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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O Têpluquê. Outras Histórias. Manuel A Pina. «Eu canto para ti um mês de giestas um mês de morte e crescimento ó meu amigo como um cristal partindo-se plangente no fundo da memória perturbada. Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa e um coração poisado sobre a tua ausência […] os mortos amados batem à porta do poema»

BárbaraAssisPacheco
jdact

A Revolução das Letras. A ordem alfabética (Tanto Fazia…)
«(…) Desde pequenas que ensinavam às letras a Ordem Alfabética. Quando elas perguntavam às letras grandes porque é que os ás haviam de ser sempre os primeiros e os zês sempre os últimos, e não outros (por exemplo, os pês os primeiros e os tês os últimos, ou os ésses, ou os jotas, ou outros quaisquer), as letras grandes diziam-lhes que tanto fazia. Na verdade, tanto fazia. Mas o facto é que os ás é que eram sempre os primeiros e os zês sempre os últimos…

As Contas das Letras
Mas havia mais: havia duas espécies de letras, as vogais por um lado, que eram só cinco, e as consoantes, a chamada esmagadora maioria, do outro lado. As privilegiadas eram as vogais. Na palavra privilegiado: por exemplo (isto eram as contas que as letras faziam), só os is apareciam três vezes e o a uma e o e e o o também uma cada um; e embora a palavra privilegiado tivesse na sua Constituição seis vogais e outras seis consoantes, das vogais só ficava de fora o u (uma semivogal!), ao passo que das consoantes ficavam de fora, ao todo, 13! Já na palavra trabalhar era o contrário; havia seis consoantes e só uma vogal, o a, que andava de uma sílaba para a outra para parecer que havia lá, muitas vogais a trabalhar...

O SCRTRD
A certa altura, com o auxílio dos amigos números, todas as letras começaram a fazer destas contas à vida delas. As vogais podiam entrar em toda a parte, quer dizer, em todas as palavras, e até tinham palavras só para elas, e as consoantes não; algumas consoantes, praticamente, nem entravam em palavras nenhumas, como o xis ou o quê. (E com as palavras sucedia o mesmo, porque havia palavras que nem sequer havia, como a palavra migol ou a palavra epipabaquígrafo, e outras que só havia lá fora, no estrangeiro, como a palavra pouce ou as palavras Winston Churchill). A televisão e os jornais começaram a fazer reportagens e a ouvir as queixas das letras. Ao mesmo tempo, as consoantes começaram a organizar-se, constituindo-se em scrtrd, que é um secretariado só constituído por consoantes. Os jornais descobriram dramas terríveis em algumas frases. Numa frase havia um cê de cedilha e um muito amigos e que não podiam encontrar-se para conversar senão às escondidas, porque se metia sempre uma vogal no meio deles, como, por exemplo, o i, que se metia sempre no meio deles na palavra metediço. (Por causa do formato de pau do i e da pintinha de cabelo em cima e por se estar sempre a meter no meio tinham posto ao i a alcunha de pau de cabeleira!). Aliás, as vogais tinham tanto medo das consoantes, que eram muitas mais, que só muito raramente as deixavam andar juntas, e só às de mais confiança como o agá, que era meio vogal...»


In Manuel António Pina, O Têpluquê e Outras Histórias, Ilustrações de Bárbara Assis Pacheco, Assírio e Alvim, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-37-1157-8.

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT

terça-feira, 19 de abril de 2011

Páginas Desconhecidas: A Poesia revolucionária e A Morte de D. João. «O D. João de Byron é o monumento literário mais característico da época, e a Morte de D. João está para ele como a obra prima de Cervantes está para os Amadis... E, como verdade fria dessa época de grandes ilusões, restam-nos duas figuras, dois únicos homens que dominaram a situação...»

jdact
«Já passou o tempo em que a vertigem do heroísmo inchava os homens como na fábula da rã e do boi. Os gigantes-pigmeus do princípio deste século viram-se ainda em vida reduzidos às proporções mesquinhas dos mortais. Um pseudo-Prometheu carpia em Santa-Helena; Chateaubriand, o Juliano-apóstata do catolicismo, despia o manto nas Memórias; os Rolandos do Império humilhavam-se perante o obeso Luís, 18 de nome; o grande eu heróico de Fichte e de Schiller aparecia em Waterloo com Blúcher e depois em Paris, a dar uma amostra dos prussianos de 1870. E, como verdade fria dessa época de grandes ilusões, restam-nos duas figuras, dois únicos homens que dominaram a situação, Metternich, um imbecil, e Talleyrand, um maroto.

Cortesia de auladeliteraturaportuguesa
Quem forjava os heróis da tragi-comédia era uma literatura doente e uma filosofia insensata. O espírito humano, comovido pelo drama colossal de1793, abandonara momentaneamente as suas gloriosas tradições: fulminava o século XVIII e o seu espírito científico, esquecera Montesquieu e Gibbon, não sabia da existência de Vico, e tinha horror a Locke e a Diderot. Nem Lamarck, sucessor de Buffon e verdadeiro precursor do transformismo, nem Goethe e a escola naturalista da Alemanha, podiam achar graça perante os visionários.

Byron
Cortesia de carloscosta
Napoleão, comandando batalhas com o Ossian-Macpherson no bolso, dá uma ideia exacta desta face do tempo dos nossos pais. Byron, o autor do D. João, o escandaloso demónio que feriu na face o pudor das fêmeas inglesas, alistando-se entre os libertadores da Grécia, morrendo mesmo em Missolonghi, dá outro aspecto da época:
  • «o homem apaixonado e indómito, conforme o entrevira Rousseau e Fichte o pregava»
In J. Oliveira Martins, Artes e Letras, nº 3, 3ª Série, Lisboa, 1874.

Cortesia de Seara Nova/Oliveira Martins/JDACT

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Pablo Picasso: «A qualidade de um pintor depende da quantidade de passado que traz consigo. Não se pode criar nada sem a solidão»

(1881-1973)
Málaga
Cortesia de nomundodagema

Pablo Picasso destacou-se em diversas áreas das artes plásticas:
  • pintura,
  • escultura,
  • artes gráficas
  • cerâmica.
Picasso é considerado um dos mais importantes artistas plásticos do século XX.
Fez os seus estudos na cidade de Barcelona, porém,  trabalhou principalmente em França. As suas obras podem ser divididas em várias fases, de acordo com a valorização de certas cores.
  • A fase Azul (1901-1904) foi o período onde predominou os tons de azul. Nesta fase, o artista dá uma atenção toda especial aos elementos marginalizados pela sociedade.
  • A Fase Rosa (1905-1907), predomina as cores rosa e vermelho, e as obras ganham uma conotação lírica.
  • O cubismo, por influência de Cézanne. O marco inicial deste período é a obra Les Demoiselles d'Avignon (1907) , cuja característica principal é a decomposição da realidade humana.

No auge, 1937, da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), pinta o seu mural
  • Guernica. Esta obra já pertence ao expressionismo e mostra a violência e o massacre sofridos pela população da cidade de Guernica.
Na década de 1960, começa a pintar obras de artes de outros artistas conhecidos:
  • O Almoço Sobre a Relva de Manet,
  • As Meninas do artista plástico Velázquez, são exemplos deste período.

Já com 87 anos, Picasso realiza diversas gravuras, retomando aos momentos da juventude. Nesta última fase, aborda as seguintes temáticas:
  • a alegria do circo,
  • o teatro,
  • as tradicionais touradas,
  • passagens marcadas pelo erotismo.
Morre aos 91 anos de idade.

Cortesia de Pesquisa e You Tube/JDACT

domingo, 13 de março de 2011

Páginas Desconhecidas: A Poesia revolucionária e A Morte de D. João. «Os artistas vão na frente enchendo o ar com suas músicas... incitam, preparam, decidem o caminhar ondulado da massa de homens que progride na larga via da História»

Cortesia de alfarrabiodiuminho

«Em 1865  saíram à luz em Coimbra as Odes modernas, de Antero de Quental. Esse livro, além do seu valor intrínseco, possue para o caso de que nos ocupamos o valor especial de ter sido o iniciador do género de poesia de que o volume de Junqueiro nos dá hoje um exemplar esplêndido.
Na nota que Quental juntou aos seu poemas lê-se:
  • A poesia moderna é a voz da Revolução, porque a Revolução é o nome que o sacerdote da História, o Tempo, deixou cair sobre a fonte fatídica do nosso século. Como do seu Deus dizia o apóstolo antigo, in eo vivimus et sumus, podemos nós com razão ainda maior afirmar do grande espírito de revolta da nossa idade. Nele e por ele é que somos, por ele e nele é que vivemos. O ar que a nossa sociedade respira, a atmosfera turva e agitada, mas vivificante, em que vai penetrando dia a dia, não é já composta, não, de boas e pacíficas crenças velhas, de resignação, de obediência, de fé sublime... e cega. Outro é o ar! Abrem-se os olhos para ler as contradições dos santos, dos venerandos, dos excelentes livros antigos. Estendem-se as mãos para palpar, sob os vestidos de brocados dos bons ídolos doutrora, o pau de que eram feitos... e o ferro também muitas vezes.
Desde que a Europa ouviu pela primeira vez nas modernas idades proclamar o princípio da Justiça como fonte do direito e da moral, desde o aparecimento do grande livro De juri pacis ac belli, nunca mais a Revolução deixou de presidir aos destinos das nações europeias. Nela viveram e foram. Nela vivem e são. As transformações religiosas, a evolução filosófica, as revoluções sociais e políticas, o progresso das ciências, são as lages da grande via, estrada amplíssima que há 3 séculos os povos europeus seguem pisando em procissão épica.

Cortesia de flickr
Os artistas vão na frente enchendo o ar com suas músicas; e é segundo o ritmo afinado pelo diapasão do grande todo que marcha, é a compasso medido pelo andar do exército divino, é recebendo dos que os seguem a inspiração de que vivem, troando e gemendo, os risos de envolta com as lágrimas, pedindo à alma humana o seu segredo, e aos homens a sua ideia; é assim que os artistas, precursores inconscientes que sentem o que não lhes é dado definir, incitam, preparam, decidem o caminhar ondulado da massa de homens que progride na larga via da História.
A Morte de D. João é o livro de um artista na rigorosa e mais bela acepção da palavra. É-o também de um poeta. Poeta é aquele que adivinha; a poesia é uma religião, ou antes uma metafísica concebida religiosa, imaginativa, não racionalmente. Artista é o que possue o dom de sentir o lado belo das cousas e de as referir com as palavras, notas, cores ou formas, mais adequadas para nos transmitir a energia das suas impressões.
O autor da Morte de D. João é mais artista do que poeta.

Cortesia de auladeliteraturaportuguesa 
Qual é o princípio que domina o Universo? pergunta o poeta; A Justiça.
Tal resposta, dá à obra os foros de objecto vivo, são e forte, auroriza a crítica a estudá-la, e manda a todos os que amamos este mundo em que vivemos, a todos os que cremos em suas obras, a todos os que esperamos para os homens um provir de grandeza e de virtude igual ao passado enorme de sombras e de angústias, manda que nos demoremos aqui, à sombra perfumada de uma belíssima florescência artística, a medir este novo marco da estrada da Revolução.
A semente lançada à terra da poesia nacional, vai em 10 anos, produziu agora o seu mais belo fruto». In Artes e Letras, nº 3, 3ª Série, Lisboa, 1874.

Cortesia de Seara Nova/Oliveira Martins/JDACT