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sábado, 7 de janeiro de 2012

Arte e Artistas em Portugal. Os Anos 80. Parte Id. «Os Cómicos são uma espécie de símbolo cultural da década. A sua actividade ficou ligada a uma boa parte dos nomes que revelaram uma maior capacidade de afirmação ao longo destes anos e aos temas e debates estéticos que mais marcaram este período, designadamente a discussão em torno da noção de pós-modernismo»

Rui Chafes, Ooglid, 1995
Cortesia de cvc

«Em relação às galerias de arte, de toda a animação cultural e artística da década de 60 e do breve período de euforia no mercado de arte vivido no início dos anos 70, a única galeria que sobreviveu, sem interrupções de actividade, foi a Galeria III. Isto explica a natureza quase museológica do acervo da galeria e da colecção pessoal constituída por Manuel de Brito. Das galerias inauguradas na década de 70, tendo vivido toda a primeira fase da sua existência num período de forte agitação política e social e de quase inexistência de mercado de arte, a continuidade e sobrevivência da Módulo - e até recentemente da Quadrum - é a demonstração do peso que as componentes passional ou cultural desempenharam nas motivações dos seus responsáveis e é o fundamento lógico do prestígio cultural e da conotação de vanguarda que então lhes foi reconhecida.

Em meados dos anos 80 assiste-se a um momento de animação com a abertura de várias galerias, entre as quais duas que, por razões diferentes, melhor poderão servir de imagem emblemática dos anos 80: os Cómicos, em Lisboa, e a Nasoni, no Porto. Outros exemplos relevantes são a Valentim de Carvalho, em Lisboa, e a Roma e Pavia, depois Pedro Oliveira, no Porto.
Os Cómicos são uma espécie de símbolo cultural da década. A sua actividade ficou ligada a uma boa parte dos nomes que revelaram uma maior capacidade de afirmação ao longo destes anos e aos temas e debates estéticos que mais marcaram este período, designadamente a discussão em torno da noção de pós-modernismo.
A Nasoni é uma espécie de símbolo económico da época, tendo desenvolvido um dos mais ambiciosos trabalhos jamais realizados ao nível do mercado da arte em Portugal. Nessa medida, a Nasoni assumiu e impulsionou o que poderíamos chamar a versão portuguesa e, portanto, em escala reduzida, da euforia - com a inerente espiral de inflação e especulação - no mercado internacional da arte contemporânea durante este período.
A concentração de inaugurações, ampliações e mudanças de espaços na segunda metade da década de 80, assim como o projecto do Museu Nacional de Arte Moderna, em 1989, na Casa de Serralves, são nítidos indicadores de uma crescente animação cultural e económica na área das artes plásticas e uma óbvia consequência de uma inegável, ainda que modesta, animação do mercado de arte em Portugal.

Graça Morais, Cabo Verde, 1988
Cortesia de cvc

Indícios de um embrionário trabalho de internacionalização são a apresentação em Portugal de exposições individuais de alguns destacados artistas estrangeiros e a presença regular de galerias portuguesas em feiras de arte no estrangeiro, sobretudo na ARCO em Madrid, desde 1984 até hoje - Portugal foi o país convidado em 1998 - que contrasta com o cessar da participação portuguesa na Bienal de Veneza entre 1986 e 1994. In Alexandre Melo, Centro Virtual Camões.

Manuel Rosa, s/t, 1989
Cortesia de cvc

Cortesia de CVirtual Camões/JDACT

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Arte e Artistas em Portugal. Os Anos 80. Parte Ia. «A referida animação do meio artístico, que julgamos característica deste período, não é evidentemente um exclusivo dos artistas que então se revelaram. Pelo contrário, esta é uma situação em que se cruzam e sobrepõem artistas e obras que representam diferentes gerações e sensibilidades…»

Pedro Casqueiro, 1984
Cortesia de cvc

Anos 80
«A ruptura democrática de 25 de Abril de 1974 deu lugar, na sociedade portuguesa, a uma nova conjuntura cultural que possibilitou, nos anos 80, o aparecimento e o rápido reconhecimento de uma nova vaga de criadores e agentes culturais. No campo das artes plásticas, esta década caracteriza-se pela emergência de um vasto e diversificado conjunto de artistas com uma forte capacidade de afirmação do seu trabalho e uma presença cultural particularmente dinâmica. Estes artistas foram, por sua vez, acompanhados por uma nova vaga de agentes ligados às artes plásticas, designadamente galeristas e críticos (como, por exemplo, Alexandre Melo e João Pinharanda), que contribuíram para dar à cena artística uma animação e uma capacidade de difusão fora do comum, no que aliás acompanhavam a tendência internacional da década, no sentido de uma crescente popularidade das artes plásticas.

A referida animação do meio artístico, que julgamos característica deste período, não é evidentemente um exclusivo dos artistas que então se revelaram. Pelo contrário, esta é uma situação em que se cruzam e sobrepõem artistas e obras que representam diferentes gerações e sensibilidades e que deram corpo a uma conjuntura artística particularmente dinâmica e diversificada. Os anos 80 assistem portanto a um cruzamento de algumas práticas que vêm da década anterior, como o pós-conceptualismo, com artistas como Helena Almeida, Alberto Carneiro ou Fernando Calhau, e novas realidades características dos anos 80, testemunhando assim a pluralidade de gerações e um hibridismo de soluções estéticas.

Pedro Proença, Prometeu, 1983
Cortesia de cvc

Um lugar de relevo é ocupado por artistas cujo trabalho e reconhecimento público já vinham de trás mas que lograram obter durante a década de 80 uma reforçada notoriedade e uma renovada actualidade. São exemplos disso António Palolo, António Dacosta, que retoma a actividade pictórica, Paula Rego, Menez, que se aproxima da figuração, Pomar, que evoca grandes figuras literárias nacionais, Eduardo Batarda e Álvaro Lapa. Nikias Skapinakis retoma nesta década a temática paisigística (Vale dos Reis) que se manterá até à década seguinte, deixando de lado a figuração de influência cartazística dos anos 60 e 70.

Joaquim Bravo assiste, neste período, ao reconhecimento da sua obra que se desenvolve através de um sistemático trabalho de invenção formal conducente a uma abstracção não-geométrica extremamente livre, flexível e original. Devido à sua capacidade pedagógica e ao seu entusiasmo, desde finais dos anos 70 gerou em seu redor um círculo de amigos incluindo artistas mais jovens como Xana, José Miranda Justo, Pedro Cabrita Reis e João Paulo Feliciano.

Julião Sarmento, Noites Brancas, 1982
Cortesia de cvc

A exposição Depois do Modernismo (SNBA, 1983), coordenada por Luís Serpa, introduz em Portugal a temática e o debate pós-moderno, correspondendo à instauração de uma situação plástica balizada pelo "regresso à pintura", a transvanguarda, o neo-expressionismo, a "bad painting" e as novas figurações, o que se traduzia num predomínio da figuração humana, frequentemente exercitado num registo espontâneo ou pulsional. A exposição - em que a maioria dos participantes transitaram da década anterior, à excepção de Gaëtan e Pedro Calapez - foi acompanhada de acções na área da dança, música, moda e arquitectura. No ano seguinte duas exposições contribuíram igualmente para a assunção da diversidade estética e para dinamizar o debate teórico: Os Novos Primitivos, comissariada por Bernardo Pinto de Almeida, no Porto, e Atitutes Litorais, comissariada por José Miranda Justo, em Lisboa.
Neste contexto geral, Julião Sarmento, que se revelara no âmbito das práticas pós-conceptuais, afirmou-se como o nome português mais destacado em termos de reconhecimento internacional participando na Documenta de Kassel em 82 e 87. Nesta mesma dinâmica conjuntural podem ainda incluir-se vários outros artistas bem diferenciados. Gerardo Burmester vive a sua atitude e experiência enquanto artista na incontornável nostalgia e consciência da impossibilidade de actualizar os ideais de beleza e emoção inerentes ao ideal romântico. Registemos as exuberantes paisagens de meados de 80, a voluptuosa utilização de madeira, couro e feltro nos objectos de finais dessa década, o requinte dos jogos de cores e a grande orgia de vermelhos e dourados em instalações de começos de 90, a elegância do desenho e o acerto das formas.
Albuquerque Mendes tem na auto-representação e nas figurações e evocações míticas e religiosas alguns dos mais fortes fios condutores para a leitura de um trabalho em que a prática da pintura se combina com incursões no domínio da instalação e da performance». In Alexandre Melo, Centro Virtual Camões.

Cortesia de CVirtual Camões/JDACT

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Arte e Artistas em Portugal. Os Anos 70. Parte Ic. «A década de 70 deu continuidade a muitas das linguagens plásticas produzidas por artistas das décadas anteriores mas, por outro lado, radicalizou soluções dos anos 60 e lançou e consagrou uma série de autores que mostraram opções plásticas bastante amadurecidas»

Eduardo Batarda, What´s in a nose?, 1973.
Cortesia de cvc

Em 1978 realizou-se a I Bienal Internacional de Artes Plásticas de Vila Nova de Cerveira, iniciativa que, privilegiando a contemporaneidade durante as primeiras edições, promoveu a descentralização artística, revelando curiosas assimetrias culturais, numa temporária coexistência entre a tradição da expressão regional própria da localidade e a novidade das formas artísticas apresentadas.
Talvez influenciada pelo sucesso da I Bienal de Cerveira, a Secretaria de Estado da Cultura organizou, em 1979, a Iª edição da Bienal Internacional de Desenho, que veria abruptamente interrompido o seu percurso devido ao incêndio do espaço da Galeria de Belém, em 1981. Apesar da iniciativa não ter tido continuidade é importante salientar a passagem pelo espaço da galeria de alguns trabalhos que ultrapassaram a fronteira do desenho e afirmaram uma liberdade experimentalista tendo como suporte o papel e as suas potencialidades. A década de 70 deu continuidade a muitas das linguagens plásticas produzidas por artistas das décadas anteriores mas, por outro lado, radicalizou soluções dos anos 60 e lançou e consagrou uma série de autores que mostraram opções plásticas bastante amadurecidas. Entre os artistas de continuidade, alguns dos quais consolidam a sua presença na crítica e no mercado durante este período, podemos referir Júlio Pomar, Paula Rego, Joaquim Rodrigo, Mário Cesariny, António Sena, Álvaro Lapa, José de Guimarães e Eduardo Batarda.

Na sequência de pesquisas de anos anteriores, nomeadamente na área da poesia concreta, devemos referir a ecléctica obra de Ana Hatherly, com passagens pelo desenho, pintura, "performance", "happening" (Rotura, 1977) e cinema (filme Revolução, 1975). Veja-se a sua participação na Alternativa Zero, com Poema d'entro.
No campo da pintura, Luísa Correia Pereira a trabalhar em aguarela, colagem sobre papel e outros suportes e técnicas, elaborou uma obra marcada pela representação espontânea e pelo colorido, com referências a lugares, personagens e objectos de mundos imaginados e, mais recentemente, com referências à sua própria infância. Vítor Pomar, cuja obra reivindica uma forte influência do budismo Zen, utiliza na sua pintura uma estética bicolor, com predomínio do preto e branco, mantendo-se no registo abstracto, mas passando também pela fotografia, vídeo e cinema experimental.

João Abel Manta, MFA - Sentinela do Povo.
Cortesia de cvc

Relativamente aos percursos individuais, à margem das disciplinas tradicionais, cabe mencionar Alberto Carneiro que nestes anos inicia os seus "teatros-ambientes" com obras tão significativas como Canavial: memória/metamorfose de um corpo ausente (1968-1970), Uma floresta para os teus sonhos (1970) ou Uma linha para os teus sentimentos estéticos (1970-71), para além das suas propostas mais perto da land art como Operação Estética em Vilar do Paraíso (1973). Também Helena Almeida parte para a exploração de outros media, mormente a fotografia, onde a auto-representação e as noções de espaço e de corpo performativo são referências constantes.
António Palolo estende as suas pesquisas às áreas do filme, vídeo e instalação numa proximidade com as tendências neo-conceptuais, afastando-se da pintura com referências pop e minimalistas do início da década. Também Julião Sarmento passa a utilizar a fotografia e a realizar filmes, mantendo as temáticas sexuais características do seu trabalho pictórico anterior. Ainda numa linguagem conceptual encontramos o trabalho de Graça Pereira Coutinho, emigrada em Londres, que utiliza materiais naturais (terra, palha, areia, folhas, giz), métodos artesanais, impressões de mãos, palavras ilegíveis, rabiscos e memórias de vivências pessoais para criar soluções entre escultura e pintura. Numa outra vertente conceptual, mormente ao nível do questionar do próprio conceito da obra de arte e seus mecanismos de recepção e divulgação, temos o trabalho de Manuel Casimiro, também emigrado em França. Trata-se de uma obra que remete para o acervo imagético da história da arte, dando protagonismo a uma forma ovóide que vai ganhando importância durante a década de 70.


Clara Menéres, Mulher-terra-vida, 1977

Ana Hatherly, As Ruas de Lisboa, 1977
Cortesia de cvc

Consciente de que os anos 70 são o período de conjugação de técnicas, José Barrias, residente em Milão desde a década de 60, para além do seu trabalho teórico, desenvolve diversos ciclos temáticos no campo das artes plásticas. Nessa linha de investigação de mistura de géneros devemos considerar a obra de Ana Vieira, designadamente as suas instalações-ambiente dos anos 70, onde o espectador assume um papel fundamental quer pelo convite a participar quer por ser impedido de entrar nos espaços criados pela autora.
Remetendo para o pós-minimalismo, refiram-se as obras de Fernando Calhau e Zulmiro de Carvalho. Este último explora nas suas esculturas a plasticidade de materiais como a madeira, o ferro ou a pedra. Enquanto isso, Fernando Calhau adopta certos valores op(ticos) e desenvolve trabalhos mais próximos do conceptualismo, através do uso da fotografia e do filme.
Também Pires Vieira apresenta um registo minimalista na sua pintura dos anos 70, desenvolvendo, no início da década, pesquisas em torno das cores puras e passando depois a preocupar-se com questões relacionadas com "desconstruções" da pintura, a sua decomposição em estruturas e processo de elaboração. Destas operações resultam telas penduradas sem armação, com formas geométricas padronizadas recortadas.

No que diz respeito às actividades de grupo, a década de 70, marcada pelo ambiente de festa e utopia próprio do contexto socio-político, assiste a uma série de projectos colectivos, alguns já referidos, e à formação de grupos de artistas que partilhavam alguns objectivos artísticos e sociais, nomeadamente o cruzamento das várias disciplinas (com reminiscências do Fluxus), a recusa de academismos e a intervenção social e política. Neste contexto surge o grupo Acre formado, em 1974, por Clara Menéres, Lima de Carvalho e Alfredo Queiroz Ribeiro, com actividades como pintar o pavimento da Rua Augusta ou a distribuição de diplomas de artista - ao jeito de Piero Manzoni - na Galeria Opinião. Mais dedicado à pintura e à performance, o grupo Puzzle, com actividade entre 1975 e 1980, optou por questões ligadas à função social da arte e do artista». In Alexandre Melo, Centro Virtual Camões.

Cortesia de CVirtual Camões/JDACT

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Arte e Artistas em Portugal. Os Anos 70. Parte Ib. «Durante o mês de Abril realizou-se a exposição 26 Artistas de Hoje, reunindo na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) alguns dos trabalhos do conjunto de artistas distinguidos pelos Prémios Soquil»

Nikias Skapinakis, Encontro de Natália Correia,
Fernanda Botelho e Maria João Pires, 1974.
Cortesia de cvc

«Ao nível das publicações também assistimos durante a primeira metade da década de 70 ao aparecimento da revista Colóquio-Artes (1971-1997), sob a direcção de José-Augusto França, e no Porto, em 1973, à Revista de Artes Plásticas. No ano seguinte seria, também da autoria de José-Augusto França, publicada A Arte em Portugal no Século XX, obra de referência para a historiografia artística nacional.
Ainda em 1973 - ano da morte de Picasso - três acontecimentos importantes merecem uma referência particular. Durante o mês de Abril realizou-se a exposição 26 Artistas de Hoje, reunindo na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) alguns dos trabalhos do conjunto de artistas distinguidos pelos Prémios Soquil.

Em Setembro desse ano era inaugurado, em Lagos, o monumento a D. Sebastião. Não é fácil encontrar uma figura cuja carga histórica, mítica e cultural, melhor represente a atmosfera passadista, pasmada e bloqueadora que impregnou a sociedade portuguesa durante largas décadas. Ao mesmo tempo, a figura de D. Sebastião foi uma das grandes fontes inspiradoras de uma atitude irracionalista, saudosista, reaccionária e imobilista que por muito tempo marcou correntes influentes do pensamento português. Estas considerações histórico-culturais ajudam a explicar porque é o D. Sebastião de João Cutileiro uma obra-chave deste período. Partindo da experiência técnica das suas "bonecas articuladas", o autor apresenta-nos o jovem rei como o menino que questiona o mito imperial dos portugueses, numa renovação da estatuária que definiria o novo limiar da escultura portuguesa, destronando em definitivo a linguagem escultórica do regime, protagonizada pelo trabalho de Francisco Franco. A inserção física da estátua numa praça de Lagos corresponde ao modo como o adolescente Sebastião pousa no chão o elmo e abre à sua volta um olhar claro e limpo, através do qual o seu corpo se deixa absorver pela luz.

João Cutileiro, Maquete de D. Sebastião - I, 1972.
Mármore
Cortesia de cvc

De modo mais óbvio, outros eventos artísticos anunciam a iminência da mudança política. Em Dezembro de 1973 inaugura na SNBA a Exposição 73. Na sala de entrada uma representação escultórica realista de um soldado morto com a farda da guerra colonial - Jaz Morto e Arrefece de Clara Menéres. Por trás dele, na parede, um friso de pardos rostos silenciosos numa pintura de Rui Filipe. Na noite da inauguração uma performance de João Vieira envolvendo uma mulher nua pintada de dourado é ainda matéria de pequeno escândalo.
A 25 de Abril de 1974 é o "25 de Abril". A 10 de Junho, dia de Portugal, 48 artistas juntam-se para comemorar o acontecimento e pintar, em simultâneo, ao vivo, em directo diante do público e das câmaras da televisão um grande painel que tem como tema a liberdade. É um evento ingénuo e um pouco anedótico mas não vale a pena negar-lhe a sua autenticidade emocional e conjuntural. Durante a reportagem alguém diz a Júlio Pomar que a sua pintura é complicada. Pomar responde que a vida também é complicada.
No Porto, uma "comissão para uma cultura dinâmica" formada por artistas plásticos, escritores e poetas realiza nesse mesmo dia o Funeral do Museu Nacional de Soares dos Reis. O protesto - que envolveu cerca de 500 pessoas - era dirigido contra o sistema museológico português em geral, completamente anacrónico.

Os acontecimentos políticos de 74 vieram interromper o ritmo das exposições de artes plásticas, assim como o consequente trabalho da crítica. Das páginas dos jornais quase desaparecem as referências às práticas artísticas, embora a inevitável euforia da movimentação política tenha determinado, ainda que fugazmente, a renovação da participação cultural, com a aspiração a um novo tipo de relacionamento entre artistas e público em geral.
Como é habitual em períodos de agitação política pré- ou pós-revolucionária, vários artistas e práticas culturais foram instrumentalizados pelas mais primárias, anacrónicas e absurdas manipulações ideológicas. Se quisermos fazer um balanço, em termos estéticos, de toda esta agitação política, retenham-se os cartoons de João Abel Manta e os sumptuosos murais do MRPP, quase todos já destruídos.

José de Guimarães, Máscara com Tatuagens, 1973
Cortesia de cvc

Entre os alinhamentos estéticos desses anos discutia-se, simultaneamente, a dialéctica entre figurativismo e abstracção, entre a pintura e a arte conceptual (ou as acções pós-conceptuais), e reviam-se as intenções, agora libertas da censura, do surrealismo e do neo-realismo portugueses. Procurava-se nas propostas mais ligadas ao exterior, dos conceptualismos vários às tendências pós-vanguardistas, a marca de uma renovação ou as referências mais evidentes da contemporaneidade. Entre o formulário conceptualista e o registo neo-figurativo reordenavam-se as propostas estéticas dos anos 70, numa tendência crescente para a afirmação dos percursos individuais de cada artista.
Nesta interrogação e revisão da modernidade promoveram-se algumas exposições, retrospectivas, mostras temáticas, decorrentes também da situação política e social do país (a título de exemplo refira-se a exposição Pena de Morte, Tortura, Prisão Política, SNBA, 1975). Divulgaram-se práticas e intenções plurais, revelando a multiplicidade da oferta, numa convivência harmónica entre gerações de artistas, estilos, dinâmicas e referências.
No campo das artes plásticas uma grande exposição - Alternativa Zero, Galeria Nacional de Arte Moderna, Belém, 1977 - encerra o período das convulsões pós-revolucionárias, fazendo o balanço da década de 70 no que diz respeito às experiências artísticas mais vanguardistas. Alternativa Zero, organizada por Ernesto de Sousa, constitui um balanço dos trabalhos que em Portugal se mostraram mais sintonizados com as tendências da evolução da arte contemporânea a nível internacional. Conforme o catálogo descritivo advertia a respeito do evento: "pretende ser 'algo mais' do que uma exposição: ou, encarando as coisas de outro prisma, pretende ser uma exposição aberta, com todas as consequências possíveis 'nesta' sociedade, inclusive concorrer (ainda que pouco) para transformá-la". As propostas conceptuais de Alberto Carneiro, ou de Clara Menéres com Mulher-Terra-Vida, e o vídeo de João Vieira, comprovam e exemplificam a linha plural orientadora da exposição, numa altura em que o vazio do mercado de arte não permitia uma verdadeira visibilidade das obras nacionais. A exposição intitulada Alternativa Zero - Tendências Polémicas na Arte Portuguesa Contemporânea marca assim o primeiro balanço dos trabalhos que em Portugal tomaram como referência as atitudes conceptuais e congéneres. Uma situação entre nós minoritária e marginalizada, da qual, no entanto, sairia uma primeira vaga de artistas que viriam a desempenhar um papel do maior relevo ao longo da década de 80». In Alexandre Melo, Centro Virtual Camões.

Cortesia de CVirtual Camões/JDACT

domingo, 25 de setembro de 2011

Arte e Artistas em Portugal. Os Anos 70. Parte Ia. «Contudo, não basta o período de alta especulativa do valor das obras de arte a que se assistiu em meados de 1973 para concluirmos que existia uma dinâmica efectiva e consistente de mercado»

Pires Vieira, Des-Construções, 1974

Julião Sarmento, Faces (detalhe), 1976
Cortesia de cvc

«Nas vésperas da revolução democrática de 1974, Portugal vivia uma conjuntura bastante desfavorável. Em primeiro lugar, colocava-se a questão de uma guerra colonial prolongada e inconclusiva. A tardia e pouco eficaz abertura do sistema político promovida pelo governo de Marcelo Caetano desde 1968 e o desgaste das estruturas institucionais do Estado Novo, com um núcleo político incapaz de resolver o impasse a que o país chegara, geravam um governo caracterizado pela lenta agonia da luta pela sobrevivência, extremamente debilitado perante a comunidade internacional. Em segundo lugar, a insatisfação geral e as dificuldades económicas e sociais da população caracterizavam a realidade isolacionista de um país que se revia ainda na famosa expressão "orgulhosamente sós", comandado por uma classe dirigente dependente de valores políticos e ideológicos ultrapassados.
Neste contexto, martirizada pela longevidade do regime, a sociedade portuguesa sofreu os efeitos negativos da intervenção política na dinâmica cultural. A relativa abertura do sistema no período final do regime reforçou inclusivamente a percepção do abismo que separava a realidade social e artística do nosso país da dinâmica internacional da contemporaneidade. De qualquer modo, não deve ficar a ideia de que antes do levantamento militar democrático de 25 de Abril nada existia e que depois tudo se realizou e concretizou com sucesso, pois a ausência de adequadas políticas culturais foi contínua e persistente.
No que diz respeito ao contexto artístico e, em particular, à realidade das artes plásticas, o período de transição ideológica e política que caracterizou o nosso país na década de 70 apresenta uma complexa multiplicidade de referências, contribuindo indirectamente para abrir uma nova etapa na actividade artística e cultural. Se é verdade que as reformas empreendidas durante o período marcelista possibilitaram uma maior aproximação à situação internacional, não é menos certo que a política cultural de base traduzia uma ineficácia institucional expressa na falta de museus ou centros de arte contemporânea, na debilidade ou inexistência de mercado e na quase total ausência do apoio do Estado às tendências estéticas contemporâneas.
Eduardo Luiz, O 7º disfarce de Zeus, 1972
Cortesia de cvc

Ainda assim, com as medidas económicas tomadas pelo novo governo de Marcelo Caetano, a par das encomendas para a sede da Fundação Gulbenkian e da criação dos Prémios Soquil (1968-1972), o mercado de arte começa a dinamizar-se e a criar uma clientela que vai despertando para a arte moderna em detrimento de um gosto oitocentista enraizado. Contudo, não basta o período de alta especulativa do valor das obras de arte a que se assistiu em meados de 1973 para concluirmos que existia uma dinâmica efectiva e consistente de mercado. Este pequeno "boom" em torno do comércio de arte em Lisboa e Porto traduziu-se na proliferação de galerias e outros espaços expositivos. No final da década de 60 e ao longo da seguinte, no Porto inauguram a Zen (1970) e o Módulo-Centro Difusor de Arte (1975), em Lisboa a Buchholz (a partir de 1965, na R. Duque de Palmela), a Dinastia (1968), a Judite da Cruz, a S. Mamede (1969), a Quadrum (1973) e o segundo espaço do Módulo (1979), e a Ogiva em Óbidos (1970). A par da acção desenvolvida na divulgação e formação de vários artistas por estas galerias, em particular pela Galeria Quadrum e pela Galeria Ogiva que desenvolveu uma estratégia de descentralização, o CAPC (Círculo de Artes Plásticas de Coimbra) teve igualmente um papel importante na experimentação e promoção de novas atitudes estéticas, com acontecimentos tão significativos como Minha Nossa Coimbra Deles (1973), Arte na Rua ou 1000001º Aniversário da Arte (1974). Estes actos simbólicos, "happenings" e "performances" pretendiam alertar a comunidade para o atraso das instituições e gerar a necessária consciencialização da urgência do trabalho a realizar.

Sá Nogueira, Erotropo, 1970.
Cortesia de cvc

De suma importância foi a reestruturação da secção portuguesa da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte), em 1969, mas, sobretudo, a emergência de um discurso crítico e actual por parte de Ernesto de Sousa. Crítico, comissário e artista, Ernesto de Sousa foi uma figura controversa no país de então, desenvolvendo uma estratégia de ruptura e descontinuidade para com os cânones estabelecidos. Depois de uma incursão pelo cinema e pela estética neo-realista enveredou por uma arte experimental com um forte cunho conceptual, em plena sintonia com o que se fazia fora do país. Visita a Documenta de Kassel em 1972, onde conhece pessoalmente Joseph Beuys e contacta com as ideias de Harald Szeemann, facto que marcaria o seu pensamento crítico e contribuíria para trazer novas problemáticas para o debate nacional, tais como a desmaterialização da obra de arte, a noção de "obra aberta", o artista como "operador estético" ou o papel activo do espectador. Da sua actividade como comissário e promotor de projectos devemos considerar os Encontros do Guincho (1969), Nós não estamos algures (1969), O meu corpo é o teu corpo (1971) e as exposições integradas na AICA Do Vazio à Pró-Vocação (1972) e Projectos-Ideias (1974), para além do marco histórico da década: a Alternativa Zero (1977).

As mortes de Eduardo Viana (1967) e de Almada Negreiros (1970), assim como a primeira grande retrospectiva de Vieira da Silva no nosso país, na Fundação Gulbenkian (1970), marcam, por assim dizer, o início de um novo período no panorama da arte nacional». In Alexandre Melo, Centro Virtual Camões.

Cortesia de CVirtual Camões/JDACT

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Arte e Artistas em Portugal. Parte Ic. Os Anos 60. «No campo da escultura, João Cutileiro desenvolve temáticas relacionadas com o corpo humano e a sexualidade, e introduz diversas técnicas e formas inovadoras que resultam em figuras de guerreiros, árvores ou mulheres»

Armando Alves, Objecto, 1969
Álvaro Lapa, Página, 1965
Cortesia do cvc

O Centro Virtual Camões apresenta a base temática Arte e Artistas em Portugal
Art and Artists in Portugal, uma adaptação Web da obra bilingue homónima com coordenação de Alexandre Melo, lançada pelo Instituto Camões no âmbito da Presidência portuguesa do Conselho da União Europeia em 2007. Esta base temática apresenta uma panorâmica abrangente sobre as artes plásticas em Portugal, desde os anos 60 do Século XX até à actualidade, fornecendo ainda informação biográfica sobre alguns dos autores mais relevantes.

Os Anos 60
«Rolando Sá Nogueira, pintor já activo nos anos 50, período em que optou por um figurativismo de certo modo naif, enveredou, na década de 60, pela estética pop, na sequência da sua estadia em Londres (1961-1964), realizando colagens de grande liberdade plástica.
Nikias Skapinakis, nos anos 50, tinha enveredado por um figurativismo de grande riqueza cromática, oferecendo uma alternativa consistente às correntes em voga no período, tanto ao neo-realismo e ao surrealismo como ao abstraccionismo. Nos anos 60 realiza uma série de paisagens e retratos de grupo, a modo de retratos sociológicos de uma época
Noronha da Costa, um dos artistas mais importantes do período, para além de pintor, escultor, arquitecto e cineasta, intensifica as suas preocupações com a visibilidade e a fisicalidade dos objectos. As suas obras integram espelhos, numa exploração dos objectos enquanto tais, originando jogos de formas e espaços ora visíveis ora ocultos. No final dos anos 60, o autor dedica-se ao registo pictórico, mantendo estas explorações visuais, agora através de um sfumato ou uma atmosfera esbatida, deixando entrever fragmentos de pessoas, ambientes, paisagens, velas ou outros elementos de iluminação.

É deste período a série mais famosa de Costa Pinheiro - os Reis - apresentada pela primeira vez em 1966, na Alemanha, na qual o autor faz uma revisão pessoal da história nacional, com atributos iconográficos sugestivos dos vários monarcas, inaugurando assim a temática de personagens da memória colectiva nacional, como Fernando Pessoa, que marcaria a sua obra ao longo das décadas seguintes.

Nadir Afonso, Espacilimitado, 1958
Artur Rosa, Explosão-Esfera, 1968/69
Cortesia do cvc

Um vocabulário figurativo de inspiração naif, exercitado com grande variedade de registos, referências e materiais, sempre renovados, caracteriza o percurso de José de Guimarães, que desde então vem construindo uma sólida e bem sucedida carreira em Portugal e no estrangeiro.
Um outro conjunto de artistas pode ser reunido em torno de formulações específicas da op art, cujas obras são marcadas pelo rigor matemático e elementos geométricos, com investigações no campo da percepção e da tensão óptica. Artur Rosa, também arquitecto, multiplica e desconstrói formas no espaço, com ritmos e movimentos que criam jogos de percepção e ilusão. Com uma obra diversificada que passa pela pintura, desenho, fotografia e intervenções em espaços públicos, também o trabalho de Eduardo Nery vive da repetição de elementos e da exploração do espaço, da luz e da ilusão óptica. Eduardo Luiz, residente em França durante vários anos, através do seu uso peculiar do ''trompe l'oeil" cria espaços tridimensionais em superfícies pictóricas, com alusões surrealistas à suspensão do espaço e do tempo.
No Porto, ligado à Escola de Belas Artes e à Cooperativa Árvore - espaço de experimentação alternativo aos patrocinados pelo regime - o grupo Os Quatro Vintes, composto por Ângelo de Sousa, Jorge Pinheiro, José Rodrigues e Armando Alves, entre 1968 e 1972, visa através da força de grupo alcançar uma acrescida visibilidade, chamar a atenção para a debilidade do ambiente cultural da cidade nortenha e reflectir sobre os novos conceitos de escultura, mas sem, no entanto, criar um programa plástico coerente e de conjunto, como fica demonstrado pela diversidade dos percursos individuais dos seus elementos.
No campo da escultura, João Cutileiro desenvolve temáticas relacionadas com o corpo humano e a sexualidade, e introduz diversas técnicas e formas inovadoras que resultam em figuras de guerreiros, árvores ou mulheres. Em 1966, o artista opta pelo uso exclusivo do mármore. A sua formação londrina na segunda metade dos anos 50 foi de grande importância para aproximar o artista, e consequentemente o país, de novas linguagens escultóricas, tornando-o um nome de referência para as novas gerações de escultores.

Costa Pinheiro, D. Inês de Castro, 1966
João Cutileiro, Guerreiro com Caveira de Touro, 1963
Cortesia do cvc

A década de 60 é referida por alguma historiografia como um período de ruptura. É por certo um momento de mudança. Trata-se de uma mudança acompanhada de continuidades mas é, ainda assim, o momento em que os artistas portugueses conseguem, em tempo certo e alinhado com as linguagens internacionais, introduzir pesquisas e formulações estéticas que, ao germinarem, resultariam em trabalhos amadurecidos e percursos individuais amplamente reconhecidos. Desenham-se e projectam-se nestes anos uma série de carreiras de artistas, muitos deles ainda activos, que viriam a assumir lugar de destaque no panorama da arte portuguesa contemporânea». In Alexandre Melo, Centro Virtual Camões.

Cortesia de CVirtual Camões/JDACT

Arte e Artistas em Portugal. Parte Ib. Os Anos 60. «Paula Rego, partindo das figurações brutalistas da década de 50, foi revolucionando métodos e processos até chegar a uma pintura de ressonância mais clássica em que afirma e reforça um grande poder autoral»

Paula Rego, Salazar a Vomitar Portugal, 1960
Cortesia do cvc

O Centro Virtual Camões apresenta a base temática Arte e Artistas em Portugal
Art and Artists in Portugal, uma adaptação Web da obra bilingue homónima com coordenação de Alexandre Melo, lançada pelo Instituto Camões no âmbito da Presidência portuguesa do Conselho da União Europeia em 2007. Esta base temática apresenta uma panorâmica abrangente sobre as artes plásticas em Portugal, desde os anos 60 do Século XX até à actualidade, fornecendo ainda informação biográfica sobre alguns dos autores mais relevantes.

Os Anos 60
«Durante a primeira metade da década apenas a Galeria do Diário de Notícias (Lisboa), a Divulgação (Lisboa e Porto, dirigida por Fernando Pernes), ou ainda na cidade do Porto a Alvarez e a associação de artistas Árvore tinham, timidamente, dado os primeiros passos no comércio de artes plásticas. Só em 1964, com a experiência das galerias-livraria, como a Buchholz e a Galeria III, e depois com o aparecimento de novas galerias já na viragem da década, o novo mercado de arte viria dar um incentivo à prática artística.
Seria, no entanto, necessário esperar pelo regime democrático para romper com uma situação que há muito se mostrava insustentável, mas cuja transformação mais profunda, anunciada pelas rupturas estéticas de muitos artistas da década de 60, só teria as suas consequências culturais mais efectivas, ultrapassadas as agitações pós-revolucionárias, no início dos anos 80.
Apresentando agora um panorama descritivo da produção artística mais assinalável neste período, comecemos por referir, seguindo uma simples ordem cronológica, um conjunto de artistas situáveis no âmbito da pintura e da figuração, embora com trajectórias e opções bem diferenciadas. Joaquim Rodrigo, tendo iniciado a sua carreira no pós-guerra no âmbito do abstraccionismo, elaborou na década de 60 um código sistemático de signos e regras de representação pictórica que não mais abandonou. António Dacosta, surrealista histórico, tendo deixado de pintar nos anos 40, voltaria à actividade na década de 80, com um assinalável cunho de originalidade. Júlio Pomar iniciando a sua carreira nos anos 50, no âmbito do neo-realismo, foi desenvolvendo diferentes modos de trabalhar a figura, o corpo e o movimento no âmbito da pintura. Menez, a partir de paisagens abstractas dos anos 60 aproximou-se depois de uma figuração mítica e narrativa. Paula Rego, partindo das figurações brutalistas da década de 50, foi revolucionando métodos e processos até chegar a uma pintura de ressonância mais clássica em que afirma e reforça um grande poder autoral que lhe trouxe uma plena consagração.

Maria Helena V. Silva, Les Degrés, 1964
Cortesia do cvc

Um outro conjunto de artistas, cuja afirmação pública data do final dos anos 60, caminhou para uma abordagem da pintura a partir de uma análise dos seus elementos formais e estruturais constitutivos. É o caso de Ângelo de Sousa, António Sena, Jorge Martins, João Vieira ou Manuel Baptista. Em causa estão questões como o plano, a luz, a cor, o signo, o risco. Jorge Martins inicia uma investigação sobre a luz e sobre a própria pintura, criando grelhas e pequenos compartimentos onde insere histórias, personagens e objectos, que alterna com a representação de volumes e dobras e com referências ao universo cinematográfico. Manuel Baptista, na sequência de pinturas abstractas de cariz informalista, utiliza diversas técnicas, desde a colagem, relevos e pinturas-objecto de meados dos anos 60 até ao uso da monocromia e das telas recortadas. É neste período que João Vieira descobre a temática central de toda a sua obra: o alfabeto e a plasticidade da palavra, tanto na pintura como em instalações ou performances, com letras-objecto, introduzindo em Portugal os primeiros "happenings", resultado do contacto com Vostell na Malpartida de Cáceres.
Estes trabalhos prolongam-se numa via mais intelectualizada e conceptualizante, por exemplo, em Fernando Calhau, Pires Vieira ou, numa primeira fase da sua carreira, Michael Biberstein. Numa via de confluência com a prática da escrita e a referência à literatura desenha-se o peculiar percurso de Álvaro Lapa.

Lourdes Castro, Caixa de alumínio em caixa de aguarela, 1963
Cortesia do cvc

António Areal é figura de referência na história da arte portuguesa deste período, não só pela sua obra pictórica e escultórica, mas também pela reflexão teórica expressa em publicações como Textos de crítica e de combate na vanguarda das artes visuais (1970). Após uma fase inicial surrealista e gestualista, abordou a relação entre arte figurativa e arte abstracta em pinturas e objectos marcados por preocupações de ordem conceptual. Joaquim Bravo, com formação literária, tal como Álvaro Lapa e António Areal, estende a sua actividade artística à pintura, escultura e desenho, produzindo, nos anos 60, uma assinalável série de esculturas. Um filão reportável ao ambiente pop, entendido em sentido lato - incluindo o "nouveau réalisme" e a "figuração narrativa" - permite-nos citar em conjunto os trabalhos realizados em finais de 60 e começos de 70 por autores como Lourdes Castro, René Bertholo, Costa Pinheiro, António Palolo ou Eduardo Batarda, que depois evoluíram em direcções bem diferenciadas. Lourdes Castro, René Bertholo, Costa Pinheiro, Escada e João Vieira, em conjunto com Christo e Jan Voss, formaram, em Paris, o grupo KWY (Ka Vamos Yndo) e lançaram uma revista homónima, cujas soluções estéticas foram apresentadas numa exposição colectiva na Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1960.
Ainda nesta linha pop podemos enquadrar a obra de Ruy Leitão, geralmente sobre papel, de cores vivas, com repetições de elementos, originando um rico e pessoal universo pictórico, que seria interrompido pela sua precoce morte em 1976. António Charrua, após uma fase de tendência expressionista, opta pela associação da cor e formas abstractas». In Alexandre Melo, Centro Virtual Camões.

Cortesia de CVirtual Camões/JDACT

Arte e Artistas em Portugal. Parte Ia. Os Anos 60. «Salvo momentos de excepção limitados no tempo, foi um período em que predominou uma atitude oficial de isolamento em relação às correntes que, a nível internacional, iam fazendo a história da modernidade»

Lourdes de Castro, Sombras, 1964
Cortesia do cvc

O Centro Virtual Camões apresenta a base temática Arte e Artistas em Portugal
Art and Artists in Portugal, uma adaptação Web da obra bilingue homónima com coordenação de Alexandre Melo, lançada pelo Instituto Camões no âmbito da Presidência portuguesa do Conselho da União Europeia em 2007. Esta base temática apresenta uma panorâmica abrangente sobre as artes plásticas em Portugal, desde os anos 60 do Século XX até à actualidade, fornecendo ainda informação biográfica sobre alguns dos autores mais relevantes.

Os Anos 60
«A ditadura protagonizada por Salazar, quer se considere ou não que foi uma ditadura fascista, foi talvez menos feroz e menos espectacular que as suas congéneres europeias, mas foi também muito mais longa (1926-1974) e não menos castradora em relação a todos os aspectos do desenvolvimento económico, social e cultural de Portugal. Salvo momentos de excepção limitados no tempo, foi um período em que predominou uma atitude oficial de isolamento em relação às correntes que, a nível internacional, iam fazendo a história da modernidade.
Os casos excepcionais dos artistas emigrados ou alguns momentos de ligeira abertura, se pontualmente permitiram uma efectiva actualização e revitalização do meio artístico em sentido estrito, não alteravam um contexto geral caracterizado pelo muito baixo nível de formação escolar da população, a desinformação massiva da opinião pública, o conservadorismo da cultura oficial e o crescente anacronismo cultural da oposição.

Noronha da Costa, s/título, 1968
Cortesia do cvc

No campo das artes plásticas durante toda a primeira metade do século assistimos ao arrastar de um modernismo incipiente em luta constante contra a permanência do naturalismo e do romantismo lírico. O único momento de fulgor deste trajecto ocorre na 2ª década do século, graças à obra de Amadeo de Souza-Cardoso, acompanhado por Almada Negreiros, no quadro das actividades da "geração do Orpheu" e com o impulso proporcionado pela vinda do casal Delaunay para Portugal durante a I Guerra Mundial.
Chegada a década de 60, a sociedade portuguesa, considerada no seu conjunto, mantinha-se afastada dos circuitos internacionais de produção e circulação artística, privada do acesso a exposições e iniciativas susceptíveis de dar à opinião pública uma formação artística básica e de fornecer ao público especializado uma informação actualizada e uma experiência directa da contemporaneidade.
Em termos políticos crescia a desilusão face à continuidade do regime ditatorial, afinal prolongado pelo governo de Marcelo Caetano (1968-1974), e crescia também a revolta perante uma guerra colonial absurda e sem solução que se arrastava desde 1961. Nos sectores culturais, nos meios estudantis e entre a juventude aumentava a frustração e alastrava a contestação face à situação de alheamento que o Estado mantinha em relação às grandes viragens sociais e culturais que internacionalmente marcaram a década.

Fernando Lanhas, 1969
Cortesia do cvc

A ascensão e morte de Kennedy, as batalhas políticas e ideológicas do Vietname, a invasão da Checoslováquia pelas tropas soviéticas, os hippies, a revolução pop ou o Maio de 68 chegam a Portugal através de ecos censurados e distorcidos só entendidos por minúsculas elites culturais urbanas.
Nas artes plásticas os anos 60 são um período de experimentação e de confluência de vários movimentos e correntes estéticas, nomeadamente a pop art e o "nouveau réalisme", a op art, o minimalismo, a arte conceptual, a arte povera, a arte vídeo, a performance, a body art ou a land art. É também a década em que morre Marcel Duchamp (1968).
No contexto artístico português a década de 50 tinha sido um período de continuidade das soluções estéticas anteriores, centradas na persistente dialéctica figuração/abstracção, cujos protagonistas se dividiam, grosso modo, entre neo-realistas, surrealistas e defensores do abstraccionismo.
Neste contexto a obra de Maria Helena Vieira da Silva, combinação original de figuração e abstracção, com um forte cunho pessoal, emerge como a expressão maior deste período com significativos prolongamentos nas décadas seguintes.
Nos anos 60 vamos assistir à formação de uma nova conjuntura artística, marcada pela emergência de uma nova geração de artistas e agentes culturais e à afirmação de novas tendências na produção artística nacional que reflectem a necessidade de sintonização com as linguagens internacionais, em grande parte devido à emigração de um vasto número de artistas num movimento que se prolonga até meados dos anos 70.

Menez, Henrique VIII, 1966
Cortesia do cvc

Abandonar o país, de forma temporária ou permanente, em consonância com o massivo fluxo de emigração registado durante este período, foi a opção tomada por diversos artistas, quer por razões políticas quer motivados pela busca de uma carreira ou de contacto com novas tendências inacessíveis dentro das fronteiras nacionais. A título de exemplo, refira-se que por Inglaterra passaram António Areal, Rolando Sá Nogueira, Mário Cesariny, Menez, Paula Rego, João Cutileiro, Bartolomeu Cid dos Santos, Ângelo de Sousa, Alberto Carneiro, Eduardo Batarda, António Sena, João Vieira, Ruy Leitão, João Penalva e Graça Pereira Coutinho. Já em Paris encontravam-se Lourdes Castro, René Bertholo, Costa Pinheiro, Escada e João Vieira, que compunham o grupo KWY, assim como António Dacosta, Júlio Pomar, Jorge Martins e Manuel Baptista.
O esforço de renovação abriu caminho a uma aproximação à arte internacional, em grande parte devido aos artistas que emigravam e ao programa de bolsas da recém-criada Fundação Calouste Gulbenkian, mas também devido ao novo modo de encarar o fenómeno artístico, às grandes exposições colectivas (a inaugurar a década, em 1961, a II Exposição de Artes Plásticas na Fundação Gulbenkian) e à abertura de novas galerias que vieram dinamizar o mercado nacional». In Alexandre Melo, Centro Virtual Camões.

Cortesia de CVirtual Camões/JDACT