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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Vida de Nun’Alvares. Oliveira Martins. «E não sei no mundo que hoje me podesse confortar mais, como ver tão santo cavalleiro, como tu has de ser. E como tu verás maravilhas que excederás; porque Deus, que te fez nascer em tal pecado…»

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Conforme o original

O prior do Hospital
«(…) O logar de Tristão achava-se vago na Mesa redonda dos cavalleiros: foi esse logar que Nun’Alvares, ou Galaaz, preencheu. Era um sólio perigoso, uma cadeira de morte, que acabava com todos os que nella se sentavam. Quando o heroe appareceu na sala, cerraram-se todas as portas e janellas por encanto; mas um raio de sol, entrando milagrosamente, illuminou em cheio a figura do heroe que aparecia armado de loriga e bravoneiras, com dois signaes vermelhos sobre o braço. Por onde entrara? Ninguém o vira. Com elle vinha um ermitão, que assim disse para o rei Arthur: eu te trago o cavalleiro desejado que vem d’el-rei David e de José d’Arimathea, por quem as maravilhas d’esta terra e das outras haverão acima. E Galaaz sentou-se na cadeira terrível, dizendo todos compassadamente: Galaaz, sêde o bem-vindo! Era aquelle o bastardo de Lançarote do Lago, sobrinho do rei Marte da Cornualha: o cavalleiro de quem Merlim e os prophetas haviam fallado como o que descobriria o Santo Graal, terminando assim as aventuras do reino de Logres. Era elle que havia de descobrir o sacrario da pátria, dando a commungar aos seus filhos a hóstia santa do sacrifício; era elle quem terminaria, também, as aventuras do reino de Portugal, com façanhas que gradualmente iam avultando na sua imaginação, á medida que os annos cresciam, e, com o crescer, o sol da vida, subindo, ia desmanchando as névoas da flor da terra. Em torno da Mesa sentavam-se, confundidos em admiração, os cento e cincoenta cavalleiros presididos pelo rei Arthur. Eram Booz de Gaunes, o velho pae do presidente e do imperador Alaino de Constantinopla, nascido de uma filha do rei da Gran-Borgonha, que o seduzira por encantamento, obrigando-o a mentir aos votos de castidade; era Percival, de Galles, e Eric, o filho d’el-rei Lot; eram Ganet e Garriet, Leonel e Brandinor, Ocursus-o-negro, Orinides-o-branco, e Sagramor, e Gardamontanha, mais Arnal-o-formoso, com Martel-do-grande-escudo, e os outros em cujo gremio entrava Galaaz, como Nun’Alvares, quando o pae o levou á corte d’el-rei Fernando I, em 1373.
A idéa da partida para Santarem, á corte, apparecia-lhe como a do seu heroe para a sala dos cavalleiros: ia sentar-se ahi na cadeira vasia e terrível, para vencer o Fado n’uma successão de aventuras e façanhas inauditas. Também levava uma armadura forjada com o lume da virtude; e mais de uma vez simulara com os ermitões do Bomjardim a scena do cemitério, quando Galaaz quis ver a campa do cavalleiro desleal sobre que os demonios dançavam em permanencia. O defunto gemia agonias no seu tumulo, ensombrado por uma velha arvore, e, soluçando, pedia a Galaaz que se afastasse; mas o cavalleiro impavido levantou a campa, d’onde sahiu um fumo negro como pez, depois chammas, depois o próprio demónio em pé : ai, Galaaz, santa coisa vejo em ti… Vejo-te cercado d’anjos, que não posso durar contra ti. E porém te deixo o meu logar, em que longo tempo folguei… E foi-se o diabo. No fundo do tumulo estava o defunto armado. E a historia termina dizendo que a campa do moimento demonstra a dureza dos corações que Nosso Senhor achou no mundo, quando aqui veio. porque na terra nom achou el se nom duros corações: e bem parecia, porque o filho não amava o pae. nem o pae o filho, e por isto iam todos ao inferno.
Já as historias tinham um symbolismo moral; e esse momento novo da educação entrava no espirito do nosso heroe, apresentando-lhe a vida como um exercício de virtude, ensinando-lhe que o mérito das acções não está no que são, mas sim no que significam; dizendo-lhe que o supremo destino da existência é converter os homens ao bem, levantando de sobre elles a campa dos pecados da carne, em corações endurecidos pela vida bravia dos tempos. Por isso o ermitão acompanhara sempre Galaaz, para lhe mostrar a significação e o alcance dos lances da sua vida aventurosa, como os coros da tragedia antiga, commentando as acções dos heroes. E Nun’Alvares relia a falla do ermitão, onde se faz a apotheose da bastardia, considerando-se necessário o peccado de origem para a consummação das façanhas: filho! Coisa santa e honrada, flor e louvor de todos os mancebos, outorga-me, se te praz, que te faça companhia em toda a minha vida, emquanto te puder seguir... E não sei no mundo que hoje me podesse confortar mais, como ver tão santo cavalleiro, como tu has de ser. E como tu verás maravilhas que excederás; porque Deus, que te fez nascer em tal peccado, como tu sabes, por mostrar seu grande poder, essa grande virtude te outorgou por sua piedade e pela boa vida que tu começaste de tua meninice até aqui, que te dará poder, e força, e bondade de armas e de ardimento sobre todos os cavalleiros que nunca trouxeram armas no reino de Logres (ou de Portugal?) assim que tu darás acima a todas as outras maravilhas e aventuras, onde todos falleceram e fallecerem. E quero todos teus feitos saber que acabarás, pois foste feito em tal peccado, onde os outros não poderam vir, que foram feitos em leal casamento…
Assim educado, partia Nun’Alvares para a corte aos treze annos. A própria bastardia que, embora corrente e commum no tempo, podia levantar-lhe pensamentos deprimentes do animo, encontrava sancção e apotheose nos livros da sua paixão. Os bastardos eram eleitos. Deus escolhia os manchados por esse peccado de origem. A virtude do peccador é preferente. Ia disposto a exceder todas as façanhas e prodígios, de valor e de abnegação. Floria-lhe o lyrio da virtude cândida na alma ingénua; pulava-lhe nas veias o sangue com os impulsos da força exuberante». In Oliveira Martins, A Vida de Nun'Alvares, História do estabelecimento da dinastia de Avis, Livraria de António Maria Pereira, Editor, 1893, Makew Parr Collection/Magellan and the Age of Discovery/Presented to Brandies University, 1961.

Cortesia de LAPereira/JDACT

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A Vida de Nun'Alvares. Oliveira Martins. «Da Idade Média, germinando nestes elementos sociais e morais, brotou a flor extravagante da Cavalaria, ideia incoerente e superiormente bela, em que as contradições do pensamento contemporâneo e a noção caótica da vida e do mundo…»

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Conforme o original

O prior do Hospital
«D'isto veiu a instituição dos monges militares; e neste sentido, o prior do Hospital era um homem typo do seu tempo. Era-o também, como astrólogo, porque a astrologia, exprimindo as ambições do espirito secular, surge como a alvorada do pensamento scientifico desabrochado na Renascença. Era-o, finalmente, na carnalidade dissoluta dos seus costumes, geral a uma época libertina, particularmente na Hespanha, onde o exemplo da polygamia musulmana mais concorria para obscurecer o instincto casto do povo aryano.
Da Edade-média, germinando n'estes elementos sociaes e moraes, brotou a flor extravagante da Cavallaria, idéa incoherente e superiormente bella, em que as contradicções do pensamento contemporâneo e a noção cahotica da vida e do mundo apparecem sublimadas, aspirando para um ideal indefinido, subindo para as nuvens, como as agulhas dos  templos, braços erguidos, de mãos postas, para o céo. O valor e o milagre, o heroe e a protecção de um Deus sempre activo, o destino sacrosanto da vida votada ao resgate do tumulo do Redemptor, a definição paradoxal do heroismo pela abnegação e sacrifício, a castidade e a pobreza no império desbragado da luxuria e da cubiça: uma como que volta dos sentimentos moraes constitucionaes do tempo, contra a realidade, exagerando a vida activa para a negar absolutamente, extrahindo do naturalismo espontâneo dos costumes um idealismo phantastico: eis ahi o que foi a Cavallaria, que apparece, ao terminar da Edade-média, como flor da poesia, sempre nihilista.
Foi assim também que do herdeiro de Rodrigo Gonsalves, o heroe bravio da tragedia de Lanhoso, do turbulento bispo Gonçalo, e do prior, pae de trinta e dois filhos, nasceu Nun'alvares. Trazia hereditariamente comsigo todos os elementos que geraram a Cavallaria, e por isso a flor incoherente da Edade-média appareceu humanizada no bastardo de fr. Álvaro. Os homens superiores são sempre symbolos: nem a superioridade está n'outra coisa. O homem é maior, ou menor, conforme a porção de humanidade que lhe corre na alma. E para que a este caracter typico de Nun'alvares não faltasse um único traço, veiu também ao mundo por bastardia. Porque será que o instincto agudo se compraz na antithese, sublimando quasi sempre a negação da ordem? Será a adivinhação de que essa ordem é apenas abstracta, e um ente de razão, visceralmente opposto á anarchia real das coisas?
Tudo, pois, fadava Nun'alvares para heroe da Cavallaria nacional; e a iniciação que o pae e o seu astrólogo pedagogo, mestre Thomaz, lhe deram nos livros da época, definiu, logo desde a infância, o caracter predestinado do futuro condestavel de João I.
  • ‘Havia grão sabor e usava muito de ouvir e ler livros de historias, especialmente usava mais ler a historia de Galaaz, em que se contem a somma da Tavola Redonda’.
Pela primeira vez surgia em Portugal um homem formado pela educação litteraria, mas este género, que posteriormente foi até á cópia servil, iniciava-se de um modo ainda espontâneo. Com o crescer dos annos, Nun'alvares ia creando em si uma natureza nova, assimilando, sem o sentir, a alma phantastica de Galaaz: n'uma confusão de realidade e fabula, num mixto de pureza e extravagância, como tudo quanto o rodeava e lhe constituía o ambiente phantasmagorico da vida. Essas primeiras impressões cunharam-se-lhe de um modo indelével no espirito infantilmente plástico; e nem de longe sonhava que o facto de se confundir a si com Galaaz, irmãos na bastardia: o facto de ambicionar gloria igual, e ir fantasiando uma existência semelhante de sacrifícios e aventuras: o facto de se estar formando, assim, por educação litteraria, em vez de obedecer espontaneamente á lei da natureza, era o signal certo de que os velhos tempos acabavam com elle.
Surgia, com effeito, uma éra nova para o mundo, para Portugal. Nun'alvares, sem duvida alguma, foi o nosso Messias. Remiu-nos a um tempo do peccado antigo da inconsciência, definindo claramente o destino piedoso e heróico da vida, sobre o passado de inconsciência bravia. Remiu Portugal do captiveiro castelhano imminente, abstraindo a nação dos limbos obscuros da politica pessoal dos reis, para a assentar sobre os alicerces firmes da vontade popular; acclamando-a n'um voto de acção heróica, e deixando-a, de pé e armada, prompta para a conquista do seu logar épico na historia da civilisaçao moderna. Mal pensava em creança Nun"alvares, ao ouvir a historia de Galaaz, cujo ‘corpo bem talhado e contenente manso’ era também como o d'elle próprio, que tal seria a sua demanda do Santo-Sepulchro e do Graal de José de Arimathea! As phantasmagorias que lhe enchiam de assombro educativo a imaginação infantil haviam de tornar-se, porém, em realidades gloriosas. Seria o Galaaz portuguez: não um typo de phantasia, mas sim um homem, com a idéa, porém, doidamente arrebatada pelo mysticismo cavalleiroso. Seria o precursor das gerações alumiadas pelo claro pensamento que na sua infância, e n'esse signo fatídico traçado á sua vida pela phantasia de um poema, desabrochava com todo o viço e toda a frescura espontânea de uma alma virgem, temperada no aço do heroísmo, coroada com assucenas de piedade mystica. A poesia foi, será sempre, iniciadora e medianeira. Por mão d'ella sahia, primeiramente, o pensamento, das névoas da inconsciência espontânea e natural, para o reino claro da razão reflexiva». In Oliveira Martins, A Vida de Nun'Alvares, História do estabelecimento da dinastia de Avis, Livraria de António Maria Pereira, Editor, 1893, Makew Parr Collection/Magellan and the Age of Discovery/Presented to Brandies University, 1961.

Cortesia de Livraria António Pereira/JDACT

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Crónica do Condestável de Portugal, Nuno Álvares Perira. Mendes dos Remédios. «Tal era a fina flor da cavalaria interpretada pelos seus mais distintos representantes! É também digno de nota o seu procedimento para com as mulheres, os oprimidos e os fracos, a sua magnanimidade para com os inimigos, a sua generosidade para com os adversários»

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«A morte de sua esposa fechou o ciclo da sua aventura material. Por mais que o seu nome, o seu destino, a sua situação única e privilegiada parecessem encaminhá-lo noutra direcção, não mais Nuno Alvarez consentiu em submeter-se ao que lhe apontavam como uma condição de glória.
Não foi possível convencê-lo de um segundo matrimónio. E mais tratava-se ainda de uma nobre donzela, Beatriz de Castro, filha do conde Álvaro Pirez de Castro, conhecida também pela sua formosura. Nuno Álvaro fugiu de Braga, não vendo outra forma de evitar as pressões que de todos os lados se moviam e no receio de, como lhe sucedera da primeira vez, lutar…. Para vir a ceder, ou então, como era seu desejo, vencer, mas à custa do descontentamento dos seus amigos, do rei e da rainha, que também se achavam em Braga, de todos, enfim, que gravitavam em volta dele, e nele viam já um homem superior ao seu meio e ao seu tempo. Parece-me que deixo em Braga a nuvem que me pesava sobre o coração! Dizia aos companheiros da viajem, já a caminho das terras de entre Tejo e Odiana.
Entretanto Nuno Alvarez não era um coração fechado aos sentimentos da benevolência, da doçura e da mansidão. Nem uma só vez a sua linha de perfeito cavaleiro, generoso e magnânimo, obliqua para a crueldade. Sabe-se como na Idade Média eram considerados os delitos cometidos contra a religião ou os lugares e objectos sagrados. O sacrilégio assumia as proporções dum facto delituoso sui generis, para que era difícil obter absolvição.
Achava-se um dia num lugar de Castela quando lhe vieram dizer que um escudeiro da sua hoste, Gonçalo Gil de Veiros, roubara duma igreja um cálix. Preso, justiçado, sentenciado, o Condestável ordenou que ele fosse queimado. Acudiram pressurosos em favor do miserável os capitães e cavaleiros. O Condestável cedeu por fim, parecendo contrariado somente para melhor manifestar o seu desgosto e convertendo a pena na proibição de que esse soldado de futuro pudesse fazer parte e combater incorporado na sua vanguarda!
Tal era a fina flor da cavalaria interpretada pelos seus mais distintos representantes!
É também digno de nota o seu procedimento para com as mulheres, os oprimidos e os fracos, a sua magnanimidade para com os inimigos, a sua generosidade para com os adversários. Preparava-se-lhe um dia uma emboscada, onde o prendessem e acabassem. Era em Coimbra. Uma condessa, mulher do conde Henrique Manoel, lembrara-se de vingar o marido, que, quando governador de Sintra, o Condestável derrotara. Juntando parentes e amigos, assoldadando homens de guerra, ela pretendia apossar-se de Nuno Alvarez e da sua gente, preparando tudo secretamente.
Mas os soldados do Condestável souberam-no e, conquanto poucos em numero, logo resolveram o assalto aos paços da condessa, fazendo-lhe pagar caro a insidiosa emboscada. Nuno Alvarez soube-o à última hora, e logo correu a prevenir a violência dos seus, quebrando com esta generosidade a hipocrisia da violência, que lhe preparavam.
Doutra vez tratava-se do assalto a um dos castelos mais fortes que se conhecia, o qual estava pelo lado de Castela. Nada fazia recuar os homens de armas que militavam sob as ordens do Condestável.
A bravura do chefe comunicava-se-lhes. Já se julgavam invencíveis como participantes da excepção, que o cobria a ele. Assim, quando, desta vez, acometeram o castelo de Neiva, Nuno Alvarez não o sabia. Participando-lho, chegou tão asinha como pôde, e como quer que o alcaide fosse morto dum golpe que lhe abriu o bacinete, o castelo rendeu-se. Temendo desacatos à sua pessoa, a mulher do alcaide veio então ter com o Condestável pedindo ‘que lhe mandasse guardar sua honra’. No dia seguinte alguns escudeiros e homens de pé conduziam-na com toda a segurança e respeito a seu pai, inimigo de Portugal e portanto de Nuno Alvarez, pois estava em Ponte de Lima, que sustentava por el-rei de Castela.
E não lemos nós aquele tocante episódio demonstrativo da sua muita bondade natural, acontecido com um cego…? Nuno Alvarez vinha a caminho de Coimbra, tendo partido de Torres Vedras com todos os seus homens e a população do burgo, que, com medo das represálias dos castelhanos, se abalou em massa atrás das hostes do Condestável. Torres Vedras estava pelos espanhóis e tornando-se improfícua uma tentativa de assalto por meio de mina o Condestável resolveu-se a sair para Coimbra, onde iam celebrar-se as cortes para a aclamação de João I. Na abalada ouviu-se então, por entre o vozear dos que partiam, os gritos dum pobre cego rogando que o não deixassem ali. Nuno Alvarez mandou-o subir para as ancas da sua mula e ambos de dois seguiram assim durante umas quatro léguas, até onde o cego julgou bem de ficar». In Mendes dos Remédios, Chronica do Condestabre de Portugal Dom Nuno Alvarez Pereira, Lymen, França Amado, Subsídios para o estudo da História da Literatura Portuguesa, XIV, Coimbra, 1911.

Cortesia Lymen/JDACT

domingo, 10 de junho de 2012

Crónica do Condestável de Portugal. Nuno Álvares Perira. Mendes dos Remédios. «A Santarém havia chegado a noticia de que o exercito inimigo marchava sobre Lisboa. Seria verdade? Que forças levaria? Era preciso sabê-lo. A diligência oferecia algum risco, pelo imprevisto de uma traiçoeira emboscada. É aos 13 anos que Nuno Álvares entra na cena política de Portugal, sendo apresentado pelo pai na corte, então residente em Santarém»



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«Todos os que ou por simples curiosidade ou por interesse profissional dirigirem a sua atenção para esta Crónica sentirão, decerto, um grande prazer intelectual convivendo por meio duma linguagem ingénua, simples, mas profundamente eloquente, com um dos mais legítimos, mais perfeitos, e mais cavalheirosos representantes do Portugal doutras eras.
É impossível percorrer estas páginas sem se sentir comovido diante de tão grande e bela figura. É aos 13 anos que Nuno Álvares entra na cena política de Portugal, sendo apresentado pelo pai na corte, então residente em Santarém.
O pai, Álvaro Gonçalvez Pereira, era Prior do Crato, não tendo obstado os votos, que ainda moço fizera, a que fosse o progenitor de trinta e dois filhos. A sua situação, o seu nome, a sua fortuna, marcavam-lhe lugar aparte, sobremaneira honroso e preponderante, na direcção dos negócios do pais. Seu avô passara parte duma mocidade aventureira em estudos na universidade de Salamanca. E foi da cidade salamanquina que trouxe, quando ainda certamente não sonhava com a mitra de Braga, o filho, a quem tão larga acção estava destinada na vida nacional já por si, directamente, já sobretudo, pelo filho ilustre, o undécimo, de que era o tronco. A mãe de Nuno Álvares pertencia também á nobreza do reino, vivendo como tal na corte do rei Fernando.
Tão preclara ascendência dava desde principio ao moço fidalgo, entre o fervilhar de ambiciosos e intriguistas, que constituíam a corte dos últimos reis da primeira dinastia, um lugar inconfundível. A flor da altura, como apelidavam a formosa e leviana D. Leonor, pousaria nele os seus olhos embriagadores e penetrantes, indiferentemente. Menor atenção lhe ligaria ainda o rei Fernando. Mas uma missão, à primeira vista bem simples, ia fazer recair sobre ele olhares perscrutadores, na esperança ilusória de desvendar o mistério do futuro, que lhe estava reservado.
O reino achava-se numa singular e periclitante situação. A cada momento guerrilhas espanholas invadiam em diferentes pontos o reino, talando e assolando tudo por onde passavam. Era um sobressalto continuo, que obrigava os habitantes das vilas acasteladas a viverem quase constantemente encerrados entre os muros sombrios das suas terras. Os que vinham aos campos à labuta da vida, eram, inúmeras vezes, tomados de surpresa, roubados e cativos ou mortos.
Nem crianças, nem velhos eram poupados. Os animais constituíam sempre a melhor parte da presa. Essas multidões de inimigos, a pé ou de cavalo, numerosas ou não, caíam de improviso como um raio fulminante e destruidor, de noite por entre as sombras, ou ao romper de alva, ou durante o dia, quando todos se entregavam quer aos trabalhos, quer aos folguedos e às distracções das suas festas.
A Santarém havia chegado a noticia de que o exercito inimigo marchava sobre Lisboa. Seria verdade? Que forças levaria? Era preciso sabê-lo. A diligência oferecia algum risco, pelo imprevisto de uma traiçoeira emboscada.
O prior do Grato encarregou de o saber dois dos seus filhos, Nuno Álvares Pereira e Diogo Álvares Pereira com outros cavaleiros e foi o primeiro que, á volta, satisfez a curiosidade natural de todos informando do que haviam observado.
Como dissemos, Nuno Álvares tinha nesta época 13 anos, mas a sua virilidade está demonstrada por este simples facto, que acabamos de enunciar, pois não é de crer que o pai o sujeitasse a uma prova exigindo destreza no montar a cavalo, coragem, sangue-frio, decisão e audácia, se não visse o bom resultado que se poderia esperar das qualidades que exornavam o filho. O rosto comprido, os cabelos louros, e aquela vivacidade de olhar notada em todos os velhos cronistas, davam aquele imberbe infante um aspecto de encantadora simpatia, que fez acordar na assembleia que o escutou nos paços reais a mesma ideia, “armá-lo cavaleiro!”
E D. Leonor logo, “como molher que era muito paçãa e de boa palavra”, declarou ao rei que ela escolhia Nuno Álvares para seu escudeiro, desejando ser ela própria e não outrem quem o armasse tal.
E foi, destino insondável das coisas! O arnês e a armadura, que haviam sido, quando mais novo, do Mestre de Avis, que serviram agora à sagração deste seu irmão de armas, entre os quais um dia a intriga palaciana quase ia cavando um abismo.
Foi naturalmente então que se soube dos cuidados e esmero, que os pais de Nuno haviam posto na direcção do seu espirito, formando-o no ideal da valentia, da bravura e da galhardia, que distinguiam os mais afamados cavaleiros das Ordens lendárias medievais.
Era sobretudo a historia dos cavaleiros da Távola-Redonda que entretinha a imaginação de todos quantos na guerra viam a mais nobre causa, à qual se devia sacrificar vida e honra. E porque estava imbuído destas ideias e sabia como os mais ilustres cavaleiros haviam encontrado na virgindade do seu corpo uma fonte prodigiosa de força invencível é que opôs relutância em se casar.
Uma estrela despontava no seu horizonte, ainda de luz ténue e frouxa, mas ele temia que ela se não erguesse esplendente de brilho e claridade. Que força misteriosa, que atração singular e indefinida, dirige os destinos dos homens e dos seres em geral?
Venceu a insistência de todos onde se opunha a resistência de um só. Nuno Álvares casou com uma nobre senhora, D. Leonor Alvim, possuidora duma avultada fortuna, proveniente já de seus pais, já da herança do marido, que morrera pouco depois do matrimonio, sem usar (socorro-me aqui das palavras do frade Sant'Anna) das faculdades deste sacramento, ou por observância dalguma virtude particular, ou por defeito da natureza, segredo que a intacta senhora ocultou até ás segundas bodas.
Desta união nasceram dois filhos, que morreram na flor da idade e uma filha, D. Brites, que depois casou com Afonso, 1º duque de Bragança, filho de João I, tornando-se o tronco duma descendência ilustre de testas coroadas e outras de alta prosápia, não só em Portugal, como em quase toda a Europa». In Mendes dos Remédios, Chronica do Condestabre de Portugal Dom Nuno Alvarez Pereira, Lymen, França Amado, Subsídios para o estudo da História da Literatura Portuguesa, XIV, Coimbra, 1911. 

Cortesia Lymen/JDACT

domingo, 14 de agosto de 2011

Batalha de Aljubarrota. Dia 14 de Agosto de 1385, há 626 anos: Parte II. «…pelas dez horas da manhã do dia 14 de Agosto, o exército tomou a sua posição na vertente norte desta colina, de frente para a estrada por onde os castelhanos eram esperados. A disposição portuguesa tinha a infantaria no centro da linha, uma vanguarda de besteiros com os 200 archeiros ingleses, 2 alas nos flancos, com mais besteiros, cavalaria e infantaria»

Painel de azulejos pintado por Jorge Colaço (1922)
representando um episódio da batalha de Aljubarrota.
Cortesia de wikipedia

«Quando as notícias da invasão chegaram, João I encontrava-se em Tomar na companhia de D. Nuno Álvares Pereira, o condestável do reino, e do seu exército. A decisão tomada foi a de enfrentar os castelhanos antes que pudessem levantar novo cerco a Lisboa. Com os aliados ingleses, o exército português interceptou os invasores perto de Leiria. Dada a lentidão com que os castelhanos avançavam, D. Nuno Álvares Pereira teve tempo para escolher o terreno favorável para a batalha. A opção recaiu sobre uma pequena colina de topo plano rodeada por ribeiros, perto de Aljubarrota. Contudo o exército Português não se apresentou ao Castelhano nesse sítio, inicialmente formou as suas linhas noutra vertente da colina, tendo depois, já em presença das hostes castelhanas mudado para o sítio predefinido, isto provocou bastante confusão nas tropas de Castela.

Pelas 10 horas da manhã do dia 14 de Agosto, o exército tomou a sua posição na vertente norte desta colina, de frente para a estrada por onde os castelhanos eram esperados. A disposição portuguesa era a seguinte: infantaria no centro da linha, uma vanguarda de besteiros com os 200 archeiros ingleses, 2 alas nos flancos, com mais besteiros, cavalaria e infantaria. Na retaguarda, aguardavam os reforços e a cavalaria comandados por D. João I de Portugal em pessoa. Desta posição altamente defensiva, os portugueses observaram a chegada do exército castelhano protegidos pela vertente da colina.

Cortesia de wikipedia

A chegada dos castelhanos.
A vanguarda do exército de Castela chegou ao teatro da batalha pela hora do almoço, sob o sol escaldante de Agosto. Ao ver a posição defensiva ocupada por aquilo que considerava os rebeldes, o rei de Castela tomou a esperada decisão de evitar o combate nestes termos. Lentamente, devido aos 30 000 soldados que constituíam o seu efectivo, o exército castelhano começou a contornar a colina pela estrada a nascente. A vertente sul da colina tinha um desnível mais suave e era por aí que, como D. Nuno Álvares previra, pretendiam atacar.

O exército português inverteu então a sua disposição e dirigiu-se à vertente sul da colina, onde o terreno tinha sido preparado previamente. Uma vez que era muito menos numeroso e tinha um percurso mais pequeno pela frente, o contingente português atingiu a sua posição final muito antes do exército castelhano se ter posicionado. D. Nuno Álvares Pereira havia ordenado a construção de um conjunto de paliçadas e outras defesas em frente à linha de infantaria, protegendo esta e os besteiros. Este tipo de táctica defensiva, muito típica das legiões romanas, ressurgia na Europa nessa altura.
Pelas seis da tarde, os castelhanos ainda não completamente instalados decidem, precipitadamente, ou temendo ter de combater de noite, começar o ataque.
É discutível se de facto houve a tão famosa táctica do «quadrado» ou se simplesmente esta é uma visão imaginativa de Fernão Lopes de umas alas reforçadas. No entanto tradicionalmente foi assim que a Batalha acabou por seguir para a história.

Nuno Alvares Pereira a rezar antes da batalha,
Cortesia de wikipedia

O ataque começou com uma carga da cavalaria francesa: a toda a brida e em força, de forma a romper a linha de infantaria adversária. Contudo as linhas defensivas portuguesas repeliram o ataque. A pequena largura do campo de batalha, que dificultava a manobra da cavalaria, as paliçadas, feitas com troncos erguidos na vertical separados entre si apenas pela distancia necessária à passagem de um homem, o que não permitia a passagem de cavalos, e a chuva de virotes lançada pelos besteiros, auxiliados por 2 centenas de arqueiros ingleses, fizeram com que, muito antes de entrar em contacto com a infantaria portuguesa, já a cavalaria se encontrar desorganizada e confusa. As «baixas» da cavalaria foram pesadas e o efeito do ataque nulo.
Ainda não perfilada no terreno, a retaguarda castelhana demorou a prestar auxílio e, em consequência, os cavaleiros que não morreram foram feitos prisioneiros pelos portugueses. Depois deste revés, a restante e mais substancial parte do exército castelhano atacou. A sua linha era bastante extensa, pelo elevado número de soldados. Ao avançar em direcção aos portugueses, os castelhanos foram forçados a apertar-se, o que desorganizou as suas fileiras, de modo a caber no espaço situado entre os ribeiros. Enquanto os castelhanos se desorganizavam, os portugueses dispuseram as suas forças dividindo a vanguarda de D. Nuno Álvares em dois sectores, de modo a enfrentar a nova ameaça.

Esquema ilustrando a Batalha de Aljubarrota
Cortesia de wikipedia

Vendo que o pior ainda estava para chegar, D. João I de Portugal ordenou a retirada dos besteiros e archeiros ingleses e o avanço da retaguarda através do espaço aberto na linha da frente. Desorganizados, sem espaço de manobra e finalmente esmagados entre os flancos portugueses e a retaguarda avançada, os castelhanos pouco puderam fazer senão morrer. Ao pôr-do-sol a batalha estava já perdida para Castela. Precipitadamente, D. João de Castela ordenou uma retirada geral sem organizar uma cobertura. Os castelhanos debandaram então desordenadamente do campo de batalha. A cavalaria Portuguesa lançou-se então em perseguição dos fugitivos, dizimando-os sem piedade.
Alguns fugitivos procuraram esconder-se nas redondezas, apenas para acabarem mortos às mãos do povo.
Surge aqui uma tradição portuguesa em torno da batalha:
  • uma mulher, de seu nome Brites de Almeida, recordada como a Padeira de Aljubarrota, iludiu, emboscou e matou pelas próprias mãos alguns castelhanos em fuga. A história é por certo uma lenda da época, de qualquer forma pouco depois D. Nuno Álvares Pereira ordenou a suspensão da perseguição e deu trégua às tropas fugitivas.
Na manhã de 15 de Agosto, a catástrofe sofrida pelos castelhanos ficou bem à vista: os cadáveres eram tantos que chegaram para barrar o curso dos ribeiros que flanqueavam a colina. Para além de soldados de infantaria, morreram também muitos nobres fidalgos castelhanos, o que causou luto em Castela até 1387. A cavalaria francesa sofreu em Aljubarrota outra pesada derrota.
Com esta vitória, D. João I tornou-se no rei incontestado de Portugal, o primeiro da dinastia de Avis. Para celebrar a vitória e agradecer o auxílio divino que acreditava ter recebido, D. João I mandou erigir o Mosteiro de Santa Maria da Vitória e fundar a vila da Batalha». In Wikipédia, História de Portugal, A. Oliveira Marques, Centro Cultural Nuno Álvares Pereira.

Cortesia de História de Portugal/JDACT

Batalha de Aljubarrota. Dia 14 de Agosto de 1385, há 626 anos: Parte I. «A batalha deu-se no campo de São Jorge, nas imediações da vila de Aljubarrota, entre as localidades de Leiria e Alcobaça, no centro de Portugal. O resultado foi uma derrota definitiva dos castelhanos, o fim da crise de 1383-1385 e a consolidação de D. João I como rei de Portugal, o primeiro da dinastia de Avis»

Cortesia de wikipedia

«A Batalha de Aljubarrota decorreu no final da tarde de 14 de Agosto de 1385 entre tropas portuguesas com aliados ingleses, comandadas por D. João I de Portugal e o seu condestável D. Nuno Álvares Pereira, e o exército castelhano e seus aliados liderados por D. Juan I de Castela.
A batalha deu-se no campo de São Jorge, nas imediações da vila de Aljubarrota, entre as localidades de Leiria e Alcobaça, no centro de Portugal. O resultado foi uma derrota definitiva dos castelhanos, o fim da crise de 1383-1385 e a consolidação de D. João I como rei de Portugal, o primeiro da dinastia de Avis.
A aliança Luso-Britânica saiu reforçada desta batalha e seria selada um ano depois, com a assinatura do Tratado de Windsor e o casamento do rei D. João I com D. Filipa de Lencastre.
Como agradecimento pela vitória na Batalha de Aljubarrota, D. João I mandou edificar o Mosteiro da Batalha. A paz com Castela só viria a estabelecer-se em 1411 com o Tratado de Ayllón, ratificado em 1423.
NOTA: O Tratado de Ayllón foi um tratado de paz entre o Reino de Portugal e o Reino de Castela assinado em 31 de Dezembro de 1411 em Ayllón, Segóvia, na sequência da Batalha de Aljubarrota. Ratificado a 30 de Abril de 1423. A paz definitiva com Castela foi selada apenas em 1411, com a assinatura do tratado de Ayllón, já no reinado de João II de Castela, após a agressão portuguesa em território castelhano e acções como a Batalha de Valverde, em 15 de Outubro de 1385, com a vitória do Nuno Álvares Pereira em Valverde de Mérida.

Nuno Alvares Pereira a rezar antes da batalha,
Cortesia de wikipedia

A Batalha de Aljubarrota foi uma das raras grandes batalhas campais da Idade Média entre dois exércitos régios, e um dos acontecimentos mais decisivos da história de Portugal. Inovou a táctica militar, permitindo que homens de armas apeados fossem capazes de vencer uma poderosa cavalaria. No campo diplomático, permitiu a aliança entre Portugal e a Inglaterra, que perdura até hoje. No aspecto político, resolveu a disputa que dividia o Reino de Portugal do Reino de Castela e Leão, permitindo a afirmação de Portugal como Reino Independente, abrindo caminho sob a Dinastia de Avis para uma das épocas mais marcantes da história de Portugal, a era dos Descobrimentos.

No fim do século XIV, a Europa encontrava-se a braços com uma época de crise e revolução. A Guerra dos Cem Anos devastava a França, epidemias de peste negra levavam vidas em todo o continente, a instabilidade política dominava e Portugal não era excepção.
Em 1383, El-rei D. Fernando morreu sem um filho varão, que herdasse a coroa. A sua única filha era a infanta D. Beatriz, casada com o rei D. João de Castela. A burguesia mostrava-se insatisfeita com a regência da Rainha D. Leonor Teles e do seu favorito, o conde Andeiro e com a ordem da sucessão, uma vez que isso significaria anexação de Portugal por Castela. As pessoas alvoroçaram-se em Lisboa, o conde Andeiro foi morto e o povo pediu ao mestre de Avis, D. João, filho natural de D. Pedro I de Portugal, que ficasse por regedor e defensor do Reino.

Esquema ilustrando a Batalha de Aljubarrota
Cortesia de wikipedia

O período de interregno que se seguiu ficou conhecido como crise de 1383-1385. Finalmente a 6 de Abril de 1385, D. João, mestre da Ordem de Avis, é aclamado rei pelas cortes reunidas em Coimbra, mas o rei de Castela não desistiu do direito à coroa de Portugal, que entendia advir-lhe do casamento. Perante a revolta da população portuguesa em vários pontos e cidades do Reino de Portugal, o Rei de Castela, decide em 1384 entrar em Portugal. Entre Fevereiro e Outubro deste ano monta um cerco a Lisboa, por terra e por mar.

Uma frota portuguesa vinda do Porto enfrenta, a 18 de Julho de 1384, à entrada de Lisboa, a frota castelhana, na batalha do Tejo. Os portugueses perdem três naus e sofrem vários prisioneiros e mortos, no entanto, a frota portuguesa consegue romper a frota castelhana, que era muito superior, e descarregar no porto de Lisboa os alimentos que trazia. Esta ajuda alimentar veio-se a revelar muito importante para a população que defendia Lisboa. O cerco de Lisboa pelas tropas castelhanas acaba por não resultar, devido a determinação das forças portuguesas em resistir ao cerco, ao facto de Lisboa estar bem murada e defendida, a ajuda dos alimentos trazidos do Porto e devido a epidemia de peste negra que assolou as forças castelhanas acampadas no exterior das muralhas. Em Junho de 1385, D. Juan I decide invadir novamente Portugal, desta vez à frente da totalidade do seu exército e auxiliado por um forte contingente de cavalaria francesa». In Wikipédia, História de Portugal, A. Oliveira Marques, Centro Cultural Nuno Álvares Pereira.

Cortesia de História de Portugal/JDACT

sábado, 13 de novembro de 2010

A Casa de Bragança: A sua Origem. 1º Duque, D. Afonso I. O primitivo Estado e património dos Bragança formou-se com bens e terras com que dotou a filha o condestável D. Nuno Álvares Pereira. Foi o fundador da Casa de Bragança

As Armas da Sereníssima Casa de Bragança
Cortesia de Dicionário Histórico

O título de duque de Bragança foi um dos mais importantes do reino de Portugal. Desde a ascensão ao trono da Dinastia de Bragança, em 1640, até à Implantação da República, em 1910, o herdeiro da Coroa Portuguesa usou, simultaneamente, o título nobiliárquico de duque de Bragança. De notar que, por tradição e pela importância da Casa de Bragança, os duques têm os seus nomes numerados tal como os reis (ex. D. Teodósio I e D. Teodósio II), mesmo quando a família ainda não era a Casa Real portuguesa.

A Casa de Bragança foi fundada pelo rei D. João I e pelo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, concorrendo ambos para o seu estabelecimento pelos dotes que o primeiro fez ao seu filho bastardo, que teve de Inês Pires. D. Afonso, o primeiro duque de Bragança, e o segundo à sua filha D. Beatriz Pereira Alvim, pelo casamento de ambos realizado em Frielas, no dia 1 de Novembro de 1401 (era de 1439). O primeiro duque de Bragança, também conhecido como oitavo Duque de Barcelos, nasceu no Castelo de Veiros, no Alentejo.

(1377-14619
Veiros
Cortesia de marcasdascienciasfcul

O dote atribuído pelo rei D. João I consta da carta de doação, datada em Lisboa no dia 8 de Novembro de 1401 (1439): terras e julgados de Neiva, Danque, Parelhal, Faria, Rates, Vermoim, com todos os seus bens e coutos. O dote feito por D. Nuno Álvares Pereira, consistia na vila e castelo de Chaves, com seus termos, terras e julgado de Monte Negro; no castelo e fortaleza de Monte Alegre; terras do Barroso e Baltar; Paços e Barcelos; quintas de Carvalhosa, Covas, Canedos, Seraes, Godinhaes, Sanfims, Temporam, Moreira e Piusada; e nos casais de Bustelo.
O rei D. João I, conjuntamente com a rainha D. Filipa, e com o infante D. Duarte, verificou a doacção, e acrescentou terras em Penafiel, Bastos e Coutos das Vargeas.


Cortesia de imperiobrasileiro
Também D. Nuno Álvares Pereira acrescentou, por carta de 4 de Abril de 1460, confirmada pelo rei D. Duarte, o condado e Vila de Arraiolos, rendas e direitos de Montemor, Évora Monte, Estremoz, Souzel, Alter do Chão, Fermosa, Chancelaria, Assumar, Lagomel, Vila Viçosa, Borba, Monsaraz, Portel, Vidigueira, Frades, Vilalva, Ruivas, Beja, Campo de Ourique, e padroados de S. Salvador de Elvas e Vila Nova de Anços.
O 2º duque, D. Fernando I era filho segundo do 1º duque, sucedendo no ducado por morte do seu irmão. Depois da referida doação de D. Nuno Álvares Pereira, por virtude de escambo realizado em 10 de Novembro de 1424, entre o duque D. Fernando I e sua irmã D. Isabel, e seus descendentes, foram acrescentadas as terras de Paiva, Tendais e Lousada, confirmado em 9 de Dezembro desse ano pelo rei D. Duarte.

«Nas suas cavalarias alentejanas, à volta de alguma montaria aos lobos ou aos castelhanos, se perdera, em Veiros, pela filha de Berbadão, Inês Pires Esteves, que amara, seduzira, trouxera para o convento de Santos, e de quem houvera um filho, Conde de Barcelos, depois Duque de Bragança, nascido aos 20 anos do pai: foi D. Afonso I de Bragança ou Afonso de Portugal (nascido em Veiros em 10 de agosto de 1377 e morto em 15 de dezembro de 1461 em Chaves, ali sepultado). Foi feito em 30 de dezembro de 1442 Duque de Bragança, 8° Conde de Barcelos, Conde de Ourém.


Cortesia de wikipédia 

O primitivo Estado e património dos Bragança formou-se com bens e terras com que dotou a filha o condestável D. Nuno Álvares Pereira (1360-1431) 7° Conde de Barcelos. Foi o fundador da casa de Bragança. O senhorio e o ducado de Bragança solicitou-os ao regente D. Pedro, por ocasião de breve reconciliação entre ambos, que lhos concedeu no ano de 1442. Os descendentes foram Duques de Guimarães em 23 de novembro de 1470 e de Barcelos em 5 de agosto de 1562.

Assim se formou a Sereníssima Casa de Bragança. Era então a mais rica de Portugal.

Cortesia de Manuel Inácio Pestana/História de Portugal/Dicionário de História/JDACT