cancans infames e sofrem abandalhamentos sem nome. O seu corpo, onde todos bolsam o seu quinhão de infâmia, é como os mármores divinos dos museus, toda a gente lá vai pousar o olhar. Tem alguma coisa de uma sentina ou de um confessionário. Elas é que sabem por quanto se compra um riso. Quanto império, quanta vontade não é precisa para no meio de uma carícia não cuspirem à cara de um canalha. Filhinho, filhinho..., e aquele pedaço de belo lixo rebusca frases, prepara gozos requentados, pedidos sem cerimónia como se eu lhes arremessasse à cara uma baforada de fumo de cigarro ou lhes salpicasse o rosto com o meu hálito cheio de lama. Elas ali são minhas, muito minhas. Paguei-as à hora como a corrida dos cocheiros». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «Ou serás vencido ou vencedor. Se vencido esperam-te todas as humilhações, desde o desprezo até a compaixão. Se vencedor todos os triunfos, desde o respeito ao Capitólio. Luta sempre calado, fino, sabido»

Cortesia de wikipedia e jdact

Um jornalista levado dos diabos
«Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar».

Carta I
«(…) Meu amigo:
Escrevo-te de longe, de muito longe, perdido nos confins deste meu bairro onde só muito fraco chega o rumor da grande cidade. De que hei de falar? Da Vida? Pois seja. Tu vens para ela, para o imenso brouhaha. A vida é a escola do cinismo. Trazes coração? Esmaga-o ao entrar como uma coisa que nos compromete, que nos avilta. Se acaso és bom tolice não venhas. Aqui para triunfar, é preciso ser mau, muito mau. Sê mau, cínico, hipócrita, e persistente que vencerás. Serás aclamado, respeitado e invejado. Ri do Bem e da Virtude, da Alma e do Sentir. Ri de tudo, que é preciso que rias. Abafa um protesto com um sorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor com uma praga. Sê polido, meu amigo. Encobre a raiva sob o riso, e o riso sob o pesar. Sê mau, sobretudo. Se a alma compromete estrangula-a, se o riso desmascara sufoca-o, se o choro atraiçoa esfibrina-o às gargalhadas. Não ames nem creias. Todo o homem que ama é homem perdido, e todo aquele que crê nunca será ninguém. Odeia sempre. Odeia os que sobem e os que pretendem subir, odeia os que subiram e os que um dia subirão. Odeia todos e desconfia. Lembra-te que o Ódio dá mais prazeres que o Amor. A satisfação de ver agonizar um canalha, quer ele seja um mártir, quer ele seja um ladrão, é maior que a de sentir os braços opulentos de uma mulher que se entrega. É menos um. Sê pois, forte como o diamante e como o Ódio. No Amor gentil comédia sê pródigo, e sobretudo nunca ames uma só mulher. Se és bom serás ridículo, se és mau serás temido. Sê mau sempre. Este farrapo a que se chama Vida foi, é e há de ser sempre assim. Tudo é egoísmo. Se és bom morrerás como Judas, se és mau meu amigo serás lembrado como Satã. Vem, mas vem cínico. Triunfarás, terás ouro, amantes, mulheres, o diabo. Acredita que metade da humanidade nasceu para se rojar pela lama, para que tu, eu, todos os maus, todos os cínicos, a esmagássemos e lhe cingíssemos fraternalmente as carnes com um chicote. Depois da morte há o Nada. Portanto, meu caro, aqueles que o sabem, o que pensam é em sugar a vida com um furor de agiotas sem entranhas. Isto é como no mar; já Shakespeare dizia que o mugem vive para ser tragado pelo lúcio.
Ou serás vencido ou vencedor. Se vencido esperam-te todas as humilhações, desde o desprezo até a compaixão. Se vencedor todos os triunfos, desde o respeito ao Capitólio. Luta sempre calado, fino, sabido, que se não tens jeito para isto serás um eunuco eterno, castrado para a Vida, para o Amor e para o sonho. A raiva também tem o seu gozo, o Ódio também tem o seu amor. E o amor do Ódio é maior porque é mais forte. Não poderás gozar e serás mais desprezado do que uma serapilheira que o uso condenou. A carne é matéria como a rocha, a rocha é matéria como a flor. Da mulher honesta à prostituta não há diferença, a distância de uma à outra é nula. Não beijam ambas? Uma por prazer, outra por precisão. Pois, meu caro, eu prefiro a prostituta sempre. Acredita que todos se vendem, homens e mulheres, palhaços e imperadores, cristos e mendigos: a questão é de preço e o preço sufoca todas as consciências, todas as revoltas. Acredita que falta quem compre toda a gente que se quer vender. A mulher mais honesta capitula, e aquilo a que tu chamas acaso, chamo eu persistência, e a persistência gasta a vida como a água gasta a rocha. Tu és filho de uma prostituta pois que tua mãe só foi de teu pai e teu pai foi o primeiro a quem ela se entregou, que depois o egoísmo do seu amor fez conservar junto de si... O seu corpo tinha gozos inusitados que ele demandou primeiro. E se teu pai não fosse dela, seria o primeiro que lhe agradasse, o primeiro que a sua carne lhe impusesse, o primeiro que passasse à sua rua. Assim, tu és filho de um operário como o poderias ser de um assassino. Podia mais a sua carne do que ela, mas o seu egoísmo foi maior do que a sua carne. A vida é uma luta brutal . (Tourgueneff).
Tu crês em Deus? Crês sim, que bem o sei. Pois bem; vai dizer-lhe que eu o odeio com toda a força do meu ódio. Tu que te dás com ele, que crês nele, que és amigo dele, vai dizer-lhe que ele é mais vil do que as coisas vis. Vai dizer-lhe que eu o odeio, porque ele deixou morrer aquela criatura aqui do lado, cujos seis filhos abandonados me vieram comer o meu jantar. Vai dizer-lhe o ódio que lhe tenho por ele deixar morrer aquele justo, que por ser bom teve de se matar; diz-lhe finalmente que nada disto se deve fazer quando se é Deus. Que me odeie agora também porque eu dei o jantar aos pequenos que não o tinham; que me odeie porque a última camisa a dei a um pobre que quase ma roubou; que me odeie porque eu o castigo como no outro dia castiguei um velho que maltratava um cão. Anda, vai dizer-lhe que me odeie, que se avilte ainda mais se é capaz...» In Fred Teixeira, Extrema, 26 de Outubro de 2006.
In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «Ignora o passado, mesmo sabendo que o fazendo estará sempre condenado a repeti-lo. Não existe Amor (ou antes, Caridade) apenas uma instituição com esse nome, a qual usam para angariar fundos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Um jornalista levado dos diabos
Prefácio
«Encontrei o Palavras Cínicas num sebo de Bragança Paulista, ao preço irrisório de 50 centavos. Engracei-me com o título, mas jamais poderia esperar o que encontrei ao folhear aquele libreto de 96 páginas, já bastante esgarçado pelos anos: uma alma inteiramente compatível com a minha, totalmente frustrada com a Humanidade. Eu já havia lido alguns livros mórbidos, como As Flores do Mal, de Baudelaire, Crime e Castigo, de Dostoiewsky, Uma Estadia no Inferno, de Rimbaud, e ainda inúmeros contos de Poe, Óscar Wilde, Maupassant, Apollinaire e outros tantos, porém nada que chegasse àquele nível de crónico desencanto, àquele desespero existencial, àquela amargura em estar vivo. Pesquisando na Internet, posteriormente descobri que o autor o escrevera aos vinte anos! Como pôde chegar a semelhantes definições tão cedo? Sim, havia lido bastante, e nos livros que lera percebera reflexos de sua própria consciência já prematuramente destroçada. E de que outra forma compreendemos nós as desilusões que nos acometem? Se não tivermos parâmetros externos, acabaremos achando que desgraças são eventos maravilhosos como querem que pensemos os interessados em nos desgraçar. Forjaz de Sampaio não é elegante com as palavras, apesar da sua evidente cultura. Chega a ser enfadonho com suas repetições. Mas não se pode negar a evidência das suas conclusões. A vida, apesar de todas as melhorias que sofreu nos últimos cem anos, não deixou de ser trabalhosa, negativa e cruelmente tediosa. Nervos á flor da pele, atentados, rebeliões, moléstias, penúria, calamidades, injustiças sociais e outras tantas misérias ainda dão o ar da graça, mesmo no início deste nosso terceiro milénio. Quando deixaremos de nos matar em nome da ganância? Quando reconheceremos a nossa igualdade, a nossa ínfima condição perante nós mesmos? O homem não aprende com os seus erros. Ignora o passado, mesmo sabendo que o fazendo estará sempre condenado a repeti-lo. Não existe Amor (ou antes, Caridade) apenas uma instituição com esse nome, a qual usam para angariar fundos cujo real fim é sempre um mistério. A Paz é algo negociado como carne, e carne é a moeda que usam para negociá-la. Os pobres são um incómodo que costumam varrer para debaixo do tapete às vezes literalmente. Todos estão interessados no seu próximo, mas em como ele poderá tornar-se lucrativo, quando não um mero estorvo. A ignorância é cultivada como um estado interessante para as massas afinal, um povo idiota é facilmente manipulado. Políticos corruptos garantem a solução dos problemas sociais durante o período eleitoral sumindo logo depois. Quando reaparecem, é porque estão envolvidos em desvios de verba, super-facturamentos, maracutaias e coisas do tipo. As igrejas hoje às centenas de milhares continuam prometendo o céu sem demonstrar como seria possível que um tal playground post mortem realmente possa existir. Não seria justo que criassem uma filial aqui na Terra, para que os fiéis fossem já se acostumando com o paraíso? Mas nada disso é feito. Talentos são ignorados o talento era apenas uma moeda de prata no tempo da dominação romana, não é mesmo? Nada de granjear subjectividades, tem algum dinheiro com você? Só o dinheiro é adorável por aqui! E assim todo o potencial de uma pessoa é reduzido ao que ela pode obter comprando. Tenho uma indagação que define muito bem esse estado de coisas: Se não posso viver como quero, como posso querer viver? Bem, é necessário que eu diga que não pretendo ser podre de rico, não tenho ambições mirabolantes. Refiro-me a um estilo de vida tranquilo, de acordo com uma relativa sobriedade é claro que ambiciono algum luxo, o mínimo dentro de minhas parcas pretensões mas, enfim, uma existência sem notícias desastrosas que não me digam respeito como o impacto da alta do petróleo no preço do pão, ou a crise do dólar e a sua nefasta influência na economia do país que infelizmente habito. Será que tudo é motivo para arrancarem o nosso couro? Será que algum dia o povo aprenderá a dizer CHEGA? Espero que ainda nessa minha encarnação. Mas voltando ao Forjaz Sampaio, pode-se dizer que ele nasceu à frente do seu tempo. Mas seria uma palhaçada, pois ninguém é capaz disso. Ele apenas não foi hipócrita, viveu o submundo lisboeta de uma forma intensa e não poupou a sociedade do seu tempo de sua crítica furiosa. É claro, li apenas o Palavras Cínicas, não tive em mãos nenhum outro material seu [eu tenho] ou a seu respeito (o que, com excepção de alguns textos biográficos pouco explanatórios em determinados sítios) mas, partindo dele, posso bem imaginar o resto. O seu estilo, aos vinte anos, lembra o de um poeta nosso, Álvares Azevedo, o malfadado garoto prodígio da Lira dos Vinte Anos. O seu spleen é superior ao de Baudelaire, o seu amargor ainda maior que o de Augusto Anjos. A sua prosa é tão corrosiva quanto a de Lautréamont. Um sujeito que, aos vinte anos de idade, diz: ser morto! Ser morto! e arremata: ventura estranha. deve estar no mínimo certo de seus sentimentos. Eis, portanto, o escritor-jornalista maldito, livre de belas roupagens, inteiramente nu, como apreciaria William Burroughs. Sem meias palavras. Sem meias verdades. Cínico, de um cinismo mais do que sincero um cinismo originalíssimo, um cinismo inquestionável. Como digerir este simples parágrafo? O que és tu? Um egoísta. Egoísta nos sentimentos e na torpeza, na fuga e na vaidade. Tudo tu fazes por egoísmo. Se tu tivesses tanta fome como tua mãe e só tivesse uma côdea a disputar, tu espancarias a pobre velha para lha roubares. Vamos ao caso que lha davas? Que preferias morrer de fome? Se o tinhas feito é porque isso te satisfazia, te enchia a vaidade de morreres por alguém tu que és o maior egoísta que o sol cobre. Como escapar a tal lógica? Senhoras e senhores, arregacem as mangas para não sujá-las». In Fred Teixeira, Extrema, 26 de Outubro de 2006.
In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT