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sábado, 27 de março de 2021

O Físico. O Médico de Ispahan. Noah Gordon. «Choveu como nunca antes, e com o descongelamento rápido, o Tamisa encheu e arrastou na sua corrente pontes e casas. Estrelas caíram, riscando de luz o céu ventoso de Inverno…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Diabo em Londres

«Aqueles foram os últimos momentos de abençoada inocência na vida de Rob J. mas na sua ignorância achava um sacrifício ser obrigado a permanecer na casa do pai com os irmãos e a irmã. A Primavera mal começara e o sol estava bastante baixo para acariciar mornamente os beirais do telhado de palha; aproveitando o aconchego, ele deitava-se no degrau de pedra áspera na frente da porta. Uma mulher caminhava cautelosa na superfície rachada da Carpenter Street. A rua precisava de conserto, como a maioria das casas pequenas de madeira dos trabalhadores, construídas descuidadamente por hábeis artesãos que ganhavam a vida construindo casas sólidas para os mais ricos e mais afortunados.

Rob J. estava debulhando um cesto de ervilhas, tentando não perder de vista as crianças mais novas, sua responsabilidade quando a Mãezinha estava fora. William Stewart, seis anos e Anne Mary, quatro, cavavam a terra ao lado da casa, nas suas brincadeiras

secretas e risonhas. Jonathan Carter, dezoito meses, estava deitado numa pele de carneiro, alimentado, arrotado e gorgolejando satisfeito. Samuel Edward, sete anos, tinha escapado de Rob J. Cheio de artimanhas, Samuel sempre conseguia desaparecer para não trabalhar, e Rob procurava-o com os olhos, furioso. Abria as vagens verdes uma por uma, tirava as ervilhas da película cerosa com o polegar, como a Mãezinha fazia. Não interrompeu o trabalho quando viu que a mulher se dirigia para ele. Barbatanas no corpete erguiam seus seios, quando se movia às vezes aparecia o mamilo vermelho, e o rosto estava vulgarmente pintado Rob J. tinha apenas nove anos, mas um menino de Londres sabia reconhecer uma prostituta.

Tu aí. Esta é a casa de Nathanael Cole? Ele a observou ressentido, pois não era a primeira vez que uma mulher daquele tipo aparecia procurando por seu pai. Quem quer saber, perguntou asperamente, satisfeito porque o pai estava fora, à procura de trabalho e ela não ia poder falar com ele, satisfeito por sua Mãezinha estar entregando bordados, sendo assim poupada daquele constrangimento. A mulher dele precisa dele. Ela me mandou. O que quer dizer, precisa dele? As competentes mãos infantis interromperam o trabalho. A prostituta olhou para ele friamente, percebendo o que Rob pensava dela pelo seu tom e modos. Ela é tua mãe? Fez um gesto afirmativo. Está tendo um parto difícil. Está nos estábulos de Egglestan, perto de Puddle Dock. É melhor procurar seu pai e avisar, disse a mulher, e se afastou. O garoto olhou desesperadamente em volta.  Samuel!, gritou, mas o maldito Samuel estava só Deus sabe onde, como sempre, e Rob interrompeu a brincadeira de William e Anne Mary. Toma conta dos menores, Willum, disse. Então deixou a casa e começou a correr. Pessoas dignas de crédito dizem que o Anno Domini 1021, o ano da oitava gravidez de Agnes Cole, pertenceu ao Diabo.

Foi um ano marcado por calamidades para o povo e monstruosidades da natureza. No Outono anterior as colheitas nos campos foram queimadas pelas geadas intensas que congelaram os rios. Choveu como nunca antes, e com o descongelamento rápido, o Tamisa encheu e arrastou na sua corrente pontes e casas. Estrelas caíram, riscando de luz o céu ventoso de Inverno e foi visto um cometa. Em Fevereiro a terra tremeu. Um relâmpago atingiu a cabeça de um crucifixo e os homens murmuraram que Cristo e seus santos estavam dormindo. Contavam que durante três dias jorrara sangue de uma fonte e viajantes diziam que o demónio tinha aparecido em bosques e em lugares secretos. Agnes disse ao filho mais velho para não dar ouvidos a essas histórias. Mas acrescentou preocupada que se Rob J. visse alguma coisa fora do comum devia fazer o sinal da cruz. Todos oneravam Deus com uma carga pesada porque a queima das colheitas naquele ano trouxera tempos difíceis. Nathanael há mais de quatro meses estava desempregado e a família se mantinha com a habilidade de bordadeira da mãe.

No começo do casamento, ela e Nathanael estavam perdidamente apaixonados e cheios de confiança no futuro; ele pretendia enriquecer com a profissão de construtor. Mas a promoção era lenta dentro da corporação dos carpinteiros, nas mãos de comités examinadores que escrutinizavam projectos como se cada parte da obra fosse destinada ao rei. Nathanael passou seis anos como aprendiz de carpinteiro e mais doze como Sócio Marceneiro. Agora devia ser aspirante de Mestre Carpinteiro, a classificação profissional necessária para ser empreiteiro. Mas o processo de se tornar Mestre exigia energia e tempos prósperos, e ele estava desanimado demais para tentar». In Noah Gordon, O Físico, O Médico de Ispahan, 1986, Bertrand Editora, 2008, ISBN 978-972-251-760-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Noah Gordon, Literatura, Medicina, Cultura,

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Teoria da peste. Regulação da profissão médica. Trattado unico da constituiçam pestilencial de Pernambuco. 1694. João Ferreira Rosa. Bruno Boto Leite. «Assim sendo, o tratado de Rosa, contribuía para a compreensão da doença pestilencial entre os médicos menos preparados, como os cirurgiões e barbeiros…»

Zacuto Lusitano 
Cortesia de wikipedia

«Em 1693, o frei António Santo Elias, no imprimatur do livro Trattado único da constituiçam pestilencial de Pernambuco, que seria publicado um ano depois, emitia o seguinte juízo a respeito do conteúdo da obra do médico português João Ferreira Rosa: Li o tratado da constituição pestilencial de Pernambuco que compôs João Ferreyra Rosa medico formado na Universidade de Coimbra, & assistente no mesmo estado, & não achei nele cousa alguma que encontre nossa Santa Fé, ou bons costumes; antes me parece será muito útil para as Capitanias do Brasil para onde com especialidade o compõem o autor, & ainda para alguns lugares deste Reino aonde se padece o mesmo detrimento de curarem todo o gênero de males aqueles que só aprenderam a rasgar as veias, ou a curar feridas, & chagas (in ROSA, 1694: Imprimatur). O imprimatur deixava claro a utilidade de tal obra: em primeiro lugar, o conteúdo do livro voltava-se para as Capitanias do Brasil, notadamente aquela pernambucana, auxiliando os poucos médicos e os muitos leigos que se encontravam nos trópicos ao melhor conhecimento da enfermidade que enfrentavam naquele momento. Em segundo lugar, o interesse da obra se mostrava também quanto à regulação das actividades médicas empreendidas por aqueles que, no dizer mesmo de Rosa, se intrometem a curar na falta de médicos nestas povoações. Além disso, o imprimatur também salientava a situação em vigor, tanto no Brasil quanto em Portugal, da falta de médicos peritos, que fazia com que os muitos cirurgiões, barbeiros e apotecários tomassem para si funções que aparentemente não lhes cabiam. Estes tais intrometidos, mencionados pelo censor e pelo próprio Rosa, ficavam ainda mais aparentes num parágrafo da parte do Tratado que se referia a Noticia dos motivos da primeira disputada. Dizia o autor que: Me excitou o desejo de alguma utilidade para estas Capitanias (…) (em cujas povoações se intrometem a curar na falta de médicos os cirurgiões, & barbeiros, & outras pessoas; aos quais dará alguma luz este meu trabalho, por não poderem tirar de outros volumes que não tem, nem entendem, cousa que tão facilmente acomode). A procurar o prelo; assim por ser este tratado em romance, & não haver muitos de semelhante matéria em nosso idioma.
Assim sendo, o tratado de Rosa, contribuía para a compreensão da doença pestilencial entre os médicos menos preparados, como os cirurgiões e barbeiros. Dai o facto dele ter sido escrito em língua vulgar e não em latim. Outrossim, ele também se propunha a corrigir certas compreensões equivocadas acerca da doença que no momento vigia nos trópicos. Isso fica bastante evidente logo no início do tratado, na crítica que o autor faz à interpretação que o cirurgião flamengo Antonio Brebon havia feito da doença pernambucana. Brebon era cirurgião de um dos navios portugueses que havia aportado em Pernambuco. No momento em que o dito navio deixava a referida capitania, o mal que assolava a cidade havia também se infiltrado entre os tripulantes da nau e causava problemas para os viajantes. Segundo a própria narrativa do cirurgião, que Rosa anexou ao seu tratado, os tripulantes morriam pouco a pouco sem que ninguém encontrasse a cura. Antonio Brebon então, resolveu-se, com licença do capitão do navio, praticar uma autópsia num dos corpos dos doentes que haviam morrido na nau para tentar descobrir a causa de tal mal e seus possíveis remédios. Ao abrir o corpo do cadáver morboso, Brebon relata que: … dando lhe principio pelo peito, aonde não achou lesão alguma, nem motivo que desse causa à morte. E descendo ao estomago, & região do ventre, achou o figado podre da parte interior o qual estava de diversa cor da natural, & de hum pedaço de figado que não estava corrupto; & o baço estava são, & ileso, como também o bofe; & a bexiga do fel estava quase seca, & com diferente cor da que devia ter: & achou ele testemunha que a podridão que estava no figado, estava no original das veias que vem do mesmo figado; mas ele testemunha se não persuade que as lombrigas, que achou, pudessem picar no dito figado. E fazendo mais exame no estomago, achou nas membranas dele quantidade de humor viscoso de cor negra a modo de felugem, & no estomago algumas lombrigas grandes, & pequenas da qualidade das compridas. Entretanto, o ponto importante da autópsia do cirurgião flamengo é o facto deste observar nas lombrigas achadas no corpo analisado a causa principal da doença que assolava a capitania de Pernambuco. É por isso que Antonio Brebon proporá emplastros vesicatórios na nuca, braços e pernas, para expurgar a matéria pútrida, causada, segundo ele, pelo picar das lombrigas, e bebidas vermifugas, para expurgar as lombrigas e curar o mal. Esta alternativa será largamente criticada na disputada I de Rosa, afirmando como argumento principal aquele de que as doenças complexas, como era, segundo ele, a tal peste brasileira, deveriam ser curadas com remédios complexos. E portanto a solução proposta pelo cirurgião flamengo, sendo simples demais, não poderia ser aceite. Os argumentos de Rosa baseavam-se em obras de autores reputados por grandes médicos e sábios, como Cypriano Maroja, Luís Mercado, Zacuto Lusitano e Daniel Sennert. Dai que a alternativa de Rosa apresentava-se como a mais autorizada». In Bruno Boto Leite, Instituto Universitário Europeo, Florença, Teoria da peste. Regulação da profissão médica. Trattado unico da constituiçam pestilencial de Pernambuco. 1694. João Ferreira Rosa, Anais do XXVI Simpósio Nacional de História, ANPUH, São Paulo, 2011.

Cortesia de ANPUH/JDACT

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O Livro da Consciência. António Damásio. «É comum considerarmos erradamente o nosso grande cérebro e a nossa mente consciente como os promotores das atitudes, intenções e estratégias por trás da nossa sofisticada gestão de vida. E porque não haveria de ser assim? Trata-se de uma forma razoável e parcimoniosa de conceber a história…»

jdact e cortesia da wikipedia

Vontade natural
«Como podem estas atitudes e intenções, que normalmente associamos à mente humana consciente e que intuímos serem o resultado do funcionamento do grande cérebro humano, estar presentes a um nível tão básico? Mas o facto é que estão, seja qual for o nome que queiramos atribuir a essas características do comportamento da célula. Privada de conhecimento consciente, privada de acesso aos dispositivos de deliberação bizantinos presentes no nosso cérebro, a célula isolada revela uma atitude: quer viver por inteiro o tempo que lhe foi geneticamente atribuído. Por estranho que pareça, torna-se óbvio que esse querer, e tudo o que é necessário para o implementar, precedem o conhecimento explícito e a deliberação quanto às condições de vida, uma vez que a célula claramente não os possui. O núcleo e o citoplasma interagem e levam a cabo cálculos complexos destinados a manter a célula viva. Lidam com os problemas que a cada instante surgem a um ser vivo e adaptam a célula à situação, de forma a sobreviver. Reorganizam a posição e a distribuição das moléculas no seu interior, dependendo das condições ambientais, e alteram a forma dos subcomponentes, tais como os microtúbulos, numa exibição de precisão espantosa. Reagem a condições negativas e também às condições favoráveis. Como é óbvio, os componentes que levam a cabo essas adaptações foram colocados na sua posição pelo material genético da célula, de quem recebem ordens.
É comum considerarmos erradamente o nosso grande cérebro e a nossa mente consciente como os promotores das atitudes, intenções e estratégias por trás da nossa sofisticada gestão de vida. E porque não haveria de ser assim? Trata-se de uma forma razoável e parcimoniosa de conceber a história de tal progresso quando a observamos do topo da pirâmide e nas nossas circunstâncias presentes. Contudo, a verdade é que a mente consciente se limitou a tornar o conhecimento da gestão básica da vida conhecível.
As contribuições decisivas da mente consciente para a evolução vêm a ser introduzidas a um nível muito superior. Têm a ver com tomadas de decisão deliberativas e com criações culturais. Não estou, de todo, a menosprezar a importância desse nível elevado de gestão da vida. Com efeito, uma das principais ideias defende que a mente consciente humana deu um novo rumo à evolução precisamente por nos dotar de opções, por tornar possível uma regulação sociocultural relativamente flexível, bem para além da organização social complexa que os insectos, por exemplo, exibem de forma tão espectacular. Estou, isso sim, a inverter a sequência narrativa do relato tradicional sobre a consciência, fazendo com que o conhecimento oculto da gestão da vida preceda a experiência consciente de tal conhecimento. Estou igualmente a dizer que esse conhecimento oculto é bastante sofisticado e não deve ser tomado como primitivo. A sua complexidade é enorme e a inteligência nele implícita espantosa.


Não estou a menosprezar a consciência, mas estou, garantidamente, a acentuar a importância da gestão não-consciente da vida e a sugerir que ela constitui o esquema-base para as atitudes e intenções das mentes conscientes. Será que o nosso desejo consciente de viver, tão humano, a nossa vontade de prevalecer, teve início numa agregação silenciosa dos desejos rudimentares de todas as células do nosso corpo, uma voz colectiva libertada num canto de afirmação?» In António Damásio, O Livro da Consciência, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2010, ISBN 978-989-644-120-3.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O Livro da Consciência. António Damásio. «Por mais simples que tivessem sido e continuem a ser, as células isoladas tinham o que parecia ser uma determinação decisiva e inabalável em permanecer vivas enquanto os genes no interior do seu núcleo microscópico assim o ordenassem»


jdact e cortesia da wikipedia

Vontade natural
«A grande diferença entre as células que se encontraram nos organismos multicelulares, ou metazoários, e as células isoladas têm de se bastar a si próprias, as células que constituem o nosso organismo vivem em sociedades extremamente diversas e complexas. Muitas das tarefas que as células dos organismos unicelulares têm de desempenhar sozinhas são atribuídas a tipos especializados de células nos organismos multicelulares. No entanto, a organização geral é comparável à atribuição distinta de papéis funcionais que cada célula individual incorpora na sua própria estrutura. Os organismos multicelulares são compostos por múltiplos organismos unicelulares organizados de forma colaborativa, algo que teve origem na combinação de organismos individuais ainda mais reduzidos. A economia de um organismo multicelular apresenta inúmeros sectores e as células que compõem cada um desses sectores colaboram entre si. Se tudo isto parece familiar e leva o leitor a pensar nas sociedades humanas, tem toda a razão. As semelhanças são espantosas.
A regência do sistema de um organismo multicelular é extremamente descentralizada, embora apresente centros de liderança com poderes avançados de análise e decisão, como, por exemplo, o sistema endócrino e, claro está, o cérebro. Mesmo assim, com raras excepções, rodas as células dos organismos multicelulares, incluindo o nosso, têm os mesmos componentes de um organismo unicelular:
  • membrana, citoesqueleto, citoplasma e núcleo, os glóbulos vermelhos, cuja breve vida de cento e vinte dias é dedicada ao transporte de hemoglobina, são a excepção, pois não possuem um núcleo.
Além disso, todas essas células apresentam um ciclo de vida semelhante, nascimento, desenvolvimento, envelhecimento, morte, ao de um organismo complexo. A vida de um organismo humano é composta por multitudes de vidas simultâneas e bem articuladas. Por mais simples que tivessem sido e continuem a ser, as células isoladas tinham o que parecia ser uma determinação decisiva e inabalável em permanecer vivas enquanto os genes no interior do seu núcleo microscópico assim o ordenassem. A regência da sua vida incluía uma insistência obstinada em existir e prevalecer até que alguns dos genes do núcleo suspendessem essa vontade de viver e permitissem que a célula morresse.
Sei que é difícil imaginar que os conceitos de ‘desejo’ e ‘vontade’ possam ser aplicáveis a uma célula única e isolada. Como podem estas atitudes e intenções, que normalmente associamos à mente humana consciente e que intuímos serem o resultado do funcionamento do grande cérebro humano, estar presentes a um nível tão básico? Mas o facto é que estão, seja qual for o nome que queiramos atribuir a essas características do comportamento da célula». In António Damásio, O Livro da Consciência, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2010, ISBN 978-989-644-120-3.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

domingo, 11 de dezembro de 2011

BNP. “Percursos na História do Livro Médico (1450-1800)”. «… evidencia-se o papel dos livros, as suas características, histórias e respectivas audiências nos processos de formação, circulação e desenvolvimento do saber e práticas médicas»


Cortesia de bnp

Lançamento. Dia 13 de Dezembro de 2011, 18h00, Auditório da BNP.

«“Percursos na História do Livro Médico, 1450-1800"  intenta relevar o papel central dos livros na história do saber médico do século XV aos finais do século XVIII. A par da especificidade da medicina no período histórico considerado e da relevância de conceitos e conjecturas inovadoras, evidencia-se o papel dos livros, as suas características, histórias e respectivas audiências nos processos de formação, circulação e desenvolvimento do saber e práticas médicas.
O livro, organizado por Palmira Fontes da Costa (Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia, Pólo de Almada, UNL) e Adelino Cardoso (Coordenador do projecto "Filosofia, Medicina e Sociedade"), será apresentado por Laurinda Abreu (Departamento de História, Universidade de Évora) e João Luís Lisboa (Director do Centro de História da Cultura, UNL).

Cortesia de bnp

A publicação surgiu no contexto de celebração do livro e da cultura literária da medicina, que se inscreve no âmbito das actividades desenvolvidas pelo projecto “Filosofia, Medicina e Sociedade”. O ponto de partida foi o colóquio internacional “O livro, o corpo e a arte médica: 1450-1800” realizado na Biblioteca Nacional de Portugal entre 30 de Junho e 2 de Julho de 2010 e que constituiu o ponto alto do programa cientifico que acompanhou a exposição “Arte Médica e Imagem do Corpo”, que esteve patente na mesma instituição entre 7 de Abril e 30 de Julho do mesmo ano. O presente volume tem como base uma selecção dos trabalhos apresentados neste colóquio, a que se juntaram textos de Adelino Cardoso, Guido Giglioni, Hélio Pinto, Inês de Ornellas e Castro e Palmira Fontes da Costa». In Biblioteca Nacional de Portugal.

Cortesia de BN de Portugal/JDACT

domingo, 5 de junho de 2011

António Damásio: O Livro da Consciência. «No amanhecer da vida, essas células foram dos primeiros organismos verdadeiramente independentes. Podiam sobreviver individualmente sem parcerias simbióticas. Esses organismos unicelulares simples ainda hoje se encontram entre nós. A ameba é um bom exemplo, tal como o é o maravilhoso paramécio»

Cortesia de pop

Vontade natural
«Precisamos, mais uma vez, de uma fábula. Há muito, muito tempo, a vida fez a sua aparição na longa história da evolução. Tudo isto se passou há 3,8 mil milhões de anos quando surgiu o antepassado de todos futuros organismos. Cerca de dois mil milhões de anos mais tarde, numa altura em que colónias de bactérias individuais mais deveriam parecer donas da terra, foi a vez de surgirem organismos unicelulares equipados com um núcleo. As bactérias eram também organismos vivos unicelulares, mas o seu ADN não se agrupara ainda num núcleo. Os seres unicelulares dotados de núcleo estavam num degrau mais alto. Tecnicamente trata-se de células eucarióticas, que pertencem a um grande grupo de organismos, os protozoários.

No amanhecer da vida, essas células foram dos primeiros organismos verdadeiramente independentes. Podiam sobreviver individualmente sem parcerias simbióticas. Esses organismos unicelulares simples ainda hoje se encontram entre nós. A ameba é um bom exemplo, tal como o é o maravilhoso paramécio.

Cortesia de temasedebates

Um organismo unicelular possui uma estrutura corporal (um citoesqueleto),dentro da qual se encontra um núcleo (o centro de mando que alberga o ADN da célula) e um citoplasma (onde tem lugar a transformação de combustível em energia, controlada por organitos como as mitocôndrias). Os corpos definem-se pela pele que os reveste e a célula apresenta-a também, uma fronteira entre o seu interior e o mundo exterior. Chama-se membrana cerular.

Em muitos aspectos, um organismo unicelular é a antevisão daquilo que um organismo como o nosso veio a ser. Podemos vê-lo como uma espécie de abstracção, uma caricatura daquilo que somos. O citoesqueleto é a estrutura do corpo, tal como o é o esqueleto ósseo em todos nós. O citoplasma corresponde ao interior, do corpo, com todos os seus órgãos. O núcleo é o equivalente do cérebro. A membrana celular equivale à pele. Algumas destas células chegam a apresentar o equivalente a membros, cílios, cujos movimentos concertados lhes permitem nadar.

Cortesia de universo42

Os componentes separados de uma célula eucariótica uniram-se graças à colaboração ntre criaturas individuais mais simples, nomeadamente bactérias que abdicaram da sua independência para fazer parte de um novo colectivo mais conveniente. Um certo tipo de bactéria deu origem às mitocôndrias; outro tipo, como as espiroquetas, ajudou, com o citoesqueleto e os cílios, os organismos que gostavam de nadar. A grande maravilha é o facto de o nosso organismo multicelular ser estruturado de acordo com esta mesma estratégia, agregando milhares de milhões de células Para constituir tecidos, unindo diferentes tipos de tecido para compor órgãos e ligando diferentes órgãos para formar sistemas. Entre os vários tipos de tecidos contam-se os epitélios da pele, das mucosas de revestimento e das glândulas endócrinas; «o tecido muscular», o tecido nervoso ou neural, e o tecido conjuntivo que os une a todos. Os possíveis exemplos de órgãos são óbvios, desde o coração e os intestinos ao cérebro. Exemplos de sistemas incluem o conjunto formado pelo coração, sangue e vasos sanguíneos (o sistema circulatório), o sistema imunitário e o sistema nervoso. Em resultado desta tendência colaborativa, o nosso organismo é a combinação extremamente diferenciada de triliões de células de variadíssimos tipos, onde se inclui, claro está, um tipo especial de células chamadas neurónios, o mais distinto constituinte do cérebro». In António Damásio, O Livro da Consciência, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2010, ISBN 978-989-644-120-3.


Cortesia de Temas e Debates/JDACT

quarta-feira, 11 de maio de 2011

António Damásio: O Livro da Consciência. «...não só os processos conscientes e não-conscientes coexistem, como, além disso, há processos não-conscientes que são relevantes para a manutenção da vida e que existem sem parceiros conscientes. Existem seres vivos sem qualquer cérebro, até mesmo seres unicelulares, que exibem também um comportamento aparentemente inteligente e objectivo»

Cortesia delookfordiagnosis

Quando a realidade mais parece ficção
«Mark Twain considerava que a grande diferença entre a ficção e a realidade era o facto de a ficção requerer credibilidade. A realidade podia dar-se ao luxo de ser implausível, mas não a ficção. A narrativa sobre a mente e a consciência que aqui apresento não se coaduna assim com as exigências da ficção. Na verdade, é contra-intuitiva. Perturba a narrativa humana tradicional. Nega repetidamente ideias solidamente estabelecidas e tradicionalmente bem aceites. Mas nada disso faz com que o relato que se segue seja menos verosímil.
O conceito de que atrás da mente consciente se ocultam processos mentais inconscientes não é novo. Essa ideia viu a luz do dia há mais de um século, altura em que o público a recebeu com alguma surpresa, mas hoje tornou-se banal. o que é bem menos banal, embora seja bem conhecido, é o facto de muito antes de os seres vivos terem mentes, eles exibirem comportamentos eficientes e adaptativos que, para todos os efeitos, se assemelham aos que se observam nas criaturas conscientes. É evidente que esses comportamentos não eram causados por uma mente, e muito menos pela consciência. Em resumo, não só os processos conscientes e não-conscientes coexistem, como, além disso, há processos não-conscientes que são relevantes para a manutenção da vida e que existem sem parceiros conscientes.

Cortesia de temasedebates
A evolução brindou-nos com diferentes tipos de cérebro, no que diz respeito à mente e à consciência. Temos o tipo de cérebro que produz comportamento mas que parece não ter mente nem consciência, como, por exemplo, o sistema nervoso do «Áplysia californica», o caracol marinho que se tornou popular no laboratório do neurobiólogo Eric Kandel. Existe o tipo de cérebro que produz toda uma vasta gama de fenómenos, comportamento, mente e consciência, de que o cérebro humano é, claro está, o principal exemplo. Há ainda um terceiro tipo de cérebro que produz claramente comportamento, é provável que dê origem a uma mente, mas em que o grau de consciência é problemático. É o caso dos insectos.
No entanto, as surpresas não se ficam pela noção de que na ausência de mente e de consciência, o cérebro pode produzir comportamentos respeitáveis. Existem seres vivos sem qualquer cérebro, até mesmo seres unicelulares, que exibem também um comportamento aparentemente inteligente e objectivo. Esse é também um facto subestimado.

Cortesia de tecnologiaradiologiagladis
Não há dúvida de que podemos obter conhecimentos úteis sobre a forma como o cérebro humano produz mentes conscientes ao entender os cérebros mais simples que não dão origem nem a mente, nem a consciência. Todavia, à medida que nos dedicamos a essa análise retrospectiva, torna-se óbvio que para explicar a ascensão de cérebros tão antigos é necessário recuar ainda mais, até ao mundo das mais simples formas de vida, desprovi das tanto de consciência corno de mente e de cérebro com efeito, se quisermos encontrar uma justificação para as mentes conscientes, temos de nos aproximar dos começos da vida. Aí chegados, deparam-se-nos mais uma vez conceitos que são não só surpreendemos, como também enfraquecem as ideias tradicionais no que respeita à contribuição do cérebro, da mente e da consciência para a gestão da vida». In António Damásio, O Livro da Consciência, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2010, ISBN 978-989-644-120-3.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Prémios Nobel 2010: Reconhecido como um dos prémios mais importantes do mundo, ao destacar investigadores, cientistas, escritores, entre outros, que realizam feitos importantes em áreas de conhecimento como a Física, Química, Medicina e Literatura. O Prémio Nobel da Paz é atribuído a pessoas que lutaram pela defesa dos direitos humanos, pela promoção da Paz mundial e pelo desenvolvimento sustentável


Cortesia de nobelprize

O Prémio Nobel é entregue todos os anos na cidade sueca de Oslo. A atribuição dos Prémios Nobel 2010 está agendada para o dia 10 de Dezembro de 2010, data de aniversário da morte de Alfred Nobel, criador do Prémio Nobel. É reconhecido como um dos prémios mais importantes do mundo, ao destacar investigadores, cientistas, escritores, entre outros, que realizam feitos importantes em áreas de conhecimento como a Física, Química, Medicina e Literatura. Por sua vez o Prémio Nobel da Paz é aquele que desperta mais interesse no público e nos media, com a atribuição do prémio a pessoas que lutaram pela defesa dos direitos humanos, pela promoção da Paz mundial e pelo desenvolvimento sustentável.
Cada premiado recebe uma medalha de ouro, um diploma e um determinado valor monetário, que depende do orçamento anual da Fundação Nobel.
Os diferentes Prémio Nobel são atribuídos por diferentes associações e academias suecas, com excepção do Prémio Nobel da Paz que é concedido pelo Comité Nobel da Noruega.


Cortesia de nobelprize
O Prémio Nobel de Física 2010 foi atribuído conjuntamente a Andre Geim e Konstantin Novoselov «Inovador para experiências sobre o grafeno e materiais bidimensionais». Grafeno: Face Nova Carbon. O grafeno é uma forma de carbono que é o melhor condutor de calor conhecido até o momento. Como é praticamente transparente e bom condutor, o grafeno é compatível para produzir telas tácteis, painéis luminosos e talvez também captadores de energia solar. Imagine uma folha de material que é apenas um átomo de espessura, mas super-forte, altamente condutor, praticamente transparente e capaz de revelar novos segredos da física fundamental. Isso é o grafeno.

Cortesia de nobelprize

http://nobelprize.org/mediaplayer/index.php?id=1335

O Prémio Nobel de Química 2010 foi atribuído conjuntamente a Richard F. Heck, Negishi Ei-ichi e Akira Suzuki «pelo desenvolvimento de acoplamento cruzado de paládio-catalisado». Esta ferramenta química melhorou as possibilidades dos químicos criarem produtos sofisticados, por exemplo, moléculas à base de carbono tão complexas como as criadas pela própria natureza. Molécula Makers. Estes 3 cientistas dividem o Prémio Nobel em Química para o desenvolvimento de novas formas mais eficientes de ligar os átomos de carbono em conjunto para construir moléculas complexas que irão melhorar a nossa vida quotidiana.

 Cortesia de nobelprize
O Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina 2010 foi atribuído a Robert G. Edwards «Para o desenvolvimento da fecundação in vitro». O Pai do bebé proveta. Robert G. Edwards, em 2010 o Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina, lutou contra a resistência da sociedade e a utilização do método de um processo de fertilização in vitro, que até ao momento levou ao nascimento de cerca de 4 milhões de crianças.

  Cortesia de nobelprize
O Prémio Nobel da Literatura 2010 foi atribuído a Mario Vargas Llosa «Pela sua cartografia das estruturas de poder e das imagens relativas à sua mordaz da resistência do indivíduo, de revolta, e da derrota». Mario Vargas Llosa. Peruano de nascimento e cidadão verdadeiramente internacional, engloba vários géneros (romances, peças teatrais, ensaios); na política o seu compromisso com a mudança social.

 Cortesia de nobelprize 
O Prémio Nobel da Paz 2010 foi atribuído a Liu Xiaobo «Pela sua luta longa, tenaz e não-violenta pelos direitos humanos na China». Liberdade de expressão na China. Entre as muitas pessoas que lutam pelos direitos humanos na China, Liu Xiaobo tornou-se o símbolo mais visível da luta. Um expoente a longo prazo do protesto não-violento. Está na prisão a cumprir uma pena de 11 anos.

 Cortesia de nobelprize 
O Prémio Sveriges Riksbank em Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel de 2010 foi atribuído conjuntamente a Peter A. Diamond, Dale T. Mortensen e Christopher A. Pissarides «por um método de análise dos mercados». Encontrar o lugar certo. Ciências Económicas. Como todos sabemos, combinando com os compradores/vendedors ou que procuram emprego para um lugar certo, os laureados deste ano criaram modelos matemáticos que constituem o enquadramento para estudar como esses processos ocorrem no mundo real.

 Cortesia de nobelprize

Cortesia de The Nobel Foundation/JDACT

domingo, 4 de julho de 2010

Hipócrates: A ilha grega de Kós. O Pai da Medicina. Entendia que o corpo humano era um todo e não um conjunto de partes independentes. Descreveu pela primeira vez e com detalhes a pneumonia e a epilepsia em crianças

Hipócrates - O Pai da Medicina 
(460 AC-377 AC)
Ilha de Kós, Grécia
Cortesia de wikipédia 

Cortesia de wikipédia
A estreita e montanhosa Kós, a segunda maior ilha do Dodecaneso, é uma mistura de antiguidades fascinantes e turismo de massa. Hipócrates, pai da medicina científica, nasceu aqui no século 5º a.C. As ruínas do complexo de Asklepion, construído após a sua morte para ser um centro de pesquisa e tratamento, é o principal local de visita da antiga ilha. A cidade de Kós está repleta de ruínas helénicas e romanas.

Definiu nos seus «Aforismos» - DOENÇA - como sendo o resultado do desequilíbrio entre os «humores orgânicos» (trisosha); sangue, bile negra e amarela e água (fleuma), associando esses elementos com o temperamento dos indivíduos.
O mais famoso médico grego foi o primeiro a rejeitar o conceito de que as doenças eram causadas por superstições, possessão por espíritos malignos ou pela ira dos deuses passando pela primeira vez na história uma imagem mais científica da medicina.
Entendia que o corpo humano era um todo e não um conjunto de partes independentes. Descreveu pela primeira vez e com detalhes a pneumonia e a epilepsia em crianças. Acreditava que a cura natural ocorria com o repouso, alimentação saudável, ar puro e hábitos de higiene. Observou que a severidade de uma determinada doença comportava-se de forma variável de pessoa para pessoa. Foi o primeiro a defender que as emoções, os sentimentos, o pensamento e as ideias tinham origem no cérebro e não no coração como acreditavam na época.

Estendeu os seus ensinamentos por toda a Grécia, porém na maioria de seu tempo reunia seus discípulos em Kós-Dodekánisos, sob a copa de uma árvore, supostamente plantada por ele mesmo e preservada até hoje onde fundou sua Escola de Medicina.

«Sala de Aula» de Hipócrates na ilha grega de Kós
O famoso Plátano
Cortesia de alzheimermed
Escreveu o célebre «Juramento de Hipócrates» adoptado e respeitado por todos os médicos do mundo até aos dias de hoje. Pela mente surgiu-me, por breves segundos, a sigla CCV.  
Eis o Juramento de Hipócrates:
«Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higeia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes. Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. Conservarei imaculada minha vida e minha arte. Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam. Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados. Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça».

Ruínas da Escola de Medicina de Hipocrates
Ilha de Kos
Cortesia de ab-integro 

Cortesia de meumestreinterior
Hipócrates é considerado por muitos uma das figuras mais importantes da história da saúde, frequentemente considerado «pai da medicina». Hipócrates era  membro de uma família que durante várias gerações praticara os cuidados em saúde. Nascido numa ilha grega, os dados sobre sua vida são incertos ou pouco confiáveis. Parece certo, contudo, que viajou pela Grécia e que esteve no Médio Oriente. Nas obras hipocráticas há uma série de descrições clínicas pelas quais se pode diagnosticar doenças como a malária, papeira, pneumonia e tuberculose. Para o estudioso grego, muitas epidemias relacionavam-se com factores climáticos, raciais, dietéticos e do meio onde as pessoas viviam. Muitos de seus comentários nos Aforismos são ainda hoje válidos. Os escritos sobre anatomia contém descrições claras tanto sobre instrumentos de dissecação quanto sobre procedimentos práticos. Foi o líder incontestável da chamada «Escola de Kós». O que resta das suas obras testemunha a rejeição da superstição e das práticas mágicas da «saúde» primitiva, direcionando os conhecimentos em saúde no caminho científico. Hipócrates fundamentou a sua prática (e a sua forma de compreender o organismo humano, incluindo a personalidade) na teoria dos quatro humores corporais (sangue, fleugma ou pituíta, bílis amarela e bílis negra) que, consoante as quantidades relativas presentes no corpo, levariam a estados de equilíbrio (eucrasia) ou de doença e dor (discrasia). Esta teoria influenciou, por exemplo, Galeno, que desenvolveu a teoria dos humores e que dominou o conhecimento até o século XVIII.
Cortesia de História da Medicina/wikipédia/JDACT

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Egas Moniz: O Nobel de Fisiologia/Medicina de 1949

(1874-1955)
Cortesia de sol.sapo
António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz foi um médico, neurologista, investigador, professor, político e escritor português. Foi galardoado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1949, partilhado com Walter Rudolf Hess.


Exame em Raios X dos vasos sanguíneos do cérebro, utilizando o método – angiografia cerebral – introduzido por Egas Moniz. Um contraste opaco aos raios foi introduzido num dos quatro vasos do pescoço (artéria carótida) que o conduzem ao cérebro. Estado normal (primeira imagem). Um caso de malformação situado na parte parietal do cérebro e provocado por uma artéria dilatada (segunda imagem)
In Nobel e-Museum, Instituto Camões

Formou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, onde começou por ser lente substituto, leccionando anatomia e fisiologia. Em 1911 ocupou a cátedra de neurologia como professor catedrático na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. No serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria, Lisboa, existe o  Museu Egas Moniz, onde se pode vislumbrar uma restituição do seu gabinete de trabalho com as peças originais e vários manuscritos de sua autoria.
«Egas Moniz contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da medicina ao conseguir pela primeira vez dar visibilidade às artérias do cérebro. A Angiografia Cerebral, que descobriu após longas experiências com raios X, tornou possível localizar neoplasias, aneurismas, hemorragias e outras mal-formações no cérebro humano e abriu novos caminhos para a cirurgia cerebral».
Como investigador, Egas Moniz, contando com a preciosa colaboração de Pedro Almeida Lima, utilizou duas técnicas:

  • a leucotomia pré-frontal;

  • a angiografia cerebral.
Egas Moniz foi proposto cinco vezes (1928, 1933, 1937, 1944 e 1949) ao Nobel de Fisiologia ou Medicina, obtendo o galardão em 1949. A técnica desenvolvida por Egas Moniz, a operação ao cérebro chamada lobotomia, deixou de ser praticada pelos médicos.

A sua actividade política iniciou-se ainda em estudante.Foi defensor activo da liberdade de expressão e pensamento e, em 1908, foi preso por estar envolvido na tentativa de golpe de estado de 28 de Janeiro contra a ditadura de João Franco. Foi eleito deputado em várias legislaturas, fundou de o Partido Centrista, que pretendia unir antigos monárquicos de corrente progressista e republicanos que se afastavam do Partido Evolucionista. Defensor das liberdades públicas e dos direitos individuais, liderou a corrente parlamentar do Partido Nacional Republicano.  Em 1918 foi Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Sidónio Pais. Após o assassinato de Sidónio Pais, decidiu abandonar a política activa. Publicou a obra «Um Ano de Política», onde expôs os sentimentos e opiniões sobre o seu percurso político.
Passou então a dedicar-se à sua carreira científica.
Morre aos 81 anos em Lisboa.
Cortesia Instituto Camões/Ciências em Portugal
JDACT

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Manuel Ribeiro Sanches: O médico dos «males de amor»

(1699-1783)
António Nunes Ribeiro Sanches foi um médico português e grande intelectual, considerado por muitos como um verdadeiro enciclopedista (médico, filósofo, pedagogo, historiador, etc.), escreve largas dezenas de manuscritos, sob a influência do pedagogismo no século das Luzes, dos quais apenas nove foram publicados em vida, a maioria continua nos arquivos. Na medicina, onde se distinguiu na venereologia, sendo por isso também chamado o médico dos males de amor, escreveu a pedido de D'Alembert e Diderot para a Enciclopédia. O seu nome está na primeira fila dos grandes mestres do pensamento europeu da sua época, o Marquês de Pombal vai aproveitar muito do seu saber para implementar a sua acção cultural e científica, na sua tarefa de modernização de Portugal.
Centro de estudos Judaicos/Paulo Campos/Arquivo Histórico/JDACT