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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Década Quarta da Ásia. Diogo do Couto. «Para todos previu embarcações, soldos e mantimentos. Couto bate muito nesta tecla. Soldados contentes são aqueles a quem não faltam soldos nem mantimentos. Nuno da Cunha não consentia que, da fazenda dessa gente, se gastasse coisa alguma»


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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«São diferenças em toda a parte. Nas Molucas entre Garcia Henriques e Jorge Meneses, antigo e novo capitães de Ternate, em tempo em que os castelhanos disputavam connosco a supremacia naquelas ilhas. Jorge Meneses manda prender Garcia Henriques em ferros. Depois Garcia manda prender Jorge. Os sequazes de Jorge ameaçam obter a aliança dos castelhanos contra o antigo capitão.
Jorge Meneses vê-se livre de Garcia. No exercício do poder singulariza-se por vexações e crueldades, que o cronista acha indignas de portugueses. Sucede-lhe Gonçalo Pereira que o manda prender. O novo capitão descontenta os portugueses. Um português chamado Vicente Fonseca faz-se cabeça da conspiração. O capitão é assassinado, sucede-lhe -o conspirador.
É um tempo de revoltas. Não há soldados que queiram ir à Sunda, onde faz falta uma fortaleza nossa. Enganam os soldados. Dizem-lhes que vão às presas. Do que eles gostam é de ir às presas. Descobre-se o segredo. Os soldados amotinam-se e põem fogo à armada.
Couto nutre a maior admiração por Nuno da Cunha, governador que sucede ao usurpador Lopo Vaz. No primeiro Soldado prático aparece aquele como espelho de governadores. E todavia Nuno da Cunha, que parte de Lisboa em Março de 1528, só chega a Goa em Novembro de 1529. Teve uma viagem desastrada, envolveu-se em guerras pelo caminho. Os nossos quiseram submeter Barém, sofreram um desaire colossal. O primeiro objectivo assinalado pelo rei ao novo governador é a tomada de Diu e a construção de uma fortaleza nesta praça. Nuno da Cunha recebe verbas excepcionais, reúne armadas tremendas. Mas antes do seu exercício e durante perdem-se as ocasiões mais propícias. Em vez de Diu toma-se a ilha de Beth (como escreve Couto), onde somos causa directa ou indirecta de um massacre geral. É verdade que se constroem as fortalezas de Chale, de Baçaim, finalmente de Diu, que se obtêm (mas depois se devolvem) os territórios de Salsete e Bardês. E o rei de Cambaia, que, ameaçado pelos Mogores, nos faculta a tão almejada praça, acaba por morrer às nossas mãos. Couto atenua: por precipitação de um português de baixa sorte.
Estes são os factos. A edificação resulta da maneira como são contados. De como são interpretados e comentados, quando se prestam a isso. Em Cochim, Lopo Vaz Sampaio acaba de obter sentença em seu favor. É governador da Índia. Começa a dispor. A Cristóvão Mendonça, que foi seu adversário, fá-lo capitão de Ormuz. Atribui-lhe um galeão, uma caravela e dois bergantins. Nestes navios carregam-se os provimentos necessários àquela fortaleza, e muita fazenda de El-Rei para se lá vender.
Logo o contraste. Lopo Vaz procede como os governadores do tempo da virtude, não como eles vieram mais tarde a praticar: neste tempo [o de Lopo Vaz] não tratavam os governadores, nem tinham o dinheiro de El-Rei debaixo de suas camas, antes o meneavam em proveito da fazenda de El-Rei, e não no seu.
De Nuno da Cunha o ditirambo anuncia-se, logo que ele começa a preparar a conquista de Diu. Para a jornada, o governador mandou ajuntar e negociar mui grandes apercebimentos. Não dá ponto sem nó. Requisita todos os navios que naquele porto [de Cochin] houvesse assim de El-Rei, como de partes. Não havia, quando ele governava, salários em atraso. Ordenou que se pagasse a toda a gente que se pudesse achar, apta para o fim em vista. Para todos previu embarcações, soldos e mantimentos. Couto bate muito nesta tecla. Soldados contentes são aqueles a quem não faltam soldos nem mantimentos. Nuno da Cunha não consentia que, da fazenda dessa gente, se gastasse coisa alguma. Tratava bem os homens, e esse é o dever do bom governador. Fossem eles portugueses, ou da terra. Assim, passou provisões ao Vedor da Fazenda e a todos os oficiais para fazerem estas despesas, encomendando a todos que, à gente de El-Rei de Cochim, se lhes fizesse muitos mimos, e nenhum agravo

In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Década Quarta da Ásia. Diogo do Couto. «As naus de Manuel de Lacerda e de Aleixo de Abreu, da carreira da Índia, naufragam à altura da ilha de São Lourenço, os esquifes conseguem arribar, a gente fica por aqueles descampados à espera de outra nau que suja e a recolha. Esperam, quase desesperam. Mas lá vem nova armada…»


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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«Guerra de Heitor da Silveira na costa de Cambaia. Um peão português derriba dois cavaleiros mouros, e, trazendo um dos cavalos à rédea, apresenta-se ao nosso capitão, pedindo-lhe que o arme cavaleiro. Couto dá largas ao seu entusiasmo:
  • ‘Louve agora Lívio o seu Marco Corvino, por-matar um francês em desafio [...]. Engrandeça o seu Torquato pelo colar que tomou a outro, que eu não farei mais que contar singelamente estes e outros feitos semelhantes, mais dignos de estátuas, que os dos seus Romanos’.
Subjacente a estrofe 3 do canto I d’Os Lusíadas:

'Cale-se de Alexandre e de Trajano
a fama das vitórias que tiveram,
que eu canto o peito
ilustre lusitano...’

Não só a ideia é afim, como a estrutura das expressões é a mesma: conjuntivo-exortativo (louve/cesse) conduzindo à proposição causal, justificativa da exortação: que eu não farei mais, que eu canto... Mesma estrutura na estrofe 11: ‘Ouvi, que não vereis com vãs façanhas...’ E ideia afim: ‘As verdadeiras vossas são tamanhas, que excedem as sonhadas, fabulosas’.

As naus de Manuel de Lacerda e de Aleixo de Abreu, da carreira da Índia, naufragam à altura da ilha de São Lourenço, os esquifes conseguem arribar, a gente fica por aqueles descampados à espera de outra nau que suja e a recolha. Esperam, quase desesperam. Mas lá vem nova armada. Nau ao largo, avista a gente, tenta acostar, aproxima-se, afasta-se, desiste, segue viagem. Os náufragos não esperam mais, organizam-se, metem-se pelo sertão... Desaparecem todos, nunca mais se sabe deles. Couto presume que tenham sido mortos pelos da terra.
Então, uma irrupção subjectiva, e já mesmo o estilo e a frequência destas são camonianos. Termos da Década:
  • Vejam agora os reis se há na vida cousa com que se satisfaçam tamanhos trabalhos, como seus vassalos passam nesta conquista da Índia: e que preço há com que se pague um só risco da morte, quanto mais tantos, quantos são os em que cada dia se vêem: no mar, tanta tormenta e perigos; na terra tanto risco entre pelouros e fogo, comendo mal, dormindo pior, pelejando todas as horas por honra de seu Deus e de seu Rei!...’
De novo, a ideia dos serviços mal pagos, ou nem sequer pagos, ou pagos com agravos em vez de mercês. E sobretudo a própria literalidade d’Os Lusíadas à transparência. ‘Vejam agora os reis’ (Década) é novamente aquele ‘Vede, Ninfas...’ da estrofe 82 do canto 7; é aquele ‘vós, ó Rei […] olhai...’ da 146 do canto 10. A expressão da Décadatamanhos trabalhos como seus vassalos passam’ lembra o verso 1 da estrofe seguinte do poema: ‘Olhai que ledos vão por várias vias...’
A consideração da Década, ‘no mar tanta tormenta e perigos, na terra tanto risco’, é evidentemente uma recordação dos primeiros heróicos da estrofe 106 do canto I:

‘No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!’

Da Década, a expressão ‘tanto risco entre pelouros e fogo’, decalca o verso 4 da estrofe 147 (outra vez esta!) do último canto: ‘A ferro, a fogo, a setas, a pelouros…’ O ‘comendo mal’ de Couto, neste contexto, é a expressão camoniana, da mesma estrofe,
dando os corpos a fomes…’.O ‘dormindo pior’ evoca as ‘vigias’ do mesmo verso do poeta: ‘Dando os corpos a fomes e vigias’. Como dissemos, é um nunca acabar…
Dissemos da vida de Couto, de como se tornou cronista, de quando escreveu a Década 4, que exemplo tinha em mente, quando redigiu a epístola dedicatória… Que autores leu, que textos utilizou, como as recordações da epopeia camoniana persistem e emergem, sem embargo da compilação que as exclui...»

In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

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Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

Década Quarta da Ásia. Diogo do Couto. «Quem tinha na ideia Os Lusíadas? Lopo Vaz ou Diogo do Couto? O primeiro não pode ser. A sua apologia teria sido recitada, ainda Luís Vai não completara dez anos. O governador-usurpador morreu, antes de o poeta ter começado o seu poema»


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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
[…]
«Lucena volta a marcar distâncias: se é verdade... Couto não duvida do que escreve. Como o sabe? Viu? Lucena, esse leu. Se é verdade, como temos lido... Onde terá lido? Como? Quando? Em que condições?
A epístola dedicatória da sua Década 4, datou-a Couto de 20 de Novembro de 1597, vésperas de dar à vela para o reino a armada da carreira. Terá chegado a Lisboa em meados de 1598. Entretanto Filipe II decidira fazer publicar, primeiro que a continuação de Barros, as quatro Décadas do que tinham feito os próprios castelhanos naquelas partes das Índias. Compreende-se. E, enquanto a de Couto esperava, ao cuidado de Adeodato ou de outro, ou de outros, alguém no segredo dos livros e papéis do Oriente, terá assinalado ao de Trancoso que chegara de Goa um novo manuscrito com muitas coisas interessantes. Não duvidamos de que Lucena, cujo livro saiu em 1600, o tenha tido em mãos. Quando escreve sobre a sede do cravo, à fé do tem lido [se é verdade o que temos lido], o que tinha lido era certamente na Década 4 de Diogo do Couto.
Nenhum outro autor tinha escrito que o dito produto das Molucas secava as adegas e enxugava as casas. Assim se atenua a gravidade dos ‘plágios’ de Couto. Quem escrevia da Ásia inseria-se numa teia. Quem copiava era copiado. É verdade, porém, que, entre os copiadores, o novel cronista não fica atrás de nenhum.
Depois voltaremos à paráfrase d’Os Lusíadas... Planeámos atrás. Chegou o tempo. Apologia de Lopo Vaz, texto que só Diogo do Couto fornece. O apelo do maltratado a que se meçam a injustiça que se lhe faz, a desproporção entre os seus serviços e esses maus tratos não deixa de ter afinidades com os mesmos sentimentos expressos por Camões. Palavras de Lopo Vaz: ‘Veja Vossa Alteza, e ponha diante de si, tamanho agravo como este a um homem de minha qualidade e idade e de tantos e tao grandes serviços’; ‘E ainda, Ninfas minhas, não bastava...’ vem no canto 7; ‘Vede, Ninfas...’ Torna a pedir o poeta... Os que Lopo Vaz servia, maltrataram-no, agravaram-no, prenderam-no... Os que Camões cantava, meteram-no em trabalhos, reduziram-no a um estado imerecido e lamentável. N’Os Lusíadas:...

‘Aqueles que eu cantando andava
tal prémio de meus versos me tornasssem,
a troco dos descansos que esperava,
das capelas de louro que me honrassem,
trabalhos nunca usados me inventaram
com que em tão duro estado me deitaram’.

Lopo Vaz, segundo Couto: ‘Ora, veja Vossa Alteza o que me tem custado seu serviço...’. O que lhe tem custado? Aqui, a afinidade torna-se mais estreita: ‘muitos frios, muitas calmas, muitas fomes e sedes, muitos riscos de minha vida, dando a comer meu sangue aos tubarões no mar...’ No primeiro canto: “Ó grandes e gravíssimos perigos!” No último, a famosa estrofe 147:

‘Dando os corpos a fomes e vigias,
a ferro, a fogo, a setas e pelouros.
A quentes regiões e plagas frias,
[...] A naufrágios, a peixes, ao profundo’.

Frios e calmas, na Década; quentes regiões e plagas frias, no poema. Fomes e sedes, na Década; fomes e vigias, no poema. Dar o sangue aos tubarões, na Década; dar o corpo aos peixes, no poema…
Quem tinha na ideia Os Lusíadas? Lopo Vaz ou Diogo do Couto? O primeiro não pode ser. A sua apologia teria sido recitada, ainda Luís Vai não completara dez anos. O governador-usurpador morreu, antes de o poeta ter começado o seu poema. Donde uma inevitável conclusão:
  • se a influência e até a paráfrase d’Os Lusíadas neste passo não são um sonho, o documento respectivo, apologia de Lopo Vaz, não pode ser integralmente verdadeiro. Na mais favorável das hipóteses, Couto não teria apenas encurtado a fala. Tê-la-ia também rescrito, retocado, enfeitado...
Guerra de Heitor da Silveira na costa de Cambaia. Um peão português derriba dois cavaleiros mouros, e, trazendo um dos cavalos à rédea, apresenta-se ao nosso capitão, pedindo-lhe que o arme cavaleiro». 

In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

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sábado, 17 de março de 2012

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «Do nosso ponto de vista os quatro autores que devemos sempre ter presentes, se queremos estudar algum deles, são Gaspar Correia, Castanheda, Barros e, evidentemente, o autor da Década que se publica. Muitas vezes, no decurso da nossa introdução, tentaremos confrontá-los»

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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«O livro mais moderno, que cita, são os “Diálogos de vária história” de Pedro de Mariz. Tinha saído em 1594, e pode observar-se que chegou à Índia depressa, porquanto a “Década 4” se encontra concluída (embora necessitada de alguns retoques) em Novembro de 1597.
Há só mais um autor português, do qual, na presente Década, aparece uma obra citada: o próprio Couto. No capítulo 1 do livro 8 vêm à colação as ‘perdas e crescenças’ dos Portugueses na Índia, onde, como entende Severim, iam ganhar honra e proveito:  
  • ‘estas perdas e crescenças nós alguma hora apontaremos, se nos cair a pelo, posto que muito claramente o temos já feito no nosso “Diálogo do Soldado Prático”.

Este passo confirma que o referido diálogo, forçosamente o primeiro dos dois, foi a primeira obra de Couto concluída. Mas o tema das verdadeiras e falsas crescenças voltará à baila na fala 4 da cena 10 da primeira parte do segundo diálogo. Enumerar é fácil. Analisar menos. Comparar impõe-se. Do nosso ponto de vista os quatro autores que devemos sempre ter presentes, se queremos estudar algum deles, são Gaspar Correia, Castanheda, Barros e, evidentemente, o autor da Década que se publica. Muitas vezes, no decurso da nossa introdução, tentaremos confrontá-los. Desde já não receamos afirmar: aquele a quem mais deve Couto, não só entre os seus predecessores, cronistas da Índia, mas de todos os portugueses e todos os estrangeiros, é Fernão Lopes de Castanheda. Este é tão utilizado que se poderia dizer que a presente Década tem muito de conversão a outra estrutura, com enxertos, desvios, intromissões, cosidos em manta de retalhos, da narração contínua daquele autor. O novo cronista decalca com um à-vontade surpreendente. Feito cronista, chama a si, atribui-se todos os direitos. Inclusivamente o que hoje consideraríamos de plágio. De chapado plágio.

Cortesia de wikipedia

O que não quer dizer que não afecte grande veneração... tanto por Barros como por Castanheda. Aliás Couto não se coíbe de alfinetar, se a ocasião se apresenta, aqueles mesmos a quem respeita ou segue. Tem uma posição oficial e um pendor natural, forte. Vamos ao mais alto, comparando. Apesar dos seus requerimentos e vénias a Filipe II, quando narra querelas entre castelhanos e portugueses, não ‘torce’, menos que Castanheda pelos portugueses, antis pelo contrário. Em matéria delicada, denuncia o erro de Gomara. E, quando croniza de um rei mogor despojado do que conquistara, lança até uma sentença que talvez se pudesse considerar carapuça, mais ou menos à medida do filho de Carlos V: 
  • ‘devem os reis do mundo trabalhar muito para trazerem no seu governo vassalos naturais, porque sempre tratam as coisas com amor e lealdade, estimando mais a vida de seu rei que a sua própria’.
Conclusão: não se pode esperar dos ‘desnaturais’ a mesma lealdade.
Mantenhamo-nos, porém, na comparação dos textos.
A Barros, evidentemente, Couto não decalca como a Castanheda. Não podia ser. Barros parou, referimo-nos à sua obra publicada, onde ele começa. Mas não deixa de tirar daqui ou dali, das três Décadas precedentes, em geral sem declarar que tira. Às vezes até ‘se corta’. E alguma vez dir-se-ia que teve acesso a cópia manuscrita da quarta de Barros. Mas seria difícil sustentá-lo com tão pouco. O que lhe sucede, como veremos, é chegar ao limiar da inconveniência ou insolência, retomando e criticando afirmações do seu predecessor». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «Mas é verdade que o cronista não cita ‘muitos’ autores portugueses. Conhece muito mais italianos que portugueses, dir-se-ia. Somente, a presença, na sua Década, dos nossos que cita ou aproveita, é muito mais importante que a dos italianos que nomeia. Sem falar da de Camões, nesta “Década 4”, nunca o cronista escreve o nome do poeta…»

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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«Com que objectivo? Sob que caução? A submissão e destruição das religiões falsas. A expansão da única fé verdadeira. Camões:
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro...

Com o objectivo, diz Couto, ‘de arvorarem as reais bandeiras da milícia de Cristo, e as porem nos mais altos coruchéus da nefanda casa de Mafamede, para que, no lugar das suas torpezas e abominações, ofereçam ao altíssimo Deus muitos sacrifícios de louvor...’. É assim o espírito de cruzada.
“A Década 4” é oferecida ao rei, entrada a noite filipina, numa lembrança inevitável e dominadora da oferta “d'Os Lusíadas a D. Sebastião”, na alvorada de uma glória que abortou. O poeta declara-se ao serviço do rei:
  • ‘Para servir-vos, braço às armas feito, / Para cantar-vos, mente às Musas dada’.Com efeito, Camões habituou-se ao exercício alternado da espada e da pena: ‘Nüa mão sempre a espada e noutra a pena’.

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Para Couto, na altura (1597) em que dedica ao rei a sua “Década 4”, já passaram os tempos da milícia. O soldado prático já disse da sua prática. Agora dividem-se as tarefas: guerra, escritura. Sem embargo desta diferença, a clássica associação (espada/pena) não deixa de ocorrer, ao fim da epístola dedicatória, como se repete no final “d'Os Lusíadas” (para servir-vos/para cantar-vos). Vossa Majestade é outro Pirro; os seus vassalos são outros romanos:
  • ‘eles com a espada, e eu com a pena mostraremos ao mundo...’
Mostraremos ao mundo..., afiança Couto. E a musa de Camões,(afiança o poeta na última oitava “d'Os Lusíadas”, fico que em todo o mundo de vós cante...
Temos terminado com a epístola dedicatória. Com Camões, não. É um nunca acabar. Não. Não seja Camões a árvore que esconda a floresta. Porque se trata de uma verdadeira floresta. Já nesta “Década 4”, Diogo do Couto alardeia um número impressionante de leituras, de autores antigos e modernos, estrangeiros e portugueses, historiadores, claro, mas também viajantes, geógrafos e poetas. Entre os clássicos, Homero e Virgílio, Galeno e Ptolomeu, Arriano e Quinto Cúrcio, Plínio, César, Tito Lívio, Séneca…
Dos italianos aduz sobretudo os que conheceram o Oriente ou trataram do Oriente:
  • Marco Polo e o Sabellico, Nicolau Véneto e Andrea Cambini, geógrafos como Moleto, cosmógrafos como Enea Picolomini, historiadores como Flávio Biondo.
A sua cultura vai, ou aparenta ir, das “Antiguidades” de Flávio José ao ‘Teatro do Mundo’ de Abraão Ortélio, este último contemporâneo ainda do nosso cronista. Refere espanhóis como S. Isidoro de Sevilha, como González de Clavijo, como Gomara, historiador das Índias. Sabe de orientalistas e de orientais como Avicena, o Rásis (al Razi), o arménio Héthoum... Evidentemente não lhe escapam os estrangeiros, que escreveram de coisas portuguesas, como o Maffei.

 
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É impressionante. E ainda mais porque todos estes autores, Couto os trata com aparente à vontade e autoridade. Se faltavam em Goa as Décadas de Barros, já ao tempo do cronista a cidade se tornara certamente uma capital cultural, a julgar pelos livros que lá se encontravam, e pela rapidez com que lá chegavam. O famoso desprezo dos capitães portugueses por escrituras, cantos, letras g ciências não seria tão profundo e chocante, como nalguns passos o deixam crer Camões e Couto.

Mas é verdade que o cronista não cita ‘muitos’ autores portugueses. Conhece muito mais italianos que portugueses, dir-se-ia. Somente, a presença, na sua Década, dos nossos que cita ou aproveita, é muito mais importante que a dos italianos que nomeia. Sem falar da de Camões, que começámos a medir. Registemos só aqui, convidando à estranheza, que, nesta “Década 4”, nunca o cronista escreve o nome do poeta. Aliás não o citará pela primeira vez senão na sua “Década 7”, antes de dizer, na “Década 8”, que encontrou o autor “d'Os Lusíadas” na ilha de Moçambique, e o que ele então lhe encomendou. Há os autores que o cronista nomeia sem ter lido, e os que evidentemente leu, e não nomeia.

Dos nomeados, Barros e Castanheda são os mais utilizados. Garcia de Orta é mais utilizado que nomeado. De António Tenreiro refere-se a jornada, mas não o livro. De Gabriel Rebelo também não os manuscritos, senão uma ou outra anedota. Gaspar Correia, cujas ‘Lendas’ permaneciam manuscritas, não é nomeado, mas transparece aqui e além... Francisco de Andrade, quase perfeito contemporâneo de Couto, que decalcou com imperturbável à-vontade o dito Gaspar Correia, tinha já publicado o seu poema “O Primeiro Cerco de Diu”, mas não é nomeado nunca.
Todavia aparece uma referência, no cap. 8 do livro 6, à “Crónica de D. João III”. A de Francisco de Andrade sairia em 1613. Mas é verdade que tal Crónica fora antes confiada a António Pinheiro, bispo de Miranda e de Leiria, e a António de Castilho que, lançando mãos à obra, teria chegado ‘ao tempo das controvérsias que tiveram na Índia Pero Mascarenhas e Lopo Vaz de Sampaio’. Góis é duas vezes nomeado. Diogo do Couto conhece evidentemente a “Crónica de D. Manuel”, que saíra em 66 e 67. E evoca o autor uma vez pelo que lá não vem, e outra vez por um nome que diz que vem, mas não lhe pareceu o mais apropriado». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «Felizmente Luís Vaz propõe ao rei Sebastião o livro da epopeia dos Portugueses, que anuncia que o jovem rei, maravilha fatal da nossa idade, não terá que lamentar, como Alexandre lamentou, não ter, como teve Aquiles, um Homero capaz e desejoso de cantá-lo»

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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«Assim, pois, são os homens, incluídos os Portugueses, pelo menos ao tempo, a avaliar por esta anedota do escudo de D. Afonso Henriques. Diogo do Couto:
  • «nenhuma coisa puxa mais por um varão de honra, que estes desejos de glória e fama, por que tantos obraram; e fizeram tantas e tão altas maravilhas, que pareciam passar os termos e limites da natureza humana».
Em suma, “mais do que prometia a força humana” (‘Lusíadas’, I-1). «Passar os termos e limites» (Couto) é próprio, aliás, dos Portugueses. Bem dissera o Adamastor à «gente ousada» que ia com o Gama:
  • «pois os vedados términos quebrantas (V-41)».
Términos do mar, do mundo conhecido, não das «forças humanas», certamente... Mas o que importa é ultrapassar. Ultrapassar-se.
Sem embargo da prontidão de D. Afonso Henriques em pintar o seu escudo, dir-se-ia que os Portugueses, desejosos de honra, capazes de maravilhas, não se importam com o canto (Camões) ou a crónica (Couto). Aos capitães portugueses, não se lhes dá de poemas, de letras, de crónicas, de ciência...

Ter-se-ia passado assim com Alexandre Magno? De maneira nenhuma. Todos sabem que Alexandre tinha sempre Homero à cabeceira.

Camões:
Lia Alexandre a Homero de maneira,
Que sempre se lhe sabe à cabeceira.
(V-96)

Os Portugueses nem se importam com as Décadas de Barros. Grande vergonha, porque hoje em dia todos os grandes (estrangeiros, claro) as trazem “à cabeceira”. Como quem? Como Alexandre, que sempre trazia à cabeceira a “Ilíada” de Homero. Citamos a epístola dedicatória:
  • «E foram tão estimadas [as Décadas de Barros] dele [Guilherme Gonzaga, terceiro duque de Mântua], e o são hoje de todos os grandes, “que as trazem às cabeceiras das camas, como Alexandre trazia a ‘Ilíada’ de Homero»

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Deixemos Barros, por enquanto, e voltemos a Camões:

Enfim, não houve forte capitão,
Que não fosse também douto e ciente,
Da lácia, grega, ou bárbara nação,
Senão da portuguesa tão somente...

Di-lo Camões, não sem vergonha (V-97). E Couto, na epístola dedicatória? Pinturas e esculturas não falavam. Os Atenienses passaram às escrituras. Os Romanos após eles. Enfim, “todas as mais nações do mundo” (lácia, grega ou bárbara nação). Todas excepto uma: a portuguesa tão somente. Na epístola:
  • «Esta glória das estátuas e dos escudos brancos passaram depois os Atenienses às escrituras por verem que as imagens e pinturas eram mudas e não podiam recitar seus feitos. Daqui se estenderam aos Romanos e a todas as mais nações do mundo, tão desejosas todas de uma perpétua fama, que lhe não fica cousa que não seja logo por muitos e vários modos escrita. “Só a esta nossa nação portuguesa faltou esta glória…”
Felizmente Luís Vaz propõe ao rei Sebastião o livro da epopeia dos Portugueses, que anuncia que o jovem rei, maravilha fatal da nossa idade, não terá que lamentar, como Alexandre lamentou, não ter, como teve Aquiles, um Homero capaz e desejoso de cantá-lo. Digne-se o jovem rei atentar nesse livro, que lhe é dedicado:

Os olhos da real benignidade
Ponde no chão. Vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valorosos,
Em versos divulgado numerosos.
(I-9)

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Diogo do Couto a Filipe II (ai de nós!): «este volume [...] ofereço humildemente aos pés de Vossa Majestade. E só com pordes os olhos nele, haverei por bem empregadas todas as despesas e trabalhos»... que verá Vossa Majestade em tal volume?

Camões
Vereis amor da pátria não movido
De prémio vil...
(I-10)

Olhai que ledos vão por várias vias
Quais rompentes leões e bravos touros...
(X-147)

Couto
  • Aí verá Vossa Magestade as muito grandes e admiráveis façanhas, feitas por aqueles antigos governadores [...] verá Vossa Magestade, nos raros e espantosos feitos que estes seus vassalos têm feito e cada dia fazem...
Francamente! Tais vassalos os Portugueses, pode-se perguntar: não será o mesmo, ou melhor, ser rei dos portugueses, que senhor do mundo?

Camões
E julgareis qual é mais excelente
Se ser do mundo rei, se de tal gente.
(I.10)

Couto
  • com quanta mais razão pode dizer por eles [os Portugueses], o que dizia Pirro, que, se tivera os Romanos por soldados, que facilmente fora senhor do Mundo, ou eles, se o tiveram a ele por capitão.
Não é bem o mesmo decerto. Mas é uma maneira afim de preparar o incitamento onde se quer chegar. Já que são assim os Portugueses, força!

Camões
Tomai as rédeas vós do reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
- Que pelo mundo todo faça espanto -
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras e do Oriente os mares.
(I-15)

Couto
  • Mande-os, porque eles lhe levarão suas colunas mais adiante, e pô-las-ão onde Semíramis e Alexandre não chegaram!
Felizmente, ao «invictíssimo» Filipe II «não falta a humanidade e clemência de Filipo para com os seus», diz Couto. E era o que desejava Camões que não faltasse ao rei Sebastião:

Favorecei-o logo e alegrai-os
Com a presença e leda humanidade;
De rigorosas leis desalizvai-os...
(X-149)

Favorecidos pela humanidade e clemência do rei, os seus vassalos portugueses - afiança Couto - «romperão com um ânimo seguro por todos os perigos da vida»...

Romperão. Quais «rompentes leões e bravos touros», tinha escrito Camões (X-147). Com que ânimo? Ledos, diz Camões. Com um ânimo seguro, diz Couto. «Dando os corpos [...] a perigos incógnitos do mundo», diz Camões. A todos os perigos da vida, generaliza Couto. Romperão com um ânimo seguro por todos os perigos da vida (sic)». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.


Cortesia da Fundação Oriente/JDACT


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «É o zelo da conservação do nome, ilustrado por feitos, mais que o apetite de feitos militares. Alexandre não tinha outro Homero, escreve Couto, ‘para lhe acabar de rematar a sua bem-aventurança, para em tudo ser maior que todos’. E por muito maior ‘tinha esta glória de ficar no mundo vivendo por fama, que o império de todo ele’».

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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«Ao que diz, tinha concluído esse trabalho. O texto da Década, completo e passado a limpo, fora mesmo aprovado pelo douto jesuíta Paulo Ferrer e pelo Conselho da Inquisição. E, quando tudo estava pronto para se imprimir, tinha sabido Duarte Nunes que lhe tomara a dianteira uma outra “Década 4, «falsa»” escrita por um tal Couto, guarda-mor do Tombo da Índia.
Duarte Nunes não levou a sua avante. Antes os seus protestos lhe foram perniciosos. O manuscrito de Barros, e os documentos anexos, foram-lhe confiscados. A Década «falsa», teve alvará para impressão, datado de 25 de Março de 1602. E saiu nesse mesmo ano, dos prelos do Colégio de Santo Agostinho, que fizera gemer Pedro Craesbeck. Entretanto tinham começado a publicar-se em Madrid, no ano anterior, as “Décadas da História geral dos feitos dos Castelhanos nas ilhas e terra firme do mar oceano”. Autor António de Herrera y Tordesillas. Como se Couto devesse ter tido de lhe ceder a vez... Como se as Décadas dos Castelhanos, enquanto não se reatava a publicação das dos Portugueses, devessem adiantar-se a estas últimas...

Após o autor, a obra. Ponderá-la, apreciá-la, implica compará-la, o que tentaremos repetidamente com livros muito diversos. Em tais paralelos, como o texto restabelecido segundo normas seguras vai adiante, e como o dos autores aduzidos não foi objecto do mesmo tratamento, harmonizamos, modernizando razoavelmente uns e outros, como temos vindo a fazer.
A epístola dedicatória! Ao redigi-la, muito embora a dirija a Filipe II, é de Camões que se lembra Diogo do Couto. Dos heróicos dedicados a D. Sebastião pelo poeta que «morrera com a Pátria». Da memória eterna que já prometiam “Os Lusíadas” aos Portugueses e seu rei.
Já a ideia-ponto de partida, não é só epocal, mas algo camoniana: mais que pela conservação da espécie os homens forcejam por aquele arremdo de eternidade, que lhes pode valer a conservação do seu nome. Primeiro exemplo, o de Alexandre Magno.

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Ora, Alexandre é o primeiro grande do mundo que “Os Lusíadas” nomeiam:
  • «Cale-se de Alexandre e de Trajano...»
E a associação Alexandre/Aquiles, a que fornece a ideia final do poema: se eu for de vós «aceito», (e o vosso peito empreender o que se espera) a minha musa cantará de vós em todo o mundo:

De sorte que Alexandre em vós se veja,
Sem à dita de Aquiles ter inveja

Justamente Couto quer que Filipe II lhe aceite o livro. E o primeiro exemplo com que abona a ideia de que o homem forceja mais ainda pela conservação do nome, que pela da espécie, mais pela projecção da sua memória no tempo, que pela extensão do seu domínio no mundo, é urdido mediante a associação Alexandre/Aquiles. Sim, já senhor do mundo, Alexandre invejou Aquiles, porque este fora cantado de Homero, e ele, se tinha o mundo, não tinha Homero que o cantasse. Assim Alexandre teve «inveja» à «dita de Aquiles». Na pena de Couto:
  • “Disto temos um muito claro exemplo no grande Alexandre que, sendo já senhor do mundo, quando parecia que a COBIÇA humana estava satisfeita, então lhe entraram novas INVEJAS, vendo o sepulcro de Aquiles, porque não tinha outro Homero para lhe acabar de rematar sua bem-aventurança para em tudo ser maior que todos”.
Da COBIÇA falaremos mais adiante. Por agora, relevamos que AS INVEJAS, nesta acepção favorável, também são, em Camões, motor de relevantes proezas:

AS INVEJAS da ilustre e alheia história
Fazem mil vezes feitos sublimados;

Há, porém, que distinguir, neste caso de Alexandre. O filho do macedónio Filipe «não tinha em tanto os feitos gloriosos de Aquiles [...] «quanto os numerosos versos» do poeta Homero que os cantava:

Não tinha em tanto os feitos gloriosos
De Aquiles, Alexandre, na peleja,
Quanto de quem o canta os numerosos
Versos. Isso só louva, isso deseja.

Cortesia de foriente

É o zelo da conservação do nome, ilustrado por feitos, mais que o apetite de feitos militares. Alexandre não tinha outro Homero, escreve Couto, «para lhe acabar de rematar a sua bem-aventurança, para em tudo ser maior que todos». E por muito maior «tinha esta glória de ficar no mundo vivendo por fama, que o império de todo ele».
Melhor a fama que o feito. Ou, que me presta o feito, sem a fama?
Outro exemplo: Temístocles. As invejas, de Temístocles, despertam-mas que heróis, feitos ou coisas? Os troféus de Milcíades. Mesma afirmação, mesma expressão em Couto e em Camões.
Nos “Lusíadas”:

Os troféus de Mìlcíades famosos
Temístocles despertam só de inveja,

Na epístola dedicatória: «Os troféus de Milcíades o não deixavam quietar». O próprio Temístocles explica o seu sentimento: o que é que me estimula, o que é que me deleita.
Nos “Lusíadas”:

E diz que nada tanto o deleitava
Como a voz que seus feitos celebrava.

Na epístola dedicatória: «muito pensativo dizia que os troféus de Milcíades», etc.
Por um momento deixemos os clássicos. Couto acha maneira de evocar o milagre de Ourique, que significa a aprovação pelo Altíssimo da independência portuguesa. E fá-lo em termos que lembram a introdução de Camões à sua explicação das armas de Portugal. Passo de Couto:
  • “Este valoroso príncipe [D. Afonso Henriques], depois daquela tão famosa e milagrosa vitória do campo de Ourique, em que venceu os cinco reis mouros, LOGO PINTOU EM SEU ESCUDO, que ainda era branco, aquele sinal de nossa redenção, que Nosso Senhor, por muito particular mimo e mercê, lhe quis mostrar no Céu, por lhe dar esperanças da vitória”.
Couto evoca, pois, a decisão de D. Afonso, e como ela é tomada imediatamente: LOGO PINTOU NO SEU ESCUDO... O mesmo em Camões. No próprio campo de Ourique, o «grão rei», procede à pintura:
  • AQUI PINTA NO BRANCO ESCUDO UFANO... (III-53). Outro pormenor significativo neste verso: D. Afonso, ao campo de Ourique, levava ainda o escudo BRANCO. Ainda lá não representara sinal de vitória nenhuma. O mesmo o sublinha Diogo do Couto numa curta proposição temporal: «logo pintou em seu escudo, que ainda era BRANCO... ».
In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.


Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «O ano de 1602 traria grandes satisfações ao cronista. Uma carta régia a Aires de Saldanha, datada de 6 de Janeiro, começava por lhe agradecer as últimas Décadas recebidas. Não diz quais. Deve tratar-se da sexta e da décima, porquanto a sétima não chegara ao seu destino»

Cortesia de foriente

Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«Baião diz que o cronista foi contemplado com um novo cargo, escrivão da alfândega de Diu, em 29 de Março de 1601. A decisão real nesse sentido teria sido, aliás, pela primeira vez redigida em 28 de Janeiro de 1598. Nesse ano o ordenado do historiador foi aumentado em cento e vinte mil réis pelo «trabalho que [tinha] na escritura da Índia». Veríssimo Serrão entende que foi a um homónimo do autor das Décadas, e não a ele mesmo, que o rei fez mercê do tal cargo. É curioso haver um documento, já publicado por Rivara, que, em 2 de Agosto de 1584, fazia «um» Diogo do Couto escrivão da alfândega de Ormuz.
Certo é que, em 1601, compôs e concluiu o nosso Diogo do Couto a primeira versão da “Década 7”. Abrange esta o período que vai de 1554 a 1564. O manuscrito foi mandado para o reino na armada desse ano, na nau “Santiago”. Infelizmente, segundo afirmaria Couto mais tarde, a nau teria sido atacada, e o manuscrito ter-se-ia perdido, ou teria sido levado pelos atacantes. Estes teriam sido, segundo o próprio Couto, marinheiros ingleses. Boxer acredita na abordagem e no roubo, mas rectifica: zelandeses.

O ano de 1602 traria grandes satisfações ao cronista. Uma carta régia a Aires de Saldanha, datada de 6 de Janeiro, começava por lhe agradecer as últimas Décadas recebidas. Não diz quais. Deve tratar-se da sexta e da décima, porquanto a sétima, como acabamos de ver, não chegara ao seu destino. As directivas dessa carta fundam-se declaradamente em informações prestadas por D. Francisco. Outra carta régia do mesmo mês ao mesmo destinatário, e escrita como a precedente em Valladolid, ordena que se construa um edifício novo que sirva de Tombo em Goa, e se dêem todas as facilidades a Diogo do Couto, a fim de ele poder escrever a história da Índia. Uma provisão régia de 13 de Fevereiro do mesmo ano (1602), insiste por que seja cumprida a provisão precedente (1595), que ordenava a criação do arquivo, e nomeava seu guarda-mor Diogo do Couto. Mas a de 1602, mais minuciosa que a anterior, discrimina o género de documentos que hão-de ser confiados à guarda do arquivista, e consagra, de algum modo, o seu triunfo sobre a opinião restritiva, neste particular, de Matias de Albuquerque.

Cortesia de foriente

Praticamente, devia agora ficar em mãos de Couto toda a documentação que existia na Índia, sem exclusão dos Tombos das aldeias da ilha de Goa, nem dos acervos relativos às circunscrições de Salsete e Bardês, nem dos livros de despachos (tanto organizados como a constituir), nem sequer dos livros de chancelaria. Para se medir o benefício, de que o cronista passava a fruir, convém lembrar que os papéis de Salsete e Bardês se encontravam até então em poder dos vigários das freguesias, e os livros de chancelaria em mãos do próprio governador do Estado. A provisão especifica que, se os párocos se mostrassem renitentes, fossem obrigados pelo arcebispo a entregar os papéis. Única sombra no quadro: o guarda-mor não passaria certidões sem autorização do vice-rei.

Como se a provisão referida não bastasse, Filipe III insistia, em 26 de Fevereiro de 1602, em carta a Aires de Saldanha, por que fossem cumpridas as disposições relativas ao Tombo e ao seu guarda-mor. E escrevera a este último, quinze dias antes, em termos muito lisonjeiros e promissores. Dizia o monarca que tinha visto as Décadas. Considerava-as excelentes. Lera também com atenção uma carta e um apontamento que Diogo do Couto lhe fizera chegar. Reflectira no que ele lhe dizia sobre a Torre do Tombo da Índia, e achava que tinha muita razão. De acordo com os informes prestados por Couto, dera ordens ao vice-rei, que seguiam pelo mesmo correio. Esta última notícia é tão significativa que merece transcrição:
  • [...] conforme ao que se contém em vossos apontamentos, mandei passar provisões que irão nestas vias, que mando ao vice-rei Aires de Saldanha, que faça cumprir inteiramente.

Cortesia de foriente

Por estas palavras é reconhecida a Diogo do Couto, na Índia, até perante o vice-rei, uma posição de excepcional importância. O rei aceita ser informado directamente por ele, e o vice-rei recebe provisões e ordens, que deve «fazer cumprir inteiramente», as quais provisões dão seguimento e satisfação às informações e pedidos do cronista. Mais, Filipe III recomenda ao próprio Couto, como a interlocutor privilegiado, que não deixe, POR SEU LADO, de as fazer cumprir. Enfim, manda que Couto continue a prestar-lhe informações. E dá-lhe mesmo a esperança de as decisões da Coroa virem a ser tomadas, em função do que o seu cronista e informador lhe mandar dizer:
  • «E vos encomendo muito que de vossa parte procureis a execução delas [provisões enviadas a Aires de Saldanha], e me aviseis de todas as mais coisas, de que vos parecer que devo ter informação, para nelas mandar prover como houver por bem».
Quanto à história da Ásia, ordena Filipe III que Diogo do Couto a vá continuando, e que vá expedindo as Décadas para o reino à medida que as for concluindo. Mas não parece que as sujeite, como antes Filipe II em tempo de D. Francisco, a exame prévio do vice-rei. Dir-se-ia que a posição relativa do vice-rei e do guarda-mor, impossível de fixar em tempo de Matias de Albuquerque, favorável ao vice-rei em tempo de D. Francisco, acabara por se inverter em favor do arquivista-cronista. Mas a impressão das Décadas? Quando já a mais antiga, de Couto, a mais cedo terminada ou seja a “Década 4”, estava no Prelo, protestou Duarte Nunes de Leão. Um texto deste último, publicado por António Baião, explica o ponto de vista e as pretensões do escritor eborense que tão calorosamente defendera o partido de Filipe II na questão sucessória de Portugal.
Duarte Nunes fora incumbido pelo rei de preparar para o prelo o manuscrito da quarta de Barros, por este deixada imperfeita e inédita». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «Também a mudança de vice-rei afectou o retrato do Descobridor, que D. Francisco mandara executar. Passou a lugar de menos vista em sala de menos pompa, conforme registaria Diogo do Couto, juntando que não sabia quem ordenara a transferência. Naturalmente sabia...»

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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto (Coimbra Martins)
«Nestas naus de 1600, sentido Goa/Lisboa, ia finalmente a “Década 10” de Diogo do Couto, que abrange a história da Ásia portuguesa de 1581 a meados de 1588. Ele mesmo o diria pouco mais tarde, sem precisar em mãos de quem. Nas do ex-vice-rei em desgraça devia ir o Tratado dos Gama, mas a esse nunca o cronista aludira nem aludiria em passo nenhum da sua obra conhecida.

O ano de 1601, e com ele o século, começam em «viradeira» contra D. Francisco e a «estirpe» dos Gama. Inversão da fábula: não pagara o bisneto, pagasse o avô, ainda que em estátua. A de Vasco da Gama, na porta do cais, apareceu coberta de imundícies. Depois, na noite de 3 para 4 de Janeiro, perdeu a cabeça e os braços. Uma das mãos foi atada a um bambu, e pendurada na porta da cidade. A cabeça, de que tinham saltado muitos pedaços da barba, foi simbolicamente posta em cima do pelourinho. Quando amanheceu, apareceu um chito, como se dizia na Índia, pendurado num dos mastros do terreiro:
  • «Quem souber deste caso e o descobrir, custar-lhe-á a vida».
Na noite do desacato, Aires de Saldanha, que ainda não fizera a sua entrada solene em Goa, encontrava-se na casa dos Reis Magos. Logo que soube do distúrbio, escreveu uma carta enérgica, e mandou o licenciado Silvarte Caeiro da Grã, que era ouvidor-geral do crime, tirar devassa. Além disso, fez divulgar que seriam pagos, no acto da denúncia, duzentos pardaus a quem fosse em segredo declarar as pessoas culpadas do desacato. Se o denunciante se encontrasse pronunciado por qualquer delito, mesmo que incorresse em pena de degredo, logo ficaria amnistiado. E, se fosse escravo, logo lhe seria dada alforria. O chito, porém, amedrontou mais do que a devassa, levada a cabo, mas pouco concludente.

 
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De resto, nem só a estátua sofreu. Também a mudança de vice-rei afectou o retrato do Descobridor, que D. Francisco mandara executar. Passou a lugar de menos vista em sala de menos pompa, conforme registaria Diogo do Couto, juntando que não sabia quem ordenara a transferência. Naturalmente sabia...

Como para compensação dos dissabores da partida, D. Francisco fez óptima viagem até ao reino. A sua nau foi a primeira, diz Faria e Sousa, que passou da Índia a Lisboa sem arrear as velas. Mas rebentaram as tormentas dos homens, após a bonança dos elementos. O autor da “Ásia Portuguesa” e laborioso comentador de Camões não diz as que esperavam o conde em Lisboa. Movera-lhe a corte um processo por dilapidação da fazenda real.
Em que situação ficava Diogo do Couto, que dependera inteiramente do Vidigueira, e servira com zelo os seus desígnios? Diria mais tarde o soldado prático que sempre fugira de devassas. Mas, na ocasião desta, não se livrou o cronista de ser nomeado. Infelizmente esta menção do cronista não nos fornece nenhum elemento sobre ele. Foi um tal Álvaro de Carvalho, servidor do Conde Almirante, que se referiu a Diogo do Couto. Mas o papel em que foram registadas as declarações acha-se dilacerado. Percebe-se o nome da pessoa. Não o que dela foi dito.

Cortesia de foriente

Certo é que, se houve para Couto um mau bocado a passar, não durou muito. Quase nada. De resto, quem conhecia até onde fora o cronista? Ter contado os milagres que assinalaram a passagem de D. Cristóvão da Gama à bem-aventurança; ter discursado na inauguração do retrato do navegador; ter pretendido primeiro que Vasco da Gama devia ser cognominado o Índico; e depois, que a Índia devia ser chamada não mais Índia, mas a Gama; ter sustentado que o governo da Índia devia ser pertença hereditária dos Vidigueira; ter escrito o tratado das façanhas desta família; nada disso o impediu de botar novamente palavra quando foi entronizado em Goa o vice-rei Aires de Saldanha. Barbosa Machado teve notícia da competente oração. Começava pelas palavras:
  • «Aquele grande Teopompo, rei dos Lacedemónios...»
In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.


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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «Em fins de 1599 negociava D. Francisco as naus destinadas a Lisboa, após ter tratado da armada do Malavar, à qual competiria a segunda expedição contra o Cunhale. Do reino, tinha chegado a armada de D. Jerónimo Coutinho com notícias da morte de D. Filipe II, e também do único filho varão do vice-rei»

Cortesia de foriente

Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«Contraste impressionante: enquanto o cronista escrevia as glórias dos Gama passados, o Gama presente, o vice-rei, acumulava os desaires. O mais deplorável foi o desastre de D. Luís, seu irmão mais novo, prematuramente feito capitão-mor da armada despedida contra o que passava então pelo mais incómodo, perigoso e arrogante inimigo do Estado; o Cunhale Marcá, «mouro arábio de casta naiteia», que, com fortaleza sobre a foz do rio Cunhale, do qual tomara o nome, fazia sombra ao próprio Samorim, e se intitulava «rei dos mouros do Malavar, e Senhor de todo o mar da Índia». A expedição redundou numa «das mores desaventuras e afrontas que os Portugueses passaram na Índia»... Em Goa a má vontade contra D. Francisco, e contra o culto dos Gama, aumentava de dia para dia, e tomava poder o arcebispo frei Aleixo, que se metia em tudo.

Em Novembro (1599) havia Couto concluído o seu «Tratado dos Gama», cuja epístola dedicatória a D. Francisco tem data de 16. Não se conhece o manuscrito original desta obra. Mas conservam-se, na Biblioteca Nacional de Lisboa, uma cópia completa, e na Torre do Tombo, uma cópia truncada mais antiga. Mais de uma vez se projectou a edição, que nunca se realizou. O «Tratado» não tem valor histórico: é uma pura decocção do ; que tinham escrito sobre Vasco da Gama e os seus filhos, Barros, Góis e o próprio Couto. Abrange desde a viagem de descoberta até ao tempo de D. Álvaro de Ataíde, filho do descobridor, como capitão de Malaca, que corresponde ao capítulo VII do livro X da «Década 6».


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Em fins de 1599 negociava D. Francisco as naus destinadas a Lisboa, após ter tratado da armada do Malavar, à qual competiria a segunda expedição contra o Cunhale. Do reino, tinha chegado a armada de D. Jerónimo Coutinho com notícias da morte de D. Filipe II, e também do único filho varão do vice-rei (do primeiro casamento): Vasco, como o descobridor. No sentido Goa/Lisboa, na armada que se estava a preparar iria o manuscrito da «Década 6». O respectivo «visto de saída» parece uma feliz consequência da conclusão e entrega ao vice-rei, do «Tratado» encomendado.
Foi certamente no último ano do século que Couto converteu em Década a «Crónica da Ásia filipina», que iniciava a história do segundo ciclo da Ásia portuguesa. Esse ano de 1600 começara com uma nova armada, comandada por André Furtado de Mendonça, na foz do rio Cunhale. Em Goa, recolhera-se ao mosteiro dos Agostinhos, o príncipe de Abadaxão, convertido ao cristianismo em Ormuz. Couto diz que o ia visitar. Em 21 de Fevereiro, o rei, que decidira substituir D. Francisco no governo da Índia, nomeou para o almejado cargo o escalabitano Aires de Saldanha, filho daquele António de Saldanha que fora capitão de Sofala, e andara com Afonso de Albuquerque. Em Março, na iminência do ataque ao Cunhale, André Furtado discutia o caso com o Samorim, nosso aliado mais ou menos sincero naquela empresa. O ataque deu-se, foi bem sucedido, e os Portugueses apoderaram-se do Cunhale e do seu acólito Chinale depois de estes se terem rendido, e entregado ao Samorim. A fortaleza foi destruída no dia 22.


Cortesia de foriente

Vitorioso e de posse dos chefes inimigos, André Furtado partiu no dia 25, fez escala em Cananor, e surgiu na barra de Goa a 11 de Abril. As desinteligências com D. Francisco imediatamente começaram, não devia o vice-rei ainda saber que o seu governo se aproximava do fim.
A 24 de Abril deu à vela, em Lisboa, a armada de Aires de Saldanha. Mas o novo vice-rei não chegaria a tempo de pôr tento, se é que o desejaria, na vingança que se tirou do Cunhale e dos seus. Logo ao desembarque dos «bárbaros gentios» houve mortos por linchagem, e os prisioneiros foram deitados no Tronco de Goa. Diogo do Couto não ia só visitar príncipes e embaixadores. Também refere que foi trocar impressões com o Cunhale e o Chinale, e que o primeiro lhe deu uma lista dos principais entre os seus, perdidos na batalha. Sem embargo do desastre do irmão no ano precedente, D. Francisco chamou a vitória a si, e quis equiparar a destruição do Cunhale aos triunfos de D. João de Castro e Matias de Albuquerque, ordenando procissão e missa cantada anuais no dia da façanha. Couto defende esta posição, mas narra sem aplauso o suplício do Cunhale e do Chinale, executados publicamente, antes com velada admiração pelo primeiro, que afrontou a morte recusando a conversão, ao contrário do segundo.
A sua cabeça foi salgada e ìevada a Cananor, onde a arvoraram na praia sobre uma haste, «para terror e espanto dos Mouros». A armada do novo vice-rei chegou a Cochim a 28 de Outubro (1600). Nesta cidade, Aires de Saldanha deu ordem para D. Francisco passar imediatamente os poderes ao arcebispo, de quem os cobraria ele próprio.
As naus em que devia regressar o Vidigueira a Lisboa ficaram prestes em Dezembro. Na iminência de levantarem ferro, inimigos do conde içaram num mastro do vaso, em que ele devia embarcar, um boneco do tamanho de um homem, simulando um enforcado. Outros armaram-lhe urna espera no meio do caminho, por onde o ex-vice-rei havia de ganhar o porto. Mas D. Francisco, talvez prevenido, embarcou à socapa, a hora inesperada.
Novas contrariedades o esperavam a bordo. Faria e Sousa diz que o orgulhoso conde vendo o boneco enforcado no mastro, perguntou a quem representava. Responderam-lhe que a ele mesmo. O conde teria mandado deitar a figura ao mar, e levantou ferro. Dois dias depois teve de voltar a Goa, a fazer provisões, porque as aves que levava para a viagem tinham todas morrido. Mão inimiga deitara-lhes veneno na ração». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.


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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «O teor do discurso constitui uma clara prova da sujeição do cronista aos desígnios próprios do ambicioso Vidigueira, desejoso de enraizar em Goa o culto dos Gama. Mais tarde, sempre por sua iniciativa, seria colocada, sobre a porta do cais dos vice-reis, da banda de fora, uma estátua do descobridor, que daria muito que falar»


Cortesia de foriente

Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto.
«Por meados deste período de trabalho encarniçado, a corte, que se mostrara tão favorável a Diogo do Couto, começou a interrogar-se sobre o homem. A breve prazo iria até pôr em questão a nomeação, comunicada em 1595. Conhecem-se duas causas para esta mudança de atitude:
  • a posição de Matias de Albuquerque relativamente aos papéis da Índia,
  • e informações prejudiciais, chegadas à mais alta esfera, sobre as capacidades de Diogo do Couto, e a sua «pureza de sangue».
Devido a esta mudança de atitude, o sucessor de Matias de Albuquerque, que foi D. Francisco da Gama, viria a ter nas mãos o destino do diligente e rápido cronista. Podia-lhe ter cortado a crónica. Não o fez. Era bisneto de Vasco da Gama, a quem Luís de Camões cantara. E tinha desígnios muito próprios sobre a Índia, que considerava domínio dos Vidigueira. Convinha-lhe um homem de letras, que não só cantasse os fastos do seu governo, como defendesse na praça, e fixasse em escritura, os direitos da sua família, tal como ele os entendia.


Cortesia de foriente

O rei escrevia-lhe que distinguisse entre os documentos que podiam ou não ser confiados a Diogo do Couto; que expusesse a sua opinião sobre o regimento do arquivo; que ponderasse se havia de ser Couto a passar as certidões; que lesse as Décadas que ele ia compondo, e desse sobre elas a sua sentença; que, de acordo com o arcebispo de Goa (frei Aleixo de Meneses), se pronunciasse sobre o homem, de quem era informado que tinha «falta em seu nascimento». Se Couto lhe parecesse a pessoa indicada para organizar o arquivo, e escrever a história da Ásia, que o ajudasse em tudo. Caso contrário, escolher-se-ia pessoa mais capaz.
Couto era tão hábil e dissimulado no seu trato com as altas personagens, como crítico e amargo no seu foro interior. D. Francisco deu boas informações dele ao rei. Em contrapartida, o «soldado-escritor» assumiu o compromisso, tácita ou explicitamente, de defender a causa dos Vidigueira, escrevendo a história de um ponto de vista compatível, e colaborando na promoção do culto dos Gama no Estado. Esta aliança fora rapidamente concluída antes mesmo de o vice-rei receber as instruções do rei, que mais decisivamente o faziam juiz da sorte do nosso autor.

Cortesia de foriente

A tomada de posse de D. Francisco em Goa teve lugar no dia 1 de Junho de 1597. Pelo Natal inaugurou-se nos Paços da cidade um retrato de Vasco da Gama em tamanho natural, e Couto foi o orador oficial da cerimónia. O teor do discurso constitui uma clara prova da sujeição do cronista aos desígnios próprios do ambicioso Vidigueira, desejoso de enraizar em Goa o culto dos Gama. Mais tarde, sempre por sua iniciativa, seria colocada, sobre a porta do cais dos vice-reis, da banda de fora, uma estátua do descobridor, que daria muito que falar.
Entretanto o cronista não esmorecia nas diligências em prol da sua própria obra. Nas naus de 1597, que deram à vela em 17 de Janeiro de 1598, iam o manuscrito da «Década 4», ou os manuscritos das «Décadas 4 e 5».
Couto referir-se-á mais tarde a um só, ou a ambos, quando evocar esta armada em diferentes ocasiões.

Em 1598 agrava-se o estado de Filipe II que morrerá nesse ano em 13 de Setembro; e multiplicam-se, relativamente à Índia, as medidas, que já vinham do ano anterior, favoráveis aos fidalgos dos quatro costados e aos cristãos velhos, e contrárias a judeus, cristãos-novos, gentios e mestiços.
Entretanto Couto continua a trabalhar na «Década 6», e nada faz crer que tenha sido incomodado por este rigor novo. Somente D. Francisco concebe um projecto que não lhe deve ter dado alegria. Não tinha um cronista à sua disposição? Pois que o cronista fizesse uma pausa nas suas Décadas, e, em vez de escrever a História da Ásia, consagrasse antes a sua pena a narrar as façanhas dos Gamas naquelas partes. E isto, desde o início, desde Vasco da Gama, desde a partida do seu bisavô, de Belém». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

http://www.angelus-novus.com/admin/livros/uploads/soldado_pratico_E.pdf

Cortesia da Fundação Oriente/JDACT