Mostrar mensagens com a etiqueta Julia Quinn. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Julia Quinn. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Os Bridgertons. Um Perfeito Cavaleiro. Julia Quinn. «Assim, numa tarde de Fevereiro, Sophie esperava no grande saguão junto a toda a criadagem, espiando pela janela até que a carruagem do conde parasse na entrada da casa, trazendo a nova condessa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Todos sabiam que Sophie Beckett era bastarda. Todos os criados tinham consciência disso. Mas eles amavam a pequena menina. Tinham começado a amá-la desde que ela chegara a Penwood Park, aos 3 anos, uma trouxinha enrolada num casaco enorme, deixada nos degraus da entrada da casa numa noite chuvosa de Julho. E, como a amavam, fingiam que ela era exactamente o que o sexto conde de Penwood dizia que ela era,  a filha órfã de um velho amigo. Não importava que os olhos verde-musgo e os cabelos louro-escuros de Sophie fossem muito parecidos com os do conde, nem que o formato de seu rosto lembrasse de forma impressionante o da recém-falecida mãe do conde, ou que o seu sorriso fosse uma réplica precisa do da irmã dele. Ninguém queria magoar a jovem, ou arriscar o emprego, fazendo esse tipo de observação.

O conde, um certo Richard Gunningworth, nunca falava sobre Sophie ou as suas origens, mas devia saber que ela era sua filha bastarda. Ninguém tinha conhecimento do que estava escrito na carta que a governanta descobrira no bolso da menina quando ela fora encontrada naquela noite chuvosa. O conde queimara a correspondência alguns segundos depois de ler. Ficou observando o papel desaparecer nas chamas e então ordenou que preparassem um quarto para a criança na ala infantil. Foi onde ela permaneceu desde então. Ele a chamava de Sophia, e ela o chamava de milorde, e os dois se viam algumas vezes por ano, sempre que o conde vinha de Londres, o que não acontecia com muita frequência.

Mas, talvez o mais importante, Sophie tinha consciência de que era bastarda. Não tinha muita certeza de como sabia, só que sabia, e provavelmente soubera durante toda a sua vida. Tinha poucas lembranças anteriores à sua chegada a Penwood Park, mas se recordava de uma longa viagem de carruagem pela Inglaterra e também da avó, tossindo e arfando, parecendo muito magra, dizendo que ela ia morar com o pai. Mais do que tudo, ela se lembrava de ter ficado parada nos degraus da entrada sob a chuva, sabendo que a avó estava escondida nos arbustos esperando para ver se a menina seria levada para dentro da casa.

O conde tocara no queixo da menininha, virara seu rosto para a luz e naquele momento os dois souberam a verdade.

Todos sabiam que Sophie era bastarda, ninguém falava sobre isso, e todos estavam bastante satisfeitos com essa situação. Até que o conde decidiu se casar.

Sophie ficara muito satisfeita com a novidade. A governanta dissera que o mordomo dissera que a secretária do conde dissera que o conde planeava passar mais tempo em Penwood Park, agora que decidira ser um homem de família. Embora Sophie não sentisse exactamente falta do dono da casa quando ele não estava,  era difícil sentir falta de alguém que não lhe dava muita atenção mesmo quando se encontrava no mesmo ambiente que ela , a menina achava que poderia vir a sentir saudade dele se tivesse a oportunidade de conhecê-lo melhor, e que, se o conhecesse melhor, talvez ele não viajasse tanto. Além disso, a arrumadeira do andar de cima comentara que a governanta comentara que o mordomo dos vizinhos comentara que a pretendente do conde já tinha duas filhas mais ou menos da idade de Sophie.

Depois de sete anos sozinha na ala infantil, Sophie estava encantada. Ao contrário das outras crianças do distrito, ela nunca era convidada para festas e eventos locais. Ninguém nunca chegara a chamá-la de bastarda, o que seria o equivalente a chamar o conde de mentiroso, já que ele declarara que Sophie era sua pupila e depois nunca mais tornara a tocar no assunto. Mas, ao mesmo tempo, ele jamais fizera qualquer tentativa a sério de forçar que a aceitassem. Assim, aos 10 anos, os melhores amigos dela eram criadas e lacaios, e seus pais poderiam muito bem ser a governanta e o mordomo.

Mas agora ela ganharia irmãs de verdade. Ah, ela sabia que não poderia chamá-las assim. Tinha consciência de que seria apresentada como Sophia Maria Beckett, a pupila do conde, mas elas seriam como irmãs. E era isso que importava  de verdade.

Assim, numa tarde de Fevereiro, Sophie esperava no grande saguão junto a toda a criadagem, espiando pela janela até que a carruagem do conde parasse na entrada da casa, trazendo a nova condessa e suas duas filhas. E, é claro, o conde. Será que ela vai gostar de mim?, sussurrou Sophie para a Sra. Gibbons, a governanta. A esposa do conde, quero dizer.

É claro que ela vai gostar de si, querida,  respondeu baixinho a Sra. Gibbons. Mas o seu olhar não estava tão assertivo quanto o seu tom de voz. A nova condessa poderia não gostar da presença da filha ilegítima do marido. E eu vou ter aulas com as filhas dela?» In Julia Quinn, Os Bridgertons, Um Perfeito Cavaleiro, 2001, Editora Arqueiro, 2014, ISBN 978-858-041-239-0.

 Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Julia Quinn, Literatura, 

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Um Pedacinho de Céu. Júlia Quinn. «Tinha-a visto completamente encharcada, quando tinha oito anos e pensava que estaria completamente escondida nos ramos do velho carvalho…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Março de 1824. Cambridge, Inglaterra
‘(…) Não Por favor, entre ou Por favor, precisa secar-se. Só, entre. Outra garota teria feito um movimento com o seu cabelo e dito, não pode dar-me ordens! Outra um pouco orgulhosa poderia pensar inclusive se faltasse coragem para dizer em voz alta. Mas Honoria sentia frio, e valorizava a sua comodidade mais que o seu orgulho e, mais ao ponto, este era Marcus Holroyd, e o conhecia desde que usava jumpers. Desde os seis anos, para ser precisa. Essa era provavelmente a última vez a que conseguiu mostrar-se em vantagem, pensou com uma careta. Aos sete fora uma peste, tanto que ele e seu irmão Daniel haviam decidido chamá-la de Mosquito. Quando ela tomou como um elogio, que ela amava o quão exótico e perigoso que soava, eles tinham sorrido e o trocaram para Percevejo. Percevejo, ela foi desde então. Ele já a vira mais húmida que isto, também. Tinha-a visto completamente encharcada, quando tinha oito anos e pensava que estaria completamente escondida nos ramos do velho carvalho em Whipple Hill. Marcus e Daniel construíram um forte na base da árvore, e não permitiam meninas. Tinham jogado pedras até que ela perdera o ânimo e se cansara.
Em retrospectiva, realmente não deveria ter escolhido o ramo que pendurava sobre o lago. Marcus, entretanto a puxara, que era mais do que podia dizer do seu próprio irmão. Marcus Holroyd pensou com pesar. Ele estivera na sua vida quase tanto tempo como podia recordar. Desde antes de ser lorde Chatteris, desde antes que Daniel fosse lorde Winstead. Desde antes que Charlotte, sua irmã mais próxima em idade, casar e deixar o lar. Desde antes que Daniel, também, se fosse. Honoria. Ela levantou o olhar. A voz de Marcus era impaciente, mas o seu rosto tinha uma ponta de preocupação. Entre, repetiu ele. Ela assentiu e fez o que ele dizia, tomando a sua grande mão e aceitando ajuda para subir na carruagem. Marcus, ela disse tentando sentar no seu lugar, com toda a graça e despreocupação que pudesse exibir num fino salão de visita, sem importar os atoleiros nos seus pés. Que agradável surpresa vê-lo.
Ele só a olhou fixamente, com as suas escuras sobrancelhas unindo-se ligeiramente como sempre. Estava segura de que estava tentado decidir a maneira mais efectiva de repreendê-la. Estou aqui na cidade. Com os Royle, disse ela, embora ele não tivesse perguntado ainda. Ficaremos aqui por cinco dias... Cecily Royle, minhas primas, Sarah, Íris, e eu. Esperou um momento, por algum tipo de brilho de reconhecimento nos seus olhos, depois disse: não sabe quem são não é? Tem muitas primas, ele assinalou. Sarah é aquela com cabelos e olhos grossos. Olhos grossos?, murmurou ele, esboçando um pequeno sorriso. Marcus. Ele sorriu. Muito bem. Cabelo grosso. Olhos escuros. Íris é muito pálida. Com cabelo loiro, lembra? Ainda não se recorda. Vem da família das flores». In Julia Quinn, Um Pedacinho de Céu, Edições ASA, 2017, ISBN 978-989-233-846-0.
                          
Cortesia debEASA/JDACT

sábado, 16 de junho de 2018

Um Pedacinho de Céu. Júlia Quinn. «Sim, sim podia. Porque estava é claro sozinha, a chuva levou trinta segundos para ir de um ligeiro gotejar a um aguaceiro»

Cortesia de wikipedia e jdact

Março de 1824. Cambridge, Inglaterra
«Honoria Smythe-Smith estava desesperada. Desesperada por um dia ensolarado, desesperada por um marido, desesperada pensou, com um suspiro exausto, enquanto olhava as suas sapatilhas arruinadas, por um novo par de sapatos. Sentou pesadamente no banco de pedra fora da Loja de Tabaco para cavalheiros exigentes do Senhor Hilleford e recostou-se contra a parede atrás dela, desesperadamente. Aí estava essa horrível palavra de novo, tentando apertar o seu corpo inteiro sob a marquise. Estava chovendo a cântaros. Não estava chuviscando, não somente chovia, mas sim chovia gatos, cães, ovelhas e cavalos. Nesse ritmo, não ficaria surpresa se um elefante caísse do céu. E fedia. Honoria pensara que os porcos produziam o aroma que menos gostava, mas não, o mofo era pior, e a Loja de Tabaco para Cavalheiros do Senhor Hilleford, a quem não importava se os seus dentes se tornassem amarelos, tinha uma substância branca suspeita arrastando-se pela sua parede exterior que cheirava como a morte.
Realmente, ela podia estar em pior situação? Bem, sim. Sim, sim podia. Porque estava é claro sozinha, a chuva levou trinta segundos para ir de um ligeiro gotejar a um aguaceiro. O resto da sua companhia de compras havia cruzado a rua, felizmente observando o quente e acolhedor Império Extravagante de Fitas e Bagatelas da Senhorita Pilaster, que além de ter todo o tipo de diversão e mercadoria com folhetos, cheirava muitíssimo melhor que o estabelecimento do Senhor Hilleford. A Senhorita Pilaster vendia perfumes. A Senhorita Pilaster vendia pétalas de rosa secas e pequenas velas que cheiravam a baunilha. O Senhor Hilleford colhia mofo. Honoria suspirou. Assim era a sua vida. Permanecera muito tempo na janela de uma livraria, assegurando para as suas amigas que as encontraria na loja da Senhorita Pilaster num ou dois minutos. Dois minutos que se converteram em cinco e, depois, justamente quando estava preparando-se para atravessar a rua, o céu abriu-se e Honoria não teve mais opção, que buscar refúgio sob a única marquise aberta no lado sul da Cambridge High Street.
Observou aflita a chuva, vendo-a golpear a rua. As gotas estavam golpeando os paralelepípedos com uma força tremenda, salpicando e orvalhando de volta ao ar como pequenas explosões. O céu estava mais escuro a cada segundo, e se Honoria fosse qualquer juiz do clima inglês, o vento iria virar a qualquer momento, dando completa inutilidade ao seu patético lugar sob a marquise do Senhor Hilleford. A sua boca deslizou num franzido abatido, e entrecerrou os olhos para o céu. Os seus pés estavam húmidos. Sentia frio.
E nunca antes, na sua vida inteira, deixara os limites da Inglaterra, o que significava que era mais que boa julgando o clima inglês, e em aproximadamente três minutos ia ser inclusive mais infeliz do que estava agora. O que realmente não acreditara ser possível. Honoria? Piscou, levando o olhar do céu para a carruagem que estacionou na frente dela. Honoria? Ela conhecia essa voz. Marcus? Oh, santo céu, a sua miséria só parecia aumentar. Marcus Holroyd, o conde de Chatteris, feliz e seco na sua luxuosa carruagem. Honoria sentiu a sua mandíbula afrouxar, embora realmente, não soubesse por que deveria estar surpresa. Marcus vivia em Cambridgeshire, não muito longe da cidade. Além disso, se alguém iria vê-la enquanto parecia como uma desalinhada e molhada criatura da variedade roedora, seria ele. Deus Santo, Honoria, disse, franzindo o cenho para ela naquela maneira desdenhosa dele, deve estar congelando. Aprumou-se para escolher os ombros. Sim está um pouco fresco. O que está fazendo aqui? Arruinando sapatos. O quê? Compras, disse ela, apontando para outro lado da rua, com amigas. E primas. Não que as suas primas não fossem também amigas. Mas tinha tantas primas que quase pareciam uma categoria em si mesma. A porta abriu-se mais. Entre, disse ele». In Julia Quinn, Um Pedacinho de Céu, Edições ASA, 2017, ISBN 978-989—233-846-0.

Cortesia EASA/JDACT