Mostrar mensagens com a etiqueta A Poesia Revolucionária. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta A Poesia Revolucionária. Mostrar todas as mensagens

domingo, 7 de agosto de 2011

A Bela Poesia. Ary dos Santos: «No ritual do verão descobriremos o segredo dos deuses interditos e marcados na testa, exaltaremos estátuas de heróis castrados e malditos»


Cortesia de ascausasdajulia e poesiadasangria  

Caminharemos de Olhos Deslumbrados
Caminharemos de olhos deslumbrados
E braços estendidos
E nos lábios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

Onde estivermos, há-de estar o vento
Cortado de perfumes e gemidos.
Onde vivermos, há-de ser o templo
Dos nossos jovens dentes devorando
Os frutos proibidos.

No ritual do verão descobriremos
O segredo dos deuses interditos
E marcados na testa exaltaremos
Estátuas de heróis castrados e malditos.

Ó deus do sangue! deus de misericórdia!
Ó deus das virgens loucas
Dos amantes com cio,
Impõe-nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas,
Unge os nossos cabelos com o teu desvario!

Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,
Fustiga-nos os membros como um látego doido,
Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,
Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.

Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,
Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,
Atapeta de flores a estrada que seguimos
E carrega de aromas a brisa que nos toca.

Nus e ensanguentados dançaremos a glória
Dos nossos esponsais eternos com o estio
E coroados de apupos teremos a vitória
De nos rirmos do mundo num leito vazio.
Ary dos Santos, in «Liturgia do Sangue».

JDACT

domingo, 19 de junho de 2011

Páginas Desconhecidas: A Poesia revolucionária e A Morte de D. João. «Não há no mundo escolhidos nem réprobos, há homens. E a verdadeira e exclusiva missão do homem é compreender-se a si mesmo e ao mundo onde existe; porque é da compreensão das coisas que saiem as grandes linhas do «edifício ideal», nosso critério supremo e exclusivo»

Cortesia de wikipedia

«Corresponderá acaso à verdade social e moral o quadro de costumes, ou antes de vícios, de que a «Morte de D. João» nos desenrola o longo inventário? Não me parece; e já disse a razão, que reputo verdadeira, dessa inundação de coisas feias com que o poeta julgou que se desenha o retrato das classes ainda mais imorais e corrompidas da nossa sociedade. É uma questão de literatura:
  • O realismo faz-se assim.
Mas será somente isto? O pensamento, que foi ligando essa cadeia de fúnebres e asquerosos esboços, não vai além de um mero sistema de escola? Não o creio tão pouco.

Há infelizmente um modo de olhar as coisas da sociedade, que é o maior obstáculo à rápida conciliação dos interesses e das tradições. Ao encarar os enovelados rolos da sombra densa, por entre a qual entrevemos o agitar aparentemente confuso das ideias, das classes e das pessoas, o primeiro movimento espontâneo do espírito é abraçar-se a uma ideia, a uma classe, e quantos, mal de nós, a um nome, endeusá-lo, e fulminar tudo quanto de perto ou de longe, mais ou menos completamente, parece opor-se-lhe.

Cortesia de wikipedia

Esse antigo espírito de crítica subjectiva, fonte primordial de todas as intolerâncias, não está por nosso mal apagado, apesar de Kant, apesar de Hegel, apesar dos exemplos de todos os dias, de todas as coisas, que nos vão mostrando a razão necessária de tudo quanto existe, e a insensatez das nossas decisões, quando queremos condenar com elas uma linha só do que está escrito no livro dos destinos.
Não há no mundo escolhidos nem réprobos, há homens. E a verdadeira e exclusiva missão do homem é compreender-se a si mesmo e ao mundo onde existe; porque é da compreensão das coisas que saiem as grandes linhas do «edifício ideal», nosso critério supremo e exclusivo.
As leis do Universo são fatais e inacessíveis à liberdade; o ponto mais elevado da acção do homem é mover-se dentro da fatalidade, de acordo com ela, consciente de quem e como é, e como que obrigando-a assim a patentear as suas feições misteriosas.
A fatalidade universal tem para nós uma história que se divide em dois grandes ciclos:
  • O inconsciente e o consciente.
  • O primeiro caracteriza-se pela luta,
  • o segundo pela concórdia.
No primeiro, os homens, às cegas, encontram em tudo matéria para ardentes decisões, violentos combates, reptos insensatos do que julgam as ordens do seu espírito livre; no segundo, «riffletono con mente pura», como diz Vico, e percebem a necessidade das coisas, e o lugar adequado a cada uma delas, na série ininterrupta da História.

Cortesia de wikipedia

Definir esta necessidade como somente histórica, conceber a sua relação com o tempo, classificá-la cronologicamente, eis o que manda a verdadeira compreensão das leis da Natureza que são as do Espírito, e o mais fundo alicerce do «Ideal». Deixai aos que não podem ou não sabem amá-lo a adoração estúpida de uma fatalidade inconsciente, a concepção como necessidade lógica, e da Humanidade e da História como rolos de areia que o mar revolto lança, conforme o vento impele as ondas, à toa, para qualquer dos pontos do quadrante...
Não há no mundo escolhidos, nem réprobos, há homens; actores a quem a sorte distribuiu os diferentes papeis da tragédia. Que façam uns de tiranos, outros de vítimas, uns de demónios e outros de anjos, merecem acaso por isso pena ou prémio?
Eles são todos conforme os fizeram as coisas:
  • são meros produtos, não são causas.
Que o véu das misérias humanas nos chame a tristeza ao pensamento, nada mais natural para quem espere num futuro de maior juízo; mas que vamos nós lançar gritos e gestos na grande caldeira onde fervem os gestos e os gritos de todos os que nem sabem para que têm mãos ou boca!...
Para bem ver as coisas, é mister conservar-se fora delas:
  • para poder saber-se alguma coisa da sociedade, é mister viver no isolamento.
No dia em que puderem ver o seu semelhante com olhos de crítico, esquecendo-se de que são homens, nesse dia morreram todas as antigas dissenções, apagaram-se todos os velhos ódios». In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, A Poesia Revolucionária e a Morte de D. João, Seara Nova 1948, Lisboa.

Cortesia de Seara Nova/JDACT

terça-feira, 7 de junho de 2011

Páginas Desconhecidas: A Poesia revolucionária e A Morte de D. João. «O "humour", que dava além uma ideia poética, traduz aqui um pensamento filosófico; não é uma blasfémia, é uma rigorosa verdade. O Diabo e o padre Eterno são a tese e a antítese de uma proposição teológica resolvida pela filosofia, que é a do poema»

Cortesia de wikipedia

«Os bordéis, as pústulas, a miséria ascorosa e as bacanais impúdicas, são apenas figuras de retórica, chavões de escola, como o foram para os românticos os crimes a sério, o luar, a meia noite, o espectro, o plebeu nobilitado, a cortesã democrata, e a eterna e parvoíssima figura da meretriz santa, de Madalena.
Quanto a mim, a tecnologia baudelariana é o defeito artístico da «Morte de D. João». Azorragar os vícios, ou blasfemando ou rindo, é sempre bom; mas é necessário que se trate dos vícios, que se vejam os costumes, e não, em vez deles, uma sociedade convencional de meretrizes e de pais que põem as filhas em leilão à janela, convencional e retórica, porque afinal o nosso mundo, a nossa sociedade, não são assim.
Diz-nos o poeta que:

A arte é hoje uma infiel Ninon;
Magra, elegante, anémica, fransina,
Triste beleza delicada e fina,
Doidamente vestida à Benoiton.

Mas qual arte? Não é essa a da musa épica dos monumentais alexandrinos do prólogo. Não é; é a arte que vem de Paris em volumes da casa Levy, e que afinal, em Paris mesmo, é apenas a pimenta venenosa que aguça o paladar embotado de «D. João crevé» e das Impérias.

Cortesia de wikipedia

Será isto condenar o humorismo em nome da «moral em acção», a coisa mais imoral, por ser a mais imbecil que existe? Por forma alguma. O humorismo é a forma necessária e adequada do lirismo contemporâneo; distingamos, porém, entre o género e a retórica de um dos exemplares desse género, que é o mais conhecido em Portugal. «Humour» e do melhor quilate, traços de Heine ou de Swinburne peninsular, se encontram a cada página na Morte de D. João: razão de mais para que o artista ponha de parte os lugares comuns de um suposto realismo; deixe isso a quem não dispõe doutros materiais.
É por uma noite escura:

..ao longe dir-se-ia
Que os coros divinais depois de alguma orgia
Partiram, cambaleando, a abóbada do espaço,
Caindo sobre a terra em fúlgido estilhaço.

Eis um exemplo de verdadeiro «humourismo», e uma ideia poética de incontestável valor. Outra:

O POETA
Satanaz, meu amigo!
--------------------
Mas'inda agora vejo, andas de luto...

O DIABO
Morreu-me meu irmão, o Padre Eterno.

O «humour», que dava além uma ideia poética, traduz aqui um pensamento filosófico; não é uma blasfémia, é uma rigorosa verdade. O Diabo e o padre Eterno são a tese e a antítese de uma proposição teológica resolvida pela filosofia, que é a do poema. O Bem contrapõe-se ao Mal, um e a condição necessária do outro; não podem existir isolados; a morte de qualquer deles implica a do companheiro.

Cortesia de wikipedia

Se o Bem e o Mal se confundem na ideia do Absoluto, se o Diabo e o Padre Eterno se resolvem na ideia de Deus, que é um aspecto do Absoluto, a expressão do poeta e uma verdade teológica afirmada humoristicamente.
Não acabaria, se pretendesse esgotar os exemplos. Aqui é uma orquestra desvairada, brutal, «americana»; além um olhar cansado, «metafísico»; noutra parte dá-se com uma velha rua misérável, triste, caliginosa, impenetrável «como um dogma cristão». O exagero das notas repugnantes e lúgubres empasta o quadro. É com efeito «ultra-charogne»; mas de que vale isso para o poema? Essa acumulação de pústulas nas pernas de D. João, esse desvario de coisas nojentas, que provam, mais do que o abuso do género, de si já falso?

Ai, que frio! que horror!
Se eu ainda tivesse consciência,
Ai que frio!... comprava um cobertor.

Eis o que vale mais do que todos os termos tomados de empréstimo à patologia:

Ó Deus forte, ó Deus justo, ó Deus clemente,
Para que eu seja um verdadeiro crente,
--------------------------------------
Digna-te:, ó Deus, lançar n'estes meus hombros
Um capote hespanhol!

D. João afinal morre. Que tens?, pergunta-lhe Impéria. Não é remorso... é fome».
In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, A Poesia Revolucionária e a Morte de D. João, Seara Nova 1948, Lisboa.

Cortesia de Seara Nova/JDACT

sábado, 21 de maio de 2011

Páginas Desconhecidas: A Poesia revolucionária e A Morte de D. João. «Conceber o movimento da vida real e positiva como «aproximação para Deus», é compreender toda a profundidade verdadeira do pensamento moderno, para o qual deixou há muito de existir o velho Deus exterior e inimigo, perante quem os homens eram títeres movidos pelo cordel...»

Cortesia de ptof2000

In Memoriam a ATC
«Ora a musa dos poetas-líricos nunca disse estas coisas, não as sabe, nem quer saber, e duvido que falasse em tão bons versos.
Seja como for:
... a branca aparição, ligeira como o vento,
Perdeu-se pelo azul do claro firmamento.

A musa não pôde responder, foi batida. A brisa, as águas, os ribeiros, e todas as flores do prado, desde a cecém até à bonina, e todos os lábios de todas as virgens, a geografia e a botânica e a zoologia dos lamartinianos não conquistaram o moço, o forte, o vivo poeta moderno, das modernas paixões, dos valentes e profundos pensamentos, cuja musa é outra:

..., a grande musa austera
Que habita junto a Deus na eterna primavera
Dos astros e dos sóis.


Cortesia de letrassuspeitas

É ela, que lhe aparece, e que o como à sibila, em religioso silêncio, quem lhe manda que defina a lei suprema:

Que rege o movimento e as formas da matéria;
…………………………………..................
Os glóbulos do sangue e os glóbulos dos mundos,
As correntes do mar e a luta das paixões,
O verme e a tempestade, os homens e os vulcões.
……………………………………………...
Definir essa lei, eis o imortal problema.
Trabalha para isso a natureza inteira:
A consciência, o ferro, a bússola, a caldeira,
'O magnetismo, a luz, as prensas, o martelo,
A voz da intuição e a língua do escalpelo,
A crítica e a fé, os dogmas e os metais.
E é deste turbilhão de ciências colossais,
Dos livros, do vapor, das forjas, dos museus,
Desta aproximação imensa para Deus
Que hão-de surgir em breve, atléticas, radiantes,
Musas para inspirar teorbas de gigantes.

Eis ai a confissão do poeta, eis o alicerce de granito deste livro, que há-de viver, como vivem as coisas verdadeiras e santas.
Conceber o movimento da vida real e positiva como «aproximação para Deus», é compreender toda a profundidade verdadeira do pensamento moderno, para o qual deixou há muito de existir o velho Deus exterior e inimigo, perante quem os homens eram títeres movidos pelo cordel, cheio de nós, da sua divina graça, e cuja adoração consistia no sacrifício de tudo quanto há santo na alma, a começar pela dignidade humana, pisada a pés pelo dogma do passado; do pensamento moderno, para quem a contemplação do Universo moral matou de vez as provectas doutrinas do empirismo -sensualista, e o dualismo primitivo da matéria e do espírito, do bem e do mal, de Deus e do Diabo.

Cortesia de ephemerajpp

Mas não é somente a corda épica, a que a musa lhe manda ferir. Pelo contrário. A «Morte de D, João», animada de princípio a fim por um pensamento épico, é um poema humorístico, vasado, e vasado de mais, nos moldes de Espronceda, de Heine, de Baudelaire e de Swinburne. O baudelarianismo na poesia é um vício de gosto que ataca hoje em dia os melhores. O requinte de sensibilidade dolente, a que a elevação da vida psicológica moderna conduz os espíritos delicados, o requinte de sibaritismo, a que as contradições morais e económicas da nossa época têm levado os sentidos, dão as mãos para produzirem a tendência, geral de mais para ser artificial, de uma das feces da poesia contemporânea». In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, A Poesia Revolucionária e a Morte de D. João, Seara Nova 1948, Lisboa.

Cortesia de Seara Nova/JDACT

terça-feira, 26 de abril de 2011

Páginas Desconhecidas: A Poesia revolucionária e A Morte de D. João. «Vai o poeta observando à musa os obstáculos que o seu coração de homem de bem, e a sua consciência de homem sensato, opõem a esse modo de pensar, e a musa respondendo, até que afinal, perdida a esperança, foge. À musa dos lamartinianos, entretanto, nunca em seus dias ousou empregar em serviço próprio a ironia, essa alegre companheira, e consoladora íntima de todos os bons espíritos»

Cortesia de ephemerajpp

«D. João e a sua morte são a filosofia do subjectivo e a do objectivo: a moralidade do facto está no momento solene da história do espírito, não no castigo do devasso. A devassidão e os crimes de D. João são metade só do homem, e metade necessária à outra do heroismo e do louco amor. Não é o facto de D. João ser malvado que importa a sua condenação; o que o condena é a razão por que ele é malvado, razão necessária de malvadez. O herói é por força um facínora.
O humanismo que respira o «Quijote» é a atmosfera embalsamada em que vive a Renascença. Na Morte de D. João respiramos sim o século XIX, mas a antitese é incompleta porque não foi profunda a compreensão do herói. O autor viu D. João com olhos de artista, e logo notou como com a guitarra ele conquistava todas as moças, como as perdia todas, como era um poço de imundícies; e foi a esse herói da literatura que deitou por terra

Cortesia de prof2000
O herói literário, o D. João romanesco, é porém só uma das faces literárias do romantismo; a outra deita raízes pelo século XVIII. Tem por um dos avós ao abade de Saint-Pierre, é boa metade de Rousseau, e dá o tom a Robespierre; tinham ambos nascido para abades, mas uma ironia da sorte fez, de um, filósofo, do outro, ditador. 
O lado propriamente literário da revolução moral do nosso tempo, eis o que o artista da Morte de D. João sentiu e disse em versos memoráveis. A musa dos lakistas aparece-lhe e manda-lhe cantar coisas que vão já, com efeito, cantadas, choradas, grunhidas, e ditas afinal em todas as vozes de todos os animais bipedes que têm enchido as livrarias modernas, com os produtos do seu astro apaixonado ou sensível.

Cortesia de letrassuspeitas 
Vai o poeta observando à musa os obstáculos que o seu coração de homem de bem, e a sua consciência de homem sensato, opõem a esse modo de pensar, e a musa respondendo, até que afinal, perdida a esperança, foge. À musa dos lamartinianos, entretanto, nunca em seus dias ousou empregar em serviço próprio a ironia, essa alegre companheira, e consoladora  íntima de todos os bons espíritos. A ironia não se compadece, é verdade, com as regras literárias da contemplação do vazio, das lamentações ao luar, e dos cânticos de erotismo amoroso:

Se há estrelas no céu e rosas pelo monte,
Se sabes ler Petrarca e ler Anacreonte,
Se a tua amante é bela e se o teu sangue é novo,
Deixa espingardear o coração do povo, 
Deixa morrer Catão, deixa insultar a luz,
Deixa queimar Voltaire, deixa matar Jesus...

Não cessam de cantar por isso as cotovias.
Que o Pontífice lamba os pés das monarquias,
Que Tartufo conspire e D. João seduza,
Que a treva inunde a escola e a honra empenhe a blusa,
..............................................
Que nos importa a nós? Que importa o bem e o mal,
As velhas dissensões, a luta, o dogma, a crítica?
Os rouxinóis não têm opinião política, 
As flores não vão ler as obras de Proudhon...  

In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, A Poesia Revolucionária e a Morte de D. João, Seara Nova 1948, Lisboa.

Cortesia de Seara Nova/JDACT